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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(247) Regresso às cavernas

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A revolução Neolítica foi o pior erro da história da raça humana, Jared Diamond.

 

A marcha do progresso nas cidades-estado Sumérias e dos impérios Assírios e da Babilónia, foi acompanhada da deterioração progressiva do estatuto social e económico das mulheres.

 

O narcisismo democratizou-se e está agora ao alcance de qualquer um.

 

Nesse mundo dominado por animais que era o Paleolítico, a solidariedade humana como sobrevivência sobrepunha-se ao reconhecimento individual.

 

 

 

 

Conta-se que na época historicamente considerada como colonialista, se encontraram um branco e um preto a pescarem num ancoradouro algures em África. Conversa do branco para o preto:

- Então onde trabalhas?

- Não trabalho. Trabalhar para quê?

- Para poderes ganhares dinheiro para comprar comida. Como é que comes?

- Com o que planto ali – e apontou para um terreno ao pé da praia.

- Então para poderes comprar uma casa. Onde vives?

- Ali – e apontou para uma palhota à beira mar.

- Para poderes sustentar mulher e filhos. Tens mulher?

- Ali – e apontou para a mulher e dois filhos.

- Para poderes comprar um carro. Tens carro?

- Não preciso. Vivo ali.

Desesperado, o branco tenta um último argumento:

- Para poderes teres férias. Tens férias?

- Não. O que é isso?

- É não trabalhares, comeres quando te apetece, passeares pelo cais à vontade, pescares ao fim da tarde.

- Ah! Isso é o que eu faço!

 

 

Há cerca de 12.000 anos, toda aquela cultura do Paleolítico que desenhava animais e mãos humanas nas paredes das caves, que estava constantemente em migração, chegou ao fim, sendo progressivamente substituída pelo sedentarismo da revolução Neolítica.

 Os humanos inventaram a agricultura, aprenderam a domesticar animais selvagens, a fiar, a fermentar cerveja, a extrair metais e a fabricar lâminas cada vez mais afiadas. Acolheram-se em vilas, muralharam cidades.

Mas esse conforto do sedentarismo pagou-se com o aparecimento da propriedade, na forma de celeiros e de rebanhos, com a segmentação da sociedade em classes – que os antropologistas chamam de “estratificação social” – e com a sedução pela guerra como atividade coletiva organizada.

A guerra conduziu à instituição da escravatura, mormente para as mulheres dos vencidos (os vencidos homens eram normalmente mortos), o que levou à estigmatização das mulheres como concubinas ou servas domésticas. Já para os homens do lado dos vencedores, a melhoria poderia até ser notável, com alguns dos intrépidos comandantes serem elevados a reis e até a imperadores.

Em todos os lugares em que a agricultura e o sedentarismo triunfaram, a coerção pelos poderosos substituiu a cooperação entre iguais. Daí, Jared Diamond, o historiador e antropologista americano premiado com o Pulitzer pela sua obra de 1997, Guns, Germs, and Steel, considerar a revolução Neolítica como “o pior erro na história da raça humana”.

 

Há, contudo, uma outra característica da cultura paleolítica digna de nota e que tem que ver com as pinturas rupestres que nos deixaram nas caves: o facto de todas elas retratarem só animais. Nelas não aparecem humanos, a não ser em alguns desenhos muito esquemáticos das suas figuras, ou em impressões das suas mãos. Sendo capazes de representar tão fielmente animais, não se encontra uma figura humana convincente, nem um rosto.

 

O mesmo já não acontece no Neolítico, onde a representação do rosto humano acompanha a proliferação de reis e heróis da Idade do Bronze. Reis e consortes são os primeiros a assim afirmarem a sua superioridade pessoal, a que se juntam as coroas, joias, os numerosos escravos, e toda a demais arrogância narcisística que acompanha esse estatuto.

Narcisismo que vai acabar por se estender à burguesia, que no século XVII começa a escrever as suas memórias e a encomendar os seus retratos. Hoje em dia, todos aqueles que possuem um telemóvel (inteligente ou esperto) podem reproduzir e propalar a sua própria imagem, ou os seus próprios pensamentos, nos meios de comunicação social. O narcisismo democratizou-se e está ao alcance de qualquer um (Donald Trump decorou as paredes dos seus clubes de golf com portadas falsas da revista Time com o seu retrato).

 

Não havendo, pois, esta necessidade de reproduzir o nosso rosto e as nossas façanhas, porque estão o super-ricos a tentarem regressar às cavernas, ao comprarem silos nucleares abandonados, convertendo-os em autênticos bunkers com capacidade para uma dúzia de famílias mais os criados e guardas, com piscinas, ginásios, carreiras de tiro, cafés “ao ar livre”, decorados com preciosas obras de arte e com ecrãs de parede (ou paredes de ecrãs) onde se vai vendo o que os seus canais de televisão mostram o que se está a passar no mundo exterior?

Certamente não é a motivação por qualquer tipo de aprendizagem com os povos do Paleolítico.

Como classe superior que vive num sistema que tem como adquirido o valor do crescimento como crescimento (a religião do PIB), o crescimento como progresso, o progresso como o elemento diferenciador das civilizações, acredita firmemente que os povos modernos vivem melhor e são mais felizes que os medievais, os medievais mais felizes que os pré-históricos, etc.

 

O filósofo e historiador israelita, Yuval Noah Harari, na sua obra, Sapiens: A Brief History of Humankind, vem lembrar-nos que o aparecimento da agricultura, apesar de aumentar em muito o poder da coletividade, pouco fez em favor do indivíduo. Durante milhões de anos, os humanos adaptaram-se a correr atrás de gazelas, subir às árvores para apanhar fruta, cheirar aqui e acolá à procura de cogumelos. Com a agricultura, passaram a cavar, plantar, colher e carregar baldes de água do rio, vida pesada e sedentária com reflexos nas costas, joelhos e articulações, para além do adormecimento do espírito humano.

