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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(252) As pequenas histórias têm moral

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

As histórias ajudam-nos a atribuir significado áquilo que sem elas não passaria de uma série de acontecimentos aleatórios.

 

Esta é a maneira como gostamos de pensar que o mundo funciona: se nos esforçarmos, seremos recompensados.

 

O esforço, a determinação e o entusiasmo, nem sempre são recompensados.

 

 

 

 

Uma das razões porque todos nós gostamos tanto de histórias ou contos, é porque elas nos ajudam a atribuir significado áquilo que sem elas não passaria de uma série de acontecimentos aleatórios, conseguindo comunicar-nos ideias complexas sobre a forma como vemos o mundo e como ele funciona, mesmo sem disso termos conhecimento, e tudo isso através de estruturas simples.

Mas, como é que reagimos quando as ideias e as narrativas dessas histórias contradigam o nosso entendimento do mundo?

 

Para o tentar descobrir, Travis Proulx, Steven J. Heine e Kathleen D. Vohs KD, publicaram, na revista Personality and Social Psychology Bulletin, um estudo (1) das experiências que fizeram, socorrendo-se de duas pequenas histórias que exprimem maneiras diferentes de ver o mundo, a saber, “A tartaruga e a lebre” de Esopo (620 a.C.–564 a.C.), e “Uma mensagem Imperial” de Franz Kafka.

 

 

A Tartaruga e a Lebre

 

A lebre vivia a gabar-se que era o mais veloz de todos os animais. Até ao dia em que encontrou a tartaruga.

– Eu tenho certeza de que, se apostarmos uma corrida, serei a vencedora – desafiou a tartaruga.

A lebre deu uma gargalhada.

– Uma corrida? Eu e tu? Essa é boa!

– Por acaso estás com medo de perder? – perguntou a tartaruga.

 – É mais fácil um leão cacarejar do que eu perder uma corrida contigo – respondeu a lebre.

No dia seguinte a raposa foi escolhida para ser a juíza da prova. Mal foi dado o sinal de partida, a lebre arrancou na frente a toda velocidade. A tartaruga não se abalou e continuou na disputa. A lebre estava tão certa da vitória que resolveu tirar uma soneca.

"Se aquela molenga passar à minha frente, basta-me só correr um pouco para a ultrapassar" – pensou.

A lebre dormiu tanto que não se apercebeu quando a tartaruga, em sua marcha vagarosa e constante, passou por ela. Quando acordou, levantou-se e continuou a correr com ares de vencedora. Mas, para sua surpresa, a tartaruga, que não descansara um só minuto, já se encontrava muito à frente, e cruzou a linha de chegada em primeiro lugar.

Desse dia em diante, a lebre tornou-se o alvo das chacotas da floresta.
Quando dizia que era o animal mais veloz, todos a lembravam de uma certa tartaruga...

 

 

Desta conhecida pequena história de Esopo (não sobraram escritos – se os houve - de Esopo, mas mera tradição transmitida oralmente, alguma recolhida por La Fontaine, 1621-1695), normalmente tiram-se duas interpretações morais:

# Quem persiste em prosseguir o seu caminho, como a tartaruga, acaba eventualmente sempre por alcançá-lo, mesmo que à partida esteja em desvantagem face aos outros concorrentes.

# A lebre perdeu a corrida por excesso de confiança.

De qualquer forma, ambas, quer a tartaruga quer a lebre, tiveram o que mereciam devido à maneira como se comportaram.

 

Esta é a maneira como gostamos de pensar que o mundo funciona: se nos esforçarmos, seremos recompensados. Se não nos esforçarmos não seremos recompensados. Os preguiçosos, os que têm excesso de confiança, perdem sempre.

 

Uma Mensagem Imperial (2)

 

Trata-se da pequena história de Franz Kafka, contada no artigo anterior, e segundo a qual o Imperador pretende enviar-nos uma mensagem, mas, por mais que o mensageiro se esforce, nunca a consegue entregar.

Ao contrário de Esopo, Kafka pretendo dizer-nos que o esforço, a determinação e o entusiasmo, nem sempre são remunerados.

 

Da amostra realizada pelo estudo, os participantes que leram a história de Kafka perceberam-na como uma ameaça à maneira como viam o mundo, bem como à sua identidade cultural. Já a história de Esopo não lhes pareceu fazer duvidar das suas identidades culturais, nem das suas visões do mundo.

Apesar da história de Kafka ser tão verdadeira quanto a de Esopo, a verdade que ela encerra é menos agradável.

Daí a fábula de Esopo fazer para nós mais sentido do que a de Kafka, que nos parece mais absurda, inesperada, confusa e sem sentido.

Daí a preferência dos participantes pela fábula de Esopo que nos afiança todo aquele conjunto de coisas que nos faz sentir seguros, confortáveis e nos são mais familiares. É o refugio nos quadros mentais conhecidos.

 Não é, pois, de estranhar a resistência sentida contra a parábola de Kafka. O que é uma pena, porquanto ela contém verdades que devíamos considerar.

 

 

 

1. “When Is the Unfamiliar the Uncanny? Meaning Affirmation After Exposure to Absurdist Literature, Humor, & Art” (https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0146167210369896).

2. Ver blog anterior de 22 de janeiro de 2020, “Uma mensagem imperial”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/251-a-mensagem-imperial-65839).

 

 

(251) A mensagem imperial

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Bordões a que nos agarramos.

