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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(212) Como não démos por isso?

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

A ficção da produção de bens não entrou em consideração com o facto de se deixarmos o solo e as pessoas entregues ao mercado, tal levará à sua aniquilação, Karl Polanyi.

 

A divisão de trabalho molda a experiência cultural, psicológica e social.

 

Se a civilização industrial desabrochou às custas da natureza, o que agora ameaça custar-nos a Terra, uma civilização da informação moldada pelo capitalismo de vigilância florescerá à custa da natureza humana, o que ameaça custar-nos a humanidade, Shoshana Zuboff.

 

Ao longo de toda a história, as corporações mais poderosas da nação sempre se mobilizaram persistentemente na utilização da Constituição para combaterem a legislação governamental que lhes fosse indesejada, Adam Winkler.

 

 

 

 

 

 

Apesar dos muitos benefícios e dos imensos feitos do capitalismo industrial (da revolução industrial), ele deixou-nos perigosamente à beira do mesmo destino que os habitantes da Ilha de Páscoa tiveram quando destruíram o solo que lhes dera vida, acabando por erigirem as enormes estátuas que pesquisavam o horizonte em busca de socorro que não chegou.

 

A lógica de acumulação do capitalismo industrial desresponsabilizava as empresas pelas suas consequências destrutivas.  Sabe-se hoje que esses métodos de dominação empregues por mais de dois séculos, alteraram, talvez fatalmente, as condições de vida na Terra, originando a desestabilização do sistema do clima, e o caos que se abate sobre todos os seres vivos.

 

Sabe-se também (já desde o tempo de Durkheim) que essa nova lógica de acumulação, extravasa, para além das suas práticas comerciais, para o fabrico de relações sociais, transformando as relações que tínhamos para connosco mesmo e para com os outros.

Atentemos nas características que a nova divisão de trabalho do capitalismo industrial vai introduzir: conversão da manufatura em produção em massa com base na padronização, racionalização, e intermutação das partes; cadeia de montagem em movimento; produção em volume; grande quantidade de trabalhadores assalariados concentrados em fábricas; hierarquias administrativas personalizadas; autoridade de gestão; especialização funcional; e a distinção entre empregados administrativos e operários.

 

Para além disso, a passagem da manufatura para o salário à hora, criou uma nova população de empregados e consumidores, homens e mulheres totalmente dependentes dos meios de produção possuídos e operados por empresas privadas.

O esqueleto dessa sociedade de massa assentava na autoridade hierárquica, e nas formas burocráticas centralizadas dos poderes públicos ou privados, com a imposição de conformidade, obediência e padronização humana. 

A vida era regulada por instituições que eram o espelho das organizações industriais: escolas, hospitais, vida doméstica, em que as idades e fases eram percebidas como funções do sistema industrial, desde o ensino até à reforma.

Concluindo: esta nova divisão de trabalho vai moldar a experiência cultural, psicológica e social.

A análise de toda esta transformação, levou Karl Polanyi, (The Great Transformation: The Political and Economics Origns of Our Time), a escrever profeticamente, há quase setenta anos:

 

“A ficção da produção de bens não entrou em consideração com o facto de se deixarmos o solo e as pessoas entregues ao mercado, tal levará à aniquilação delas”.

 

 

Preocupada com a transformação que o capitalismo de vigilância possa vir a introduzir na nova civilização da informação em que vivemos, Soshana Zuboff, ressuscitando Polanyi, equaciona assim o problema: 

 

“Se a civilização industrial desabrochou às custas da natureza, o que agora ameaça custar-nos a Terra, uma civilização da informação moldada pelo capitalismo de vigilância florescerá à custa da natureza humana, ameaçando custar-nos a humanidade”.

 

Como tudo isto foi acontecendo, como se foi dando a passagem para esta nova economia de um capitalismo de vigilância, é algo que importa saber, para podermos limitar os seus efeitos nefastos, se o quisermos ou se ainda o pudermos.

 

Algumas notas, razões explicativas, que contribuíram para o seu rápido sucesso e implantação:

 

Impreparação da sociedade:

Como seria possível imaginar que aquelas novas empresas que nos forneciam gratuitamente as possibilidades de acesso à informação sem limites, a novas formas de comunicação, a novos telefones móveis que cada um poderia transportar consigo, a novas formas de entretenimento à disposição e escolha de cada um, com donos tão novos e geniais, eram empresas que sem nosso conhecimento e consentimento se estavam a apropriar e a vender tudo o que pudessem da nossa vida?

Até porque a desconfiança sobre a devassa das nossas vidas, a vigilância sobre elas, era suposto virem do poder do estado que, inclusivamente, era costumeiro em fazer incursões no campo da modificação comportamental.

Ou seja, não estávamos preparados, porquanto até aí não havia quaisquer precedentes desse tipo de atuação por parte de empresas privadas. Além do mais, empresas de quem gostávamos e com tanto charme.

 

Não existência de legislação impeditiva:

 A justificação dessas empresas para utilizarem a nossa privacidade dessa forma, apoderando-se dela, transformando-a em produto posterior de venda, é  a mesma que foi utilizada pelos capitães-navegadores dos séculos passados quando invadiam as novas terras: a “declaração” que lhes dava direito a ficarem com tudo, perante a incredulidade e espanto dos povos invadidos (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/210-o-direito-a-conquista-55274).

Ou seja, insistiam na não existência de leis que as impedissem de prosseguir com as suas estratégias e práticas de nos manter no desconhecimento.

