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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(282) As vidas que os nazis criaram

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A Sociedade Registada Fonte da Vida (Lebesborn e. V), foi inicialmente criada por Himmler, para oferecer às jovens que fossem “racialmente puras” a possibilidade de darem à luz em segredo. A criança seria depois entregue a uma organização das SS que se encarregaria da sua educação e adoção.

 

A preferência ia para os que tivessem cabelos loiros e olhos azuis (curioso este cuidado em não tornar obrigatório, mas apenas preferencial, o critério de cabelos loiros).

 

A partir de 1939, o programa passou a encorajar o rapto de crianças consideradas “racialmente boas”.

 

Acreditar que essas crianças viessem a ser cidadãos decentes era o mesmo que acreditar que os ratos que viviam num armazém viessem a ser animais domésticos.

 

Centenas dessas crianças foram encarceradas em instituições mentais, onde foram muitas vezes abusadas, violadas e com a pele escovada até sangrar.

 

 

 

As boas intenções nazis acabaram sempre por redundar em crimes contra a humanidade, quer quando planificaram as seletivas e indiscriminadas mortes e destruições, quer quando se propuseram criar e proteger novas vidas. A falta de sorte que os acompanhou ao longo da década e meia, o Inverno que chegou mais cedo e rigoroso que o planeado, a falta de combustível e borracha, os judeus que nunca mais acabavam, etc., adiaram por mais umas dezenas ou centena de anos, a realização dessas boas intenções. Não era ainda a ocasião.

Seguem-se dois pequenos exemplos, que comportam ainda a curiosidade de terem em comum o tempo que levaram a serem revelados (muitas dezenas de anos). Os muitos grãos de areia (chamemos-lhe assim) que se escondem dentro dos sistemas.

 

Na Alemanha, o Gabinete Central da Procuradoria para a Administração da Justiça e Investigação dos Crimes Nacional Socialistas, levou a julgamento, em outubro de 2019, Bruno Dey de 93 anos, guarda no campo de concentração nazi de Stutthof, acusado de cumplicidade no assassinato de 5.232 pessoas no final da segunda guerra mundial, entre agosto de 1944 e abril de 1945.

Devido à pandemia, as sessões que decorreram no tribunal de Hamburgo foram limitadas, pelo que o final do julgamento só agora, em finais de julho de 2020, foi concluído com a condenação a dois anos de prisão com pena suspensa (1).

O argumento da acusação foi que os guardas, tendo conhecimento do que se passava, impediam a fuga dos prisioneiros, desempenhando assim um papel preponderante para o assassinato em massa de 65.000 pessoas.

No caso de Dey, incluíam-se 5.000 prisioneiros que morreram de tifo por lhes ter sido negado o aceso a comida, água, medicamentos, e pelas catastróficas condições de higiene, 200 que foram gaseados com Zyklon B e 30 que foram executados com um dispositivo que permitia serem mortos com um tiro no pescoço.

Acresce ainda que apesar de milhares de guardas das SS terem pedido para serem transferidos para outros serviços, Dey nunca optou por essa possibilidade.

Segundo um dos 40 sobreviventes, Manfred Goldberg, apesar de estar satisfeito por finalmente (75 anos) a justiça ter atuado, entende que a pena é insultuosa, porquanto dois anos de prisão com pena suspensa é o que se dá a quem é apanhado a roubar numa loja. Não desejando que Dey, devido à avançada idade ficasse preso, Goldberg entendia que a pena, mesmo simbólica, deveria ter sido bastante maior.

 

 

Em dezembro de 1935, no mesmo ano em que as Leis de Nuremberg proibiam o casamento com judeus e outros povos considerados inferiores, Heinrich Himmler, dá início ao projeto “Fonte da vida” (Lebensborn), com a finalidade de inverter o declínio da população germânica e nórdica, e permitir alcançar a meta de 120 milhões de alemães.

O projeto encorajava os membros das SS e os oficiais das Forças Armadas a terem filhos com mulheres arianas, filhos que viriam a ser os futuros dirigentes da nação nazi-ariana. E cria a “Lebensborn e. V.” (Sociedade Registada), registada em Munique, que oferecia às jovens que fossem “racialmente puras” a possibilidade de darem à luz em segredo. A criança seria depois entregue a uma organização das SS que se encarregaria da sua educação e adoção.

Tanto o pai como a mãe, necessitavam primeiro de passar num teste para atestar a “pureza racial”. A preferência ia para os que tivessem cabelos loiros e olhos azuis (curioso este cuidado em não tornar obrigatório, mas apenas preferencial, o critério de cabelos loiros), e em que a linhagem da família pudesse ser possível de ser traçada até três gerações.

Apenas cerca de 40% das mulheres que concorriam eram aceites para este programa Lebensborn. Até 1939, 57.6% das mães não eram casadas, subindo para 70% em 1940.

No início, as Lebensborn eram levadas para enfermarias das SS. Mas para virem a criar uma “super-raça”, as SS transformaram as enfermarias em “locais de encontro” para as mulheres racialmente puras que queriam ter filhos de oficiais das SS. Às mães grávidas, casadas ou não, era-lhes providenciada casa, meios de alimentação e outros, por forma os filhos ficarem em segurança e conforto.

A primeira instalação Lebensborn abriu em 1936 em Steinhoering, perto de Munique. O mobiliário das casas provinha dos melhores lotes retirados a judeus que tinham sido enviados para Dachau.

Chegaram a existir dez casas Lebensborn na Alemanha, nove na Noruega (a preferência concedida à Noruega vinha do facto de os nazis considerarem os noruegueses como raça pura ariana), seis na Polónia, duas na Áustria, duas na Dinamarca, uma na Bélgica, Holanda, França e Luxemburgo.

Himmler a tudo provia e, sempre atencioso, nunca esquecia especialmente as crianças que nasciam a 7 de outubro, data do seu aniversário.

Contudo, como em 1939 o programa não estava a produzir os resultados desejados, dá ordens diretas para que todos os SS e polícias fossem pais do maior número possível de crianças, para assim compensarem as baixas infligidas pela guerra.

A partir de 1942, o Lebensborn, com o acordo de Hitler, passa a ser estendido a mães não-germânicas, encorajando os soldados a confraternizarem com mulheres nativas no entendimento que os filhos resultantes seriam protegidos. As namoradas ou casos de uma noite de oficiais das SS, eram convidadas para as casas da Lebensborn, para aí terem os seus filhos com toda a privacidade e segurança.

Ainda a partir de 1939, o programa passou a encorajar o rapto de crianças consideradas “racialmente boas” (cabelos loiros e olhos azuis ou verdes) nos países orientais ocupados. Embora algumas das crianças fossem órfãs, muitas eram arrancadas às famílias. Só da Polónia contam-se 100.000 crianças nestas condições.

Eram depois transferidas para centros Lebensborn a fim de rejeitarem e esquecerem os pais (as enfermeiras da SS tentavam persuadir as crianças de que os pais as tinham abandonado), e serem “germanizadas”. As que recusassem a educação nazi, eram açoitadas, acabando parte delas enviadas para campos de concentração e exterminadas. As outras eram adotadas por famílias das SS.

Em 1945, quando as tropas americanas entraram em Steinhoering, encontraram 300 crianças, entre os seis meses e seis anos, a vaguearem pelas instalações. As mães e o pessoal tinham fugido. O mesmo se passou com as tropas russas e inglesas nas casas Lebensborn perto de Bremen e Leipzig.

Calcula-se que durante os dez anos da existência do programa, nasceram pelo menos 8.000 crianças na Alemanha e 12.000 na Noruega. Quanto às crianças raptadas nos países de Leste e enviadas para a Alemanha, estima-se terem sido 250.000. Apenas 25.000 foram recolhidas após a guerra, e entregues às famílias.

Algumas das famílias alemãs que tinham recebido crianças dos centros Lebensborn, recusaram-se a devolvê-las às famílias verdadeiras. Em alguns casos, foram as crianças que se recusaram serem entregues às famílias verdadeiras: vítimas da propaganda nazi, acreditavam serem alemães puros.

 

 

O governo democrático norueguês do pós-guerra, tudo fez para ser visto como distante das posições nazis.  Neste caso, vilipendiando publicamente as crianças nascidas de mães norueguesas e pais nazis. Estão documentados os casos de intimidações, perseguições, abusos físicos e mentais, para com essas crianças e suas mães.

Aliás, pouco antes da guerra acabar, o governo norueguês exilado em Londres, começou a transmitir avisos e ameaças aos colaboradores nazis:

 

Já antes avisámos e repetimos que essas mulheres pagarão o preço para o resto das suas vidas: elas serão desprezadas por todos os noruegueses pela sua falta de contenção”.

 

Mal a guerra terminara e já a muitas dessas mulheres se lhes rapava o cabelo, chamando-as de “putas alemãs”, exibindo-as ao longo das avenidas e praças. O governo norueguês tentou deportar as Lebensborn para a Alemanha, mas os Aliados opuseram-se.

A comunicação social agitava o espantalho de essas crianças “transportarem o vírus das características masculinas típicas dos nazis que o mundo já vira mais do que o suficiente”.

Um conhecido psiquiatra alertava para o facto de grande parte dessas 8.000 crianças terem maus genes, sendo por isso atrasadas mentalmente, “geneticamente más”, pelo que deviam ser “internadas em instituições especiais”.

Como resultado, centenas de crianças foram encarceradas em instituições mentais, onde foram muitas vezes abusadas, violadas e escovadas até a pele sangrar (2).

Como dizia em julho de 1945 um membro do Ministério dos Assuntos Sociais:

 

Acreditar que  viessem a ser cidadãos decentes era o mesmo que acreditar que os ratos que viviam num armazém viessem a ser animais domésticos”.