 

Justamente só a ti, o Imperador enviou uma mensagem do seu leito de morte.

 

Quão fúteis são os seus esforços.

 

Mas tu sentas-te à janela, a sonhar com o que seria a mensagem, enquanto cai a noite.

 

 

 

Para além das novelas mais comummente conhecidas de Franz Kafka, contam-se um sem número de deliciosas pequenas histórias e parábolas, algumas das quais permanecerão para sempre profundamente atuais por representarem maneiras de estar, sentir e interpretar a realidade que perduram quase como de mitos se tratassem. Fazemos, dizemos, sentimos coisas sem saber bem porque o fazemos, dizemos e sentimos. Bordões a que nos agarramos. Na realidade, quase 300.000 anos de constatações que, melhor ou pior, verdadeiras ou falsas, nos foram permitindo sobreviver. Até agora.

É o caso desta parábola “Uma Mensagem do Imperador”, escrita em 1917, publicada separadamente em 1919 (originalmente estava incluído numa história maior, “A Grande Muralha da China”, só aparecida postumamente em 1930).

 

 

                                       Uma Mensagem do Imperador

 

 

O Imperador, assim diz uma parábola, enviou-te a ti, o mais humilde, o mais insignificante dos seus súbditos, a sombra que fugiu para a distância mais distante, microscópica perante o sol imperial; justamente só a ti, o Imperador enviou uma mensagem do seu leito de morte.

Fez ajoelhar o mensageiro ao lado da cama e sussurrou-lhe ao ouvido a mensagem; tão importante lhe pareceu a mensagem, que lhe pediu para repetir. Assentindo com a cabeça, o Imperador confirmou a exatidão da repetição.

 E diante dos espectadores reunidos para contemplar a sua morte - todas as paredes que impediam a visibilidade tinham sido derrubadas, e na ampla e larga curva da grande escadaria os grandes do Império formavam um círculo -, diante de todos, ordenou ao mensageiro que partisse.

O mensageiro saiu imediatamente; um homem robusto e incansável; empurrando primeiro com o braço direito, depois o esquerdo, abre caminho através da multidão; quando encontra um obstáculo, aponta para o sinal do símbolo solar que traz ao peito; avança assim muito mais facilmente do que qualquer outro.

 Mas as multidões são enormes; em números sem fim. Se diante dele tivesse campo livre, como ele voaria, e como em muito pouco tempo ouvirias o som glorioso de seus punhos a bater à tua porta.

Mas, em vez disso, quão fúteis são os seus esforços; ainda está agora a abrir caminho através das câmaras do interior do palácio; nunca conseguirá chegar ao fim delas; e mesmo que terminasse, não teria avançado muito; ele ainda teria que esforçar-se para descer as escadas; e se o conseguisse, não teria avançado muito; teria ainda que atravessar os pátios; e depois dos pátios, o segundo palácio circundante; e novamente as escadas e os pátios; e novamente um palácio; e assim por milhares de anos; e quando ele finalmente atravessa-se a última porta - mas isso nunca iria acontecer - ainda teria de atravessar a capital, o centro do mundo, onde os que pertenciam à sua classe se acumulavam prodigiosamente.

Ninguém poderia passar por ela, muito menos com a mensagem de um homem morto. Mas tu sentas-te à janela, a sonhar com o que seria a mensagem, enquanto cai a noite.

 

 

 

 

Notas:

  1.  

Kafka, Franz, The Complete Stories by Franz Kafka, Schoken Books Inc., New York, 1978 (https://www.vanderbilt.edu/olli/class-materials/Franz_Kafka.pdf).

  1.  

Ver blog de 5 de julho de 2017, “As Josefinas cantoras” (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/118-as-josefinas-cantoras-31842), sobre outra curta história de Kafka, “Josefina, a Cantora, ou o Povo dos Ratos”.

  

 

(250) O nazismo nada tem de banal

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

Fazer o mal não é universal ou necessário: é fruto, e apenas, da ação humana.

 

Nada há de banal em Eichmann ou nos seus burocráticos camaradas nacional-socialistas (o camarada Heidegger era tudo menos banal e deu a sua contribuição), uma vez que todos eles desempenharam conscientemente os seus papéis de assassinos, dado que a finalidade de eliminar os indesejados era já patente, pública e inscrita na obra Mein Kampf, desde meados dos anos vinte.

 

 

O mal é a aniquilação de um bem possível e realizável que não foi realizado. O que os nazis aniquilavam não era a vida já vivida, mas a vida por viver.

 

Estamos, portanto, perante o «mal radical», que é o que resulta da eliminação do possível.

 

 

 

 

Após Hannah Arendt (1) ter introduzido, nos seus escritos efetuados durante o julgamento de Eichmann em Jerusalém, o conceito de “banalidade do mal”, muitos têm tentado, abusiva e incorretamente, utilizar esse conceito como uma desculpa para considerarem que o nazismo, apesar de ideologia que promovia o mal, seria, apesar de tudo, uma expressão naturalmente humana, por isso banal.

É facto, que se criticarmos o nazismo apenas pelos meios usados (e é isso o que normalmente se faz), desde os utilíssimos campos de concentração aos normalíssimos fuzilamentos, aos simples e banais enforcamentos e gaseamentos industrialmente programados, teremos de reconhecer que nada de novo tais ações introduziram na história da humanidade.

E têm razão. Tudo isso se inscreve no trivial e banal da humanidade. Não é, contudo, por isso que o nazismo é abominável.