 

Políticas neoliberais dominantes:

Foram favorecidas pela cobertura que encontraram nas políticas neoliberais dominantes que faziam equivaler a regulação dos negócios pelos governos, a tirania.

 

Vigilância como estado de exceção:

 Conjunturalmente, foram também favorecidas pela “guerra ao terrorismo” desencadeada pelo ataque de 9/11, em que o governo americano passou legislação excecional com vista a isentar a Google e outras empresas idênticas de restrições legais para que elas pudessem rapidamente desenvolver tecnologias de vigilância. Um “estado de exceção” que, inclusivamente, se estendeu à Europa, nomeadamente à Alemanha, Grã-Bretanha e França.

Estas “afinidades” entre governo e empresas deu origem a um exceciona lismo de vigilância que isentou esse novo mercado de escrutínio, alimentando o seu desenvolvimento.

 

Portas giratórias:

Claro está que essas empresas protegeram as suas operações, cultivando agressivamente as suas relações com os políticos recém-eleitos e nomeados, estabelecendo portas giratórias de cargos entre o governo e Silicon Valley, com grandes gastos nos grupos de pressão e com campanhas de insinuação e de influência cultural.

 

Gratuitidade de serviços:

Também os serviços gratuitos disponibilizados pela Google, Facebook, e outros, aparecem como necessários e irresistíveis de usar por parte por parte das pessoas à procura de informações para empregos e outros. A utilização destes meios de participação social muito contribuirão para a alteração comportamental em curso. Mesmo sabendo desse processo, a maior parte das pessoas não consegue afastar-se deles, ou mesmo se será possível fazê-lo.

 

Novos mercados apostados no comportamento futuro:

Estes novos mercados dão origem a muitos colaboradores, parceiros, e clientes cujas receitas dependem dessas previsões. Exemplos são as companhias de seguros que necessitam dessas previsões para uma maior garantia das suas receitas, ou o simples dono da pizaria com o mapa do Pokémon Go.

 

Ficar de fora é arriscado:

 Muitas pessoas julgam que se não estiverem no Facebook não existem. Pessoas de todo o mundo correram para participarem no Pokémon Go. Com tanta energia, sucesso, e capital acorrendo ao domínio destas empresas, ficar de fora, ou pôr-se contra, é um negócio arriscado e solitário.

 

Sucesso financeiro e popularidade:

 Os donos e gestores destas empresas de capitalismo de vigilância apresentam-se agressivamente a eles próprios como empreendedores heroicos. Muitas pessoas identificam-se e admiram o sucesso financeiro e popularidade e considera-os como seus modelos a seguir.

 

Participar do futuro:

 Muitos também olham para estas empresas e seus dirigentes como autoridades sobre o futuro, como génios que veem mais longe que nós. O que é uma falácia, na medida em que sugere que por as empresas terem sucesso, então é porque estão no caminho certo. O que leva muitos de nós desejar participar nessa cadeia de inovações que antecipam o futuro.

 

A inevitabilidade:

A utilização obrigatória e intensiva do computador como mediação submerge-nos no dilúvio da retórica da inevitabilidade (“não há alternativas”), distraindo-nos da intencionalidade e contingência deste capitalismo de vigilância em que vivemos. O aparecimento constante de factos institucionais serve para estabilizar as novas práticas. Cai-se na resignação e num sentimento de ser escusado lutar contra, de não valer a pena.

 

Fraqueza humana:

 Para além deste sentimento induzido de inevitabilidade, é também utilizado o argumento da ideologia da fraqueza humana. O ser humano como ser que falha, e incapaz de reconhecer as suas falhas. Daí ser necessária a sua modificação comportamental quer individual quer coletiva.

 

Divisão do conhecimento:

 Há ainda o argumento que diz que essas empresas, que dominam uma anormal divisão do conhecimento, sabem coisas que nós não sabemos, e que é por isso que escondem as suas intenções e práticas, mantendo-as secretas. É, portanto, impossível compreender seja o que for que tenha sido feito em segredo e de forma ininteligível.

 O sistema foi mesmo feito para nos por de lado, e ainda por cima assacando-nos a responsabilidade pelo nosso desconhecimento resultante da divisão do conhecimento por eles feita, da falta de tempo que lhe podemos dedicar, dos recursos e das ajudas disponíveis.

 

A velocidade:

 A utilização política e militar da velocidade como forma de violência já era conhecida. É exatamente isso que fazem estas empresas, que passaram da invenção à dominação no tempo recorde de vinte anos. A velocidade é usada conscientemente para paralisar o estado de alerta, congelando a resistência enquanto nos distrai com gratificações imediatas. A sua velocidade ultrapassa em muito as da democracia e mesmo as nossas capacidades para perceber o que está a acontecer e a sopesar as consequências.

 

 

 

Para além destas razões e motivos apontados e relativos a esta nova fase da economia e da sociedade em geral, convém não esquecer que esta economia de vigilância continua a assentar as suas bases programáticas na economia geral em que se inscreve.

Por exemplo, não a podemos acusar de ser pioneira da política de portas giratórias e promiscuidade entre os governos e as empresas privadas. Nem das políticas de baixos salários e da promoção de desigualdade salarial, nem da fuga aos impostos. Nem a podemos acusar de tentar apoderar-se do Estado ou de tentar ultrapassar ou menorizar o governo, porquanto isso tem sido sempre uma constante do sistema. Está nos genes das grandes empresas:

 

“Ao longo de toda a história americana, as corporações mais poderosas da nação sempre se mobilizaram persistentemente na utilização da Constituição para combaterem a legislação governamental que lhes fosse indesejada”, Adam Winkler.

