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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(291) Outras formas de ver

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Os principais meios de comunicação social têm-se vindo a afastar cada vez mais da missão de informar o público, aproximando-se cada vez mais da missão de dizer-lhes o que devem pensar e o que devem fazer, Diana Johnstone.

 

A grande importância dada ao jornalismo de investigação no caso Watergate, não permitiu ver aquela que é a mais relevante questão: a do aparecimento de um modelo de jornalismo com base em fontes governamentais não identificadas,

 

A suspensão da convertibilidade do dólar em ouro aconteceu como resultado direto do enorme défice dos EUA devido ao custo da Guerra do Vietname.

 

Sempre que os EUA e a OTAN querem intervir, há sempre uma “crise humanitária” e uma “responsabilidade de proteger”.

 

 

 

 

Aos 86 anos de idade, a jornalista americana Diana Johnstone, há muito a viver na Europa, publicou recentemente (2020) um livro, Circle in the Darkness, Memoir of a WorldWatcher, no qual resume a sua visão sobre muitos dos acontecimentos que assistiu ao longo dos seus 55 anos de jornalismo.

O gosto pela convivência com todas as pessoas, a tentativa de as conhecer e ajudar, fez com que durante o período importante da Guerra do Vietname criasse vários grupos e campanhas com o objetivo de explicar o que se estava a passar e o porquê  da necessidade de se oporem à guerra.

É sua opinião que a criação desses grupos com implantação comunitária, e que passaram despercebidos à comunicação social, muito contribuíram para a educação de estudantes e professores na sua tomada de posição sobre a guerra.

 

Sobre o escândalo de Watergate, entende que a importância dada ao jornalismo de investigação no caso, não permitiu ver aquela que é a mais relevante questão: a do aparecimento de um modelo de jornalismo com base em fontes governamentais não identificadas.

Segundo ela, o escândalo Watergate serviu bem, intencionalmente ou não, para desviar a atenção para a mortandade que se estava a passar no Sudeste asiático:

 

Ver-nos livres de Nixon foi um golpe brilhante que de uma assentada uniu gerações, despedaçadas por atitudes opostas para com a guerra […] Watergate permitiu lavar os pecados nacionais. Preparou a América para ‘renascer de novo’ primeiro através do inocente Gerald Ford e depois pelo bom cristão Jimmy Carter, o campeão dos direitos humanos”.

“As ondas levantadas pelo Watergate foram uma distração para as ações de maior significado empreendidas pela administração Nixon, particularmente o abanão da economia mundial de agosto de 1971 quando decidiu suspender (ou seja, acabar) a convertibilidade do dólar em ouro. Tal aconteceu como resultado direto do enorme défice dos EUA devido ao custo da Guerra do Vietname.”

 

Quanto à esquerda nos EUA, o seu testemunho:

 

Meio século depois, o movimento americano contra a guerra desapareceu como força política influente sem deixar rasto. Há agora mais críticos de guerra inteligentes do que então, mas na sua grande maioria encontram-se confinados ao mundo virtual da net, sem qualquer impacto num sistema político que está totalmente integrado num complexo industrial militar que assenta em conflitos intermináveis.”

 

Como profissional na Associate Press e na Agence France Press, Jonhstone apercebeu-se melhor sobre como as notícias e as histórias eram selecionadas de acordo com as preferências da ordem instituída, e de como a comunicação social promovia a leaders de opinião certas pessoas entre os grupos que promoviam ou lideravam protestos. Casos de Daniel Cohn Bendit e do filósofo Bernard Henri Levy.

 

Aborda também alguns dos acontecimentos que se verificaram como o assassinato o primeiro ministro sueco Olaf Palm, e como a partir daí a Suécia se foi mostrando subserviente aos EUA; as causas e as consequências do assassinato de Aldo Moro, na Itália, por militantes da extrema esquerda; o assassinato do moderado palestiniano Issa Sartawi, numa conferência do Partido Socialista; a tentativa de assassinato do Papa João Paulo II por um militante turco e a campanha de propaganda que se seguiu com a intenção de o ligar à Bulgária e à União Soviética.

 

Quando a União Soviética colapsa, os EUA ficam livres para atuarem como quiserem. Johnstone resume esse momento com duas observações: “Mikhail Gorbachev era um negociador ingénuo, continuadamente ludibriado pelos americanos”, e “A total rendição do ‘comunismo real’ existente no Leste contribuiu para a derrota da Esquerda Ocidental”.

 

A dissolução da União Soviética marca também o início da dominação mundial das políticas económicas neoliberais. A formação da União Europeia em 1992 implicou o aparecimento, imposição e obrigações que favoreciam os bancos privados e outras instituições, ao mesmo tempo que restringiam ou impediam a intervenção do estado para a solução de problemas.

 

Com o desaparecimento do Pacto de Varsóvia em 1991, a OTAN (mais conhecida por NATO) ficava sem finalidade para existir, pelo que rapidamente encontrou uma nova finalidade, na demonização da Jugoslávia (único estado que continuava socialista) e da Sérvia. Aparece então o termo “imperialismo humanitário”, que serviu de justificação para a promoção do “Exército de Libertação do Kosovo” e para o bombardeamento da Sérvia durante 78 dias. A Jugoslávia acabou.

 

Após o “imperialismo humanitário” aparece o conceito de “Direito de Proteger” (Right to Protect, R2P) como justificação para violar a soberania nacional, que começou a ser utilizado pela OTAN na sua campanha contra a Líbia com vista à remoção de Gadhafi.

 Mais tarde, volta a ser utilizado na intervenção na Síria, incluindo no patrocínio e formação de exércitos de terroristas. Sempre que os EUA e a OTAN querem intervir, há sempre uma “crise humanitária” e “responsabilidade de proteger”.

 

Sobre o movimento dos “Coletes Amarelos” em França, Jonhstone explica como ele se formou e cresceu, agregando imensas pessoas vulgares independentemente das suas opções partidárias. Comprando-o com o movimento estudantil de maio de 1968, diz-nos que os Coletes Amarelos têm muito maior apoio:

 

Sociologicamente esta revolta é o oposto de maio de 68, Em vez de estudantes privilegiados que imaginavam a revolução de uma classe de operários não existente num tempo de prosperidade, [os coletes amarelos] são de facto a classe trabalhadora em tempos difíceis.”

 

Sobre a forma como os Coletes Amarelos têm sido atacados pela polícia (imensos feridos e até algumas mortes), escreve:

 

Curiosamente, toda esta dura e pesada repressão tem falhado totalmente quando se trata de prevenir que os membros mascarados do “Bloque Negro” ateiam fogos, partam montras, ataquem a polícia … A polícia nada fez para evitar que desconhecidos invadissem o andar térreo do Arco do Triunfo para partirem a estátua de Marianne …. Vale a pena notar que quase todos os seriamente aleijados eram manifestantes pacíficos dos Coletes Amarelos, ao passo que os Bloque Negro escapavam sem serem tocados. Pode ser que os Bloque Negro acreditassem que estavam a atacar o sistema. Quaisquer que fossem as suas intenções, eles fizeram o papel de auxiliares do governo à repressão.”

 

Johnstone, aponta muitos exemplos ao longo dos últimos 50 anos de como frequentemente os instigadores foram agentes do governo ou da polícia. Segundo ela, a violência e o vandalismo são nocivos para as causas progressistas, mesmo quando delas resultem publicidade e atenção dos media.