 

Apesar de ao longo de vários anos as vítimas terem procurado obter uma compensação do governo norueguês pela discriminação a que foram sujeitas, o governo nunca aceitou a culpa:

 

O governo tem conhecimento que várias crianças de guerra foram sujeitas a perseguição na sociedade. Mas é muito difícil que agora, passados 50 anos, que o governo seja responsabilizado por esses acontecimentos”.

 

Em 2007, 157 dessas então crianças, apelaram para o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos. Perderam a ação, exatamente porque o caso já se passara há muito tempo.

 

Recordo Cleobulo de Lindos (600 a. C.) quando dizia que “A ocasião é o mais importante da vida” ou, mais prosaicamente, aquele capitão instrutor de cavalaria que, quando lhe expusemos que um nosso colega tinha partido um braço numa daquelas aulas loucas de montaria após um almoço bem regado, o que tinha sido um azar, se voltou para nós e, furibundo, nos instruiu sobre o significado de “azar”:

“Azar!! Azar é cair do cavalo, bater com o cu no chão e partir o caralho!”.

 

A ocasião, o azar e a sorte, como explicação simplista, propalada, cavalgada e aceite, para o que constitui vida e morte.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre “nazismo”, consultar blogs de 9 de março de 2016, “Nazis nas escolas”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/nazis-nas-escolas-13204)

 de 16 de março de 2016, “Nazis fora das escolas”,   (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/nazis-fora-das-escolas-13370)

 de 27 de setembro de 2017, “Os ovos da serpente”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/130-os-ovos-da-serpente-34914),

 de 14 de agosto de 2019, “Raízes do ecofascismo”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/228-raizes-do-ecofascismo-as-boas-60056)

de 15 de janeiro de 2020, “O nazismo nada tem de banal”,(https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/250-o-nazismo-nada-tem-de-banal-65589).

 

(281) Dos panos e das nódoas: Sérgio e os dois Anteros.

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

Antero, um homem genial, um monge cristão, que teve o azar de ser capturado pela doença e pelo pessimismo, “o mais nosso amado entre os escritores portugueses”, o percursor em Portugal, do novo espírito, o “movimento idealista”, António Sérgio.

 

Não há em Antero uma página de reflexão rigorosa, de análise apurada, de ensaísmo estrito: e é o ensaísmo o que define o filósofo no sentido teorético da respetiva noção, não sendo, portanto, um verdadeiro filósofo, o mesmo António Sérgio.

 

Qual será a validade de atribuir interpretações filosóficas sobre a vida com base em textos poéticos? […] Os objetos mundanos nunca são o que parecem, e a intencionalidade do texto poético busca mesmo contraditar a lógica cognitiva da perceção, Cândido Pimentel.

 

 

 

 

 

 

Há uma observação popular portuguesa muito interessante que diz que “no melhor pano cai a nódoa”, e que julgo ter aplicação universal, não só aos panos como às pessoas, a todas as pessoas independentemente do estrato social e intelectual a que pertençam.

Intencionalmente ou não, por feitio, escorregadela, distração, mal-estar momentâneo, ou por pressa, vida atarefada ou falta de tempo, ou qualquer outro motivo incluindo até mesmo pelo tempo já vivido, basta um pequeno descuido, e zás, lá cai a nódoa.

 

António Sérgio (1883-1969), pensador, político, ensaísta e polemista brilhante com vasta obra publicada, desde muito cedo grande admirador de Antero de Quental (1842-1891), o que é confirmado pelas suas precoces “Notas sobre os Sonetos e as tendências gerais da Filosofia de Antero de Quental “ (Sérgio, 2001), bem como pelos inúmeros escritos que lhe foi dedicando e ainda, pelos encómios com que o saúda como homem genial, um monge cristão, que teve o azar de ser capturado pela doença e pelo pessimismo, “o mais nosso amado entre os escritores portugueses” (Sérgio, 1972, p.31), o percursor em Portugal, do novo espírito, o “movimento idealista” ou o “movimento metafísico-construtivista” (Sérgio, 1971, p.104).

 

É nessas “Notas sobre os Sonetos e …” que primeiro aparece a insinuação sobre aquilo que seria a passagem do Antero filósofo ao homem, da inteligência do intelectual para a sensibilidade de um grande enfermo, como fruto da passagem do vocabulário de Hegel para o vocabulário de Schopenhauer.

Mas vai ser em 1934, no texto “Os dois Anteros (O Luminoso e o Nocturno)”, incluído no volume IV dos “Ensaios”, que Sérgio vai expor pela primeira vez explicitamente (Sérgio, 1972, p.131) a sua grande tese sobre Antero, a saber:

 

Que as obras de Antero refletem a visão de duas personalidades distintas, irredutíveis e paralelas que o acompanham sempre, uma luminosa e apolínea correspondente à sua fase filosófica, e outra noturna e romântica correspondente à sua fase angustiada e metafísica.

Uma dicotomia sucessivamente verificada entre o Apolíneo e o Noturno (ou Romântico), o filósofo e o homem, o racionalista e o romântico, o saudável e o doente, o ordenado e o dissoluto, o responsável e o irresponsável (Sérgio, 1972, p.131).

 

Dito isto, e antes de entrar na base do que viria a ser a explanação da sua tese, não se retrai Sérgio em nos informar que as tais designações que atribuiu a Antero são apenas mera comodidade de uma fantasia sobre a existência de dois Anteros.

 

Para Sérgio, são nos “Sonetos” que mais se verificam as características românticas de Antero. Num estudo que pretende profundo, propõe a divisão destas obras em cinco períodos: o primeiro entre 1860-1862, o segundo entre 1862-1866, o terceiro entre 1864-1874, o quarto entre 1874-1880 e o quinto entre 1880-1884.

Sobre o primeiro período, concluirá que quase todos os sonetos são noturnos, uma vez que os temas recorrentes são sobre a transcendência de Deus e a exaltação do Amor para além da morte.

Sobre o segundo período, concluirá que a maioria dos sonetos são românticos, versando sobre o amor e as suas angústias, o desejo de voltar a ser criança regressando à segurança de uma mãe; e contudo é neste período que surgem alguns dos sonetos mais luminosos que levam Sérgio a considerar Antero “uma afirmação magnífica e insuperável, um humanismo heroico e intelectualista, e decerto o mais alto, luminoso cume, a que subiu a poesia no nosso país [, depois de Camões]” (Sérgio, 1972, p.136).

 Justifica-se Sérgio dizendo que a única forma que teria para obter nos “Sonetos” um ciclo apolíneo seria a de artificialmente sobrepor dois períodos, o segundo e o terceiro, colocando neste segundo período “umas tantas poesias não apolíneas, as quais, cronologicamente, deveriam ir para o terceiro” (Sérgio, 1972, p.133).

Entramos assim, no terceiro período, forçosamente tido como apolíneo na sua totalidade, no qual surgem temas como o da ascensão para a luz, o combate pela justiça, o heroísmo do revolucionário, a afirmação do Deus imanente, e outros nos quais a razão e a inteligência estão sempre presentes.

Sobre o quarto período, Sérgio considera-o indefinido na medida em que podendo ser considerado todo como romântico e noturno, um dos sonetos é sobre o Amor que domina a morte, o que é nitidamente apolíneo.

 Chegado ao último período, Sérgio diz ser ele “uma alternação dos dois Anteros” (Sérgio, 1972, p.140), uma tentativa de conciliação do escuro da noite com o claro do sol: desde um transcendentalismo em que o espírito paira a tudo indiferente, até um imanentismo em que o espírito habita a imensidade, impelindo-a para dentro da consciência; e de novo, o derradeiro ciclo encerra com sonetos noturnos, sobre a morte, a desistência e o regresso ao colo da mãe.

 A todos estes períodos, junta ainda Sérgio o que vai de 1863 a 1875, onde inclui todas as poesias apolíneas, num período “heroico, viril, de apostolado social e de combate” (Sérgio, 1972, p.133).

 

Continua depois, para melhor elucidação da sua tese, com a análise de uma conclusão de Antero nas Tendências Gerais da Filosofia na Segunda Metade do Século XIX segundo a qual “o não-ser é o ser único absoluto, a plenitude e a perfeição do ser” (Sérgio, 1972, pp.131-132).

Estranhamente, esta citação feita por Sérgio, não corresponde exatamente à de Antero que era: “O limitado […] dissolve-se nalguma coisa de absoluto, […]: transição do ser para o não-ser, que equivale, […] à plenitude e perfeição do ser”.

Sérgio vai julgar esta conclusão como não tendo fundamentação filosófica, acrescentando não passar ela de uma justificação artificial das ideias de suicídio, uma nota de escuridão num texto tão luminoso.

 Atribui-a a uma interpretação menos feliz que Antero fez de Hegel, pois da noção de não-ser como plenitude e perfeição do ser, não se poderá passar para o elogio e adoração da morte; significa apenas que a ideia se dilui acabando por se transformar na ideia contrária, donde “A realidade, portanto, não é o não-ser (como pretende Antero), assim como não corresponde à ideia de ser, senão que é a correlatividade das duas noções (a “síntese” das duas, se assim o quiserem), que é a de devir. O que devém (o que vai-sendo) é e não é um mesmíssimo tempo; e a realidade, para o pensar de um Hegel (a dar-se o caso que o interprete [eu] bem), é precisamente esse devir. Corresponde à união de ser e não-ser, e não ao não-ser, tomado só” (Sérgio, 1972, p.146).

Para exemplificar, apresenta o caso de uma folha constituída pelas páginas opostas, em que nenhuma delas é a perfeição da folha, em que, portanto, a realidade não se encontra em nenhuma das páginas, mas tão-somente na união indissolúvel das duas páginas, só assim sendo pensáveis.

 Da mesma forma, o conjunto das nossas ideias, pré-existe a cada uma delas, que não são mais do que as faces do conjunto. Donde conclui ser o todo anterior às partes.