 

 

 

 

 

 

(211) Economia de vigilância: como a fizeram?

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

Já ninguém se espanta que se compre sangue e se vendam órgãos, que se pague a outros para estarem grávidos por nós, para nos guardarem o lugar em filas de espera, para poderem matar animais em vias de extinção, etc.

 

“Nós somos os meios para os fins de outros”.

 

 “Organizar a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e útil”, missão da Google.

 

“O que queremos, é ter a certeza que o governo não se meta nos nossos negócios para os não atrasar”, CEO da Intel.

 

Pela própria lógica da sua criação, estas empresas são impelidas para a operação num espaço em que as leis não contem.

 

 

 

 

A Google foi criada em1998 por Larry Page e Sergey Brin, e propunha-se alterar a forma controlada como a informação existia, substituindo-a por uma informação libertadora e democrática, extensível a todos. A informação como força social libertadora. A sua missão: “Organizar a informação do mundo, tornando-a universalmente acessível e útil”.

 

Os seus serviços rapidamente se impuseram a todos os utilizadores devido à grande diversidade de domínios que punha gratuitamente à disposição das pesquisas online. Como consequência, a informatização desses serviços, ia produzindo um crescente manancial de recursos.

Cada pesquisa providenciava data para além da resultante à da própria pesquisa: por exemplo, o número e o padrão dos termos pesquisados, a pontuação, a ortografia, os padrões do “cliquar”, a localização e a forma como a pesquisa era pedida.

 

Embora todos estes sinais/produtos colaterais fossem armazenados, eram inicialmente ignorados. Foi Amit Patel que se apercebeu da potencialidade desta data armazenada, e que dizia respeito aos interesses, pensamentos e sentimentos de cada um dos utilizadores, permitindo que o motor de busca se “transformasse” num sistema de aprendizagem que atualizava e melhorava os resultados da busca, numa reciclagem automática para criar novos produtos.

Nesta fase, o motor de busca necessitava das pessoas para aprender, e as pessoas necessitavam da “busca” para aprenderem. O utilizador providenciava matéria prima na forma de data comportamental, e essa mesma data era tratada pala empresa para aumentar a velocidade, a certeza, a relevância e ainda para desenvolver outros produtos como a tradução. Ou seja, toda a data comportamental era reinvestida para melhorar o produto ou o serviço.

 

Na fase seguinte, a data comportamental já não era só usada para melhorar os serviços para os utilizadores, mas para se aperceber do estado dos utilizadores com a finalidade de os emparelhar com os seus interesses. Com o acesso a estes dados comportamentais, a Google passou a poder saber o que um determinado indivíduo, num determinado tempo e lugar, estava a pensar, a sentir, ou a fazer.

 

Numa terceira fase, com a utilização de novos métodos, técnicas e táticas, o interesse passa a ser focado, não já nos processos automáticos de conhecimento do nosso comportamento, mas nos processos de formatação do nosso comportamento de acordo com os seus interesses. Ou seja, fazer com que o produto que vendiam, a previsão sobre o nosso comportamento, tivesse mais garantia de corresponder à realidade. Fazer com que a automatização que fluía acerca de nós passasse a automatizar-nos a nós. Transformarem-nos em certezas.

 

 

Resumindo: a invenção da Google permitiu “melhorar” as capacidades para se inferir e deduzir os pensamentos, sentimentos, intenções, e interesses de indivíduos e grupos, com uma arquitetura automatizada que operava independentemente do conhecimento e do consentimento da pessoa, possibilitando assim acesso privilegiado a segredos contidos na data comportamental, e condicionando o comportamento futuro.

 

Que isto já não nos espante, não nos indigne, nem sequer mereça qualquer tipo de atenção, é a prova do estado de anestesia a que fomos submetidos por estes novos métodos (1). Aliás, já ninguém se espanta que se compre sangue e se vendam órgãos, que se pague a outros para estarem grávidos por nós, para guardarem o lugar em filas de espera, para matarem animais em perigo de extinção, etc.

 

 

 

Uma das características da Google é que, contrariamente à Apple, os seus utilizadores não são seus clientes: não há qualquer troca comercial, qualquer preço ou lucro envolvido.

Os seus utilizadores também não são seus trabalhadores. Quando um capitalista emprega trabalhadores e lhes paga um salário e lhes dá meios de produção, então o que eles produzem pertence ao capitalista, que o pode vender para obter lucro. Na Google, os utilizadores não são pagos pelo seu trabalho, nem operam meios de produção.

Também contrariamente ao que se diz, os utilizadores da Google não são o seu produto. Os utilizadores são apenas as fontes do fornecimento de matéria-prima. Os seus produtos, embora baseados nos nossos comportamentos, e indiferente ao que fazemos ou ao que nos é feito, são as previsões que fazem sobre nós.

 

Nós somos os “objetos” a partir dos quais são extraídas as matérias-primas que são depois expropriadas para as fábricas de predição. Os produtos da Google são as previsões sobre o nosso comportamento, que são vendidas para os clientes da Google, que não somos nós. “Nós somos os meios para os fins de outros”.

