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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(230) Os novos “filósofos” da Felicidade

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

“Direito à Vida, à Liberdade e à procura da Felicidade”, Declaração da Independência dos Estados Unidos, 4 de julho de 1776.

 

Se o homem depender de elementos externos para ser feliz, então a felicidade não será alcançável.

 

A felicidade é uma mera construção sem base neurológica e, felizmente para nós, não pode ser encontrada no tecido cerebral.

 

As religiões foram-nos convencendo que existe uma razão moral por detrás da infelicidade que experimentamos.

 

Exista hoje uma indústria de dezenas de biliões de dólares/ano, baseada na promoção da fantasia da felicidade como objetivo realista.

 

 

 

 

Redutoramente, e tudo nos convida a isso, podemos sempre ver a humanidade como um grande campo de escravatura governado por alguns oligarcas ou por um qualquer tirano, servidos por sistemas de pensamento que nada mais fazem do que justificar essa ordem de coisas, ou alargadamente, e por enquanto tudo nos convida a isso, podemos sempre ver a humanidade como estando num muito lento e difícil caminho  que tem vindo a conduzir no sentido da sua libertação de todas as formas de escravidão, mesmo das mais insidiosas delas que são as que se impõem sem recurso a manifestações abertas de violência física.

 

Mais, curiosamente ou não, toda esta longuíssima luta que tem permitido ao ser humano a perceção e eventual assunção da sua grandeza ontológica, levando a humanidade a transcender os limites culturais e civilizacionais do espaço geográfico em que se desenvolveu a ponto de se poder considerar o ser humano como sendo apenas de um só tipo, semelhante, na sua mesma diferença própria, em todas as partes e em todos os tempos, tem origem no pensamento antigo vindo de humanos suficientemente possidentes para não necessitarem de trabalhar (filósofos pré, pós, “grandes” e “pequenos” socráticos).

 

Atentemos, por exemplo, no conceito de felicidade. A primeira grande definição de felicidade é dada por Aristóteles (Retórica I 5):

 

 “Seja, pois, a felicidade o viver bem combinado com a virtude, ou a autossuficiência na vida, ou a vida mais agradável com a segurança, ou a pujança de bens materiais e dos corpos juntamente com a faculdade de os conservar e usar; pois praticamente todos concordam que a felicidade é uma ou várias destas coisas.

Ora se tal é a natureza da felicidade, é necessário que as suas partes sejam a nobreza, muitos amigos, bons amigos, a riqueza, bons filhos, muitos filhos, uma boa velhice; também as virtudes do corpo como a saúde, a beleza, o vigor, a estatura, a força para a luta; a reputação, a honra, a boa sorte e a virtude. […] Com efeito, uma pessoa inteiramente autossuficiente se possuísse os bens internos e externos, pois fora destes não há outros. Os bens internos são os da alma e os do corpo; os externos são a nobreza, os amigos, o dinheiro e a honra. Cremos, contudo, que a estes se devem acrescentar certas capacidades e boa sorte, pois assim a vida será muito mais segura.”

 

 

Mais tarde na Ética a Nicómaco, Aristóteles vai completar este seu pensamento ao afirmar que apenas teremos a certeza de que alguém foi feliz no momento em que morrer, porque até lá pode sempre ser vítima de uma qualquer calamidade que o impeça de ser feliz.

Ou seja, apesar de toda a virtude interior necessária, a felicidade acaba por depender do acaso, da sorte.

 

Com o correr do tempo (deterioração das condições económicas, imprevisibilidade da conservação da riqueza e até da vida, instabilidade política e outros), esta dependência da felicidade relativamente a algo que é exterior ao sujeito começa a ser questionada.

Eis o que nos diz Séneca (Da vida feliz, §4):

 

“[…] o homem feliz […] pratica aquilo que é honesto e contenta-se com a virtude; os acidentes  da sorte não podem nem exaltá-lo nem quebrá-lo, não conhece bem maior do que aquele que se pode dar a si próprio; o seu verdadeiro prazer está no desprezo dos prazeres.

 

Ou seja, se o homem dependesse de elementos externos para ser feliz, então a felicidade não seria alcançável.

 

Este tema da felicidade começa a tornar-se importante para as várias escolas de pensamento, quase todas elas coincidindo no sentido que ser feliz, ser completo, é ser sábio, entendendo-se por sábio todo aquele que contempla a verdade das coisas e, de mente tranquila, age de acordo com essa mesma verdade.

 

Mas a partir daqui surgem divergências e convergências que ainda hoje se mantêm.

 

 Por exemplo, para os Céticos, não pode haver conhecimento seguro acerca de coisa alguma, pelo que para sermos felizes, devemos desistir de procurar a verdade. Contudo, não afirmam que a verdade não existe. Aliás, nem afirmam nem negam; o que negam é a capacidade humana de poder conseguir comprovar alcançar a verdade.

Por isso, o verdadeiro sábio deve abster-se de emitir juízos (suspender o juízo) e libertar-se de todas as opiniões sem fundamento. Devemos viver sem falar acerca do que não sabemos nem podemos saber, o que se chama viver em afasia, ausência de discurso. Viver indiferentes àquilo que possa ser verdadeiro ou falso, bom ou mau.

Duas pequenas curiosidades: hoje diz-se que uma pessoa é cética quando não acredita com facilidade naquilo que lhe dizem (o oposto de crédulo), quando duvidam. Recordemos, no entanto, que a dúvida metódica de Descartes foi uma etapa para chegar à verdade evidente, ou seja, a dúvida aparece como ponto de partida. Já no ceticismo da Antiguidade, a dúvida é o ponto de chegada.

Segunda curiosidade: o facto de os céticos serem conhecidos por “académicos”, não pelas suas qualificações ou frequências de instituições de ensino, mas apenas por eles se terem apoderado do ensino na Academia platónica.

 

 

 Para os Neoplatónicos, a vida humana só fará sentido se nos esforçarmos para regressar à nossa própria origem, origem de tudo quanto é. E esse retorno só se se consuma a quando da união mística com o Uno. Até lá, não passamos de pedaços soltos e diluídos de um Uno original de que emanamos, que temos como finalidade a fusão de regresso ao Uno. Só aí e então, alcançaremos a felicidade. Como tudo aspira a retornar ao Uno, esta é uma filosofia dominada pela nostalgia e pela saudade.