Segundo ela, os esforços dos grandes meios de comunicação social têm vindo a concentrarem-se no controle dos pensamentos e raivas das pessoas:

 

Os principais meios de comunicação social têm-se vindo a afastar cada vez mais da missão de informar o público, aproximando-se cada vez mais em dizer-lhes o que devem pensar e o que devem fazer.”

 

E finaliza com um desejo e um aviso, para que todas as diferentes forças trabalhem juntas em favor da paz, mesmo que não concordem em todos os pontos que possam definir “políticas identitárias”. E, não nos devemos distrair dos objetivos centrais que são a guerra e a desigualdade social. E avisa que quando a Esquerda se focaliza na franja à direita, o poder instituído fica não só contente, como até encoraja e promove a distração.

 

 

 

 

 

 

 

(290) “Arte, Verdade e Política”

 Tempo estimado de leitura: 15 minutos.

 

Não há distinções rígidas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa, Harold Pinter.

 

A verdade tem apenas que ver com a forma como os Estados Unidos entendem ser o seu papel no mundo e como optam por levá-lo a cabo.

 

A maioria dos políticos, segundo as evidências de que dispomos, não está interessada na verdade, mas apenas no poder e na manutenção desse poder.

 

O que nos rodeia é um enorme tapete de mentiras, do qual nos alimentamos.

 

Gente inocente, na verdade, sempre sofre.

 

Às vezes um escritor tem mesmo que quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos encara.

 

 

 

 

Os prémios Nobel valem o que valem, são o que são. Frutos da época, instituídos em 1895, começaram a ser atribuídos pela primeira vez em 1901. E se bem que em quatro das suas categorias não se tenham verificado grandes objeções (física, química, medicina e economia), já em duas outras (paz e literatura), essa tal quase unanimidade não se verifica.

Recorde-se só em tempos mais recentes algumas das polémicas que envolveram a atribuição dos Nobel da paz a Henry Kissinger e a Aung San Suu Kyi, e os de literatura, não atribuídos em 2018 devido ao escândalo sexual – e não só - revelado no seio dos “juízes”, o de 2019 atribuído a Peter Handke (pelas suas posições de branqueamento dos genocídios na guerra da Bósnia), o de 2016 a Bob Dylan (que nem um agradecimento esboçou, enviando apenas Patti Smith à cerimónia de entrega, o que não o coibiu de ficar com o prémio pecuniário), e o deste ano de 2020 à pouco conhecida e tranquila Louise Gluck pela “sua voz eminentemente poética que juntamente com uma beleza austera torna universal a existência individual”.

 

As polémicas que envolvem a atribuição destes prémios são passíveis de várias leituras, desde as críticas ao próprio prémio em si até às provenientes das caraterísticas pessoais ou políticas das personalidades escolhidas. Parece ser, contudo, mais interessante focar a atenção sobre as escolhas que foram sendo feitas para tentar aquilatar do que elas possam refletir sobre o seu significado relativamente à sociedade em que vivemos.

O exemplo mais revelante foi o da atribuição do Nobel em 2005 a Harold Pinter e ao seu discurso de aceitação que intitulou “Arte, Verdade e Política”. (1)

Quando o sistema de poder vigente permite uma exposição como a feita por Pinter, tal poderá significar que o sistema estava distraído, ou que acreditava ser tão intocável a ponto de permitir alguns devaneios artísticos, ou que considerava a arte como faits divers e utilizava-a não apenas para “chocar os burgueses” mas para “espantar” toda a gente, ou que o controle estava a ser tão efetivo que ninguém já se importaria com as escolhas que lhes vêm sendo impostas (pois elas são momentâneas, passam, e seguem-se rapidamente outras coisas novas de igual sem importância).

Em resumo: será que tal discurso poderia ser feito (autorizado) nos dias de hoje?

 

Em 1964, Jean-Paul Sartre recusou aceitar o Nobel de literatura. Em 2005, Pinter terminou o seu discurso dizendo que a definição da verdade era uma obrigação que recaía sobre todos nós e que “se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não teremos esperança para restaurar o que está quase perdido para nós - a dignidade do homem.”

 

 

“Arte, verdade e política”.

 

Eis o discurso completo de Harold Pinter a quando da aceitação do Prémio Nobel de Literatura, 1905:

 

“Em 1958, escrevi o seguinte:

Não há distinções rígidas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa.’

Acredito que essas afirmações ainda fazem sentido e que ainda se aplicam à exploração da realidade através da arte. Portanto, como escritor, defendo-as, mas como cidadão não posso. Como cidadão, devo perguntar: O que é verdade? O que é falso?

 No drama, a verdade é para sempre ilusória. Nunca a encontra, mas a sua procura é compulsiva. É a sua procura o que claramente impulsiona o esforço. A procura é a tarefa. Muitas vezes no escuro tropeça-se na verdade, colidindo com ela, ou apenas vislumbrando uma imagem ou uma forma que parece corresponder à verdade, muitas das vezes sem se perceber que se o fez.

Mas a verdade real é que na arte dramática nunca se encontra uma verdade. Há muitas. Essas verdades desafiam-se umas às outras, recuam umas das outras, refletem-se umas às outras, ignoram-se, provocam-se umas às outras, estão cegas umas para as outras. Às vezes sente-se que num dado momento se conseguiu ter nas mãos a verdade, mas então ela escapa-se por entre os dedos e perde-se.

 

Têm-me muitas vezes perguntado como é que as minhas peças acontecem. Não sei dizer. Nem sequer posso resumir as minhas peças, só posso dizer que foi isso que aconteceu. Isso é o que elas disseram. Isso foi o que fizeram.

 A maioria das peças é concebida a partir de uma linha, uma palavra ou uma imagem. Essa palavra dada, é geralmente logo seguida por uma imagem. Dou-vos dois exemplos de duas linhas que surgiram do nada na minha cabeça, seguidas por uma imagem.

As peças são The Homecoming e Old Times. A primeira linha de The Homecoming é “O que é que você fez com a tesoura?” A primeira linha de Old Times é “Escuro”.

Em qualquer dos casos não tive qualquer outra informação.

 

No primeiro caso, alguém estava obviamente à procura de uma tesoura, perguntando sobre o seu paradeiro a alguém que suspeitava que provavelmente a tivesse roubado. Mas, de alguma forma, eu sabia que a pessoa a quem me dirigia não se importava minimamente quer com a tesoura, quer para a pergunta que lhe fizera.

Em “Dark”, começo com a descrição do cabelo de alguém, o cabelo de uma mulher, e isso era a resposta a uma pergunta. Em qualquer dos casos, vi-me brigado a prosseguir com o assunto. Isso aconteceu visualmente, num desvanecimento muito lento, da sombra para a luz.

 

Começo sempre uma peça chamando aos personagens A, B e C.

Na peça que se chamou “The Homecoming”, vi um homem entrar numa sala deserta e fazer uma pergunta a um jovem que se encontrava sentado num sofá feio, lendo um jornal de desporto. Por qualquer razão, suspeitei que A era o pai e que B era o filho, tudo isto sem ter provas. No entanto, tudo isso foi confirmado pouco tempo depois, quando B (mais tarde chamado de Lenny) disse a A (mais tarde chamado de Max):

Pai, importa-se se eu mudar de assunto? Eu quero perguntar-lhe uma coisa. O prato que comemos ao jantar, como se chamava? Como é que o chama? Por que não compra um cão? Você é um cozinheiro de cachorros. Verdade. O pai julga que está cozinhando para muitos cachorros.”

Portanto, uma vez que B chama A de 'pai', parecia-me razoável supor que eles fossem pai e filho. E também parecia claro que o cozinheiro e os seus cozinhados não eram muito apreciados. Isso significava que não havia mãe? Não sabia. Mas, como eu me disse a mim mesmo na época, o início nunca conhece o fim.