 

A enorme divulgação de Mein Kampf, quer externa quer internamente (além das compras individuais, o Estado nazi adquiriu milhões deles -- a título de curiosidade, Hitler recebia por cada livro uma certa percentagem, depositada diretamente na sua conta bancária pessoal --, que distribuía profusamente pelas suas chancelarias, bem como, a nível mais prosaico, oferecia a todos os noivos arianos como prenda de casamento), torna impossível de acreditar que nenhum entre os seus apoiantes se tenha apercebido do projeto de nazificação do mundo como não sendo um projeto banal.

Esta mesma estranheza é manifestada por Américo Pereira, professor de filosofia na Universidade Católica Portuguesa:

 

nada há de banal em Eichmann ou nos seus burocráticos camaradas nacional-socialistas (o camarada Heidegger era tudo menos banal e deu a sua contribuição)”, uma vez que todos eles desempenharam conscientemente os seus papéis de assassinos, dado que a finalidade de eliminar os indesejados era já patente, pública e inscrita na obra Mein Kampf, desde meados dos anos vinte.

 

 

Após ter lido Mein Kampf, Winston Churchill, na sua obra, A Segunda Guerra Mundial (The Second World War, vol. II, Boston, Houghton Mifflin Company, s. d., pp. 50-51), resumiu da seguinte forma a teoria da ideologia nazi:

 

A tese principal de Mein Kampf é simples. O homem é um animal lutador; assim sendo, a nação, sendo uma comunidade de lutadores, é uma unidade de combate. Qualquer organismo vivo que cesse de lutar pela sua existência está condenado à extinção. País ou nação que cessem de lutar estão igualmente condenados. A capacidade de luta de uma raça depende da sua pureza. Daqui a necessidade de a libertar de conspurcações vindas do exterior.

A raça judaica, devido à sua universalidade, é, por necessidade, pacifista e internacionalista. O pacifismo é o mais mortal dos pecados, pois significa a rendição da raça na luta pela existência.

 

O primeiro dever de qualquer país é, assim, o de nacionalizar as massas. A inteligência, no caso do indivíduo, não é de primeira importância; vontade e determinação são as qualidades principais. O indivíduo que nasceu para comandar é mais valioso do que os incontáveis milhares de naturezas subordinadas.

 Apenas a força bruta pode assegurar a sobrevivência da raça; daqui a necessidade de uma matriz militar. A raça deve lutar; uma raça inativa deve enferrujar e perecer. Se a raça Alemã tivesse estado unida em devido tempo, já seria senhora do globo.

 

O novo Reich deve recolher no seu seio todos os elementos Alemães dispersos pela Europa. Uma raça que sofreu a derrota pode ser salva através da restauração da sua confiança em si própria. Acima de todas as coisas, o Exército deve ser ensinado a acreditar na sua mesma invencibilidade.

Para restaurar a nação Alemã, o povo deve estar convencido de que a recuperação da liberdade pela força das armas é possível. O princípio aristocrático é fundamentalmente correto. O intelectualismo é indesejável.

 

 O fim último da educação consiste em produzir um Alemão que possa ser convertido, com um mínimo de treino, num soldado. As grandes sublevações na história teriam sido impensáveis não fora a força motriz das paixões fanáticas e histéricas. Nada poderia ter sido efetuado pelas virtudes burguesas de paz e ordem.

 

O mundo está presentemente a mover-se no sentido de uma tal sublevação, e o novo Estado Alemão deve proceder de modo a que a sua raça esteja pronta para as derradeiras e mais grandiosas decisões sobre esta terra. A política externa deve ser totalmente sem escrúpulos. Não é tarefa da diplomacia permitir que uma nação se afunde heroicamente, mas, antes, proporcionar que possa prosperar e sobreviver.

 

 A Inglaterra e a Itália são os dois únicos aliados possíveis para a Alemanha. Nenhum país entra para uma aliança com um Estado cobardemente pacifista, dirigido por democratas e Marxistas. Se a Alemanha não esgrimir em seu próprio benefício, ninguém o fará por ela. As suas províncias perdidas não podem ser recuperadas por meio de solenes apelos ao Céu ou de piedosas esperanças postas na Liga das Nações, mas apenas através da força das armas.

 

A Alemanha não deve repetir o erro de lutar contra todos os seus inimigos ao mesmo tempo. Deve isolar o mais perigoso e ataca-lo com todas as suas forças. O mundo só deixará de ser antialemão quando a Alemanha recuperar a igualdade de direitos e retomar o seu lugar ao sol. Não deve haver qualquer sentimentalismo relativamente à política externa da Alemanha. Atacar a França por causa de razões puramente sentimentais seria uma tolice.

 

Do que a Alemanha precisa é de um aumento de território na Europa. A política colonial anterior à guerra foi um erro e deve ser abandonada. A Alemanha deve procurar expandir-se para a Rússia, especialmente para os Estados Bálticos. Nenhuma aliança com a Rússia pode ser tolerada. Travar guerra em conjunto com a Rússia contra o Ocidente seria criminoso, pois o objetivo dos Soviéticos é o triunfo do Judaísmo internacional. Tais eram os “pilares de granito” da sua política.” (2)

 

 

Foi este entendimento sobre o nazismo que permitiu a Churchill ver que o projeto de nazificação do mundo proposto por Hitler, nomeadamente no que se referia à eliminação dos indesejados, era uma abominação. Nada tinha de banal.