 Descarta assim os postulados estáticos de ser e não-ser, substituindo-os pelo conceito de devir, único meio para se chegar aos outros. O que implica que o processo dialético não possa ser sectorizado e tripartido, partindo da fórmula da tese-antítese-síntese, mas antes inserido numa filosofia relacional, por uma união indissociável de todas as partes que compõem o todo.

 E abre um parêntesis para afirmar “[Quanto à dialética da negação, pareceu-me sempre infantilidade, por isso que a negação não determina nada: afirma o diferente (indefinido) e não o contrário] (Sérgio, 1972, p.147).

 

E contudo, Sérgio sabia bem que Antero com aquela conclusão não estava a fazer um elogio de adoração à morte, mas antes a falar sobre a “função moral da ideia da morte, do conhecimento da nossa morte” (Sérgio, 1972, p.151) e que esse reconhecimento intelectual da necessidade da morte levaria a “uma aceitação viril, raciocinada, calma (numa atitude forte, estoica, luminosa, ativa) do termo da existência de cada um de nós” (Sérgio, 1972, p.151), contrariamente ao que se insinuava nos Sonetos onde o desejo da morte aparecia como um cansaço, um pesar, um tédio, uma atitude noturna.

 

Estas perturbações românticas na moral e na metafísica, são atribuídas por Sérgio às influências de von Hartmann (para Sérgio,  o Antero noturno enquadrava-se perfeitamente na filosofia do inconsciente de Hartmann em que, resumidamente, Deus é o inconsciente absoluto, o criador do Mundo, o elemento ativo vital e incondicionado, pelo que quando Antero fazia o elogio da morte, do sonho e da fé, mortalha do pensamento, em que a ânsia da busca de Deus se inscrevia numa tentativa para alcançar o esquecimento total e absoluto e a dissolução da personalidade)  e Schopenhauer, não deixando de notar que as influências exercidas são menos criadoras que reveladoras, na medida em que iluminam tendências que já existiam nos influenciados: assim, as influências de Hegel e Proudhon são reveladoras do Antero apolíneo e as de Hartmann e Schopenhauer revelam o Antero noturno.

 

Depois, a propósito da fase apolínea de Antero nos “Sonetos”, nota que ela corresponde à substituição da fé revelada pela fé filosófica, passando da transcendência à imanência, o que vai levar Sérgio a uma longa dissertação sobre a filosofia do que reflete a conceção transcendente, e a filosofia do baseada na imanência.

É filosofar para lá, tudo o que seja associado à imaginação sensível, ao conhecimento classificativo, à transcendência. É filosofar para cá, tudo o que tiver a ver com a interioridade e o espírito, a inteligência pura e a imanência.

E utilizando os mesmos critérios de análise das poesias de Antero, conclui existir “uma mesma coincidência de opostos que já vimos no problema do ser e não-ser. As tendências noturnas do espírito enfermo (se eu acaso não erro) nunca foram superadas completamente pelo esforço do filósofo na sua obra apolínea” (Sérgio, 1952, p.158).

 

 

Do atribulado e confuso desenho dos períodos em que se mete António Sérgio para defender a existência dos dois Anteros, o que Sérgio deveria ter reconhecido é que nenhum período é totalmente puro, que os Anteros produzem indistintamente ao sabor da vida, uns dias melhor outros pior, flutuando possivelmente mesmo ao longo da jornada.

Daí que os seus considerados períodos entram uns nos outros, propositadamente alterados por Sérgio para caberem na estrutura previamente aceite, a que se sobrepõe um outro período não contemplado e que percorre vários outros períodos, pelo que só podem ser definidos como inconclusivos.

 

Mas, eis o problema mais importante: qual será a validade de atribuir interpretações filosóficas sobre a vida com base em textos poéticos, quando sabemos que no seu universo de “jogos metafóricos de linguagem, os seus efeitos encantatórios e outros aspectos tensionais da estrutura verbal, como combinatórias rítmicas, com ou sem recurso ao metro, e desvios linguísticos […] os objectos mundanos nunca são o que parecem”, e que “a intencionalidade do texto poético busca mesmo contraditar a lógica cognitiva da percepção(Pimentel, 1997, p.28)?

 

Só que para Sérgio “A ideia, junta ao sentimento, sai da acção e volta à acção: é assim que se pode dizer que a poesia é a verdadeira realidade” (Sérgio, 2001, p.142), pelo que separar o sentimento da inteligência constitui um erro na especulação.

 

Infelizmente, ao longo desta obra, Sérgio incorre ainda em vários enviesamentos. Por exemplo, ora nos diz que Antero “interpreta a rigor o pensamento hegeliano” (Sérgio, 1972, p.132), como, a propósito do mesmo tema, escreve “Supunha Antero, neste lance, coincidir com um tema do pensamento do Hegel? Talvez; talvez o quisesse; duvido, porém, de que seja essa, apesar da identidade da expressão verbal, uma exata interpretação do hegelianismo” (Sérgio, 1972, p.146).

Também para explanar a sua teoria do devir e contraditar Hegel, interpreta incorretamente Antero no que considera ser o elogio da morte. Sérgio sabia muito bem não ser essa a intenção de Antero, como mais à frente vem a demonstrar.

A sua oposição ao não-ser expresso por Antero e a sua explicação respeitante ao devir, resulta da sua ideia de uno unificante, arreigada em si desde muito cedo, exigência prévia e anterior à unidade do eu, condição para o entendimento do mundo, que lhe vai servir de alicerce para a inteligibilidade do real, para o seu racionalismo otimista; é por própria iniciativa que questiona e responde, sabendo que á medida que questiona e responde vai constantemente alterando o seu conhecimento da real.

Dualidades como o do ser e não-ser são coisas claras que se explicam com a folha de papel com duas páginas através do devir, notando que a dialética da negação não passava de uma infantilidade, porquanto a negação não determinava nada: “afirma o diferente (indefinido) e não o contrário” (Sérgio, 1972, p.147).

 

Diz ainda Sérgio sobre Antero, não haver nele “uma página de reflexão rigorosa, de análise apurada, de ensaísmo estrito: e é o ensaísmo o que define o filósofo no sentido teorético da respetiva noção” (Sérgio, 1972a, p.132), não sendo, portanto, um verdadeiro filósofo.

Curiosamente, Pedro Mesquita, diz que “António Sérgio jamais consolidou um sistema de pensamento, no sentido rigoroso da palavra” (Mesquita, 2001, p.19), e “manteve sempre com a filosofia uma relação instrumental, prolongando nela as batalhas que julgava traduzirem a este nível o seu combate fundamental” (Mesquita, 2001, p.11).

 

Pelo que esta obra, “Os dois Anteros (o Luminoso e o Nocturno)”, permite certamente carrear  mais um pouco de luz sobre Sérgio do que sobre Antero.

 

 

 

 

SÉRGIO, António

--------- (1933) “Pequenas notas sobre Antero de Quental”, in Seara Nova, nº 342, 11 maio 1933, pp. 93-94.

--------- (1933a) “Sobre o socialismo de Antero”, in Seara Nova, nº 362, 2 novembro 1933, pp. 24-27.

--------- (1937) “Tese e antítese nos sonetos de Antero”, in Revista de Portugal, Coimbra, nº1, outubro 1937, pp.16-32.

--------- (1943) Um problema anteriano (sobre a Ideia e a Realidade do Desprendimento activo na Peregrinação Moral do Autor dos Sonetos), Edição do autor, s. d.

--------- (1943a) Odes Modernas de Antero de Quental, organização, prefácio e notas de António Sérgio, Ed. Couto Martins, Lisboa, 1943.

--------- (1943b) Sonetos de Antero de Quental, organização, prefácio e notas de António Sérgio, Ed. Couto Martins, Lisboa, 1943.

--------- (1952) “Sobre o caracter do socialismo de Antero”, in Anhembi, São Paulo, ano II, Vol. VII, nº 21, agosto 1952, pp. 428-443.

--------- (1957) Cartas de Antero de Quental, organização, prefácio e notas de António Sérgio, Ed. Couto Martins, Lisboa, 1957.

--------- (1971) “Ciência e educação”, in Obras Completas: Ensaios, Tomo I, Livraria Sá da Costa, Lisboa,1971.

--------- (1972) “Os dois Anteros (O luminoso e o nocturno), in Obras Completas: Ensaios, Tomo IV, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1972.

--------- (1972a) “Em torno da “ilusão revolucionária” de Antero, in Obras Completas: Ensaios, Tomo V, Livraria Sá da Costa, Lisboa, 1972.

--------- (1972b) “Antero de Quental contra Oliveira Martins no respeitante às fases da filosofia europeia”, in Obras Completas: Ensaios, Tomo VI, Livraria Sá da Costa, lisboa, 1972.

--------- (2001) Notas sobre Antero, Cartas de Problemática e outros textos filosóficos, prefácio de António Pedro Mesquita, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, Lisboa, 2001.

 

QUENTAL, Antero de

-------- (1894) A Philosophia da Natureza dos Naturalistas, apresentação por Eugénio Canto a Castro, Typ. Editora do Campeão Popular, Ponta Delgada, Açores, (E-book #26776 do Project Gutenberg, 4 outubro 2008).   

  --------- (1931) “Ensaio sobre as bases filosóficas da moral ou filosofia da liberdade”, in Prosas III, Imprensa da Universidade, Coimbra, pp. 164-179.

--------- (1983) Odes Modernas, prefácio de Nuno Júdice, Ulmeiro, Lisboa, 1983.

--------- (1984) Sonetos Completos, prefácio e notas de António Sérgio, Sá da Costa, Lisboa, 1984.

--------- (1991) Poesia Completa, 2 vols., Círculo de Leitores, Lisboa, 1991.