 'Dark.' Uma grande janela. Céu noturno. Um homem, A (mais tarde chamado de Deeley) e uma mulher, B (mais tarde chamada de Kate), sentados a beberem.   “Gordo ou magro?” pergunta o homem. Mas de quem estão eles falando? Vejo então de pé à janela, uma mulher, C (mais tarde chamada de Anna), a uma outra luz, de costas para eles, com cabelos escuros.

 

É um momento estranho, o de criar personagens que até aquele momento não tinham existência. O que se segue é intermitente, incerto, até alucinatório, embora às vezes possa ser uma avalanche incontrolável.

A situação do autor é estranha. Num sentido, ele não é bem-vindo pelos personagens. Os personagens resistem-lhe, não são fáceis de conviver, são impossíveis de definir. Não se lhes pode dar ordens. Até certo ponto joga-se um jogo sem fim com eles, do gato e rato, do cão cego, do esconde-esconde. Mas finalmente acaba por se descobrir que se tem pessoas de carne e osso nas nossas mãos, pessoas com vontade e sensibilidade individual próprias, feitas de partes componentes que se é incapaz de mudar, manipular ou distorcer.

Portanto, a linguagem na arte continua a ser uma transação altamente ambígua, uma areia movediça, um trampolim, uma piscina congelada que perante o autor pode ceder a qualquer momento.

 

Mas, como disse, a busca pela verdade nunca pode parar. Não pode ser deixada para depois, não pode ser adiada. Tem de ser enfrentada, ali mesmo, no local.

O teatro político apresenta um conjunto de problemas totalmente diferente. Deve ser evitado a todo custo o sermão. A objetividade é essencial. Os personagens devem ter autorização para respirarem o seu próprio ar. O autor não pode confiná-los e restringi-los para satisfazer o seu próprio gosto, disposição ou preconceito. Ele deve estar preparado para abordá-los por uma variedade de ângulos, de uma gama completa e desinibida de perspetivas, apanhá-los ocasionalmente de surpresa, mas dar-lhes a liberdade para seguirem o caminho que quiserem. Isso nem sempre funciona.

Já a sátira política, não segue nenhum desses preceitos, na verdade faz exatamente o contrário, é essa a sua função própria.

 

Na minha peça “The Birthday Party”, penso que permito que toda uma gama de opções se desenrole numa densa floresta de possibilidades antes de finalmente se concentrar num ato de subjugação.

Mountain Language”, finge não ter esse tipo de opções. Mantem-se brutal, curta e feia. Mas na peça, os soldados divertem-se um pouco com isso. Às vezes, esquecemos que os torturadores se aborrecem facilmente. Eles precisam de um pouco de riso para manter o ânimo. Isso foi confirmado, é claro, pelos eventos em Abu Ghraib, em Bagdad. “Mountain Language” dura apenas 20 minutos, mas poderia prosseguir hora após hora, repetindo indefinidamente o mesmo padrão indefinidamente, hora após hora.

Por outro lado, já em “Ashes to Ashes”, tudo parece estar a acontecer debaixo de água. Uma mulher a afogar-se, a mão acima das ondas, descaindo para fora de vista, tentando chamar a atenção dos outros, mas não encontrando ninguém, nem acima nem debaixo de água, encontrando apenas sombras, reflexos, flutuando; a mulher, uma figura perdida numa paisagem em que se afoga, uma mulher incapaz de escapar da desgraça que parecia pertencer apenas a outros.

Mas como eles morreram, ela também deve morrer.

 

A linguagem política, como a usada pelos políticos, não se aventura em nenhum destes territórios uma vez que a maioria dos políticos, segundo as evidências de que dispomos, não está interessada na verdade, mas apenas no poder e na manutenção desse poder. Para manter esse poder é essencial que as pessoas se mantenham na ignorância, que vivam na ignorância da verdade, até mesmo da verdade das suas próprias vidas. O que nos rodeia, portanto, é um enorme tapete de mentiras, do qual nos alimentamos.

 

Como todo mundo aqui sabe, a justificação para a invasão do Iraque foi que Saddam Hussein possuía um conjunto altamente perigoso de armas de destruição em massa, algumas das quais poderiam ser disparadas em 45 minutos, causando uma devastação terrível. Foi-nos assegurado que isso era verdade. Isso não era verdade.

Fomos informados de que o Iraque tinha relações com a Al Qaeda e compartilhava a responsabilidade pela atrocidade em Nova York a 11 de setembro de 2001. Tínhamos a certeza de que isso era verdade. Isso não era verdade. Disseram-nos que o Iraque ameaçava a segurança do mundo. Garantiram-nos que era verdade. Não era verdade.

A verdade é algo totalmente diferente. A verdade tem a ver com a forma como os Estados Unidos entendem ser o seu papel no mundo e como optam por levá-lo a cabo.

 

Mas antes de voltar ao presente, gostaria de olhar para o passado recente, ou seja, para a política externa dos Estados Unidos desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Eu creio que é obrigatório sujeitarmos esse período a algum tipo de escrutínio, mesmo que limitado, e que neste caso será todo o tempo que me é permitido aqui.

Todos sabem o que aconteceu na União Soviética e em toda a Europa Oriental durante o período pós-guerra: a brutalidade sistemática, as atrocidades generalizadas, a supressão implacável do pensamento independente. Tudo isso foi já totalmente documentado e verificado.

 Mas o que interessa aqui mostrar é que os crimes cometidos pelos EUA no mesmo período, foram só superficialmente registrados, e muito menos documentados, muito menos reconhecidos, e ainda muito menos reconhecidos como crimes.

Eu acredito que isso deve ser abordado porque a verdade tem uma influência considerável na posição do mundo. Embora limitados, até certo ponto, pela existência da União Soviética, as ações dos Estados Unidos em todo o mundo deixaram claro que eles concluíram que tinham carta branca para fazerem o que quisessem.

A invasão direta de um estado soberano nunca foi de facto o método preferido da América. No geral, preferiu sempre o método que descreveu como 'conflito de baixa intensidade'. Conflito de baixa intensidade, significa que milhares de pessoas morrem, mas mais lentamente do que se se lançasse sobre elas uma bomba. Significa que infecta o coração do país, que faz crescer um tumor maligno e fica a ver a gangrena florescer.

Quando a população for subjugada - ou espancada até a morte - é o mesmo – bem como os amigos, então os militares e as grandes corporações, sentam-se confortavelmente no poder, e a América aparece nas televisões a dizer que a democracia prevaleceu. Isso foi o lugar-comum na política externa dos Estados Unidos nos anos a que me refiro.

A tragédia da Nicarágua foi um desses casos altamente significativo. Decidi apresentá-lo aqui como um exemplo da visão dos Estados Unidos sobre o seu papel no mundo, tanto naquela época quanto agora.

Estive presente numa reunião na embaixada dos Estados Unidos em Londres no final dos anos 1980.

O Congresso dos Estados Unidos estava prestes a decidir se devia dar mais dinheiro aos Contras na sua campanha contra o estado de Nicarágua. Fui membro de uma delegação que falava em nome da Nicarágua, em que o membro mais importante dessa delegação era o padre John Metcalf. O representante da parte americana era Raymond Seitz (então o número dois da Embaixada, mais tarde promovido a embaixador). O Padre Metcalf disse:

 

 'Senhor, eu sou responsável por uma paróquia no norte da Nicarágua. Os meus paroquianos construíram uma escola, um centro de saúde, um centro cultural. Vivemos em paz. Há alguns meses, uma força dos Contra, atacou a paróquia. Destruíram tudo: a escola, o posto de saúde, o centro cultural. Violaram enfermeiras e professores, massacraram médicos da maneira mais brutal. Comportaram-se como selvagens. Por favor, exija que o governo dos Estados Unidos retire o apoio a essa chocante atividade terrorista.”