 

 

Para os Epicuristas, a felicidade do homem está na procura do prazer, sendo o prazer a ausência de dor na vida consciente do homem. Para o conseguir, advogam o viver tranquilo, uma vida pacata e frugal, entre amigos, longe da cidade e do seu reboliço, sem quaisquer excessos.

O seu ideal de vida é de ataraxia, ou seja, de imperturbabilidade. Para alcançar este estádio de indiferença face a tudo o que nos pode perturbar, o sábio epicurista deve procurar abster-se do prazer e da dor, reduzindo ao mínimo tudo o que lhe possa dar prazer.  É de Epicuro a frase “o meu corpo treme-me de prazer quando vivo de pão e água”.

 

O conhecimento que temos de Epicuro vem de uma sua obra, De rerum natura, (Sobre a Natureza das Coisas), transcrita cerca de 250 anos depois pelo filósofo romano Lucrécio. Desaparecido no entretanto, o poema volta a aparecer no século XV.

Segundo os princípios aí expressos, o espaço e o tempo são infinitos, tudo é feito de partículas invisíveis, a natureza é uma experiência sem fim, a sociedade humana começou com uma luta pela sobrevivência, não há vida após a morte, as religiões são desilusões cruéis, e o universo não tem qualquer finalidade. Como se deve então viver? Racionalmente, sem quaisquer ilusões. As ideias falsas só nos trazem infelicidade. Se minimizarmos a dor que elas nos causam, maximizamos o nosso prazer.

 

 

Para os Estoicos, e seus representantes mais modernos, Cícero, Séneca, Epiteto e Marco Aurélio, a vida boa assenta numa filosofia de superior resignação e aceitação, em nome de uma integração livre na universal sinfonia das causas, através da sábia utilização do juízo moral cooperante com a ordem universal, o Cosmos.

O seu ideal de vida é a apatia, que para eles significa indiferença ao prazer e à dor, ausência de paixão. A felicidade provém do cumprimento do dever e não do gozo de qualquer natureza. É pela prática da virtude que se alcança essa felicidade.

Eis o que nos diz Séneca nas Cartas a Lucílio, carta 81, n.17:

 

“Tal como um bravo soldado, o sábio suportará as suas feridas e contará as suas cicatrizes; […] Recebamos com grandeza de alma tudo o que nos acontece devido à constituição do universo: prestamos juramento de suportar o destino dos mortais e não nos perturbarmos com aquilo que não está nas nossas mãos evitar. […]”

 

 

Mais tarde, em 524, Severino Boécio, reunindo as influências do cristianismo, do platonismo, do aristotelismo e do estoicismo, e depois de mais uma vez nos afirmar que a verdadeira felicidade se encontra dentro e não fora de nós, e que o homem feliz é aquele a quem nada falta e que, portanto, nada deseja, vai deixar-nos n’ A Consolação da Filosofia, (prosa 8), um elenco pormenorizado de tudo aquilo em que a felicidade não consiste:

 

“Tencionas esforçar-te por amealhar riquezas? Terás de as subtrair a quem a tem. Queres brilhar com honrarias? Suplicarás a quem tem o poder de as outorgar e tu, que desejas ultrapassar os outros homens, tornar-te-ás vil ao rebaixares-te a uma situação de pedinte. Desejas o poder? Sujeitar-te-ás a expor-te aos perigos próprios dos que estão sujeitos às intrigas. Procuras eventualmente a glória? Renuncias a estar tranquilo, arrastando-te por tribulações de todo o tipo. Levas uma vida de prazeres? Mas quem não há-de desprezar o escravo da mais vil e frágil das coisas, o corpo? Ora os que têm em grande conta os bens do corpo em que pobres e frágeis propriedades se apoiam! Porventura sereis capazes de superar os elefantes em mole, os touros em força, porventura ultrapassareis os tigres em agilidade?”

 

Ou seja, tudo o que fruímos é mutável, transitório e passageiro. Este é um pensamento, sentimento, que não é só de um tempo e de uma civilização.

 Ouçamos o que Abderramão III, Emir de Córdova entre 912 e 929, Califa de Córdova de 929 a 961, considerado o príncipe mais poderoso da dinastia Omíada que governou a península ibérica no século X, escreve como conclusão da sua vida:

 

“Durante mais de cinquenta anos reinei com vitórias e paz; amado pelos meus súbditos, temido pelos meus inimigos, e respeitado pelos meus aliados. Tive à minha disposição riquezas, honras e prazeres, e bênçãos que poderiam ter contribuído para a minha felicidade. E, contudo, se contar diligentemente os dias que me proporcionaram uma pura e genuína felicidade, eles não chegarão a catorze. Homens! Não depositeis a vossa confiança neste mundo presente!”

 

 

 

 

Como qualquer outra criatura do mundo natural, o homem tem como função primeira assegurar a sua sobrevivência e reprodução. Até um simples estado de contentamento, ao baixar a sua guarda contra possíveis ameaças, poderia pôr em risco a sua sobrevivência.

Talvez por isso, não se consiga encontrar no cérebro uma área especificamente relacionada com a felicidade. Dito de outra forma, a felicidade é uma mera construção sem base neurológica e, felizmente para nós, não pode ser encontrada no tecido cerebral.

 

Mas isso não impediu que a procura da felicidade viesse até ser encarada como um dos direitos fundamentais da humanidade.

Segundo a Declaração da Independência dos Estados Unidos de 4 de julho de 1776, os três direitos fundamentais dados a todos nós pelo Criador, e que devem de ser protegidos pelos governos, são:

 

“Direito à Vida, à Liberdade e à procura da Felicidade”.

 

 

Sabemos que as religiões, ou as suas Igrejas, nos foram convencendo que existe uma razão moral por detrás da infelicidade que experimentamos: o nosso egoísmo, a nossa pequenez moral, o nosso materialismo, só tratável através de um equilíbrio psicológico virtuoso a ser conseguido pela renúncia e afastamento do desejo.

A grande importância deste conceito moral é a de nos convencer que existe um remédio para a nossa incapacidade de viver a vida consistentemente e que, através de um caminho de correção moral, poderemos corrigir a falha da nossa natureza.

 

Não é, pois, de admirar que exista hoje uma indústria de dezenas de biliões de dólares/ano, baseada na promoção da fantasia da felicidade como objetivo realista, quer seja através de produtos químicos [um sexto dos americanos tomam antidepressivos (https://jamanetwork.com/journals/jamainternalmedicine/fullarticle/2592697)] quer através de aconselhamentos de pensamentos positivos e outros.