 --------- (1995) Tendências Gerais da Filosofia na segunda metade do século XIX, apresentação e comentário por Leonel Ribeiro dos Santos, Editorial Presença, 2ª edição, Lisboa, 1999.

 

PIMENTEL, Manuel Cândido

--------- (1993) Antero de Quental. Uma filosofia do paradoxo, Ponta Delgada, 1993.

--------- (1993a) “O conceito anteriano de “Filosofia”, in Pimentel, Manuel Cândido, 1993, pp. 15-41.

--------- (1993b) “Antero de Quental— uma filosofia do paradoxo. Reflexões sobre a estrutura da dialéctica antinómica”, in Pimentel, Manuel Cândido, 1993, pp. 43-76.

--------- (1997) “Elementos para uma fenomenologia literária do texto filosófico” in Philosophica 9, Lisboa, 1997, pp. 7-31.

--------- (2011) “O idealismo espiritualista de Antero de Quental”, in Razão Comovida, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, pp. 65-111.

--------- (2011a) “António Sérgio e Antero de Quental”, in Razão Comovida, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, Lisboa, pp.171-185. 

 

MESQUITA, António Pedro

--------- (2001) “Aspectos do ideário sergiano em ontologia”, in Sérgio, António, Notas sobre Antero, Cartas de Problemática e outros Textos Filosóficos, Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 2001.

 

(280) “Faz o que eu te digo, não o que eu faço”

Tempo estimado de leitura: 18 minutos.

 

A nossa prosperidade, a oportunidade criada para gerações de americanos e a nossa segurança, advêm do facto de termos vindo a ser o líder tecnológico do mundo desde 1890, W. Barr.

 

Esconde a tua força e espera pelo teu tempo, Deng Xiaoping.

 

Em vez de os EUA mudarem a China, a China está a utilizar o seu poder econômico para mudar os EUA, W. Barr.

 

 Se a China decidir limitar ou restringir a entrega de APIs aos [Estados Unidos] […] isso pode resultar em severa escassez de produtos farmacêuticos para uso doméstico e militar, W. Barr.

 

A história da submissão da indústria cinematográfica ao PCC é familiar. Cada vez mais Hollywood depende de dinheiro chinês para financiamento, W. Barr.  

 

Empresas americanas, como a Cisco, ajudaram o Partido Comunista a construir a Grande Firewall da China - o sistema mais sofisticado do mundo para vigilância e censura na Internet, e empresas como Google, Microsoft, Yahoo e Apple mostraram-se dispostas a colaborar com o PCC, W. Barr.

 

 

 

Há menos de um mês, a 17 de julho de 2020, o Procurador Geral dos EUA, William Barr, deu no Museu Presidencial Gerald R. Ford em Grand Rapids, MI, uma importante conferência na qual abordou o tema da resposta dos Estados Unidos às ambições globais do Partido Comunista Chinês. (1)

Independentemente de se concordar ou não com os argumentos da sua exposição, o seu conhecimento sobre o sistema legislativo americano, a forma como tem sempre prevalecido nas variadas interpelações que lhe têm sido feitas  pelo Congresso e Senado, o facto de pela segunda vez ter sido escolhido e nomeado Procurador Geral por diferentes Administrações (Bush e Trump), o seu percurso profissional dentro do sistema (obviamente), fazem de Barr uma das vozes mais capazes para nos explicar o que está em jogo para os EUA, e porque considera o Partido Comunista da China ( e não a China) o inimigo principal.

Barr dá quase de barato aquelas considerações jornalísticas vulgares sobre o comportamento da China, porquanto para ele o problema não se trata da criação conjuntural de um alvo apenas com fins eleitorais (as presidenciais de novembro), mas sim de um receio que o tecido empresarial americano não se consiga unir, única forma que vê para lutar contra o inimigo que o pretende aniquilar.

Daí concentrar a maior parte da sua intervenção sobre as empresas americanas e o logro em que se têm deixado envolver nas suas relações com a China, na busca vã do lucro.

 

Não se trata aqui de fazer uma crítica à exposição de Barr. Interessa sobretudo trazer ao conhecimento dos leitores a lógica da maneira de pensar das atuais elites americanas, o que é extremamente importante para percebermos os caminhos que a política atual segue e o porquê de determinadas escolhas e campanhas.

A sua tese principal é a que liga a prosperidade futura da América ao facto de a economia global continuar americanizada. O que implica que as empresas chinesas devam ser impedidas de competir nos setores chave do desenvolvimento, nomeadamente na robótica, IA e no 5G. Às empresas chinesas cabe-lhes apenas o papel de facilitarem esse processo, e não o de competirem pela supremacia económica.

Não posso deixar de chamar a atenção para o facto de Barr, naturalmente, baixar a fasquia da sua bem construída exposição, nas poucas vezes em que abandona o campo da política empresarial, acolhendo-se ao conforto da velha teoria de que “nós é que somos os bons, o capitalismo americano é que é o bom” na luta contra “os maus” que são os chineses (do PCC, evidentemente).

Torna-se hoje difícil de defender que o “PCC persegue as suas ambições através de práticas nefastas e até ilegais, incluindo espionagem industrial, roubo, extorsão, ataques cibernéticos e atividades de influência maligna”, o que é verdade, esquecendo-se ( o tal problema da importância do esquecimento para o “progresso”) de referir idênticos comportamentos das várias agências governamentais e para governamentais americanas (e de outras), da espionagem aos vários governos “amigos ocidentais”, das invasões e guerras do Iraque, Vietname, Afeganistão, Síria, Líbia, golpes contra governos da América latina, etc. etc.

Nada que se deva estranhar. Afinal, a atuação e as justificações do Império têm sido sempre as mesmas ao longo da história.

 

 

Exceto a parte referente aos agradecimentos, aqui deixo a tradução/transcrição da conferência, em que me limitei a por a negro carregado as partes que considerei de maior interesse:

 

 

 

“Tenho o privilégio de hoje estar aqui a falar sobre o que pode ser a questão mais importante para a nossa nação e o mundo no século XXI, ou seja, a resposta dos Estados Unidos às ambições globais do Partido Comunista Chinês (PCC).

O PCC governa com mão de ferro uma das grandes civilizações mais antigas do mundo. Ele procura alavancar o imenso poder, a produtividade e a engenhosidade do povo chinês, com vista a derrubar o sistema internacional baseado em regras e tornar o mundo amadurecido para a ditadura.

 O modo como os Estados Unidos responderem a esse desafio terá implicações históricas e determinará se os Estados Unidos e seus aliados democráticos liberais continuarão a moldar o seu próprio destino ou se o PCC e seus tributários autocráticos continuarão a controlar o futuro.

 

 Desde os anos 1890, pelo menos, os Estados Unidos têm sido o líder tecnológico do mundo. E é dessa proeza que tem vindo a nossa prosperidade, a oportunidade para gerações de americanos e a nossa segurança. É por isso que fomos capazes de desempenhar um papel crucial na história mundial, fazendo retroceder a ameaça do fascismo e a ameaça do comunismo. O que está em jogo atualmente é saber se podemos manter essa posição de liderança e essa liderança tecnológica. Seremos a geração que permitiu que isso nos fosse roubado, roubando ainda o futuro dos nossos filhos e netos?

 

Semanas atrás, o conselheiro de Segurança Nacional, Robert O'Brien, falou sobre a ideologia do PCC e as ambições globais. Ele declarou, e eu concordo, que "os dias de passividade e ingenuidade americana em relação à República Popular da China terminaram". E na semana passada, o diretor do FBI, Chris Wray, descreveu como o PCC persegue as suas ambições através de práticas nefastas e até ilegais, incluindo espionagem industrial, roubo, extorsão, ataques cibernéticos e atividades de influência maligna. Nos próximos dias, ouvirão o secretário Mike Pompeo, que resumirá o que está em jogo para os Estados Unidos e para o mundo livre.

Chris Wray, disse-me que logo após o seu discurso na semana passada, um dos líderes do Partido Comunista Chinês declarou que esse seu discurso fora particularmente nojento. Wray, disse-lhe que a sua pretensão era que o seu discurso tivesse sido desprezível, mas que se contentaria se ele fosse considerado especialmente nojento. Mas não importa como os chineses procurem caracterizá-lo, o que espero é que meu discurso e o discurso de Mike Pompeo, incentivem o povo americano a reavaliar seu relacionamento com a China, desde que continue sendo governada pelo Partido Comunista Chinês.

 É justo que estejamos aqui hoje no Museu Presidencial Gerald Ford. Gerald Ford serviu nos mais altos escalões do governo a quando do início do reatamento das relações dos EUA com a China, que começou com o presidente Nixon em 1972, e continuou três anos depois em 1975 com o presidente Ford, quando visitou a China para uma reunião de alto nível com os líderes da RPC, incluindo Mao Zedong.

 

Na época, era impensável que a China surgisse depois da Guerra Fria como um concorrente próximo dos Estados Unidos. E mesmo assim, havia sinais do imenso poder latente da China. No relatório conjunto da sua visita à China em 1972, o líder da maioria da Câmara, Hale Boggs, e o então líder da minoria, Gerald Ford, escreveram:

Se ela conseguir alcançar o que deseja, a China no próximo meio século poderá emergir como uma potência autossuficiente de um bilhão de pessoas ... esta última impressão - da realidade do potencial colossal da China - é talvez a mais vívida da nossa jornada. Enquanto o nosso pequeno grupo viajava por aquela terra sem limites, essa sensação de uma agitação gigante, um dragão acordado, deu-nos muito em que pensar.

Agora, passados quase cinquenta anos, as considerações prementes desses dois congressistas aconteceram, tornando-as mais urgentes.

 

Deng Xiaoping, cuja reforma econômica lançou a China na sua notável ascensão, tinha um lema famoso: "esconde a tua força e espera pelo teu tempo".

