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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(273) O sublime tecnológico

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

É mais fácil imaginar o fim do mundo do que imaginar o fim do capitalismo, Frederic Jameson.

 

“Sublime tecnológico”, o espanto, o emaravilhamento e o orgulho sentido pelas conquistas tecnológicas americanas.

 

Em 1966, a NASA empregava diretamente 36.000 pessoas, não contando com as 400.000 que trabalhavam para as 20.000 empresas contratadas, e para as 200 universidades em 80 países.

 

Os juízos do gosto reivindicam simplesmente o sentimento de prazer e não o conhecimento do objeto, Kant.

 

O sublime diz respeito ao que é “informe” (indeterminado, ilimitado). O sublime eleva-nos ao ilimitado, transporta-nos ao infinito ou faz-nos entrar no incondicionado.

 

 

 

 

 

 

Em 1985, a escritora canadiana Margaret Atwood, publicou The Handmaid’s Tale, (A história de uma serva), novela composta por uma série de histórias interligadas de mulheres subjugadas (eram as parideiras das Esposas inférteis) de uma sociedade patriarcal numa futura New England, estado totalitário que derrubara o governo dos Estados Unidos.

 Margaret Atwood, iniciou os seus estudos superiores (graduate) em 1961, no Radcliffe College da Universidade de Harvard, onde teve aulas com Perry Miller (1905-63), o grande conhecedor da saga e vivência dos puritanos na América, e criador do termo “sublime tecnológico”, conceito que apresentava como representativo do papel unificador que a tecnologia teve  na formação do espírito de superioridade americano. O espanto, o emaravilhamento e o orgulho sentido pelas conquistas tecnológicas americanas.

 

Posteriormente, em 1994, David Nye, vai defender em American Technological Sublime, que essa experienciação do sublime é um reflexo de configurações emocionais que emergem de novas condições sociais e tecnológicas, e que cada nova configuração vai retirar valor e sobrepor-se a configurações mais antigas.

Como alguns exemplos que provocam essas emoções, do espanto ao terror, aponta o aparecimento da aviação, a barragem Hoover, os arranha-céus, os caminhos de ferro, a televisão, a bomba atómica, o programa Apolo, etc.

 

O Projeto Manhattan, foi o projeto de pesquisa e desenvolvimento levado a cabo pelos EUA (com o apoio do Canadá e do Reino Unido) para a produção das primeiras bombas atómicas. Com um início bastante modesto em 1939, após Albert Einstein ter finalmente assinado a 2 de agosto uma carta dirigida ao presidente F. D. Roosevelt dando-lhe conta da possibilidade da utilização da fissão nuclear como arma (como já estava a fazer a Alemanha nazi), só após o ataque japonês a Pearl Harbour (7 dezembro 1941) é que Roosevelt autoriza formalmente (19 de janeiro de 1942) a construção da bomba atómica, transformando-o num enorme projeto empregando 130.000 pessoas altamente especializadas, com custos orçamentados de 2 biliões de dólares (23 biliões a equivalência a 2018).

Tratou-se de um projeto de enorme complexidade, de enorme segurança, dirigido por militares, em que a pesquisa e produção foram feitas em mais de 35 locais (alguns deles contruídos de raiz) dos EUA, Canadá e Reino Unido (Oak Ridge, Los Alamos, Chicago, Hanford, British Columbia, Ontario, Northwest Territories, e outros), num curto espaço de tempo (não chega a três anos: Hiroxima é bombardeada a 6 de agosto de 1945).

Quando as primeiras (e únicas na altura) quatro bombas finalmente foram dadas como prontas, cada uma custara cerca de 500 milhões de dólares. Para se ter uma ideia do significado dos números, o seu custo total equivalia a 90% da produção de armas ligeiras e a 34% do gasto na fabricação de carros de assalto (tanques).

Nuvens cogumelo no horizonte: sublime.

 

 

Em 1961, John F. Kennedy, apontou o objetivo de colocar um homem na Lua antes da década acabar. Em 1966, a NASA empregava diretamente 36.000 pessoas, não contando com as 400.000 pessoas que trabalhavam para as 20.000 empresas contratadas, e para as 200 universidades em 80 países.

Números impressionantes ainda hoje e que demonstram o triunfo da organização, gestão de um enorme projeto sociotécnico de avassaladora complexidade. Apesar de críticas avançadas, desde o pouco sentido que o ir à Lua fazia face ao gasto exorbitante de biliões que seriam mais bem empregues na Terra, até à contradição entre as ideias de o mercado livre ser sustentado pelo dinheiro dos impostos dos contribuintes, o facto é que esse programa conseguiu alimentar a ambição geral de uma possibilidade de mudança como poucos.

 

 

Estes são dois exemplos do “sublime tecnológico”. Mas, o que é o sublime? Quando podemos dizer que algo é sublime? Que diferença tem relativamente ao belo?

 

Parece ter sido no século I ou III que um anónimo a quem séculos mais tarde vieram a chamar de Pseudo Longino, escreveu um pequeno tratado, Sobre o sublime, pela primeira vez traduzido para francês em 1674, onde resume o que os anteriores pensadores tinham dito sobre o sublime, e onde o sublime aparece como uma nova categoria estética (há uma tradução portuguesa datada de 1771, Dionysio Longino Tratado do Sublime, traduzido da língua grega na portuguesa por Custodio José de Oliveira).

Edmund Burke, em A Philosophical Enquiry into the Origin of Our Ideas of the Sublime and Beautiful (1756), é o primeiro filósofo a considerar que o belo e o sublime, mutuamente, se excluem.

 

E depois vem Kant e a sua Crítica da Faculdade do Juízo (1790), e quase tudo fica dito. Para Kant, o belo e o sublime têm na sua base o juízo do gosto, “ambos aprazam por si próprios” e pressupõem “um juízo de reflexão”. Embora se anunciem como “universalmente válidos com respeito a cada sujeito […] na verdade reivindicam simplesmente o sentimento de prazer e não o conhecimento do objeto”.

A diferença entre eles é que o belo diz respeito à forma do objeto, que se caracteriza pela sua “limitação”, ao passo que o sublime diz respeito ao que é “informe” (indeterminado, ilimitado) e que, exatamente por isso, origina em nós o sentimento do infinito:

 

O belo da natureza concerne à forma do objeto, que consiste na limitação; o sublime, contrariamente, pode também ser encontrado num objeto sem forma, na medida em que seja representada nele uma ilimitação ou por ocasião desta e pensada além disso na sua totalidade; de modo que o belo parece ser considerado com apresentação de um conceito indeterminado do entendimento, enquanto o sublime como apresentação de um conceito semelhante da razão. Portanto, o comprazimento é ligado ali à representação da qualidade, aqui, porém à da quantidade.

 

O belo encontra-se, pois, vinculado à qualidade, e o sublime vinculado à quantidade. O belo refere-se ao entendimento, e o sublime à razão. O sublime eleva-nos ao ilimitado, transporta-nos ao infinito ou faz-nos entrar no incondicionado.

Outras diferenças entre o sublime e o belo:

 

“[…] se, como é justo, aqui consideramos antes de mais nada somente o sublime em objetos da natureza (pois o sublime da arte é sempre limitado às condições de concordância com a natureza), a beleza da natureza (autossubsistente) inclui uma conformidade a fins na sua forma, pela qual o objeto, por assim dizer, parece predeterminado para a nossa faculdade de juízo, e assim constitui em si um objeto de comprazimento, pelo contrário aquilo que, sem raciocínio, produz em nós e simplesmente na apreensão, o sentimento do sublime, na verdade pode quanto à forma aparecer contrário a fins para a nossa faculdade de juízo, inadequado à nossa faculdade de apresentação e por assim dizer violento para a faculdade da imaginação, mas apesar disso e só por isso é julgado ser tanto mais sublime.”

 

Pelo que o sublime não tem objeto e fica fora da ordem das coias, nunca se encontrando nas formas sensíveis, dizendo apenas respeito às ideias da razão.

Também a comoção do sublime é referida pela atividade da imaginação à faculdade do conhecimento e à faculdade de apetição:

 

“[…] em geral nos expressamos incorretamente quando denominamos qualquer objeto da natureza de sublime, embora na verdade possamos de modo inteiramente correto denominar de belos muitíssimos dos mesmos […]. Não podemos dizer mais, senão que o objeto é apto à exposição de uma sublimidade que pode ser encontrada no ânimo; pois o verdadeiro sublime não pode estar contido em nenhuma forma sensível, mas concerne somente a ideias da razão, as quais, se bem que não lhes seja possível nenhuma apresentação adequada, precisamente por esta inadequação, que deixa apresentar-se sensivelmente, são ativadas e chamadas ao ânimo. Assim o extenso oceano, revolto por tempestades, não pode ser denominado sublime. A sua contemplação é horrível; e já se tem que ter preenchido o ânimo com muitas ideias se através de uma tal intuição nos devemos dispor a um sentimento, o qual é ele mesmo sublime, enquanto o ânimo é incitado a abandonar a sensibilidade e ocupar-se com ideias que possuem uma conformidade a fins superiores.”