 

Ultimamente têm começado a envidar “esforços” para a criação de uma pílula para combater a solidão que, juntamente com os novos domésticos operados por Inteligência Artificial, muito ajudarão os cada vez mais abundantes solitários da 2ª e 3ª idade (https://nationalpost.com/health/all-the-lonely-people).

 

Com o tempo, muito provavelmente, estas pílulas estender-se-ão à quase totalidade da população, o que acabará por fazer da solidão um luxo para alguns, que só virá a ser possível de obter com o recurso a uma outra pílula muito mais cara a comercializar proximamente.

 

 

 

 

 

 

 

 

(229) O erro do sistema somos nós

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Na melhor das intenções os pais esforçaram-se por darem aos filhos o que lhes diziam serem as ferramentas indicadas para aumentar a destreza manual e a imaginação dos futuros condutores da humanidade.

 

Ao “construirmos” todos estes objetos acabamos por ficar com a ideia falsa de autossuficiência, que nos torna cada vez mais dependentes.

 

O passo seguinte é a autoformação, a educação sem professores. E convencem-se de que assim se libertam da hierarquia e da autoridade.

 

Tudo isto se inscreve numa realidade mais vasta que vem sendo construída: a neutralização do fator humano.

 

 

 

 

 

Os carrinhos de linha, depois de usados na costura, eram normalmente deitados fora, mas reaproveitados por miúdos para, com uma tira de borracha cortada de uma camara de ar velha, um pau de fósforo, um pedaço de vela e entalhes nas bordas, conseguirem fazer um pequeno veículo a que se dava corda (pela torsão da tira de borracha que se introduzia dentro do cilindro oco da madeira do carrinho de linhas), e era vê-los andar subindo e descendo o terreno à sua frente.

 Ainda hoje nos maravilhamos com os carrinhos de arame e rodas feitas de caixas de graxa ou de latas de leite condensado, contruídos pelos miúdos dos países mais pobres. Já nós, de uma civilização mais rica, adotámos as construções metálicas dos Meccano, e posteriormente as plásticas dos Legos.

 

Na melhor das intenções os pais esforçaram-se por darem aos filhos o que lhes diziam serem as ferramentas indicadas para aumentar a destreza manual e a imaginação dos futuros condutores da humanidade, e os filhos, acreditando nos pais, esforçavam-se naquela competição imaginando-se já engenheiros de obra feita.

E assim hoje, para os filhos de agora, o que mais se oferece são jogos que consistem em construir o próprio jogo, um jogo que leve as peças e os materiais para montar algo, e para os agora pais, da imaginação e da aprendizagem para engenheiros, ficou-lhes o jeito para construírem os kits do IKEA.

 

Aquilo que seria a relação direta com os materiais, aquilo que se poderia fazer com o que temos em casa, ou a relação direta com a ideia, o que necessito para a realizar, desaparece.

Hoje, quase todos nós montamos os nossos móveis, quase todos convencidos que sabemos fazer um móvel. Provavelmente nem sabemos ir a uma carpintaria, nem o local onde fica, e, se soubermos do local onde fica, não sabemos escolher a madeira, a quantidade, cortá-la, fazer os encaixes, e nem passar a desenho a ideia que tivemos, se é que a tivemos.

 

O kit, aparece-nos como uma mediação entre quem o pensou, desenhou e comercializou, impondo-se e canalizando o conhecimento e a imaginação. Por isto, ao “construirmos” todos estes objetos acabamos por ficar com a ideia falsa de autossuficiência, que nos torna cada vez mais dependentes.

 

Não é para admirar que toda a aprendizagem, da escola à universidade, venha hoje em kits, dossiers ou apps (aplicações), indicações de leituras escolhidas, a ordem de leitura, as fotocópias necessárias, as atividades a ter e em que tempo, instruções para o comportamento dentro e fora da aula, objetivos e formulários de autoavaliação, tudo isto em impecáveis dossiers e apps.

O passo seguinte desta quase autoformação, é a autoformação, a educação sem professores. E convencem-se de que assim se libertam da hierarquia e da autoridade. O dossier, a app, como expressão da liberdade, do progresso e da democracia.

 

Tudo isto se inscreve numa realidade mais vasta que vem sendo construída: a neutralização do fator humano. E as tentativas fazem-se com aquilo que nos aparecem como lógicas contrárias, mas que na realidade são complementares. É o caso da despersonalização e da personalização.

A “despersonalização”, como lógica que alimenta a burocracia e os seus funcionários, a tecnocracia e os seus especialistas, as ideologias e os seus arautos, as grandes corporações e os seus executivos, o trabalho em massa e os seus peões, a sociedade de consumo e as suas modas.

A “personalização”, como lógica que nos empurra para o culto da originalidade no mundo da arte, para a autoria individual no mundo do conhecimento, para a liderança política baseada no carisma, para a competitividade do empreendedor, para a valorização de cada um como afirmação do eu.

 

A despersonalização, reduz o humano a ser função de um sistema que o supera; a personalização, captura o humano reduzindo-o a uma forma de existência que privatiza a sua ação e os seus resultados. É bem evidente a tarefa a que ambos se propõem: a neutralização do fator humano.

 

É que o ser humano, devido ao facto de ser irredutível e único, devido à sua aprendizagem ter sido coletiva, devido à sua capacidade de decisão ser individual, devido à capacidade de se transformar e inventar, devido à capacidade de formar alianças imprevistas, é o apontado culpado do erro que provoca acidentes ou saltos lógicos e soluções inesperadas, tornando-se assim o erro do sistema. O culpado do costume.

Há que neutralizá-lo, única forma para o sistema funcionar sem sobressaltos.

(228) Raízes do ecofascismo, as boas intenções de que o Inferno está cheio

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

O que fazer quando um barco que leva 100 passageiros se afundar e houver apenas um bote salva-vidas? Cortar as mãos de todos os que tentarem agarrar-se ao salva-vidas depois de este estar cheio, Pentti Linkola.

 

A “raça nórdica” é o principal grupo social responsável por todo o desenvolvimento humano, pelo que é indispensável protege-la a todo o custo da contaminação dos outros grupos, Madison Grant.

 

Que Deus condene a Europa. Penso que é uma pena que a Inglaterra e a América não deixem a Alemanha conquistar a Europa. É a única coisa que a salvaria, Scott Fitzgerald em 1921.

 

Não é possível entender-se Donald Trump se o considerarmos apenas como um fenómeno passageiro, que pouco tenha a ver com a sociedade americana, na medida em que ele se inscreve numa tendência maioritária vitoriosa que vem liderando aquele país há mais de uma centena de anos.

