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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(187) Frases feitas feitas frases

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

 

“Os pobres são intoleravelmente preguiçosos”, W. Byrd.

 

“Têm de os olhar nos olhos e dizerem-lhes que eles são irresponsáveis e preguiçosos […] Porque, senhoras e senhores, é isso que a pobreza é”, Bill O’Reilly.

 

A maioria acredita que os pobres só são pobres porque não querem trabalhar.

 

Os milhões de empregos que se encontram por preencher é porque não pagam o suficiente para se poder viver com eles.

 

Trabalhar mais e durante mais tempo, não vai retirar nenhum destes trabalhadores da pobreza.

 

 

 

 

Por razões várias, nas profundezas da genética americana (e não só) está arreigado o conceito de que “Na América, quem trabalhar arduamente, acabará por ter sucesso”, donde deriva o corolário de que “todos os que não têm sucesso, é porque não querem trabalhar arduamente”.

No século XVIII, o rico proprietário de terras da Virgínia, William Byrd, dizia que os “pobres eram intoleravelmente preguiçosos”, Thomas Jefferson predicava o encerramento de todos os vagabundos em asilos (poorhouses e workhouses) porque “gastavam o seu tempo sem nada fazerem e em locais de dissolução”, Barry Goldwater, já no século XX, dizia que os americanos com pouca escolaridade eram uma demonstração de “pouca inteligência ou pouca ambição”, e Bill O’Reilly, explicava em 2004, como se devia falar com os pobres:

 “Têm de os olharem nos olhos e dizerem-lhes que eles são irresponsáveis e preguiçosos […] Porque, senhoras e senhores, é isso que a pobreza é”.

 

Estas frases e semelhantes, repetidas até à exaustão pelos bem-pensantes e instalados, têm produzido os seus efeitos: de acordo com uma prospeção efetuada e publicada a 18 de agosto de 2016 pelo American Enterprise Institute (AEI),  (http://www.aei.org/publication/2016-poverty-survey/), cerca de dois terços dos inquiridos não acredita que os pobres tenham qualquer tipo de   emprego, e cerca de um terço acredita que a maioria dos que recebem ajudas do Estado preferem continuar a receber essa ajuda em vez de procurarem tentar ganhar o seu sustento. Ou seja, a maioria dos americanos acredita que os pobres são pobres porque não querem trabalhar.

 

Mais: conforme nos diz Ofer Sharone, da Universidade de Massachusetts, num estudo de 2013, a maioria dos trabalhadores desempregados culpam-se a si próprios por se encontrarem nessa situação (https://www.researchgate.net/publication/265737681_Why_Do_Unemployed_Americans_Blame_Themselves_While_Israelis_Blame_the_System).

 

Até quase aos finais do século XVIII, a pobreza era considerada como um fato natural, que sempre existira, e que era desejável que assim se mantivesse para permitir o crescimento económico. Segundo o Mercantilismo, a pobreza e a fome não só incentivavam a procura de trabalho como mantinham os salários baixos. E todos os que recebessem qualquer ajuda social e não trabalhassem para conseguir o seu sustento, deveriam ser encerrados em Asilos, (Workhouses), sendo obrigados a trabalharem se quisessem comer.

Nos dois séculos que se lhe seguiram, assistiu-se a um enorme crescimento económico, especialmente nos últimos 40 anos em que a economia se expandiu e os lucros de grandes empresas subiu espetacularmente. Desde 1973, a produtividade aumentou em 77%. Contudo, o pagamento horário cresceu apenas 12%.

 

Ou seja, apesar da expansão económica, os salários reais dos trabalhadores mantiveram-se quase no mesmo patamar. Os trabalhadores americanos têm sido sistematicamente excluídos dos lucros que eles próprios têm propiciado.

É esta discrepância da economia que explica a razão porque o rácio de pobreza se tem mantido constante, apesar dos gastos das ajudas sociais por habitante terem aumentado.

 

Nos EUA, 41,7 milhões de trabalhadores, sensivelmente um terço da força de trabalho americana, recebe menos de $12 por hora, sem direito a seguro de saúde, e sem qualquer garantia de futuro.

E dentro destes, dos que têm emprego, há 7,6 milhões que se encontram a viver abaixo da linha da pobreza.

O Departamento de Estatísticas do Trabalho (U.S. Bureau of Labor Statistics) define “trabalhador pobre” (working poor) como sendo aquele que vivendo abaixo do limiar de pobreza, passe metade do ano a trabalhar ou à procura de emprego.

 Em 2016, desses 7,6 milhões trabalhadores, a maior parte tinha mais de 35 anos, e cerca de 5% tinham idades compreendidas entre os 16 e 19 anos.

 

E, contudo, todos os anos nos dizem que a economia está forte, que o desemprego está baixo, o Dow Jones da média industrial está acima dos 25.000, e que há milhões de empregos que não são preenchidos porque as pessoas não querem trabalhar.

 Mas que empregos são estes que se encontram vagos para serem preenchidos? Exatamente os empregos que não pagam o suficiente para se poder viver com eles.

 

 

É por isto que hoje, trabalhar-se mais e durante mais tempo, não vai retirar nenhum destes trabalhadores da pobreza. Por si só, o trabalho em si ou a vontade de trabalhar, não constituem a solução.

É por isto que os pobres são pobres.

 

 Ou seja: acreditar que as pessoas são pobres porque não trabalham e querer obrigá-las a trabalhar em qualquer lugar pelo maior número de horas que possam, em vez de lhes aumentar o salário, é não querer resolver o problema. Tal como no século XVIII.

 

 

 

Nota 1: Definição de “classe média”

 

 

O Pew Research Center, define “classe média” como aquela em que o rendimento familiar esteja entre o dobro e os 2/3 da média nacional, que era de $57.617 em 2016. Assim, o rendimento para uma família de três pessoas, poderia variar entre $45.000 e $135.000, e para um solteiro, entre $26.000 e $78.000 (http://www.pewresearch.org/fact-tank/2018/09/06/the-american-middle-class-is-stable-in-size-but-losing-ground-financially-to-upper-income-families/).

 

Segundo este estudo, 68% dos americanos consideram-se como pertencendo à classe média. Na realidade, em 2016 apenas 50% da população podia ser considerada como classe média. Ou seja, 18% dos americanos não se apercebem que já não fazem parte da classe média.

