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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(287) “A raça diz-nos sempre quem somos”

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

A desumanização como a tendência para ver os outros como sendo decididamente menos humanos.

 

Os comportamentos de desumanização não se encontram só em extremistas, mas também em grande parte dos que têm posições políticas moderadas.

 

O nazismo via-se como sendo a revolução total que criaria uma nova imagem do que era ser humano, um novo conceito de humanidade.

 

Só os humanos, mas nem todos os humanos, possuem uma “raça-alma” que lhes permita desenvolver uma identidade coletiva, Alfred Rosenberg.

 

A raça diz-nos sempre quem somos, Alfred Rosenberg.

 

 

 

 

 

Estávamos em 1938 quando foi publicado na Alemanha o pequeno livro infantil com gravuras coloridas, Der Giftpilz, de Julius Streicher. A tradução inglesa do livro chamou-se The Poisonous Mushroom (1), e encontra-se à venda desde maio de 2020 na Wook, Portugal, editado pela Walden Group. Este era o livro recomendado pelo regime nazi que as mães deveriam ler aos seus filhos, e também utilizado nas escolas primárias, para lhes ensinar o que era um judeu.

Segue-se a tradução do primeiro capítulo, intitulado “Cogumelos venenosos”:

 

Tal como muitas vezes se torna difícil distinguir um cogumelo venenoso de um cogumelo comestível, também, de igual modo, se torna muito difícil reconhecer-se um judeu como sendo um vigarista e um criminoso.

Uma mãe e o seu filho estavam a apanhar cogumelos numa floresta da Alemanha. O miúdo encontrou alguns cogumelos venenosos. A mãe explicou-lhe que havia cogumelos bons e cogumelos venenosos e, durante o caminho para casa, disse-lhe:

Olha, Franz, as pessoas neste mundo são como os cogumelos da floresta. Há bons cogumelos e boas pessoas. Há cogumelos venenosos, maus, assim como há pessoas más. E temos de ter muito cuidado e estar precavidos contra as pessoas más da mesma forma como fazemos com os cogumelos venenosos. Percebes?

Sim, mãe, replicou Franz. Percebo que se conviver com pessoas más posso arranjar sarilhos, tal como acontece se comer cogumelos venenosos. Posso até morrer!

E a mãe continuou: E tu sabes quem são essas más pessoas, esses cogumelos venenosos da humanidade?

Franz bateu com orgulho no seu peito: Claro que sei, mãe! São os judeus! O nosso professor já nos disse isso várias vezes.

A mãe louvou o filho pela sua inteligência, e passou a explicar-lhe as várias espécies existentes de judeus venenosos: os vendedores ambulantes judeus, os negociantes de carne judeus, os talhantes judeus, os médicos judeus, os judeus batizados, e por aí fora. Por mais que eles se disfarcem, ou por mais amigos que pareçam ou tentem ser, afirmando mil vezes as suas boas intenções, não devemos acreditar. Judeus são o que eles são, e judeus permanecerão. Para o nosso povo eles são veneno.

Como os cogumelos venenosos! Diz Franz.

Sim, meu filho! Tal como apenas um cogumelo pode matar uma família inteira, também um só judeu pode destruir uma vila inteira, uma cidade, todo o nosso povo.

Franz compreendeu.

Diz-me, mãe, todos os que não são judeus sabem que os judeus são tão perigosos quanto um cogumelo venenoso?

A mãe abana a cabeça.

Infelizmente não, meu filho. Há milhões de não judeus que não conhecem ainda os judeus. Por isso temos de os esclarecer e avisá-los contra os judeus. Os nossos jovens têm de ser alertados. Os nossos rapazes e raparigas têm de aprender a reconhecer os judeus. Têm de aprender que os judeus são os cogumelos mais venenosos que existem. Tal como os cogumelos venenosos crescem em qualquer parte, também os judeus aparecem em qualquer país. Tal como os cogumelos venenosos originam as mais terríveis calamidades, os judeus são também a causa da miséria e aflição, das doenças e morte.”

 

Seguem-se vários capítulos com títulos elucidativos: Como identificar um judeu, Como é que os judeus chegaram à Alemanha, Como é que os judeus se deixaram batizar, Como os nossos camponeses foram corridos das suas terras,  Como é que os judeus aldrabam nas trocas comerciais, A visita de Inge a um médico judeu, Como os judeus tratam os seus empregados domésticos, Como os judeus torturam os animais, O que disse Cristo sobre os judeus, Há judeus decentes?, Sem se resolver a questão dos judeus não há salvação para a humanidade.

 

 

A definição de desumanização como a tendência para ver os outros como sendo decididamente menos humanos, é abertamente assumida neste pequeno livro. Só com a convicção de que homens, mulheres e crianças judias não faziam parte da humanidade, não eram seres humanos, é que se pode entender como é que os nazis os enviaram para os campos de concentração e extermínio.

Embora o caso nazi seja aquele que mais ressalta, este problema da desumanização é mais vasto, vem de longa data e continua a existir nas nossas sociedades. Basta referir a opressão dos índios e dos escravos negros nas Américas, dos asiáticos nos EUA durante a construção das vias férreas e o seu “internamento” compulsivo na Segunda Guerra, dos africanos durante o colonialismo, dos vários genocídios cometidos, do tratamento dado aos imigrantes e refugiados, dos preconceitos gerais para com os ciganos, dos preconceitos dos nórdicos para com os povos do Sul da Europa (aplaudidos por algumas gentes dos povos do Sul da Europa), dos citadinos para com os camponeses, etc.

Ou seja, os comportamentos de desumanização não se encontram só em extremistas, mas até em grande parte dos que têm posições políticas moderadas.

 

Estudos de psicologia (2) mostram que quando somos chamados a elencar diferentes qualidades de grupos, há uma tendência para, mesmo que subtilmente, se negarem a grupos exteriores a posse de qualidades humanas como civilidade, racionalidade e refinamento. E quanto à perceção de emoções que acontecem quando as pessoas interagem com outros grupos sociais (3), há a tendência para ver nos grupos exteriores, manifestações menores de emoções humanas complexas, como as de orgulho, admiração e culpa.

 

O caso da ideologia nazi tem ainda outra componente, porquanto, para além da desumanização para com judeus e outros grupos, assenta naquilo que entendia ser o privilégio de se ser alemão.

O nazismo via-se como sendo a revolução total que criaria uma nova imagem do que era ser humano, um novo conceito de humanidade.

 

Uma das formas para alcançar essa finalidade, era através de uma enorme e contínua campanha de propaganda diária conducente à desumanização massiva de outros grupos de pessoas. Essa desumanização, que implicava a desconsideração do outro, passava pela assunção do conceito de raça, de raça superior e de raças inferiores.