Os camponeses tinham uma dieta pior que a dos caçadores-recolectores, sofriam de mais nutrição e fome, e os seus locais de alojamento sobrelotados eram incubadores de novas doenças infeciosas, grande parte com origem no gado.

 

Também a marcha do progresso nas cidades-estado Sumérias e dos impérios Assírios e da Babilónia, foi acompanhada da deterioração progressiva do estatuto social e económico das mulheres. Na Europa, o período do Renascimento, apesar das descobertas e invenções maravilhosas, poucas foram as pessoas que delas beneficiaram para além do círculo das elites do poder. Os posteriores impérios europeus, originaram a troca de tecnologias, ideias e produtos, o que, contudo, não constituiu uma boa notícia para os índios americanos, para os africanos e aborígenes australianos.

 

A era moderna tem vindo a conseguir enormes avanços no poder da coletividade, e de alguns avanços em favor do indivíduo, nomeadamente no campo da saúde e da educação. Não podemos, contudo, deixar de ver que grande parte deles foram conseguidos através da destruição do meio que nos rodeia, desde a extinção de espécies vegetais e animais, à mortandade e maus tratos de biliões de animais e de outros seres humanos. E que nos conduziu à possibilidade de pela primeira vez o planeta se vir a poder tornar inabitável.

É bom lembrar aos defensores acérrimos do progresso a todo o custo  (novos modelos de carros todos os anos, novas modas de vestuário, de computadores, de novos sabores de sorvete, de novas músicas, de novos “amigos” virtuais, de novas app, novas guerras, novos presidentes, etc.) que, mesmo na escala do tempo humano,  cinquenta anos de “progresso ininterrupto” (que é ao que se referem) é muito pouco tempo para se poder concluir da sua validade.

 

A razão pela qual não eram necessários rostos nas pinturas rupestres nesse mundo dominado por animais que era o Paleolítico, é que a solidariedade humana como sobrevivência sobrepunha-se ao reconhecimento individual.

As cavernas, as caves, eram lugares de esforço coletivo onde todos se ajudavam e participavam solidariamente. Todas aquelas pinturas eram obras coletivas, desde as pessoas que as percorriam para verificarem as suas rachas e protuberâncias possíveis de representarem a fauna existente, pessoas que recolhiam troncos para construírem os andaimes a partir dos quais os artistas trabalhavam, as pessoas que misturavam as tintas, as pessoas que providenciavam a alimentação, fossem eles adultos, crianças, homens ou mulheres. Esforço de cooperação, de autossacrifício, que eram essencias para as caçadas coletivas e para a defesa coletiva.

 E é exatamente por não perceberem isto, que os novos poderes bem-pensantes e podres de ricos, julgam virem a encontrar refúgio nas novas cavernas que os protegerão do futuro que criaram.

 

 

(246) Como enganar o clima

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

“Será que a insignificante porção de gases do efeito de estufa derivados da queima de combustíveis fósseis tem assim um efeito tão grande no clima mundial? Ninguém sabe ao certo”, patrocinado pela ExxonMobil.

 

A indústria dos combustíveis fósseis tem vindo a conduzir uma campanha de desinformação e manipulação sobre a realidade e a severidade da alteração climática causada por humanos.

 

Há cerca de 40.000 crianças, algumas com quatro anos, a minerarem ilegalmente cobalto nas minas do Congo.

 

 “O legado será a morte, destruição, e um aquecimento global irreversível”.

 

 

 

 

 

A 24 de outubro de 2019, a Procuradoria Geral do Estado de Massachusetts pôs uma ação contra a Exxon Mobil Corporation, acusando-a de enganar os investidores e os consumidores do Estado.

 Apesar da intenção primária do Estado de Massachusetts incidir sobre os $1,6 biliões que considera terem sido perdidos pelos “investidores” devido às falsas afirmações da Exxon, são importantes as acusações aí feitas relativas às alterações climáticas que afetam todos nós, “os consumidores”. Zangam-se as comadres, dizem-se as verdades. Passo a transcrever algumas dessas acusações que constam da ação:

 

# A Exxon Mobil, desde os anos 70 tinha conhecimento científico das causas e consequências potencialmente catastróficas das alterações climáticas para a humanidade, e que a única resposta possível seria a redução do uso dos combustíveis fósseis.

 

# A Exxon Mobil, desenhou e implementou uma campanha nos moldes da utilizada pela indústria tabaqueira, por forma a semear a dúvida e gerar a confusão entre o público sobre a ciência do clima que a própria Exxon ajudou a desenvolver:

- A Exxon formulou o que chamou ser a “Posição da Exxon”: enfatizar a incerteza.

- A Exxon e os maiores grupos de interesses representando a indústria automóvel, do petróleo, e do carvão, formaram a Coligação para o Clima Global (Global Climate Coalition), com a finalidade de distorcer a ciência do clima e enganar o público e os consumidores.

- Contrariamente ao conhecimento interno que já tinham, a ExxonMobil montou um ataque público agressivo à ciência do clima, ao mesmo tempo que escamoteava o papel desempenhado pelos seus produtos, os combustíveis fósseis, como causa das alterações climáticas.

- Apesar do conhecimento que os efeitos adversos das alterações climáticas teriam para a saúde humana, a Exxon promoveu a instauração da dúvida e de falsos debates sobre os riscos para a saúde pública.