 

Por outro lado, como a classe média em 1971 representava 61% da população, significa que 2016 apresenta uma diminuição de 11% relativamente a 1971. Como nos têm vindo a dizer que a economia se tem vindo a desenvolver, talvez se possa interpretar esta diminuição da classe média como um bem: trata-se até de um avanço, se considerarmos que isso significa que houve um deslocamento e passaram a pertencer à classe alta. Parabéns.

 

 

Nota 2: O que acontece na América, não fica só na América.

 

 

Segundo um estudo da Rede Europeia da Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social no Estado Espanhol (https://www.eapn.es/estadodepobreza/), em Espanha há mais de um milhão de licenciados em risco de pobreza, tendo aumentado a sua percentagem de 30% em 2008 para 35,8% em 2017.

Se a estes juntarmos os que têm bacharelato ou formação profissional, o número sobe para os 2,7 milhões.

Segundo o sociólogo que orientou o estudo, Juan Carlos Llano, estes dados vêm alterar aquela perceção que se tinha de que “bastava ter um emprego para não se cair na pobreza. Verificamos que já não é assim. De facto, mais de 30% das pessoas pobres têm trabalho. Depois acreditámos que bastava ir para a universidade para se poder ter uma vida decente, e já não é assim”.

A educação continua a ser um colchão para evitar cair-se na pobreza, mas “a precariedade causou estragos. Não só atingiu os trabalhos menos qualificados, como foi subindo de nível, alcançando grupos que acreditavam estarem protegidos e livres disso” (https://elpais.com/sociedad/2018/10/15/actualidad/1539596543_695042.html).

 

A mesma Rede Europeia Anti Pobreza, informou que também em Portugal existem mais de 1,1 milhões de portugueses que têm empregos, mas são pobres, o que significa que não basta ter um emprego para se sair da pobreza (https://www.dn.pt/vida-e-futuro/interior/rede-anti-pobreza-alerta-para-11m-de-portugueses-que-trabalham-mas-sao-pobres--10014350.html).

 

E para voltar ao princípio do blog sobre as ideias feitas que temos sobre os pobres, veja-se o vídeo   utilizado pelo colégio Salesianos de Estrecho, do distrito de Tetuán, Madrid, para explicarem aos seus alunos do secundário as diferenças que existem entre as pessoas ricas e pobres, e como enfrentarem os obstáculos da vida. “Os ricos são pessoas com êxito” e “os pobres, pessoas medíocres”, por isso, para se triunfar nos negócios e na vida, basta ter “costumes de ricos”.

(https://www.youtube.com/watch?time_continue=5&v=aeAIqjaNBIw)

 

 

Nota 3: A importância do trabalho

 

 

Em 1981 o Papa João Paulo II, publicou a encíclica Laborem exercens, na qual ataca a ideia fundamental do capitalismo segundo a qual o trabalho é considerado apenas como um mero meio de troca por dinheiro. Tal conceito conduz à coisificação dos seres humanos. Os trabalhadores não são instrumentos impessoais. Não são objetos inanimados. O trabalho é mais do que salário e lucro. Ele é essencial para a dignidade humana e para a autoestima. É através dele que os trabalhadores criam laços com a sociedade e contribuem para a harmonia social e coesão.

 

O Papa insurge-se contra o desemprego, o subemprego, salários inadequados, automatização, e a falta de segurança no emprego, considerando-os como violações da dignidade humana. Considera estas condições como forças que destroem a autoconfiança, a satisfação pessoal, a responsabilidade e a criatividade.

Insiste na necessidade do pleno emprego e num salário mínimo que permita suportar a família. Chama a atenção para as mulheres que ficam em casa para cuidar dos filhos e para os incapacitados, para que todos eles recebam um salário que lhes permita viver. Advoga os cuidados de saúde para todos, pensões, seguros de acidentes, e horários de trabalho que permitam tempo livre e férias como necessários para a construção de famílias fortes. Escreve ainda que todas profissões devem ser representadas por sindicatos com o direito a fazerem greve.

 O trabalho, “constitui o fundamento para a formação da vida familiar, que é um direito natural e para o qual todos os homens são chamados a contribuir”.

 

 

 

(186) Os carros autónomos dos bons samaritanos

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

 

A única coisa que afeta a compaixão humana é o nível de pressa nas nossas vidas.

 

Em tempos de crise as pessoas costumam esquecer-se das suas perspetivas filosóficas, seguindo antes as suas emoções e os seus instintos.

 

No tempo em que alguns samaritanos podiam ainda ser bons, não existiam automóveis autónomos.

 

Que carro compraria?

 

 

 

A 20 de junho de 2017 foi entregue o relatório da comissão de ética que o governo da Alemanha tinha mandado fazer sobre as implicações da condução de veículos autónomos. Como resultado, foram definidas 20 regras que serão obrigatórias seguir para a produção e certificação de carros autónomos  (https://web.archive.org/web/20171115224017/http://www.bmvi.de/SharedDocs/DE/Publikationen/G/bericht-der-ethik-kommission.html).

 

 

A Parábola do Bom Samaritano

 

É no Evangelho segundo Lucas, capítulo 10, 10:25, que se pode ler o que ficou conhecido como a “Parábola do Bom Samaritano”:

 

E eis que se levantou um doutor da lei, pondo-o à prova e dizendo: “Mestre, é fazendo o quê que herdarei a vida eterna?” Disse-lhe Jesus: “O que está escrito na lei? Como lês?”

O outro respondeu: “Amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todas as tuas forças e de todo o teu entendimento e ao próximo <amarás> como a ti mesmo”. Disse-lhe Jesus: “Respondeste bem. Faz isso e viverás”. Porém ele, querendo justificar-se, disse a Jesus: “E quem é o meu próximo?”

Respondendo, Jesus disse: “Certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu entre salteadores que, depois de o despirem e espancarem, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante.

Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, compadeceu-se. Aproximando-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro e disse: “Trata dele e, o que gastares a mais, eu to pagarei quando voltar.” Qual deste três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?”

Respondeu: “O que praticou misericórdia para com ele.” Jesus disse-lhe: “Vai e também tu faz o mesmo.”