Foi exatamente isso que a China fez. A economia da China cresceu discretamente de cerca de 2% do PIB mundial em 1980, para quase 20% hoje. E, segundo algumas estimativas baseadas na paridade de compra, a economia chinesa já é maior que a nossa.

O Secretário Geral do Partido Comunista Chinês, Xi Jinping, que centralizou o poder a um nível nunca visto desde a ditadura de Mao Zedong, fala agora abertamente da China se aproximar do palco central, construindo um socialismo superior ao capitalismo, substituindo o sonho americano pela solução chinesa. A China já não esconde mais a sua força nem aguarda pelo seu tempo. Pela perspetiva dos seus governantes comunistas, chegou a hora da China.

 

A República Popular da China está agora lançada numa guerra econômica relâmpago - uma campanha agressiva, orquestrada por todo o governo (aliás, de toda a sociedade) para conseguir dominar o crescendo da economia global e superar os Estados Unidos como a superpotência tecnológica proeminente do mundo.

Uma peça central desse esforço é a iniciativa "Feito na China 2025" do Partido Comunista Chinês, um plano que visa dar o domínio da RPC em indústrias de alta tecnologia como robótica, tecnologia avançada da informação, aviação, veículos elétricos e muitas outras tecnologias. Apoiada por centenas de bilhões de dólares em subsídios, essa iniciativa representa uma ameaça real à liderança tecnológica dos EUA.

Apesar das regras da Organização Mundial do Comércio proibirem cotas para a produção doméstica, o “Feito na China 2025” estabelece metas para a participação no mercado doméstico (por vezes até 70%) em componentes essenciais e materiais básicos para indústrias como a robótica e as telecomunicações. É claro que a RPC procura não apenas juntar-se às fileiras de outras economias industriais avançadas, mas substituí-las por completo.

 

"Feito na China 2025" é a mais recente reafirmação do modelo econômico mercantilista liderado pelo estado da RPC. Para as empresas americanas no mercado global, a concorrência livre e justa com a China é uma fantasia há muito tempo.

Para inclinar o campo de jogo a seu favor, o governo comunista da China aperfeiçoou uma ampla variedade de táticas predatórias e muitas vezes ilegais: manipulação de moeda, tarifas, cotas, aquisições e investimentos estratégicos liderados pelo Estado, roubo e transferência forçada de propriedade intelectual, subsídios estatais, dumping, ataques cibernéticos e espionagem industrial.

Cerca de 80% de todos os processos federais de espionagem econômica alegaram conduta que beneficiaria o estado chinês, e cerca de 60% de todos os casos de roubo de segredos comerciais foram relacionados à China.

 

A RPC também procura dominar as principais rotas e infraestruturas comerciais na Eurásia, África e Pacífico. Por exemplo, no Mar da China Meridional, por onde passa cerca de um terço do comércio marítimo mundial, a RPC apresenta amplas reivindicações e historicamente duvidosas para quase todas as rotas marítimas, desrespeitando as decisões dos tribunais internacionais, construiu ilhas artificiais e colocou militares em postos avançados, e assediou os navios e barcos de pesca dos seus vizinhos.

 

Outro projeto ambicioso com o fim de expandir o seu poder e influência é a iniciativa de infraestruturas “Belt and Road”. Embora anunciados como "ajuda externa", esses investimentos parecem delineados para corresponder aos interesses estratégicos e às necessidades económicas domésticas da RPC. Por exemplo, a República Popular da China foi criticada por inundar de dívidas os países pobres, recusando-se a renegociar os termos dos contratos, para depois acabar assumindo o controle da própria infraestrutura, como fez em 2017com o porto de Hambantota no Sri Lanka. Isso é pouco mais do que uma forma do colonialismo moderno.

 

Outro dos projetos ambiciosos para a República Popular da China passar a dominar a infraestrutura digital do mundo, é o da “Rota da Seda Digital”.  Já anteriormente falei sobre os graves riscos de se permitir que a ditadura mais poderosa do mundo construa a próxima geração de redes globais de telecomunicações, conhecida como 5G.

Talvez menos conhecidos sejam os esforços da RPC para superar os Estados Unidos noutros campos de ponta, como a da inteligência artificial. Por meio de inovações como o da “aprendizagem de máquina” e “big data”, a inteligência artificial vai possibilitar às máquinas imitarem funções humanas, como reconhecer rostos, interpretar palavras faladas, dirigir veículos e jogar jogos de habilidade, como xadrez ou o jogo chinês ainda mais complexo, Go.

Em 2017, Pequim apresentou seu “Plano de Inteligência Artificial da Próxima Geração”, um plano para liderar o mundo em IA até 2030. Qualquer país que surgir como líder global em IA estará melhor posicionado para desbloquear não apenas o seu considerável potencial econômico, mas também uma variedade de aplicações militares, como o uso da visão computacional para reunir informações.

 

O esforço da RPC para alcançar supremacia tecnológica é complementado pelo seu plano de monopolizar materiais de terras raras, que desempenham um papel vital em setores como os da eletrónica de consumo, veículos elétricos, dispositivos médicos e equipamentos militares. De acordo com o Serviço de Pesquisa do Congresso, nas décadas de 1960 a 1980, os Estados Unidos lideraram o mundo na produção de terras raras. "Desde então, a produção mudou quase inteiramente para a China", em grande parte devido aos menores custos de mão-de-obra e menor regulamentação econômica e ambiental.

 

Os Estados Unidos estão agora perigosamente dependentes da RPC para esses materiais essenciais. No geral, a China é o principal fornecedor da América, representando cerca de 80% de nossas importações. Os riscos da dependência são reais. Em 2010, por exemplo, Pequim cortou as exportações de terras raras para o Japão, após um incidente envolvendo disputas de ilhas no mar da China Oriental. A RPC poderia fazer o mesmo connosco.

Como ilustra o progresso da China nesses setores críticos, as políticas econômicas predatórias da RPC estão a ser bem-sucedidas. Durante cem anos, a América foi o maior fabricante do mundo – permitindo-nos ser o "arsenal da democracia" do mundo. A China ultrapassou os Estados Unidos na produção industrial em 2010. A República Popular da China é agora o "arsenal de ditadura" do mundo.

 

Como conseguiu a China tudo isso? Ninguém deve subestimar a engenhosidade e a indústria do povo chinês. Ao mesmo tempo, ninguém deve duvidar que os Estados Unidos tornaram possível a ascensão meteórica da China. A China colheu enormes benefícios do livre fluxo da ajuda e do comércio americano. Em 1980, o Congresso concedeu à República Popular da China o estatuto de país mais favorecido no comércio. Na década de 1990, as empresas americanas apoiaram fortemente a adesão da RPC à Organização Mundial do Comércio e a normalização permanente das relações comerciais. Hoje, o comércio EUA-China totaliza cerca de US $ 700 bilhões.

 

No ano passado, a Newsweek publicou uma capa intitulada "Como as maiores empresas da América tornaram a China grande novamente". O artigo detalha como os líderes comunistas da China atraíram as empresas americanas com a promessa de acesso ao mercado e, depois de lucrar com o investimento e o know-how americanos, tornaram-se cada vez mais hostis.

A República Popular da China usou tarifas e cotas para pressionar as empresas americanas a abandonarem a sua tecnologia e formarem joint ventures com empresas chinesas. Posteriormente, os reguladores chineses passaram a discriminar as firmas americanas, usando táticas como a retenção licenças. No entanto, poucas empresas, mesmo as gigantes da Fortune 500, estão dispostas a apresentar queixa comercial formal por medo de irritarem Pequim.

 

Da mesma forma como as empresas americanas se tornaram dependentes do mercado chinês, os Estados Unidos como um todo contam agora com a RPC para muitos bens e serviços vitais.

A pandemia do COVID-19 trouxe à luz essa dependência. Por exemplo, a China é o maior produtor mundial de certos equipamentos de proteção, como máscaras faciais e aventais médicos. Em março, quando a pandemia se espalhou pelo mundo, a RPC acumulou as máscaras para si mesma, impedindo que os produtores - incluindo empresas americanas - as exportassem para outros países que precisavam delas. Em seguida, tentou explorar a escassez para fins de propaganda, enviando quantidades limitadas de equipamentos frequentemente defeituosos e exigindo que líderes estrangeiros agradecessem publicamente a Pequim por esses envios.

 

O domínio da China no mercado mundial de produtos médicos vai além de máscaras e vestidos. Tornou-se o maior fornecedor de dispositivos médicos dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, discrimina empresas médicas americanas na China.

O governo da China selecionou empresas estrangeiras sujeitando-as a maior escrutínio regulatório, instruiu hospitais chineses para comprarem produtos fabricados na China e pressionou empresas americanas a construir fábricas na China, onde a propriedade intelectual é mais vulnerável a roubos. Como observou um especialista, os fabricantes americanos de dispositivos médicos estão efetivamente a "criar os seus próprios concorrentes".

 

Os Estados Unidos também dependem da oferta chinesa, cadeias de suprimentos chinesas em outros setores vitais, especialmente em produtos farmacêuticos. Os Estados Unidos continuam sendo o líder global em descoberta de medicamentos, mas a China é agora o maior produtor mundial de ingredientes farmacêuticos ativos, conhecidos como "APIs" (application programming interface). Como observou um funcionário da Agência de Defesa da Saúde, se “a China decidir limitar ou restringir a entrega de APIs aos [Estados Unidos] […] isso pode resultar em severa escassez de produtos farmacêuticos para uso doméstico e militar”.

 

Para alcançar o domínio nos produtos farmacêuticos, os governantes da China seguiram o mesmo manual que usaram para afastar outras indústrias americanas. Em 2008, a República Popular da China designou a produção farmacêutica como uma “indústria de alto valor agregado” e impulsionou as empresas chinesas com subsídios e descontos nos impostos de exportação.