 

O reinvestimento em serviços para os utilizadores são apenas um método para fazer com que estejam mais tempo em linha, permitindo assim a recolha de mais informações, ou seja, para atrair mais excedentes comportamentais (matéria-prima) que irão gerar mais receitas.

Inicialmente todos estes excedentes comportamentais eram simplesmente “encontrados”, com origem nas ações de busca dos utilizadores. Posteriormente, passaram a ser agressivamente perseguidos, caçados, em grande medida através da vigilância constante.

 

Ao mesmo tempo, as empresas criaram um novo mercado no qual esses “seus produtos de previsão” obtidos a partir da matéria prima comportamental, podiam ser comprados e vendidos.

É por esta recolha ser feita sem o conhecimento, e sem o consentimento dos utilizadores, e por ela estar na base da acumulação dos excedentes comportamentais, que a política de segredo é tão importante para estas companhias.

 

Desde o início que os responsáveis pela Google sabem que o seu sucesso iria requerer uma perseverante e contínua defesa deste seu “pecado repetitivo”. Por isso, eles não queriam ficar presos nem à disciplina da “governança” a que estavam sujeitas as empresas privadas, nem a restrições legais democráticas. Sabiam que para assegurar e explorarem a sua liberdade, a democracia devia de ser mantida ao largo.

Para resolver o primeiro caso, criaram uma arquitetura empresarial que lhes deu controle absoluto independente dos acionistas. Para o segundo caso, reclamaram que as suas operações diziam respeito apenas ao domínio do ciberespaço, um território social que não estava sujeito a qualquer lei.

 

E desenvolveram várias justificações, como, por exemplo, a manifestada pelo CEO da Intel, Andy Grove:

 

A tecnologia de ponta anda três vezes mais depressa do que o mercado normal. E o governo anda três vezes mais devagar que o mercado normal. Temos, portanto, um desfasamento de nove vezes…E, portanto, o que queremos fazer, é ter a certeza que o governo não se meta nos nossos negócios para os não atrasar”.

 

Ou seja, pela própria lógica da sua criação, este tipo de empresas é impelida para a operação num espaço em que as leis não contem.

 

Os tais “excedentes comportamentais” incluem: buscas, e-mails, textos, fotos, canções, mensagens, vídeos, locais, padrões de comunicação, atitudes, preferências, interesses, rostos, emoções, doenças, redes sociais, compras e tudo o mais que se conseguir.

Para a captura dos excedentes comportamentais, a Google trabalha com novos algoritmos, sensores, conetividade para simular automóveis, camisas, telefone, livros, vídeos, robôs, chips, drones, camaras, realidade aumentada, córneas, árvores, televisão, escutas, nanobots, flora intestinal, etc.

 

As suas aquisições ou acordos que não fazem sentido para nós, têm todo o sentido para ela. E abrangem todos os campos e tamanhos, desde grandes empresas a miniempresas recém-formadas. Pequenos exemplos inesperados: com a firma que produz os aspiradores autónomos que limpam as casas, os Roomba; ou da empresa de segurança Nest, que instala câmaras nas casas; ou da empresa que produz camas e colchões, Sleep Number.

Os aspiradores autónomos, percorrendo as divisões das casas dando a conhecer todos os cantos e disposição das casas; as câmaras instaladas, vigiam quem se aproximar dentro de um determinado perímetro, e que enviam diretamente para a polícia o reconhecimento facial de quem não constar das listas fornecidas pelos donos; os colchões que dão indicação das melhores posições, do ritmo cardíaco e respiratório, da melhor temperatura, dos ruídos presentes no quarto, etc.

 

E não vamos falar sobre o Street View, que tantos problemas legais pôs, pelo que foi transformado em Google Maps, que continua a dar problemas legais, mas que já é mais aceite (o tal problema da água mole em pedra dura, como tática utilizada), nem de todos os aparelhos apelidados de smart-qualquer coisa. Nem do Pokémon Go, derivado do Google Maps, que lançado em julho de 2016, possibilitava data  em tempo real que permitia elaborar mapas do interior, exterior, de espaços públicos e privados, e acima de tudo, a maneira como os utilizadores respondiam à tele-estimulação dirigida para objetivos pré-determinados.

 

 

Quando confrontado com esta “diversificação” de produtos para uma empresa que se devia dedicar à informação, Eric Schmidt, CEO da Google, respondeu:

 

O objetivo da empresa é a satisfação dos clientes. A Google tem apenas um produto: a satisfação do cliente”.

 

Os clientes são os anunciantes mundiais e todos os outros que paguem pelas suas predições. Quanto maior for esta diversificação, mais confiável será a escala do produto, e maior será a possibilidade de alterar ou retirar os produtos que não corresponderem ao desejado.

 

O volume da informação obtida é de tal ordem que deixou de se ter capacidade para a discernir. A solução é a utilização de computadores de inteligência artificial (IA) para a poder analisar.

Um dos problemas que esta solução põe, é a enorme concentração de talentos em IA. Esses talentos não se encontram dispersos por toda a sociedade, mas antes concentrados num pequeno número de empresas.

Nesta “economia de vigilância”, estes cientistas não são recrutados para resolverem os problemas mundiais da fome ou para eliminarem os combustíveis à base de carbono. Em vez disso, os seus génios são usados para vasculharem os limites da experiência humana, para a transformarem em data e para a traduzirem para o novo mercado que cria riqueza pela predição, pela influência e pelo controle do comportamento humano.