 

 

 

Perante o redutor e sempre omnipresente nada, só a prática de uma ação, qualquer ação, se lhe poderá opor. Sempre que se pratica uma ação, ocupa-se uma parte do nada. É este sentido de oposição ao nada que faz com que qualquer ação humana seja considerada ética, independentemente da sua correção ou não. Recordemos que a ética não é a ciência da bondade, mas sim a ciência da ação humana, boa ou má. É o estudo do fundamento da ação do ser humano.

É por isto que qualquer ato ético é em si um bem, e não pode por isso mesmo ser considerado mau ou bom; pode até ser um ato mau, mas, pelo simples facto de se opor ao nada, já é ético.

 

Daqui se infere que o ser humano só o é quando pratica uma ação, qualquer ação, pelo que o impedir o ser humano da possibilidade de a fazer ou de a praticar, é negar a condição mínima para se ser humano. “Se se eliminar toda a possibilidade, nada resta, em absoluto”.

E isto é o que intencionalmente o nazismo faz: coarta a possibilidade de se ser ser humano.

 

Foi exatamente isso que os nazis levaram eficazmente à prática com a sua prática política nos campos de concentração e fora. O estado de total indiferença e inércia a que psicologicamente conduziam os seus inimigos, os indesejados judeus, ciganos, negros, comunistas, sindicalistas, os incuráveis, doentes mentais, as crianças que não podiam trabalhar, etc., retirando-lhes qualquer veleidade e possibilidade de ação, era reduzi-los a um nada relativo. Era negar-lhes a possibilidade de serem humanos.

 

Entenda-se que a morte, a aniquilação de um bem (a vida), não é em si um mal. O mal é a aniquilação de um bem possível e realizável que não foi realizado. Era isso que os campos de concentração aniquilavam. O que os nazis aniquilavam não era a vida já vivida, mas a vida por viver.

Independentemente do que digam sobre as suas intenções-motivações, os nazis produziam efeitos sobre a realidade, para que ela fosse o que eles desejavam que deveria ser. Era a imposição da sua vontade sobre o mundo, recriando uma nova definição do que era ser humano, à sua maneira.

 

Sempre que a ação humana podendo realizar o bem, não o realiza, manifesta-se a presença do mal. Pior ainda, e foi o que aconteceu, é quando o mal mata o bem ainda como possível, eliminando a possibilidade de qualquer ação. Neste caso, estamos perante o mal radical, que é o que resulta da eliminação do possível.

 

Sigamos Américo Pereira quando conclui que “o mal é algo de trivial, não no sentido da banalidade do mal de Arendt […] mas no sentido em que o mal é humanamente transcendental quer porque toda a humanidade – cada um de nós – o pode realizar, quer porque, historicamente, toda a humanidade o tem realizado.” (3)

 

Poder fazer o mal é universal e necessário, fazer o mal não é universal ou necessário: é fruto, e apenas, da ação humana.

 

 

 

 

 

(249) Sobre o ressentimento na história

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

Bem sei que a tua infância foi muito dura, que andaste descalço na neve a empurrar uma carroça para ganhar a tua vida. E sei que é verdade que hoje, não o posso negar, tenho uma vida muito mais confortável. Mas de que é que eu tenho de te estar reconhecido? carta de Kafka ao pai.

 

Na origem do ressentimento está sempre uma ferida, uma violência sofrida, uma afronta, um traumatismo. Quem se sente vítima não pode reagir por impotência. Rumina a sua vingança que não pode pôr em marcha e que constantemente o atormenta.

 

Todas essas mortificações da violência ligada ao tráfico negreiro ficam guardadas na memória: não têm conta as automutilações e os suicídios, as revoltas esmagadas, os assassínios.

 

Não há um colonizado que não pense pelo menos uma vez ao dia em instalar-se no lugar do colono.

 

 

 

 

 

 

Há uma obra do historiador Marc Ferro (Director de Estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales e codirector da revista Les Annales), que me parece ser fundamental para o entendimento, mesmo que parcial, da génese das visões históricas e da construção de memórias coletivas.

Trata-se de O ressentimento na história. Compreender o nosso tempo, onde Ferro vem chamar a atenção para as manifestações do ressentimento como contributo para a inteligibilidade da História. Pelas suas palavras “na origem do ressentimento está sempre uma ferida, uma violência sofrida, uma afronta, um traumatismo. Quem se sente vítima não pode reagir por impotência. Rumina a sua vingança que não pode pôr em marcha e que constantemente o atormenta”.

É esta existência do ressentimento que “mostra como é artificial o corte entre o passado e o presente, que deste modo vivem um no outro, tornando-se o passado um presente mais presente que o presente”.

 

Conhece-se o ressentimento e o desejo de vingança a nível individual: os ressentimentos que aparecem após se sofrer uma injustiça ou uma humilhação podem durar anos, dando lugar a vinganças que podem durar várias gerações ou conduzir a actos de violência individual qualificados como actos de loucura, como lemos regularmente na imprensa.

Tudo isto existe também a nível de Estados, cujo exemplo mais evidente é o da segunda guerra mundial que é muitas vezes dita como sendo resultante da humilhação que a Alemanha sofreu após o fim da primeira guerra.

 

 Estas manifestações de ressentimento, o modo como aparecem e os seus efeitos através da História são, contudo, de difícil apreensão, até porque se mantêm latentes, mascaradas noutros fenómenos, como na luta de classes, no racismo ou no nacionalismo, podendo ainda interferir com eles.