 

Vai assim Kant introduzir uma divisão na análise do sublime: o sublime matemático e o sublime dinâmico.

A noção de sublime matemático está ligada à ideia de grandeza, ou o imensamente grande, o que acontece quando imaginamos o infinito das galáxias e a distância de anos-luz entre elas, ou quando se olha oceano deixando-nos invadir pela sensação da sua enormidade, enquanto o sublime dinâmico aparece ligado à ideia do imensamente potente, o que pode acontecer quando pensamos ou vemos maremotos, terramotos, erupções vulcânicas. “É assim que a natureza é sublime naquele de entre os fenómenos cuja intuição comporta a ideia da sua infinitude”.

 

Acompanhemos Cândido Pimentel quando nos clarifica que “Ante o imensamente grande e o imensamente potente, o homem sente o contraste da sua pequenez e fragilidade, ou sente a possibilidade de a todo o instante ser esmagado pela natureza, devorado pelo fogo ou engolido pelo oceano, o que constitui uma visão horrível ou terrível, sem equivalente com a visão do sublime. Esta ocorre quando, ainda que com a consciência desse terrível, o homem se descobre superior ao imensamente grande e ao imensamente potente dos fenómenos naturais por ter em si as ideias da totalidade absoluta, enquanto ideias da razão, que superam o que, à primeira vista, parecia subjugar o próprio gomem.

 

Em qualquer dos casos, quer para o sublime matemático quer para o dinâmico, estes juízos são independentes do objeto. São por isso “puros”. Ouçamos Kant sobre o sublime matemático:

 

Daí vê-se também que a verdadeira sublimidade tenha que ser procurada  só no ânimo daquele que julga e não no objeto da natureza, cujo julgamento permite essa disposição do ânimo. Quem quereria denominar sublimes também massas informes de cordilheiras amontoadas umas sobre as outras em desordem selvagem, com as suas pirâmides de gelo, ou o sombrio mar furioso, etc.? Mas o ânimo sente-se elevado no seu próprio julgamento quando na contemplação dessas coisas sem consideração da sua forma, se entrega ao cuidado da faculdade da imaginação e de uma razão meramente ampliadora daquela, conquanto posta totalmente em ligação com ela sem fim determinado e no entanto considera o poder inteiro da faculdade da imaginação inadequado às ideias da razão.”

 

E sobre o sublime dinâmico, ao explicar que a sublimidade está contida no nosso ânimo e não em nenhum objeto da natureza:

 

“na medida em que podemos ser conscientes de ser superiores à natureza em nós e através disso também à natureza que nos é exterior (na medida em que não influi sobre nós). Tudo o que suscita esse sentimento em nós, a que pertence o poder da natureza que desafia as nossas forças chama-se então (ainda que impropriamente) sublime; e somente sob a pressuposição desta ideia em nós, e em referência a ela, somos capaz de chagar à ideia da sublimidade daquele ente que nos provoca íntimo respeito não somente através do seu próprio poder, que ele demonstra na natureza, mas ainda mais através da faculdade que em nós está colocada, de ajuizar sem medo esse poder e pensar o nosso destino como sublime acima dele.”

 

 

 

O jornalista britânico Mehdi Hassan, gere uma secção intitulada “Deconstructed” no jornal The Intercept, onde no dia 18 de junho de 2020 publicou o artigo “Let’s Defund The Military, Too” (Retiremos também fundos às forças armadas), em que abre com autorrespostas a um pseudo-questionário que põe:

 

Pergunta 1: Qual é o maior edifício de escritórios do mundo?

Resposta: O Pentágono. Com uma área total de pavimento de seis e meio milhões de pés quadrados – três vezes a superfície do Empire State Building. É enorme.

Pergunta 2: Quem é o maior empregador do mundo?

Resposta: Mais uma vez, o Pentágono, com quase três milhões de empregados. As forças armadas da China ocupam o segundo lugar com pouco mais de dois milhões de empregados, e em terceiro lugar segue-se o Walmart.

Pergunta 3: Qual é o departamento de defesa com maior orçamento do mundo?

Resposta: Acertou de novo, é o Departamento de Defesa dos EUA, o Pentágono!

Por qualquer ponto que se queira ver, é mais que enorme. O orçamento de defesa é de 736 biliões de dólares, o que significa que o Pentágono gasta tanto dinheiro com a defesa como os 10 mais próximos países todos em conjunto.”

“[…] A guerra no Iraque custou aos EUA mais de 2 triliões de dólares, a Guerra ao Terror mais de 6 triliões, e o orçamento do Pentágono para o próximo ano está previsto custar mais de 7 triliões de dólares […] Atualmente, os EUA têm 200.000 militares estacionados fora dos EUA em mais de 150 países. Temos 800 bases militares em 80 países. Comparando, os outros 11 países com bases fora do seu solo, ao todo entre eles têm 70 bases!

 

Sublimação do sublime.

 

 

 

Notas:

 #  As citações de Immanuel Kant foram retiradas da Crítica da Faculdade do Juízo, introdução de António Marques, tradução e notas de António Marques e Valério Rohden, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1998.

 

# Sobre o Projeto Manhattan, ver o artigo da Wikipedia (https://en.wikipedia.org/wiki/Manhattan_Project), e a obra de Richard Hewlett e Oscar Anderson Jr, The New World, 1939/1946, A History of The United States Atomic Energy Commission, Pennsylvannia State University Press, University Park, Pennsylvannia, 1962 (https://www.governmentattic.org/5docs/TheNewWorld1939-1946.pdf).

 

 

 

 

 

 

(272) Não peçam trabalho. Peçam dinheiro.

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

As democracias são governadas pelo princípio de um-homem-um-voto, o sistema económico é governado pelo princípio de um-dólar-um-voto.

 

Ambicionar a situação ou a fortuna dos ricos, e a tal ponto de desejar tomá-las pela força, ou através do tumulto e confusão públicos, não só é mau, como insensato, A. Ure.

 

A vozearia popular a gritar “Liberdade, Igualdade, Fraternidade” significou acima de tudo que o feudalismo estava morto, e que a burguesia conquistara o direito de comprar e vender o que lhe agradasse, como, quando, e onde quisesse.

 

Com o tempo, os trabalhadores não poderão receber mais que o necessário para lhes permitir … viver e perpetuar a raça, sem aumentar nem diminuir, David Ricardo.

 

Mais sabão, mais confinamento, mais biliões e biliões para a “recuperação” e “reconstrução”?

 

 

 

 

Por razões que não se conseguem determinar, a civilização humana prevalecente, a não ser por alguns períodos curtos, alicerçou-se sempre na escravização de outros humanos para o benefício de alguns poucos.

Com matizes variados, podendo ir desde a escravatura pura e dura em que o escravo era propriedade à total disposição do dono, até aos vários tipos de servidão que asseguravam aos servos a “regalia” de não poderem ser vendidos fora da terra a que pertenciam (o senhor poderia transferir a posse do feudo para outro, mas para o servo isso apenas significava que passaria a ter um novo senhor: ele, e seus familiares, iam com a terra).

Dir-me-ão que tudo isso acontecia na Idade Média. Mas leiamos o seguinte anúncio publicado no Charleston Courier, a 12 de abril de 1828:

 

Uma família valiosa … como jamais se ofereceu para venda, consistindo em uma cozinheira com cerca de 35 anos, sua filha com cerca de 14 e seu filho, cerca de 8. Serão vendidos juntos ou apenas em parte, conforme interessar ao comprador”. (P. Boissonnade, Life and Work in Medieval Europe, N.Y., 1927, p. 16).

 

Ou seja, aquilo que na Idade Média não podia ser feito nem por desejo do senhor feudal (separar uma família da terra), podia ser feito no século XIX: desmembrar uma família ao sabor do vendedor/comprador.

Quando a vozearia popular começou a gritar “Liberdade, Igualdade, Fraternidade”, tal significou acima de tudo que o feudalismo estava morto, e que a burguesia conquistara o direito de comprar e vender o que lhe agradasse, como, quando, e onde quisesse.

 

Dir-me-ão que isso se passava nos Estados do Sul da América apenas com escravos negros. Ouçamos o depoimento, mais ou menos da mesma altura, sobre as crianças obrigadas ao trabalho infantil, de John Moss, antigo capataz de aprendizes numa fábrica de tecidos de algodão, perante uma comissão do Parlamento inglês em 1816 (Report of the Minutes of Evidence Taken Before the Selected Committee on the State of the Children Employed in the Manufactories, 1816, pp. 178-180):

 

Eram aprendizes órfãos? – Todos aprendizes órfãos.