 

 

Uma experiência sobre a compaixão humana

 

Em meados de 1970, John Darley e Daniel Batson, psicólogos da Universidade de Princeton, EUA, resolveram fazer uma pesquisa sobre o comportamento da compaixão humana, (http://faculty.babson.edu/krollag/org_site/soc_psych/darley_samarit.html), utilizando para isso um grupo de 40 estudantes do Seminário de Teologia de Princeton, que iriam fazer um estudo que versaria sobre a Parábola do Bom Samaritano e para o qual deveriam preparar um texto individual.

De repente, metade desses alunos foi informada que o horário do seminário tinha sido antecipado e que deveriam dirigir-se urgentemente para o auditório da universidade, a fim de apresentarem as suas palestras. A outra metade dos alunos não foi informada disso.

Para chegarem ao auditório, os estudantes tinham de passar por um corredor. Nesse corredor estava um homem (um ator contratado pelos psicólogos) deitado no chão, mal vestido, imóvel, de olhos fechados, que tossia e fazia outros ruídos.

 

Os resultados da pesquisa foram os seguintes:

 

Estudantes atrasados para a palestra:

# 60% passaram pelo homem caído sem lhe oferecer qualquer ajuda. Alguns chegaram mesmo a tropeçar ou a pisar involuntariamente o homem que os atrapalhava no caminho para o auditório.

# 10% ofereceram ajuda.

 

Estudantes que não foram apressados para a palestra:

# 63% ofereceram ajuda ao homem caído.

 

A conclusão dos psicólogos foi que “a única coisa que afeta a compaixão humana é o nível de pressa nas nossas vidas”. E que conforme for aumentando a velocidade das nossas vidas, a ética humanitária e a compaixão vão diminuindo.

 

Ou seja, “em tempos de crise as pessoas costumam esquecer-se das suas perspetivas filosóficas, seguindo antes as suas emoções e os seus instintos”.

 

 

Os dilemas do carro elétrico

 

Os problemas éticos relacionados com as tomadas de decisão e seus efeitos, há muito que têm vindo a serem equacionados na filosofia. Contudo, recentemente, voltaram a estar “na moda” através de aplicações ligadas à psicologia moral de vários campos da ciência e tecnologia. Basicamente, o problema tem sido conhecido como o “dilema do carro elétrico” (trolley):

 

Um carro elétrico vai a descer em direção a um grupo de cinco pessoas que se encontram deitadas e imobilizadas (incapacitadas) na sua linha. Você, como condutor, tem junto a si um interruptor que quando acionado faz com que o carro elétrico se desvie para outra linha lateral. Só que nessa linha de desvio encontra-se também uma pessoa deitada. As suas opções são duas:

  1. Não fazer nada e atropelar as cinco pessoas que estão na sua linha normal.
  2. Premir o interruptor, passando para a linha lateral, onde irá matar uma pessoa.

Qual é a opção mais ética?

 

Segundo um inquérito publicado em 2013 (https://philpapers.org/archive/BOUWDP), 69,9% dos filósofos profissionais premia o interruptor, 8% não premia, e 24% tinham outra opção ou não responderam.

A atualidade deste problema prende-se com a criação de software para os carros autónomos, que nas situações de eminência de acidente, é obrigado a decidir qual a melhor opção (incluindo a de matar os passageiros/proprietários do carro).

 

 

O mercado como decisor

 

Os carros autónomos encontram-se já em circulação, o que significa que passaram já do plano de desenho para o de produção. Como é que os fabricantes resolveram este problema?

Se lhes perguntarmos, dirão que os carros são excelentes, muito seguros (mais seguros do que se fossem guiados por seres humanos), incorporando todas os últimos avances da Inteligência Artificial. E, por aqui se ficam.

Mas vamos supor que eles fabricam, com a melhor das intenções, dois carros idênticos, um com o software obedecendo a uma moral altruísta e outro com software obedecendo a uma moral egoísta. O primeiro, em caso de emergência, pode sacrificar o seu proprietário em prol de um bem maior. O segundo, faz tudo para salvar o seu proprietário, mesmo que para isso implique matar outras pessoas. Qual era o carro que compraria?

 

Há um estudo de 2015, de Shariff e Rawhan Bonnefon, “Social Dilemma of Autonomous Vehicles”, sobre um cenário hipotético em que um carro autónomo está prestes a atropelar várias pessoas (http://science.sciencemag.org/content/352/6293/1573.full). A maioria das pessoas disse que o veículo devia salvar os peões, mesmo que isso implicasse matar o proprietário. Mas quando, depois, se lhes perguntou se comprariam para eles um carro que sacrificasse o proprietário em prol do maior número de vidas dos peões, a maioria disse que não compraria.

 

Até pode acontecer que os carros venham equipados com um menu de definições, onde os proprietários possam selecionar que tipo de condução preferem. Tudo isto, evidentemente, para ilibarem de responsabilidade os fabricantes, e não por qualquer prurido de ética.

 

Uma das conclusões a extrair é que no tempo em que alguns samaritanos podiam ainda ser bons, não existiam automóveis autónomos. Agora “forçam-nos” a decidir, porque queremos andar de automóvel ou porque não nos dão alternativa. Quanto aos samaritanos, já não há nem bons nem maus.

 

 

 

Nota: a tradução da parábola do bom samaritano é a que Frederico Lourenço nos dá, Bíblia, Volume I, Novo Testamento, Os Quatro Evangelhos.

 

 

 

 

 

 

 

 

(185) Quando Harriet encontrou John Stuart

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

“Repudio qualquer pretensão a quaisquer direitos sobre a mulher que possa ter adquirido em virtude do casamento”, J. S. Mill.

 

“Quase desde o alvor da sociedade humana, as mulheres (devido ao valor que lhes era atribuído pelos homens, combinado com a sua inferioridade muscular) veem-se instaladas num estado de servidão relativamente aos homens.”

 

 ‘É necessário para a sociedade que as mulheres casem e produzam filhos. E elas só fazem isso, se a isso forem compelidas. Portanto, é necessário compeli-las’. 

 

 “Mesmo para os estrangeiros, as leis concedem o privilégio de o júri constar de metade de jurados da mesma nacionalidade do estrangeiro a ser julgado. Para as mulheres, não.”