E, para nos provar que estas manifestações de ressentimento não são só deste último século, oriundas dos fenómenos das Grandes Guerras e das descolonizações, Ferro começa por abordar o ressentimento milenar existente entre escravos e perseguidos e o tempo do aparecimento do cristianismo que, ao considerar todos os homens como sendo irmãos, vai por um lado humanizar a servidão dos escravos, mas, por outro lado vai hostilizar o poder instituído ao ponto de ser considerado como um crime, punido com a morte.

Só que a partir da altura em que o imperador se converte, logo esta mesma Igreja que guardava ressentimentos contra a autoridade imperial, vai dirigir o seu ressentimento contra os judeus, aqueles que tinham crucificado Jesus, e contra os hereges que lhe contestavam os fundamentos. O perseguido torna-se perseguidor.

Como este ressentimento perdura ao longo de séculos e se manifesta, é o que Ferro nos mostra ao falar do massacre dos judeus mortos à paulada em Jedwabe, na Polónia, em 1941: este massacre foi obra de polacos e só deles, partindo de uma iniciativa popular e espontânea, sem qualquer intervenção das tropas nazis alemãs, resultado de um ressentimento oriundo de um ajuste de contas para com aqueles que crucificaram Jesus Cristo; “Sim, ensinaram-nos na escola”, como explicou um dos assassinos.

 

No capítulo seguinte, Ferro vai abordar a questão do ressentimento nas revoluções. Em França, a 4 de Agosto de 1789, o medo de uma conjura aristocrática após a revolta de Paris, leva os camponeses a atacarem os castelos para lá irem queimar os documentos onde se encontravam inscritas as contribuições a pagarem aos senhores: trata-se de um acontecimento sem equivalente na história, “pois esta decisão de romper o vínculo entre propriedade feudal e propriedade tout court foi irreversível”.

Esta recusa a pagar representava apenas um aspecto do ressentimento do campesinato, porque o que ela queria era pôr termo aos atentados à dignidade. Este furor camponês contra a ordem aristocrática e os excessos do poder monárquico, são fenómenos que têm a sua origem num passado longínquo.

 

A palavra “ressentimento” surge em 1593 em Le Dialogue du Français et du Savoysien, associada ao descontentamento da nobreza hereditária por ver entrar burgueses para as suas fileiras. Ver poluída a identidade do grupo suscita ressentimento, desta vez na nobreza, contra os que chegaram tarde e os responsáveis pala enxertia.

O ressentimento contra os privilegiados cria condições para um furor vingativo contra tudo o que se pensasse obstar a uma regeneração integral: o campo de acção dos ressentimentos, das invejas, das vinganças, alarga-se; qualquer pessoa podia tornar-se um privilegiado aos olhos do seu vizinho. O igualitarismo passa à frente da aspiração à liberdade.

A revolução de fevereiro de 1917 na Rússia, é a resposta imediata a aspirações que as populações traziam dentro de si, atingindo todos os pontos da sociedade, daí ser considerada por Ferro como a mais integral das revoluções: “Era o mundo às avessas”.

 Essa agitação fora precedida por século e meio de revoltas camponesas, que levaram que a sua ira e ressentimento se manifestassem incontidamente daquele modo. O sentimento de impotência que surge perante a impossibilidade de mudar a sociedade, irá dar origem ao aparecimento do cruzamento entre o ressentimento pessoal e o raciocínio doutrinário, que leva à negação da piedade ou generosidade para com o inimigo de classe, bem como à indiferença absoluta perante o sofrimento dos infelizes.

É focado o exemplo de Leonid Martov, social-democrata judeu, que achava que os progromes tinham o seu lado positivo, pois eram sinal de uma participação dos camponeses numa acção política, mesmo sendo contra os judeus!

Tal como em França a partir de 1792, na Rússia, após os primeiros meses da revolução de 1917, em que o ressentimento das classes populares tinha estado contido, o ressentimento e a ira popular levam ao Terror Vermelho: termos idênticos (“inimigo do povo”, “sabotagem”, “açambarcador”, “purgar a sociedade”), atrocidades cometidas, esta violência vinda de baixo ataca tudo o que representa ou encarna a antiga ordem, oficiais, notáveis, funcionários, homens e mulheres de “mãos brancas”.

 O ressentimento contra os privilegiados dava lugar a um furor igualitarista. Qualquer vestígio de superioridade era suspeito e posto em causa. O poder popular que entra no aparelho de estado graças à prática política dos bolcheviques que souberam enxertá-lo, pretende controlar tudo o que emana das elites. Feita a revolução, o cidadão requisita naturalmente a totalidade dos poderes, e afasta os suspeitos. A tal ponto, que leva as massas a perderem a confiança nesses dirigentes…

 

Sobre maio de 1968, em França, pergunta-se Ferro, se esses acontecimentos não serão também, uma expressão de ressentimento contra as elites. Estava-se nos meados dos anos sessenta, onde aparecia uma grande clivagem entre pais e filhos, traduzindo um profundo sentimento de humilhação. Estas relações entre pais e filhos foram sempre ambíguas, expressão de um ressentimento recíproco.

Já Kafka escrevera ao seu pai que:

 “Bem sei que a tua infância foi muito dura, que andaste descalço na neve a empurrar uma carroça para ganhar a tua vida. E sei que é verdade que hoje, não o posso negar, tenho uma vida muito mais confortável. Mas de que é que eu tenho de te estar reconhecido?”.