E com que idade eram admitidos? – Os que vinham de Londres tinham entre 7 e 11 anos. Os que vinham de Liverpool, tinham 8 a 15 anos.

Até que idade eram aprendizes? – Até aos 21 anos.

Qual o horário de trabalho? – Das 5 da manhã até às 8 da noite.

Quinze horas era um horário normal? – Sim.

Quando as fábricas paravam para reparações ou falta de algodão, tinham as crianças, posteriormente, de trabalhar mais para recuperar o tempo parado? – Sim.

As crianças ficavam de pé ou sentadas para trabalhar? – De pé.

Durante todo o tempo? – Sim.

Havia cadeiras na fábrica? – Não. Encontrei com frequência crianças pelo chão, muito depois da hora em que deveriam estar dormindo.

Havia acidentes nas máquinas com as crianças? – Muito frequentemente.”

 

A grande maioria das pessoas ricas nem sequer pensava nas condições de trabalho infantil. E quando o fazia, socorria-se do raciocínio de que tinha de ser assim para a economia poder funcionar. Invocava mesmo algumas partes da Bíblia, como “os pobres, sempre os tendes convosco?”.

Ou, como dizia G. A. Lee, dono de uma tecelagem, sobre as quinze horas de trabalho diário das crianças: “Nada mais favorável para a moral que o hábito, desde cedo, da subordinação, da indústria e da regularidade”.

Ou, como dizia o presidente da Royal Society, Giddy, sobre a proposta de se criarem escolas primárias para as crianças das classes trabalhadoras:

 

Dar educação às classes trabalhadoras pobres … seria prejudicial à sua moral e felicidade: aprenderiam a desprezar a sua sorte na vida ao invés de fazer deles bons servos na agricultura e outros empregos laboriosos, a que a sua posição na sociedade os destina … permitir-lhes-ia ler folhetos sediciosos … e os tornaria insolentes para com os seus superiores.

 

Ou, como dizia o arquidiácono W. Paley, em 1793, em jeito de consolo e ajuda aos descontentes da classe trabalhadora que se consideravam em má situação face aos ricos que viviam bem:

 

Algumas das necessidades que a pobreza impõe não constituem durezas, mas prazeres. A frugalidade em si é um prazer. É um exercício de atenção e controle que produz contentamento. Este perde-se quando no meio da abundância. Não há prazer em tirar de recursos imensos. Uma vantagem ainda maior que possuem as pessoas em situação inferior é a facilidade com que sustentam os filhos. Tudo o que o filho de um pobre necessita está encerrado em duas palavras, ‘indústria e inocência’.

[…] Outra coisa que o pobre inveja do rico é a sua ociosidade. Trata-se de um engano total. A ociosidade é a cessação do trabalho. Não pode, portanto, ser gozada, ou mesmo provada, exceto pelos que conhecem a fadiga. O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação que o repouso proporciona ao pobre”.

 

Ou, como observou na sua sentença o juiz, Sir WilliamGarrow, a quando do julgamento de nove chapeleiros de Stockport que se pretendiam organizar em sindicato, os condenou a dois anos de prisão:

 

Neste feliz país onde a lei coloca o menor súbdito em igualdade com a maior personagem do Reino, todos são igualmente protegidos, e não pode haver necessidade de se associar. A gratidão devia-nos ensinar a considerar um homem como o Sr. Jackson, que emprega de 100 a 130 pessoas, como um benfeitor da humanidade”.

 

Ou seja, o trabalho traz conforto e consideração aos trabalhadores, e as associações apenas os levarão à prisão e à pobreza.

 

Ou, como o primeiro economista a tratar a economia como ciência, David Ricardo, explicava a lei dos salários dos trabalhadores no seu livro The Principles of Political Economy and Taxation (1817):

 

O preço natural do trabalho … depende do preço do alimento, necessidade e conveniências necessárias à manutenção do trabalhador e sua família. Com um aumento no preço dos alimentos e das necessidades, o preço natural do trabalho eleva-se. Com a queda, o preço natural do trabalho cai.”

Assim, quando o preço do mercado é alto, quando os trabalhadores recebem mais do que o bastante para o sustento das suas famílias, a tendência é aumentar o tamanho dessas famílias. E com isso o aumento do número de trabalhadores reduzirá os salários. Quando o preço do mercado é baixo, quando os trabalhadores recebem menos do que o necessário para manter as famílias, então o número de trabalhadores reduz-se. E um menor número de trabalhadores eleva os salários.

Ou seja, “com o tempo, os trabalhadores não poderão receber mais que o necessário para lhes permitir … viver e perpetuar a raça, sem aumentar nem diminuir.

 

Ou como, John Stuart Mill explica no Principles of Political Economy (1848), a famosa doutrina do fundo de salários (fundo posto de lado logo à partida para pagamento de salários), que visava combater as revindicações dos trabalhadores para salários mais altos:

 

Os salários não podem elevar-se, a não ser pelo aumento dos fundos conjuntos empregados na admissão de trabalhadores, ou na diminuição do número de concorrentes à admissão, nem podem cair, exceto pela diminuição do fundo de pagamento do trabalho, ou pelo aumento do número de trabalhadores a serem pagos.”

 

Ou seja, nenhuma esperança para os trabalhadores virem algum dia a ter salários mais altos, a menos que o fundo salarial aumentasse ou o número de trabalhadores diminuísse.

 

Dir-me-ão que tudo isso aconteceu nas fases iniciais da industrialização que já passaram, e que agora tudo é diferente. Contudo, todo este argumentário utilizado continua hoje a ser usado (e bem entranhado que está) sempre que acontecem épocas de crise.

Veja-se o que se passa com o branqueamento da escravatura. Praticamente ninguém fala dela. Desapareceu. E, contudo, segundo as últimas investigações, (https://antislaverylaw.ac.uk/), metade dos países de todo o mundo ainda hoje não consideram a escravatura como crime.

Embora nos últimos duzentos anos todos os países tenham progressivamente abolido a propriedade sobre outro ser humano, em muitos deles nem a escravatura nem o tráfico de escravos se encontram criminalizados. Em 94 dos 193 estados membros das Nações Unidas, ninguém pode ser processado ou punido por escravatura, incluindo o tráfico humano, o trabalho forçado, servidão e tráfico de escravos.

Eis o resumo:

. 94 dos estados (49%) não têm legislação que criminalize a escravatura.

. 112 estados (58%) não contemplam penas que punam o trabalho forçado.

. 180 estados (93%) não criminalizam a servidão.

. 170 estados (88%) não criminalizam instituições e práticas similares à escravatura.

 

Em conclusão, apesar de pela Declaração Internacional dos Direitos Humanos de 1948 (https://www.un.org/en/universal-declaration-human-rights/) a escravatura ter sido proibida, tal não significa que tenha sido abolida, pelo que a escravatura, nas suas várias formas, continua presente em quase todo o mundo.

 

Este pequeno transcurso histórico permite-nos observar tendências de desenvolvimento que têm profundas raízes económicas e políticas na sociedade em que vivemos, para assim conseguirmos entender melhor das repercussões que a democracia e o vírus terão nela.

Ao passo que as democracias são governadas pelo princípio de um-homem-um-voto, o sistema económico é governado pelo princípio de um-dólar-um-voto. Como os mercados recompensam os-que-têm, não os-que-não-têm, o capitalismo e a democracia só têm possibilidade de coexistir em pequenos períodos de tempo, como aqueles 30 ou 40 anos após o fim da 2ª Grande Guerra (1945) em que o capitalismo foi “gerido-pelo-estado”.

O padrão normal é o do antagonismo entre capitalismo e democracia que prevaleceu nas suas diversas formas até à Guerra, e que voltou a prevalecer recentemente.

Quando coexistem lado a lado, o capitalismo exige por parte dos seus condutores uma grande criatividade a fim de neutralizarem a democracia. Esta neutralização da democracia tem vindo a ser conseguida através de vários meios, nomeadamente pela globalização das cadeias de valor e dos sistemas de produção, pela financialização, e pelos diferentes métodos de imunização contra a intervenção política democrática.

Apesar dos ganhos de tempo que tais expedientes têm permitido, é hoje visível que os intervalos de tempo entre as crises que se têm vindo a desenvolver têm vindo a ser cada vez menores.

 

O caso do vírus é sintomático. O vírus só se propagou tão rapidamente, devido à densa integração internacional das sociedades e economias, e só teve grande sucesso porque os países afetados que gozavam das grandes vantagens da globalização não tiveram os cuidados para se protegerem contra as desvantagens ou riscos da globalização.

Quando o vírus chegou, a maior parte dos países não tinham sistemas de saúde adequados capazes de resistirem a uma pandemia. Para além disso, os sistemas de emprego desenvolvidos não eram capazes de proteger os trabalhadores para o caso de uma brusca desaceleração da atividade económica, onde já imperavam cortes de salários e da despesa pública, resultantes de uma austeridade induzida. A que acresce ainda uma desigualdade ao nível do início do século XX, uma evasão fiscal propositadamente incontrolada, crescimentos anémicos, etc..