- A Exxon, juntamente com um veterano da campanha de falsidades da indústria tabaqueira, formou o Grupo para as Comunicações da Ciência do Clima Global (Global Climate Science Communications Team) para instilar no público a dúvida sobre se as alterações climáticas estavam mesmo a acontecer e se os humanos desempenhavam qualquer papel.

- A ExxonMobil gastou milhões numa campanha sem precedentes de “anúncios” no The New York Times em que punha em dúvida a ciência do clima, daí a necessidade de se protelar qualquer ação repentina sobre o clima, e menorizando as tecnologias alternativas.

 

# A ExxonMobil enganou os consumidores ao proclamar que os seus produtos de combustível fóssil reduziam as emissões de dióxido de carbono; falhou propositadamente ao expor nas informações do seus anúncios os perigos a que os consumidores se confrontavam ao usarem os seus produtos de combustível fóssil; enganou quando apresentou os seus produtos, tais como os biocombustíveis de algas, como sendo produtos de uma empresa inovadora e responsável de energia limpa, quando de facto, os produtos da ExxonMobil eram a primeira causa da alteração climática.  

 

Segue-se a explicação detalhada de cada um dos vários itens elencados, com a agregação de documentos que sustentam as acusações, como, por exemplo, a apresentação dum gráfico de 1982 da Exxon Vu, onde se prevê que  a concentração de dióxido de carbono atinja 415 ppm em 2019, se nada fosse feito para reduzir as emissões de gases do efeito de estufa. Aliás, já anteriormente em 1978, a Exxon confirmara que era cientificamente aceite ser a humanidade a principal causa da alteração climática devido à emissão de dióxido de carbono resultante dos gases dos combustíveis fósseis.

Como, por exemplo, relembrar artigos da Global Climate Science Communication onde se podia ler que “A vitória será alcançada quando a maior parte dos cidadãos perceber (reconhecer) as incertezas da ciência do clima […] o reconhecimento da incerteza será então parte da sabedoria popular”, e “Será que a insignificante porção de gases do efeito de estufa derivados da queima de combustíveis fósseis tem assim um efeito tão grande no clima mundial? Ninguém sabe ao certo”.

 

Muito mais se pode ler ao longo das 210 interessantíssimas páginas, aqui apresentadas na íntegra (1).

Entretanto, saiu já a decisão do tribunal não dando procedência à ação apresentada pelo procurador geral do estado, uma vez que a queixa sobre os danos sofridos pelos investidores deveria ter sido apresentada em separado e no tribunal especial existente para julgar esses casos. Como se a procuradoria geral não soubesse já disso…

 

 

Recomendo ainda um conciso estudo (2) da Harvard University, da University of Bristol e da George Mason University, de outubro de 2019, intitulado “Como a indústria de combustíveis fósseis enganou deliberadamente os americanos acerca as alterações climáticas”, que nos elucida bastante bem sobre o essencial da questão, onde se reconhece que “a indústria dos combustíveis fósseis tem vindo a conduzir uma campanha de desinformação e manipulação sobre a realidade e a severidade da alteração climática causada por humanos”, e em que a estratégia, táticas, infraestrutura e argumentos teóricos e técnicas usadas pelos interesses dos combustíveis fósseis para enfrentar a evidência científica da alteração do clima – incluindo o fixar-se em pormenores sem importância, o utilizar especialistas em falsidades, e em teorias de conspiração - foram diretamente tiradas do manual da indústria tabaqueira para atrasar o controle do tabaco.

E conclui:

 

A indústria tabaqueira gastou centenas de milhões de dólares desinformando o público acerca dos malefícios do tabaco para proteger os seus interesses. A OMS estima que em cada ano morram seis milhões de pessoas por doenças resultantes do consumo de tabaco. Seguindo o mesmo manual das tabaqueiras, a indústria dos combustíveis fósseis estão a proceder da mesma forma com as alterações climáticas: gastando milhões de dólares para confundir o público e atrasando as ações de salvamento. Só que neste caso, o legado será a morte, destruição, e um aquecimento global irreversível”.

 

Não é a primeira vez, nem será a última, que as grandes corporações põem os seus interesses (os lucros) lucros à frente dos interesses das populações.

 

 

Nos últimos meses têm-se sucedido roubos de paletes nos grandes portos de Roterdão e Antuérpia, daquilo a que se começou a chamar de “ouro azul”: o cobalto.

Entre 2016 e 2018 o preço do cobalto aumentou 250% (de 26.000 US$ para mais de 90.000), devido à procura dos fabricantes de carros elétricos como a Tesla, Volvo, Ford, Volkswagen, e dos produtores de telemóveis como a Apple. A previsão é que o preço continue a subir, porquanto estima-se que em 2030 se estejam a produzir 35 milhões de veículos elétricos por ano.

O cobalto não é um elemento que se encontre sozinho, pelo que a sua extração é feita a partir do cobre ou níquel, utilizando ácidos e calor. Inicialmente era usado para dar cor à cerâmica e ao vidro, o “azul cobalto”.

 Mas no século XX descobriu-se que combinado com outros metais tornava-os extremamente resistentes, estáveis a temperaturas altas e anticorrosivos, o que o tornou imprescindível nos motores de avião, foguetões, estações nucleares e instrumentos de corte.

Foi, no entanto, a sua qualidade única para evitar que as baterias de lítio dos telemóveis e dos carros elétricos sobreaquecessem e se incendiassem, que tornou desenfreada a sua procura. Os preços sobem, a exploração aumenta.