 

Somos assim levados a acreditar neste padrão tecnológico de desenvolvimento em que aos poucos nos têm mergulhado. Ao aceitarmos a ideia que a tecnologia não deve ser impedida de fazer a sociedade prosperar, estamos a submetermos ao determinismo tecnológico. Daí que a consideração racional de valores sociais seja considerada retrógrada.

Por outro lado, como a Google é marca de sucesso, tal prova que esta nova forma de capitalismo utilizado conduz ao sucesso, num processo que se acredita automático e autónomo. A proliferação de empresas similares, grandes e pequenas, são disso prova.

 

Só que, esta nova lógica económica e seus modelos comerciais, a que Zuboff chama de “capitalismo de vigilância”, não resulta do desenvolvimento tecnológico como nos querem fazer acreditar. Ela foi descoberta por pessoas reais, numa determinada data e local, sendo depois aperfeiçoada através de tentativas e erro, como sucede com qualquer realização humana. Neste caso, não há dúvida que foi a Google a pioneira na sua descoberta, elaboração, experimentação e prática do seu modelo, e na sua difusão.

 

 

No seu livro The Age of Surveillance Capitalism, The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power, Shoshana Zuboff começa por nos dar a definição de “capitalismo de vigilância”:

 

1. Uma nova ordem económica que declara que a experiência humana constitui matéria prima gratuita para ser sub-repticiamente apropriada para as práticas comerciais de extração, predição e venda; 2. Uma lógica económica parasita na qual a produção de produtos e serviços está subordinada a uma nova arquitetura global de modificação comportamental; 3. Uma mutação parasita do capitalismo marcada pela concentração da riqueza, conhecimento e poder, sem precedentes na história humana; 4. O fundamento do quadro de uma economia de vigilância; 5. Uma ameaça tão significativa para a natureza humana no século XXI como o capitalismo industrial dos séculos XIX e XX foi para o mundo natural; 6. A origem de um novo instrumento de poder que conduz ao domínio sobre a sociedade e que apresenta enormes desafios à democracia do mercado; 7. Um movimento que tem por finalidade impor uma nova ordem coletiva com base numa certeza total; 8. Uma expropriação de direitos humanos críticos que é melhor entendido como se fosse uma golpe vindo se cima: o derrubar a soberania do povo.”

 

Um próximo blog irá abordar a seguinte questão: Como é que não demos por isso?

 

 

Nota 1: Michel Foucault (1926-1984), ao analisar de maneira muito técnica as maneiras como se exerceu o poder na Europa dos séculos XVII e XVIII, detetou uma mudança nas formas de conseguir obter a obediência dos indivíduos: já não se tratava de fazê-los obedecer à força, mas de torná-los dóceis. A docilidade não é uma obediência mecânica, como a vassalagem ou a escravidão, mas uma forma de domínio que necessita potenciar as capacidades dos indivíduos: quer dizer, quanto mais aptos, mais dominados; quanto mais capazes, mais úteis; quanto mais potentes, mais eficientes; quanto mais competentes, mais disponíveis.

 

Ver ainda o meu blog de 5 outubro de 2016, “Do ‘biopoder’ ao ‘psicopoder”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/do-biopoder-ao-psicopoder-21800).

 

(209) “A Ciência encontra, a Indústria aplica, o Homem conforma-se”

Tempo estimado de leitura: 7 minutos.

 

“Você pode ter o carro com a cor que quiser desde que seja preta”, Henry Ford.

 

“A minha vida, à minha maneira, a um preço suportável” (my life, my way, at a price I can afford), promessas iniciais das empresas digitais.

 

A privacidade é o preço que temos de pagar para termos a enorme quantidade de informações, ligações, e outras utilizações, sempre ao dispor, quando, onde e como as queremos.

 

“A Ciência encontra, a Indústria aplica, o Homem conforma-se”, lema da Exposição Universal de 1933 em Chicago.

 

 

 

 

A propósito dos horrores que os nazis tinham cometido aos judeus, o presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, declarou que isso só acontecera por o partido de Hitler, responsável por tais crimes, ser um partido socialista. Estava certamente a referir-se ao facto de o partido nazi se denominar “nacional-socialista”, daí a conclusão “lógica” de ser um partido socialista.

Os primeiros tempos do século XX foram caracterizados pela irrupção das massas de trabalhadores e desempregados na sociedade, pelo que se percecionava como normal a resolução dos problemas através das suas ideias associativas.  Pode-se dizer que o socialismo era a palavra de ordem. Daí, que até um partido como o nazi, necessitasse de se fazer ver como um partido com representação e ligação a essas massas que por todo o lado emergiam.

 

Henry Ford, foi um dos que primeiro se apercebeu dessas alterações que se estavam a produzir na sociedade. Contrariamente a todos os outros que se preocupavam com a produção de carros de luxo, Ford percebeu que a grande maioria que não tinha nada, também queria muitas coisas, mas a um preço que pudesse pagar.

Coube-lhe a ele a invenção da “produção em massa” (termo que significava a combinação de um grande volume de produção com um baixo custo unitário de produção), e com isso, conseguiu reduzir em 60% o preço dos automóveis.

 

Ao pagar aos seus empregados da cadeia de montagem salários mais altos (os famosos “five-dollar day”) do que até aí se imaginara, para que até eles pudessem comprar um carro, estava a reconhecer que a produção em massa assentava numa população de consumidores em massa.

Era a sua forma de pôr em prática a sua famosa máxima:

 

“Você pode ter o carro com a cor que quiser desde que seja preta”.