 

Está criado o cenário para a aceitação da renúncia de todas as liberdades e para o controle total dos nossos dados e atos em troca da sensação de “paz e segurança”.

Muito provavelmente assistiremos à falência dos Estados Nacionais, à destruição do capitalismo financeiro e do petrodólar a favor do “capitalismo verde”, e de uma férrea economia de controle dos recursos. A classe média desaparecerá. Os bilionários passarão a multibilionários; os milionários, os ricos e os pobres, converter-se-ão numa massa de precários globais. E tudo isto será imposto sem qualquer oposição devido à necessidade de se evitar uma nova pandemia. A refinação do costume.

 

 

Há muito que alguns pensadores se punham este problema existente entre o mandar e o obedecer, que efetivamente parece ser do que se trata. Rousseau (1712-78), sonhava “que todos obedeçam sem que ninguém mande, que sirvam sem que haja um senhor”.

O que de certa maneira expressa a utopia da política moderna que acredita numa sociedade sem amos, onde a liberdade e a igualdade se realizam. Ou seja, onde a liberdade é obediência e a obediência é a liberdade.

Para evitar o excesso proveniente de tal proclamação, Kant (1724-1804), propôs em sua substituição outra fórmula: a liberdade deveria ser total para a razão, mas a obediência deveria condicionar-se para garantir o funcionamento da sociedade. A liberdade ficava adiada.

Porque continuamos desconfiando e temos medo da liberdade? Porque não nos rebelamos? Porque continuamos temendo que sem obediência só nos espera o caos e a guerra?

 

O muito jovem Étienne de La Boétie (1530-63), vai no seu breve tratado, Discours de la servitude volontaire (1547), responder à pergunta essencial: porque obedecemos se podemos não o fazer?

Diz La Boétie que toda a obediência é voluntária. Mesmo ante o poder dos senhores, obedecemos porque queremos. A questão não é, pois, saber se decidimos pela força ou se decidimos livremente. A verdadeira questão é a de sabermos se há alguma maneira de viver juntos que não dependa da obediência.

A sua resposta é que tal é possível através da cooperação, única expressão da liberdade em que poderemos confiar.

 

Quatrocentos anos mais tarde, Michel Foucault (1926-84), perguntava outra coisa: porque éramos tão dóceis, quando tínhamos cada vez mais capacidades e aptidões?

Na sua História da sexualidade, descreve-nos a alteração das ‘regras’ do poder verificada na sociedade depois do século XVII.  Segundo ele, até ao século XVII, era privilégio do soberano o exercer poder de vida e de morte sobre os súbditos, mediante a permanente ameaça de destruição física.

Após o século XVII, devido à necessidade/finalidade que se impunha de fazer crescer as forças de produção e de as controlar (era a economia que interessava), o poder, para controlar essas forças de produção, passou a utilizar incentivos, reforços, supervisão, vigilância.

O poder de morte detido pelo soberano (que vinha pondo cada vez mais entraves ao desenvolvimento da economia) vai, então, começar a ser substituído por uma administração e controle minuciosos da população.

Consequentemente, o poder começa a preocupar-se, entre outros, com o número de nascimentos, a mortalidade, o estado de saúde, como meio para melhor governar e dirigir a população.

Ou seja, dá-se uma alteração nos modos de conseguir a obediência dos indivíduos: já não se trata de os fazer obedientes, mas de torná-los dóceis.

 A “docilidade não é uma obediência mecânica, como a vassalagem ou a escravatura, mas uma forma de domínio que necessita potenciar as capacidades dos indivíduos”.

Quer dizer, quanto mais aptos, mais dominados, quanto mais capazes, mais úteis, quanto mais potentes, mais eficientes, quanto mais competentes, mais disponíveis.

 

Como resistir a um tal poder? Como resistir a este poder que nos convenceu que a vida é a vida do trabalho, tenha-se ou não emprego? Que nos convenceu que temos de trabalhar para ganhar a vida fazendo uma atividade inútil que só nos assegura o subsistir para continuar a fazer a mesma atividade inútil?

Se aprendêssemos com os nossos senhores, veríamos que durante estes tempos de pandemia em que a economia esteve fechada, eles continuaram a ganhar mais dinheiro. Não precisam trabalhar para aumentarem os seus proventos. Como dizia o telefonista do Congo: “Dans le système!”

Razões mais que suficientes para começar a pedir dinheiro em vez de trabalho.

 

A outra opção é seguir o conselho do padre A. Ure, The Philosophy of Manufactures, Londres, 1861):

 

Ambicionar a situação ou a fortuna dos ricos, e a tal ponto de desejar tomá-las pela força, ou através do tumulto e confusão públicos, não só é mau, como insensato”.

 

 

 

 

 

 

 

Ver blog de 05 de outubro de 2016, “Do biopoder ao psicopoder”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/2016/10/).

 

 

 

(271) Arte e Poder. Arte na Igreja.

 Tempo estimado de leitura: 12 minutos.

 

“Tornar de Novo Bonitos os Edifícios Federais(Make Federal Buildings Beautiful Again)”.

 

Uma igreja não é só um problema de geometria, mas ainda um problema de fé, de cultura, de história.

 

O cristão não vai à igreja para gozos de arte; vai para rezar, para chorar talvez, também para cantar. A arte aqui é serva do culto.

 

Uma igreja não pode ser uma casa utilitária ou um museu para ostentação morta de obras de arte ou exposição de ensaios arrojados de vanguardismo.

 

Arte religiosa não é o mesmo que arte sacra. Haverá obras-primas de arte religiosa, que não têm cabimento numa igreja.

 

 

 

Desde que apareceu, a Arte esteve sempre presente em todas as atividades e representações humanas, das singelas grutas às grandes construções. E foi sempre aproveitada, apropriada, utilizada, pelos poderes instituídos, numa demonstração de intimidação (cultural e outras), para deslumbramento próprio ou do povo submetido ou que se deixou ou se foi deixando submeter.

A 3 de fevereiro de 2020, o Architectural Record publicou um bosquejo de o que virá a ser uma ordem executiva do presidente Donald Trump, sobre os princípios porque se deve nortear a arquitetura federal dos EUA: “Tornar de Novo Bonitos os Edifícios Federais” (Make Federal Buildings Beautiful Again), assegurando que “o estilo de arquitetura clássico deve ser preferido e tido como modelo quer para os novos edifícios federais, quer para os que necessitem de ser melhorados ou reconstruídos”. (https://www.theguardian.com/us-news/2020/feb/04/trump-federal-buildings-beautiful-classical-order). Novos tempos, novas vontades.

 

Pretende assim, substituir os “Princípios Guias para a Arquitetura Federal”, (Guiding Principles for Federal Architecture), escritos em 1962 pelo senador Daniel Moynihan a pedido do presidente John F Kennedy, em que explicitamente dizia que “um estilo oficial deve ser evitado”, e que os novos edifícios deviam refletir os seus tempos. Outros tempos, outras vontades.

 

 

Uma das instituições onde melhor se poderá aquilatar sobre esta “relação existente” entre a arte e o poder será, sem dúvida, a Igreja, não só pelo largo período de tempo em que tem permanecido como referencial, como pelo facto de as  igrejas serem, por excelência, construções representativas de uma comunidade, que aparecem como locais privilegiados onde se acolhiam as várias artes. É, por isso, importante entender-se o conceito que a Santa Sé tem sobre o que é Arte, arte da igreja e arte na igreja.

 

A disposição e a construção das igrejas refletem, desde o início, as orientações da doutrina revelada e da liturgia. Por exemplo: só os cristãos podiam entrar nas Igrejas, motivo porque se construíram pequenos edifícios contíguos e exteriores à igreja, os batistérios, onde as pessoas eram batizadas. Só depois poderiam entrar na igreja.

 

Ao fim de vários séculos, as igrejas foram-se encontrando invadidas com tudo o que as comunidades e seus representantes entendiam lá colocar. É assim, que a fim de evitar a heterogeneidade e quantidade de representações aparecidas durante o Renascimento, a Santa Sé se viu na necessidade de avisar, aconselhar e ordenar sobre a Arte da Igreja, o que veio a acontecer no Concílio de Trento e Direito Canónico (1545-1563).

Com o início do século XX, devido ao constante aparecimento de novas interpretações sobre a realidade, inicia-se um período de grandes transformações e ruturas no campo da Arte, expresso nos movimentos cubistas, surrealistas, abstracionistas, impressionistas, dadaístas, etc.