Enquanto isso, a RPC atacou sistematicamente as empresas americanas. As empresas americanas enfrentam obstáculos bem conhecidos no mercado de saúde da China, incluindo atrasos na aprovação de medicamentos, limitações injustas de preço, roubo de propriedade intelectual e falsificação. Cidadãos chineses que trabalham como funcionários de empresas farmacêuticas foram apanhados a roubar segredos comerciais nos Estados Unidos e na China.

 E o PCC há já muito tempo que se envolve em espionagem cibernética e hackers em centros médicos acadêmicos e empresas de saúde dos EUA. De facto, hackers vinculados à RPC têm como alvo universidades e empresas americanas numa tentativa de roubar PI (protocolo de internet) relacionados com tratamentos e vacinas contra coronavírus, às vezes interrompendo o trabalho dos nossos pesquisadores. Tendo sido apanhada a encobrir o surto de coronavírus, Pequim está agora desesperada à procura de um golpe de relações públicas para poder vir a reivindicar o crédito por quaisquer avanços médicos.

 

Como todos esses exemplos devem deixar claro, a ambição final dos governantes da China não é negociar com os Estados Unidos. É invadir os Estados Unidos. Se você é um líder empresarial americano, apaziguar a República Popular da China pode trazer recompensas de curto prazo. Mas, no final, o objetivo da RPC é substituí-lo.

Como um relatório da Câmara de Comércio dos EUA dizia, “[a] crença das empresas estrangeiras de que os grandes investimentos financeiros, o compartilhar de conhecimentos e as significativas transferências de tecnologia levariam a uma cada vez maior abertura do mercado da China, acaba no fim sendo substituído por reuniões ligeiras infindáveis em que o pretenso ganha-ganha na China significa que a China vence duas vezes. "

 

Embora os americanos esperassem que o comércio e o investimento liberalizassem o sistema político da China, o caráter fundamental do regime nunca mudou. Como mais uma vez demonstra a sua cruel repressão a Hong Kong, a China não está mais próxima da democracia hoje do que em 1989, quando os tanques enfrentaram manifestantes pró-democracia na Praça Tiananmen.

Continua sendo um Estado autoritário, de partido único, no qual o Partido Comunista Chinês exerce poder absoluto, sem controle de eleições populares, estado de direito ou judicial independente. O PCC vigia o seu próprio povo atribuindo-lhe crédito social por pontuação, utiliza um exército de censores do governo, tortura dissidentes e persegue minorias étnicas e religiosas, incluindo um milhão de uigures detidos em campos de doutrinação e trabalho.

 

Se o que acontecesse na China permanecesse na China, já isso seria suficientemente ruim. Mas, em vez de os EUA mudarem a China, a China está a utilizar o seu poder econômico para mudar os EUA. Como a “Estratégia da Administração Chinesa” reconhece, "a campanha do PCC para instaurar a conformidade ideológica não para nas fronteiras da China". Pelo contrário, o PCC busca estender sua influência à volta do mundo, inclusive em solo americano.

 

Com demasiada frequência, por causa dos lucros a curto prazo, as empresas americanas sucumbiram a essa influência - mesmo à custa da liberdade e abertura nos Estados Unidos. Infelizmente, são muitíssimos os exemplos de empresas americanas que se submetem a Pequim.

 

Vejamos Hollywood. Os atores, produtores e realizadores de Hollywood orgulham-se de celebrar a liberdade e o espírito humano. E todos os anos nos Óscares, aos americanos lhes era mostrado como a China ficava aquém dos ideais de justiça social de Hollywood. Mas agora, Hollywood censura regularmente os seus próprios filmes para apaziguar o Partido Comunista Chinês, o violador de direitos humanos mais poderoso do mundo. Essa censura infecta não apenas as versões de filmes projetados na China, mas também muitos que são exibidos nos cinemas americanos para o público americano.

 

Por exemplo, o filme de sucesso World War Z mostra um apocalipse zombie causado por um vírus. A versão original do filme continha uma cena com personagens especulando que o vírus podia ter sido originado na China. Mas o estúdio, Paramount Pictures, teria dito aos produtores para excluir a referência à China na esperança de conseguir um acordo de distribuição chinês. O acordo nunca se concretizou.

 

No sucesso de bilheteria da Marvel Studios, Dr. Strange, os cineastas mudaram a nacionalidade de um personagem importante conhecido como "O Antigo", um monge tibetano da banda desenhada, mudou de tibetano para celta. Quando questionado sobre isso, um argumentista explicou que "se você reconhecer que o Tibete é um país e que ele é tibetano, corre o risco de alienar um bilhão de pessoas". Ou, como o governo chinês pode dizer, "[não] vamos mostrar o seu filme porque você decidiu ser político".

 

Estes são apenas dois exemplos dos muitos filmes de Hollywood que foram alterados, de uma maneira ou de outra, para agradar o PCC. O conselheiro de segurança nacional O'Brien, deu ainda mais exemplos nas suas observações. Mas muitos outros guiões nunca veem a luz do dia, porque escritores e produtores sabem que não vale a pena testarem os limites da censura chinesa. Os censores do governo chinês não precisam de dizer uma palavra, porque Hollywood faz o seu trabalho por eles. Este é um enorme crédito de propaganda para o Partido Comunista Chinês.

 

A história da submissão da indústria cinematográfica ao PCC é familiar. Nas últimas duas décadas, a China emergiu como a maior bilheteira do mundo. O PCC controla há muito tempo o acesso a esse lucrativo mercado - tanto por meio de cotas em filmes americanos, impostas em violação às obrigações da OMC da China, quanto por um rigoroso regime de censura. Também cada vez mais, Hollywood depende de dinheiro chinês para financiamento. Em 2018, os filmes com investidores chineses representaram 20% das vendas de bilheteira nos EUA, em comparação com apenas 3% cinco anos antes.

 

Mas, a longo prazo, tal como acontece em outras indústrias americanas, a RPC pode estar menos interessada em cooperar com Hollywood do que em cooptar Hollywood - e eventualmente substituí-la pelas suas próprias produções.

Para conseguir isso, o PCC tem seguido o seu habitual modus operandi. Ao impor uma cota aos filmes americanos, o PCC pressiona os estúdios de Hollywood a formar joint-ventures com empresas chinesas, que depois ganham tecnologia e know-how nos EUA. Como um executivo de cinema chinês colocou recentemente, "[e] tudo o que aprendemos, aprendemos com Hollywood". Notavelmente, em 2019, oito dos dez filmes com maior bilheteria na China foram produzidos na China.

 

Hollywood está longe de ser caso único na RPC. As grandes empresas de tecnologia da América também se deixaram tornar peões da influência chinesa. No ano de 2000, quando os Estados Unidos normalizaram as relações comerciais com a China, o presidente Clinton saudou o novo século como aquele em que "a liberdade será espalhada por telefone celular e modem". Em vez disso, ao longo da década seguinte, empresas americanas, como a Cisco, ajudaram o Partido Comunista a construir a Grande Firewall da China - o sistema mais sofisticado do mundo para vigilância e censura na Internet.

 

Ao longo dos anos, empresas como Google, Microsoft, Yahoo e Apple mostraram-se dispostas a colaborar com o PCC. Por exemplo, a Apple recentemente removeu o aplicativo de notícias Quartz da sua loja de aplicativos na China, depois de o governo chinês reclamar sobre a cobertura dos protestos a favor da democracia em Hong Kong. A Apple também removeu aplicativos para redes privadas virtuais, que permitiram aos usuários burlar a Great Firewall, e eliminou músicas pró-democracia da sua loja de música chinesa. Enquanto isso, a empresa anunciou que iria transferir alguns de seus dados da iCloud para servidores na China, apesar das preocupações de que a medida daria ao Partido Comunista um acesso mais fácil a e-mails, mensagens de texto e outras informações do usuário armazenadas na iCloud.

 

Recentemente, conseguimos entrar em dois telefones celulares usados ​​pelo terrorista da Al-Qaeda que matou oito americanos na Base Aeronaval de Pensacola. Durante o tiroteio, ele largou os seus telemóveis e tentou destruí-los, disparando uma bala num deles, e pensámos que isso sugeria que poderia haver informações muito importantes sobre atividades terroristas naqueles celulares.

Ao longo de quatro meses e meio, tentamos entrar nos celulares, sem qualquer ajuda da Apple. A Apple não conseguiu ajudar-nos a entrar nos telefones celulares. Por fim, por um acaso que não conseguiremos reproduzir no futuro, fomos capazes de entrar e encontrar as comunicações com os agentes da Al-Qaeda no Oriente Médio até o dia anterior ao ataque.

Vocês acham que, quando a Apple vende telefones na China, os telefones da Apple são impermeáveis ​​à penetração das autoridades chinesas? Se fossem impermeáveis ​​às autoridades chinesas, eles não seriam vendidos. Mas nós temos de pedir a autorização de um tribunal para conseguirmos entrar nos celulares. Esse é o duplo padrão com que se vêm deparando as empresas de tecnologia americanas.

 

O PCC há muito tempo que usa ameaças públicas de retaliação e impede o acesso ao mercado como forma para exercer influência. Mais recentemente, no entanto, o PCC intensificou também os esforços nos bastidores para cultivar e coagir executivos de negócios americanos para promover os seus objetivos políticos - esforços que são ainda mais perniciosos porque estão em grande parte ocultos da opinião pública.

 

À medida que o governo da China vai perdendo credibilidade em todo o mundo, o Departamento de Justiça tem visto cada vez maior número de funcionários da República Popular da China e seus procuradores, aproximarem-se de líderes corporativos americanos e tentando convence-los a favor das políticas e ações seguidas pelo Partido Comunista Chinês.

