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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(334) Eu e a minha Réplica

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

O teletransporte de seres humanos é um meio mais rápido de viajar?

 

Pode a individualidade (identidade) ser possível de ser programada como se fosse um bife?

 

Se uma pessoa tiver uma continuidade psicológica comigo tal como eu sou agora, e se essa continuidade tiver por base um mesmo cérebro, então essa pessoa serei eu.

 

Se alguém acordar um dia mais tarde com a minha cabeça, e for psicologicamente como eu, o facto de essa pessoa não ser eu não terá qualquer efeito prático ou moral para mim.

 

 

 

 

Quando abordei o teletransporte de humanos (18de setembro de 2019, Beam me up!), fi-lo mais com a intenção de mostrar que tal só seria possível de realizar se considerássemos que todos os seres vivos, neste caso os seres humanos, pudessem, na sua totalidade e singularidade, serem traduzíveis (reduzíveis) a um padrão de informação, por uma expressão matemática.

O teletransporte de humanos assenta no pretenso facto de nos terem feito acreditar que o cérebro tem uma atuação lógica, como tal possível de ser ‘descoberta’, reproduzida e melhorada. A tal ‘ilusão’ de uma Inteligência Artificial igual e melhor que o cérebro e que, fatalmente, acabará por conduzir a um cérebro reduzido a “pensar” como a IA. Tudo então poderá ser matematizável.

Tentava assim chamar a atenção para aqueles que pretendem que nos fixemos apenas na parte do conhecimento matemático das coisas, por isso lhes permitir avançar mais rapidamente para o que lhes possa propiciar mais e maiores lucros, ou para a realização de objetivos pessoais egoístas.

 

Evidentemente, não se culpe a matemática. Por si, a matemática desenvolve uma forma de linguagem e pensamento que serve de base para as ciências naturais e tecnológicas.

A matemática é uma das formas que temos para tentar entender o mundo, o que não significa que o mundo seja uma construção matemática que exista fora de nós e a que só alguns privilegiados têm acesso.

 

 

Deixei, contudo, de fora, o principal problema que o teletransporte de seres humanos coloca, o da identidade pessoal.

 

Vejamos na prática (se, e quando for possível) como seria o processo do meu teletransporte para Marte. Premindo um botão, a máquina destruía o meu corpo, enquanto procedia à exata gravação de todos os estados de todas as minhas células. Esta informação seria enviada para Marte por um sinal de rádio, onde uma outra máquina faria, a partir de materiais orgânicos, uma cópia perfeita do meu corpo. A pessoa que acordasse em Marte parece que se recordaria de toda a minha vida vivida até ao momento em que premira o interruptor, e era em todos os parâmetros, igual a mim.

Perante este “simples” processo, surgem logo duas interpretações diferenciadas: uma, vê isto apenas como uma maneira mais rápida de viajar. Outra, entende que isto é um erro, porquanto a pessoa que acorda em Marte é apenas uma réplica de mim, porquanto eu teria deixado de existir:

 

Se a consciência (o que quer que seja) fosse possível de ser ‘scaneada (neste caso, talvez ‘sacaneada’ fosse o mais correto), destruída (porque neste processo há sempre um instante em que desaparecemos, ou seja, em que nos encontramos mortos) e depois reproduzida como se tratasse de um mero e inanimado bife, então a individualidade (identidade) seria também possível de ser programada, deixando, portanto, por definição, de ser individualidade.”

 

Estas duas interpretações expressam o desacordo sobre o que é a identidade pessoal, que só poderá ser resolvido (as boas intenções) pelo estabelecimento de um critério sobre o que é a identidade pessoal ao longo do tempo, ou seja, o que faz com que uma pessoa num determinado tempo seja a mesma pessoa noutro tempo.

Para uns, o que nos define, a nossa parte essencial, é uma alma: uma entidade imaterial persistente, indivisível, de existência continuada.

Para outros, uma pessoa é definida como “um ser inteligente pensante que tem raciocínio e reflexão e que pode ver-se a si mesmo como sendo si mesmo, a mesma coisa pensante em diferentes tempos e locais” (John Locke, Essay Concerning Human Understanding, Livro II, capítulo XXVI, Secção 9), critério que se baseia numa espécie de continuidade psicológica.

 

Este critério levanta alguns problemas: se as pessoas são entidades que podem pensar sobre elas próprias, e cuja existência continuada implica essencialmente uma continuidade psicológica, então um embrião humano ou feto, não é uma pessoa.

E, contudo, o feto é um “animal humano”, um corpo animal que posteriormente virá a ser um corpo de pessoa.

Esta distinção entre “pessoa” e “animal humano”, conduz ao que chamado Problema dos Muitos Pensadores (a “pessoa” tem alguns pensamentos, mas o “animal humano” também tem alguns pensamentos, pelo que um pensamento tem dois diferentes pensadores) e que pode levar à conclusão absurda de poder haver duas vidas no mesmo ser.

 

Por sua vez, tal conduz a um Problema Epistémico: se há duas consciências, a da pessoa e do animal, a pensarem todos os meus pensamentos, como é que eu posso saber qual deles sou eu?

 

Outro problema é posto por aqueles que acreditam que nós continuamos a existir se e apenas enquanto o nosso corpo continuar a existir, portanto enquanto formos corpo do animal vivo. O que nos leva ao Problema da Cabeça Transplantada: se o meu corpo morrer, a minha cabeça pode ser transplantada para outro corpo que tenha ficado sem cabeça, pelo que o outro corpo pode acordar com a minha cabeça, sendo psicologicamente como eu, acreditando que sou eu.

Ou seja, o critério para se aceitar tal experiência continua a ser baseado na continuidade psicológica do cérebro.

 

Aqui, devemos distinguir entre o cerebrum (telencéfalo), parte superior da qual depende toda a nossa atividade mental distinta, e a outra parte (tronco encefálico) que controla o funcionamento do coração, pulmões, e da maior parte dos outros órgãos, que permite que nós como animal humano continuemos a existir num estado vegetativo inconsciente, ou coma.