 

Acontece que 70% da produção mundial de cobalto tem origem na Républica Democrática do Congo, onde as condições de mineração são as habituais: horrendas, extração à mão, sem proteção, ventilação inadequada, doenças respiratórias incapacitantes, profundidades que chegam aos 100 metros, pagamentos miseráveis (1 euro ao dia). Melhor que nada, não é?

E grande parte dela feita por crianças. A Unicef estima que há cerca de 40.000 crianças, algumas com quatro anos, a minerarem ilegalmente cobalto nas minas do Congo (3).

 

 

Vamos, portanto, todos começar a andar de EV (Veículo Elétrico, as consoantes aparecem trocadas conforme o acordo estratégico para a uniformização das campanhas de anúncios), evidentemente mais caros, a gastarmos menos água nas sanitas, a transportarmos à mão as compras, a usarmos fraldas de tecido, etc. Cá por mim já reduzi o número de pastéis de nata semanais, como contribuição para diminuir o aquecimento global. EV tenho o comunitário Metro. A sanita só descarrego ao fim do dia. O banho só tomo uma vez por semana. As compras peço para as virem trazer cá a casa. É o máximo de socialismo que comporto.

Mas tenho verificado que isto do socialismo é bom: estou mais magro, embora mais porco, mas não se nota, tenho menos doenças porque não vou ao médico e sobra-me mais dinheiro para comprar um EV. O clima vai abrandar. Sinto-me bem a contribuir para estas campanhas mesmo sabendo que não vão resultar. Sinto-me mais humano.

E estou mesmo a pensar participar em 2040 naquela megamanifestação que vai exigir a nacionalização da empresa privada que produz água a partir da urina, fonte única do abastecimento público às cidades.

 

 

 

 

Notas:

 

  • Cook, J., Supran, G., Lewandowsky, S., Oreskes, N., & Maibach, E., (2019), America Misled: How the fossil fuel industry deliberately misled Americans about climate change, Fairfax, VA: George Mason University Center for Climate Change Communication.

(https://www.climatechangecommunication.org/wp-content/uploads/2019/10/America_Misled.pdf).

 

(https://www.theguardian.com/global-development/2019/dec/16/apple-and-google-named-in-us-lawsuit-over-congolese-child-cobalt-mining-deaths), e ainda (https://www.theguardian.com/global-development/commentisfree/2019/dec/16/i-saw-the-unbearable-grief-inflicted-on-families-by-cobalt-mining-i-pray-for-change

(245) Que tipos de humanos serão escolhidos?

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

 

Protesto, é quando eu digo que não estou de acordo com isto ou aquilo. Resistência, é quando asseguro que aquilo com que não estou de acordo não volta a acontecer, Ulrike Meinhoff.

 

Como sabemos, os japoneses durante a 2ª Guerra Mundial, usaram o afogamento por água (water boarding), e nos julgamentos que patrocinámos, condenámos à morte os que o fizeram, Scott Burns.

 

Porque o nome de “tortura” não cairia bem, foi substituído em todos os documentos oficiais por “técnicas intensivas de interrogação” (enhanced interrogation techniques).

 

Podemos fazer coisas más, mas não passam de acidentes, não passam de erros, Robert Scheer.

 

 

 

Não desistem aqueles que pretendem “aperfeiçoar” a humanidade substituindo-a por coisas sensitivas e pensantes de idêntico formato, mas “melhores”. Se a substituição pretendida for só para a produção de modelos adaptados a vários desempenhos específicos, como os já previstos no Blade Runner, então bastará uma simples enumeração de funções a desempenhar (faz isto e aquilo, desta maneira e não de outra) para ser conseguida.

O problema surge quando a pretensão for a de formatar a tomada de decisão a nível mais elevado, ou seja, quando ela implicar escolhas em alternativa passíveis de alterarem o comportamento humano e o futuro da sociedade. Que caminho tomar? Porque este e não aquele?

Porque aí vão-se deparar com o problema da ambiguidade do ser humano, da construção da visão do mundo de cada um, da “bondade” e da “maldade” existente em cada um, e que por vezes até se verifica simultaneamente. Como escolher matematicamente qual dos seres humanos devemos “escolher” para modelo? Quais as ações que deverão ser mais valorizadas dentro do mesmo humano?

 

 

Na Pérsia, o governo eleito (1951-1967) do primeiro ministro Mohammad Mosaddegh, após ter nacionalizado a exploração de petróleo acabou por ser derrubado por um golpe de estado orquestrado pela CIA (1) e pelo MI6, passando o rei “amigo do Ocidente”, o Xá da Pérsia, Reza Palhevi,  a figura dominante.

A preparação da visita do Xá à Alemanha em junho de 1967, foi precedida pela habitual campanha de várias “informações” sobre sua alteza e família, com especial destaque para a distinção e elegância, vestidos, adornos e penteados da nova imperatriz, Farah Diba (a anterior tinha sido repudiada por ser infértil e não poder assegurar a dinastia), a revista alemã Die Newe Revue, publicou uma entrevista com a imperatriz em que, falando da sua vida, dizia que “o Verão no Irão era muito quente e ela e a família, tal como a maior parte dos persas, iam para a Riviera persa do mar Cáspio”.

De imediato, a jornalista Ulrike Meinhof (1934-1976), escreve na revista Koncret, uma carta aberta a Farah Diba, onde diz:

 

“«Como a maior parte dos persas…». Não está a exagerar? A maior parte dos persas são camponeses com um rendimento anual de menos de 100 dólares. A maior parte das mulheres persas veem cada novo filho – 50 em cada 100 – morrer de fome, pobreza e doença. E sabe que a maioria destas crianças trabalha 14 horas por dia a fazer tapetes? Também vão no Verão para a Riviera persa no mar Cáspio? Não queremos insultá-la, mas também não queremos ver o público alemão insultado por artigos como o seu na Newe Revue. Com cumprimentos, Ulrike Meinhof”.

