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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(313) São os factos, estúpido!

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Quem for dono de um terreno é dono de tudo que se estenda para cima até ao Céu e para baixo até ao centro da terra?

 

“Todas as grandes empresas de tecnologia são exímias na engenharia do direito de propriedade”, Heller e Salzman.

 

“O ‘proprietário’ é uma fonte de dados sempre pronta para ser colhida”, Joshua Fairfield.

 

O fabricante do “seu” automóvel pode decidir pará-lo por falta de pagamento, ou outra qualquer razão. Em casos mais extremos, o fabricante do “seu” pacemaker pode mesmo decidir pará-lo!

 

 

 

 

Em março de 1991, poucos dias depois do início da guerra no Kuwait, a posição assumida pelo Presidente George H. W. Bush valia-lhe o apoio de 90% dos americanos. Pouco mais de ano e meio depois, em agosto de 1992, 64% dos americanos desaprovavam a sua atuação, essencialmente devido à sua atuação face ao emprego/desemprego.

Sendo 1992 ano de eleições presidenciais, e tendo Bill Clinton a tendência para se dispersar por vários assuntos, o estratega da sua campanha, James Carville, resolveu contruir vários cartazes que colocava em locais bem visíveis quer na sede da campanha quer nos estúdios de televisão, para que Clinton não se desviasse dos assuntos. Um desses cartazes dizia “The economy, stupid”.

 

 

Independentemente das considerações sobre a “propriedade”, seja ela encarada como um roubo forçado ou como um direito natural, o facto é que é sobre o direito à propriedade privada que assenta toda a construção da civilização em que nos inserimos.

Após séculos de conflitos, finalmente esse direito alcançou a sua máxima extensão quando em 1765, nos seus Comentários sobre as Leis de Inglaterra (Commentaries on thhe Laws of England), William Blackstone reconheceu que esse direito não se referia apenas ao direito à superfície, mas também ao que lhe ficava por cima, indo do chão até ao Céu, e por baixo, estendendo-se até ao centro da terra. “Cuius est solum, eius est usque ad coelum et ad ínferos”, ou seja, quem for dono de um terreno é dono de tudo o que se estenda para cima até ao Céu e para baixo até ao centro da terra.

Citação ainda hoje utilizada em muitos casos vulgares do dia-a-dia, como por exemplo, quando telhados entram dentro da propriedade de outra pessoa, ou quando ramadas de árvores de fruto ultrapassam os muros limites das propriedades.

 

Com o aparecimento do telégrafo e do telefone, os tribunais viram-se confrontados com a necessidade de criar exceções a essa lei geral, legislando sobre o princípio das linhas de transmissão.

O assentamento dos carris dos caminhos de ferro também originou vários conflitos, especialmente quando a sua colocação era feita utilizando espaço por cima de propriedades. Em 1897, a Metropolitan West Side Elevated Railroad Company, foi obrigada a pagar a Warren Springer, 61.000 dólares (dois milhões ao valor atual), por fazer passar os comboios por cima (sem tocar) da propriedade de Springer.

O desenvolvimento da aviação complicou o esquema. Numa simples viagem, um avião passava por cima de centenas, milhares de propriedades. Estariam a violar o espaço aéreo privado daquelas propriedades?

Por incrível que pareça, este problema só foi resolvido quando em 1946, um criador de galinhas, Thomas Causby, que vivia perto do aeroporto de Greensboro, Carolina Norte, se queixou do barulho que os aviões faziam ao passarem constantemente nas descolagens e aterragens sobre a sua propriedade não deixando descansar as galinhas e assustando-as ao ponto de elas se atirarem contra as paredes dos galinheiros, morrendo. A queixa foi apresentada contra o Ministério da Guerra, processo 328 U.S. 256, United States v. Causby.

A douta decisão acabou com o direito de propriedade se poder estender para cima indefinidamente (“ad coelum”), limitando-o apenas à baixa atmosfera imediatamente envolvente.

 

A 26 de julho de 2015, William Merideth, pegou na sua espingarda e atirou a baixo um drone que constantemente sobrevoava a sua casa em Hillview, Kentucky. O proprietário do drone, John David Boggs, apresentou queixa e pediu uma indeminização de 1.500 dólares. Foi o caso Boggs v. Merideth, 3:2016cv00006. A conclusão deu razão à Defesa por “falta de jurisdição apropriada para o caso”.

 

No seu livro, Mine! How the Hidden Rules of Ownership Control Our Lives, Heller e Salzman apresentam-nos vários casos muito elucidativos sobre o problema da propriedade. Como este, o de Levy Rosenbaum, cujo trabalho consistia em tentar encontrar dadores de rins compatíveis para doentes a aguardarem transplantes. Como os dadores tivessem sido pagos e nos EUA as pessoas não podem vender os seus rins, Rosenbaum foi condenado a dois anos e meio de prisão por tráfico de órgãos.

Contudo, as pessoas podem ser pagas por darem sangue e esperma. Em certos Estados as pessoas podem vender células de medula óssea, mas já o mesmo não é permitido em Estados ao lado. O mesmo se passa com as barrigas de aluguer, nuns sítios sim, noutros não. Já os doadores de óvulos podem ser muito bem pagos, desde que tal seja considerado como “compensação”. Não é de admirar o aparecimento do “turismo de fertilidade” e outros “turismos” ligados a isenções legislativas relativas a certas propriedades anatómicas.

 

Num voo da American Airlines entre New Orleans e Charlotte em janeiro de 2020, Wendi Williams, pouco tempo após a descolagem, carregou no botão do assento e ele reclinou. O passageiro que seguia no banco atrás, desatou aos murros ao assento, tentando impedir que se reclinasse. Tudo isto foi filmado e reproduzido em vídeo via tweeter.

Imensas foram as opiniões expressas. Desde as que diziam que a passageira deveria antes de reclinar a cadeira informar (ou pedir) o passageiro atrás que o ia fazer, até as que diziam que o passageiro detrás só poderia bater na cadeira se a cadeira lhe tivesse batido primeiro.

Na realidade, quando a passageira comprou o seu bilhete, ela estava convencida que tinha comprado o direito à cadeira e ao espaço por detrás dela para a reclinar. Por sua vez, o passageiro atrás, estava convencido que o espaço do seu lugar ia até ao assento da frente como ele inicialmente estava. As companhias aéreas deixam estas “regras de propriedade” voluntariamente indeterminadas, para assim poderem vender uma nesga do mesmo espaço duas vezes.