O corpo teórico avulso que pretendia sustentar essas intenções, ia desde a explicação antropológica e biológica do conceito de raça, até à sua explicação metafísica.

No primeiro caso, sobressaía Richard Walther Darré, teórico do “Blut und Boden” (Sangue e solo), com as suas tentativas de ligar a aparência exterior das pessoas a caraterísticas comportamentais (uma recuperação da antiga frenologia), adepto da restauração da pureza do sangue nórdico através da eugenia.

No segundo caso, temos Alfred Rosenberg, e a sua obra de 1930, Der Mythus des 20. Jahrhunderts (O Mito do Século XX). Segundo ele, foram os conceitos universais de humanidade e os valores universais, que conduziram as pessoas a não conseguirem entender a realidade. Por isso os seus inimigos são o judaísmo, o catolicismo, o liberalismo, o marxismo, o humanismo, o pacifismo e o materialismo.

Os universalistas, os que propõem valores universais, sugerem que há apenas uma certa maneira de viver, e com isso ameaçam a identidade de todas as outras pessoas (daí a crítica à cultura moderna). As pessoas, ao adaptarem-se à cultura ocidental, perdem a sua identidade particular. São as ideias da “identidade em perigo” e a invocação do “Lembrem-se quem são”, que vão servir de propaganda à ideologia nazi para a solução do problema da identidade, condensada na frase-conceito:

 

A raça diz-nos sempre quem somos”.

 

Seria este acordar para a raça que nos iria permitir alcançar a “perfeição pelo autodesenvolvimento”. O mito do sangue permite alcançar a consciência de si próprio, criando um “novo tipo humano”, um “tipo racial”:

 

Presente e passado começam a serem vistos segundo uma nova luz, que nos ilumina, comprometendo-nos para com uma nova missão para o futuro. As ações da história e o futuro, não mais significam lutas de classe ou guerra entre os dogmas da Igreja, sendo antes o conflito entre sangue e sangue, raça e raça, povo e povo. E isto significa combate entre valores espirituais”.

 

A imagem nazi da humanidade é, pois, caracterizada pelos conceitos de “raça” e “luta”, sendo o conceito “raça” o ponto de apoio da antropologia política do nazismo. Mas não a raça entendida apenas sob o ponto de vista biológico.

Para Rosenberg, a raça era aquilo que essencialmente distinguia os humanos do mundo animal, em que raça significava a “raça-alma” que constituía a profunda unidade espiritual de grupos humanos, e que, portanto, não podia ser encontrada na natureza.

O mundo humano era moldado pela atividade da “raça-alma” que ligava natureza e espírito, biologia e história. Daí a “história racial” ser simultaneamente história natural e mística espiritual. Só os humanos, mas nem todos os humanos, possuem uma “raça-alma” que lhes permite desenvolver uma identidade coletiva.

Ou seja, a caraterística definitória da essência da humanidade era a capacidade para desenvolver uma identidade coletiva que era restrita apenas a certos grupos de pessoas. Pelo que as caraterísticas naturais não eram suficientes para se ser considerado completamente humano: faltava-lhes a dimensão metafísica.

É por esta “metafísica de raça” que a cultura é vista como a manifestação dessa propriedade essencial (“raça-alma”) que separa os humanos dos animais e dos meros humanos animais. Humanos são apenas aqueles que têm um sentimento de comunidade que transcende o instinto de auto preservação.

Segundo Hitler, existiam raças que não eram capazes de serem seres humanos no sentido mais completo. Estavam neste caso os judeus, porque não possuíam esta “disposição idealística”, sendo apenas movidos por instintos de auto preservação, continuando basicamente a serem animais.

E Rosenberg completa:

 

O relacionamento dos judeus com o mundo é unicamente feito pelo instinto, sendo sempre guiados pelo egoísmo, e interesses materiais superficiais e libidinosos […] não passam de animais humanos”.

 

Exatamente por isso os judeus nunca se fixam num lugar, andam sempre a vaguear de um sítio para outro, sem pátria, e sempre dependentes de sociedades hospedeiras que chupam até ao fim. “Parasitas”. São uma ameaça permanente para as comunidades particulares de “raça nórdica”, para todas as formas culturais de vida humana.

Constituem, pois, uma ameaça à humanidade, pelo que vamos ter “de encarar uma decisão final sobre o problema”.

Eis o que Rosenberg disse a 18 de novembro de 1941 numa conferência de imprensa:

 

São cerca de seis milhões de judeus que ainda se encontram a viver no Leste, e esta questão só pode ser resolvida com a exterminação biológica de toda a judiaria na Europa. A Questão Judia só estará resolvida para a Alemanha quando o último judeu tiver abandonado o território alemão, e para a Europa quando nem um só judeu permanecer no continente europeu até aos Urais […] E para se alcançar isto é necessário mandá-los para além dos Urais ou então teremos de os erradicar”.

 

Foi assim que os nazis justificaram a violência contra os judeus como autodefesa. Estavam a defender o futuro da humanidade do ataque dos sub-humanos.

 

Acrescente-se uma pequena reminiscência da previsão do futuro perdido no passado, de um discurso feito em 1940 por Richard Darré, transcrito a 9 de maio de 1940 na Life magazine:

 

Com a guerra relâmpago … antes do outono … seremos os donos absolutos de dois continentes … será criada uma nova aristocracia de senhores e donos alemães [com] escravos agregados, esses escravos serão sua propriedade e serão constituídos por nacionais não-alemães, sem direito a terras … estamos atualmente a pensar numa forma moderna da escravatura medieval que deveremos introduzir porque necessitamos urgentemente de acabar o nosso grande desígnio. A estes escravos não lhes serão negados os benefícios de uma literacia; a educação superior ficará no futuro apenas reservada para a população alemã da Europa …”

 

 

Há quem defenda que a desumanização não conduz necessariamente à exterminação de pessoas, apresentando o argumento que se pode conviver com não humanos como os animais de estimação e tratá-los bem (o tal problema dos escravos bem tratados). A realidade é que não há nenhuma exterminação de pessoas sem elas terem primeiro sido desumanizadas.

 

Aviso ainda aos que se acreditam politicamente moderados: devido ao atual conceito de “cidadania”, oriundo do Iluminismo e da Revolução Francesa, ter um alcance e aplicação universalista, talvez se perceba agora melhor a verdadeira razão encoberta que se encontra por detrás da campanha para a sua eliminação das escolas.

 

 

 

1.https://www.mtholyoke.edu/courses/rschwart/hist151/Nazi/poisonousmushroom.pdf.