 

 

 

 

O aparecimento e propagação de movimentos radicais xenófobos e racistas que antecederam e prepararam a sociedade para a eclosão dos fascismos/nazismos, e que após as suas “derrotas” continuam a proliferar insinuando-se na ordem do dia das sociedades atuais, é algo que tem as suas raízes séculos atrás. E que teve os seus ideólogos, os seus arautos e comunicadores, contaminando em certas alturas quase toda a sociedade na sua adesão voluntária.

Parece-me ser importante neste tempo em que vivemos chamar a atenção para a inter-relação entre esses movimentos que se julgavam serem passado com alguns movimentos ecologistas contemporâneos que vêm servindo de incubadoras para esses fascismos encapotados.

 

O blog de 21 de junho de 2017, apresentava um panorama geral sobre as várias ecologias presentes no nosso tempo (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/116-ecologias-restantes-31254).

Eis o que lá constava sobre ecofascismo:

 

“É sabido que os Nazis consideravam que o Estado devia proteger todos os portadores de sangue puro como única forma de manter o poder criativo da Natureza, daí a sua frase “Sangue (puro) e Terra (pura) (Blut und Boden).

 A pureza de sangue era crucial para a missão sagrada da Alemanha: salvar as raças nobres da Europa Norte das outras raças degeneradas, como era o caso dos Judeus.

 

O fascismo surge assim como um Darwinismo social, em que as sociedades mais dinâmicas podem e devem ganhar a luta inevitável pela sobrevivência face às outras sociedades mais fracas.

 

Uma vez que as raças se encontravam ligadas às terras de onde eram originárias, as terras da Alemanha tinham de ser protegidas da poluição industrial e da presença injuriante de raças menores.

Só os Alemães de sangue puro é que poderiam retirar a energia da terra que originariamente conduzira ao “Volk”, e isto porque a Divindade era imanente à Natureza.

Preconizavam, portanto, esta sua “religião da natureza”, considerando-a como superior ao Cristianismo, religião que além de não ser deste mundo, era ainda produto “desnaturado “dos judeus.

 

Quer o capitalismo, quer o comunismo, pelas suas práticas industriais destroem a terra, e ainda por cima enchem-na de populações com sangue poluído que desprezam a Natureza, e de semi-humanos como os Judeus. Era, pois, imperativo libertar os povos do norte da Europa das democracias, socialismos e capitalismos.

 

Por isso, um Estado ecofascista, de acordo com os princípios Darwinistas, acabará por ser aquele que irá prevalecer na luta pela sobrevivência, pois tal Estado é o mais respeitador do ambiente, sendo por isso glorificado como a teia da vida.

 

É Michael Zimmerman (“Ecofascism: A Threat to American Environmentalism?”), quem nos vem alertar para os perigos possíveis em que podem incorrer todos aqueles movimentos ecologistas que adoram a Natureza, bem como para os que criticam radicalmente toda a modernidade, a fim de não caírem em ecofascismos.

Diz Zimmerman que é fundamental não esquecer, por exemplo, que as estranhas analogias entre a terra como dimensão natural e o “sangue primitivo”, serviram para justificar atrocidades recorrendo ao argumento de tal ser uma lei da Natureza; que o argumento de que quem pertence à Natureza somos nós, os seres naturais, serviu para perseguir os homossexuais; que o argumento de que quem tiver “hábitos” que sejam considerados “contra a Natureza” só cá estão a poluir, conduz à diferenciação valorativa entre raças e entre pessoas da mesma raça, e à instituição do controlo populacional em nome da pureza da raça.

 

Zimmerman não considera o ecofascismo como uma ecologia, mas antes como uma tendência perigosa, que apesar de já revelada no movimento totalitário, pode insinuar-se na atualidade quando, por exemplo, se pretender proibir a imigração de Africanos e Asiáticos a fim de não poluírem a terra e o sangue, ou quando se pretenderem impor leis draconianas às pessoas para as levar a comportarem-se de forma a assegurarem o bem-estar ou a pureza da Natureza.”

 

 

 

Não é possível entender-se Donald Trump se o considerarmos apenas como um fenómeno passageiro, que pouco tenha a ver com a sociedade americana, na medida em que ele se inscreve numa tendência maioritária vitoriosa que vem liderando aquele país há mais de uma centena de anos.

 

Por exemplo: Nos finais do século XIX e princípios do século XX, apareceu nos EUA um movimento (Progressive Era) de intelectuais e ativistas que se propunham acabar com os problemas causados pela industrialização, urbanização, imigração e pela corrupção política (https://en.wikipedia.org/wiki/Progressive_Era).

Entre os seus intelectuais mais notáveis encontrava-se Madison Grant (1865 – 1937), advogado, zoólogo, eugenista e conservacionista. Como eugenista, escreveu as que foram consideradas as obras mais importantes sobre o chamado ‘racismo científico’, tendo ainda sido fundamental a sua contribuição para a elaboração das leis anti miscigenação e da restrição à imigração, aprovadas nos EUA. Como conservacionista, lançou os fundamentos para a disciplina da conservação das espécies, salvando variadíssimas espécies de animais.

 

Em 1916, preocupado com a alteração da proporção de “raças” que se estava a verificar nos EUA devido ao aumento de imigrantes vindos dos países do sul e leste da Europa ultrapassando muito os que vinham do ocidente e do norte da Europa, escreve aquilo que vem a ser considerado como a Bíblia do racismo, The Passing of The Great Race or The Racial Basis of European History.

Para Grant, o motor de toda a civilização era a raça, e considerava a “raça nórdica”, os “nórdicos” (Nordic race, o Homo europaeus), originariamente sediados na Escandinávia, como o principal grupo social responsável por todo o desenvolvimento humano, pelo que era indispensável protege-lo a todo o custo da contaminação dos outros grupos. Sigamo-lo:

 

“Um rígido sistema de seleção através da eliminação daqueles que são fracos ou incapazes -noutras palavras, falhados socialmente – deverá resolver este problema em cem anos, e que ao mesmo tempo nos permitirá ficarmos livres dos indesejáveis que enchem as nossas prisões, hospitais, e asilos de loucos […] o estado, através da esterilização, deve assegurar que essas linhagens parem, caso contrário as futuras gerações serão amaldiçoadas por um sempre maior sentimentalismo mal intencionado. […] Esta é a solução prática, misericordiosa, inevitável, e pode ser aplicada […] começando pelos criminosos, os doentes, e os loucos, estendendo-se gradualmente a outros tipos que poderemos chamar de elos fracos em vez de defeituosos, e talvez por fim se possa estender a outras raças.”( The Passing of the Great Race, 1916, p. 139).