 

Juntando a isto a democratização do ensino que surgia aos estudantes como um logro, uma vez que a selecção rejeitava a massa dos que não eram os melhores em determinado momento, nos exames, prejudicando exatamente aqueles que tinham falta de herança cultural, tal conduziu ao desenvolvimento de uma espécie de ressentimento contra os docentes.

 Movimento idêntico, antiaristocrático, surge no teatro por actores e intermitentes que não tinham sido seleccionados, numa cadeia de ressentimentos que unia diversos grupos sociais, não necessariamente marcados pela mesma cólera, mas sim por um desejo de vingança.

 

Sobre a Alemanha e a sua revolução contra-revolucionária que foi a do regime nazi, Ferro atribui-lhe antecedentes muito anteriores a 1918 e ao Tratado de Versailles, chamando a atenção para o que Nietzche e Scheler escreveram sobre o ressentimento na sociedade, um ressentimento que se exprimia contra a burguesia e os seus valores, o liberalismo e “os judeus que o representam”, o parlamentarismo, a exploração do homem pelo homem.

Contudo, à humilhação de ser tratado como vencido e culpado, para quem não se julga culpado e ainda por cima se julga portador de uma civilização superior, vem juntar-se o ressentimento que se exerce como um “Versailles interior” contra aqueles que assumem a situação.

Temos ainda o caso do ressentimento pessoal que Goebbels tinha contra os judeus, por, num jornal dirigido por um judeu, lhe terem devolvido artigos e não lhe terem dado emprego.

Já para Hitler não existia este ressentimento pessoal contra os judeus, mas sim contra os “judeus-bolcheviques” que poderiam perverter a identidade alemã tal como perverteram a civilização russa: combate-o enquanto revolucionário.

 

 Cada um dos registos de anti judaísmo, a responsabilidade dos judeus nos surtos revolucionários, o seu papel económico, a internacional “sionista”, o racismo, teve o seu papel a alimentar o ressentimento dos dirigentes nazis contra os judeus.

Segundo Ferro, no momento da derrota, os alemães não exprimiram o mínimo arrependimento, nem guardaram ressentimento contra o seu bem-amado Führer, o que constitui um mistério de comportamento dessa sociedade civilizada, das mais cultas da Europa, e que pôde participar em violências e crimes nunca antes vistos na História.

 

No pós-guerra em França, após a partida dos Alemães, são feitas 162 prisões nos primeiros cinco dias, sendo 42 executados. Há aqui uma irrupção de ódio, de punições, de vinganças.

Uma das formas com que este ressentimento se manifestou foi a sorte que coube às mulheres que tivessem tido ligações com um alemão: o cabelo foi-lhes rapado em público, pois elas representavam a derrota do macho francês ao ter sido preferido pelo vencedor.

Já quanto aos prisioneiros franceses que tivessem agido de igual forma com as alemãs nada aconteceu. Conclui Ferro que foi o medo sentido duranta vários meses, anos, que transformou, por ressentimento, pessoas normais em feras: o ressentimento não tem pátria.

 

No capítulo referente à memória nacional, que Ferro considera um viveiro de ressentimentos, apresenta o caso da Polónia como exemplo extremo de uma nação privada do seu Estado, por cupidez dos seus vizinhos.

Cinco vezes vítima de partilha, 1772, 1793, 1795, 1815 a 1918 desaparece como Estado soberano em 1939. Logo a seguir à guerra, era grande o ressentimento dos polacos contra os carrascos alemães (6 milhões de mortos, elites massacradas), só que esse ressentimento vai ser substituído pelo ressentimento contra a URSS, pelas execuções em massa e a manipulação histórica que se lhe seguiu.

Após o fim do regime soviético em 1989, os Polacos afirmavam, com razão, que tinha sido o seu combate (o Solidariedade) que mais contribuiu para essa revolução, pelo que a Europa lhes devia de estar reconhecida. Só que a Europa festejou Gorbatchev! De novo se alimenta um profundo ressentimento em relação à Europa.

 Refere depois o caso da França-Inglaterra, irmãs siamesas na sua origem, oriunda do conflito entre as casas Plantagenetas-Angevinos contra Capetos-Francilianos, as questões religiosas, a rivalidade colonial, a ajuda francesa à emancipação Americana, a revolução industrial triunfante da Grã-Bretanha, a derrota francesa em Junho de 1940, a destruição da armada francesa pelos Ingleses para evitar que fosse tomada pelos Alemães, o plano Monnet, o plano Schuman para a nova Europa, o euro e a libra… Invejas ou ressentimentos?

Já entre Alemanha e França assiste-se a uma alternância de ressentimentos: a anexação de um pedaço da Alsácia durante a guerra dos Trinta Anos (1618-1648), Napoleão impondo a vassalagem, anexação e divisão da margem esquerda do Reno, a confederação do Reno em 1806, a Revolução Francesa, a Prússia de Bismarck, a “anarquia à francesa” de 1848, a guerra de 1914-1918, a II Guerra Mundial.

Na atualidade já não é o antigo Reich que aparece como ameaçador, são os Americanos ou os então soviéticos que o parecem. Mesmo assim, a quando da reunificação da Alemanha em 1989, Mauriac comentou que gostava tanto da Alemanha que preferia várias!

