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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(182) Elogio dos preguiçosos

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

 

A sobrevivência dos mais preparados, não significa a sobrevivência dos melhores, mas a dos mais adaptados. E neste caso, a sobrevivência dos mais preguiçosos, dos mais lentos.

 

“Um esforço maior no trabalho está associado a uma redução do bem-estar e a uma menor compensação da carreira”.

 

Governos e gestores têm agora um estudo científico, com base matemática, gráficos e tabelas, que lhes permite aumentar o bem-estar dos seus trabalhadores.

 

Há que trabalhar mais, melhor e, se possível, ganhar menos para que os empregos não sejam tomados por outros povos que também são seres humanos. Sempre preocupados com o nosso bem-estar. A Globalização como filantropia.

 

 

 

 

Em 2006, um grupo de investigadores da Universidade de Bangor (País de Gales, UK), recolheu ao largo da Islândia, 200 grandes ameijoas Mercenaria mercenária, vulgarmente conhecidas como quahogs ou chowder clams. Após congelá-las para posterior estudo, ao abrirem uma delas verificaram que tinham acabado de matar o ser vivo (apesar de já morto) mais idoso ainda existente que se conhecia, um animal com 507 anos.

 

Como se veio a confirmar posteriormente, esse bivalve tinha nascido em 1499, pelo que numa última homenagem entenderam dar-lhe um nome próprio, Ming, de acordo com a dinastia chinesa que detinha o poder na altura do seu nascimento.

 

 

 

Num recente estudo sobre o metabolismo, clima e macroevolução de moluscos, “Metabolic rates, climate and macroevolution: a case study using Neogene molluscs”, os investigadores Luke C. Strotz, Erin E. Saupe, Julien Kimmig, Bruce S. Lieberman, do Instituto da Biodiversidade da Universidade do Kansas e da Universidade de Oxford, (http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/285/1885/20181292), examinaram as conchas conservadas de 299 espécies desses moluscos  que viveram no Plistoceno há mais de cinco milhões de anos.

 

Comparando os ratios metabólicos para cada espécie, os investigadores verificaram que a utilização de energia (dispêndio) para 178 das espécies que já se encontravam extintas era completamente diferente das espécies que ainda hoje se encontravam vivas (note-se que as grandes ameijoas têm hoje uma vida média de cem anos).

Ou seja, os moluscos que queimavam mais energia nas suas vidas diárias eram mais propensos a terem vidas mais curtas que os seus primos menos energéticos que viviam nos habitats oceânicos.

Muito embora as causas para a extinção sejam variadas e complexas, o estudo aponta para a existência de uma relação entre a energia usada pelos animais para crescerem e manterem os tecidos dos seus corpos e o período de permanência dessas espécies na Terra.

 

“Quanto menor for a razão metabólica, maior a probabilidade de sobrevivência”.   O que vem dar novo alcance ao postulado Darwiniano de que na realidade a sobrevivência dos mais preparados, não significa a sobrevivência dos melhores, mas dos mais adaptados, e neste caso, a sobrevivência dos mais preguiçosos, dos mais lentos.

Ser preguiçoso pode ser uma estratégia evolucionária que adia a extinção das espécies.

 

Segundo o professor Liberman, “a explicação provável é que os animais que sejam mais preguiçosos ou mais lentos necessitem de menos energia e alimentos, o que lhes permite sobreviver quando os tempos são adversos”.

A investigação feita vai ajudar os conservacionistas a preverem melhor quais serão as espécies que desaparecerão primeiro quando, devido a uma alteração climática, a produção de alimentos for escasseando.  As próximas investigações debruçar-se-ão sobre a influência do metabolismo na probabilidade de extinção de outros animais, incluindo os que vivam em terra.

 

 

Também recentemente saiu um outro estudo da City University of London, efetuado por Avgoustaki, A. & Frankfort, J., sobre as implicações do esforço despendido no trabalho e sua relação com o bem-estar e influência na carreira profissional dos trabalhadores  (http://openaccess.city.ac.uk/20071/1/avgoustaki_frankort_ILRR.pdf).