A impreparação e a rapidez dos movimentos, que tudo invadiam e progressivamente invalidavam, muitas vezes de teorias opostas e opiniões exageradas, e que acabavam por extravasar para o campo da Igreja, tornou obrigatório o debate interno sobre a Arte da Igreja. Pelo que a Igreja sentiu que tinha de fazer mais.

 

Assim, em 1924, Pio XI cria a Pontifica Comissão Central para a Arte Sacra em Itália, com a finalidade de “manter o senso da Arte Cristã e o zelo inteligente devoto da conservação e incremento do património artístico da Igreja”.

Estas Comissões estenderam-se a outras Dioceses, nem sempre com a presteza necessária. Em Portugal, as primeiras Comissões só aparecem em 1953, na Guarda, e em 1955, em Aveiro.

 

Logo após a Segunda Guerra Mundial,  devido ao sem número de reconstruções de igrejas destruídas, Pio XII, em 1947, não querendo perder a ocasião de ver juntar os artistas modernos à voz de louvor a Deus, vê-se quase que obrigado  a “legislar” sobre a Arte na Igreja, o que o faz através da encíclica Mediator Dei, onde diz que a Igreja aceita a Arte moderna “no que ela tem de vital”, (1) não confundindo aquilo que é intrinsecamente moderno com modos efémeros e inconvenientes.

 Diz ainda que a Igreja tem receio da “arte deformadora” e ofensiva à doutrina e ao senso religioso e litúrgico, reprovando aqueles que expõem à veneração dos fiéis uma multidão de estátuas e de imagens que acentuam as práticas particulares e insignificantes ridicularizando assim a religião e diminuindo a dignidade do culto.

 

Posteriormente, em 1952, a Santa Sé dirige às dioceses do mundo inteiro uma “Instrução sobre Arte Sacra”, (2) da responsabilidade da Congregação do Santo Ofício, onde, para além de aclarar alguns princípios no que se refere à casa de Deus,  se afirma “o constante carinho que a Igreja sempre teve pela arte”, e a constante preocupação da Igreja para que a arte contribua para a dignidade da Casa de Deus.

 

 

O que é a Casa de Deus?

 

Uma igreja, pelo Código de Direito Canónico, é um “edifício dedicado ao culto e às reuniões dos fiéis”, e sendo “aos olhos dos crentes […] verdadeiramente a ‘casa de Deus’. Deus habita pessoalmente nela”, sendo, portanto, “mais, infinitamente mais, do que casa de oração e reunião”.

 Além disso, segundo a “Instrução da Suprema Congregação do Santo Ofício […] deve contribuir para a beleza da casa de Deus e fomentar a fé e a piedade”.

 

  Como?

 

“Uma igreja tem de obedecer a leis, que derivam da doutrina revelada e duma reta ascética”, não podendo ser uma casa utilitária ou um “museu para ostentação morta de obras de arte ou exposição de ensaios arrojados de vanguardismo”.

Terá de ser obra de arte, em que todas as artes chamadas a colaborar, devem fazer “ato de humildade, esquecendo-se de si para se submeterem como servas ao que ela exige de cada uma”.

 Expressa depois uma das preocupações constantes ao sublinhar que:

 “Quer Sua Santidade o Papa que se afaste das igrejas tudo aquilo que seja indigno da casa de Deus, que perturbe ou diminua a piedade e a devoção, que dê motivo de estranheza ou de escândalo. Haverá obras-primas até de arte religiosa, que lá não têm cabimento; arte religiosa não é o mesmo que arte sacra”.

 

Princípio basilar da arquitetura

 

O princípio basilar da arquitetura é o seu caracter funcional e racional.

 “A mais bela arquitetura é aquela que realiza a sua função com mais sinceridade, com mais unidade, com mais simplicidade. No caso de uma igreja, ela só será bela se for realmente e parecer evidentemente uma igreja”, tendo, contudo, em atenção que uma igreja não é só um problema de geometria, mas ainda um problema de fé, de cultura, de história.

 Por outro lado, “funcional, e mesmo racional, não pode tornar-se como sinónimo de utilitário”. E acrescenta que nenhum estilo está excluído, lembrando que Pio XII abria portas e “convidava a “arte dos nossos tempos” …com uma condição: que se “pusesse ao serviço dos edifícios e ritos sagrados com a devida reverência e honra”.

 

Valores permanentes

 

Valores, que independentemente do estilo, são permanentes numa igreja: em primeiro lugar o carácter sagrado; depois a nobreza, a dignidade, a espiritualidade, a beleza, e ainda a tranquilidade, a segurança, a estabilidade da Fé Católica.

 Admite que os edifícios profanos “acompanham mais vivamente o progresso ou a evolução da arte”, pois as “igrejas prestam-se mal a experiências temerárias: as suas pedras foram beijadas por gerações sucessivas”. Lembra Vitrúvio, que ficaria do lado dos tradicionalistas, com o seu aforismo: “estabilidade, utilidade, antiguidade”.

Lembra que não se deve esquecer que as igrejas novas são para o público cristão, e que “estariam funcionalmente erradas se o povo não as pudesse compreender. O cristão não vai à igreja para gozos de arte; vai para rezar, para chorar talvez, também para cantar. A arte aqui é serva do culto.”

 

Valores modernos

 

Segundo a Instrução referida – “Na construção dos templos atenda-se à comodidade dos fiéis, de maneira que possam participar dos divinos ofícios com melhor visão e disposição de espírito…evite-se tudo o que mostre negligência na conceção e na execução.”

Referindo-se ao espaço na igreja, chama a atenção para o altar, pois ele é o coração da igreja. “Tudo deve derivar do altar e convergir para o altar. A Multiplicidade dos altares vinha acentuar a dispersão e distância que o altar deveria ter relativamente aos fiéis.”

“Cada igreja significa e realiza a unidade do povo católico, um só Cristo, um só altar, um só rebanho, um só pastor.

Outro valor moderno é a simplicidade, pois o “gosto contemporâneo aprecia sobretudo, aquele género de beleza que resulta do esplendor da verdade.” “A simplicidade resulta da justeza, da pureza, da unidade”.

Outro valor é a sobriedade, que vale pela “nobreza, pela discrição, pela medida.”

 

Modernidade e tradição

 

 “Nunca a Igreja oficializou um estilo como seu. Este nasce do ambiente cultural, da técnica e do material: é-lhe estranho.

Donde, não condena o moderno, tendo-o até acolhido em todos os tempos. “Pois não foram modernas em seu tempo as obras consagradas do passado?” “Novo, moderno, se tem verdadeiro valor artístico, não se confunde com diretivas efémeras, atitudes polémicas, exercícios habilidosos, extravagâncias de escândalo. Sobretudo numa igreja, que não é atelier de ensaios”.

Novo, há-de ser coisa viva e vital”, “arte que não se renova é arte morta”.

 

O prejuízo da novidade

 

O prejuízo da novidade mata a arte nova. “Consiste no gosto da novidade pela novidade. A obra de arte, não vale pelo seu valor intrínseco, mas porque é diferente”, o que levaria a definir a arte “por aquilo que é a negação dela, defini-la por aquilo que é a parte mortal das coisas, que é exatamente a sal qualidade de ser novas”.

 “Este prejuízo provém do vazio interior, da incapacidade de julgar e contemplar a obra de arte naquilo que a constitui, da ausência de cultura sólida. “

Daí que “O artista verdadeiro nunca faz obra igual, mesmo quando faz a mesma”.

 

Tradição e estagnação

 

Tradição, significa etimologicamente alguma coisa que se entrega. É capital de ciência e cultura, a experiência das gerações anteriores, confiado aos novos para o desenvolver e enriquecer. Sem ele, a arte seria um principiar sem fim. Está na base de todo o progresso artístico”.

A arte sacra, fundada sobre a tradição, deve a si própria, mais que qualquer outra, ser arte viva”.

Se são de reprovar igrejas, imagens e representações modernas que “parecem, no dizer de Pio XII, deformações e depravações da arte sã”, não é menos de reprovar “que se exponha à veneração dos fiéis, sem ordem nem gosto, ou nos próprios altares ou nas paredes contíguas às capelas, uma profissão de estátuas e imagens de pouco valor, tantas vezes feitas em série”.

 “A arte sacra deve tornar-se inteligível à comunidade cristã. Mais, deve ajudar à sua vida litúrgica. Isso implica que tem por sua vez de a educar, de a encaminhar para as fontes puras, de lhe sugerir e facilitar a purificação dos sentidos”.

 

Arte viva

 

Arte viva, a respeito duma igreja católica…é pensar dentro de si o mistério cristão, e procurar a expressão mais clara para o traduzir plasticamente, com verdade, respeito e devoção”, e finaliza dizendo “E no ato doloroso da conceção é preciso que passe Cristo, como uma aparição de luz e de graça.