 

Passa de seguida para o problema colonial que diz não ter ficado encerrado com as independências, nem com os enormes movimentos de população que as acompanharam. Para Ferro, o ressentimento acumulado do passado está tão presente para essas populações como o presente, servindo muitas vezes até de estímulo para esse presente.

Estabelece como um dos percursos do ressentimento o do antigo tráfico de escravos, inicialmente feito pelos árabes, depois pelos europeus no atlântico, e continuado ainda hoje em dia. Todas essas mortificações da violência ligada ao tráfico negreiro ficam guardadas na memória: não têm conta as automutilações e os suicídios, as revoltas esmagadas, os assassínios.

 

Foi preciso esperar muito para que a escravatura fosse abolida e explicitamente condenada como crime contra a humanidade. Nos Estados Unidos, logo a seguir à Primeira Guerra, em 1919, é linchado o maior número de negros no Sul: 70. E muitos deles salvaram vidas, trabalharam em ambulâncias e até vestiam fardas da sua unidade militar. Em 1941 os negros são excluídos de um banquete de apoio ao esforço de guerra.

Esta expectativa impotente de se pertencer efectivamente a uma nação aumenta o ressentimento e leva aos negros americanos ao recurso de aderirem ao Islão com os Black Muslims (“o tempo dos brancos acabou…para que havemos de nos integrar no seio de moribundos?”).

 O assassinato de Malcolm X e de Luther King, vai levar a uma violência organizada, que não vai resolver o problema. Progressivamente, vai-se assistir à transformação desse ressentimento em orgulho triunfante com o Black is beautiful.

Com os Black Panthers é reavivada a ideia de receber uma indeminização pela escravatura de que tinham sido vítimas, ideia esta que vai ser utilizada um pouco por todo o mundo, dos Sioux aos aborígenes da Austrália.

 

 Enquanto não lhe é permitido agir, o homem do ressentimento rumina uma vingança imaginária. Esta característica encontra-se nos colonizados: em Nehru relativamente aos Ingleses, em Ho Chi Min relativamente aos Franceses. Dito de outra forma “não há um colonizado que não pense pelo menos uma vez ao dia em instalar-se no lugar do colono”.

Fazendo uma comparação, Ferro nota que uma ocupação estrangeira em França de apenas quatro anos, continua, sessenta anos depois, a perturbar os Franceses; na Argélia, os habitantes estiveram ocupados mais de cento e vinte anos e ainda com a memória de já terem sido antes ocupados pelo estrangeiro, os Romanos!

Além disso, os Franceses apoderaram-se de terras, o que leva a que o ressentimento dos colonizados se torne muito mais vivo, como se vê por toda a África, e como é o caso de Israel visto pelos Árabes da Palestina.

 

 Outra causa importante que explica a natureza e o grau de ressentimento para com o colonizador é a sua relação com a identidade dos colonizados. O “indígena”, muitas vezes desenraizado e excluído do mundo dos Europeus, sem grandes hipóteses de promoção social, sensível ao racismo vulgar, alimenta sem cessar o seu ressentimento.

O ressentimento que os indígenas da Argélia manifestavam contra o colonizador era idêntico ao dos colonizados da Índia, da Indochina, do Vietname.

 

Mas no Islão, tal ressentimento era muito mais profundo, pois tinha a ver com uma humilhação oriunda do facto de eles terem começado por dominar aqueles que depois os haviam colonizado. Conservam na memória o tempo em que os impérios herdados da conquista árabe dominavam o mundo do Ocidente ou do Oriente.

Repare-se que, quando em 2001, Bin Laden reivindica a sua acção, fala de “oitenta anos de humilhação dos povos muçulmanos” numa alusão à extinção do califado por Ataturk. Para Ayman al-Zawahiri, braço direito de Bin Laden tratava-se de “vingar por fim a expulsão dos muçulmanos de Espanha”, o que talvez explique os atentados de Madrid em 2004.

Causa maior foi a derrota, em 1948, contra Israel, da coligação entre o Egipto, a Jordânia, a Síria, o Iraque e o Líbano contra as forças de um Estado “liliputiano” que nem sequer tinha um exército organizado. O desespero desta humilhação foi mais importante do que todas as perdas materiais. A recusa intransigente de uma parte dos Palestinos em reconhecer Israel e a dos Israelitas em pôr fim à anexação e colonização dos territórios conquistados em 1967 é o fermento do conflito que mais alimenta o ressentimento recíproco dos protagonistas.

 

 Como conclusão, Ferro clarifica, dizendo que o ressentimento nasce de uma humilhação ou de um traumatismo que pode ser ocasionado pela extracção social, pela fraqueza física, de uma maneira geral por um complexo de inferioridade.

O ressentimento não está necessariamente associado a uma reivindicação precisa, nem é apanágio daqueles que identificamos como vítimas (escravos, classes oprimidas, povos vencidos, etc.). E pode afectar não apenas uma das partes em causa, mas as duas. Esta reciprocidade é um dos viveiros que lhe asseguram a perenidade. Significa isto que o ciclo dos ressentimentos nunca terá fim?

Enquanto não se estabelecerem pazes duráveis fundadas sobre o reconhecimento dos sofrimentos passados, o perdão, a reparação e o respeito mútuo, é muito provável a inevitabilidade de uma guerra de grande envergadura que virá a acontecer quando as pequenas guerras actuais já não forem suficientes para conter a violência das nações, servindo-lhes de válvula de escape.