 

“Os ingleses não consideram natural que as mulheres possam ser soldados ou membros do parlamento. E, contudo, são governados por uma rainha.”

 

 

 

 

Encontraram-se pela primeira vez num jantar em casa do reverendo William Fox, corria o ano de 1830. Harriet Hardy Taylor tinha vinte e três anos, estava casada há quatro anos com John Taylor, e era já mãe de dois filhos e com um terceiro no horizonte. Pertencia ao círculo social de intelectuais da congregação dos Radicais Unitaristas, escrevia artigos para o Monthly Repository, nomeadamente sobre a condição feminina e sua sujeição, pugnando pela igualdade de direitos, políticos, civis e sociais.

 

John Stuart Mill, (que veio a ser considerado como um dos mais importantes filósofos do século XIX, defensor do Utilitarismo – “alcançar o maior dos bens para o maior número de pessoas, como resultado final da ação humana” -, da liberdade de expressão, de reformas sociais como sejam os sindicatos e as cooperativas, primeiro Membro do Parlamento a propor o sufrágio das mulheres) tinha então 24 anos, e o enamoramento com Harriet foi fulgurante.

 

A troca de correspondência e as visitas noturnas a casa dos Taylor tornaram-se tão frequentes que a partir de certa altura John Taylor optou por as facilitar, ausentando-se para o clube social.  Harriet decidiu então terminar com a amizade de Mill, o que leva este a escrever-lhe uma apaixonada carta em francês na qual se recusa a aceitar que a separação fosse definitiva.  Continuaram a ver-se.

Em finais de setembro, outubro, de 1833, o marido de Harriet concordou numa separação experimental. Harriet vai para Paris, onde evidentemente, Mill a acompanha. Finalmente decide regressar a Londres, e em 1834 Harriet está já a viver numa casa sua em Keston Heath, onde Mill a visita frequentemente.

Em 1849, John Taylor morre. Harriet e Mill decidem esperar dois anos, antes de se casarem em 1851. Já doentes, com doenças pulmonares, resolvem partir para Avignon, um clima mais quente, acabando Harriet por falecer a 3 novembro de 1858. Mill comprou então uma pequena casa, junto ao cemitério em que Harriet fora enterrada, onde passou a viver a maior parte do seu tempo até à sua morte que ocorreu a 8 de maio de 1873.

 

 

Na declaração da sua proposta de casamento, que Mill insistiu em deixar escrita, dizia:

 

[…] Eu, não tendo quaisquer meios que me permitam legalmente eximir-me a esses odiosos poderes … considero ser meu dever deixar atestado um protesto formal contra as normas que conferem os poderes existentes nas leis do casamento. E no casamento entre a Senhora Taylor e eu, declaro ser minha vontade e intenção, que no relacionamento entre nós, que ela retenha em todos os aspetos a mesma liberdade absoluta de ação e de disposição de ela mesma que decida ter ou fazer do tempo que puder e quiser dispor para ela, como se não tivesse havido qualquer casamento: e mais repudio qualquer pretensão a quaisquer direitos que possa ter adquirido em virtude do casamento.

6 de março de 1851                                                      J. S. Mill”

 

 

 

Da correspondência trocada entre ambos, pode-se verificar a atenção que davam a questões éticas e sociais relacionadas com o casamento, separação e divórcio, como seja a importância da virgindade exigida só para a mulher, das dores para a mulher e dos prazeres para o homem, da necessidade da mulher trabalhar para ganhar a sua independência, da idade mais apropriada para as mulheres casarem e terem filhos, da igualdade perante a lei, etc.

 

 

A produção literária dos dois torna-se de tal forma imbrincada que os especialistas têm dificuldade em reconhecer o que pertence a um e a outro. Mesmo para os tratados mais técnicos como os Princípios de Economia Política, é o próprio Stuart Mill que diz que se tratou de um esforço comum, e que na obra Sobre a Liberdade, mesmo apesar de levar apenas o seu nome como autor:

 

“[Foi] mais diretamente e literalmente uma nossa produção mais do que qualquer outra que levava apenas o meu nome, uma vez que não houve uma sentença que não tenha sido várias vezes discutida por nós os dois, alterada, cuidadosamente esmiuçada para a livrar de erros, quer de pensamento como de expressão”.

 

 

Alguns breves excertos retirados das suas obras:

 

 

“A Declaração de Independência […] começa por expressar que:

‘Consideramos estas verdades como autoevidentes: que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes são vida, liberdade, e busca da felicidade; e que para que esses direitos possam ser assegurados, são instituídos governos entre os homens, cujos poderes derivam do consentimento dos governados.’

Não imaginamos que qualquer democrata americano se atreva a deturpar a força destas expressões utilizando o subterfúgio desonesto e ignorante de que quando aí se diz “homens” não se pretenda dizer seres humanos, mas que tal se refira apenas ao sexo masculino; de que “vida, liberdade, e a busca da felicidade” sejam apenas “direitos inalienáveis” apenas para metade da espécie humana; e que “os governados”, cujo consentimento são a única fonte em que se apoia o poder, se refira a penas metade da humanidade, e que a ser assim assumiam o caráter de governar face aos outros.”

 

[…] É um axioma da liberdade inglesa que impostos e representação vão a par. Mesmo nas leis que conferem as propriedades da mulher ao marido, existem muitas mulheres não casadas que pagam impostos. É uma das doutrinas fundamentais da Constituição Inglesa, que todas as pessoas devem ser julgadas pelos seus iguais: contudo, as mulheres, quando são julgadas, são julgadas por juízes homens e por um jurado de homens. Mesmo para os estrangeiros, as leis concedem o privilégio de o júri constar de metade de jurados da mesma nacionalidade do estrangeiro. Para as mulheres, não.

 

[…] Não é difícil entender que a sujeição das mulheres seja um costume. Basta e explicação da força física. […] Até muito recentemente, a regra da força física era a regra geral da sociedade humana. Através de toda a história, as nações, raças, classes, consideravam-se a elas próprias como sendo as mais fortes, quer pelos músculos, pela riqueza, ou pela disciplina militar, conquistavam e submetiam todos os outros.