 

Ilações

 

Deste documento, ressalta em primeiro lugar, a preocupação em definir igreja como uma obra essencialmente comunitária, onde os artistas devem ter a sua liberdade de expressão, mas onde têm de ouvir a voz de uma bem entendida tradição, que guarda em si o respeito e a interpretação da Doutrina e da Liturgia.

Que a Igreja não tem uma política de arte e nunca a teve.

Que aquilo que leva a Igreja a aceitar o serviço das Belas-Artes, é a dignidade do culto e o louvor de Deus e edificação dos fiéis, ou seja, os fins da liturgia.

Que a Igreja aceita a Arte moderna no que ela tem de vital.

Que a Igreja tem receio da arte deformadora e ofensiva à doutrina e ao senso religioso e litúrgico.

 

Problemas

 

O que é vital na arte moderna?

Uma pintura de Rubens não pode ser dita melhor que uma de Van Gog. São distintas, mas igualmente boas, criadas em momentos diferentes. As catedrais góticas são boas para o seu tempo, e não se pode dizer que são melhores que a Cúpula de Miguel Ângelo.

 Seguindo o mesmo raciocínio, uma pintura de Matisse é boa, da mesma forma que um mosaico de Ravena. O vital de cada arte e artista está no expressivo da mentalidade do momento em que nasceu. Só dentro do mesmo estilo é que se pode discutir da qualidade.

Com o expressivo quer-se dizer, com a interpretação da sensibilidade atual. Exatamente porque esta sensibilidade afeta o próprio Cristianismo, o que se verifica pela atualização da Liturgia, é natural que a Igreja admita a arte moderna sempre que esta a ajudar a interpretar essa mesma sensibilidade pastoral e cultural.

 

Quais são então as obras deformadoras?

 

 São aquelas que não são dignas de serem chamadas Arte, por não respeitarem a verdade do tema, visto à luz da sensibilidade social do momento.

No caso da arte moderna, se ela é expressão do nosso tempo, é arte, e sendo intérprete da nossa sensibilidade não é deformadora. Se é deformadora, ela não é arte, por não encarnar a linguagem estética do espírito humano do momento em que nasce.

 São também deformadoras “a multidão de imagens e estátuas…e tudo o que acentua o particular e insignificante com detrimento do essencial, ridicularizando assim a religião e diminuindo a dignidade do culto”.

 

A quem deve de ser deixado o juízo sobre a deformação ou vitalidade da arte?

 

Seguindo o exemplo vindo de Roma, tal caberá a Comissões de Arte Sacra, compostas de engenheiros, pintores, escultores, arquitetos, críticos de arte, arqueólogos, historiadores, ao lado de teólogos, liturgistas, peritos que devem ajuizar do que é bom na arte da Igreja.

 

Como distinguir a arte da Igreja?

 

Sob o ponto de vista jurídico, só a Hierarquia tem poder para declarar o que deve ser admitido e ser, portanto, considerado arte da Igreja. Contudo, pode acontecer que se aceite o que não é arte, e se reprove o que é, e nem o que não é arte passe a ser arte por ter sido aceite, nem o que é arte passe a não ser arte por não ter sido aceite.

 Devemos admitir que entre as obras de arte religiosa (as que tratam de um tema cristão), há obras que valem só juridicamente porque foram aceites, e há outras capazes de serem aceites, estética e religiosamente, mas que demasiadamente individualistas e descompostas não são aceites, continuando a ser obras de valor.

Outras obras, têm valor artístico e religioso, mas não entraram de facto. Há finalmente outras obras que têm valor artístico e religioso e que são aceites, e que por isso são as que constituem a verdadeira arte da Igreja.

 

Filosofia subjacente

 

Todas estas conceções explanadas não só na Pastoral, mas ainda em outros documentos acima citados, escoram-se numa interpretação cristã de arte, sua função, seu valor, que resumidamente assim se apresentam:

 

Da mesma forma que o santo é um génio no plano ético, o sábio é um génio no campo do verdadeiro, também o artista sente o belo. Daqui resultam os “transcendentes”, que, filosoficamente se unificam na Perfeição Absoluta, de modo a poder concluir-se que o bom, o verdadeiro e o belo são qualidades reciprocamente participantes.

 O que é bom também é verdadeiro e belo, e assim por diante. Verdade, é o acordo entre a coisa e a inteligência. O “ser” é bom em si mesmo na medida em que realiza o seu fim, a sua perfeição, o seu tipo ideal.

 São Tomás diz que o bem é que torna o ser perfeito. Para que o “ser” seja bom, para poder realizar o seu fim, é necessário que seja ordenado, definindo-se ordem como “unidade na multiplicidade”. Qualquer “ser” em si mesmo, é bom, mas se não há nele uma relação ordenada ao fim, é mau. O mal é uma privação e uma desordem.

Também a nossa inteligência distingue no “ser”, a noção do belo. Se o bem é o “ser” considerado sob o ponto de vista da ação, o verdadeiro é o “ser” considerado sob o ponto de vista de conhecimento, o belo é o “ser” enquanto objeto de prazer para o espírito.

Todo o “ser” é belo por ser verdadeiro e bom, o que implica que a beleza pertence à perfeição do “ser”, sendo, no entanto, essencialmente espiritual. Não se dizem belas as coisas que impressionam de tal modo os sentidos ao ponto de não ser capaz o nosso espírito de facilmente encontrar o prazer espiritual. A beleza é a possibilidade de ver as coisas no “esplendor do ser”.

 

As artes, destinam-se a pôr em realce a beleza das coisas. Os artistas são os agentes da beleza, porque nos fazem descobrir nas coisas o esplendor da verdade. Se um artista quiser criar uma obra de arte, que seja bela em si mesma e ao mesmo tempo bela na relação com a inteligência humana, de modo a fazer-nos sentir o prazer espiritual, deve evitar que a sua obra desperte em nós a paixão dos sentidos.

Se a beleza de uma obra de arte corrompe o homem, a obra de arte terá valor estético, mas não tem o direito de existir, porque o homem que contempla e o que cria estão ambos sujeitos à ordem moral. (3)

Compreenda-se que se os artistas tratam o corpo humano com nobreza e poesia, eles fazem-no porque encontram nele a beleza espiritual. Como respondeu Miguel Ângelo aos que se lamentavam do nudismo das suas figuras da Capela Sistina:

 “Mas as almas não têm alfaiate que as vista”!

 

Pio XII, na alocução que fez a quando da comemoração do V centenário de Frá Angélico disse:

 

A arte não implica uma missão moral ou religiosa: enquanto é linguagem do espírito humano, se ela o reflete na sua verdade total, ou se ao menos não o deforma positivamente, a arte é já por si mesma sagrada e religiosa, na medida em que interpreta a obra de Deus”. (4)

 

 Ou seja, o sentido do sagrado é inato à natureza humana e vive na alma de todo o homem, sobretudo no artista. Qualquer artista capaz de criar em verdade, torna-se tributário desta sacralidade.

 

Em conclusão

 

Num curto espaço de tempo, entre 1947 e 1954, a Igreja espraiou-se em indicações sobre arte. Isso aconteceu, porque, uma vez terminada a guerra, havia que restaurar e reconstruir enorme número de igrejas atingidas ou destruídas pelas violências da guerra.

 Não foi o caso em Portugal, onde o Cardeal Cerejeira teve de aproveitar a inauguração de uma igreja, (abertura ao culto da nova igreja de São João de Deus, na Praça de Londres, em Lisboa, obra do arquiteto António Lino, 1953) para explanar na “Pastoral sobre a Arte Sacra” o  resumo de um sem número de conceitos que pontuavam e pontuam o que era e é a arte da Igreja.

 

Para grande parte dos artistas faltava a perspetiva dos problemas que se punham à Arte da Igreja. Preocupados com os problemas estéticos, desejariam que a igreja lhes servisse para todas as iniciativas bem-intencionadas. Mas o Cardeal vai tirar-lhes as dúvidas:

 

 “Uma igreja tem de obedecer a leis, que derivam da doutrina revelada e duma recta ascética. Nem casa utilitária onde não há lugar para voo da poesia, para contemplação de fé, para comunhão mística de amor; nem museu para ostentação morta de obras de arte ou exposição de ensaios arrojados de vanguardismo. Há-de ser efectivamente obra de arte, ela. E todas as artes chamadas a colaborar para a sua construção e decoração, devem fazer acto de humildade, esquecendo-se de si para se submeterem como servas, ao que ela exige de cada uma”. (5)

 

A igreja é, pois, uma obra essencialmente comunitária, onde os artistas devem ter a sua liberdade de expressão, mas onde têm de ouvir a voz da tradição, que guarda em si o respeito e a interpretação da Doutrina e da Liturgia.