O que nos remete para o caso da Cabeça Sobrevivente, em que a minha cabeça e cerebrum não foram unidas ao tronco encefálico e ao corpo de outra pessoa, mas que são mantidos vivos e a funcionar ligados a um sistema artificial de suporte de vida.

Neste caso estamos perante um ser consciente que seria uma pessoa (psicologicamente continuada), mas que como a sua base de suporte de vida era totalmente artificial, não teria nenhuma parte animal.

 

 O psicólogo William Carter, em “How to Change Your Mind”, põe a seguinte questão:

 

Imaginemos que o cérebro do Presidente Nixon é transplantado para a cabeça vazia (crânio) do Senador McGovern. O espírito de Nixon passa a ser o espírito de McGovern. Então o espírito de Mcgovern passa a lembrar-se como sendo uma pessoa que embarcou num helicóptero depois de se ter demitido como Presidente. E passa também a ter uma certa responsabilidade moral por Nixon ter decidido bombardear o Camboja. Poderá McGovern ser levado a tribunal e responsabilizado pelas ações de Nixon?

 

Isto porque para Carter, as nossas decisões são feitas pelos nossos espíritos. O que leva a quem possa concluir que nós somos apenas cabeça. Cabeças postas em corpos. Para sobrevivermos será suficiente que as nossas cabeças sobrevivam para continuarmos a ser a cabeça de um ser consciente. O corpo abaixo da cabeça não é uma parte essencial.

Recordemos o caso de Nancy Cruzan, cujo cerebrum deixou de funcionar, mas em que q parte inferior do cérebro manteve o seu corpo num estado vegetativo durante sete anos, até que o Supremo Tribunal dos EUA autorizou os pais a poderem desligar o tubo de alimentação artificial. Na pedra tumular, os pais escreveram:

 

Deixou-nos a 11 de janeiro de 1983. Ficou em paz a 26 de dezembro de 1990”.

 

Voltemos agora ao caso com que iniciámos este artigo: o do teletransporte e do problema da identidade pessoal. Depois de todas as complicadas hipóteses acima levantadas, devemos notar que na realidade, no caso de virmos a ser destruídos e replicados, aquilo que a Réplica venha a ser não tem para nós qualquer importância, porque nós não vamos voltar a acordar de novo. Não vale a pena, portanto, a preocupação.

O mesmo se passa quando estivermos para perder a consciência, por uma anestesia ou outra razão: não vale a pena termos a preocupação de sabermos se vamos ou não voltar a acordar. As preocupações para com esse futuro não têm qualquer razão de ser, pelo simples facto que isso será o nosso futuro. O mesmo se passa com a preocupação respeitante à morte.

 

Ou seja, a identidade pessoal não é assim tão profunda, importante e simples, como vulgarmente se pensa. Se alguém acordar um dia mais tarde com a minha cabeça, e for psicologicamente como eu, o facto de essa pessoa não ser eu não terá qualquer efeito prático ou moral para mim.

 

Quando Descartes perguntou o que é que ele podia com toda a certeza saber:

 

Eu penso, logo existo

 

O que Descartes concluiu foi que podia saber que ele era uma substância imaterial pensante. O que o seu Cogito deixou em aberto foi que qualquer pensamento devia ter um pensador.

E parece-me que não adiantámos muito, de então para cá.

 

Estes breves e básicos apontamentos aqui deixados têm como base um excelente artigo de Derek Parfit, publicado na Cambridge University Press, intitulado “We Are Not Human Beings (Nós não somos seres humanos).

 

 

 

 

 

(333) Tudo pode acontecer, mas também pode não acontecer.

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Está tudo em aberto: o mundo como probabilidade emergente.

 

Para se saber tudo o que se passa, para se saber o que se passará quando tudo já se tiver passado se tudo se vier a passar, será necessária uma listagem exaustiva de todas as alterações ocorridas, originando como que uma nova enciclopédia de todo o saber?

 

O que a ciência faz é estudar esquemas de recorrência, ou seja, ciclos de fenómenos que se repetem, nem sempre da mesma maneira, mas que têm estrutura constante, e que por isso podem ser descritas por leis matemáticas ou leis psicológicas.

 

“Cosmópole”, como comunidade de pessoas que partilham uma perspetiva universal por meio da filosofia.

 

 

 

 

Nunca como agora tantas alterações se verificaram e projetaram a um ritmo também jamais visto. Seja qual for o campo do conhecimento, da informática com as suas capacidades quase infinitas de aplicação das comunicações em tempo real aos processos de miniaturização permitindo as nanotecnologias na biomedicina e utilização de componentes bio mecânicos ( são de homem, animal ou planta, ou são qualquer outra nova espécie?), da economia que tem crescimentos exponenciais permitindo antever uma época de ócio permanente rapidamente transformada em época permanente de desemprego mas em que a economia independentemente das pessoas cresce, mas só para alguns,  dos movimentos migratórios e formação de novos países e desaparecimento de outros, de vulgarização de estados de exceção que acabam por se tornarem norma numa apesar de tudo pálida recordação do já visto mas que sem o avivar da memória passará  de novo a um quotidiano, com a fragmentação desfragmentação das artes, enfim, com os avanços até no campo da filosofia na sua tentativa de identificação do tempo que passa, sem contudo, até talvez porque o tempo passe demasiado depressa ou porque o ponto de vista  ou a mira estejam errados, conseguirem uma visão global compreensiva.

 

Perante a enormidade que estas questões colocam, há quem defenda que para se saber  tudo o que se passa, para se saber o que se passará quando tudo já se tiver passado, se tudo se vier a passar, será necessária uma listagem exaustiva de todas as alterações, originando como que uma nova enciclopédia de todo o saber.