 

[…] A adoção deste sistema de desigualdade nunca resultou de uma deliberação, de um pensamento, de qualquer ideia social, ou de qualquer outra noção que conduzisse ao benefício da humanidade ou da boa ordem da sociedade. Ele resultou simplesmente do facto de, quase desde o alvor da sociedade humana, as mulheres (devido ao valor que lhes era atribuído pelos homens, combinado com a sua inferioridade muscular) se tenham visto instaladas num estado de servidão relativamente a alguns homens.

 

[…] Os ingleses não consideram natural que as mulheres possam ser soldados ou membros do parlamento. E, contudo, são governados por uma rainha.

 

[…] A opinião geral dos homens é suposta ser, que a vocação natural das mulheres é serem esposas e mães. Digo suposta, porque a julgar pelos atos, a sua opinião deve ser o contrário. Eles podem supor pensar que a vocação natural das mulheres seja para elas a mais repugnante; ou seja, se elas pudessem escolher fazer outra coisa, se elas tivessem outros meios com que se sustentarem, ou  que pudessem ter outra ocupação ou faculdades que lhes pudessem aparecer como desejáveis, certamente não haveria mulheres suficientes dispostas a aceitarem as condições que dizem ser naturais delas. Se esta fosse a verdadeira opinião dos homens em geral, era bom que as expressassem de forma audível. Gostaria muito de ouvir alguém a enunciar abertamente a doutrina:

‘É necessário para a sociedade que as mulheres casem e produzam filhos. E elas só fazem isso, se a isso forem compelidas. Portanto, é necessário compeli-las’. 

Os méritos do caso ficariam assim claramente definidos. Seriam exatamente os mesmos dos donos dos escravos da Carolina do Sul e Luisiana.

‘É necessário que se cultive algodão e açúcar. Os homens brancos não os podem produzir. Os negros também não o fazem pelo salário que nós entendemos que lhe devemos dar. Portanto, eles devem ser compelidos’.

 

“[…] Mesmo que uma mulher reclamasse o suporte de um homem, seria infinitamente preferível que parte do seu recebimento viesse do que ela ganhasse, mesmo que a soma agregada fosse pouca. Tudo isso seria preferível a ficar dependente apenas do que o homem ganhasse … Uma mulher que contribua materialmente para o suporte da família, não pode ser tratada da mesma forma intempestivamente tirânica que a mulher que depende do homem para a sua subsistência.

 

 

[…] Dizer que as mulheres devem ser excluídas da vida ativa porque a maternidade as desqualifica para a desempenhar, é dizer que qualquer outra carreira também lhes deve ser proibida, uma vez que a maternidade é a sua única atividade considerada.

 

[…] E se os homens estão determinados a fazerem da lei do casamento uma lei de despotismo […] então nunca deveriam ter permitido que as mulheres recebessem educação literária. As mulheres que leem, as mulheres que escrevem, são, na sociedade existente, uma contradição e um elemento perturbador: é uma educação errada para quem não espera mais que uma odalisca ou uma empregada doméstica.

 

[…] Até uma época tardia, o pai tinha o poder de dispor livremente á sua vontade da filha para efeitos de casamento, sem qualquer consideração para com ela. Apesar de tudo, a Igreja seguia uma melhor moralidade ao requerer formalmente que a mulher pronunciasse o “sim” na cerimónia de casamento.

 

[…] As mulheres não conseguirão dedicar-se inteiramente à emancipação das mulheres, até que os homens em número considerável estejam preparados para se lhes juntarem na causa.

 

[…] A regeneração moral da humanidade só começará quando as relações sociais mais fundamentais visem a lei da igualdade da justiça, e quando os seres humanos aprendam a cultivar a maior simpatia para essa igualdade de direitos e do seu cultivo.

 

 

Tudo isto foi alertado em meados do século XIX. Como estamos agora?

 

Segundo o prémio Nobel de Economia de 1998, Amartya Sen, só no século XX “desapareceram” mais de cem milhões de mulheres, que tinham nascido e que estatisticamente tinham de estar vivas, mas que não estão vivas porque foram assassinadas ou deixadas morrer (http://www.academia.edu/6912342/Resumo_A_Ideia_de_Justi%C3%A7a_-_Amartya_Sen).

 

Para Sen, a discriminação de género não é apenas um problema de diferenciação salarial ou de assédio sexual, mas é, acima de tudo, um problema que afeta a vida e a morte de milhões de crianças, meninas e mulheres adultas.

Contudo, só há poucos anos é que as violações em massa das mulheres passaram a ser consideradas como crimes de guerra, e, no entanto,  já desde 1929 as Convenções de Genebra legislavam sobre a alimentação e vestuário a providenciar aos prisioneiros de guerra.

 

 

 

 

(184) Nada de novo no admirável novo mundo

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

 

Governar através do terror produz menos resultados que governar através da manipulação não violenta do ambiente, dos pensamentos e das sensações dos indivíduos, sejam eles homens, mulheres ou crianças, A. Huxley.

 

Tal como a religião, a droga tem o poder de consolar e compensar, induzindo-nos visões de um outro mundo melhor, oferecendo-nos esperança, fortalecendo a fé e promovendo a caridade.

 

As drogas faziam parte do arsenal das armas utilizadas pelos Controladores do Mundo para pacificar e distrair os cidadãos da sua existência triste e sem significado.

 

A monogamia encarada como o “inimigo da civilização” onde a “promiscuidade era a norma”.

 

 

 

 

Bem interessante é aquela imagem popular do burro a ser alternadamente convencido a andar a bem ou a mal, com pau ou com cenoura, porque de certa forma ela encerra em si a nossa visão sobre as únicas possibilidades de movimentação da sociedade.

Em qualquer dos casos, as mentes mais lúcidas, até a extrapolam com vista ao futuro, curiosamente criando sempre distopias, ainda que distintas, como foram os casos de Aldous Huxley com o Admirável Mundo Novo, publicado em 1932, e de George Orwell com o 1984, publicado em 1948.

 

Orwell, assentava a sua visão da sociedade do futuro, no controle total obtido pela aplicação de penalizações e castigos, apoiada numa burocracia estatal centralizada e disseminada a todos os níveis, que nos escamoteava a verdade, escondendo-nos os livros, não nos permitindo aceder à cultura, na tentativa de uniformização de todos os cidadãos.