  1. https://journals.sagepub.com/doi/10.1207/s15327957pspr1003_4.
  2. https://psycnet.apa.org/record/2008-07784-026.

 

 

(286) A felicidade possível na infelicidade garantida

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A vida balança para trás e para a frente como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento, Schopenhauer.

 

A felicidade não é mais que a ausência de dor e sofrimento após a satisfação de um desejo.

 

Em algumas culturas mexicanas, nos rituais do parto o nascimento de uma criança é acolhido com pena, enquanto que a morte de uma pessoa é celebrada com alegria.

 

Podemos ter tudo o que nos torna felizes e, contudo, não darmos por isso.

 

Pensas que haverá felicidade para pessoas como nós? In The Thomas Crown Affair.

 

 

 

 

Parece que ninguém duvida hoje que somos seres duais, na medida em que se por um lado como seres racionais procuramos conhecer e compreender o mundo, por outro lado somos seres de desejo que nos esforçamos para obter coisas do mundo.

Sabemos ainda que, mesmo que consigamos alcançar um desejo, muitos outros ficam por satisfazer e rapidamente se apresentarão em seu lugar. O que nos pode conduzir à sensação de que a vida mais não seja que uma sucessão monótona e vazia de desejos. Um aborrecimento.

Se tivermos a sorte de poder satisfazer as nossas necessidades básicas, comida e bebida, para escaparmos ao aborrecimento desenvolvemos necessidades para artigos de luxo, como álcool, tabaco, automóveis ou vestuário à moda. Em qualquer dos casos, nunca alcançaremos um estado de plena satisfação. Como dizia Schopenhauer, “a vida balança para trás e para a frente como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento”.

 

Contrariamente a Leibniz que no seu otimismo afirmava que o mundo em que vivíamos era o melhor de todos os mundos possíveis, Schopenhauer defendia que o nosso mundo estava antes organizado de maneira a maximizar a dor e o sofrimento.

E justificava esta sua asserção com o exemplo dos animais que mais não faziam que para sobreviverem devoram outros animais, passando a serem “o cemitério de milhares de outros”. E lembrando os rituais do parto em algumas culturas mexicanas onde o nascimento de uma criança é acolhido com pena, enquanto a morte de uma pessoa é celebrada com alegria.

 

Segundo ele, se tentássemos adivinhar qual a finalidade do mundo olhando para os resultados obtidos, rapidamente concluiríamos que o mundo não passava de um lugar de punição. Por isso, a vida não merecia ser vivida e o mundo não devia existir.

Nunca nos foi dada a possibilidade de escolher se deveríamos existir ou não, mas se nos tivesse sido dada essa possibilidade, seria totalmente irracional escolher existir quando nada se poderia lucrar com a vida, apenas perder.

 

E, contudo, Schopenhauer acreditava que havia um lugar para a felicidade. O que acontece é que andamos enganados sobre aquilo que é felicidade. Para ele, a felicidade não era mais que a ausência de dor e sofrimento após a satisfação de um desejo, um momento de alívio que por vezes se sente entre a realização de um desejo e a busca do próximo desejo.

Assim, a satisfação que sentimos quando finalmente compramos um apartamento, é logo seguida por um estado negativo com as novas preocupações que essa compra traz consigo: a aflição com o encargo de poder pagar o empréstimo, o enorme prazo em que tal obrigação se refletirá, as alterações a introduzir na casa, etc.

Acresce ainda aquela caraterística muito humana de deixarmos de nos focalizarmos sobre as coisas que nos correm bem para passarmos a preocupar-nos com as coisas que nos correm mal, ou tenham a possibilidade de correr mal. Por mais pequeno que seja o problema, a nossa tendência é ampliá-lo, ofuscando o anterior. Por isso, raramente beneficiamos das coisas boas enquanto as temos.

 

 

Uma das diferenças entre a felicidade e a dor e sofrimento, é que estas anunciam-se sempre, fazem-se notar, exigindo correção, ao contrário da felicidade: podemos ter tudo o que nos torna felizes e, contudo, não dar por isso.

 

Só após termos perdido as três melhores coisas da vida – a saúde, a juventude e a liberdade – é que nos damos conta da sua importância”.

 

Uma das formas de lidar com este problema, é o recordar o que sofremos no passado, para nos sentirmos bem no presente. Podemos também refletir sobre todo o sofrimento possível que poderíamos ter tido e não tivemos.

Schopenhauer cita Lucretius quando ele nos fala sobre o enorme prazer que sentia à beira-mar num dia tormentoso, ao ver o comandante de uma embarcação a lutar contra as enormes vagas, não que gostasse de ver outra pessoa a sofrer, mas porque tal lhe dava a sensação  agradável de estar livre de se encontrar naquela situação.

Ou seja, apesar de não querermos o infortúnio de outra pessoa, esse infortúnio era como que um alerta para a sorte que tínhamos.

 

Assim, para sermos felizes, deveríamos eliminar a dor e o sofrimento das nossas vidas. E para nos sentirmos felizes, deveríamos ter o tempo suficiente para refletirmos sobre a sua ausência.

 

O que o coloca perto da antiga escola grega dos estoicos, quando estes identificavam a vida feliz como aquela cuja existência fosse sem dor. Consideravam duas formas para evitar a existência sem dor: uma, através de um planeamento cuidadoso por forma a conseguir seguir-se o caminho menos penoso durante a vida. A outra, em vez de remover ou evitar os obstáculos que se punham, era a de reconsiderar os sentimentos que tínhamos perante esses obstáculos.

Ou seja, a primeira é uma alteração na prática, a segunda uma alteração na forma de pensar. É esta segunda forma que carateriza o estoicismo. Conforma explica Schopenhauer, para os estoicos, os sentimentos penosos derivados da privação “não decorrem imediatamente e necessariamente do não-ter, mas antes do quererem-ter e não terem”.

Donde conclui que para evitar esses sentimentos de privação, o que temos de fazer é eliminar a parte do querer-ter.

 

E, chama-nos ainda a atenção para o facto de ao nos empenharmos em grandes ambições e desejos, deveremos acautelarmos, porquanto quanto maiores eles forem maiores serão as quedas. É importante conseguirmos adequar as nossas espectativas a um plano realista das nossas possibilidades.

 

A grande diferença entre Schopenhauer e os estoicos, é que para estes é possível obter a felicidade através de um estado de calma interior e serenidade (ataraxia), por mais turbulento que seja o mundo exterior. Schopenhauer não acredita que seja possível alcançar a felicidade num mundo destinado ao sofrimento universal. Quando muito será possível preocuparmo-nos menos com o sofrimento, se aceitarmos melhor coisas que não podem ser evitadas, como a velhice e a morte.