 

Mas debrucemo-nos mais no futuro presente e há muito programado. Se já comprou um livro eletrónico, um e-book, começou a aperceber-se de algumas diferenças relativamente ao vulgar livro de papel. O livro de papel pode ser revendido, dado a um amigo, emprestado, ou até cortado para fazer uma colagem e de novo vendido. Nada disto pode ser feito com o livro eletrónico, porquanto o contrato não o permite. Pode até chegar ao ponto de depois de o ter comprado nem o poder ler. Já lá não está.

Em 2009, a Amazon apagou as cópias já compradas do 1984 e do Animal Farm, invocando que os livros tinham sido ilegalmente copiados por um intermediário. A Apple fez o mesmo com alguns filmes que já faziam parte das contas de alguns clientes, devido a disputas com direitos de cópia.

 

Se por acaso comprou aparelhagem de uma firma que acabe por ser absorvida por outra empresa maior, pode acabar por ficar com monos lá em casa. A Revolv, empresa que vendia conjuntos para transformar a casa numa casa “inteligente”, com a programação conjunta da iluminação, alarmes, detetores de movimento, etc., foi comprada pela Google em 2014. Dois anos depois, a Google fechou a empresa e desativou a programação. Os donos das casas que tinham comprado os conjuntos ficaram com eles, fisicamente, mas sem funcionarem.

As licenças garantidas por todas estas pequenas companhias, deixam de ter efeito quando compradas por outras empresas: passa a vigorar o último contrato de compra, que evidentemente anula o que lhe convém do anterior. “Todas as grandes empresas de tecnologia são exímias na engenharia do direito de propriedade”, Heller e Salzman.

 

Desde browsers que estão feitos para enganar as pessoas por forma a elas pagarem mais por passagens de avião, até computadores que comunicam sub-repticiamente com outros aparelhos domésticos, é tudo legal. A Standard Innovation, empresa que vende os vibradores We-Vibe (Nós- Vibramos, fantástico nome) que permitem aos seus utilizadores controlá-los via telemóvel, foi posta em tribunal em 2016 por a sua aplicação extrair dados pessoais de natureza íntima, como a hora a que os vibradores estavam a ser utilizados, durante quanto tempo, com que intensidade e temperatura do utilizador. O caso não chegou a julgamento, pois a Standard Innovation pagou antes 3,75 milhões de dólares, mas sem admitir que estivesse a prevaricar.

Na verdade, todas as “nossas coisas”, telemóveis, laptops, tabletes, relógios, auscultadores, etc., cedem informações sobre os nossos movimentos e compras. “O ‘proprietário’ é uma fonte de dados sempre pronta para ser colhida”, Joshua Fairfield, (Owned Property? Privacy, DigitalSerfdom).

 

É, portanto, claro que os consumidores (compradores) não são os proprietários dos conteúdos dos seus aparelhos. Contudo, esta regra não se aplica a todos os bens comprados. Por exemplo: até agora, quando se compra um automóvel, o fabricante não fica com a posse de nenhuma das suas partes, ou seja, o fabricante não detém a posse do motor ou dos travões.

A posse do fabricante sobre partes do que vendem, só se aplica aos bens digitais, e mesmo assim, nem sempre. Devido ao confuso sistema de leis, os tribunais pronunciam-se de maneiras diferentes sobre idênticas queixas. Pelo que não é de admirar que, com a expansão imposta dos carros elétricos, venha até ser muito possível que durante uma viagem, os “nossos” carros autónomos sejam “forçados” a irem parar a um McDonald por “sua livre escolha”, de tantos em tantos quilómetros.

Pior: o fabricante do carro pode decidir pará-lo por falta de pagamento, ou outra qualquer razão. Em casos mais extremos, o fabricante pode mesmo parar o seu pacemaker! A chantagem legalizada em nome do progresso, da Quarta Revolução Industrial.

 

De um só golpe todas as teorias sobre a propriedade e seu direito ou não, são deixadas no chamado caixote de lixo da história. Porque se nada se possui, não há propriedade. Se não há propriedade, não há direito sobre ela. A propriedade que se entendia ser de todos, passou a ser de ninguém.

 “Não ter nada e ser feliz!” (1)

Quem diria que seria o capitalismo a propiciar esse passo tão importante para a felicidade da humanidade? Como quase o mesmo se tem estado a passar na China, não temos de nos preocupar. É a economia!

 

 

 

 

(1)Ver blog de 20 de janeiro de 2021, “Não ter nada e ser feliz”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/303-nao-ter-nada-e-ser-feliz-86268 e o de 24 de fev de 2021, “O Grande Recomeço”,https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/308-o-grande-recomeco-88658.

 

Como guião, segui Elizabeth Kolbert, “How Much of Your Stuff Belongs to Big Tech?”

 

 

 

(312) “Aventuras”

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

A passagem de uma aventura para outra dependerá inteiramente de si, porque só o próprio poderá viver a sua vida, mais ninguém, razão porque será totalmente responsável por ela.

 

Sábio como és agora, senhor de tanta experiência, terás compreendido o sentido de Ítaca, C. Cavafy.

 

Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da  Tabacaria sorriu.
F. Pessoa.

 

 

 

 

Quando finalmente me decidi intervir através da escrita, entendi dar a conhecer a alguns poucos amigos e conhecidos a razão de ser que estava por detrás do projeto e que o nortearia no futuro. Inicialmente feito em fotocópias agrafadas e entregues pessoalmente, cedo me apercebi das limitações práticas do processo. Mas foi ele que mais tarde veio a dar lugar a este blog “Os tempos em que vivemos”, que no último ano teve uma média diária de 31 leituras distribuída por 48 países. 

Voltei a reler esse primeiro artigo introdutório sobre a razão de ser do projeto e sinto que, passados vários anos, não me afastei muito dos objetivos prometidos. Eis o que então, em 2015, escrevi sobre a sua razão de ser:

 

 

As exigências que a sociedade contemporânea impõe a cada um de nós, devido às suas restrições resultantes do trabalho, emprego/desemprego, profissão, estado, só com isso ocupando todo o tempo e gastando toda a nossa energia, vai-nos assim impedindo de desfrutarmos aquilo que é a surpreendente aventura do viver, de descobrirmos o que é este mundo, qual o nosso lugar nele.

Só durante o escasso período da infância e da adolescência (e mesmo assim só para alguns) é que tal nos é permitido: assim que começarmos a pensar e interrogar, para nos afirmarmos como pessoa, logo essas restrições nos vão limitar no nosso desenvolvimento, com as consequentes dificuldades de adaptação daí resultantes.