 

 

 

FERRO, Marc – O ressentimento na história. Compreender o nosso tempo. Lisboa: Teorema, 2009.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(248) Selvagens são os outros

Tempo estimado de leitura: 3 minutos.

 

Sobre os rios da Babilónia, / Ali nos sentámos e chorámos, / Quando nos lembrámos de Sião, salmo 136. Super flumina Babylonis.

 

Como sempre na Antiguidade, as mulheres que sobrevivem ao saque das cidades eram distribuídas como objetos (na Ilíada 23.705, uma mulher tem o valor de quatro bois) que passavam a pertencer aos homens vencedores.

 

O problema está na própria guerra e na noção de que a mulher não passa de objeto que pertence a um homem.

 

A força dos Salmos é que mostram a natureza humana como ela é; não como ela deveria ser.

 

 

 

 

Durante o acasalamento da cobra real, o macho, normalmente maior, enrola-se à volta da fêmea, procedendo ao ato. Acontece que por vezes, depois de completado o ato (só depois, comportamento que o homem parece ter conservado), o macho mata e come a fêmea (nada também que não aconteça ao revés em outras espécies). Só que neste caso, tal só acontece se a cobra macho verificar (sentir, apalpar, etc.) que a fêmea esteja já grávida de outro macho.  

A finalidade não é matar a fêmea, mas antes aniquilar os filhos que não sejam seus. Tal comportamento é por nós visto com uma certa indiferença, não só pela repulsa instintiva que normalmente nos causam as cobras, como por serem cobras, animais inferiores e que pouco nos dizem.

 

Mas vejamos o que acontece com uma espécie mais próxima de nós e muito em voga (enquanto existe) nos nossos documentários, fotografias, circos, estádios de futebol: os leões.

O novo leão pretendente a dominar a alcateia, após ter lutado e derrotado o macho chefe, expulsa-o, passando assim a poder acasalar em exclusividade com todas as fêmeas do grupo. Para garantir que todas as fêmeas se encontrem rapidamente à sua disposição, e uma vez que enquanto elas estiverem a amamentar não entram em cio, matam propositadamente todos os queridos pequenos leões filhos do macho derrotado. Chocante vermos aquelas cenas. Mas o que se deve esperar de irracionais senão um comportamento selvagem, não é?

 

Do livro dos Salmos, que faz parte d’Os Livros Sapienciais da Bíblia, e que contém a antiga poesia lírica de Israel (desde a grande antiguidade até, porventura, ao século II a.C.) sendo talvez o livro com que os cristãos estão mais familiarizados em virtude da sua leitura (e canto) fazer parte das diferentes liturgias dominicais nas igrejas cristãs do mundo, passo a transcrever o salmo 136. Super flumina Babylonis:

 

Sobre os rios da Babilónia,

Ali nos sentámos e chorámos,

Quando nos lembrámos de Sião.

Sobre os salgueiros no meio dela pendurámos os nossos instrumentos.

Porque ali os nossos captores nos pediram palavras de cantos;

E os que nos levavam pediam um hino:

«Cantai-nos um dos cantos do Sião!»

Como havemos de cantar um canto do Senhor em terra estrangeira?

Se eu me esquecer de ti, Jerusalém, que seja esquecida a minha dextra.

Cole-se a minha língua à minha garganta, se eu não te recordar;

Se eu não puser Jerusalém em início da minha alegria.

Lembra-te, Senhor, dos filhos de Edom em relação ao dia de Jerusalém;

Eles que disseram: «Esvaziai, esvaziai, até à pedra da fundação nela!»

Filha da Babilónia, a rebaixada!

Bem-aventurado aquele que te dará de volta a tua retribuição, a que nos deste a nós!

Bem-aventurado aquele que agarrará e atirará os teus bebés contra a rocha.

 

 

Na nota sobre a bem-aventurança final deste salmo, eis o que escreve Frederico Lourenço:

 

Como sempre na Antiguidade, as mulheres que sobrevivem ao saque das cidades eram distribuídas como objetos (na Ilíada 23.705, uma mulher tem o valor de quatro bois) que passavam a pertencer aos homens vencedores.

 Os bebés e as crianças pequenas que essas mulheres já tinham (dos maridos tombados na guerra) eram mortos pelos novos donos destas mães, já que, em primeiro lugar, não fazia parte do código de masculinidade patriarcal um homem dar alimento e sustento ao filho que uma mulher sua tivera de outro homem (tanto mais que essas mulheres passariam doravante a incubadoras dos novos escravos que nasceriam das violações a que seriam sujeitas por parte dos donos), e, em segundo lugar, a presença de bebés e crianças pequenas dificultaria a logística da deportação que se seguiria necessariamente ao saque da cidade.

Os israelitas que desejam este destino aos bebés dos outros foram eles próprios vítimas anteriores deste tipo de crime de guerra; é a sua desculpa.

O problema, claro, está na própria guerra e na noção de que a mulher não passa de objeto que pertence a um homem. Infelizmente, trata-se de uma noção que o Antigo Testamento legitima”.

 

Variadas são as questões que tais comportamentos nos podem pôr, a começar pela perplexidade de os vermos serem incluídos na Bíblia (e são muitos os comportamentos idênticos que nela figuram). A resposta a esta questão é nos dada por J. J. Collins, um dos grandes especialistas da Bíblia Hebraica:

 

A força dos Salmos é que mostram a natureza humana como ela é; não como ela deveria ser”.

 

Assunto resolvido. Os inocentes podem ser sacrificados.

 

 

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