 

Ainda nesse ano de 1967, Ulrike deixa outra citação:

Protesto, é quando eu digo que não estou de acordo com isto ou aquilo. Resistência, é quando asseguro que aquilo com que não estou de acordo não volta a acontecer”.

 

E, quando na visita à Alemanha do vice-presidente dos EUA, Hubert Humphrey, foi alvejado com sacos de pudim, o que levou à prisão dos atacantes como terroristas, ela escreveu:

 

Despejar napalm sobre mulheres, crianças e velhos não é crime, mas protestar contra isso é […] É considerado pouco polido atingir políticos com pudim e papa de aveia, mas desenrolar a passadeira vermelha a políticos que bombardeiam aldeias e destroem cidades não é […] Napalm, sim; pudim, não.

 

Lateralmente, e só para nos situarmos, Ulrike Meinhof, era uma jornalista revolucionária alemã, que formou com Andreas Baader e outros, o bem-mal conhecido grupo da luta armada, Baader-Meinhof, acusado em 1975 de quatro homicídios, 54 tentativas de homicídio e de organização criminosa.

Condenados a prisão perpétua, três dos principais dirigentes, incluindo Baader, foram encontrados mortos nas suas celas: suicídios em prisões alemães de alta segurança em celas de isolamento. Acontece com certa frequência, até ainda hoje nos EUA mesmo a multibilionários bem entrosados, caso recente de Jeffrey Epstein. Azares, coincidências, genéticas.

Também Ulrike,foi encontrada em 1976 morta na sua cela: novo suicídio. Mas esta com uma outra variante: sem conhecimento da família, e antes do enterro, os patologistas retiraram-lhe o cérebro, que foi conservado em formol para estudos num hospital de Magdeburgo. Só 26 anos depois, em 2002, após uma ação contra o Estado, movida pela sua filha Bettina Rohl, é que o cérebro foi enterrado na sepultura junto aos restos de Ulrike.

 

 

Após os ataques terroristas do 11 de setembro, aquela velha máxima de que “depois de casa roubada, trancas à porta”, foi aplicada com a máxima urgência, o que corresponde a um ato normal de resposta. Aproveitando essa pressa em obter informações que levassem a uma retaliação forte, instalou-se nos dirigentes dos órgãos do governo encarregados (a CIA) a ideia, de que o melhor método para obter informações seria através da tortura.

Porque o nome de tortura não cairia bem a grande parte dos americanos, substituíram-no em todos os documentos oficiais por “técnicas intensivas de interrogação” (enhanced interrogation techniques).

 

O principal problema da utilização da tortura é de, sob o ponto de vista humano, ser eticamente injustificável. Daí que, tal como a escravatura e outros, seja banido internacionalmente. 

O segundo problema, é que a informação produzida terá de ser verificada por outras fontes independentes, por não poder, só por si, ser considerada fidedigna.

O terceiro problema, é que ao utilizar tais meios, o Estado está a autorizar que os seus cidadãos possam também virem a ser torturados por outros Estados.

 

Diz Scott Burns, realizador dos filmes “The Bourne Ultimatum”, “The Laundromat”, e do documentário sobre os Panama Papers, que durante as suas pesquisas para um seu novo filme, deparou-se com os seguintes factos:

 

O melhor interrogador nazi chamava-se Hanns Scharff. Scharf entrevistou 500 aviadores, e utilizando apenas conversas tidas durante o chá, por vezes scotch, e conhecimentos sobre basebol americano, obteve sucesso em 480 dos casos […] Após a guerra, contratámos Hanns Scharff para vir dar lições aqui nos EUA. E, portanto, o melhor dos nazis não usava estas técnicas (de tortura), e vem a CIA agora colocar-nos nesta posição”.

 

“[…] devemos reconhecer que já outros países usaram técnicas de tortura como a do afogamento por água (water board) e que nós os vilipendiámos por isso. E, contudo, foi o que nós fizemos e estamos convencidos que podemos prosseguir com impunidade. Como sabemos, os japoneses durante a 2ª Guerra Mundial, usaram o afogamento por água, e nos julgamentos que patrocinámos, condenámos à morte os que o fizeram. Esta hipocrisia espanta-me.

 

Segundo Burns, uma das primeiras vezes que a CIA utilizou o afogamento por água foi com Abu Zubaydah, que “era considerado pela CIA como sendo o número três ou quatro na hierarquia da al-Qaeda. Na realidade, ele nem pertencia à al-Qaeda; estava associado com eles, mas nem sequer pertencia a qualquer estrutura de comando. […] Inicialmente disseram que precisavam de o torturar porque julgavam que ele tinha informações que não estava a querer dar. […] E quando finalmente desistiram do afogamento, vieram dizer que o afogamento resultara porque agora sabiam que ele afinal não sabia nada.

E refere ainda que:

“[…] os psicólogos que geriam programa de afogamento por água, receberam 80 milhões de dólares para fazerem este trabalho que resultou em nada […] fora as indemnizações concedidas às vítimas

 

Peter Jan Honigsberg, professor de direito da Universidade de San Francisco, publicou em 2019, A Place Outside The Law, Forgotten Voices from Guantánamo, onde nos diz que dos 760 detidos em Guantánamo, 90% não tiveram qualquer ligação significativa com a al-Qaeda, ou mesmo até nenhuma ligação. O governo americano pagava 5.000 a 30.000 dólares por cada um deles capturado às polícias e exércitos do Paquistão e Afeganistão.