 

A necessidade da proteção dessa massa de consumidores ávidos, passou ainda pela implementação de medidas e métodos que garantissem os seus direitos e segurança enquanto consumidores/trabalhadores/consumidores (emprego seguro, carreira, e aumentos graduais de vencimento e benefícios).

A filosofia de base era que o mercado seria mais produtivo sempre que conseguisse estar em sintonia com as necessidades e mentalidades das pessoas.

 

Em meados dos anos setenta, o sistema começou a estagnar, a inflação a crescer, o crescimento cai abruptamente. Sucedem-se as manifestações, a guerra do Vietname, a corrupção de Watergate, a não resolução do problema económico, a descrença no sistema político, tudo isso provocando confusão, ansiedade e desespero.

 

O socorro “oportuno” veio dos prémios Nobel de economia, o austríaco Friedrich Hayek (1972) e o americano Milton Friedman (1974), que preconizavam a “liberdade do mercado” como panaceia para esses males.

 Este credo, que aparece originariamente na Europa como defesa contra a ameaça coletivista do comunismo, preconizava a aceitação do mercado como regulador perfeito, libertando a economia dos constrangimentos impostos pela regulamentação estatal. A autoridade absoluta das forças do mercado.

 

A nível social, tal teoria económica implicava também a aceitação da libertação de baias morais que limitavam o crescimento económico, pelo que preconizava a desigualdade da riqueza e de direitos como uma caraterística de um sistema de mercado bem-sucedido e como força de progresso.

Um mínimo de presença do Estado na economia, de legislação social e de políticas de proteção social, de sindicatos e de instituições de acordos coletivos, de princípios de democracia política, tudo isto deveria ser substituído pela versão da verdade do mercado, sendo a competitividade a única solução para o crescimento.

 

A empresa pública como instituição social passou a ser considerada como um erro custoso, e a sua relação de longa duração com clientes e empregados, passa a ser considerada como uma violação destrutiva da eficiência do mercado.

No ano 2000, as empresas públicas dos EUA empregavam menos de metade dos trabalhadores que em 1970. As empresas públicas tornaram-se “desnecessárias para a produção, incapazes para garantirem emprego estável e serviços sociais de um estado de bem-estar, e incapazes de providenciarem a longo prazo um retorno fiável do investimento”.

Aparece a promoção/glorificação do “empreendedor”, junção do dono e gestor, como exemplo de audácia, no topo do gume da competitividade, domínio e riqueza.

 

Seguiram-se três décadas de crescimento económico através deste sistema de exclusão, até que em 2011, 9 de agosto, se dá em Londres o que foi considerado como “o maior motim da sua história desde o motim de Gordon em 1780”.

O motim, com roubos e incêndios, espalhou-se por vinte e dois dos trinta e dois bairros. Os prejuízos causados ultrapassaram os 50 milhões de libras, 3.000 pessoas foram detidas.

 

As razões invocadas, foram o desemprego e a pobreza entre as pessoas (“No jobs, no money”) que desejavam fazer parte da classe média e que se ressentiam da grande desigualdade existente entre elas e a elite mais rica.

Inexistência de oportunidades, pouco acesso à educação, marginalização, privação, ressentimento e desespero.

A mesma causa, exclusão e desigualdade económica, vai estar na origem, em maio 2012, do movimento dos Indignados em Madrid, e do Occupy, a 17 setembro, em Nova Iorque (Wall Street).

 

Ou seja, o século XXI, apesar do crescimento digital explosivo, do aparecimento da Apple e congéneres, e da penetração da internet no nosso dia-a-dia, inicia a segunda década com enormes problemas económicos e de desigualdade social. E apesar disso, ou por isso, nesta “idade de um novo consenso sobre estabilização de política financeira, a economia assistiu à maior transferência de rendimentos da história para a classe alta”.

 

Num relatório de 2016, o FMI avisa sobre o problema da instabilidade, para concluir que a senda global para o neoliberalismo “não produziu os efeitos que se esperavam”.

Thomas Piketty, vê mesmo esta fase neoliberal como um retorno ao “capitalismo patrimonial”, um reresso a uma sociedade pré-moderna onde as ocasiões da vida dependem mais da riqueza já adquirida do que dos méritos próprios.

 

O que acontece é que as pessoas já não são camponeses analfabetos, servos ou escravos. As políticas sociais seguidas na maior parte do século XX permitiram a centenas de milhões de pessoas o acesso a experiências que até então eram apenas para uma pequena minoria: educação universitária, aumento da idade de vida, viagens, vários tipos de meios de comunicação, acesso às informações, trabalho altamente especializado e intelectualizado.

 

Tentar agora acantoná-las tratando-as como se fossem invisíveis, retirando-lhes as perspetivas, não já sobre o amanhã das suas vidas, mas sobre o hoje, substituindo um Estado social por uma individualização artificialmente forçada e sem conteúdo humano, só poderá causar instabilidade na sociedade. Provavelmente será esse o objetivo pretendido: a individualização permite um maior controle. O velho aforismo: dividir para reinar.

 

 

A fusão do capitalismo com o digital, no início do século XXI, vai aparecer como uma tentativa, uma esperança, para a resolução deste estado de coisas. Foram nesse sentido as promessas da Apple na primeira década deste século que, juntamente com a Google e Facebook, galvanizaram as populações de todo o mundo ao entreabrirem a possibilidade de uma comunicação generalizada entre todos, sobre o que quisessem, quando e como o quisessem,  (“o que eu quero, quando, onde, e como quero”), independentemente das limitações que os canais oficiais até aí impunham.