 

Bernard Lonergan, vai tentar outra aproximação, ao concluir que não é só disso que se trata, mas sim de “oferecer esperança e orientação a populações alienadas por grandes instituições com gestão burocrática”.

 

Partindo do princípio que não há separação radical entre as ciências exatas e as humanidades, que antes formam um continuum, no qual a ciência aparece recortando a realidade (apresenta a estrutura da ciência como as lâminas de uma tesoura, cortando as generalidades indeterminadas  e os dados ainda por verificar), vem dizer-nos que o que a ciência faz é estudar esquemas de recorrência, ou seja, ciclos de fenómenos que se repetem nem sempre da mesma maneira mas que têm estrutura constante, e que por isso podem ser descritas por leis matemáticas ou leis psicológicas.

 

Até ao início do século XX, a ciência preocupava-se com a generalidade. A partir daí, passou a ocupar-se com as ocorrências, ou seja, com o grau de probabilidade da ocorrência do fenómeno. O que o leva à importante conclusão que o “mundo é a probabilidade emergente”.

Está, pois, tudo em aberto. Tudo pode acontecer, mas também pode não acontecer.

 

Como resposta teórica a este problema prático do declínio social, B. Lonergan vai propor a criação de uma comunidade de pessoas que partilham de uma perspetiva universal por meio da filosofia, a “cosmópole”.

 

Não é um lugar definido no espaço, é o que existe na inteligência humana para ser conhecido quando alguém o compreende. A força que a cosmópole tem não lhe advém de uma força policial, mas sim do nível considerável de consenso de um grupo preponderante de homens.

Não se trata de utilizar algumas ideias para justificar o uso da força a favor de uns, para logo de seguida justificar o uso da força a favor de outros. É exatamente para impedir estas práticas, que a cosmópole se levanta, combatendo a “tirania dos factos”, nomeadamente as ideologias, conducentes ao pensamento único e a irracionalidades, e o cientismo como última das superstições.

 

 

Esta bem-intencionada ideia de governo ou encaminhamento da sociedade feita por uma comunidade de pessoas que partilham de uma perspetiva universal por meio da filosofia é muito idêntica à que há mais de dois mil anos preconizava Platão n’A República, onde no Livro VI se lê:

 

Uma vez que os filósofos são aqueles que são capazes de apreender o eterno e imutável, e que aqueles que são incapazes disto e se perdem no que é múltiplo e mutável não são filósofos, qual das duas espécies deve ser chefe da Cidade?

 

E mais adiante:

 

“Ora […] não seria a homens assim [por natureza dotado de boa memória, de facilidade de aprender, magnanimidade, graciosidade e amabilidade, amigo e aliado da verdade, da justiça, da coragem e da temperança], aperfeiçoados pela educação e pela maturidade, e só a esses, que gostarias de confiar a Cidade?

 

 

Passados estes tais mais de dois mil anos, os filósofos que encontramos sentaram-se em Yalta, sentam-se nas Nações Unidas, nos conselhos de administração dos principais bancos e empresas (incluindo as militares), e nas altas câmaras de enormes partidos políticos.

 

Mas convenhamos também que Platão não foi bem-sucedido nas suas posições de influenciador político: quando em 381, com quarenta anos, visita a Sicília, torna-se amigo de Díon, cunhado de Dionísio I, o tirano que governava Siracusa. Aparentemente por não se saber calar ou por falar demais, entrou em conflito com Dionísio, que o manda prender, colocando-o num barco espartano destinado a Egina, com ordem para ser vendido como escravo. É comprado por um seu amigo de longa data, Anniceris, que o envia de volta para Atenas.

Em 367, morto Dionísio, volta a Siracusa a convite de Díon para se encarregar da educação de Dionísio II, o Jovem. Mas Dionísio II acaba por afastar Díon, obrigando-o a sair de Siracusa.  Prudentemente, Platão regressa a Atenas.

Em 361, Platão, já com sessenta e um anos, faz nova viagem a Siracusa, desta vez a pedido de Dionísio II, com a finalidade de redigir uma constituição para uma confederação de cidades gregas que se opunham à ameaça de Cartago. Esforço vão, perante a forte oposição que encontra às suas leis, pelo que em 360, regressa finalmente a Atenas, sem conseguir por em prática as suas ideias políticas:

 

A menos que os filósofos se tornem governantes, ou que os governantes estudem filosofia, não haverá nenhum fim para os males dos homens”.

 

Contudo, tem-se vindo a verificar que até agora, os governantes inspirados por ideias filosóficas têm causado muito mais problemas do que os ignorantes em filosofia. Pelo que daqui para a frente todos passam a usar apenas a filosofia (e a ética) instalada nos telemóveis, onde a IA, que dizem que nos governa, irá buscar sempre a que precisar. O futuro garantido como selfie.

 

 

 

 

 

(332) Imersos nas metalinguagens

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

O ‘Metaverso’ como um espaço virtual compartilhado coletivamente, criado através da realidade virtual, da realidade aumentada e da internet.

 

Aquilo que os matemáticos podem provar depende apenas das assunções iniciais de que partirem, e não de qualquer verdade fundamental da qual brotem todas as respostas.

 

Já não sabemos se imitamos o cinema ou é o cinema que nos imita a nós.

 

 Uma vez aceites as bases programáticas da organização corporativa do Estado português de Salazar, todo o conteúdo a partir daí era um conjunto lógico.

 

Entretanto, Branson e Bezos, e compinchas com 400.000 dólares dão saltinhos de 20 segundos no espaço deles.

 

 

 

 

Numa das recentes conversas com jornalistas, Mark Zuckerberg levantou um pouco do véu sobre o futuro que pretende para a sua companhia:

 

Nos próximos anos, espero que as pessoas nos deixem de ver como uma companhia de média social, passando antes a verem-nos como uma companhia do ‘metaverso’.”