Raymond Seitz tinha uma muito boa reputação como sendo um homem racional, responsável e altamente sofisticado. Era muito respeitado nos círculos diplomáticos. Ele ouviu, fez uma pausa e então falou com alguma gravidade.

'Padre', disse ele, 'deixe-me dizer-lhe uma coisa. Na guerra, pessoas inocentes sempre sofrem. ' Houve um silêncio gelado. Nós encarámo-lo. Ele nem pestanejou.

Gente inocente, na verdade, sempre sofre.

Por fim, alguém disse:

'Mas neste caso “gente inocente” foi vítima de uma atrocidade horrível subsidiada pelo seu governo, uma entre muitas. Se o Congresso permitir dar aos Contras mais dinheiro, mais atrocidades desse tipo acontecerão. Não é este o caso? Portanto, não é o seu governo culpado de apoiar atos de assassinato e destruição de cidadãos de um estado soberano? '

 

Seitz manteve-se imperturbável. "Não concordo que os factos apresentados apoiem ​​as suas afirmações", disse ele.

 Quando estávamos a sair da embaixada, um assessor dos Estados Unidos disse-me que gostava das minhas peças de teatro. Nem respondi.

Devo lembrar que, na época, o presidente Reagan fez a seguinte declaração: 'Os Contras são o equivalente moral dos nossos Pais Fundadores'.

Os Estados Unidos apoiaram a brutal ditadura de Somoza na Nicarágua por mais de 40 anos. O povo nicaraguense, liderado pelos sandinistas, derrubou esse regime em 1979, numa revolução popular de tirar o fôlego.

 Os sandinistas não eram perfeitos. Eles possuíam a sua parte de arrogância e a sua filosofia política continha uma série de elementos contraditórios. Mas eles eram inteligentes, racionais e civilizados. Eles propuseram-se a estabelecer uma sociedade estável, decente e pluralista. A pena de morte foi abolida. Centenas de milhares de camponeses atingidos pela pobreza foram resgatados dessa vida de mortos. Mais de 100.000 famílias receberam títulos de terra. Duas mil escolas foram construídas. Uma campanha de alfabetização bastante notável reduziu o analfabetismo para menos de um sétimo. A educação gratuita foi estabelecida, bem como um serviço de saúde gratuito. A mortalidade infantil foi reduzida em um terço. A poliomielite foi erradicada.

Os Estados Unidos denunciaram essas conquistas como sendo uma subversão marxista / leninista. Na opinião do governo dos Estados Unidos, tratava-se de um exemplo perigoso que estava a ser dado. Se a Nicarágua pudesse estabelecer normas básicas de justiça social e econômica, se pudesse elevar os padrões de saúde e educação e alcançar a unidade social e o respeito próprio nacional, os países vizinhos fariam as mesmas perguntas e fariam as mesmas coisas. Naturalmente, houve na época uma forte resistência ao status quo em El Salvador.

Falei anteriormente sobre 'o tapete de mentiras' que nos cerca. O presidente Reagan descrevia a Nicarágua como uma "masmorra totalitária". No geral, a comunicação social e o governo britânico consideraram isso como um comentário preciso e justo. Mas de fato não havia registo de esquadrões da morte sob o governo sandinista. Não houve registo de tortura. Não houve registo de brutalidade militar sistemática ou oficial. Nenhum padre foi assassinado na Nicarágua. Na verdade, havia três padres no governo, dois jesuítas e um missionário Maryknoll.

As masmorras totalitárias ficavam na verdade ao lado, em El Salvador e na Guatemala. Os Estados Unidos derrubaram o governo democraticamente eleito da Guatemala em 1954, estimando-se que mais de 200.000 pessoas tenham sido vítimas das sucessivas ditaduras militares.

Seis dos mais ilustres jesuítas do mundo foram cruelmente assassinados na Universidade Centro-americana de San Salvador em 1989 por um batalhão do regimento Alcatl treinado em Fort Benning, Geórgia, EUA. Aquele homem extremamente corajoso, o arcebispo Romero, foi assassinado enquanto rezava a missa. Estima-se que 75.000 pessoas morreram.

Por que foram mortas? Foram mortas porque acreditavam que uma vida melhor era possível e deveria ser alcançada. Essa crença fê-los imediatamente ser qualificou como comunistas. Eles morreram porque ousaram questionar o status quo, o patamar sem fim de pobreza, doença, degradação e opressão, único direito adquirido de nascença.

 Os Estados Unidos finalmente derrubaram o governo sandinista. Demorou alguns anos e uma resistência considerável, mas a perseguição econômica implacável e 30.000 mortos finalmente minou o espírito do povo da Nicarágua. Eles estavam exaustos e atingidos pela pobreza mais uma vez. Os casinos voltaram para o país. Saúde e educação gratuitas acabaram. Os grandes negócios voltaram a toda a força. A 'democracia' prevaleceu.

 

Mas essa 'política' não se restringia apenas à América Central. Foi realizada em todo o mundo. Sem fim à vista. E é como se nunca tivesse acontecido.

 Os Estados Unidos após o fim da Segunda Guerra Mundial apoiaram e, em muitos casos, organizaram no mundo, todas as ditaduras militares de direita. Refiro-me à Indonésia, Grécia, Uruguai, Brasil, Paraguai, Haiti, Turquia, Filipinas, Guatemala, El Salvador e, claro, Chile. O horror que os Estados Unidos infligiram ao Chile em 1973 nunca pode ser eliminado e nunca pode ser perdoado.

Centenas de milhares de mortes ocorreram nesses países. Elas aconteceram? E são em todos os casos atribuíveis à política externa dos Estados Unidos? A resposta é sim, elas aconteceram e são atribuíveis à política externa americana. Mas você nunca saberia.

Isso nunca aconteceu. Nunca aconteceu nada. Mesmo enquanto estava a acontecer, não estava a acontecer. Não importa. Não tinha interesse. Os crimes dos Estados Unidos foram sistemáticos, constantes, cruéis, implacáveis, mas muito poucas pessoas falaram sobre eles. Tem de se atribuir isso à América. Ela conseguiu manipular clinicamente o exercício do seu poder em todo o mundo, mascarando-se como uma força para o bem universal. É um ato de hipnotismo brilhante, até espirituoso e altamente bem-sucedido.

Digo-vos que os Estados Unidos são, sem dúvida, o maior espetáculo em cena. Pode ser brutal, indiferente, desdenhoso e implacável, mas também é muito inteligente. Como vendedor, está por conta própria e sua mercadoria mais vendável é o amor próprio. É um vencedor. Ouvimos todos os presidentes americanos a dizerem na televisão as palavras 'o povo americano', como na frase, 'Eu digo ao povo americano que está na hora de rezar e defender os direitos do povo americano e peço ao povo americano para confiar na ação que o seu presidente está prestes a realizar em nome do povo americano.

 É um estratagema brilhante. A linguagem é realmente empregada para manter o pensamento sob controle. As palavras "o povo americano" fornecem uma almofada verdadeiramente voluptuosa de segurança. Não se precisa pensar. Tem-se apenas de deitar na almofada. A almofada pode estar a sufocar a sua inteligência e as suas faculdades críticas, mas ela é muito confortável. Isso não se aplica, é claro, aos 40 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza e aos 2 milhões de homens e mulheres presos no vasto gulag de prisões, que se estende por todos os Estados Unidos.