 O objetivo deles varia, mas o argumento é geralmente o mesmo: sugerir aos empresários que têm interesses econômicos na China que as coisas vão melhorar (ou piorar) para eles, conforme o acolhimento que derem às solicitações da RPC.

Pressionar ou cortejar privadamente os líderes corporativos americanos para promover políticas (ou políticos dos EUA) representa uma ameaça significativa, porquanto ao esconderem-se atrás de vozes americanas, tal vai permitir colocar um "rosto amigável" nas políticas pró-regime, aumentando assim a influência do governo chinês.

O legislador ou o político que ouvir esses empresários americanos será normalmente mais simpático a esses constituintes do que no caso de eles serem estrangeiros. E ao mascarar a sua participação no nosso processo político, a RPC evita ser responsabilizada por essas tentativas de influência e pelos possíveis protestos públicos que daí possam resultar, caso o seu lobby seja exposto.

 

Os líderes corporativos da América podem não se considerar lobistas. Vocês podem pensar, por exemplo, que cultivar um relacionamento mutuamente benéfico é apenas parte do “guanxi” - ou sistema de rede social influente - necessário para fazer negócios com a RPC.

Mas devem estar conscientes sobre como podem ser usados e como os vossos esforços em nome de uma empresa ou governo estrangeiro podem ser vistos pela Lei de Registro de Agentes Estrangeiros (FARA) americana. A FARA não proíbe nenhum discurso ou conduta. Mas exige que aqueles que atuam como "agentes" de diretores estrangeiros divulguem publicamente esse relacionamento e as suas atividades políticas ou outras atividades similares, registrando-se no Departamento de Justiça, para assim permitirem que o público leve em consideração a origem do discurso a quando da avaliação de credibilidade.

 

É claro que ao focar-me nos líderes empresariais americanos, não pretendo sugerir que eles sejam os únicos alvos das operações de influência chinesa nos Estados Unidos. O Partido Comunista Chinês também procura infiltrar-se, censurar ou cooptar instituições acadêmicas e de pesquisa americanas. Por exemplo, dezenas de universidades americanas albergam os "Institutos Confúcio", financiados pelo governo chinês, que têm sido acusados ​​de pressionar as universidades anfitriãs a silenciarem as discussões ou a cancelarem eventos sobre tópicos considerados controversos por Pequim.

 As universidades devem defender-se; recusar deixar o PCC ditar programas de pesquisa ou suprimir vozes diversas; apoiar colegas e estudantes que desejam expressar suas opiniões; e considerarem se qualquer quebra de integridade ou liberdade acadêmica vale o preço de satisfazer as exigências do PCC.

 

Num mundo globalizado, as empresas e universidades americanas podem se vistas como cidadãos globais, e não como instituições americanas. Mas elas devem lembrar-se que o que lhes permitiu ter sucesso foi em primeiro lugar o sistema de livre empresa americano, o estado de direito e a segurança proporcionada pela força econômica, tecnológica e militar dos Estados Unidos.

 

A globalização nem sempre aponta na direção de uma maior liberdade. Um mundo marchando ao ritmo do compasso da China comunista não será hospitaleiro para instituições que dependem de livre mercado, livre comércio ou livre troca de ideias. Houve um tempo em que as empresas americanas entenderam isso e se viam americanas e defendiam orgulhosamente os valores americanos.

Na Segunda Guerra Mundial, por exemplo, a icônica empresa americana Disney, fez dezenas de filmes de informação pública para o governo, incluindo vídeos de instrução e treino para educar marinheiros americanos sobre táticas de navegação. Durante a guerra, mais de 90% dos funcionários da Disney foram afetados à produção de filmes de instrução e informações públicas. Para aumentar o moral das tropas americanas, a Disney também desenhou as insígnias que apareciam em aviões, caminhões, jaquetas e outros equipamentos militares usados ​​pelas forças americanas e aliadas.

 

Eu suspeito que Walt Disney ficaria desanimado ao ver como a empresa que ele fundou lida com as ditaduras estrangeiras dos nossos dias. Quando a Disney produziu Kundun, o filme de 1997 sobre a opressão da RPC ao Dalai Lama, o PCC opôs-se ao projeto e pressionou a Disney a abandoná-lo. Por fim, a Disney decidiu que não poderia deixar que uma potência estrangeira determinasse se distribuiria um filme nos Estados Unidos. Mas esse momento de coragem não duraria muito.

Depois de o PCC proibir todos os filmes da Disney na China, a empresa desfez-se em solicitações para voltar a ter acesso ao mercado chinês. O CEO pediu desculpas por Kundun, chamando-o de "erro estúpido". A Disney começou então a cortejar a RPC para abrir um parque temático de US $ 5,5 bilhões em Xangai. Como parte desse acordo, a Disney concordou em dar às autoridades do governo chinês um papel na gestão. Dos funcionários em período integral do parque, 300 são membros ativos do Partido Comunista. Eles exibem as insígnias de foice e martelo nas suas mesas e assistem a palestras do Partido nas instalações durante o horário comercial.

Como outras empresas americanas, a Disney pode eventualmente aprender da maneira mais difícil o custo em comprometer os seus princípios. Logo após a Disney abrir seu parque em Xangai, um parque temático de propriedade chinesa apareceu a algumas centenas de quilômetros de distância, com personagens que, segundo as notícias, pareciam suspeitosamente a Branca de Neve e outras marcas comerciais da Disney.

 

As empresas americanas devem entender o que está em jogo. O Partido Comunista Chinês pensa em termos de décadas e séculos, ao passo que nós tendemos a concentrar-nos nos relatórios de ganhos do próximo trimestre. Mas se a Disney e outras empresas americanas continuarem a submeterem-se a Pequim, correm o risco de prejudicarem as suas próprias competitividade e prosperidade futuras, bem como a ordem liberal clássica que lhes permitiu prosperar.

 

Durante a Guerra Fria, Lewis Powell - mais tarde Juiz Powell - enviou um memorando importante à Câmara de Comércio dos EUA. Ele observou que o sistema de livre empresa estava sob ataque sem precedentes e instou as empresas americanas a fazerem mais para preservá-lo. "[Chegou de facto a hora", disse ele, "embora muito atrasada - para que a sabedoria, ingenuidade e recursos dos negócios americanos sejam reunidos contra aqueles que os querem destruir".

O mesmo se passa agora. O povo americano está mais sintonizado do que nunca com a ameaça que o Partido Comunista Chinês representa, não apenas para o nosso modo de vida, mas também para as nossas próprias vidas e meios de subsistência. E cada vez mais chamarão pelo apaziguamento corporativo.

 

Se empresas individuais têm medo de se posicionarem, temos a força os números. Como escreveu Justice Powell: “A força está na organização, no cuidadoso planejamento e implementação de longo prazo, na consistência da ação por um período indefinido de anos, na escala do financiamento disponível apenas por meio de esforços conjuntos e no poder político disponível somente por meio da ação unida e organizações nacionais.”

 Apesar dos anos de aquiescência com as autoridades comunistas na China, as empresas americanas de tecnologia podem finalmente encontrar coragem por meio de ações coletivas. Após a recente imposição da draconiana lei de segurança nacional da China em Hong Kong, muitas grandes empresas de tecnologia, incluindo Facebook, Google, Twitter, Zoom e LinkedIn, anunciaram que suspenderiam temporariamente a conformidade das solicitações governamentais sobre os dados do usuário.

Fiel à forma, as autoridades comunistas ameaçaram com a prisão de funcionários das empresas não-conformes. Veremos se essas empresas se mantêm firmes e por quanto tempo elas se manterão firmes. Espero que sim. Se permanecerem juntas, fornecerão um exemplo digno para outras empresas americanas na resistência ao domínio corrupto e ditatorial do Partido Comunista Chinês.

 

O PCC lançou uma campanha orquestrada, em todos os seus muitos tentáculos no governo e na sociedade chineses, para explorar a abertura das nossas instituições e destruí-las. Para garantir um mundo de liberdade e prosperidade para os nossos filhos e netos, o mundo livre precisará de uma sua própria versão da abordagem de toda a sociedade, na qual os setores público e privado mantêm a sua separação essencial, mas em que trabalhem juntos para resistir à dominação e vencer a competição pelo comando da economia global.

Os Estados Unidos já fizeram isso antes e renovamos o nosso amor e devoção pelo país e por cada um dos outros. Estou confiante de que nós - o povo americano, o governo americano e os negócios americanos juntos - podemos fazê-lo novamente. A nossa liberdade depende disso.”

 

 

 

 

 

 

 

 

(279) Todos os modelos estão errados

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Todos os modelos estão errados, há é alguns que são úteis, George P. Box.

 

A correlação substitui a causalidade. O “é assim” substitui o “porque”.

 

Qualquer sociedade humana é livre de escolher entre a exibição de grande energia/vitalidade, ou o disfrutar de liberdade sexual; a evidência mostra, contudo, que não podem simultaneamente ter as duas por mais de uma geração, J. D. Unwin.

 

Não se compreende para se acreditar, mas, ao contrário, acredita-se para se compreender, Santo Anselmo.

 

 

 

Chris Anderson, licenciado pela Universidade de Oxford e curador das conferências da TED, aparece referenciado no blog que publiquei a 13 de janeiro de 2016, “Big Data, big shit”, relativamente a um muito interessante artigo que escreveu para a revista Wired, “The end of theory: the data deluge makes the scientific method obsolete”, e que começa com a citação do matemático George E. P. Box:

Todos os modelos estão errados, há é alguns que são úteis”.


Segundo Anderson, toda a teoria aparece como uma construção, um meio auxiliar para compensar a falta de dados. Se dispusermos de dados suficientes, a teoria passa a ser supérflua. Em vez da criação de modelos de teorias hipotéticas, podemos passar diretamente à análise matemática sem o estabelecimento de hipóteses sobre o que poderão significar, deixando para depois o estabelecimento do contexto.