 

Foi em 1992 que o novelista americano, Neal Stephenson, ao escrever um dos considerados clássicos da ficção científica, Snow Crash, introduziu o conceito de ‘metaverso’. Segundo ele, tudo começou com uma falha de computador em que o ecrã fica todo branco, com o característico ruído de fundo e com aqueles pontinhos constantes que parecem ser neve a cair (snow crash), e foi isso que o fez entrar naquilo a que chamou de ‘Metaverso’, uma evolução da realidade virtual e sucessor da Internet onde passou a ser possível jogar simultaneamente com uma imensidade de jogadores, por interpostos “avatares” controlados pelos jogadores bem como por “demónios”.

Ou seja, o ‘Metaverso aparece como um espaço virtual coletivo compartilhado, criado através da realidade virtual (RV), da realidade aumentada (RA) e da internet.

 

Etimologicamente, ‘metaverso’ significa algo que está para além (meta) do universo, embora evidentemente esteja assente no único “verso” que se conhece: o universo.

 

 

Por definição, metalinguagem é toda a linguagem que está para além da linguagem em que se apoia ou pretende descrever.

Esta ideia de construir uma linguagem sobre outra linguagem, que aparentemente começou com os silogismos de Aristóteles, foi mais consistentemente levada à prática pelo filósofo-matemático alemão Leibniz, no século XVII, com a sua tentativa de construção de uma ciência do cálculo que se exprimia apenas por sinais, a “characterística universalis”, segundo ele capaz de eliminar os erros e as ambiguidades da linguagem natural.

Posteriormente, já no final do século XIX, o matemático alemão Gottlob Frege (1848-1925), propôs um programa para a redução da matemática à lógica, apresentando simultaneamente uma linguagem totalmente formalizada (“escrita conceptual”) capaz de expressar objetivamente os conteúdos do pensamento.

 Contudo, dada a sua complexidade e dificuldade de leitura, o sistema caiu em desuso. Mas a ideia de reduzir a matemática a conteúdos propriamente lógicos, avançou no século XX com os ingleses Bertrand Russell e A. N. Whitehead, e sobretudo com o italiano Giuseppe Peano (1858-1932).

Construíram então uma nova linguagem matemática tendo por fundamento um conjunto de factos matemáticos básicos, ou axiomas, por forma a ser simultaneamente consistentes – em que o sistema não permite que qualquer afirmação possa ao mesmo tempo ser verdadeira e falsa – e completos – todas as afirmações podem ser provadas como sendo verdadeiras ou falsas -, e que constituiriam fundações sólidas a partir das quais se poderiam construir todas as verdades matemáticas.

 

Acontece que em 1931, um jovem lógico austríaco com 25 anos, Kurt Gödel, numa reunião onde estavam os melhores lógicos e matemáticos da época, apresentou os seus “teoremas sobre a incompletude”, onde demonstrava em apenas onze páginas que quaisquer conjuntos de axiomas que se apresentassem como servindo de base em que se apoiaria a matemática, eram inevitavelmente incompletos; que apareceriam sempre factos verdadeiros acerca de números que não poderiam ser provados por esses axiomas. Mostrou também que nenhum conjunto de axiomas conseguiria provar a sua própria consistência.

Breve: não existem, pois, sistemas completos, pelo que dentro de um sistema as afirmações nunca podem ser provadas como sendo verdadeiras ou falsas.

Isto significava que aquilo que os matemáticos podem provar depende apenas das assunções iniciais de que partirem, e não de qualquer verdade fundamental da qual brotassem todas as respostas. Deixava, pois, de haver uma teoria matemática do todo, não havendo qualquer unificação entre o que é provável e o que é verdade.

 

Dois pequenos exemplos para demonstrar o pensamento e a comoção que Gödel introduziu: de entre os cinco axiomas da geometria euclidiana que se aprende no liceu, existe um que nos diz que “dada uma reta e um ponto que não esteja na reta, só se pode traçar a partir do ponto apenas uma linha reta paralela à reta original”. Acontece que até agora nenhum matemático conseguiu provar que esta afirmação tenha por base qualquer dos outros quatro axiomas, o que faz deste axioma da reta paralela um axioma independente dos outros. Consistência e completude apenas quanto baste.

Na frase “não há prova que esta frase esteja bem escrita”, se existir alguma prova, a frase é falsa ao entrar em contradição, mas, por outro lado se não houver alguma prova que a frase está bem escrita, então trata-se de uma afirmação verdadeira que não se pode demonstrar. , pois, enunciados que damos por verdadeiros que nunca poderemos demonstrar.

 

Acontece que estes teoremas de Gödel não se aplicam apenas à matemática, mas também a outras ciências, como a física tem vindo a comprovar (“Paradox at the heart of mathematics makes physics problema unanswerable”), à política, à história, enfim, à realidade.

 

Quando Gödel consegue escapar em 1940 ao regime nazi, vai fazê-lo pelo caminho mais longo, via transiberiano, pela Rússia e Japão, Pacífico, chegando finalmente à Califórnia onde o esperam Albert Einstein e Oskar Morgenstern (pai da teoria dos jogos).

Para obter a cidadania americana (1948), tinha de responder a perguntas sobre a Constituição, o que segundo os amigos seria apenas um proforma. Mas Gödel empenhou-se no estudo da Constituição, e para grande alarme dos amigos, disse-lhes que ela permitia o aparecimento de um ditador que viesse a impor um regime fascista.

Para descanso dos amigos, o juiz não se interessou o suficiente a ponto de levar Gödel a sobre o assunto, e até hoje desconhecem-se as suas notas sobre a questão do “teorema sobre a não democracia da Constituição”.

 

Na realidade, vivemos hoje imersos em metalinguagens, desde a gramática à semiologia, ao cinema com filmes incidem não só sobre os próprios filmes como sobre o que entendem ser a vida das pessoas e comunidades. Até a própria vida vivida nos aparece como ficção. E assim a vivemos, já não sabendo se imitamos o cinema ou o cinema nos imita a nós.