 

Segundo Grant, os nórdicos eram caraterizados por serem brancos, “cabelo castanho claro ou loiro, olhos azuis, cinzentos ou castanhos claros, pele clara, nariz estreito e direito, elevada estatura e cabeça comprida”.

E, embora reconhecendo os feitos das civilizações do Egipto, Grécia e Roma, diz que eles só foram possíveis devido aos ideais e à estrutura dos Nórdicos:

 

As tradições da Cidade Eterna, o seu amor pela organização, pela lei e a eficiência militar, bem como os ideais de Roma da vida em família, da lealdade, e da verdade, são claros indicadores de uma influência Nórdica “.

 

É importante lembrar que Grant fazia parte de uma das mais prestigiadas famílias da sociedade americana, sendo a mãe descendente  de Jessé de Forest, o valão huguenote que em 1623 recrutara os primeiros colonos que se fixaram  em New Netherland, e sendo o pai descendente de Richard Treat, um dos primeiros Puritanos que em 1630 se fixaram em New England, e familiar de Robert Treat Paine, signatário da Declaração da Independência. De si, Grant era amigo íntimo de Theodore Roosevelt e de Herbert Hoover.

Foi mais popularmente conhecido por estar na origem da fundação do jardim zoológico de Bronx, por organizar a American Bison Society para salvar os bisontes, e por utilizar toda a sua influência para que se organizasse a exibição no Bronx Zoo, em que Ota Benga, um congolês da tribo dos Mbuti, era mostrado ao lado de macacos.

 

Quando os nazis chegam ao poder na Alemanha, o The Passing of the Great Race de Grant, é o primeiro livro a ser reimpresso, chegando Hitler a escrever-lhe a fim de lhe manifestar a sua opinião/admiração: “Este livro é a minha Bíblia”.

Durante os Julgamentos de Nuremberga, o livro foi introduzido como               evidência a favor da defesa, para justificar as políticas de “controle populacional” seguidas pelo Terceiro Reich e para demonstrar que elas não eram ideologicamente exclusivas da Alemanha nazi.

Muito mais recentemente, o livro continua a ser citado na argumentação do assassino norueguês Anders Breivik, 2083: A European Declaration of Independence, para criticar a miscigenação e encorajar a preservação da “raça” nórdica.

 

Mas tais ideias não se verificavam só na chamada alta sociedade dirigente americana. No plano cultural, alguns dos seus maiores representantes, apoiavam-nas e difundiam-nas, como era o caso de F. Scott Fitzgerald, o que se pode verificar logo no capítulo 1 do seu popularíssimo romance Great Gatsby(https://ebooks.adelaide.edu.au/f/fitzgerald/f_scott/gatsby/chapter1.html),

 e em especial numa carta escrita em 1921 a Edmund Wilson, onde Fitzgerald deixa estas suas “impressões” sobre a Europa:

 

Que Deus condene a Europa. O seu interesse é meramente para antiquariato. Roma dista apenas poucos anos de Tires e da Babilónia. O negroide crepita em direção ao norte para desfigurar a raça nórdica. Os italianos já têm a alma de mouros escuros. Elevem os requisitos para a imigração, por forma a só permitir a entrada a Escandinavos, Teutões, Anglo-Saxões e Celtas. A França enoja-me. Julga que pela sua pose a devemos salvar. Penso que é uma pena que a Inglaterra e a América não deixem a Alemanha conquistar a Europa. É a única coisa que a salvaria.”

 

Estes temas da ligação entre alguns movimentos conservacionistas e as teorias eugenistas/nazis, vão-se tornando cada vez mais explícitos e claros em alguns autores.

 É o caso de Dave Foreman (1947 -) fundador do movimento “Earth First”, ao defender que a sobrepopulação está na origem da perca da biodiversidade, pelo que a solução será a eliminação de humanos, quer seja através da fome, quer por epidemias que apareçam.

A 30 de dezembro de 2016 publica “Whither Earth First?!”, onde diz que:

 

 “O nosso movimento chama-se “Primeiro a Terra!” e não “Primeiro as Pessoas!”. […] Abraçamos entusiasticamente a filosofia da Ecologia Profunda ou Biocentrismo. […] Reconhecemos que há demasiados seres humanos na Terra […] Uma vida humana individual não tem mais valor intrínseco que a vida de um urso pardo (aliás, pode-se até argumentar que havendo menos ursos pardos, a sua vida é mais valiosa).” (https://www.wildwill.net/blog/2016/12/30/whither-earth-first/).

 

Mas é o finlandês Pentti Linkola (1932 -) que apresenta o racional mais claro ao propor o rápido e radical declínio da população como forma de combater a degradação do ambiente. Diz ele, num artigo escrito em 1992, “The Doctrine of Survival and Doctor Ethics”:

 

O que fazer quando um barco que leva 100 passageiros se afunda e houver apenas um bote salva-vidas? Quando o salva-vidas estiver cheio, aqueles que detestam a vida vão tentar enchê-lo ainda com mais pessoas, acabando todos por se afundarem. Aqueles que amarem e respeitarem a vida, irão buscar o machado de emergência e cortarão as mãos de todos os outros que tentarem agarra-se ao salva-vidas depois de este estar cheio.

 

 

É fundamental não esquecer que em todas estas posições conservacionistas, ecofascistas, xenófobas, acima referidas, e que pretensamente aparecem como defendendo a humanidade, o que elas pretendem defender é o status quo dos que detêm o poder, utilizando o disfarce de serem favoráveis ao homem branco, especialmente do Norte, para garantirem que todos os que serão marginalizados, colonizados, empobrecidos, sejam sempre os últimos a entrar para o salva-vidas.

 

 

Salva-vidas no mar ou muros nas fronteiras terrestres, são políticas que não são só de agora. Vêm já de longe. São incentivadas, espalhadas e aceites, conforme a conveniência do momento e sempre a favor de alguém, em nome da “humanidade” deles. Que tem sido a que interessa.

 

 

 

(227) Pré-viventes ou pré-sobreviventes?

Tempo estimado de leitura: 10 minutos.

 

 

 Um padrão geral de comportamento entre as sociedades humanas ameaçadas é o de, à medida que falham, irem adotando uma perspetiva cada vez mais estreita, em vez de se concentrarem mais vigorosamente na crise, H. Rolston.