Com a finalidade de tentar ajudar a ultrapassar estas limitações que todos sofremos, procurarei, através de uma visão alargada, apresentar um conjunto de “Aventuras” que muito embora não sejam sequenciais, deverão no fim formar um todo coerente, deixando assim espaços que se pretendem de reflexão individual: a passagem de uma aventura para outra dependerá inteiramente de si, porque só o próprio poderá viver a sua vida, mais ninguém, razão porque será totalmente responsável por ela. Com estas “Aventuras” pretendemos incutir-lhe a tal visão mais alargada, procurando em cada uma delas acrescentar um pouco de aconchego e de ventura a cada um.

 

E falando de Aventuras, queria começar por dois poemas da mesma época, sendo um de Constantin Cavafy (1911) e outro de Fernando Pessoa (1928):

 

ÍTACA

 

Quando partires de regresso a Ítaca,

deves orar por uma viagem longa,

plena de aventuras e de experiências.

Ciclopes, Lestrogónios, e mais monstros,

um Poseidon irado – não os temas,

jamais encontrarás tais coisas no caminho,

se o teu pensar for puro, e se um sentir sublime

teu corpo toca e o espírito te habita.

Ciclopes, Lestrogónios, e outros monstros,

Poseidon em fúria – nunca encontrarás,

se não é na tua alma que os transportes,

ou ela os não erguer perante ti.

Deves orar por uma viagem longa.

Que sejam muitas as manhãs de Verão,

quando, com que prazer, com que deleite,

entrares em portos jamais antes vistos!

Em colónias fenícias deverás deter-te

Para comprar mercadorias raras:

coral e madrepérola, âmbar e marfim,

e perfumes subtis de toda a espécie:

compra desses perfumes quanto possas.

E vai ver as cidades do Egipto,

Para aprenderes com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,

Que lá chegar é o teu destino último.

Mas não te apresses nunca na viagem.

É melhor que ela dure muitos anos,

que sejas velho já ao ancorar na ilha,

rico do que foi teu pelo caminho,

 e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu-te essa viagem esplêndida.

Sem Ítaca, não terias partido.

Mas Ítaca não tem mais nada para dar-te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.

Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,

Terás compreendido o sentido de Ítaca.

 

CAVAFY, Constantin, Constantin Cavafy, 90 e mais quatro poemas, versão portuguesa, prefácio, comentários e notas de Jorge de Sena, 2ª Edição, Centelha, Coimbra,1986.

 

 

 

TABACARIA

 

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
Aparte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janellas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
 (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Daes para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mystério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabellos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidella dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fóra,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fôsse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci della pela janela das trazeiras da casa,
Fui até ao campo com grandes propositos.
Mas lá encontrei só hervas e árvores,
E quando havia gente era egual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicomios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora genios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lucidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lucidas -,
E quem sabe se realizaveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquista-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito htpothetico mais humanidades do que Christo,
Tenho feito philosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nella;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabello,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrellas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e elle é opaco,
Levantámo-nos e elle é alheio,
Sahimos de casa e elle é a terra inteira,
Mais o Systema Solar e a Via Lactea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metaphysica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A calligraphia rápida d’estes versos,
Portico partido para o Impossível.


Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, p’ra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fôsse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marqueza do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocotte celebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que fôr, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos, invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janella e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condemnação ao degredo,
E tudo isto é extrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquem do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a mascara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bebado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a mascara e dormi no vestiario
Como um cão tolerado pela gerencia
Por ser inoffensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essencia musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciencia de estar existindo,
Como um tapete em que um bebado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta tambem, e os versos tambem.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escriptos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satellites de outros systemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mysterio do fundo tam certo como o somno de mystério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausivel cahe de repente em cima de mim.
Semiergo-me energico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevel-os
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E góso, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciencia de que a metaphysica é uma consequencia de estar mal disposto.

Depois deito-me para traz na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino m’o conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)


Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janella.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metaphysica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves! e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono

da Tabacaria   sorriu.

 

PESSOA, Fernando, em Álvaro de Campos, Obra Completa, edição de Jerónimo Pizarro e António Cardello, Lisboa, Tinta-da-China, 2014.

 

 

 

Estas são aventuras que nos desejo.

 

 

(311) Pecado no Paraíso.

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Perdido na tradução (Lost in translation), filme realizado em 2003 por Sofia Coppola, com Bill Murray e Scarlett Johanson.

 

A existência de um paraíso terrestre como jardim plantado por Deus no Éden, único lugar na Terra onde toda a felicidade é possível, é um dos paradigmas base da nossa civilização ocidental.

 

Encontramo-nos perante a assunção de que o paraíso é um paraíso perdido, e que a natureza humana contém em si qualquer coisa de defeituoso.

 

O homem é o ser vivo que foi expulso do seu próprio domicílio, que perdeu a ligação ao seu lugar de origem.

 

Não se pode continuar a baptizar para "apagar a mancha do pecado original”, Anselmo Borges.

 

 

 

 

Muitos dos gestos, atitudes, sentimentos e até mesmo pensamentos que hoje manifestamos, e que julgamos serem caraterísticas individuais, só nossas, que nos definem, ou caraterísticas sociais que pertencem só ao nosso grupo, só à nossa sociedade ou mesmo só à nossa humanidade, têm datas fixas, por vezes até afixadas, do seu começo, sendo a partir daí apropriadas pelos intervenientes que se lhes seguem.

Nada de errado nessa apropriação. Nada de errado no beija-mão, no beija face (dos dois lados ou só num), no aperto de mão (com a direita ou a esquerda, com a palma para cima ou para baixo, com maior ou menor sacudidela ou aperto), no high five ou no low five, ou no namastê do sul da Ásia.

“Sabemos” que na fase civilizacional em que nos encontramos o aperto de mão com a direita está relacionado com a indicação que vimos em paz, já que a mão direita é a que normalmente empunharia a arma (porquê ser a direita a empunhar a arma? Que ordem foi dada ao embrião para que fosse destro no seu desenvolvimento? “Culpa” dos papás? Do movimento de rotação da Terra? Da translação em volta do Sol? Seriam Deus e os deuses, destros?). Mas nem sempre foi assim, nem sempre teve esse significado, como mostram antigos relevos da Babilónia.