 

As metalinguagens, expedientes para uma melhor compreensão ou para uma aceleração ou implementação de novos procedimentos, conceptualmente muito idênticas às utilizadas pela ‘indução’ relativamente à ‘dedução’, encerra por isso mesmo vários problemas, pelo que a sua abordagem deverá ser sempre feita cuidadosamente.

Um meu conhecido preparava-se para apresentar um trabalho sobre o aparecimento da ciência, ligando-o à utilização dos algarismos árabes, quando o professor lhe chamou a atenção para o facto da ciência existir já feita com algarismos romanos e outros. Ou seja, o meu conhecido construíra já toda uma credível metalinguagem lógica partindo de uma base errada.

O mesmo se passava com a organização corporativa do Estado português de Salazar: uma vez aceites as bases programáticas de que partia, todo o conteúdo a partir daí era um conjunto lógico.

 

 

Mas vejamos onde Zuckerberg pretende chegar com o seu ‘metaverso’: até ao fim destes anos vinte, o novo FaceBook passará a ser um espaço virtual de encontro a três dimensões, onde através de avatares individuais cada um de nós estará inserido, trabalhando ou vivendo os nossos sonhos, viajando ou não por todo o mundo aí representado, com as companhias que combinarmos e encontrarmos no espaço virtual, melhor do que no espaço real onde normalmente nos movimentamos (sem a sujeira, os incómodos, as dificuldades, etc.)

Ponto de encontro por excelência onde podemos jogar, comprar carros para percorrermos os espaços virtuais à nossa disposição, ou quaisquer outros produtos que aí estejam à venda (colocados ou não por nós), podendo inclusive ir ao ‘nosso’ banco. Evidentemente, a propriedade será sempre privada.

A melhor visualização/explicação sobre esse espaço continua ainda a que se encontra no Matrix- Welcome To The Desert Of The Real.

 

Mas Zuckerberg está especialmente preocupado com a concorrência que pretende ver afastada e com a possível falta de financiamento para a realização do enorme projeto. Interessante a forma como responde à pergunta “Como pensa que o metaverso será governado? Se for por um consórcio de companhias diferentes, quem será responsável pelo estabelecimento dessa política?”:

 

“Bem, acho que haverá várias camadas diferentes de governação. Eu acho que a boa visão para o metaverso não é a de ser de uma empresa específica que o constrói, mas tem antes de ter um sentido de interoperabilidade e portabilidade. Você tem o seu avatar e os seus produtos digitais e deseja teletransportar-se para qualquer lugar. Você não quer ficar preso apenas nas possibilidades oferecidas por uma só empresa. Da nossa parte, por exemplo, estamos a desenvolver headsets Quest para RV, estamos a trabalhar em headsets de RA. Mas o software que criamos, para as pessoas que vão trabalhar ou divertirem-se a assear e a construir esses mundos diferentes, terão de ser compatíveis com quaisquer outros sistemas. Tal como outras empresas constroem plataformas de RV ou RA, o nosso software estará em todos os lugares. Assim como o Facebook ou o Instagram são hoje.

 

Então, acho que será bom que as empresas criem coisas que possam trabalhar umas com as outras ultrapassando as marcas, em vez de apenas ficarem presas a uma plataforma específica. Mas eu acho que, assim como você tem o W3C, que ajuda a definir padrões em torno de vários protocolos importantes da Internet e como as pessoas constroem a web, acho que vai ser necessário acontecer um pouco disso aqui também, para definir como aqueles que desenvolvem e os que criam, possam construir experiências que permitam a alguém pegar no seu avatar e nos seus produtos digitais e nos seus amigos, e ser capaz de se teletransportar perfeitamente entre todas essas experiências diferentes.

Por isso, estamos já a começar a fazer algumas dessas coisas. Temos um consórcio XR com a Microsoft e várias outras empresas que estão também a trabalhar nisso. Mas acho que essa será uma das grandes questões. Não acho que todas as empresas terão exatamente a mesma visão. Acho que alguns terão visões mais isoladas, e eu, pelo menos, acredito que para que isso funcione realmente bem, tudo terá que ser muito portátil e interligado.”

 

 

E à pergunta “Vê algum lugar no metaverso para entidades públicas ou governamentais?”:

 

Eu acho que certamente deveriam de haver espaços públicos. Eu acho que é importante existirem comunidades saudáveis ​​e um ambiente geral saudável. E eu acho que esses espaços poderiam ir de coisas que são construídas ou administradas pelo governo até a organizações sem fins lucrativos, que tecnicamente são privadas, mas que operam no interesse público sem fins lucrativos. Penso em coisas como a Wikipedia, que eu acho ser realmente um bem público, embora seja administrada por uma organização sem fins lucrativos, não um governo. […]

[…] Mas sim, eu acho que há essa questão de longo prazo onde, como sociedade, devemos querer uma quantidade muito grande de capital e ter o nosso pessoal técnico mais talentoso a trabalhar nesses problemas do futuro, para liderar e inovar nesses espaços. E eu acho que provavelmente aí haja há um pouco mais de equilíbrio, onde parte disso poderia vir do governo, mas acho que as start-ups, a comunidade de código aberto e a economia de criação, preencherão também uma grande parte disso.”

 

Podem ouvir aqui a entrevista integral em podcast.

 

 

Nos últimos anos de vida, Gödel recusava-se a comer comida que não fosse preparada pela mulher, com receio de ser envenenado. Falecida a mulher, sobreviveu-lhe poucos meses: morreu de fome, com 29 quilos, em 1978.

Entretanto, Branson e Bezos, e compinchas com 400.000 dólares dão saltinhos de 20 segundos no espaço deles, onde já há quase 64 anos, a 3 de novembro de 1957, muito mais alto e por mais tempo orbitou uma cadela, e onde chimpanzés estiveram para efetuar as missões da NASA (só não as fizeram porque os pilotos se revoltaram, achando indigno serem preteridos por animais inferiores). Deu nisto a revolta.