Dos cinquenta e seis dos que foram entrevistados por Honigsberg, vinte andavam a combater contra o governo da China e os campos de reeducação para muçulmanos, e acabaram por ir parar a Guantánamo.

 

Robert Scheer, conhecido jornalista americano, para demonstrar a diferença de abordagem do problema da tortura dentro de organizações americanas, vai referir dois exemplos de filmes americanos.

No filme de 2012, “Zero Dark Thirty” (00:30 Hora negra) de Kathryn Bigelow, sobre a captura e morte de Bin Laden, está refletida a “propaganda da CIA segundo a qual a tortura é necessária […]” e consi era-o “[…] o mais importante produto de Hollywood relativo à tortura, porém um filme baseado numa mentira.”

Já num outro filme de 1998, “feito antes do 11 set, “The Siege” (Estado de Sítio), de Edward Zwick, em que Denzel Washington fazia de agente do FBI, e Annette Bening de agente da CIA […] a posição representada pelo FBI era a de que a tortura não resultava. Não só era contra os nossos valores, como era contraprodutiva.”

 

 

Após seis anos de utilização de tortura como forma privilegiada de obter informação, a própria CIA, pressionada pelos escândalos e pelo Senado, acabou por reconhecer que não tinha sido um programa bem sucedido, uma vez que tudo o que se conseguiu através dessa técnica já se sabia ou poderia saber através de outras fontes, de outros governos.

O Senado americano produziu um relatório sobre a tortura realizada pela CIA (Senate Intelligence Committee report on CIA torture) (3) com 6.700 páginas que muito poucas pessoas tiveram a possibilidade de ler na integra, para além das 500 páginas da introdução. Do relatório completo restam apenas três cópias (uma na biblioteca presidencial de Barack Obama, e outras duas em Guantánamo), uma vez que todas as outras cópias foram recolhidas e destruídas.

Os próprios vídeos dos interrogatórios da CIA foram também destruídos por ordem do diretor da CIA, Gina Haspel. Não é a primeira vez, nem será a última, que a história é destruída.

 

Muitas são as pessoas e organizações que continuam a defender o uso da tortura como meio para se conseguirem informações. Por outro lado, para que tudo isto se viesse a saber, muitas outras pessoas e organizações resistiram.

E este é o principal problema com que se defrontarão aqueles que defendem o “aperfeiçoamento” da humanidade ao ponto de a desejarem substituir por coisas sensitivas e pensantes de idêntico formato. Qual dos tipos de humanos serão “escolhidos” como modelo “melhor”?

Quem os escolherá já sabemos: os donos das grandes corporações privadas ou os governos e Estados ao serviço das grandes corporações. Dos EUA, China, Rússia, Grã (ou pequena) Bretanha, Alemanha, Turquia, etc.

 

 

 

Notas:

  • O National Security Archive dos EUA desclassificou os documentos com detalhes relativamente ao envolvimento da CIA no golpe de 1953 que depôs Mossadegh, publicando-os no Livro Electrónico Nº435, de 19 de agosto de 2013 ( https://nsarchive2.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB435/  )
  • Entrevista a Scott Burns conduzida por Robert Scheer sobre os segredos mais negros da América

(https://www.truthdig.com/articles/americas-darkest-secrets-are-laid-bare-in-the-report/).

(3)Como os segredos mais negros da tortura da CIA foram expostos e            encobertos (https://www.truthdig.com/articles/how-the-cias-darkest-torture-secrets-were-exposed-and-covered-up/)

 

 

 

 

(244) Manual para se ter razão, lícita ou ilicitamente

Tempo estimado de leitura:7 minutos.

 

Se hoje conseguimos expressar corretamente através da fala os pensamentos por forma a termos a possibilidade de distinguir a verdade da mentira, devemo-lo a Aristóteles.

 

Só que hoje já se não usa, dá pouca audiência e, segundo dizem “o povo, na sua infinita sabedoria, não tem paciência para ouvir”.

 

Aturdir, desconcertar o adversário mediante palavreado sem sentido. O disparate deve soar como “erudito ou profundo”.

 

  Se tudo falhar e se “perceber que o adversário é superior”, devemos passar ao insulto: “Pessoalize, seja ofensivo, grosseiro”.

 

Os frutos da paz pendem da árvore do silêncio, provérbio árabe.

 

 

 

 

Cada vez mais temos vindo a assistir ao preenchimento dos canais de comunicação com debates entre vários intervenientes convidados para discutirem o futebol, as eleições, o futebol, os casos do dia e da noite, o futebol, os casos do mês atual, anterior ou do que vem, do ano que está a terminar ou do que vai começar, enfim, tudo o que sirva para nos tornar “cultos e adultos”.

Infelizmente, ou melhor, contudo, tudo acaba quase sempre num atropelo de argumentos menores ou sem nexo, mais ou menos gritados, em que nada se conclui ou se se concluir também não para nada serve. Aliás, a finalidade é mesmo essa: ocupar espaço e apelar às posições mais básicas, que são as que dão mais audiência e das que dizem ser as que o povo, na sua infinita sabedoria, mais gosta.

  

É bom lembrar que, o problema destas discussões e debates, não é característico só dos nossos tempos, da televisão e da rádio. Vem de muito longe e tem sido uma constante das muitas reuniões e assembleias que, melhor ou pior, com mais ou menos frequência, sempre se vieram fazendo nas nossas sociedades.

 

Foi na Grécia Antiga que apareceram os chamados sofistas, professores e mestres na arte do discurso, que apenas tinham como finalidade ensinar a ganhar debates e discussões, através da utilização de um conjunto de argumentos que acabasse por confundir o interlocutor, levando-o a tirar conclusões falsas e absurdas.