Já o high five, tão em moda nas por enquanto novas gerações, foi introduzido apenas no último quartel do século XX, ao que dizem por um basquetebolista, talvez para demonstrar que poucos lá chegavam. Ou pelo filho de um soldado americano pertencente o 5º Regimento, que quando encontrava os camaradas militares se saudavam erguendo a mão com os cinco dedos indicadores do regimento. Ou por qualquer outra razão, ou por qualquer outra pessoa. Trata-se de um cumprimento muito recente, minimamente datado, e assim chamado por ser feito no alto, por oposição ao low five, bastante mais anterior e caraterístico dos negros americanos, feito à altura da cintura com as palmas da mão abertas, talvez para sentirem mais pele ou se aperceberem do seu estado.

 

 

 

A existência de um paraíso terrestre como jardim plantado por Deus no Éden, único lugar na Terra onde toda a felicidade era possível, é, sem dúvida, um dos paradigmas base da nossa civilização ocidental. E, contudo, ele é também o lugar de onde a natureza humana foi expulsa para sempre.

Pelo que ao longo dos tempos se tem assistido, por um lado às tentativas de um regresso ao Éden contidas nos sonhos revolucionários dirigidos contra os guardiões que lhe impedem o acesso, e por outro lado condicionando ao falhanço todas as tentativas de alcançar a felicidade terrestre, com isso originando um traumatismo original.

Em qualquer dos casos, estamos perante a assunção de que o paraíso é um paraíso perdido, e que a natureza humana contém em si qualquer coisa de defeituoso. Pelo que o paraíso terrestre nos aparece sempre como um passado perdido, ou como um futuro a chegar.

O erudito filósofo italiano Giorgio Agamben, no seu livro Il Regno e il Giardino (O reino e o Jardim), começa por nos dizer que a palavra “paraíso” é pela primeira vez usada na Grécia por Xenofonte (c. 430-355 a. C.) como ‘paradeisos’, posteriormente transcrita para latim como ‘paradisus’. Trata-se, contudo, de uma apropriação do persa ‘pairidaeza’ feita por Xenofonte, utilizada no seu romance etnográfico Ciropedia, nome que ele chama ao jardim de Astiages, o rei medo, avô de Ciro, jardim que ele reservava para si e seus nobres, para a caça de animais selvagens.

É no Económico que Xenofonte vai descrever um ‘paradeisos’ mais parecido ao Jardim ocidental, ao referir-se ao jardim que o jovem Ciro (c. 590-530 a. C.) possuía em Sardes, onde as” árvores se encontravam plantadas a intervalos regulares, segundo linhas perfeitamente retas, com uma tal harmonia geométrica e uma tal variedade e suavidade” que levaram Lisandro de Esparta a exclamar: “Admiro-te, Ciro, por tanta beleza, mas admiro ainda mais aquele que concebeu e ordenou tudo isto.”

O ponto de viragem decisivo deste neologismo greco-iraniano vai dar-se quando na Septuaginta, (Bíblia resultante da primeira versão para grego feita por 70 especialistas), na tradução do Génesis 2,8 e seguintes, do hebraico ‘gan’ para o grego, em vez de se utilizar  ‘kepos’ (jardim) optou-se por ‘paradeisos’: “ E Deus plantou um paraíso em Éden.”

Segundo Agamben, esta alteração talvez se tenha dado por o termo ‘paradeisos’ estar mais associado a uma ideia de realeza e de prestígio, e à presença de animais e de água, o que conviria mais a um jardim plantado por Deus.

Significativo foi também o gesto de S. Jerónimo (347-420) quando decidiu traduzir o termo ‘Éden’ do texto hebraico, por ‘voluptas’: “Deus começou em princípio por plantar um paraíso de delícias “, onde os frutos não são somente “bons para olhar”, mas também “bons para comer”.

Ao que parece, talvez tal se tenha verificado devido à dificuldade em explicar ao povo comum, em que local ficava situado Éden, conforme constava na Septuaginta. Seja como for, a partir dessa altura, na tradição da Igreja latina, o paraíso passou a ser associado ao prazer.

Nos primeiros tratados sobre o paraíso, comuns à tradição dos padres gregos, o paraíso terrestre ainda não se tinha separado do paraíso celeste. Era no jardim de Éden que o justo deveria de entrar: “enquanto viveres, forja por ti mesmo a chave do paraíso: essa porta deseja-te, espera com alegria a tua chagada” (Éphrem, De Paradiso Eden, II [VII],2)

Já para a tradição latina, o paraíso era interpretado como uma alegoria da alma humana. Como dizia o douto S. Ambrósio (340-397): “O paraíso é uma terra fértil, o mesmo quer dizer que é uma alma fecunda, plantada no Éden, o que quer dizer, no prazer”. Assimilava Adão e Eva às duas faculdades da alma: o intelecto (nous) e a sensação (aisthesis). A fonte que irrigava o jardim era Cristo, e os quatro rios entre os quais se dividia eram as quatro virtudes cardiais, e também as quatro idades da história sagrada.

E o homem “que estava na terra onde tinha sido modelado” foi colocado no paraíso “sabendo-se assim que dessa forma tinha recebido o espírito divino da virtude”. Incumbia ao homem assim colocado no paraíso, conservar “o dom da natureza perfeita e a graça da plena virtude, do qual o paraíso era o símbolo”.

 

E é exatamente deste relacionamento entre a visão alegórica do paraíso e a natureza humana, que se estabelece aquilo que virá a ser o conteúdo teológico específico do paraíso terrestre: a justiça original da criatura, a sua perca devido ao pecado e o seu restabelecimento salvífico propiciado por Cristo.

Na interpretação de Ambrósio, não há ainda a consideração de que tenha sido o homem que tenha sido amaldiçoado, mas sim a serpente. Não é a terra que tenha sido amaldiçoada, mas antes “as suas obras”. Ou seja, da mesma forma que a natureza humana não se encontra ainda dividida pelo pecado, também o paraíso não está ainda dividido, como acontecerá mais tarde, entre um paraíso terrestre (nunca perdido) e um paraíso celeste (num futuro longínquo).

Tal só virá a acontecer mais tarde, a partir de Santo Agostinho e da sua teoria do pecado original, ou seja, um pecado que terá corrompido irremediavelmente a própria natureza humana. Vai ser Tomás de Aquino, que na Suma teológica, 1ª, quaestio 102, retira as dúvidas sobre a morada original do homem, ao considerar que o paraíso era o lugar que lhe estava destinado no seu estado original.

Mas o que se vem a revelar ser mais importante que esta questão do local original de permanência, (ainda que apenas por seis horas, segundo a interpretação então dominante) é o facto de o homem daí ter sido expulso.