Os Estados Unidos já não se preocupam com estes conflitos de baixa intensidade. Não vêm qualquer sentido em serem reticentes ou mesmo tortuosos. Colocam as suas cartas na mesa sem medo ou favor. Simplesmente não dão a mínima importância às Nações Unidas, ao direito internacional ou à dissidência crítica, considerando-os impotentes e irrelevantes. E têm também preso por uma trela, o seu próprio cordeirinho balindo atrás de si, a patética e desanimada Grã-Bretanha.

 O que aconteceu com a nossa sensibilidade moral? Alguma vez tivemos alguma? O que significam essas palavras? Será que se referem a um termo muito raramente empregado hoje em dia - consciência? Uma consciência que tem que ver não apenas com os nossos próprios atos, mas também com a responsabilidade que compartilhamos para com os atos dos outros? Estará tudo morto?

Veja-se a Baía de Guantánamo. Centenas de pessoas detidas sem acusação há mais de três anos, sem representação legal ou sem o devido processo legal, tecnicamente detidas para sempre. Esta estrutura totalmente ilegítima é mantida em desafio à Convenção de Genebra. Tudo isto não é apenas tolerado, mas consentido pela chamada “comunidade internacional”.

Este ultraje criminoso está sendo cometido por um país, que se declara 'o líder do mundo livre'.

Pensamos nós sobre os habitantes da Baía de Guantánamo? O que é que a comunicação social diz sobre eles? Eles raramente são referidos - um pequeno item na página seis. Eles foram atirados para uma terra de ninguém da qual, de facto, podem nunca mais regressar. Atualmente, muitos estão em greve de fome, sendo alimentados à força, incluindo residentes britânicos. Alimentação forçada sem sutilezas. Sem sedativo ou anestésico. Apenas um tubo enfiado no nariz e na garganta. Você vomita sangue. Isso é tortura.

 O que é que disse o Ministro do Exterior britânico sobre isto? Nada. O que disse o primeiro-ministro britânico sobre isto? Nada. Por que não? Porque os Estados Unidos disseram: criticar a nossa conduta na Baía de Guantánamo constitui um ato hostil. Vocês ou estão connosco ou contra nós. Por isso Blair cala-se.

 A invasão do Iraque foi um ato de banditismo, um ato flagrante de terrorismo de estado, demonstrando absoluto desprezo pelo conceito de direito internacional. A invasão foi uma ação militar arbitrária inspirada por uma série de mentiras e mentiras e manipulação grosseira da comunicação social e, portanto, do público; um ato destinado a consolidar o controle militar e econômico americano sobre o Médio Oriente, disfarçado, em último recurso como libertação, após todas as outras justificações terem falhado. Uma afirmação formidável de poderio militar, responsável pela morte e mutilação de milhares e milhares de pessoas inocentes.

Trouxemos tortura, bombas em cacho, urânio empobrecido, inúmeros atos de assassinato aleatório, miséria, degradação e morte para o povo iraquiano e chamámo-lo "trazer liberdade e democracia ao Médio Oriente”.

Quantas pessoas se têm que matar antes de tal ser descrito como sendo um assassínio em massa e uma guerra de criminosa? Cem mil? Mais do que suficiente, pensaria eu. Portanto, é justo que Bush e Blair sejam denunciados perante o Tribunal Penal Internacional de Justiça.

Mas Bush foi inteligente. Ele não ratificou o Tribunal Penal Internacional de Justiça. Portanto, se algum soldado americano ou político se encontrar no banco dos réus, Bush avisou que enviará os fuzileiros navais. Mas Tony Blair ratificou o Tribunal e, portanto, está disponível para ser processado. Podemos deixar o endereço do Tribunal se eles estiverem interessados. É o número 10, Downing Street, Londres.

A morte, neste contexto, é irrelevante. Tanto Bush quanto Blair colocam a morte bem longe, em segundo plano. Pelo menos 100.000 iraquianos foram mortos por bombas e mísseis americanos antes do início da guerra no Iraque. Essas pessoas não têm qualquer importância. As suas mortes não existem. Eles são apenas alvos. Nem mesmo contam para o registo de mortos. 'Não fazemos contagem de corpos', disse o general americano Tommy Frank.

 No início da invasão, foi publicada na primeira página de jornais britânicos uma fotografia de Tony Blair beijando a face de um garotinho iraquiano. “Uma criança agradecida”, dizia a legenda. Poucos dias depois, apareceu uma história e uma fotografia, numa página interior, de outro menino de quatro anos sem braços. A sua família foi morta por um míssil. Ele foi o único sobrevivente. – ‘Quando terei os meus braços de volta?’ perguntou. A história foi retirada. Bem, Tony Blair não o segurava nos braços, nem o corpo de qualquer outra criança mutilada, nem o corpo de qualquer cadáver ensanguentado. O sangue é sujo. Suja a camisa e a gravata quando estiver a fazer um discurso sincero na televisão.

Os 2.000 americanos mortos são um embaraço. Eles são transportados para casa durante a noite. Os funerais são discretos, fora das vistas. Os mutilados apodrecem nas suas camas, alguns para o resto de suas vidas. Assim, os mortos e os mutilados apodrecem, em diferentes tipos de sepulturas.

 

Eis o extrato de um poema de Pablo Neruda, 'Algumas coisas que explico’:

 

E numa manhã tudo isso estava a arder,

numa manhã as fogueiras

escaparam da terra

devorando seres humanos

 e a partir deles em chamas,

 pólvora de daí em diante,

e daí em diante sangue.

 Bandidos com aviões e mouros,

 bandidos com anéis no dedo e duquesas,

 bandidos com frades negros distribuindo bênçãos

 vieram pelo céu para matar crianças

 e o sangue de crianças corria pelas ruas

 sem barulho, como sangue de crianças.

Chacais que os chacais desprezariam

 pedras que o cardo seco morderia e cuspiria,

víboras que as víboras abominariam.

Face a face contigo, eu vi o sangue

da torre da Espanha como uma maré

para te afogar numa onda

de orgulho e facas.

Generais

traiçoeiros:

vejam a minha casa morta,

olhem para a Espanha destruída:

de cada casa que o metal em chamas flui

em vez de flores

de cada lugar da Espanha

a Espanha emerge

 e de cada criança morta um rifle com olhos

e de todo crime nascem balas

 que um dia encontrarão

 o alvo de seus corações.

E tu perguntarás: por que é que o seu poema

 não fala de sonhos e folhas

 e dos grandes vulcões da sua terra natal.

Venha ver o sangue nas ruas.

Venha ver

O sangue nas ruas.

Venha ver o sangue

nas ruas!

 

Deixem-me tornar bem claro que, ao citar o poema de Neruda, não estou de forma alguma a comparar a Espanha republicana ao Iraque de Saddam Hussein. Cito Neruda porque em nenhum sítio de poesia contemporânea li uma descrição visceral tão poderosa do bombardeamento de civis.

Disse anteriormente que os Estados Unidos são agora totalmente francos, colocando as cartas na mesa. É esse o caso. A sua política oficial declarada é agora definida como de 'domínio de espectro total'. Este não é o meu termo, é o deles. 'Domínio de espectro total' significa controle de terra, mar, ar e espaço e todos os recursos associados.