 

Dos “iPhones” para o “clique” através do qual se poderia inscrever e encomendar cursos e produtos “on line” que deram lugar ao aparecimento de centenas de milhar de empresas na “web”, “apps” e outro aparelhos, era a oportunidade há muito ansiada (e propagandeada) para se ter a “minha vida, à minha maneira, a um preço suportável” (my life, my way, at a price I can afford).

Estávamos a assistir à alteração do anterior padrão de consumo de massa quase indiferenciado para um consumo individualizado, por vezes quase narcisista e petulante.

 

 

Mas rapidamente este potencial galvanizante de mudança do contrato social, começou a ser desbaratado pela “incompreensão” dessas mesmas empresas que o promoveram.

A Apple, passa a ser criticada pela sua política de preços exorbitantes, pelos empregos em offshores, por explorar os seus vendedores, pela desresponsabilização sobre as condições de fabrico, por contribuir para os baixos salários devido à colaboração com empresas de recrutamento, pela evasão institucionalizada aos impostos, e até pelo desrespeito por normas ambientais.

A Google, ao lançar o Gmail em 2004, começou a utilizar sem consentimento a correspondência individual privada para gerar anúncios.

 A Facebook, ao lançar o Beacon em 2007, indicando que tal seria “uma nova forma para distribuir socialmente a informação”, permitia aos seus anunciantes terem acesso às compras dos seus utilizadores, bem como às redes que usavam.

 

Os contratos de prestação de serviços, também chamados de contratos de adesão, excessivamente longos e complexos, são feitos por forma a que os utilizadores não os leiam e se limitem a concordar com o que lá está escrito. Basta o “I agree”.

Pior, esses termos de serviço incluem cláusulas que permitem que eles possam vir a serem alterados em qualquer altura, sem o conhecimento específico ou concordância do utilizador, implicando por vezes até os serviços de outras empresas, sem, contudo, se responsabilizarem por esses serviços.

 

Independentemente de especialistas considerarem tais contratos como “moral e democraticamente degradantes, uma perversão que reestrutura os direitos dos utilizadores instituídos pelo processo democrático, substituindo-os por um sistema que a empresa deseja impor unilateralmente”, o facto é que este procedimento é hoje generalizado.

 

Estas empresas justificam e explicam essas violações como uma necessidade para se continuar a ter internet gratuita. Segundo elas, a privacidade é o preço que temos de pagar para termos a enorme quantidade de informações, ligações, e outras utilizações, sempre ao dispor, quando, onde e como as queremos.

Em sua defesa, Mark Zuckerberg, declara em 2010, que a privacidade deixara de ser uma norma social.

 

Àquela promessa/sonho de uma economia individualizada e de relações sociais com base numa informação digital democratizada, a realidade apresenta-nos antes o caminho de “crescimento pela exclusão”, cuja única lógica de acumulação é o investimento na transformação da vigilância/espionagem individual sem consentimento, como forma rápida de lucro.

 

Como ao longo dos séculos sempre vimos as ameaças virem do poder do estado, e para isso fomos criando mecanismos de proteção, ficamos perfeitamente impreparados  para nos defendermos quando essas ameaças vêm de novas empresas com nomes muito apelativos e geridas por jovens génios que se nos apresentaram como capazes de realizar os nossos sonhos por pouco dinheiro ou até mesmo gratuitamente.

 

Eis o que disse Larry Page, CEO da Google, ao Financial Times, a 30 de maio de 2014:

 

O objetivo da companhia é o de organizar a informação do mundo e torna-la universalmente acessível e útil […] De um modo geral, é melhor deter as informações (“data”) em companhias como a Google do que ela ser retida pelo governo sem os devidos processos, porque, obviamente, nós temos uma reputação a defender. Não tenho a certeza se o governo se preocupa tanto com tal” (https://www.ft.com/content/f3b127ea-e708-11e3-88be-00144feabdc0).

 

Ou seja, ao sugerir que as pessoas devam acreditar mais na Google que nas instituições democráticas, e ao afrontar o governo desta forma, o que estas empresas nos estão a dizer é que estão determinadas a manter o seu controle privilegiado sobre todas as nossas informações obtidas sem consentimento.

Elas acumulam enormes domínios de novos conhecimentos sobre nós, mas não para nós. Predizem os nossos futuros para que outros possam ganhar com isso, não para sermos nós a ganhar.

Querem que pensemos que as suas práticas são a expressão inevitável das tecnologias que empregam, quando é a sua lógica de rapina e crescimento que põe a tecnologia no comando.

 

Tudo isto significa que, passado todo aquele entusiasmo inicial e da crescente dependência de tecnologia, as forças económicas do mundo “real” mantêm-se bem presentes. Continua a imperar o “business as usual”.

Aliás, como já dizia o lema da Exposição Universal de 1933 em Chicago:

 

A Ciência encontra, a Indústria aplica, o Homem conforma-se”.

 

 

 

(210) O direito à conquista

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Os conquistadores estavam investidos com a autoridade de Deus, do papa, e do rei, pelo que os povos nativos seriam vassalos subordinados à sua autoridade.

 

Tudo “explicado” numa língua e linguagem que os indígenas não entendiam.

 

Uma declaração é uma forma particular de falar e de atuar, ao estabelecer factos a partir do nada, criando assim realidades onde nada existia, John Searle.