O homem é o ser vivo que foi expulso do seu próprio domicílio, que perdeu a sua ligação ao seu lugar de origem.” Ele é duplamente peregrino sobre a terra: não só porque a sua vida eterna será no paraíso celeste, mas também, e sobretudo por ter sido exilado da sua pátria edénica.

Daqui Agamben afirmar que o” mitologema original da cultura ocidental não ser o do paraíso, mas o da sua perca. É isso que provoca o traumatismo originário que marcou profundamente a cultura cristã e moderna, condenando ao fracasso toda a procura de felicidade na terra.”

 

 

Em 2003, Sofia Coppola, realiza o filme, Lost in translation, (Perdido na tradução), com Bill Murray e Scarlett Johanson, onde mais sofisticadamente, mais esteticamente de acordo com a contemporaneidade, vem abordar o tema da desconexão com a realidade existente, quando coloca dois americanos no Japão, em que mesmo quando as traduções são as aparentemente corretas, constata que algo se perde, muitas vezes o mais importante. Mesmo sem necessidade de tradução, mesmo falando a mesma língua, o problema da incomunicabilidade entre humanos mantém-se. Versão atualizada da Torre de Babel. Perdido na tradução.

 

 

Parecendo concluídos e encerrados, estes problemas não só se mantêm presentes no nosso tempo, mas continuam a desenvolver-se.

Num artigo publicado no Jornal Notícias de 6 de março de 2021, “Fim do cristianismo na Europa?”, o padre Anselmo Borges, vem alertar-nos:

“A fé não pode agredir a razão. Por exemplo, o modo como se tem apresentado o pecado original é incompatível com a evolução. Não se pode continuar a baptizar para "apagar a mancha do pecado original". A morte de Jesus na cruz não foi querida por Deus, ofendido pelo pecado e exigindo uma reparação infinita. Isso contradiz o Evangelho: Deus é Amor.”

 

(310) O “Relatório Final” sobre o presente e o futuro.

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

A América não está preparada para defender ou competir na era da Inteligência Artificial. Esta é a dura realidade que devemos enfrentar, Relatório Final.

 

Apenas os Estados Unidos e a China têm os recursos, o poder comercial, o acervo de talentos e o ecossistema de inovação para liderar o mundo em IA, Relatório Final.

 

Estabelecer uma defesa contra adversários com capacidade de IA sem empregar a IA, é um convite ao desastre. [...] Os humanos não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas o software pode, Relatório Final.

 

A tecnologia em regimes autoritários é usada como instrumento de vigilância, influência e controle político, ao passo que nos regimes democráticos é usada como instrumento de vigilância, influência e controle público.

 

 

 

 

 

A inauguração daquilo que se pensa virem a ser os novos tempos, sem se saber muito bem como eles serão, é uma das características das revoluções. Uma abertura de possibilidades que se desejam, que se adivinham. Exatamente por isso, uma vez iniciadas nunca se sabe bem o que vai acontecer, se virão a ter sucesso, onde pararão.

Como observou Arendt, uma revolução representa um tempo entre o fim de um passado que já não satisfaz e que já não dá respostas, e um novo começo que se oferece como absolutamente imprevisível.

As revoluções não consistem apenas numa mudança, como sucede com um golpe de estado, desobediência civil ou transformação de um governo. Não se tratam de restaurações ou de tentativas de retrocesso a um momento original em que a ordem estaria estabelecida. Pelo contrário, a revolução tem como consequência a instauração de uma novidade absoluta em termos de instituição, até aí não existente.

Podemos, contudo, considerar num sentido mais prático, que mesmo entre as revoluções, há umas mais radicais que outras, há as que não passam de pequenas revoluções, acabando algumas (a maior parte) por terminarem em golpes de estado, em que tudo se muda para tudo permanecer na mesma. Bem sei, não são verdadeiras revoluções, mas é o que mais acontece.

Por tudo isto é que só depois delas feitas se pode ver quem ganhou. Aplica-se aquela quase boutade do futebolista português que quando perguntado sobre a previsão do resultado de um jogo, disse que “prognósticos sobre o resultado só no fim do jogo”.

Com as alterações políticas, sociais e económicas, passa-se o mesmo. Só depois, muitas das vezes só muito tempo depois, é que se vê quem ganhou, ou seja, quem beneficiou com o processo.

Casos interessantes e do conhecimento comum: na Revolução Francesa, quem acabou por beneficiar dela não foram os revolucionários que a iniciaram e conduziram, mas sim Napoleão Bonaparte e as forças que o apoiaram; na Revolução de 1383-85, foi a burguesia nascente que impulsionou o movimento que levou D. João I ao trono de Portugal, iniciando a Segunda Dinastia, mas quem acabou, embora um pouco mais tarde (Alfarrobeira, 1449), por beneficiar dela, foi a aristocracia conluiada com Afonso V.

 

 

 A 23 de fevereiro de 2021, um painel de 15 personalidades nomeadas pelo Congresso dos EUA, o National Security Commission on Artificial Intelligence, apresentou um relatório final com as recomendações para a elaboração de um programa para a transformação total da sociedade americana ancorada à inteligência artificial (IA) e ao desenvolvimento de armamentos autónomos, única hipótese considerada viável para a manutenção do domínio americano. Este Final Report (756 páginas), excelentemente estruturado e minucioso, vem explanar como é possível fazer-se essa ambiciosa transformação, acabando, contudo, por revelar alguns pontos muito interessantes e importantes que convém reter.

 

 

O relatório começa, talvez para espanto de alguns, com a seguinte afirmação:

 

 “A América não está preparada para defender ou competir na era da IA. Esta é a dura realidade que devemos enfrentar.”

 

Esta é a constatação que vai servir de base para justificar a elaboração de todo o programa que visa alterar esse estado de coisas. Seguidamente, reconhece que:

 

 […] O governo dos EUA não pode fazer isso sozinho. Precisa de parceiros comprometidos na indústria, na academia e na sociedade civil. E a América precisa envolver os seus aliados mais antigos e novos parceiros, para conseguir construir um mundo mais seguro e livre para a era da IA.

 

# Ou seja, não mais uma América grande sozinha, mas uma América grande só possível com todos os outros aliados a ajudarem. Este reconhecimento pode ser por pura conveniência tática (contagem de espingardas), ou por esse englobamento se tornar necessário para o aumento de valor que tal expansão irá gerar, a nova conquista de “territórios”, as novas fronteiras sem as quais o sistema tem dificuldades de crescimento.