 

60 anos, a 12 de abril de 1961, Gagarine andou à volta da Terra durante 108 minutos. A NASA e a Agência Espacial Soviética eram empresas do estado.

 

 

 

 

(321) A História encoberta

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

1934: o ano em que a Comissão McCormack-Dickstein do Congresso dos EUA concluiu que a American Liberty League fora a organização responsável pela condução de um golpe para destituir o Presidente Roosevelt e estabelecer uma ditadura fascista, com o apoio de um exército privado de 500.000 ex-militares e outros.

 

Empresas-chave americanas que se encontravam envolvidas na produção de armamentos na Alemanha Nazi:  International Harvester, Ford, General Motors, Standard Oil of New Jersey, Du Pont.

 

Nós necessitamos neste país de um governo Fascista … para salvar a Nação dos Comunistas que querem dar cabo dela e destruir tudo o que temos construído na América, Gerald MacGuire.

 

O fascismo não é um desenvolvimento extremado, limitado no tempo e no espaço, que aconteceu num tempo atrás. O fascismo é extenso, generalizado, e existe em todos os lugares, Vicente Navarro.

 

 

 

Os “ensinamentos da história” são um conceito na maior parte das vezes bem-intencionado e que nos pretende fazer crer que se aprendermos com a história não repetiremos no presente os erros do passado. Infelizmente, como bem observou Marx, a história quando se repete aparece-nos como farsa, seguindo-se depois como tragédia.

A história, já de si instrumentalizada na sua crónica, pode mesmo assim vir a ser duplamente instrumentalizada quando para além disso for propositadamente encoberta. Como vulgarmente tem acontecido. E como é o caso que se relata.

 

Em 1934, a Comissão McCormack-Dickstein do Congresso dos EUA, após algumas semanas de investigação, concluiu que a American Liberty League fora a organização responsável pela condução de um golpe para destituir o Presidente Roosevelt e estabelecer uma ditadura fascista, com o apoio de um exército privado de 500.000 ex-militares e outros.

Muito embora os golpistas tivessem falhado as suas intenções, a Comissão concluiu que:

 

 “Não há qualquer dúvida que essas tentativas foram discutidas, foram planeadas, e poderiam ser postas em execução quando e se os seus apoiantes financeiros entendessem ser chegada a altura.

 

 

Nesses anos trinta, o sistema político-económico vigente sofria das consequências da Grande Depressão de 1929 e da implantação bem sucedida de um estado socialista, a U.R.S.S.. Os movimentos operários e sindicais, o aumento das greves e paralisações, e a crescente implantação de partidos comunistas, iam fazendo inclinar a balança do poder para o lado do trabalho face ao capital. A legitimidade da ideologia capitalista era cada vez mais posta em causa e posta à prova.

 Perante a situação, o grande capital, mormente o industrial, começa a conspirar para fundar o aparecimento de uma revolução que começasse por baixo, pela base, para combater os movimentos operários, destruir as organizações dos partidos comunistas, solução tida como final para a luta de classes em presença. Vai assistir-se ao aparecimento de movimentos fascistas e pró-fascistas que se espalham pela Europa e EUA.

 

Na América, os mais conhecidos desses movimentos são os promovidos pelos Sentinels of the Republic, os Crusaders, a Silver Legion of America, a American Legion, a German American Bund, e os Friends of New Germany.

É assim que a neutral e patriótica American Legion, uma das mais fortes organizações de veteranos de guerra, admirava o fascismo. Pelo que a partir de 1922, passa a convidar regularmente Mussolini para estar presente nas suas convenções. E em 1935, torna-o mesmo membro honorário, explicando Alvin Owsley, um dos seus dirigentes:

 

“A Legião Americana está pronta para proteger as instituições e os ideais do nosso país tal como os Fascistas o fizeram contra os destruidores que ameaçavam a Itália! […] A Legião Americana combate os elementos que ameaçam o nosso governo democrático – soviéticos, anarquistas, trabalhadores internacionalistas (IWW), socialistas revolucionários e quaisquer outros ‘vermelhos’.”

 

 

George Seldes, na sua obra Facts and Fascism, vai tentar mostrar as semelhanças e diferenças existentes entre os movimentos fascistas no resto do mundo e nos Estados Unidos, com base nas lutas desenvolvidas. É nela que vai apesentar a marcha sobre Washington feita em 1932, constituída por 17.000 a 25.000 veteranos de guerra (Bonus Expeditionary Force, BEF, ou ‘Bonus Army’), como o pretexto que fez desencadear o que viria a ser mais tarde a tentativa de tomada de poder pelas forças fascistas.

Tudo começara em 1924, quando o Congresso votara uma compensação monetária por cada dia em que os veteranos da Primeira Grande Guerra tivessem servido, mas que, no entanto, só deveria ser paga a partir de 1945. Só que devido à Grande Recessão, e às condições de pobreza resultantes, os veteranos exigiam que o pagamento fosse feito de imediato, pelo que decidiram marchar e acamparem junto ao Capitólio.

 

As tensões foram-se elevando, levando a uma separação entre os veteranos: dum lado, os elementos que pugnavam por uma completa igualdade de compensação entre todos, negros ou não negros, ou resultantes de qualquer outro tipo de discriminação; doutra parte, os mais conservadores, defensores da hierarquia, que se foram rodeando de membros da polícia, políticos e da imprensa.

Este último grupo, chefiado por Walter Waters, foi tomando decisões sempre em consulta direta com o general Glassford, Superintendente do Departamento de Polícia do Distrito de Columbia. Para eles:

 “a integração de veteranos brancos e negros, era a prova real que os Negros e os Judeus Comunistas estavam a preparar uma revolução”.

 

Um grupo da elite rica oferece assistência financeira a Waters para transformar o seu grupo de veteranos num exército permanente fascista, a ser chamado de “Camisas Caqui” (Khaki Shirts), que se posicionariam “entre a constituição e as forças da anarquia”.