 

Hitler matou milhões de seres humanos nos campos de concentração e extermínio, mas por outro lado acabou com o desemprego e a inflação, construiu autoestradas e os comboios passaram a andar ao horário.

 

Criamos um novo Deus interventivo através de um mecanismo artificial para a realização dos nossos sonhos.

 

Há grandes probabilidades de Xangai vir a ser aquela megalópole descrita no Blade Runner.

 

Há coisas que sabemos que sabemos, coisas que sabemos que não sabemos, há não-saberes não-sabidos e saberes não-sabidos, Slavoj Zizek.

 

 

 

O crescimento da população, o esgotamento dos recursos, as emissões de gás carbónico e a extinção massiva de espécies, está a levar a humanidade a um ponto de rutura geológico e biológico.

 Para enfrentar esta ameaça, a nossa ideologia coletiva tem optado por mecanismos de dissimulação ou de autoilusão, seja através de uma vontade de se manter na ignorância, seja pela redução biogenética dos seres humanos a máquinas manipuláveis, ou pelo controlo digital total sobre as nossas vidas e de outros mecanismos que se lhe seguirão.  

Como nota H. Rolston: “Um padrão geral de comportamento entre as sociedades humanas ameaçadas é o de, à medida que falham, irem adotando uma perspetiva cada vez mais estreita, em vez de se concentrarem mais vigorosamente na crise”.

 Vejamos alguns exemplos destes mecanismos de dissimulação e autoilusão.

 

O “equilibrismo”, o “politicamente correto”

 

O aquecimento global e suas consequências têm vindo a ser considerados como um ‘alarmismo apocalíptico alimentado por intelectuais e políticos de esquerda anticapitalistas´´. Mas eis que de repente, esses mesmíssimos políticos e gestores que até há bem pouco desvalorizavam os receios relativos ao aquecimento global, começam agora a tratá-lo como se tratasse de mais um simples acontecimento da vida.

Desde que descobriram que a fusão dos gelos irá permitir a utilização de mais terras de cultivo, e que novas rotas para o Pacífico poderão ficar abertas todo o ano, não cessam as exortações para passarmos a tratar o aquecimento global com uma atitude mais positiva.

 

Os documentários tidos como catastrofistas de Al Gore, são agora substituídos pelos arautos da imensidão ‘verdejante’ que aí vem, como é o caso do “The Greenning of Greenland” (“O verdejar da Terra Verde”) da CNN, que mostra os habitantes da Gronelândia a cultivarem legumes ao ar livre, jogando com o duplo sentido do ‘verde vegetal’ com o ‘verde de preocupação ecológica’.

 Convidam-nos agora a passarmos a ter uma posição mais ‘equilibrada’, fazendo-nos notar que, indubitavelmente, as transformações climáticas aumentarão as inundações, a pressão sobre espécies e culturas indígenas, a deterioração de infraestruturas devido à cedência do solo, e até possivelmente violências étnicas, desordens, disputas territoriais; mas, por outro lado, os recursos das novas regiões ‘destapadas’ ficarão mais acessíveis, novas rotas de navegação marítima serão abertas com a ‘consequente’ diminuição do consumo de combustível e redução de emissões de carbono.

 

O problema que acontece com este ‘equilibrismo’ é que se perde a ideia do que na realidade se está a passar, as destruições inesperadas que a catástrofe esconde. Um dos exemplos desta ‘postura equilibrada’:

 

 Hitler matou milhões de seres humanos nos campos de concentração e extermínio, mas por outro lado acabou com o desemprego e a inflação, construiu autoestradas e os comboios passaram a andar ao horário.

 

Devemos, contudo, manter uma atitude de abertura de espírito perante as novas possibilidades, tendo presente que a natureza é um mecanismo com muitas facetas e contingências, em que por vezes as catástrofes podem levar a resultados positivos imprevistos.

 

Do mesmo modo que não devemos pensar que o ambientalismo é “uma religião fundamentalista adotada por citadinos ateus que procuram ansiosamente colmatar um vazio espiritual que envenena o Ocidente”, também não devemos encarar os ecocéticos como se fossem adeptos de teses que negassem o holocausto.

Temos de estar atentos não só ao grau em que a ideologia tenta relativizar, obscurecer, menosprezar as preocupações ecológicas, como também ao grau de desconhecimento que temos das consequências da nossa ação sobre o meio natural.

 

O SixthSense

 

Outro mecanismo de autoilusão é o SixthSense, ‘interface gestual’ desenvolvido no Media Lab do MIT por Pranav Mistry.

 Constituído por uma pequena webcam que se pendura ao pescoço, um videoprojector de bolso, um espelho, e uma ligação sem fios a um smartphone, permite ao utilizador manipular objetos fazendo gestos, que a câmara reconhece, seguindo os movimentos.

 O software vai processar o fluxo dos dados visuais, lendo-os como uma série de instruções, procurando depois a informação adequada (textos, imagens) que vai depois projetar sobre qualquer superfície (paredes, objetos físicos).

 Por exemplo, se numa livraria pegarmos num livro, podemos ver projetados na capa do livro elementos como o número de recensões feitas e o número de vendas; se quisermos ver as horas, bastará traçar um círculo no pulso esquerdo e o projetor fará aparecer um relógio no braço; se pegarmos num bilhete de avião, poderão aparecer projetadas sobre ele informações relativas ao voo a realizar, saber se ele está ao horário, atrasado e qual será a porta de embarque (ver mais informações na Wikipedia e a apresentação no TED talk).

 

Mistry faz notar que o SixthSense altera radicalmente a utilização da Internet e dos computadores: se até aqui eles isolavam o utilizador do meio circundante, esquecido da realidade que o rodeia, com o SixtSense o utilizador mantém-se comprometido numa interação física com os objetos: a realidade física ou o mundo virtual do monitor é substituída por uma interpretação direta de uma e outro.

 A projeção direta de informação sobre os objetos reais com que interajo faz com que eles apareçam como se se revelassem continuamente, ou deles emanasse a sua interpretação.

 

O problema é que ele não representa a tal rutura radical com a nossa experiência quotidiana: embora preencha continuamente as falhas da nossa perceção, ele continua a imitar e a materializar o mecanismo ideológico de conhecimento e desconhecimento que determina as nossas perceções e interações quotidianas. Por exemplo, quando um ocidental vir na rua um árabe, a imagem que nos aparecerá projetada não incluirá o conjunto de preconceitos e expectativas que dele já tínhamos?