 

Para Schopenhauer, o estoicismo concebe a finalidade da felicidade pela eliminação do sofrimento e da dor. Como para ele toda a vida é sofrimento, então a única forma de eliminar o sofrimento é eliminar a vida. Pelo que o fim último do estoicismo seria o suicídio.

 

Mas embora a vida seja sofrimento, esse sofrimento pode ser reduzido se nos convencermos que ele não durará para sempre. Temos de ter a capacidade de passar da satisfação dos desejos para a dor, e desta para um novo desejo, num jogo que vai da felicidade para o sofrimento, lembrando-nos que esta oscilação entre o desejo e a sua realização, é o máximo que podemos desejar como felicidade.

Como ele dizia, “a vida balança para trás e para a frente como um pêndulo, entre a dor e o aborrecimento”. Este balanço seria suportado pelo ascetismo, única forma para ultrapassar a inevitabilidade do sofrimento universal, transcendendo-o. Embora sabendo que apenas um pequeno número de indivíduos excecionais consegue levar uma vida ascética que conduza à verdadeira salvação.

 

A rotina diária da vida que Schopenhauer então levava era a seguinte: entre as sete e as oito da manhã, um banho com esponja fria, seguida de um café que ele próprio fazia, dedicando-se depois aos seus escritos durante algumas horas, antes de receber visitas escolhidas. Ao meio-dia a governanta aparecia para as conduzir à saída. Depois tocava flauta durante meia-hora, dirigindo-se em seguida para o seu sítio favorito, o Hôtel d’Anglaterre, para um copioso almoço. Regressava a casa, fazia um novo café, dormitava por uma hora, lia um pouco de literatura antes de ir passear o cão enquanto fumava um charuto. À noite, deitava-se, e dormia nove horas.

 

No filme de 1999, The Thomas Crown Affair, a caçadora de obras de arte Catherine Banning (Rene Russo) comenta para o multimilionário Thomas Crown (Pierce Brosnan) a sua dúvida existencial: “Pensas que haverá felicidade para pessoas como nós?” Coitadinhos.

 

 

 

 

 

(285) Piores que as "notícias falsas" são as "notícias"

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Entre 1975 a 1979, durante o tempo em que no Camboja, os ‘Kmers Vermelhos’ (KV) de Pol Pot governavam, cerca de dois milhões de pessoas foram barbaramente assassinadas, um quarto da população do Camboja.

 

Apesar de o governo de Pol Pot ter deixado de existir em janeiro de 1979, os seus representantes (embaixador), por insistência dos EUA, China e Inglaterra, continuaram a ocupar nas Nações Unidas o lugar reservado para o Camboja.

 

Em 1981, o conselheiro de Segurança Nacional do presidente Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, disse: “Encorajei os chineses a apoiarem Pol Pot”.

 

“Confirmo que não há qualquer envolvimento do governo inglês em qualquer ação de treino, fornecimento de equipamentos ou cooperação com as forças dos kmer vermelhos ou dos seus aliados”, resposta escrita de M. Thatcher a Neil Kinnock.

 

O processo de paz tinha como finalidade permitir [aos kmer vermelhos] ganhar respeitabilidade, Eric Falt.

 

 

 

 

Foi notícia em quase todos os grandes meios de comunicação social o falecimento, a 2 de setembro de 2020 num hospital do Camboja, do “camarada Duch”, Kaing Guek Eav.

Kaing Guek Eav, foi o Diretor Geral de Tuol Sleng, a prisão de Phnom Penh, diretamente responsável e interveniente na tortura e morte de um enorme e indeterminado número de homens, mulheres e crianças, em que as próprias vítimas eram obrigadas a abrir as valas em que seriam deixadas após serem espancadas até à morte (justificação económica: para evitar gastar balas), naquilo que veio a ser tristemente conhecido como “Campos da Morte”.

Este genocídio ocorreu entre 1975 a 1979, durante o tempo em que no Camboja, os ‘Kmers Vermelhos’ (KV) de Pol Pot governavam: cerca de dois milhões de pessoas foram barbaramente assassinadas, um quarto da população do Camboja.

 Para o grande público, para a enorme maioria dos ocidentais, ficará apenas a ideia do genocídio e dos campos da morte perpetrados por uma fação comunista no Oriente. Notícia dada. Encerrou-se assim mais um capítulo, mais nenhuma notícia se seguirá sobre o assunto.

 

 

Durante a intervenção americana na Guerra do Vietname (1968-1973), os norte-vietnamitas, com acordo do governo do Camboja, utilizavam o seu território para deslocarem  tropas para o sul, o que levou o governo norte-americano a iniciar um brutal, ilegal (o Camboja era um país neutral) e secreto (o Congresso americano não foi informado), bombardeamento do Camboja. Estes bombardeamentos efetuados por vagas sucessivas de B-52 entre 1969 e 1973, que lançaram o equivalente a cinco Hiroshimas numa sociedade de camponeses, matando meio milhão de pessoas, foram autorizados pelo presidente Richard Nixon.

Contudo, o principal impacto destes bombardeamentos foi outro. Segundo Bem Kienan, diretor do Programa sobre Estudos de Genocídio da Universidade de Yale:

 

Aparte a grande devastação em vidas humanas, o maior e mais direto impacto dos bombardeamentos foi a alteração política que acabou por produzir … Após investigações no sul de Phnom Penh, a CIA relatou em maio de 1973, que os comunistas (Kmers Vermelhos) estavam a usar com sucesso ‘os estragos provocados pelas ações dos B-52 como tema principal da sua campanha de propaganda’ … O bombardeamento em tapete feito pelos EU foi em parte o responsável pelo aumento de visibilidade do que até então era um pequeno grupo sectário, sem grande base popular, os Kmer Vermelhos, transformando-os num grupo capaz de expulsar o governo de Lon Nol …”.

 

O que acabou efetivamente por acontecer em 1975, com a tomada da capital. Seguiram-se mais de dois anos de governo (“Kampucheia Democrático”) pelos KV de Pol Pot, com todo o genocídio associado, que só terminou com a sua deposição pela forças norte-vietnamitas no dia de Natal de 1978. Pol Pot exilou-se para a Tailandia.

 

Vejamos o que aconteceu a seguir. Apesar de o governo do “Kampucheia Democrático” ter deixado de existir em janeiro de 1979, os seus representantes (embaixador), por insistência dos EUA, China e Inglaterra, continuaram a ocupar o lugar nas Nações Unidas reservado para o Camboja.