 Os Estados Unidos detêm agora 702 instalações militares em todo o mundo espalhadas por 132 países, com a honrosa exceção da Suécia, é claro. Não se sabe bem como o conseguiram, mas eles estão lá.

Os Estados Unidos possuem 8.000 ogivas nucleares ativas e operacionais. Duas mil estão em alerta rápido, prontas para serem lançadas com aviso de 15 minutos. E estão desenvolvendo novos sistemas nucleares, conhecidos como bunker busters.

Os britânicos, sempre cooperantes, pretendem substituir o seu próprio míssil nuclear, o Trident. Quem, pergunto-me eu, tentam eles atingir? Osama bin Laden? Vocês? Eu? Zés Ninguém? China? Paris? Quem sabe?

O que sabemos é que essa insanidade infantil - a posse e   ameaça de utilização de armas nucleares - está no cerne da atual filosofia política americana. Devemos lembrar-nos que os Estados Unidos mantêm bases militares permanentes e não dão sinais de as abandonar.

 Muitos milhares, senão milhões, de pessoas nos próprios Estados Unidos estão comprovadamente enojados, envergonhados e irritados com as ações de seu governo, mas como as coisas estão, não constituem uma força política coerente - ainda. Mas a ansiedade, a incerteza e o medo que podemos ver ir diariamente crescendo nos Estados Unidos, provavelmente não diminuirão.

 

Sei que o presidente Bush tem muitos redatores de discursos extremamente competentes, mas gostaria de voluntariar-me para o trabalho. Proponho o seguinte breve discurso que ele pode fazer à nação pela televisão. Eu vejo-o sério, cabelo cuidadosamente penteado, vencedor, sincero, muitas vezes cativante, às vezes com um sorriso irônico, curiosamente atraente, um homem macho.

 'Deus é bom. Deus é grande. Deus é bom. O meu Deus é bom. O Deus de Bin Laden é ruim. O seu Deus é mau. O Deus de Saddam era mau, exceto que ele não tinha nenhum. Ele era um bárbaro. Nós não somos bárbaros. Não cortamos a cabeça das pessoas. Acreditamos na liberdade. Deus também. Eu não sou um bárbaro. Eu sou o líder democraticamente eleito de uma democracia que ama a liberdade. Somos uma sociedade compassiva. Nós aplicamos eletrocussão compassiva e injeção letal compassiva. Somos uma grande nação. Eu não sou um ditador. Ele é. Eu não sou um bárbaro. Ele é. E ele é. Todos eles são. Eu possuo autoridade moral. Vêm este punho? Esta é minha autoridade moral. E não se esqueçam disso.’

 

A vida de um escritor é uma atividade altamente vulnerável, quase sem apoio. Não temos que chorar por causa disso. O escritor faz a sua escolha e fica preso a ela. Mas a verdade é que está exposto a todos os ventos, alguns deles realmente gelados. Está entregue a si próprio, está sozinho, num limbo. Não encontra refúgio nem abrigo, nenhuma proteção, a menos que minta, e neste caso, é claro, construiu a sua própria proteção e, pode-se então dizer que se tornou um político.

 

Já me referi à morte várias vezes esta noite. Vou citar agora um poema de minha autoria chamado "Morte".

 

Onde foi encontrado o cadáver?

Quem encontrou o cadáver?

Estava o cadáver morto quando foi encontrado?

 Como foi encontrado o cadáver?

Quem era o cadáver?

Quem era o pai, a filha, o irmão,

ou o tio, a irmã, a mãe ou o filho

do corpo morto e abandonado?

O corpo estava morto quando foi abandonado?

O corpo foi abandonado?

 Por quem foi abandonado?

O cadáver estava nu ou vestido para uma viagem?

 O que o fez declarar que o cadáver estava morto?

Você declarou o cadáver morto?

O quão bem você conhecia o cadáver?

 Como sabia que o cadáver estava morto?

Você lavou o cadáver?

Você fechou-lhe os dois olhos?

 Você enterrou o corpo?

 Você deixou-o abandonado?

 Você beijou o cadáver?

 

Quando nos olhamos ao espelho, pensamos que a imagem que temos diante de nós é precisa. Mas basta movermo-nos um milímetro e a imagem muda. Na verdade, estamos a olhar para uma gama infinita de reflexos. Às vezes um escritor tem mesmo que quebrar o espelho - pois é do outro lado desse espelho que a verdade nos encara.

Acredito que, apesar das enormes probabilidades que existem, a determinação intelectual inabalável, inabalável e feroz como cidadãos, de definir a verdade real das nossas vidas e das nossas sociedades é uma obrigação crucial que recai sobre todos nós. Na verdade, é obrigatória. Se tal determinação não estiver incorporada na nossa visão política, não teremos esperança para restaurar o que está quase perdido para nós - a dignidade do homem.”

 

 

 

 

  • file:///C:/Users/HELDER~1/AppData/Local/Temp/ArtTruthandPolitics.pdf

 

(289) A candeia de Díógenes

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Deus voltou-se de costas e começou a chorar.

 

A única forma para se evitar o comunismo é seguir a China.

 

É possível um outro fim do mundo.

 

Somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários, Terence McKenna.

 

 

 

 

Em pleno dia de sol de verão na Grécia Antiga, Diógenes foi encontrado por Sócrates a caminhar por uma das ruas mais movimentadas da cidade, com uma candeia acesa na mão, como se estivesse a iluminar o caminho. Sócrates não resistiu a perguntar-lhe o que andava a fazer. Ao que Diógenes lhe respondeu:

 

Ando à procura de um homem honesto.”

 

 

Num recente artigo (1), Slavoj Zizek, conta-nos uma anedota que corria nos tempos da guerra fria, passada entre Richard Nixon dos EUA, Leonid Brezhnev da URSS e Eric Honecker da RDA, quando resolveram interrogar Deus para saberem qual seria o futuro reservado para os seus respetivos países.

Eis o que Deus disse a Nixon: “No ano 2050, os EUA serão comunistas.” Nixon voltou-se de costas e começou a chorar. Para Brezhnev, Deus disse: “No ano 2050, a União Soviética será uma província da China.” Brezhnev voltou-se de costas e começou a chorar. E finalmente Honecker perguntou: “E o que acontecerá à minha amada RDA?” Deus voltou-se de costas e começou a chorar.

 Zizek vai transportar esta anedota para a atualidade, agora com novos personagens, desta vez com Putin, o presidente chinês Xi Jinping e Donald Trump. Eis a resposta de Deus para Putin: “A Rússia estará controlada pela China”. Putin voltou-se de costas e chorou. Para Xi, Deus disse: “A China continental será dominada por Taiwan”. Xi voltou-se de costas e chorou. E quando Trump faz a mesma pergunta sobre os EUA, Deus voltou-se de costas e chorou.

 

Com esta forma ligeira e divertida, Zizek pretende chamar-nos a atenção para o facto de as sociedades consideradas como as mais desenvolvidas da nossa época, serem muito idênticas no que se refere ao tipo e aos métodos de desenvolvimento que prosseguem. Todas elas seguem sistemas económicos capitalistas, cada vez mais assentes na vigilância e direção eletrónica consentida ou não dos seus cidadãos, numa construção totalitária devidamente articulada, em maior ou menor grau, entre empresas privadas e estado. 

E segundo ele, quem vai à frente nesta integração programada, é, sem dúvida, a China (exemplos comezinhos são os dados recentes vindos da China onde devido a meia dúzia de casos de Covid testaram uma cidade de 9 milhões de habitantes em cinco dias, e a distribuição gratuita da vacina a todos os habitante, o que lhe possibilitará prover às necessidades objetivas de cada um dos cidadãos de melhor forma que outro estado garanta).