 

 O porquê da aposta na IA e respetivos armamentos:

 

“Tememos que os armamentos de IA sejam as armas de primeiro recurso a serem utilizadas em conflitos futuros. A IA não permanecerá apenas sob o domínio das superpotências ou no reino da ficção científica. A IA é de uso duplo, geralmente de código aberto e tem-se expandido rapidamente. Os adversários do estado têm já vindo a efetuarem ataques de desinformação apoiados em IA, para semear a divisão nas democracias e abalar o nosso sentido de realidade. Estados, criminosos e terroristas conduzirão ataques cibernéticos baseados em IA e utilizarão software de IA com ‘drones’ já disponíveis comercialmente, criando "armas inteligentes". Não é segredo que os rivais militares dos Estados Unidos têm vindo a integrar conceitos e plataformas de IA, desafiando a vantagem tecnológica de décadas dos Estados Unidos. Não seremos capazes de nos defender contra ameaças conduzidas por IA sem recursos de IA omnipresentes e sem novos paradigmas de combate. “

 

“Estabelecer uma defesa contra adversários com capacidade de IA sem empregar IA, é um convite ao desastre. A IA comprimirá os prazos de decisão de minutos para segundos, expandirá a escala de ataques e exigirá respostas que sobrecarregarão os limites da cognição humana. Os operadores humanos não serão capazes de se defenderem de ataques cibernéticos ou de desinformação capacitados para IA, de enxames de ‘drones’ ou ataques de mísseis sem a ajuda de máquinas capacitadas para IA. O melhor operador humano não se pode defender contra múltiplas máquinas fazendo milhares de manobras por segundo, movendo-se potencialmente a velocidades hipersónicas e orquestradas por IA em todos os domínios. Os humanos não podem estar em todos os lugares ao mesmo tempo, mas o software pode.”

 

# A justificação da aposta na IA e seus sistemas de armas, é simultaneamente realista e ideológica. Gostando-se ou não da vigilância e dos armamentos possíveis propiciados pela IA, é certo que a sua provável utilização por quaisquer forças para obter vantagens, mais tarde ou mais cedo acabará por se verificar. O argumento é, pois, realista. Ideológico, na medida em que esse desenvolvimento provém do tipo de escolhas e atuações que a sociedade tem vindo a fazer, e que nos tem vindo sempre a ser apresentado como única via para o “progresso natural”.

 

O futuro da IA pode ser democrático:

 

“O uso doméstico de IA na China é um precedente assustador para todo o mundo, para qualquer pessoa que preze a liberdade individual. O emprego que ela faz da IA como ferramenta de repressão e vigilância - em casa de cada um e, cada vez mais, no exterior - é um poderoso contraponto ao que acreditamos como a IA deve ser usada. O futuro da IA ​​pode ser democrático, mas conhecermos o suficiente sobre o poder da tecnologia para fortalecer o autoritarismo no exterior e alimentar o extremismo em casa, para saber que não devemos dar como certo que as tendências futuras da tecnologia venham a reforçar a democracia em vez de a erodir. Devemos trabalhar com outras democracias e com o setor privado para construir padrões de proteção de privacidade em tecnologias de IA e promover normas democráticas para orientar os usos de IA para que as democracias possam usar as ferramentas de IA de maneira responsável para fins de segurança nacional.”

 

A tecnologia em regimes autoritários e em regimes democráticos:

 

“A tecnologia em si não possui uma ideologia, mas dependendo do modo como é projetada, onde é empregada e quais as leis que regem o seu uso, refletem as prioridades e os valores daqueles que a projetam e empregam.

 Em breve, mais recursos de vigilância e análise com utilização de IA estarão nas mãos da maioria ou de todos os governos. À medida que a tecnologia se difunde, a principal diferença entre os estados terá menos a ver com a qualidade ou sofisticação da tecnologia e mais a ver com a maneira como ela é usada - para que propósito e sob que regras.

Os regimes autoritários continuarão a usar IA - reconhecimento facial, biometria, análise preditiva e fusão de dados com recursos como instrumentos de vigilância, influência e controle político. A utilização pela China de tecnologias de vigilância movidas a IA para reprimir a minoria uigur e monitorar todos os seus cidadãos, prenuncia como os regimes autoritários usarão os sistemas de IA para facilitar a censura, rastrear os movimentos físicos e atividades digitais de seus cidadãos e para reprimir a dissidência.

 A circulação global desses sistemas digitais cria a perspetiva da adoção mais ampla de uma governança autoritária. Mas as democracias liberais também empregam a IA para fins de segurança interna e pública. Mais de metade das democracias avançadas do mundo usam sistemas de vigilância habilitados para IA. Essas tecnologias têm finalidades públicas legítimas e são compatíveis com o estado de direito.”

 

## Ou seja, a tecnologia em regimes autoritários é usada como instrumento de vigilância, influência e controle político, ao passo que nos regimes democráticos é usada com instrumento de vigilância, influência e controle público.

 

As vantagens da China:

 

“A adoção bem-sucedida da IA ​​em campos e tecnologias adjacentes impulsionará economias, moldará sociedades e determinará quais os estados que exercerão influência e poder no mundo. Muitos países têm estratégias nacionais de IA, mas apenas os Estados Unidos e a China têm os recursos, o poder comercial, o acervo de talentos e o ecossistema de inovação para liderar o mundo em IA. Os Estados Unidos são capazes de inovar mais que qualquer concorrente. No entanto, hoje, há uma diferença fundamental nas abordagens dos EUA e da China para a inovação em IA que coloca a liderança americana em IA em perigo.

A maior parte do progresso da IA ​​nos Estados Unidos deve permanecer com o setor privado e as universidades. Não devemos perder uma cultura de inovação que é de baixo para cima e difundida com uma mentalidade de ‘startup’ de garagem. No entanto, uma abordagem totalmente distribuída não é uma estratégia vencedora nesta competição estratégica. Mesmo as grandes empresas de tecnologia não podem competir com os recursos da China ou fazer os grandes investimentos de que os EUA precisarão para se manter à frente. Precisaremos de uma abordagem híbrida que mescle os esforços do governo e do setor privado para vencer a competição de tecnologia.

A China é organizada, tem recursos e está determinada a vencer a competição de tecnologia. A IA é fundamental para a expansão global da China, poder econômico e militar e estabilidade doméstica. Ela tem uma vantagem inicial na execução de um plano nacional de IA como parte de planos maiores para liderar o mundo em vários campos de tecnologia emergentes e críticos.

 A partir de 2017, a China estabeleceu metas, objetivos e estratégias de IA vinculados a cronogramas específicos com recursos apoiados por uma liderança comprometida para liderar o mundo em IA até 2030. A China está a executar um plano sistemático dirigido centralmente para extrair conhecimento de IA do exterior por meio de espionagem, recrutamento de talentos, transferência de tecnologia e investimentos.