 Mais, enquanto o Conselho de Segurança emitia um embargo contra o Camboja libertado, permitia-se aos KV toda as facilidades para obterem o que quisessem. Em 1981, o conselheiro de Segurança nacional do presidente Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, dizia: “Encorajei os chineses a apoiarem Pol Pot”. E acrescentou, os EUA, “piscaram publicamente o olho” enquanto a China enviava armas para os kmer vermelhos.

Documentos que deixaram de estar secretos, revelaram que o exílio de Pot Pol era suportado, desde 1980 a 1986, por um fundo dos EUA. Montado pela CIA e outras agências, formou-se junto à fronteira da Tailândia com o Camboja, o Grupo de Emergência ao Kampucheia, com a finalidade de prestar ajuda humanitária a todos os enclaves dos KV, ao longo de toda a fronteira.

O Programa Mundial de Alimentos, das Nações Unidas, entregou mais de 12 milhões de dólares ao exército tailandês para este os entregar aos KV, beneficiando “20.000 a 40.000 guerrilheiros de Pot Pol”, conforme escreveu Richard Holbrooke, assistente do secretário de estado dos EUA.

 

Em novembro de 1980, através de um assessor dos negócios estrangeiros do presidente Reagan, Ray Cline, é estabelecido contacto direto entre a Casa Branca e os KV. Em 1981, China e EUA resolvem criar a chamada Coligação do Governo Democrático do Kampucheia (que não era nem uma coligação, nem democrática, nem um governo, nem em Kampucheia, Camboja), para ultrapassar o que começava a ser um embaraço para as Nações Unidas por continuarem a reconhecer o extinto regime de Pot Pol.

Isto permitiu que em Bangkok os americanos fornecessem à “coligação”, uniformes, dinheiro, informações por satélite, planos de batalha, e que a China e outros países do ocidente, enviassem armas diretamente, via Singapura.

 

Quanto à Inglaterra, a sua participação neste esquema, manteve-se secreta, até que em 1989 acabou por se descobrir (na Jane’s Defence Weekly e no Sunday Telegraph) que há mais de quatro anos o governo inglês vinha dando treino às forças de Pot Pol em bases na Tailândia.

E isto porque após 1986, devido ao escândalo do “Irangate” (troca de armas por reféns), se o Congresso americano viesse a tomar conhecimento das operações clandestinas de treino na Indo-China feitas pelos americanos, Reagan ficaria em muito má posição. Assim, Reagan e M. Thatcher acordaram que passariam a serem os ingleses a ficarem encarregues de toda a parte relativa ao treino militar das forças de Pot Pol.

Nesse sentido de "previsão do futuro", de dona da história, Margaret Thatcher começa a reconhecer que “os mais moderados dos kmer vermelhos terão de desempenhar um papel num futuro governo”. Eis o que diz em 1991, um membro do esquadrão de Reserva inglês que participara numa dessas operações junto á fonteira:

Nós treinámos os membros do KR em muitas coisas, sobretudo sobre minas. As minas vinham originariamente da Manutenção do exército inglês, que nos chegavam do Egito com as identificações alteradas…

 

Face aos rumores, o Ministério dos Negócios Estrangeiros, passou a informar que “A Inglaterra não presta qualquer ajuda militar sob qualquer forma a qualquer fação cambojana”. E, respondendo ao chefe do Partido Trabalhista, Neil Kinnock, a Primeira Ministra M. Thatcher, escreve-lhe:

 

Confirmo que não há qualquer envolvimento do governo inglês em qualquer ação de treino, fornecimento de equipamentos ou cooperação com as forças dos kmer vermelhos ou dos seus aliados”.

 

Em 1991, após Rae McGrath ter publicado no Asia Watch provas em como os serviços do exército inglês tinham “instruído [ os KV] sobre a utilização de dispositivos improvisados de explosivos, armadilhas e fabrico e uso de dispositivos de ação retardada”, o Governo inglês vem finalmente admitir, a 25 de junho, que os serviços do exército tinham vindo a treinar secretamente a “resistência” desde 1983.

 

Entretanto, os kmer vermelhos tinham regressado a Phenom Penh com as boas vindas das Nações Unidas:  Khieu Samphan, o primeiro ministro de Pot Pol durante os anos do genocídio, tendo o general australiano John Sanderson a seu lado, recebeu as saudações das tropas das Nações Unidas, apresentadas pelo seu comandante.  Segundo Eric Falt, o porta-voz das Nações Unidas no Camboja:

 

O processo de paz tinha como finalidade permitir [aos kmer vermelhos] ganhar respeitabilidade”.

 

Finalmente em 1997 foi acordado entre “as partes” o julgamento apenas dos principais responsáveis cambojanos membros dos kmer vermelhos, durante os anos do genocídio (abril de 75 a janeiro de 79). O julgamento decorreria num tribunal especial do camboja, um tribunal nacional, com o apoio das Nações Unidas.

Ficaram, evidentemente de fora, todos os intervenientes estrangeiros.

 

Independentemente de qualquer consideração do tipo “o inimigo do meu inimigo meu amigo é” que serve para demonstrar que vale tudo, o facto é que sem a cumplicidade dos EUA, da Inglaterra e da China, dois milhões de cambojanos poderiam não ter morrido. Pelo menos da maneira como morreram. CFP.                                 

 

 

 

 

https://www.newstatesman.com/politics/politics/2014/04/how-thatcher-gave-pol-pot-hand.

 

https://en.wikipedia.org/wiki/Khmer_Rouge_Tribunal.

 

(284) A neurociência como anfiteatro

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

O Exército investigou honestamente, mas o relatório foi encoberto … a pessoa que conduziu o relatório, o General [William R.] Peers é um dos meus heróis, ele indiciou 25 pessoas, de baixo até ao topo da divisão. Indiciou o general da divisão, incluindo o indivíduo da CIA que forneceu a informação ao general, Oliver Stone.

 

Matavam-se vietnamitas em todo o lado.  Porque eram de outra raça, ou pelo que quer que fosse. Não eram seres humanos, Oliver Stone.

 

Aqui temos um saudável e feliz porco, que está inicialmente tímido mas, como podem ver, com grande energia, vivendo uma vida boa, e que há dois meses tem um implante no cérebro, Elon Musk.

 

Aqueles que controlam a máquina que “lê os meus pensamentos” podem também controlar o meu pensamento e implantar pensamentos nele.