 

A quem queira evitar o reaparecimento do comunismo, recomenda que se deve seguir o exemplo da China:

 

“A única forma para se evitar o comunismo será seguir a China.”

 

Talvez preocupado com esta sua conclusão, Zizek sugere-nos uma alternativa:

 

“É possível um outro fim do mundo.”

 

De certa forma, esta sua análise política tem apenas que ver com os aspetos gerais de uma possível evolução da sociedade humana, mesmo quando propõe a possibilidade de um outro mundo (recordemos que também findável) em que essa alternativa aparece escamoteada.

 

Para se tentar perceber melhor em que assenta esta análise macropolítica da evolução da sociedade humana, devemos de ter em conta a interação e interdependência entre o comportamento humano, o meio e a sociedade. Embora seja difícil de separar esta interdependência, pode-se considerar que alterar a sociedade significa alterar o comportamento humano, mas também que alterar o comportamento humano significa alterar a sociedade.

Pelo que se torna fundamental começar por tentar definir a sociedade em que, por acaso ou por desígnio vivemos, ao nível de comportamento individual: que valores fazem parte dele? Que valores incentivamos os mais novos a seguirem?

 

Vivemos numa sociedade em que não somos incentivados, nem somos valorizados por sermos melhores pessoas, melhores pais, melhores colegas, melhores amigos, melhores ouvintes, melhores cuidadores. Antes pelo contrário, somos valorizados por sermos famosos, por sermos influentes, por aumentarmos os negócios, por sermos promovidos, por esmagarmos a concorrência, por sermos poderosos.

Ter “sucesso” significa ter muitos empregados, muitas pessoas subservientes, muitos consumidores, muitos seguidores, muitas pessoas que nos ouçam e vejam e que julguem que somos importantes. É a isto a que a maior parte das pessoas dedica a sua vida, especialmente os que pretendem deter alguma influência.

Tudo à nossa volta, desde as universidades aos filmes e espetáculos, nos encaminha para esses valores associados ao “sucesso”: conquista e domínio.

Não é, pois, de admirar que a sociedade não priorize os assuntos sociais, a saúde, a compaixão, a solidariedade, o bem-estar mínimo. Não é, pois, de admirar que haja um choque entre aquilo que se ensina em casa e o que se passa lá fora, no “mundo real”. E que quando se “escolha” quem nos vai representar, representantes do “mundo real”, estes não se preocupem com valores que não sejam os do seu mundo.

Daí que as pessoas que escolhemos sejam aquelas que representam o tão ansiado “sucesso”.  

Daí Terence McKernna (1946-2000), o filósofo místico etnobotânico poeta ativista ensaísta cultista do conhecimento do desconhecido, ter notado que:

 

Somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários. Somo conduzidos pelos menores de entre nós e nós não ripostamos contra os valores desumanizantes que nos são impingidos como valores de referência.” (2)

 

 

 

Relembro a “Brevíssima Síntese da História Contemporânea” de Galeano:

 

“Há já uns séculos que os súbditos se disfarçaram de cidadãos e que as monarquias se preferem chamar repúblicas.

As ditaduras locais, que se dizem democracias, abrem as portas à entrada avassaladora do mercado universal. Neste mundo, reino dos livres, somos todos um só. Mas somos um ou somos nenhum? Compradores ou comprados? Vendedores ou vendidos? Espiões ou espiados?

Vivemos presos entre garras invisíveis, atraiçoados pelas máquinas que simulam obediência e mentem, com cibernética impunidade, ao serviço dos seus patrões.

As máquinas mandam nas casas, nas fábricas, nos escritórios, nos seus escritórios, nas plantações agrícolas, nas minas e nas ruas das cidades, onde nós peões somos incómodos que perturbam o trânsito. E as máquinas mandam também nas guerras, onde matam tanto ou mais que os guerreiros fardados.”

(Consultar blog de 15 de novembro de 2017, “Dos indignos e dos indignados, segundo Galeano” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/137-dos-indignos-e-dos-indignados-36830).

 

 

  1. https://www.rt.com/op-ed/502825-china-communism-covid-follow/.
  2. Numa conferência subordinada ao título, “A Cultura não é o nosso amigo”, McKernna vai dizer:

O que é a civilização, é 6 biliões de pessoas tentando fazerem-se felizes empoleirando-se nos ombros umas das outras e esmurrando-se umas às outras nos dentes. Não é uma situação agradável.

E, contudo, podemos recostar-nos e olharmos para este planeta e ver que temos o dinheiro, o poder, o entendimento médico, o conhecimento científico, o amor e a comunidade capazes para criarmos um paraíso humano. Mas somos conduzidos pelos menores de entre nós – pelos menos inteligentes, pelos menos nobres, pelos menos visionários. Somo conduzidos pelos menores de entre nós e nós não ripostamos contra os valores desumanizantes que nos são impingidos como valores de referência.

Eis a questão: a cultura não é nossa amiga. A cultura é para a conveniência de outras pessoas e para a conveniência de várias instituições, igrejas, empresas, esquemas de coleta de impostos, isto é o que temos. Não é nossa amiga. Ela insulta-nos. Ela torna-nos impotentes. Usa-nos e abusa-nos. Nenhum de nós é bem tratado pela cultura.”

 

 

 

 

(288) O “verão vermelho” de 1919

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A “conquista do Oeste” fez com que a população da Califórnia declinasse em mais de 80% entre 1846 e 1873, onde aconteceram mais de 16.000 assassinatos, 370 massacres e linchamentos indiscriminados de latinos.

 

Os grupos de vigilantes armados não se imaginavam como sendo antidemocráticos. Aliás, julgavam até que estavam a melhorar a democracia recém-instalada.

 

Ao passo que nos países da Europa só o estado possuía o monopólio do uso legítimo da força física, nos EUA, pelo menos durante os primeiros 150 anos, o estado apenas aspirava a possuir tal monopólio.

 

Bring Back The Death Penalty, Bring Back Our Police! Donald Trump, 1989.

 

 

 

 

Verão vermelho” foi o termo cunhado pelo escritor James Weldon Johnson (1871-1938) para descrever o período transcorrido entre os meses de abril e outubro de 1919, durante o qual se abateu enorme violência contra os negros americanos. “Vermelho” pelo sangue dos negros que foi derramado nesses meses.

Na realidade, essa enorme violência começara já em julho de 1917 em St. Louis, com o massacre público de negros levado a efeito com toda a impunidade por vigilantes brancos armados, seguido do incêndio de casas e assassinato de famílias que tentavam escapar às chamas, só terminando em 1923, com a destruição da cidade predominantemente negra de Rosewood, na Florida.

Ao longo desses sete anos, vigilantes brancos assassinaram milhares de negros em 26 cidades, incluindo Chicago, Houston e Washington. Em 1921, cidadãos brancos de Tulsa destruíram a comunidade negra mais rica da América, a chamada “Wall Street Negra”, incendiando mais de mil casas, igrejas, escolas e hospitais.

 

Durante esses períodos de violência, os grupos de vigilantes cooperavam muitas vezes com as autoridades. Outras vezes ignoravam-nas, invadindo cadeias, deitando paredes abaixo para retirarem negros que estavam presos, para em seguida os matarem, alguns de maneiras horrorosas.