E, sobre tradição, no que parece ser um programa compacto sobre a Arte na Igreja, o Cardeal vai pontificar:

 

Novo, moderno, hão-de ser coisa viva e vital, linguagem sincera como a própria voz, dom humilde e generoso do artista, na obra realizada. Arte que se não renova, é arte morta. Mas só se renova o que de algum modo se conserva. Como a vida que se renova incessantemente, rejeitando os elementos gastos e assimilando outros novos. Tradição, significa etimologicamente alguma coisa que se entrega. É capital de ciência e cultura, a experiência de gerações anteriores, confiado aos novos para o desenvolver e enriquecer. Sem ele, a arte seria um principiar sem fim. Está na base de todo o progresso artístico, como os alicerces de um edifício, que se não veem, mas o sustentam”. (6)

 

Os mesmos tempos, as mesmas vontades.

 

 

 

 

CITAÇÕES

  1. Citações referentes à Encíclica Mediator Dei, retiradas de OCHSE, Madeleine, Un Art Sacré pour le notre temps, Je sais-Je crois, Paris, 1959.
  2. “Instruction du Saint-Office sur l’Art Sacré”, segundo OCHSE, Madeleine, La Nouvelle Querelle des Images, Paris, 1953.
  3. LECLERCQ, Jacques, Les grandes lignes de la Philosophie Morale, p.233-246, Pub. Univ. Louvain, 1953.
  4. OCHSE, Madeleine, Un Art Sacré pour le notre temps.
  5. CEREJEIRA, D. Manuel Gonçalves, “Pastoral sobre a Arte Sacra”, in “Lumen”, maio, Lisboa 1953.
  6. CEREJEIRA, D. Manuel Gonçalves, idem.

 

Sobre a arte da Igreja, segui de muito perto a obra de Mendes ATANÁSIO, Arte Moderna e Arte da Igreja, M. das Obras Públicas, Coimbra, 1959.

 

 

 

 

 

(270) Os bárbaros já cá estão

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

O vírus da Covid foi um presente de Deus. O reino de Deus avança através de uma série de vitórias gloriosas, habilmente disfarçadas de desastres, Ken Eldred.

 

Antes da Segunda Vinda de Cristo, qualquer ensinamento sobre paz é uma heresia, James Robison.

 

As nossas escolas ensinam às crianças que elas não passam de chimpanzés glorificados que evoluíram a partir do barro primordial, Tom Delay..

 

“If you can say you can’t breathe, you’re breathing”, Hal Marx.

 

 

 

 

 

À espera dos bárbaros”, é um dos poemas escritos por Constantino Cavafy antes de 1911, traduzido por Jorge de Sena em 1953, publicados pela Centelha em 1986 (Noventa e mais quatro poemas), que, embora sem a vocalização e a cadência da língua grega, vale a pena, aqui e agora, lembrar:

 

 

O que esperamos nós em multidão no Forum?

 

Os Bárbaros, que chegam hoje.

 

Dentro do Senado, porquê tanta inacção?

Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

 

É que os Bárbaros chegam hoje.

Que leis haviam de fazer agora s senadores?

Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

 

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?

E às portas da cidade está sentado,

No seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

 

Porque os bárbaros chegam hoje.

E o imperador está à espera do seu Chefe

para recebê-lo. E até já preparou

um discurso de boas-vindas, em que pôs,

dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

 

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,

hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?

E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,

e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?

E porque levavam hoje os preciosos bastões,

Com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

 

Porque os Bárbaros chegam hoje,

E coisas dessas maravilham os Bárbaros.

 

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores

Para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

 

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,

e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

 

Porque, subitamente, começa um mal-estar,

e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!

E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,

e todos voltam para casa tão apreensivos?

 

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram.

E umas pessoas que chegaram da fronteira

dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

 

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?

Essa gente era uma espécie de solução.

 

 

 

Quando em 1536, João Calvino publicou A Instituição da Religião Cristã (Christianae Religionis Institutio), ou como é mais conhecido As Institutas (ensinos doutrinários próprios para a formação de um cristão), provavelmente estava longe de imaginar as repercussões que tais “verdades da religião cristã” acabariam por ter, ainda hoje.

 

Na linha de intenções agora saído do tronco do calvinismo, o teólogo americano Rousas Rushdooney (1916-2001) publica em 1973, os seus Institutos da Lei Bíblica (Institutes of Biblical Law), onde vai defender que a sociedade americana deveria ser governada de acordo com os preceitos bíblicos dos Dez Mandamentos, pois só assim Deus daria aos americanos, o domínio total sobre a Terra, tal como acontecera com Adão e Noé. Esse domínio implicaria também a subjugação de todos os não-crentes, possibilitando assim a nova vinda do Messias.

Seria certamente o fim dos tempos atuais. No fim destes tempos, instalados o caos e as guerras, os não-crentes sofrerão tormentos e morte, apenas se salvando os eleitos que serão arrebatados para o céu (o Arrebatamento) pelo regresso do Messias.

 

A sociedade desses chamados Estados Unidos Cristãos, preconizada e prevista nos Institutos, é uma sociedade dura, violenta e que não perdoa. O adultério, a bruxaria, a blasfémia, a homossexualidade, o incesto, a bestialidade, a apostasia, o rapto, o estupro e o mentir sobre a virgindade de outrem, serão crimes puníveis com pena de morte.

Será, ainda e também, uma sociedade eminentemente branca, pois, segundo Rushdooney:

 

O homem branco tem atrás de si séculos de cultura Cristã, bem como a disciplina e a seleção resultante dessa fé” […] “O negro é um produto com um passado radicalmente diferente, e a sua hereditariedade tem sido governada por considerações radicalmente diferentes.”

 

Ao governo federal pouco mais deve caber do que a defesa nacional. A educação e os serviços sociais devem ser entregues às igrejas. A lei bíblica deve substituir a legislação secular. A ideologia deve tudo comandar.

Tal será conseguido através das escolas cristãs a que o estado deve entregar os meios financeiros suficientes, bem como aos serviços sociais da igreja em substituição das repartições do estado. Dinheiro em quantidade deve ser disponibilizado a organizações religiosas fundamentalistas e para programas que promovam a abstinência sexual.

Os leaders religiosos mais relevantes, como Tony Evans, Tom Delay, Pat Robertson e Zell Miller, acreditam que foram escolhidos por Deus para este combate contra as forças do mal encarnadas no “humanismo secular”, para assim criarem a nação verdadeiramente cristã. O teólogo Francis Schaeffer, não se coíbe em apontar os “humanistas seculares”, como sendo “a maior ameaça, jamais vista pelo mundo, à cristandade”.

 

Um dos livros que melhor retrata a finalidade destes movimentos é America’s Providential History, livro importante porque serve de base ao ensinamento em grande parte das escolas cristãs. Começando por citar  o Genesis 26, “os homens  têm domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves do ar, sobre o gado e sobre toda a terra e sobre todas as coisas que existam sobre a terra”, vai pretender provar que na Bíblia se acredita que a América foi escolhida por Deus para vir a ser “a primeira verdadeiramente nação cristã”, tendo como obrigação dominar todo o mundo.

 

 Como se chega lá? O genro de Rushdooney, Gary North, fundador do Instituto de Economia Cristã, diz abertamente (“Christianity and Civilization”, Spring, 1982):

 

Sejamos francos: Devemos usar a doutrina da liberdade religiosa como forma para obtermos essa independência para as escolas cristãs até conseguirmos ter doutrinado uma geração de pessoas que sabem que não existe a neutralidade religiosa, que não existem leis neutrais, nem educação neutral, e nem governo civil neutral.”

 

Esta seria a forma com que os “dominionistas” teriam para operarem numa “sociedade secular contaminada”, num estado liberal. Ou seja, teriam de se mascararem de bonzinhos, aprenderem a falar em código, única forma que lhes permitia manter essa dicotomia entre a face pública e a privada. Aliás nada que não tivesse já sido usado por certas vanguardas políticas ou por terroristas islâmicos que cortavam as barbas, que se vestiam à ocidental, viam filmes pornográficos nos quartos de hotéis antes de no dia seguinte assaltarem aviões para um ataque suicida.

Essa dicotomia é bem expressa pelo conhecido tele evangelista e ex-candidato presidencial Pat Robertson, quando no panfleto, “How to Participate in a Political Party” (Como participar num partido político), distribuído aos seus seguidores no Caucus Republicano de Iowa (Iowa Republican County Caucus) para as eleições (1986) dentro do partido Republicano, os incentiva a:

 

Dar a impressão de que lá está para trabalhar para o partido, e não para impor uma ideologia.

Esconda a sua força.

Não exiba a sua Cristandade.

Os Cristãos necessitam de ter posições de liderança. Os oficiais do Partido controlam os partidos políticos e por isso é muito importante que os verdadeiros Cristãos obtenham sempre que possível a maioria dessas chefias, se Deus quiser.”

 

A justificação para esta ideologia, vai a “Direita Cristã” buscar a algumas partes apocalíticas da Bíblia (Livro das Revelações, Evangelho segundo João, conversão de Paulo na estrada para Damasco no Livro dos Atos dos Apóstolos), únicas em que Jesus sanciona a violência, e em que Cristo aparece como o comandante de um exército de vingadores celestiais.