 

 

A singularidade

 

Há 11 anos, Ray Kurzweil, escreveu A Singularidade Está Perto, Quando os Humanos Transcendem a Biologia (The Singularity Is Near, When Humans Transcend Biolog), obra em que nos explicava que, devido aos rápidos e impactantes avanços tecnológicos, acabaremos por chegar a um ponto (singularidade) a partir do qual a vida humana se verá irreversivelmente transformada em todos os seus aspetos, numa total simbiose com o computador.

Será o nascer de uma nova civilização que nos irá permitir transcender as nossas limitações biológicas e ampliar a nossa criatividade. Nesse novo mundo, não haverá uma distinção clara entre o que é humano e o que é máquina, entre realidade real e realidade virtual. Poderemos assumir diferentes corpos e ser a personagem que escolhermos.

Em termos práticos, o envelhecimento e a doença serão revertidos; a poluição acabará; a fome e a pobreza mundiais serão resolvidas, e possivelmente, até a morte terá uma solução.

Não se fala de valores, não se fala de sofrimento, não se fala de alegrias, de desemprego, de guerras, de refugiados, de reformados. O ser humano é apresentado como um turista que se passeia para que se continue a passear e a admirar e a “viver” o maravilhoso mundo novo.

 

 

A bioengenharia

 

O bioquímico e geneticista americano, John Craig Venter (1946 -) com a sua ideia de produção controlada de ADN é o paladino do campo da biologia sintética, na qual a vida não é forjada pela evolução darwinista, mas criada pela inteligência humana.

Foi o primeiro a desenvolver o método de “sequenciação shotgun”, que permite analisar o genoma humano mais depressa e mais economicamente. Foi o primeiro a publicar o seu próprio genoma on-line, o que lhe permitiu concluir que corria riscos de Alzheimer, de diabetes e de uma doença ocular.

 Em janeiro de 2008 é o primeiro a construir o genoma completamente sintético de um organismo vivo, montado a partir de frações de ADN mais pequenas com o recurso ao genoma de uma bactéria conhecida, a Mycoplasma genitalium (escolhida apenas por ter um genoma de dimensões relativamente reduzidas).

 

O genoma criado em laboratório não teve até ao momento por resultado um micróbio vivo que funcione ou se reproduza. Mas o Dr. Vender disse que dentro de algum tempo ele próprio e os seus colegas acabarão por conseguir “fazê-lo andar” através da inserção de ADN sintético na cápsula de uma outra bactéria”.

 

Para Vender, a finalidade é criar novos tipos de micro-organismos que poderão servir para produzir combustíveis verdes, digerir desperdícios tóxicos ou que causam efeito de estufa, etc. O seu sonho é criar organismos que possam expelir biocombustível, produzir uma energia limpa sob a forma de hidrogénio, ou produzir géneros alimentares por medida.

Mas, Vender também sabe que este problema da engenharia genética pode conduzir a situações bastante sinistras como a construção de micro-organismos patogénicos ou a sintetização de vírus do tipo Ébola.

 

A não existência de qualquer controlo público e democrático sobre esta bioengenharia levará fatalmente a que alguns industriais/capitalistas acabem por fabricar e improvisar matéria viva (na melhor hipótese como no Blade Runner).

O principal problema é que, mesmo que possamos organizar uma sequência de ADN sintético, não poderemos predizer como virá a ser o seu funcionamento efetivo, nem quais serão as propriedades finais desse organismo.

Mais, hoje tratamos, por exemplo, a doença de Parkinson através de um implante cerebral do tamanho de uma ervilha. Dentro de uns anos será certamente possível reduzir infinitamente o tamanho da ervilha, pelo que a prótese se torna invisível deixando de ser experienciada como tal, passando a fazer parte da nossa experiência imediata de nós próprios.

 

Com o aumento do número de próteses deste tipo, como se estabelecerá a diferença entre cyborgs e seres humanos? Mais grave, estaremos assim a dar a hipótese, àqueles que controlarem tecnicamente as próteses, de controlarem o núcleo fundamental da nossa experiência de nós próprios.

Os cientistas do Instituto Genómico de Pequim (BGI) preveem usar a sua base de dados genómica para “resolver problemas relativos a doenças genéticas específicas dos chineses”, bem como para melhorarem as condições de diagnósticos, prognósticos e terapias.

 

Como simultaneamente se tem vindo a verificar uma corrida desenfreada de biliões de dólares de investimento a serem feitos por firmas americanas em laboratórios e clínicas chinesas, não é de estranhar o sentimento de estarmos a entrar naquela imagem distópica de um Estado controlando e conduzindo a massa biogenética dos seus cidadãos. Há grandes probabilidades de Xangai vir a ser aquela megalópole descrita no Blade Runner.

 

Estes desejos de saber sem limites conduzirão a situações estranhas: que farão os futuros pais quando forem informados de que o seu filho terá os genes da doença de Alzheimer? Aliás, até já existem termos para essas situações: são os “pré-viventes”, da mesma forma que alguém que ainda não tem cancro, mas possui uma predisposição genética de vir a tê-lo, é um “pré-sobrevivente”. Estaremos todos condenados a ser pré-humanos? Ou pós-humanos?

 

O filme de D. J. Caruso, Eagle Eye/ Olhos de Lince (2008), aborda uma outra possibilidade. Uma vez que as interligações entre computadores são em muitíssimo maior número que as ligações dos computadores com os humanos, é possível que daí possa surgir uma forma de auto-organização entre eles, capaz de impor a sua própria agenda, impedindo que os utilizadores humanos continuem a controlar e a dominar a rede digital.

 Assim, perante uma decisão errada do Presidente dos EUA que custou a vida a soldados americanos e a dezenas de civis da população árabe, a ARIIA (Autonomous Reconnaisance Intelligence Integration Analyst), um supercomputador que recolhe informações provenientes de todo o mundo e que pode controlar virtualmente tudo o que seja de natureza eletrónica, tendo em conta o erro cometido pelo Presidente, decidiu que o poder executivo se transformara numa ameaça para o bem público pelo que seria necessário eliminar o Presidente. Um novo Deus interventivo através de um mecanismo artificial para a realização dos nossos sonhos.

 

Há hoje investigações avançadas com base em intervenções genéticas e bioquímicas capazes de apagar seletivamente o passado traumático dos pacientes, permitindo por exemplo que uma vítima de tortura ou violação retome uma vida normal.