Contra esta escola sofista se insurgiam Sócrates, Platão e Aristóteles, sustentando que a argumentação só devia ser usada para a descoberta da verdade e não para se ganhar uma discussão com base em meras opiniões.

 

Aristóteles (384 a.C.- 322 a.C.), é o que vai mais longe, ao escrever um conjunto de seis textos consagrados à lógica, Categorias, Da Interpretação, Analíticos Primeiros, Analíticos Segundos, Tópicos e Refutações Sofísticas (posteriormente recolhidos debaixo do título Órganon), onde estabelece as leis segundo as quais é possível, através da linguagem, investigar e alcançar a verdade.

 

Só para lembrar:

A lógica é a ciência que tem por objeto o estudo do pensamento e do discurso, preocupando-se com a sua correção, fornecendo os instrumentos que permitem verificar a validade e a verdade dos argumentos.

 É no Órganon que pela primeira vez aparece o célebre quadrado lógico das proposições, em que são analisadas todas as relações possíveis entre estas: universais afirmativas (A), universais negativas (E), particulares afirmativas (I) e particulares negativas (O); o caso das proposições contraditórias (A/O; E/I), o caso das contrárias (A/E), o das que foram depois de Aristóteles chamadas subcontrárias (I/O) e subalternas (A/I; E/O). O princípio da não-contradição (uma proposição não pode ser verdadeira e falsa ao mesmo tempo). O princípio do terceiro excluído (uma proposição ou é verdadeira ou é falsa). E, praticamente, quase tudo o que ainda hoje usamos para organizarmos correntemente os pensamentos, permitindo-nos discursos mais coerentes e inteligíveis de modo a não comprometermos aquilo que queremos comunicar.

 

 

Nos 8 livros que constituem os Tópicos, manual para debates de opiniões aceites pela sociedade, Aristóteles começa por definir o objetivo:

 

 “O objectivo desta exposição é encontrar um método que permita raciocinar, sobre todo e qualquer problema proposto, a partir de proposições geralmente aceites, e bem assim defender um argumento sem nada dizermos de contraditório.”

 

Faz-nos depois notar que:

 

Um argumento diz-se falso em quatro sentidos. Em primeiro lugar, quando aparenta chegar-se a uma conclusão sem de facto se concluir nada: a este chama-se um «raciocínio erístico». Em segundo lugar, quando se chega a uma conclusão, mas não àquela a que se propusera chegar (isto sucede sobretudo nas demonstrações pelo absurdo). Em terceiro lugar, quando a conclusão decorre do tema proposto, mas não foi obtida pelo método a ele adequado. Esta situação verifica-se quando o argumento parece ser de ordem médica sem ser médica, de ordem geométrica sem ser geométrica, de ordem dialéctica sem ser dialéctica, e isto independentemente de a conclusão ser falsa ou verdadeira. Um quarto sentido verifica-se quando se obtém uma conclusão através de premissas falsas. Neste caso a conclusão às vezes pode ser falsa, mas outras pode ser verdadeira; uma conclusão falsa decorre sempre do recurso a premissas falsas, mas pode obter-se uma conclusão verdadeira mesmo sem ser através de premissas verdadeiras”.

 

 

Passa depois a considerar as várias formas que o sofista pretende levar o adversário a um impasse ou a uma situação disparatada e, dos recursos de que é possível dispor para contrariar esses propósitos, quer a nível das perguntas quer a nível das respostas.

 

São ainda analisadas as diversas espécies de falsas argumentações (falácias – erro de raciocínio, um argumento aparentemente válido mas que na realidade não o é -  e sofismas – falácia provocada por um erro intencional no raciocínio) decorrentes quer de fatores linguísticos (por exemplo, os erros de raciocínio derivados da homonímia, ou ambiguidades da linguagem, da polissemia, ou de outros mais fatores), quer decorrentes de fatores extralinguísticos, ou, ainda que de ordem linguística, de carácter algo marginal.

 

E vai exaustivamente detalhar, tudo o que se relacione com o discurso, nada deixando de fora.  A título de exemplo, no § 56, Livro VIII, trata “A prática da dialéctica — regras para uso dos praticantes Cap. 1-3 — Regras a observar pelo interrogador.4-10 — Regras a observar pelo interrogando.4-11 — Erros na argumentação.4-12 — Falsidade na argumentação.4-13 — Petição de princípio e petição de contrários.4-14 — Regras práticas para a preparação do praticante da dialéctica.”

 

Não posso deixar de transmitir a delícia do seu raciocínio sobre o problema das frases declarativas com o verbo no futuro. Ou seja, o que se passa com uma proposição como «Amanhã ocorrerá uma batalha naval»?

Eis o que nos disse Aristóteles, há 2400 anos:

 

 «O que eu pretendo dizer é que necessariamente amanhã haverá, ou não haverá, uma batalha naval; mas, por outro lado, não é necessário nem que haja, nem que não haja amanhã uma batalha naval, e, no entanto, é necessário ou que haja ou que não haja (essa batalha).»

 

 

E, já no final dos Tópicos, deixa esta advertência:

 

Não se deve debater com toda a gente, não se deve exercitar a dialéctica com o primeiro que aparecer. Com certos indivíduos o debate será necessariamente vicioso: com um homem que procure de todo o modo possível fugir ao debate, é justo tentar por todas as formas conseguir finalizar o raciocínio, mas o resultado nunca será famoso. Por esta razão não devemos parar a dialogar sem hesitação com quem nos aparecer pela frente, pois isso redundará fatalmente numa conversa penosa; além disso, quem ainda está a praticar não é capaz de evitar que o diálogo se torne contencioso.”