Já para Huxley, o controle da sociedade do futuro, seria feito pela inoculação de doses de prazer através das quais a verdade desapareceria submersa num mar de irrelevância, onde não se necessitaria de esconder os livros porque ninguém os quereria ler, onde a informação não necessitaria de ser escamoteada porque era dada em quantidades tais que já ninguém ligava, ruído de fundo que nos tornava indiferentes, passivos e egoístas, e onde o aparecimento de tiranias era menorizado perante o quase infinito apetite dos homens por outras distrações.

 

Vinte e seis anos depois de ter escrito o Admirável Mundo Novo, Huxley publica o Admirável Mundo Novo Revisitado, (1958), concluindo que:

 

À medida que o tempo decorre, tornou-se claro que o controle dos comportamentos indesejáveis através da punição é menos efetivo que o controle dos comportamentos indesejáveis feito através do reforço de recompensas, e que o governo através do terror produz menos resultados que o governo feito através da manipulação não violenta do ambiente, dos pensamentos e sensações dos indivíduos, sejam eles homens, mulheres ou crianças “.

 

Recordemos, contudo, alguns condicionalismos previstos e seguidos para que esse Admirável Mundo Novo fosse possível. Por exemplo, uma das práticas correntes de controle societário era a utilização da manipulação pré-natal, pela eugenia ou digenia. Todos as crianças eram incubadas em provetas, uns com esperma biologicamente superior para produzirem Betas, Alfas ou Alfas +, que seriam os futuros condutores desse Mundo, e outros com esperma biologicamente inferior, tratados com álcool e proteínas nocivas para retardarem o seu desenvolvimento, que seriam os futuros trabalhadores.

 

Estes seriam quase sub-humanos, mas seriam capazes de desempenharem trabalhos não especializados e que, quando devidamente condicionados, com a possibilidade do acesso frequente e gratuito ao sexo oposto, com o acesso constante a espetáculos gratuitos e a doses diárias de Soma (drogas), não representariam qualquer problema para os seus superiores”.

 

A utilização indiscriminada e doseada de Soma (drogas) que não teriam qualquer efeito “psicológico ou mental”, permitiria “fazer com que todos andassem bem dispostos, retirando-lhes quaisquer constrangimentos que tivessem no trabalho e na vida familiar, sem com isso sacrificarem a saúde ou reduzirem a sua eficiência […] não constituía um vício privado, sendo antes a essência da Vida, Liberdade e da Via para a Felicidade garantidas na Declaração dos Direitos”.

 

O Soma era a religião do povo, pois, “como a religião, a droga tinha o poder de consolar e compensar, induzindo-nos visões de um outro mundo melhor, oferecendo-nos esperança, fortalecendo a fé e promovendo a caridade.”

O Soma era parte do arsenal das armas utilizadas pelos Controladores do Mundo para pacificar e distrair os cidadãos da sua existência triste e sem significado.

 

A euforia quimicamente induzida funcionava como substituto à satisfação de nos sentirmos livres e criativos […] alterando a química dos cérebros, usando tranquilizantes para acalmar os excitados, estimulantes para entusiasmar os indiferentes, alucinantes para distrair a atenção das misérias dos destroçados.”

 

Era assim que o sexo aparecia totalmente separado da emoção, funcionando apenas como uma compensação e distração prazenteira, e como indicador de estatuto ou sucesso. Pelo que a monogamia era encarada como o “inimigo da civilização” onde a “promiscuidade era a norma” e o “romance era considerado degenerado”.

A emoção, inteligência e família, eram vistos como travões ao desenvolvimento da individualidade. A escolha deveria ser sempre a de passar mais tempo consigo próprio.

 

Mas, mesmo este Admirável Mundo não era para todos. Fora desse Mundo onde todos viviam encantadoramente bem, nessa zona de consentimento,  existia fora dela, noutros terrenos separados por muros eletrificados, uma zona de coerção, uma “reserva” onde viviam os pobres e povos indígenas não condicionados, onde se praticava o casamento e se fazia vida familiar, com “superstições monstruosas” como o Cristianismo e o culto dos antepassados.

Era um lugar onde, segundo os guias turísticos explicavam, “pululavam doenças infeciosas, padres e lagartos venenosos”. Contudo, esses selvagens estavam totalmente domados, como resultado de terem sido sujeitos à tortura e à fome. E não tinham escapatória: os aí nascidos estavam condenados a aí morrerem, seguindo o caminho dos corpos que se viam amontoados jazendo junto à fronteira ao tentarem escalar os muros de contenção.

 

Na realidade, esse Admirável Mundo só existia porque o consentimento de uns era obtido devido à coerção de poderem vir a ser exportados para o outro mundo.

 

Quando Huxley escreve o Admirável Mundo Novo, situa-o no Estado Mundial de Londres, no ano 2540 (aliás, situa-o no ano AF 632, o que queria dizer 632 anos depois do aparecimento do primeiro modelo do Ford T, do Henry Ford que tanto o impressionara quando lera o My Life and Work, onde Ford explicava o seu sistema de montagem em cadeia e que serviria para o funcionamento de tudo).

Ainda lá não chegámos, faltam 400 anos e já quase tudo está realizado. Daí a nossa felicidade. Tivemos a sorte de ficar do lado de cá. Sermos brancos e homens.

 

 

 

Nota: Sobre distopias podem consultar o blog de 4 de julho de 2015, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/a-distopia-do-presente-2547).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(183) A burca, segundo Platão

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

O caminho para a inteligibilidade além de ser penoso, não é voluntário.

 

A realidade aparece diferentemente ao ser humano, conforme o grau de saber esforçado e constante por ele empregue para se aproximar do bem.

 

Devido á luz de que vinha imbuído, o sábio não conseguia acomodar a sua nova visão cheia de luz à penumbra da caverna. Como poderão os prisioneiros acreditar em alguém que nem consegue discernir as sombras que existiam na caverna?

 

Não é de admirar, que os prisioneiros ponham a hipótese de matarem o sábio.

 

 

 

 

 

Todos somos prisioneiros dos nossos sentidos, dos nossos e dos outros. Constatar este facto põe sempre várias interrogações, começando pelas tentativas para compreender o que é ser humano. Das respostas possíveis, algumas são mais abrangentes, outras mais elaboradas, muito poucas permanecem perenes, o que não significa que sejam as corretas.