Ela tem planos ambiciosos para construir e treinar uma nova geração de engenheiros de IA em novos ‘hubs’ de IA. Ele apoia empresas "campeãs nacionais" (incluindo Huawei, Baidu, Alibaba, Tencent, iFlytek e SenseTime) para liderar o desenvolvimento de tecnologias de IA em casa, promover prioridades dirigidas pelo estado que alimentam programas militares e de segurança sob a rubrica de fusão civil-militar e mercados de captura no exterior. Financia projetos de infraestrutura digital massivos em vários continentes. A China desenvolveu uma estratégia de propriedade intelectual (PI) e está a tentar definir padrões técnicos globais para o desenvolvimento de IA. E as suas leis tornam quase impossível que uma empresa na China consiga proteger os seus dados das autoridades.”

 

“Na próxima década, a China pode vir a ultrapassar os EUA como a maior potência mundial em IA.”

 

 

### Resumidamente: Os EUA estão com um problema de difícil resolução. Por um lado, encontram-se atrás do que consideram ser o seu principal adversário, no domínio daquilo (IA) que sabem vir a ser o conhecimento e as tecnologias que dominarão o futuro.

Por outro lado, sabem que não conseguem apanhar e ultrapassar a China sem um planeamento centralizado em que o estado desempenhe um papel fundamental para o controle e desenvolvimento de todas as forças da sociedade, o que implica como que uma economia de guerra coordenada com as empresas privadas, organismos de segurança, militares e academia, quase idêntico ao feito durante muito pouco tempo na Segunda Guerra. Só que agora, terá de ser por tempo ilimitado. O “Relatório Final” é a resposta apresentada. Está lá tudo. Ser como a China convencendo-nos que não são a China.

Para nós, as implicações são interessantes: democraticamente, patrioticamente ou voluntariamente, seremos obrigados a escolher entre um capitalismo de estado de um Estado socialista, e um capitalismo de estado de um Estado capitalista.

 

#### Outro ponto muito elucidativo que se extrai do Relatório, tem que ver com a composição do painel:

O presidente é Eric Smith, ex-“dono” da Google; o vice-presidente é Robert Work, diretor da Raytheon (empresa líder em tecnologia e inovação, especializada na defesa e soluções de cibersegurança) e conselheiro da Govini (empresa de big data e analítica especializada em transformar os negócios de governança recorrendo à utilização da ciência de data); Andrew Moore, é vice da Google e chefe da divisão da Google Cloud; Safra Catz, é diretora da Oracle; Andrew Jassy, é diretor da Amazon; William Mark, é chefe de Computing Sciences na SRI.

Ou seja, pouco mais de um mês depois do novo presidente chegar ao poder, as forças que estavam por detrás revelam-se como as grandes vencedoras:  as empresas de alta tecnologia.

É para essas grandes empresas privadas que fluirão os biliões de dólares dos grandes contratos do estado. Veremos daqui por uns tempos quem controla o quê e quem.

 

 

. Importante ver vídeo sobre armamentos autónomos, file:///C:/Users/HELDER~1/AppData/Local/Temp/VID-20171212-WA0007.mp4.

. Ver blog de 19 de junho de 2019, “O abismo da liberdade e a liberdade do abismo”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/220-o-abismo-da-liberdade-e-a-57952.

. Ver blog de 24 de fevereiro de 2021, “O Grande Recomeço”, https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/308-o-grande-recomeco-88658-

 

 

(309) O FBI contra Billie Holiday

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

“The United States vs. Billie Holiday”, nos Golden Globes de 2021.

 

Em 1936, após ter visto uma fotografia do linchamento e enforcamento de dois africanos, pendentes de uma árvore, que tivera lugar em Indiana a 7 de agosto de 1930, Abel Meeropol escreveu um poema que publicou no New York Teacher e a que chamou “Strange Fruit” (Fruto Estranho).

 

Apesar do medo de retaliações, Billie Holiday resolveu cantá-la pela primeira vez em 1939.

 

O temor de uma subversão comunista generalizada, agitada na opinião pública americana.

 

Por espionagem, a 19 de junho de 1953 foram executados na prisão de Sing Sing, Ossining, Nova York, o casal Rosenberg, Julius Rosenberg (1918-1953) e Ethel Greenglass Rosenberg (1915-1953).

 

 

 

 

Entre os filmes selecionados (1º prémio, Melhor Atriz Drama, Andra Day) para os Golden Globe de 2021, figura “The United States vs. Billie Holiday”, do realizador Lee Daniels, que nos mostra a perseguição feita pelo FBI a Billie Holiday, com a intenção de a silenciar bem como à sua canção, “Strange Fruit”. Durante mais de uma década, o Federal Bureau of Narcotics, procedeu a várias detenções de Holiday por consumo de droga, até conseguir que, após 18 meses de pena de prisão, ela  acabasse impedida de cantar nos circuitos dos clubes noturnos.

 

 

A 19 de junho de 1953 foram executados (cadeira elétrica) na prisão de Sing Sing, Ossining, Nova York, o casal Rosenberg, Julius Rosenberg (1918-1953) e Ethel Greenglass Rosenberg (1915-1953), acusados de espionagem por transmitirem informações sobre a bomba atómica, motores de reação, radar, sonar e outros armamentos, à União Soviética.

Acontecimento raro próprio de tempos sociais radicalizados, como se apercebe pelo facto de terem sido os primeiros civis americanos a serem punidos com a pena de morte por espionagem, os primeiros americanos a serem executados em tempo de paz devido a essa mesma acusação, e o primeiro casal, marido e mulher, a serem condenados a morrerem na cadeira elétrica. Acrescente-se que Ethel, foi a segunda mulher a ser executada pelo governo americano, desde que em1865 Mary Surratt fora enforcada pela alegada participação no assassinato de Abraham Lincoln.

 

Viviam-se os tempos extremados do Macartismo (do senador McCarthy, que afirmava ter uma lista dos “membros do Partido Comunista e dos membros de uma rede de espionagem” que faziam parte do governo federal americano) e do seu Terror Vermelho (Red Scare), período que se estendeu de 1950 a 1956, no qual todos os que fossem meramente suspeitos de simpatias que ele considerava como comunistas, eram objeto de investigações agressivas e de invasão de privacidade, sendo acusados de espionagem a soldo da URSS. Era o temor de uma subversão comunista generalizada, agitada na opinião pública.