 

Após o Congresso ter recusado as exigências da BEF, o general Glassford e Waters, propuseram aos veteranos o desmantelamento do acampamento e a sua retirada, o que não foi aceite pela larga maioria dos veteranos. O Presidente Hoover decidiu-se então pelo uso da força para esmagar o movimento, afirmando que “era composto grandemente por Comunistas e elementos criminosos”.

A missão foi atribuída ao Chefe do Estado Maior do exército, general Douglas MacArthur, que tinha como adjunto o então jovem Dwight D. Eisenhower, e ao major George S. Patton. Seguiu-se um brutal assalto com baionetas, gás lacrimogénio, e carros de assalto. O acampamento foi queimado.

 

Curiosamente, este uso extremo da violência do estado e o agravamento das condições de vida, acabaram por dar a vitória nas eleições de novembro de 1932 a Franklin D. Roosevelt, e à sua adoção do New Deal na primavera de 1933.

Com o New Deal, Roosevelt conseguiu estabilizar a economia, permitindo ganhos importantes para os trabalhadores ao mesmo tempo que favorecia os interesses dos grandes capitalistas. Por exemplo, recusou sempre pagar os bónus aos veteranos, não promoveu legislação contra o linchamento, e manteve como Chefe do Estado Maior do Exército, o general MacArthur.

Contudo, os movimentos contra o despejo das casas por falta de pagamento, a constituição por todo o país de Comissões de Desemprego, a onda de greves que envolveram mais de um milhão de trabalhadores em várias indústrias, levaram a que parte dos capitalistas com ligações ao fascismo italiano e ao nazismo alemão, chegasse à conclusão que a melhor solução para a crise fosse uma ditadura fascista.

 

A American Liberty League (Liga Americana da Liberdade), formada em 1934, era uma organização política composta maioritariamente por homens de negócio multimilionários e por figuras políticas de nomeada que se opunham ao New Deal. Para além de vários comandantes da Legião Americana, dela faziam parte representantes das famílias mais importantes da classe dominante, como Rockefeller, Du Pont, Morgan, Pew e Mellon.

Muitos dos seus principais diretores pertenciam ao Partido Democrata, que tinham anteriormente apoiado FDR, como Al Smith e John Raskob. Smith, fora Governador de New York e candidato a presidente pelo Partido Democrata em 1928, acabando por perder para FDR. Raskob, era o financeiro-chefe da DuPont e da General Motors, tendo sido entre 1928 e 1932, o presidente do Comité Nacional Democrata.

O Tesoureiro da Liga era Grayson Murphy, que também fazia parte da direção da Anaconda Copper, Goodyear, e da Bethlehem Steel. Tinha sido “condecorado por Mussolini e feito Comandante da Coroa de Itália”, e responsável pela angariação de fundos necessários para a criação da Legião Americana em 1919. Outras figuras incluíam Robert Sterling Clark (herdeiro da fortuna da Singer Sewing Machine), e três membros da família DuPont (Irenee, Lammot e Archibald).

 

Prescott Bush, pai de George H. W. Bush, dadas as boas relações que tinha com o novo governo Nazi da Alemanha, servia como um dos intermediários para as transferências de dinheiro para a Union Banking Cirporation e para a Brown Brothers Harriman, que acabariam na American Liberty League. Segundo os conspiradores, as ligações de Hitler teriam prometido a Bush o fornecimento de material para o golpe.

Também algumas empresas-chave americanas faziam parte destes intercâmbios, mormente através do seu envolvimento na produção de armamentos (carros de assalto, camiões, motores para bombardeiros) na Alemanha: a International Harvester, a Ford, a General Motors, a Standard Oil of new Jersey, a Du Pont.

 

A Liga resolveu enviar para a Europa, Gerald MacGuire, da Murphy, a fim de estudar as várias formas de fascismo por forma a identificar o modelo que melhor pudesse ser aplicável aos EUA. De acordo com Murphy, a ideia de aproveitar os veteranos e o plano de Hitler para o desemprego (campos de trabalho forçado), eram hipóteses a considerar.

Contudo, o modelo preferido seria o da Croix-de-Feu (Cruz-de-Fogo) de França, organização fascista com 500.000 oficiais ao serviço e na reserva. Como cada oficial era o chefe de outros dez, a Croix-de-Feu controlava uma base de 5 milhões de votantes.

Como MacGuire explicava:

 

Nós necessitamos neste país de um governo Fascista … para salvar a Nação dos Comunistas que querem dar cabo dela e destruir tudo o que temos construído na América.”

 

Mas para isso, necessitavam de uma personalidade carismática, um “homem montado num cavalo branco”, como rosto para o movimento popular secretamente fundado. Após várias tentativas, a escolha recaiu no general Smedley Butler.

 

O plano passava por se conseguir verdadeiramente mobilizar os veteranos da guerra para a formação de um exército fascista, por forma a conseguirem pressionar o presidente Roosevelt a aceitar o chefe desse exército (Smedley Butler) como “ministro da administração”. Com o pretexto de que o Presidente estava doente (o que era visível para todos) e necessitava de ajuda, os conspiradores planeavam transformar Roosevelt numa figura meramente simbólica.

Perante a dúvida de Butler sobre como o povo americano iria aceitar a substituição, MacGuire diz-lhe que essa narrativa seria facilmente ultrapassável, porquanto eles controlavam a imprensa:

 

O povo americano engolirá. Nós temos os jornais. Começamos com uma campanha sobre a saúde periclitante do presidente. Basta olharem para ele e todos se aperceberão disso, e os palermas dos americanos acreditarão sem qualquer hesitação”.

 

Quando Roosevelt decide recusar o pagamento das pensões dos veteranos da Guerra, os conspiradores veem a oportunidade para os convencer a aderirem ao movimento. MacGuire confirma a Butler que dispunha já de 3 milhões de dólares para o golpe, e que, se necessário, arranjaria mais 300 milhões, com a finalidade de providenciar pensões para os veteranos.