 

Um dos textos fundamentais para esta compreensão do que é o ser humano, é o escrito por Platão (c. 429 – 347 a.C.) no livro VII de A República (514 a 517c), que ficou conhecido como “A Alegoria da Caverna”. Passados 2.500 anos, concordando-se ou não, a sua importância mantém-se profundamente atual e influente.

Excelente escritor e contador de histórias, “o melhor prosador grego” segundo Maria Helena da Rocha Pereira, os escritos de Platão aparecem-nos sob a forma de diálogos ou dramas filosóficos, em que a discussão dialética se encontrava sempre presente.

Esta modalidade, que parece ter sido praticada por todas as escolas socráticas,

 

 “tem a vantagem de ligar as ideias aos homens que as enunciaram (Protágoras, Parménides), de fazer pressentir os conflitos latentes (Górgias, Ménon, onde intervém Anito, um dos acusadores de Sócrates), dar variedade e vida à exposição (como no Górgias e no Banquete, e no Protágoras com as suas mudanças de cenário)”.

 

Para não correr o risco de deixar de fora qualquer pormenor ou nuance do seu pensamento, torna-se indispensável transcrevê-lo na íntegra. Ouçamos um pouco como conversava connosco esse homem do século V antes de Cristo:

 

 

Suponhamos uns homens numa habitação subterrânea em forma de caverna, com uma entrada aberta para a luz, que se estendesse a todo o comprimento dessa gruta. Estão lá dentro desde a infância, algemados de pernas e pescoços, de tal maneira que só lhes é dado permanecer no mesmo lugar e olhar em frente: são incapazes de voltar a cabeça, por causa dos grilhões; serve-lhes de iluminação um fogo que se queima ao longe, numa eminência; por detrás deles entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente, ao longo do qual se construiu um pequeno muro, no género dos tapumes que os homens dos ‘robertos’ colocam diante do público, para mostrarem as suas habilidades por cima deles.

 

- Estou a ver – disse ele.

 

- Visiona também ao longo deste muro, homens que transportam toda a espécie de objetos, que o ultrapassam: estatuetas de homens e de animais, de pedra e de madeira, de toda a espécie de valor; como é natural, os que os transportam, uns falam, outros seguem calados.

 

- Estranho quadro e estranhos prisioneiros são esses de que falas – observou ele.

 

- Semelhantes a nós – continuei. – Em primeiro lugar, pensa que, nestas condições, eles tenham visto, de si mesmo e dos outros, algo mais que as sombras projetadas pelo fogo na parede oposta da caverna?

 

- Como não – respondeu ele -, se são forçados a manter a cabeça imóvel toda a vida?

 

- E os objetos transportados? Não se passa o mesmo com eles?

 

- Sem dúvida.

 

- Então, se eles fossem capazes de conversar uns com os outros, não te parece que eles julgariam estar a nomear objetos reais, quando designavam o que viam?

 

- É forçoso.

 

- E se a prisão tivesse também um eco na parede do fundo? Quando algum dos transeuntes falasse, não te parece que eles não julgariam outra coisa, senão que era a voz da coisa que passava?

 

- Por Zeus, que sim!

- De qualquer modo – afirmei – pessoas nessas condições não    pensariam que a realidade fosse senão a sombra dos objetos.

 

- É absolutamente forçoso – disse ele.

 

- Considera pois – continuei – o que aconteceria se eles fossem soltos das correias e curados da sua ignorância, a ver se, regressados a sua natureza, as coisas se passavam deste modo. Logo que alguém soltasse um deles, e o forçasse a endireitar-se de repente, a voltar o pescoço, a andar e a olhar para a luz, ao fazer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento impedi-lo-ia de fixar os objetos cujas sombras via outrora. Que julgas tu que ele diria se alguém lhe afirmasse que até então ele só vira coisas vãs, ao passo que agora estava mais perto da realidade e via de verdade, voltado para objetos mais reais? E se ainda, mostrando-lhe cada um desses objetos que passavam, o forçassem com perguntas a dizer o que era? Não te parece que ele se veria em dificuldades e suporia que os objetos vistos outrora eram mais reais do que os que agora lhe mostravam?

 

- Muito mais – afirmou.

 

- Portanto, se alguém o forçasse a olhar para a própria luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para buscar junto dos objetos para os quais podia olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade mais nítidos do que os que lhe mostravam?

 

- Seria assim – disse ele.

 

- E se o arrancassem dali à força e o fizessem subir o caminho rude e íngreme, e não o deixassem fugir antes de o arrastarem até à luz do Sol, não seria natural que ele se doesse e agastasse, por ser assim arrastado, e, depois de chegar à luz, com os olhos deslumbrados, nem sequer pudesse ver nada daquilo que agora dizemos serem os verdadeiros objetos?

 

- Não poderia, de facto, pelo menos de repente.

 

- Precisava de se habituar, julgo eu, se quisesse ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olharia mais facilmente para as sombras, depois disso, para as imagens dos homens e dos outros objetos, refletidos na água, e, por último, para os próprios objetos. A partir de então, seria capaz de comtemplar o que há no céu, e no próprio céu, durante a noite, olhando para a luz das estrelas e da Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e o seu brilho de dia.

 

- Pois não!

 

- Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar para o Sol e de o contemplar, não já a sua imagem na água ou em qualquer sítio, mas a ele mesmo, no seu lugar.

 

- Necessariamente.

 

-Depois já compreenderia, acerca do Sol, que é ele que causa as estações e os anos e que tudo dirige no mundo visível, e que é o responsável por tudo aquilo de que eles viam um arremedo.

 

 - É evidente que depois chegaria a essas conclusões.

 

- E então? Quando ele se lembrasse da sua primitiva habitação, e do saber que lá possuía, dos seus companheiros de prisão desse tempo, não crês que ele se regozijaria com a mudança e deploraria os outros?

 

-Com certeza.