 

 

 

 

 

Em resumo: se hoje conseguimos expressar corretamente através da fala os nossos pensamentos de forma a termos a possibilidade de distinguir a verdade da mentira, devemo-lo a Aristóteles.

  

Seria, contudo, estultícia da minha parte, pretender que todos os participantes e parlamentares convidados dos nossos meios de comunicação social, tivessem lido obrigatoriamente o Órganon, ou mesmo só os Tópicos, antes de se aprestarem a botar palavra. Até porque já se não usa, dão pouca audiência e, segundo dizem: “o povo, na sua infinita sabedoria, não tem paciência para ouvir”.

 

 

Perante isto, sugiro em sua substituição uma versão mais ligeira, mais acessível, e sobretudo mais de acordo com o espírito dominante. Refiro-me ao livro, Dialéctica erística ou a arte de ter razão, exposta em trinta y oito estratagemas (Eristische Dialektik: Die Kunst, Recht zu behalten), um pequeno tratado não concluído e publicado postumamente em 1864, de Arthur Schopenhauer, com a finalidade de se   “discutir […] de forma a que se tenha razão tanto lícita como ilicitamente”, ou seja, sem precisar de ter razão.

 

Baseando-se nos Tópicos de Aristóteles, vai mudar-lhes o sentido, pondo-os à disposição dos que apenas querem ganhar o debate. Aqui deixo um muito pequeno resumo de algumas dessas trinta e oito sugestões:

 

  1. Provocar o adversário por forma a que ele se irrite, pois “encolerizado, não está em condições de raciocinar de forma correta”. E se o adversário se enfadar com uma ideia, deve-se insistir nela. Significa que tocámos num ponto fraco.
  2. Se quisermos que o adversário aceite uma tese, “devemos apresentar-lhe o seu oposto” e fazê-lo eleger. Por exemplo, dar-lhe a escolher entre “estas medidas para reativar o emprego ou o desemprego”, como se não houvesse outras soluções.
  3. Encontrar contradições em qualquer coisa que ele tenha dito. Por exemplo, se ele defende o suicídio, “exclamar de imediato «porque não te enforcas tu?»”.
  4. Se o nosso interlocutor estiver a derrotar-nos, não devemos deixá-lo levar a sua argumentação até ao fim: “Devemos interrompê-lo, divagaremos, desviaremos o curso da discussão, levantando outras questões”.
  5. Dar-lhe a volta ao argumento. Por exemplo, se o adversário diz: “E uma criança, há que ter paciência”, deve-se responder:” Precisamente por ser uma criança é que se deve corrigi-la”.
  6. Recomenda que “em vez de razões, devem-se empregar autoridades”, pelo que se devem reproduzir incorretamente citações, falsificar e mesmo inventar. Isto porque “são muito poucos os que podem pensar, mas todos querem ter opiniões”.
  7. Utilizar sofismas, como por exemplo dizer-lhe: “Isso pode estar certo na teoria, mas na prática é falso”. Na realidade, diz Schopenhauer, “o que está certo na teoria também está certo na prática: se não estiver certo, então há uma falha na teoria”.
  8. Lançar suspeição sobre uma afirmação do adversário, “mesmo que o que se vier a dizer só se assemelhe vagamente, ou pouco tenha a ver com ela”. Exemplo: “isso é comunismo” ou “isso é fascismo”.
  9. Se o adversário não responder a uma pergunta ou a um argumento, deve-se insistir. Significa que “tocámos num ponto fraco”.
  10. Aturdir, desconcertar o adversário mediante palavreado sem sentido”. O disparate deve soar como “erudito ou profundo”.
  11. Se tudo falhar e se “percebe que o adversário é superior”, devemos passar ao insulto: “Pessoalize, seja ofensivo, grosseiro”.

 

 

 

Em abono de Schopenhauer, devo dizer que este seu texto já se encontrava escrito algum tempo antes da sua morte, e ele nunca o enviou para publicação.

 

Talvez essa sua hesitação se perceba melhor ao lermos o “estratagema final”, no qual vai concordar com a recomendação de Aristóteles sobre com quem se deve discutir:

 

“[…] não discutir com o primeiro que o queira fazer, mas apenas com os que conhecemos e que saibamos que possuem a inteligência suficiente para não se comportarem absurdamente […] que discutem com razões e não com demonstrações de força […] que sejam capazes de valorizar a verdade, de escutar de bom grado os argumentos […] e que possuam a equanimidade como para admitir que não têm razão quando a outra parte a tem. Disto se deduz, que de entre cem apenas há uma com quem mereça a pena discutir. Aos demais, deixa-se que digam o que quiserem, pois, todo o mundo tem direito à sua opinião”

 

E termina dizendo:

 

 “Pense-se no provérbio árabe: «Os frutos da paz pendem da árvore do silêncio»”.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Consultar:

  1. Aristóteles, Tópicos, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2007

(https://www.netmundi.org/home/wp-content/uploads/2017/09/Arist%C3%B3teles-Obras-Completas-Vol.-I-V-T%C3%B3picos.pdf).

 

  1. Schopenhauer, Arthur, Dialética Eristica o El Arte de Tener Razone Expuesta en 38 estratagemas (http://www.conoze.com/doc.php?doc=3904). Em português, pode-se encontrar com o título, A Arte de ter Razão – 38 Estratagemas para Vencer um Debate Sem Precisar Ter Razão, na Montecristo Editora.

 

 

 

 

 

 

 

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