 

 

 

 

Numa recente entrevista do argumentista e realizador de cinema Oliver Stone (https://thegrayzone.com/2020/08/18/oliver-stone-on-challenging-hollywood-convention-film-as-a-disappearing-art-form/), incindindo especialmente sobre a sua própria vivência como voluntário na guerra do Vietname, os filmes “Platoon” e “Scarface”, e o fazer cinema em Hollywood, dizia:

 

“[…] Era uma guerra complicada, e tentei descrever isso no “Platoon” quando Barnes, um dos sargentos, mata os aldeões e é acusado de cometer um crime de guerra por outro sargento, Ellias. Era importante transmitir que havia lutas entre nós dentro de cada pelotão. Estive em três diferentes pelotões de combate, em diferentes locais. Era um problema que estava num crescendo […]

[…] E sim, havia muito racismo. Não… era contra os vietnamitas. E um dos grandes temas da guerra era sobre nós eliminarmos a população civil. Isso acontecia constantemente, julgo que devido ao facto de muitos soldados serem racistas contra os … odiarem os vietnamitas […] porque pensavam que os civis estavam a ajudar o inimigo. É claro, isto é um tema ambíguo porque nós estávamos a lutar contra um povo que pretendia essencialmente viver em paz e livre de opressores e senhores da guerra.”

[…] A segunda mentira (‘da nossa cultura’) tinha que ver com as matanças de civis, a morte de civis. Oh. Estivemos em tantas aldeias. Nós alternávamos entre a selva e as aldeias. Nós íamos às aldeias e investigávamos sobre armas, fornecimento de arroz, sobre tudo. Tínhamos de saber o que se estava a passar. E encontrávamos coisas. E outras vezes não encontrávamos nada, o que era frustrante. Por vezes tínhamos acabado de perder homens na selva com minas ou armadilhas, por isto ou aquilo. Íamos a uma vila, e libertávamos a nossa frustração. Vi alguns incidentes muito chocantes, e falo disso no livro (Chasing the light). E dei por mim quase a ultrapassar a linha. Não passei a linha, quase o fiz, porque se pode ficar muito fora de si.

Por exemplo – e na altura não sabíamos disso – o Massacre de My Lai em maio de 68 é todo sobre isso. De facto […] em My Lai, foi na altura em que vários pelotões foram a uma série de aldeias nessa região, após receberem más informações. As informações vieram da CIA, que tinha acabado de torturar algumas pessoas e que lhes deram informações falsas dizendo-lhes que os norte-vietnamitas do NVA estariam em vilas perto de My Lai. E eles foram lá convencidos que estavam perante o inimigo. Não eram. Nem uma única bala foi disparada contra os soldados. Nem uma. Isto foi o que a investigação do Exército revelou. O Exército investigou honestamente, mas o relatório foi encoberto, e todas as … a pessoa que conduziu o relatório, o General [William R.] Peers foi… é um dos meus heróis, tentou agitar … ele indiciou 25 pessoas, de baixo até ao topo da divisão. Indiciou o general da divisão. De facto, ele foi para além da divisão. Foi até ao indivíduo da CIA que forneceu a informação ao general.

É uma história de tal maneira feia que não é de admirar que [ten. William] Calley fosse o único a ser tramado. Quero dizer, eles apanharam … eles deixaram todos escapar dos anzóis. Mas isto é …  mataram-se a sangue frio 500 civis nessa aldeia, chacinados das piores maneiras, se lermos os detalhes. É o pior exemplo que eu conheço, mas isso era uma pequena escala do que se passava em todos os sítios. Acredito. Em todos os lados. Matavam-se vietnamitas em todo o lado.  Porque eram de outra raça, ou pelo que quer que fosse. Para muitos de nós, eles eram “gooks”. Não eram seres humanos. Isso aconteceu.

 

 

Com a pretensa finalidade de revolucionar o tratamento de muitas condições clínicas, do traumatismo do cérebro e sua paralisia, à epilepsia e esquizofrenia, temos vindo a assistir a um grande desenvolvimento da neurotecnologia ao juntar interfaces entre o cérebro e computador com a inteligência artificial.

Só que esse caminho só será possível através da decifração do processo mental das pessoas, por forma a que se possam manipular diretamente os mecanismos do cérebro para se ultrapassarem as suas intenções, emoções e decisões.

Quando tal acontecer, os indivíduos poderão comunicar entre si apenas pelo pensamento e, se lhes adicionarmos potentes sistemas computacionais diretamente ligados aos cérebros por forma a poderem receber todas as interações do mundo, poderão aumentar extraordinariamente as suas capacidades mentais e físicas.

Para além do aumento das desigualdades sociais e da possibilidade oferecida às corporações, hackers, governos e mais quem quer que seja com meios disponíveis, este é mais um caminho aberto à exploração e manipulação das pessoas. A novidade, neste caso, é a possibilidade de se poderem alterar as caraterísticas básicas (vida mental privada, individualidade, livre arbítrio, a nossa consciência, as nossas recordações, a nossa personalidade e a ligação ao corpo) de seres humanos particulares.

 

Várias são as regulamentações e declarações éticas que têm tentado impor limites e modos de atuação a estas intenções, aparentemente sem grande resultado. Relembro a Declaração de Helsínquia de 1964 (sobre pesquisa médica em seres humanos, https://www.who.int/bulletin/archives/79(4)373.pdf), o Relatório Belmont de 1979 (https://www.hhs.gov/ohrp/regulations-and-policy/belmont-report/read-the-belmont-report/index.html), e a declaração de princípios de Ansilomar de 2017 sobre inteligência artificial (https://futureoflife.org/ai-principles/).

 

Entre as várias corporações (civis, militares e governamentais) interessadas em explorar estas pesquisas, encontram-se as ultimamente sempre presentes Google, IBM, Microsoft, Facebook, Apple, a DARPA (US Defense Advanced Research Projects Agency), a Neuralink, e muitas outras mais pequenas, sem contar com as chinesas, russas, árabes, etc.

Por exemplo, a Facebook trabalha num projeto a que chamam “thought to text” (do pensamento ao texto), que permitirá escrever sem necessidade de teclar. A ideia é que o smartphone seja uma interface não invasiva entre o cérebro e o computador.

 

Na prática, trata-se de colocar no crânio um elétrodo ou um microchip que se introduz diretamente no cérebro, com a finalidade de recolherem dados da atividade neuronal que é depois enviada para um computador onde são processados e interpretados por algoritmos. Codificar os nossos neurónios.

 A parte interessante é que também funcionam em sentido contrário, permitindo introduzir informação nova no cérebro, modificando a sua atividade. Ou seja, estes interfaces cérebro-máquina são dispositivos que podem ler a atividade das ondas cerebrais e podem também escrever nelas novas informações.