Butler faz-lhe ver que são precisos muito dólares para isso, ao que MacGuire responde: “Só precisamos de fazer isso durante um ano, depois tudo voltará ao normal”.

 

Entretanto em Washington começam a circular rumores de que a “American Legion estava a providenciar a criação de um núcleo de um exército Fascista para marchar e tomar a Capital”. A Comissão McCoormack-Dickstein, que era a Comissão do Congresso para as Atividades Antiamericanas, propõe-se investigar.

O General Butler, começa a desconfiar que está a ser utilizado, e para ter uma testemunha fiável, leva o jornalista Paul French às reuniões que vai ter com MacGuire, Clark e outros. E decide que o melhor seria tornar público o plano fascista existente para o derrube do governo. É o que faz numa declaração televisiva de 2 minutos que podem ver aqui, (https://www.youtube.com/embed/uo1hp_LMGF8).

 

Muito embora a Comissão de inquérito tenha confirmado a existência de “cinco factos significativos que levavam a considerar válido o testemunho de Butler”, ou seja, a existência de uma conspiração fascista para derrubar o governo, não foram chamados a depor nenhum dos conspiradores (com exceção de MacGuire), nem foram instaurados quaisquer processos aos conspiradores. Podem aqui ler o relatório final da Comissão. O costume.

Comissões de inquérito feitas por membros que pertencem às organizações que pretendem ser inquiridas, ou por empresas “independentes” que são muito bem pagas pelas próprias organizações que encomendam os inquéritos. O costume.

A grande imprensa organizou uma grande campanha de difamação contra Butler, acusando-o de fabricar o testemunho, de querer notoriedade, etc.. O costume.

Em resumo, a conspiração não existia. O costume.

Donde será talvez lícito concluir que os poderes financeiros por detrás da Comissão e da grande imprensa, eram os mesmos que estavam por detrás das organizações fascistas. O costume.

 

 É bom, no entanto, lembrar que, por exemplo, um ano antes, o presidente da Chevrolet, William Knudsen (doara já 10.000 dólares à Liga), fora à Alemanha onde se encontrara com chefes nazis, declarando à sua chegada aos EUA que a Alemanha de Hitler era o milagre de século XX. Ao tempo, a Adam-Opal Co, que pertencia à GM, começara já a produzir carros de assalto nazis, camiões e motores de bombardeiros.

E lembrar que, James Mooney, vice-presidente da GM, juntamente com Henry Ford e Tom Watson da IBM, receberam de Hitler a Grã-Cruz da Águia Alemã pelos “seus consideráveis esforços a favor do Terceiro Reich”.

Lembrar também, que simultaneamente com esta conspiração, outras se desenvolviam (a experiência de preparação de golpes ensinava que não se deviam por todos os ovos no mesmo cesto), como a encabeçada pelo rico financeiro Jackson Martindell e seus parceiros da Wall Street. Também ele se tinha encontrado com Hitler na sua deslocação à Alemanha, e que nos seus planos para a tomada do poder previa o despedimento dos judeus e mulheres para colocar em seus lugares jovens, brancos e homens. Tinha inclusivamente já preparadas as insígnias a serem usadas (águia vermelha sobre fundo azul, com um V sobreposto sobre a águia, simbolizando os American Vigilantes) e demais parafernália associada.

 

 

O assalto ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021 que parece estar em investigação (e isto porque os Republicanos têm vindo a bloquear a formação de uma comissão bipartidária para a sua investigação), independentemente de possíveis acusações individuais a que chegar, deveria  essencialmente responder a questões como:

Qual foi a profundidade e a extensão do envolvimento do governo nessa ação? Quais as fações do poder económico e militar que financiaram, suportaram ou doutrinaram as forças presentes na invasão do Capitólio?  Qual a relação entre os agentes do estado e os vigilantes do estado presentes, e porque falharam ou demoraram tempo em excesso para atuar?

 

Este muito sucinto resumo do golpe fascista preparado nos anos 30, não significa que possamos ser levados a concluir pela existência de uma analogia decalcável entre essa conspiração e o assalto ao Capitólio de 6 de janeiro de 2021. Espero que alerte para as coincidências e para o que permanece como intenções sempre presentes nas sociedades em que vivemos.

 

 

Chamo a atenção para um excelente artigo do filósofo franco-americano Gabriel Rockhill no CounterPunch de 12 de outubro de 2020, “Fascism: Now You See It, Now You Don’t!”, (Fascismo: Ora agora se vê, ora agora não se vê!), e que começa com uma citação de Vicente Navarro:

 

O fascismo não é um desenvolvimento extremado, limitado no tempo e no espaço, que aconteceu num tempo atrás. O fascismo é extenso, generalizado, e existe em todos os lugares.”

 

 

Ler/consultar:

 

McCormack–Dickstein Committee, U.S. House of Representatives, Special Committee on Un-American Activities, Investigation of Nazi Propaganda Activities and Investigation of Certain Other Propaganda Activities”, United States Congress, Washington, D.C.: Government Printing Office, 1934.

Examining the U.S. Capitol Attack, A Review of the Security, Planning, and Response Failures on January 6”, United States Senate.

 

Archer, Jules. (2015). The Plot to Seize the White House: The Shocking True Story of the Conspiracy to Overthrow F.D.R. New York: Skyhorse Publishing.

Donnelly, Michael, “WallStreet’s Failed 1934 Coup.”CounterPunch (December 2, 2011)

Seldes, George (1947). One Thousand Americans. New York: Boni & Gaer.

Seldes, George. (2009). Facts and Fascism. Joshua Tree, CA.

Z., Mickey (2005). “The Bonus Army”, in Fifty American Revolutions You’re Not Supposed to Know, New York: Disinformation Books.

 

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