 

As seis “declarações” das grandes empresas tecnológicas do século XXI, são exatamente iguais às contidas nos Requerimentos dos séculos XV e seguintes: o direito à conquista pela imposição de uma nova realidade.

 

 

 

Quando os grandes capitães das expedições de navios das nações europeias  dos séculos XV e seguintes desembarcavam em terras povoadas e com riquezas à vista, o padrão de conquista que se lhe seguia era normalmente sempre o mesmo: a leitura de medidas legais inventadas que serviam de justificação para a invasão, a declaração de posse do território, e a fundação de uma cidade para legitimar e institucionalizar a conquista.

Escreviam depois aos reis para lhes assegurar que tudo fora feito de acordo com os desejos expressos pelos monarcas, e que os povos conquistados se encontravam à disposição para serem comandados e para trabalharem, plantarem, e fazerem tudo o que fosse necessário, para construírem uma cidade, e para serem ensinados a vestirem-se e a adotarem os costumes cristãos.

 

Para que tudo fosse feito de acordo com as “normas”, antes de entrarem em combate com os indígenas, os soldados liam-lhes os Éditos Monárquicos, Requerimento, onde se declarava que os conquistadores estavam investidos com a autoridade de Deus, do papa, e do rei, e que os povos nativos  seriam seus vassalos subordinados à sua autoridade.

Desses éditos constava também a enumeração das penas que os indígenas sofreriam se não o cumprissem (tipos de tortura, incêndio das vilas, enforcamento de mulheres na praça pública, e outros). Tudo isto “explicado” numa língua e linguagem que os indígenas não entendiam.

Normalmente, estes éditos acabavam dizendo:

 

Vou fazer-lhes todo o mal e causar-lhes todos os prejuízos que um Senhor faria a um vassalo que não lhe obedecesse ou recebesse. E declaro-vos solenemente que todas essas mortes e estragos resultantes serão sempre culpa vossa devido às vossas falhas e não de Sua Majestade, nem minha, nem dos homens que comigo vieram”.

 

 Citando o missionário dominicano espanhol Frei Bartolomeu de las Casas (1474? -1566), em O paraíso destruído: a sangrenta história da conquista da América Espanhola:

 

Após os europeus se terem libertado do dever de os informar, o campo ficava aberto para a pilhagem e escravatura”.

 

 

O filósofo da linguagem John Searle, dizia, no seu estudo Making the social World: The Structure of Human Civilization, que uma declaração era uma forma particular de falar e de atuar, ao estabelecer factos a partir do nada, criando assim realidades onde nada existia.

Quando falamos, por vezes limitamo-nos a descrever o mundo (“hoje está sol”) e outras vezes a alterá-lo (“Fecha a porta”). Uma declaração combina ambos estes aspetos, apresentando uma nova realidade ao descrever o mundo como se uma mudança desejada fosse já verdadeira. Cria-se uma realidade representando a realidade como se já tivesse sido criada. Exemplos: “Todos os homens são criados iguais”, “Eles são seus para serem comandados”.

As declarações são invasivas porque impõem factos novos no mundo social enquanto quem as faz procura caminhos e formas para que outros concordem com esses factos.

 

 

Cinco séculos depois, as grandes companhias tecnológicas do século XXI, vão fazer assentar a recolha e utilização sem consentimento das enormes quantidades de dados individuais, em seis declarações críticas, que terão de serem defendidas a todo o custo, uma vez que cada uma delas assenta na anterior. Se uma cair, caem todas as outras:

 

“# Declaramos a experiência humana como matéria prima livre para ser apropriada. Com base nesta declaração, podemos ignorar as considerações dos direitos dos indivíduos, interesses ou compreensão.

#  Com base nesta nossa declaração, ficamos a ter o direito de nos apropriarmos da experiência dos indivíduos para a traduzirmos em data comportamental.

#  O direito de apropriação, com base na nossa declaração de matéria prima livre, confere-nos o direito à posse da data comportamental derivada da experiência humana.

#  Os direitos de apropriação e de posse, confere-nos o direito de conhecer o que a data contém.

#  Os direitos de apropriação, de posse, e do conhecimento, confere-nos o direito de decidirmos como usamos o nosso conhecimento.

#  Os direitos de apropriação, de posse, do conhecimento, e de decisão, confere-nos os nossos direitos para as condições que preservam os nossos direitos de apropriação, de posse, do conhecimento e de decisão.”

 

 

Esta seis declarações são exatamente iguais às contidas nos Requerimentos dos séculos XV e seguintes: o direito à conquista pela imposição de uma nova realidade.

Em vez da cínica ética monárquica dos Éditos, oferecem também cinicamente acordos únicos de prestação de serviço cujas estipulações são tão obscuras e incompreensíveis como as anteriores (1).

Constroem as suas “cidades” num intrincado sistema de comércio, política e cultura, que declarem a legitimidade e inevitabilidade de tudo o que tenham conseguido alcançar.

 

 

 

Nota:

          (1)  Dois professores da Carnegie Mellon University  (Aleecia McDonald e Lorrie Cranor, “The Cost of Reading Privacy Policies”), publicaram um estudo onde calcularam que a leitura só de um ano das políticas inscritas nos contratos das empresas privadas, levaria cerca de 76 dias de trabalho a tempo inteiro, com um custo de 71 biliões de dólares. Isto em 2008.

 

 

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