 

A 28 de agosto, o empresário de topo e proprietário da Neuralink, Elon Musk, veio apresentar pessoalmente um espetáculo com três porcos, a Gertrude com um pequeno computador implantado no cérebro, a Dorothy a quem já fora implantado e retirado um implante, e um terceiro para desempatar. Segundo ele, a apresentação serviria para recrutar voluntários humanos para se submeterem a experiências na sua start-up em neurociência.

Sobre a Gertrude, Musk afirmou:

 

Aqui temos um saudável e feliz porco(a), que está inicialmente tímido(a), mas, como podem ver, com grande energia, vivendo uma vida boa, e que tem um implante no cérebro há dois meses” (https://www.youtube.com/watch?v=DVvmgjBL74w).

 

Antes de continuar, seria interessante que Musk explicasse os critérios que usou para concluir que a porca era feliz. A não ser que fosse uma apenas expressão para vender mais “banha de porca”.

Estas experiências com elétrodos em porcos, já em 1938 o psiquiatra italiano Ugo Cerletti (1877-1963) usara nos seus estudos sobre terapia de eletrochoques, após ter visto como eram aplicados choques elétricos aos porcos antes da matança, como forma de os tornar mais dóceis nos instantes finais. Foi isso que o levou a tentar aplicar o mesmo tratamento aos humanos.

 

Para além da provável vulnerabilidade destes dispositivos à pirataria, da questão relativa a quem compete decidir usá-los, das vantagens competitivas que poderiam proporcionar só a certas pessoas ou grupos, da desigualdade social entre aqueles que podem ter acesso a melhores capacidades cognitivas face aos que não as podem custear, etc., a crítica mais importante que se pode fazer a este tipo de projetos que pretendem ligar diretamente a nossa vida interior à realidade, por forma a que os nossos pensamentos possam provocar consequências diretas na realidade, ou ainda, que possam ser diretamente regulados por uma máquina que é parte da realidade (e que não pertence ao nosso eu), é que isso significa passarmos a um novo estado da humanidade, à chamada pós-humanidade.

É a distância entre a nossa vida interior, a linha dos nossos pensamentos, e a realidade exterior, que nos permite ter a perceção de nós como seres livres. Somos livres naquilo que pensamos exatamente por os nossos pensamentos estarem a uma certa distância da realidade, por forma a nos podermos divertir com eles, proceder a experimentações, sonharmos com eles, e isto sem que eles produzam quaisquer consequências diretas na realidade. É exatamente nesse distanciamento que ninguém nos pode controlar.

Slavoj Zizek, no seu livro Hegel in a Wired Brain, relembra-nos que nunca devemos esquecer que se pudermos regular diretamente o processo  da realidade com os nossos pensamentos – por exemplo, se eu pensar que a minha máquina de café me deve fazer um café com leite escuro, e tal acontecer – estas ligações causais funcionam também na direção oposta. Ou seja, aqueles que controlam a máquina que “lê os meus pensamentos” podem também controlar o meu pensamento e implantar pensamentos nele.

 

Fiódor Dostoievski, em Os Irmãos Karamazov, descreve-nos aquela cena em que Ivan, um dos irmãos, conta a reação do Grande Inquisidor, o Cardeal de Sevilha no século XVI, ao ver um Jesus regressado repetir, frente à sua catedral, o milagre de ressuscitar uma criança morta, utilizando palavras de conforto e amor. De imediato, o cardeal mandou os guardas prendê-Lo, ordenando que o encerrassem na masmorra do edifício do Santo Ofício. Durante a noite, visita Jesus e diz-lhe:


“Tu és Ele? És Tu?” Mas, como não recebesse resposta, acrescentou logo: “Não respondas, cala-Te. E que poderias Tu dizer? Sei muito bem o que irias dizer. E, aliás, não tens o direito de acrescentar o que quer que seja ao que já disseste. Porquê, então, vires incomodar-nos? Pois Tu vieste incomodar-nos e bem o sabes. Sabes o que se vai passar amanhã? Ignoro quem sejas, não quero saber. Quer Tu sejas Ele, quer sejas apenas a Sua aparência, amanhã vou condenar-Te e fazer-Te subir à fogueira como o pior dos heréticos, e esse mesmo povo que hoje Te beijava os pés, precipitar-se-á amanhã, a um gesto da minha mão, para amontoar os carvões na Tua fogueira…”(1)

 

De certa forma, também Nikos Kazantzakis no seu Cristo Recrucificado, aborda o mesmo tema. Como o título dá a entender, se Cristo cá voltasse, seria de novo crucificado.

 

Se nesta atual e futura sociedade em que vivemos,  em que os cidadãos  se vão tornando cada vez mais adormecidos, mais indiferentes, contentando-se cada vez mais com as missangas sobrantes, sociedade em que “ninguém” sabe quem está a gerir, em que ninguém é responsável, em que não se sabe o que está a acontecer a não ser o que querem que se saiba, e em que não há ninguém para culpar (“A culpa é de todos, a culpa não é de ninguém”), surgisse um novo General [William R.] Peers a inventariá-la tal como ele o fez, alguma coisa de diferente ocorreria? Não seria à mesma ignorado e ultrapassado? A resposta é que nem sequer teria a hipótese de surgir. Nada que um implantesinho dos Ellones Muskes não tratem atempadamente.

 

 

 

 

 

(1)Blog de 31 de julho de 2015, “Cristo ‘melhorado’”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/cristo-melhorado-3759).

 

 

 

(283) Os rituais da guerra

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Só nos cansamos do novo, não das coisas antigas, Kierkegaard.

 

Rituais, são aquelas imagens e metáforas geradoras de sentido, fundadoras de uma comunidade, que, face a um vazio simbólico pré-existente, dão estabilidade à vida, Byung-Chul Han.

 

O simples intercambio de cortesias com o inimigo, caraterístico dos duelos rituais, pressupunha o reconhecimento do outro como adversário com os mesmos direitos.

                    

O vencedor considera a superioridade das suas armas como uma prova da sua justa causa e declarará o inimigo como criminoso, C. Schmitt.

 

Hoje, matamos pessoas baseando-nos em metadados.

 

 

 

As ações simbólicas que são os rituais, podem ser vistas como a forma que permitiu ao homem libertar-se da contingência, possibilitando-lhe a estabilidade necessária para a vida.

Dizia Hannah Arendt que o que torna as coisas independentes da existência do homem é a sua durabilidade. É neste sentido que os rituais, são aquelas imagens e metáforas geradoras de sentido, fundadoras de uma comunidade que, face a um vazio simbólico pré-existente, dão estabilidade à vida.