O Jesus dos outros três Evangelhos, o Jesus que dá a outra face e abraça os inimigos, ideia radical e espantosa naquele mundo romano, a mensagem de amor, perdão e compaixão, é totalmente expurgada da narrativa selecionada pela Direita Cristã, que opta por se focar na mensagem de destruição e perdição para os não crentes, dividindo radicalmente o mundo entre o bem e o mal, entre os que são agentes de Deus e todos os outros que são agentes do Diabo.

 

Não é de admirar que segundo esta visão, o culto da masculinidade invada a ideologia. O feminismo e o homossexualismo são as forças sociais que tornaram os machos americanos fisicamente e espiritualmente impotentes. Jesus é o batalhador contra o Anticristo, atacando hipócritas e castigando os corrutos. O culto da masculinidade vai glorificar a força, a violência e a vingança. Apregoa-se a guerra santa:

 

Antes da Segunda Vinda de Cristo, qualquer ensinamento sobre paz é uma heresia, expressa o evangelista James Robison.

 

Para estes líderes que acreditam piamente que Deus os escolheu para criarem a Nação Cristã, na batalha contra as forças do mal, representadas pelo “humanismo secular”, a marcha para a guerra global, ou mesmo para a guerra nuclear, não deve ser temida, deve antes ser acolhida como um sinal que a Segunda Vinda está perto: a vinda do Messias à frente de um exército que chacinará milhões de não crentes.

 Os desastres naturais, ataques terroristas, instabilidade em Israel, a guerra no Iraque, tudo isso não passam de sinais.  A guerra no Iraque já tinha sido prevista de acordo com os crentes no capítulo 9 do Livro das Revelações, quando quatro anjos “são encaminhados para o rio Eufrates para chacinarem terça parte da humanidade”.

Tudo o que possa impedir este caminho para a confrontação final, atrasando-a, deve ser atacado. Daí, Pat Robertson, no seu livro, The New World Order, dirigir os seus ataques contra as Nações Unidas e outras organizações internacionais.

 

 

Não é por acaso que esta Direita Cristã tem vindo a impor que o criacionismo, ou o “desígnio inteligente” face parte dos programas de grande parte das escolas, a ser ensinado em pé de igualdade científica com o evolucionismo. O descrédito das disciplinas racionais, pilares do Iluminismo, é fundamental para destruir a indagação intelectual honesta e desapaixonada. A partir daí, os factos passam a poder ser intermutáveis com as opiniões.

O conhecimento da realidade não necessita já de ter por base a colheita elaborada de factos e evidências. Só por si, a ideologia é a verdade. Os factos que se interponham no caminho da ideologia podem ser mudados. As mentiras passam a ser verdades.

Segundo o criacionismo, as espécies animais cabiam todas na arca de Noé. O Grand Canyon foi criado em alguns milhares de anos pelas águas do dilúvio que levantaram a arca de Noé. E a Terra tem apenas alguns milhares de anos, tal como vem no Genesis.

A quando do massacre de Columbine, o político republicano Tom Delay, durante o seu discurso no Congresso (16 junho 1999) disse que aquelas mortes aconteceram porque “as nossas escolas ensinam às crianças que elas não passam de chimpanzés glorificados que evoluíram a partir de barro primordial”.

 

Este movimento não para até todos sermos regidos pela Lei Bíblica, uma igreja autoritária que se imiscuirá em todos os aspetos da nossa vida, as mulheres ficarem em casa a cuidarem dos filhos, os homossexuais a serem curados, o aborto considerado como assassínio, os meios de comunicação e as escolas a promoverem os valores Cristãos “positivos”, o governo federal domado, e em que a guerra será a única forma de comunicação com o resto do mundo  e os recalcitrantes não crentes serão eviscerados ao som da voz do messias”, (Chris Hedges, “The Rise of Religious Right in the Republican Party”).

 

Quaisquer tentativas de debater racionalmente problemas com estes movimentos não levam a nada. E isto porque eles não querem nenhum diálogo. As únicas opiniões que contam são as deles. As únicas certas. Têm sempre resposta para tudo. (1)

Exemplo muito curto e recente: Hal Marx, presidente da câmara de Petal, cidade perto de Jackson, justificando o incidente em Minneapolis da morte filmada do americano negro Floyd pelo polícia Derek Chauvin, escreveu no Twitter que não viu nada de anormal na ação do polícia, porquanto se o submetido podia dizer que não podia respirar é porque estava a respirar (“if you can say you can’t breathe, you’re breathing”. (https://www.yahoo.com/news/t-breathe-breathing-mississippi-mayor-231418722.html).

 

Toda aquela mensagem de amor e compaixão de Cristo, desaparece perante esta mensagem de violência e ódio. Pelo que qualquer acontecimento tido como catastrófico pode vir a servir, ser aproveitado, como desculpa para o desmantelamento acelerado da sociedade que conhecemos.

Ken Eldred, importante doador de campanhas evangélicas e republicanas, líder da UIP (United in Purpose), para o lançamento da coligação “Evangélicos por Trump”, disse a propósito do covid19:

 

O vírus da Covid foi um presente de Deus. O reino de Deus avança através de uma série de vitórias gloriosas, habilmente disfarçadas de desastres”.

 

Ainda segundo ele, milhões de americanos estão se voltando para Cristo, o Walmart está vendendo Bíblias e as transmissões online das igrejas atingiram números recordes.

 

Hannah Arendt, dá-nos uma explicação sobre o comportamento das massas, quando nas Origens do Totalitarismo, escreve:

 

Aquilo que convence as massas não são os factos, nem mesmo os inventados, mas apenas a consistência do sistema de que eles presumidamente fazem parte. A repetição, muitas vezes sobrevalorizada por se acreditar na capacidade inferior das massas para a perceber e recordar, é, contudo, importante porque as convence da consistência ao longo do tempo.”

 

 

 

Retiro algumas passagens:

“[…] Uma vez criado este meio social, torna-se impossível quebrá-lo pela persuasão. Se algum indivíduo de opinião contrária abrir a boca para persuadi-los, eles comportam-se como surdos, não ponderam as razões que lhes são oferecidas, e a tudo respondem repetindo as palavras de João: ‘Nós somos de Deus; aquele que conhece Deus nos ouve’.

 Eles são assim impermeáveis a quaisquer argumentos e têm respostas bem treinadas. Caso lhes sugiram que são incapazes de julgar tais matérias, responderão: ‘Deus escolheu os simples´. Caso se lhes mostre que estão dizendo coisas sem sentido, dirão: ‘Até mesmo os Apóstolos de Cristo foram considerados loucos´. Caso se lhes acene com um mínimo de disciplina, dissertarão sobre a ´crueldade dos homens sanguinários’ e apresentar-se-ão como a inocência perseguida por dizer a verdade. Em suma, não há argumento que possa abalar a rigidez psicológica da sua atitude [..].

[…] Mas Hooker vai mais longe na desarticulação do gnosticismo, chamando a atenção para os perigos que ele representava para a destruição da ordem racional estabelecida e para a utilização da função social da persuasão.

 Segundo ele, a posição dos puritanos, contrariamente ao que defendiam, não se baseava nas Escrituras: eles usavam as Escrituras apenas quando certas passagens delas, retiradas de contexto, corroboravam a causa, ignorando-as nos outros casos.

Esta colagem que faziam às Escrituras fora inicialmente necessária, porquanto não se poderiam apresentar abertamente como um movimento anticristão. Mas essa camuflagem, a partir de certa altura, começou a ser incómoda.

Para evitarem as críticas embaraçosas, vão servir-se de dois recursos técnicos, que ainda hoje são utilizados pelos movimentos fundamentalistas:

O primeiro era a escolha padronizada de seleções efetuadas das Escrituras, bem como pela interpretação das mesmas. A reforma de Lutero, ao dar a liberdade de interpretação das Escrituras feita por cada um de acordo com as suas preferências, conduzia ao caos; além do mais, uma vez que todas as interpretações seriam assim possíveis e equivalentes, não se poderia argumentar contra a interpretação da Igreja, porquanto essa também seria válida.
Quando Calvino publica os Institutes, uma formulação sistemática das Escrituras para a nova doutrina, o seu propósito foi o de oferecer orientação para uma leitura correta das Escrituras que evitasse o recurso a todas as obras anteriores, partindo do princípio que era nos trechos escolhidos que residia a verdade.

Esta obra de Calvino foi o primeiro Livro/Lei gnóstico criado de modo deliberado por alguém capaz de romper com a tradição intelectual da humanidade, porque estava imbuído da crença, da fé, de que com ele se iniciaria uma nova verdade e um novo mundo […]”

 

 

 

 

 

 

 

 

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