Mas, o que acontecerá quando esses métodos se expandirem de modo a permitirem um controlo mais completo sobre o passado? Será perfeitamente possível que os pais suficientemente ricos, preocupados com o futuro dos seus filhos, possam fazer através de um scanner um exame ao cérebro do seu recém-nascido com vista ao despiste de indícios mentais (QI baixo, tendências criminosas …).

 

Não podemos considerar como catastrófico para a humanidade qualquer tipo de intervenção cerebral, mas também não podemos embarcar no sonho utópico de uma intervenção cerebral que nos proteja da doença e nos remova os traços traumáticos do passado.

 Devemos também estar atentos para a estratégia seguida que é sempre a mesma: começa por se apresentar a intervenção como um novo método brilhante e inovador para o tratamento de uma doença incapacitante (para que ninguém se lhe possa opor), para de seguida a alargar a outros campos.

 

Os Transhumanistas

 

Desde 2008, quando se apresentaram macacos que com sensores implantados no cérebro conseguiam controlar um braço robô para alcançar peças de fruta, ficou demonstrado que a mente tem a capacidade para movimentar objetos, o que significa que será o próprio cérebro que funcionará como máquina de controlo remoto, estendendo assim as capacidades humanas.

 A World Transhumanist Association fundada em 1998 por Nick Bostrom e David Pearce, é “uma organização associativa internacional sem fins lucrativos que defende a utilização da ética da tecnologia em vista da extensão das capacidades humanas”.

 

Segundo ela, o desenvolvimento humano está longe de ter sido alcançado, e, portanto, todas as variedades das tecnologias que têm aparecido, inteligência artificial, farmacologia neurológica, cibernética, nanotecnologia, são portadoras de potencialidades de extensão das capacidades humanas. O problema é: devemos fazê-lo? Que restrições éticas se deverão observar?

 

Mas estes “transhumanistas” dizem-se bem-intencionados. Eles pretendem a acessibilidade para todos a todas as tecnologias potenciadoras, para que assim se possa fazer um autêntico aperfeiçoamento da condição humana.

 Mas, quem o decidirá e fará? Quem decidirá modificar crianças, selecionar embriões e com que equidade? Estarão o estado e as instituições privadas impedidas de o fazer?

 

A resposta dos “transhumanistas” é que será o sujeito autónomo que decidirá livremente sobre os atos que levem a alterar a sua ‘natureza’. Teoricamente, somos um mecanismo biológico cujas propriedades, incluindo as mentais, podem ser manipuladas com o consentimento próprio.

Mas, o que sucederá se o meu próprio poder de decisão estiver já ‘marcado’ pela manipulação genética e o indivíduo autónomo não estiver já presente?

 

A Tecno gnose

 

A “tecno gnose” do New Age, anunciada no livro O Símbolo Perdido de Dan Brown, implica a capacidade de, através de implantes neurológicos adequados, passar da nossa realidade ‘comum’ a uma realidade alternativa concebida no computador, sem necessidade daqueles óculos, luvas, etc. da realidade virtual, uma vez que os sinais alcançarão diretamente o cérebro, passando por cima dos órgãos sensoriais.

Os seres humanos poderão finalmente agirem diretamente sobre o mundo através do simples pensamento, reconciliando-se assim a magia e a ciência, a fé e o saber.

O pensamento gera imediatamente o objeto que percebe, colmatando a distância que separa a intuição da produção, capacidade até ao momento só reservada à mente infinita divina.

 

Ou seja, para o New Age a separação entre pensamento e realidade é o obstáculo a superar no caminho de uma nova humanidade. O problema que se põe é  Devemos também estar atentos para a estratégia seguida que é sempre a mesma: começa por se apresentar a intervenção como um novo método brilhante e inovador para o tratamento de uma doença incapacitante (para que ninguém se lhe possa opor), para de seguida a alargar a outros campos.

 

Para o New Age, a catástrofe ecológica não passa de “uma simples expressão material de um processo psíquico espiritual, forçando a nossa transição para um estado de consciência novo e mais intenso”.

 

A sua versão espiritualista da nova ordem social assenta numa “organização social não hierárquica baseada na confiança e na telepatia […] uma civilização […] que se fundará mais na cooperação do que no tipo de competição em que o vencedor fica com tudo, mais no suficiente do que no excessivo, mais na solidariedade comunitária do que no elitismo individual, reafirmando a natureza sagrada de toda a vida terrena”.

 

A ecologia espiritual

 

 Para se perceber o que é esta corrente chamada de “ecologia espiritual”, o melhor talvez seja utilizar o exemplo das abelhas que têm vindo a morrer, atingindo 80% das colmeias. A catástrofe que daí advém é por todos conhecida (elas são responsáveis por 80% da polinização da nossa provisão de alimentos).

Muitas têm sido as causas atribuídas: efeitos tóxicos dos pesticidas, a interferência dos nossos instrumentos de comunicação na perca do seu sentido de orientação, etc.

Esta multiplicidade de causas torna incerta a ligação entre causa e efeito, e sempre que isto acontece, há uma tentação para se procurarem explicações mais profundas e espirituais.

 

É assim que, segundo a “ecologia espiritual”, tal acontece, ou porque as abelhas, ao serem tratadas como colónias de escravos, campos de concentração, sentindo-se exploradas, se suicidavam como meio de fuga, ou ainda por estarmos perante uma condição em que a Terra Mãe, ao sentir-se abusada, resolve retaliar.

 

Contra estas tentações espiritualistas devemos ter presente, como diz Zizek, que ”há coisas que sabemos que sabemos (a vulnerabilidade das abelhas aos pesticidas), coisas que sabemos que não sabemos (o modo como as abelhas reagem às radiações causadas pelos homens), mas também, e acima de tudo, há não-saberes não-sabidos (o modo como as abelhas interagem com o seu meio, que não só ignoramos como não sabemos sequer que existem) e saberes não-sabidos (os preconceitos antropocêntricos que distorcem o estudo que delas fazemos).

 

 

A resposta a todas estas autoilusões e dissimulações que pretendem iludir a vida, pode ser dada se tivermos presente a grande lição básica do darwinismo: a da extrema contingência da natureza.

 

 

 

Nota:

          Este blog é uma reposição e atualização de um outro publicado a 14 de setembro de 2016, com o título “Mecanismos de dissimulação ou de autoilusão”, e com parte de um outro publicado a 9 de novembro de 2016, com o título “Gilgamesh, o turista-mor”.

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