Pela sua repetição e pelo facto de serem sempre os mesmos, os rituais fazem do mundo um lugar fiável, em que a vida se possa demorar em algo. Pressupõe coisas que duram.

Daí que os rituais, o simbólico, apareçam como um meio que origina a comunidade e pelo qual ela se transmite.

 

Esta é a tese defendida por Byung-Chul Han, na sua mais recente obra, A desaparição dos rituais. Uma topologia do presente. É num capítulo destinado à guerra que esta sua tese se torna mais explicita.

 

Vai ser Johan Huizinga, embora reconhecendo a existência de um excesso de violência e de assassinatos brutais nas sociedades arcaicas, que nos vai chamar a atenção para o caráter lúdico, na esfera do sagrado do jogo, da guerra nesses tempos.

Esse caráter lúdico da guerra arcaica é realçado não só pela proibição da utilização de certas armas, como pelos acordos relativos ao tempo e ao local em que se desenrolaria a batalha. O campo de batalha é limitado com estacas de madeira, assegurando-se que seja plano, por forma a possibilitar o enfrentamento dos guerreiros:

 

Um convénio solene, no qual se fixavam as regras do combate […] se regulava o tempo e o local para o encontro. Proibiam-se todas as armas de arremesso como a lança, o arco e a funda, permitindo-se apenas a espada e a lança.”

 

O simples intercambio de cortesias com o inimigo, caraterístico dos duelos rituais, pressupunha o reconhecimento do outro como adversário com os mesmos direitos. A troca de presentes e galhardetes, faziam parte deste ritual. Pelo que a guerra como duelo ritual refreia a violência indiscriminada substituindo-a por um jogo com regras. A violência dá lugar à paixão pelo jogo.

De igual forma, o duelo aparece como um combate singular, cujo desfecho equivale nas sociedades arcaicas a um juízo divino, o que lhe confere uma dimensão sagrada.

 

Também o posterior duelo de honra, se pode considerar como uma forma lúdica ritual. Basta recordar as estritas regras a que está submetido para garantir a simetria mais rigorosa entre os duelistas:

 

O lugar onde se efetua é um campo de jogos; as armas devem ser idênticas; começa e termina a um sinal; o número de disparos ou de tempos está prescrito”.

 

Quem se negar a aceitar o repto do duelo é considerado um homem sem honra. Neste duelo ritual não se trata de aniquilar o outro, mas de demonstrar a honorabilidade de cada um. Os duelistas demonstram a sua honorabilidade saindo para o combate, onde põem a sua vida em risco, onde jogam a sua vida. Independentemente da forma como acabar, o juízo social considera ambos os duelistas como homens de honra.

Segundo o código de honra dos cavaleiros, não é honroso atacar-se o inimigo sem o próprio se colocar em perigo. Só é honroso atacar o inimigo no campo de batalha. E é desonroso matar maldosamente o inimigo, por exemplo, envenenando-o.

Ou seja, um problema de simetria e de reciprocidade. Se o inimigo só tiver uma espada, é reprovável o uso de uma besta. Tudo isto vai constituir a base para a noção europeia de honra militar. Daqui Clausewitz (Da guerra) concluir que “a guerra não seja outra coisa que um combate singular amplificado”. A que se lhe segue aquela sua conhecida afirmação de que “a guerra é a política com outros meios”.

Ou seja, como a guerra continua a ser a política, é sempre possível regressar a ela por outros meios não violentos. Daí que depois da guerra fica sempre espaço suficiente para a política. As regras são estas.

Quando não se seguem estas regras, sucedem-se as matanças indiscriminadas, a violência pura, que destroem o espaço político. A guerra como combate singular ampliado distingue-se fundamentalmente da operação militar que redunda numa matança sem escrúpulos.

Com a introdução dos aviões de combate, o reconhecimento do inimigo cara a cara deixa de ser feito. O simples facto de estar por cima do adversário, induz uma atitude mental de superioridade sobre o inimigo. Ou seja, a assimetria do meio de destruição faz com que o seu proprietário valorize o adversário de forma distinta. A superioridade técnica torna-se superioridade moral.

 

O vencedor considerará a superioridade das suas armas como uma prova da sua justa causa e declarará o inimigo como criminoso.” (C. Schmitt).

 

O inimigo, deixa de ser um adversário a que se lhe reconhecem os mesmos direitos, passando a ser considerado como um criminoso que tem de ser eliminado por qualquer meio.

Esta degradação do adversário a criminoso é o pré-requisito para a matança de objetivos selecionados: com a utilização dos drones desaparece o conceito de reciprocidade que era a base da guerra como combate singular ou duelo ritual.

É substituído pela matança através de um clic do rato, o que a torna ainda mais brutal que a caça de animais selvagens.

A própria caça, apesar de tudo, está sujeita a regras de jogo para que não se transforme numa matança sem escrúpulos. Observam-se alguns rituais, com a finalidade de permitir uma certa  reciprocidade e simetria entre o caçador e o animal; o animal só pode ser morto cara a cara; o animal não pode ser morto se estiver a dormir; só pode ser ferido em determinadas partes do corpo; não pode ser ferido nos olhos, para que possa ver o adversário até ao fim.

Já mesmo na guerra aérea, Carl Schmitt, explicava:

 

A guerra de ambos os lados tem que incluir uma certa probabilidade, um mínimo de possibilidade de conseguir uma vitória. Quando não é assim, o inimigo não é mais que um objeto de uma medida coercitiva.”

 

Pelo que a total assimetria da guerra com drones faz com que o próprio conceito de guerra resulte obsoleto.

Para além de se perder completamente o caráter de jogo, nesta guerra com drones a morte produz-se maquinalmente. Os pilotos de drones trabalham por turnos em que a matança não passa de mais um trabalho. Acabado o serviço, entregam uma folha de registo com a pontuação (scorecard) onde constam os homens que mataram.

E como em qualquer outro trabalho, o rendimento é aferido pelos homens que mataram. Há algoritmos que ajudam a melhorar a produção, transformando o inimigo aniquilado numa soma de dados. Dissolve-se o humano morto. Como dizia um antigo responsável:

 

Matamos pessoas baseando-nos em metadados”.

 

A matança produz-se sem combate, sem dramatismo, sem destino. Tudo maquinal, com base no fluir de dados. “Aspira-se a uma transparência dadaísta da matança”.

Hoje tudo se ajusta ao modelo da produção. A guerra que produz a morte é diametralmente oposta à guerra como duelo ritual. A produção e os rituais excluem-se entre si. A guerra com drones reflete aquela sociedade em que tudo passou a ser uma questão de trabalho, de produção e de rendimento”.

 

 

 

 

 

 

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