Podemos lançar números para as maiores constelações de computadores existentes e deixar que sejam os algoritmos estatísticos a encontrar os padrões que a ciência não consegue. A correlação vai assim substituir a causalidade. O “é assim” substitui o “porque”.


Transcrevendo Anderson:


Empresas como a Google, que cresceram numa época de massas de dados enormemente grandes, hoje em dia não têm que decidir-se por modelos errados. Aliás, não têm mesmo que decidir-se em geral por nenhum modelo […] Quem pode dizer porque é que os homens fazem o que fazem? Fazem-no simplesmente, e podemos constatá-lo e medi-lo com uma exatidão sem precedentes. Se dispusermos de suficiente data, os números falam por si mesmos.”


“Foi assim que a Google conquistou o mundo dos anunciantes, sem saber nada sobre a cultura e convenções de anúncios. Assumiu que tendo melhores dados e melhores ferramentas de análise, tal seria suficiente para ganhar. E foi.


Ela não sabe porque é que uma página é melhor do que outra: é-lhe suficiente que as estatísticas que lhes chegam dos enlaces digam que é. Não é necessária qualquer análise semântica ou causal. É por isto que a Google pode traduzir linguagens sem as ‘conhecer’, e é por isso que pode adicionar anúncios a conteúdos sem conhecer nem os anúncios nem os conteúdos”.

 


Deparámo-nos aqui com duas das mais importantes linhas de força que podem definir a presente e futura sociedade: a da vigilância digital, que permitindo o acesso ao inconsciente coletivo pode vir a influenciar o futuro comportamento social das massas, com o consequente controle por parte de grandes grupos, sejam eles empresas ou complexos militares-industriais, resultando numa crescente apatia ou militarização da sociedade; o desaparecimento da teoria que nos permitia pensar o mundo ou como o compreender de forma a poder-nos situar nele, quer fosse através da ontologia, da linguística, da sociologia ou de qualquer outra teoria sobre comportamento humano, e sua substituição por matemática aplicada à massificação de dados (“A quantificação do real na busca de dados expulsa o espírito do conhecimento”).

 

Mas, será mesmo assim? A correlação substituirá a causalidade? Só haverá conhecimento quando ele for enformado por um “espírito” de conhecimento? Não estará a correlação na base da causalidade? Haverá algo de comum entre a correlação e a causalidade?

 

 

 

Joseph Daniel Unwin (1895-1936), foi um antropólogo e etnólogo das Universidades de Oxford e Cambridge, que dedicou toda a sua vida a estudar 86 sociedades (80 primitivas e 6 civilizações das mais conhecidas) ao longo de 5.000 anos, com o fim de demonstrar a ligação entre os sucessos alcançados, ou não, por esses povos e civilizações e a abstinência sexual, ou não.

Para Unwin:

Qualquer sociedade humana é livre de escolher entre a exibição de grande energia/vitalidade, ou o disfrutar de liberdade sexual; a evidência mostra, contudo, que não podem simultaneamente disfrutar das duas por mais de uma geração”.

Estas conclusões são publicadas em 1934 no livro, Sex and Culture (1) da Oxford University Press, obra que resume os muitos artigos e investigações de toda a sua vida.

 

Segundo Unwin, o desenvolvimento das sociedades humanas pode ser agrupado em quatro grandes padrões da cultura, de acordo com a forma como se relacionam com o mundo natural e com as forças que contêm. A saber:

Zoístico: autofocado na vida do dia-a-dia, desejos e necessidades, sem qualquer interesse em entender a natureza.

Monístico: adquire crenças supersticiosas e/ ou tratamento especial dos mortos por forma a relacionar-se com o mundo natural.

Deístico: atribui os poderes da natureza aos deuses ou a um deus.

Racionalístico: usa o pensamento racional para entender a natureza e para tomar decisões no dia-a-dia.

 

Por outro lado, os graus de restrição sexual das sociedades humanas, podem ser divididos em duas grandes categorias – pré-nupcial e pós-nupcial. A pré-nupcial subdivide-se ainda em:

Liberdade sexual completa, onde não existe qualquer restrição.

Restrição ocasional ou irregular, onde regulamentos culturais exigem um período ocasional de abstinência.

Castidade estrita, onde se permanece virgem até ao casamento.

A pós-nupcial subdivide-se em:

Monogamia modificada, na qual se tem apenas uma esposa de cada vez, podendo a associação ser terminada por qualquer dos dois.

Poligamia modificada, na qual o homem pode ter mais do que uma esposa, mas em que a esposa possa, por sua livre vontade, deixar o marido.

Monogamia absoluta, na qual apenas uma esposa é permitida para toda a vida (ou, em certas culturas, até que surja a morte).

Poligamia absoluta, na qual os homens podem ter mais que uma esposa, mas em que as esposas, enquanto viverem, só possam ter relações com os seus maridos.

 

Tendo em conta estas classificações, Unwin vai demonstrar que:

O aumento das restrições sexuais, quer pré ou pós-nupciais, conduz ao aumento do florescimento de uma cultura. Inversamente, o aumento da liberdade sexual conduz sempre ao colapso de uma cultura três gerações mais tarde.

O fator mais importante para o florescimento de uma cultura é o da existência ou não da castidade pré-nupcial.

A combinação mais poderosa para um florescimento de uma cultura é o da castidade pré-nupcial associada à monogamia absoluta. Culturas racionalistas que retenham esta combinação por pelo menos três gerações excedem todas as outras culturas em qualquer área, incluindo na literatura, arte, ciência, arquitetura, engenharia e agricultura. Apenas três das oitenta e seis culturas estudadas alcançou este nível superior.

Quando a castidade pré-nupcial estrita deixa de ser a norma, então dentro de três gerações também desaparecerão a monogamia absoluta, o deísmo e o pensamento racional.

A cultura que abraçar a liberdade sexual total, acabará por colapsar dentro de três gerações para o nível mais baixo, em que as pessoas apenas terão interesse nos seus desejos e nas suas necessidades.  Atingido este nível, a cultura será usualmente conquistada ou tomada por outra cultura com maior energia social.

No caso de haver uma alteração das restrições sexuais, aumentando ou diminuindo, o efeito dessa alteração apenas se vai verificar para a terceira geração.

 

Eis a conclusão geral que Unwin retira:

 

“A história destas sociedades consiste numa série de repetições monótonas; e é difícil decidir quais os aspetos que são mais significativos: a lamentável falta de originalidade do pensamento que em cada caso os reformadores exibem, ou a espantosa alacridade com a qual, após um período intenso e obrigatório de abstinência sexual, o organismo humano agarra a menor oportunidade para satisfazer os seus desejos inatos por uma maneira direta e pervertida. Por vezes, têm sido ouvidos os homens a declararem que querem o gozo das vantagens de uma alta cultura e a abolição das restrições sexuais. A inerente natureza do organismo humano, contudo, parece tornar tais desejos incompatíveis, mesmo contraditórios. O reformador pode ser visto como os meninos que desejam ficar com o bolo e ao mesmo tempo comê-lo. Qualquer sociedade humana é livre de escolher entre a exibição de grande energia/vitalidade, ou o disfrutar de liberdade sexual; a evidência mostra, contudo, que não podem simultaneamente disfrutar das duas por mais de uma geração”.

 

Um dos aspetos mais interessantes dos trabalhos de Unwin, são os que poderão resultar da sua extrapolação para os tempos em que vivemos.

Até à data do seu falecimento (1936), na “nossa” sociedade ocidental predominava a castidade pré-nupcial. A “nossa” revolução sexual só se começou a verificar nos finais dos anos 60. Nos anos 70, começa a aceitar-se cada vez mais, a liberdade sexual pré-marital. A partir do início dos 2000, a maioria dos adolescentes são já aceites como sexualmente ativos, sendo mesmo que chegar virgem ao casamento seja considerado ridículo e muito pouco provável. Ou seja, passamos da monogamia absoluta para a monogamia modificada.

Seguindo as conclusões de Unwin, durante essa primeira geração ainda seria possível manter as duas opções: florescimento e liberdade sexual. À segunda geração ir-se-ia assistir ao abandono progressivo da monogamia, ao declínio do deísmo, e ao desaparecimento do pensamento racional. A terceira geração assistirá ao colapso da civilização ocidental. Como ele escreveu, “A história destas sociedades consiste numa série de repetições monótonas”.

 

 

 

É altura de recordar Santo Anselmo (3). Quando alguns monges do mosteiro de  Bec lhe pediram para escrever um modelo de meditação sobre a existência e essência de Deus, no qual tudo se pudesse encontrar nas razões da fé, para que não precisassem dos argumentos da Autoridade ou da Escritura, Santo Anselmo começou por alinhar num opúsculo (“Exemplo de meditação sobre a razão e a fé”) várias provas da existência de Deus.

 Na época, encontrava-se acesa a controvérsia entre os chamados “dialéticos” e os “anti-dialéticos”. Contra os dialéticos, Santo Anselmo afirmava o pilar da fé, recusando-se a submeter as Escrituras à dialética: a fé era o dado primeiro de que tudo devia partir. Pelo que, segundo Anselmo, não se compreende para se acreditar, mas, ao contrário, acredita-se para se compreender.

Já contra os anti-dialéticos, Santo Anselmo afirmava que não havia qualquer inconveniente em compreender racionalmente o que se acreditava, porque sendo a verdade de tal maneira vasta e profunda, nenhum mortal a poderá minimamente esgotar.

 Pelo que a ordem a observar na procura da verdade seria: primeiro, acreditar nos mistérios da fé antes de os discutir pela razão; segundo, esforçar-se por compreender no que se acredita.

 

 

 

 

 

 

 

 

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