 

Tão extremados eram os tempos que, e independentemente dos Rosenbergs serem ou não culpados, de serem ou não bodes expiatórios, de o julgamento ter sido ou não conivente com o clima de perseguição aos comunistas tão ao agrado de McCarthy, o juiz decidiu-se por uma condenação à morte de um casal com dois filhos menores (Robert, 4 anos, e Michael, 8 anos), e como tal, decidindo também da orfandade dos mesmos.

 Ethel, a mãe, bem pediu clemência em nome dos filhos (muitas foram as personalidades que a acompanharam, entre elas o Papa Pio XII), mas o Presidente D. Eisenhower mostrou-se renitente, recusando em 1953 todos os pedidos (já anteriormente, em 1952, o Presidente Truman também os recusara, o que era consentâneo com quem ordenara o lançamento de bombas atómicas sobre duas cidades). A resolução de Eisenhower, que viria a ser o primeiro a avisar contra o crescimento desmesurado do complexo político-militar, diz bem do clima de quase histeria coletiva que então se vivia.

 

Após a execução, as crianças tiveram problemas de toda a espécie: desde os tios que não quiseram ficar com eles, à escola pública local que os expulsou por os pais dos alunos não quererem que os seus filhos se relacionassem com filhos de traidores executados, até aos pedidos de políticos republicanos para que o tribunal os entregasse a um orfanato (onde acabaram por estar apenas poucos dias) numa altura em que já estava a correr um processo de adoção por um casal.

 

Finalmente em 1954, foram viver com os pais adotivos, Abel e Ann Meeropol, daí que os seus nomes passassem a ser desde então, Robert e Michael Meeropol.

 Quem era este casal que os resolveu adotar, naquele clima de paranoia e perseguição em que até familiares e amigos se sentiam aterrorizados só de imaginarem que poderiam ficar a tomarem conta dos filhos dos Rosenberg?

 

Abel Meeropol (1903-1986), filho de emigrantes judeus russos, era um professor do liceu Dewitt Clinton, no Bronx, NY, escritor, poeta, compositor, e ativista social, que vivia do seu vencimento e das canções que publicava.

Em 1936, após ter visto uma fotografia do linchamento e enforcamento de dois africanos, pendentes de uma árvore, que tivera lugar em Indiana a 7 de agosto de 1930, escreveu um poema que publicou no New York Teacher. Intitulou-o de “Strange Fruit” (Fruto Estranho):

 

 

As árvores do Sul estão carregadas com um fruto estranho,

Sangue nas folhas e sangue na raiz,

Um corpo negro balançando na brisa sulista

Um estranho fruto pendurado nos álamos.

 

Uma cena pastoral no galante Sul,

Os olhos esbugalhados e a boca torcida,

Perfume de magnólia doce e fresca,

Então o repentino cheiro de carne queimada!

 

Aqui está o fruto para os corvos arrancarem,

Para a chuva recolher, para o vento sugar,

Para o sol apodrecer, para as árvores fazerem cair,

Aqui está uma estranha e amarga colheita.”

 

 

Algum tempo depois resolveu musicá-la, apresentando-a num clube noturno de Nova Iorque, cujo dono acabou por a indicar a Billie Holiday. Apesar do medo de retaliações, Billie Holiday resolveu cantá-la pela primeira vez em 1939. Quando a quis gravar em disco, a sua gravadora, Columbia Records, recusou-se a fazê-lo, temendo as repercussões. Finalmente acabou por permitir a gravação, desde que a canção figurasse fora do contrato.

A canção acabou por ser o maior sucesso de vendas de Billie Holiday, que a passou a cantar no final de todos os seus concertos. Em 1978 entrou para a lista do Hall da Fama dos Grammy, e em 2002 passou a estar incluída na lista das canções do século da Recording Industry of America e da National Endowment for the Arts.

 

 

Graças ao casal Meeropol, Robert e Michael, agora Meeropol, acabaram por ter uma vida normal, agradável, interessante, vindo ambos a serem professores de liceu, envolvidos em assuntos sociais.

Abel Meeropol, o pai, continuou a lecionar e a escrever músicas, algumas igualmente famosas, como a “House I live in”, grande êxito de Frank Sinatra.

No entretanto, passou por alguns tempos difíceis, questionado várias vezes sobre as suas atividades, chegando a ter um período em que ninguém o contratava nem lhe comprava canções.

 

 Robert conta uma história sobre um cedro japonês que tinham no quintal da casa onde viviam. Todos os anos o cedro dava uma série de rebentos, e quando os pretendeu cortar, o pai disse-lhe, “Não faças isso, não podes matar os rebentos!”. “Mas há dúzias deles. O que vais fazer com eles?”

Então o pai apanhou-os e colocou-os em latas de café, alinhando-as ao longo da casa. Havia já centenas delas. “Mas ele não conseguia matá-los. Era algo que ele não conseguia fazer”.

 Abel Meeropol morreu desapercebidamente em 1986.

 

Billie Holiday morreu de cirrose em 1959, com 44 anos. Mesmo no seu leito de morte, no Metropolitan Hospital de NY, o quarto foi revistado e ela foi posta à guarda da polícia. Tinha 70 cêntimos no banco.

 

A Legislação contra linchamento  continua a não existir nos EUA. Apesar de ter finalmente sido aprovada em fevereiro de 2020 pelo Congresso (Emmett Till Anti-lynching Act), o Senado continua sem dar o seu aval.

 

 Informação complementar

 

# Este artigo é uma atualização do publicado a 9 de maio de 2018,    https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/162-billie-holiday-e-os-rosenberg-43096.

#Sobre o macartismo, uma sucinta explicação e um filme:

“O que é o macartismo e como ele aconteceu”, Ellen Schrecker, (https://www.youtube.com/watch?v=N35IugBYH04).

 Excertos de um programa radiofónico de Edward Murrow, no filme Good Night and, Good Luck, realizado por George Clooney em 2005 (https://www.youtube.com/watch?v=1cfwsfGqgPM).

 #Sobre os filhos dos Rosenberg:

 uma entrevista (http://www.angelfire.com/zine2/robertmeeropol/).

 # Sobre a canção “Strange Fruit”:

A história por detrás da canção “Strange Fruit” (https://www.youtube.com/watch?v=EcnTzwA0s2c).

 Evolução da canção “Strange Fruit”, de B. Holiday a Nina Simone: (https://www.npr.org/2009/06/22/105699329/evolution-of-a-song-strange-fruit).

 

 

 

 

 

 

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