O aparecimento destes grupos de vigilantes armados que acreditavam que a lei não estava a proteger os seus interesses, e por isso repetidamente se apropriavam da lei, tomando-a nas suas próprias mãos em nome da supremacia branca, é um facto inquestionável e verificável a quando da deslocação e massacre dos índios nativos americanos, a quando dos horrores infligidos pelos donos dos escravos aos negros, das ondas de linchamentos que se seguiram à Reconstrução, do derramamento de sangue do Verão Vermelho por volta da Primeira Guerra, dos assassinatos conduzidos pela Ku Klux Klan e outras organizações extremistas, etc..

 

A América aparece, assim, desde o início como um lugar de violência e de racismo institucional: o governo dos EUA e os seus exércitos constituíram sempre a força que esteve na base da perseguição e desalojamento dos índios americanos; a escravatura foi apenas considerada ilegal em 1865; desde cedo se assistiu à cooperação  das forças policiais com a Ku Klux Klan; ainda hoje a polícia continua a matar um número desproporcionado de negros americanos (1).

Sobre essa cooperação entre as forças extremistas e as forças policiais, será interessante ver-se a série da HBO, Watchmen, sobre a preparação e massacre de Tulsa, em 1921 (2), bem como alguns recentes documentários sobre as matanças durante o Verão Vermelho, em Elaine, Arkansas (3) e Knoxville, Tennessee (4).

Embora esses grupos de vigilantes não fossem os únicos responsáveis por esses rimes racistas, eles cooperaram sempre avidamente com as instituições do estado em todas as ações racistas. E estavam prontos por si próprios para imporem a supremacia branca, sempre que as forças policiais tratavam as pessoas com igualdade perante a lei.

 

O professor da CUNY (City University of New York), Michael Pfeifer, no seu livro The Roots of Rough Justice, vai tentar explicar o aparecimento da violência destes movimentos libertários de vigilantes que pretendiam impor as suas próprias leis, procurando os seus fundamentos na Revolução Americana e na subsequente falta de um estado centralizado forte.

Estes grupos de vigilantes não se imaginavam como sendo antidemocráticos. Aliás, eles julgavam que estavam a melhorar a democracia recém-instalada, inclusivamente praticando, em alguns casos, procedimentos democráticos como a adoção de leis gerais e a eleição dos seus chefes, com tribunais onde procediam a julgamentos votando as punições a serem atribuídas: a forca ou serem queimados vivos. Ou seja, constituíam como que um estado paralelo com exército paralelo.

 

Ao passo que nos países da Europa apenas o estado possuía o monopólio do uso legítimo da força física, nos EUA, pelo menos durante os primeiros 150 anos, o estado apenas aspirava a possuir tal monopólio. Prevalecia a justiça de fronteira dos grupos de vigilantes.

Antes e pouco depois da Revolução Americana, assistimos, inclusivamente, até à condenação de brancos por esses grupos, mas aos poucos o número de vítimas negras foi aumentando. Os donos de escravos, as patrulhas de escravos e grupos de vigilantes formados arbitrariamente, dispensavam qualquer laivo de justiça.

Mesmo após a abolição da escravatura, essa “tradição cultural”, tal como a do “Juiz Lynch”, foi-se mantendo: a matança dos índios nativos pelo Exército e a violência extrajudicial dos fazendeiros, fez com que a população da Califórnia declinasse em mais de 80% entre 1846 e 1873, onde aconteceram mais de 16.000 assassinatos e 370 massacres (5). Esta “conquista do Oeste” conta ainda também com o linchamento indiscriminado de latinos.

 

Outro dos fatores diferenciadores relativamente aos países da Europa, foi a da utilização indiscriminada do uso de armas por parte destes grupos de vigilantes, que teve que ver, em parte, com a Guerra Civil: a enorme produção de armas de fogo fez baixar o seu preço, pelo que cada vez maior número de cidadãos as possuía e utilizava sem qualquer restrição.

Há incidentes inacreditáveis, como o acontecido em Nova Iorque em 1863, a quando da Semana do Alistamento (o Governo necessitava de mais soldados para a Guerra Civil), em que grupos armados desencadearam ações violentas contra os negros, contra o Partido Republicano e contra os muito ricos, com receio de virem a ficar inundados de negros e sem trabalho (6), e como aquele acontecido em Nova Orleães em 1866, quando o partido republicano entendeu estender alguns direitos cívicos a negros (7).

Nessa época, várias foram as leis publicadas sobre o controle de armas, só que todas elas eram dirigidas à limitação do seu uso a minorias raciais (negros, índios, latinos) (8), e facilitando, por outro lado, o seu uso por milícias organizadas.

 

Aliás, ainda hoje, estudiosos da Constituição, justificam que o direito ao porte de arma garantido na Segunda Emenda, tem aplicação para o caso de milícias do estado, e não, segundo defende a NRA (National Rifle Association) para que qualquer indivíduo tenha o direito de usar armas.

Por extensão, esta interpretação da NRA acolhe a “doutrina do castelo” (o direito de usar força armada para defender a sua própria casa) e as leis sobre o direito ao uso da força para defesa própria.

Não é de estranhar que todos os grupos extremistas se julguem hoje em dia como estando ao abrigo da segunda Emenda com o direito constitucional a usarem armas quando muito bem entenderem, até contra o governo federal.

Não é também de admirar que possa vir a ser o próprio governo federal um seu admirador e suporte. Já se viu antes.

 

 

O Caso de “Os Cinco do Central Park”

 

No Central Park de Nova Iorque, a 20 de abril de 1989, foi encontrada uma mulher branca quase morta, após ter sido espancada e violada. A polícia, ao fim de alguns dias de interrogatório agressivo, acusou Antron McCray, Kevin Richardson, Raymond Santana, Korey Wise e Yusef Salaam, por terem cometido o crime. Os cinco cumpriram sentenças completas de 6 a 13 anos, antes de outro homem, um violador em série, Matias Reyes, ter vindo mais tarde a confessar o crime, o que veio a ser comprovado por provas de DNA (9).

Nesse ano de 1989, Donald Trump publicou anúncios de página inteira (Bring Back The Death Penalty, Bring Back our Police!) no New York Times e em três outros jornais locais, em que pedia para que a Cidade de Nova Iorque reinstalasse a pena de morte face à brutal violação levada a cabo pelo gang. Segundo ele, a cidade era “governada pela lei das ruas” e “assaltantes e assassinos … deviam ser forçados a sofrer e, quando matassem, deviam pagar e serem executados pelos seus crimes.” (10) e (11)

 

 

 

 

 

1. https://www.washingtonpost.com/gdpr-consent/?next_url=https%3a%2f%2fwww.washingtonpost.com%2fgraphics%2finvestigations%2fpolice-shootings-database%2f. 2. https://americanhistory.si.edu/blog/watchmen.

3. https://www.amazon.com/Elaine-Massacre-Red-Summer-1919/dp/B0817JQHDB.

4. https://eu.knoxnews.com/story/news/local/2019/08/30/red-summer-documentary-knoxville-race-riot-1919-airs-saturday-maurice-mays-bertie-lindsey/2164189001/.

5. https://www.amazon.com/American-Genocide-California-Catastrophe-1846-1873-ebook/dp/B01EUYN5IU.

6. http://historydetectives.nyhistory.org/2018/07/new-york-city-draft-riots/.

7. https://www.wwno.org/post/absolute-massacre-1866-riot-mechanics-institute.

8. https://newrepublic.com/article/112322/gun-control-racist.

9. https://www.topic.com/automatic-for-the-people.

10. https://eu.usatoday.com/story/news/politics/2019/06/19/what-trump-has-said-central-park-five/1501321001/.

11. https://www.nytimes.com/2019/06/18/nyregion/central-park-five-trump.html.

 

 

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