 

- E as honras e elogios, se alguns tinham então entre si, ou prémios para o que distinguisse com melhor agudeza os objetos que passavam, e se lembrasse melhor quais os que costumavam passar em primeiro lugar e quais em último, ou os que seguiam juntos e àquele que dentre eles fosse mais hábil em predizer o que ia acontecer – parece-te que ele iria ter saudades ou inveja das honrarias e poder que havia entre eles, ou que experimentaria os mesmos sentimentos que em Homero, e seria seu intenso desejo ‘servir junto de um homem pobre, como servo da gleba’ e antes sofrer tudo do que regressar àquelas ilusões de viver daquele modo?

 

- Suponho que seria assim – respondeu -, que ele sofreria tudo, de preferência a viver daquela maneira.

 

- Imagina ainda o seguinte – prossegui eu -: se um homem nessas condições descesse de novo para o seu antigo posto, não teria os olhos cheios de trevas, ao regressar subitamente da luz do Sol?

 

- Com certeza.

 

- E se lhe fosse necessário julgar daquelas sombras em competição com os que tinham estado sempre prisioneiros, no período em que ainda estava ofuscado, antes de adaptar a vista – e o tempo de se habituar não seria pouco – acaso não causaria o riso, e não diriam dele, que por ter subido ao mundo superior, estragara a vista, e que não valia a pena tentar a ascensão? E a quem tentasse soltá-los e conduzi-los até acima, se pudessem agarrá-lo e matá-lo, não o matariam?

 

- Matariam, sem dúvida – confirmou ele.

- Meu caro Gláucon, este quadro – prossegui eu – deve agora aplicar-se a tudo quanto dissemos anteriormente, comparando o mundo visível através dos olhos à caverna da prisão, e a luz que lá existia à força do Sol. Quanto à subida ao mundo superior e à visão do que lá se encontra, se a tomares como a ascensão da alma ao mundo inteligível, não iludirá a minha expectativa, já que é o teu desejo conhecê-la. O Deus sabe se ela é verdadeira. Pois, segundo entendo, no limite do cognoscível é que se avista, a custo, a ideia do Bem; e, uma vez avistada, compreende-se que ela é para todos a causa de quanto há de justo e belo; que, no mundo visível, foi ela que criou a luz, da qual é senhora; e que no mundo inteligível, é ela a senhora da verdade e da inteligência, e que é preciso vê-la para se ser sensato na vida particular e pública.

 - Concordo também, até onde sou capaz de seguir a tua imagem”.

 

 

 

Neste fabuloso texto, Platão pretende basicamente dizer-nos que a realidade aparece diferentemente ao ser humano, conforme o grau de saber esforçado e constante por ele empregue para se aproximar do bem, (‘bem’, como fonte de toda a inteligência e da possibilidade do ser).

Para alem das ilações óbvias que têm sido retiradas desta Alegoria, será interessante atentar em alguns pormenores, tais como:

A caverna não ser fechada (se o fosse, então todo o mundo possível seria só aquele que a caverna pretende representar, sem qualquer razão de existência para além dele, portanto sem qualquer possibilidade de transcendência).

Na caverna haver luz (o que implica uma possibilidade de ver, uma possibilidade da inteligência humana se poder manifestar, portanto a possibilidade de um ato do espírito humano).

 Na caverna os prisioneiros ouvirem vozes (como os prisioneiros não sabem que essas vozes são as dos carregadores dos objetos, vão relacionar esses sons que ouvem com as sombras que veem, concluindo que são as sombras que falam; este é um ponto particularmente importante, pois trata-se da introdução da possibilidade do erro, com origem numa relação que não pode ser dada pelos sentidos: ver as sombras é verdadeiro, ouvir os sons é verdadeiro, mas ver sombras e conjugá-las com sons já não depende do conhecimento direto dado pelos sentidos, mas de uma mediação operada por meio de um juízo que escapa às possibilidades do que é possível naquelas circunstâncias apreender).

 Ser na caverna que a libertação do prisioneiro se inicia, sendo ele obrigado a voltar-se para a luz (a luz como fonte de salvação, do bem, do conhecimento, mas que ao ser contemplada por quem vivia na escuridão causava dor aos olhos do prisioneiro; ele tem de ser obrigado a contemplá-la, porque por ele próprio nunca poderia desejar algo de que não tinha tido nenhum conhecimento: é que o caminho para a inteligibilidade além de ser penoso, não é voluntário).

O prisioneiro ter de ser arrastado caverna acima para contemplar a luz do sol, significando que nenhum ser humano deixa por si só uma qualquer condição de menoridade lógica em que esteja instalado.

Após a contemplação do sol e do que o sol ilumina, o prisioneiro compreende infinitamente, torna-se sábio, e por isso mesmo resolve descer ao mais fundo da caverna para ajudar os outros prisioneiros a libertarem-se, não ficando com a sabedoria só para si.

 E vai tentar libertá-los, não à força como consigo fora feito, mas através da persuasão (será esta a função da filosofia), tentando tocar na inteligência dos seres humanos prisioneiros para que eles caminhem para a descoberta das possibilidades do conhecimento.

Para tal, era necessário que os prisioneiros acreditassem no que o sábio lhes vem propor, o que se torna manifestamente difícil: como poderão os prisioneiros acreditar em alguém que nem consegue discernir as sombras que existiam na caverna (devido á luz de que vinha imbuído, o sábio não consegue acomodar a sua nova visão cheia de luz à penumbra da caverna)?

 E dada a radicalidade da proposta do sábio (que altera na totalidade a maneira de estar, o modo do que se conhece e o que se conhece, a saída da caverna), se ela for seguida e não resultar, tal poderá resultar na morte dos prisioneiros; não é de admirar, que os prisioneiros ponham a hipótese de matarem o sábio!

 

 

Há todo um mundo de problemas que se podem pôr. Aquele que as interpretações clássicas consideram mais importante é o seguinte: se, enquanto estivermos na caverna, não soubermos o que é a verdadeira realidade, o que nos leva a rejeitar ou a matar quem nos disser que possui o conhecimento para nos conduzir para fora da caverna, como poderemos alguma vez vir a obter o conhecimento?

 

Ao longo destes 2.500 anos que transcorreram, variadas foram as tentativas de respostas ensaiadas, umas melhores que outras, mas todas elas tiveram, e têm, sempre como ponto de partida o problema posto por Platão.

 

 

Nota: ensinamentos colhidos nas aulas do professor Américo Pereira, da UCP.

 

 

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