 

Segundo os autores, o seu interesse teria sido despertado pelos números revelados pelo relatório do Trades Union Congress 2017, segundo os quais no Reino Unido, mais de cinco milhões de trabalhadores relataram ficarem a trabalhar para além das horas normais de serviço sem serem pagas, e pelo relatório do CBS - Statisics Netherlands 2017, sobre o que acontecia na Holanda, onde cerca de 36 por cento dos trabalhadores se queixavam do ritmo elevado de trabalho que eram obrigados a manter.

Quiseram então saber como é que estas duas condições de trabalho se repercutiriam no bem-estar dos trabalhadores, e como afetariam a possível progressão na carreira.

Assim, recolheram aleatoriamente dados numa amostra de 51.895 trabalhadores empregados em todas as indústrias e empregos de 36 países europeus, com informação detalhada respeitante a tipos de esforço no trabalho (quer em tempo que o empregado trabalha para além das horas normais, quer na intensidade com que o faz) e qual a sua interação e relação com os principais indicadores de bem-estar (fadiga, stress, satisfação no trabalho) e de perspetiva de progressão (perspetiva de carreira, segurança no trabalho, reconhecimento).

São conclusões do estudo:

 

Um esforço maior no trabalho está associado a uma redução do bem-estar e a uma menor compensação da carreira”.

“Esta conclusão também se aplica para os empregos de nível superior”.

“Entre os vários tipos de esforço no trabalho, a intensidade do trabalho é o que conduz à situação mais gravosa […] A grandeza dos efeitos da intensidade do trabalho converge com as sugestões já conhecidas e expostas em vários artigos que tratam do assunto, segundo os quais a intensidade do trabalho pode constituir uma maior ameaça ao bem-estar do trabalhador do que o trabalho para além das horas normais”.

 

Bem intencionadamente, os autores supõem que este seu estudo irá permitir aos gestores e ao governo, o desenvolvimento de estratégias que melhor estimulem o esforço produtivo e sustentável para a força de trabalho. Ou seja, governos e gestores têm agora um estudo científico, com base matemática, gráficos e tabelas, que lhes permita aumentar o bem-estar dos seus trabalhadores.

 

Evidentemente, haverá outras considerações certamente mais importantes que têm levado os governos e gestores a terem passado da “semana inglesa” (sem trabalho aos fins de semana), para o trabalho aos sábados, e depois aos domingos e feriados, para os turnos de laboração contínua, e que não são contempladas neste e outros estudos que o antecederam: trata-se do grande problema (dever) que os governos, empresários e gestores têm para melhorarem as condições de vida de todo o planeta, criar condições para que a economia possa sustentar toda a humanidade.

É exatamente por essa visão mais alargada que têm sobre a economia no mundo, que estes e outros estudos por mais científicos e bem intencionados que sejam, serão sempre considerados parcelares, e que não irão nunca alterar a “filosofia” subjacente dos governos, empresários e gestores, segundo a qual há éque trabalhar mais, melhor e, se possível, ganhar menos para que os empregos não sejam tomados por outros povos que também são seres humanos. Sempre preocupados com o nosso bem-estar. A Globalização como filantropia.

 

Além do mais, não estão ainda esgotadas todas as possibilidades que permitem aumentar o ritmo de trabalho e concentração dos trabalhadores. Para além dos “remédios” aprovados para aumentarem o grau de concentração (ex. Ritalina, Adderall), têm continuado a aparecer no mercado cada vez maior número de produtos não regulamentados, as chamadas “smart drugs”, cuja utilização tem vindo a expandir-se a um ritmo quase exponencial, como nos mostram Larissa J. Maier, Jason A. Ferris e Adam R. Winstock, no seu estudo “Pharmacological cognitive enhancement among non-ADHD individuals—A cross-sectional study in 15 countries” (https://www.ijdp.org/article/S0955-3959(18)30156-7/fulltext).

 

 

 

Já agora, um pequeno esclarecimento para aliviar o sentimento de “culpa” que os investigadores que congelaram a Ming possam ter sentido, pois poderia ter sido muito pior: há espécies que vivem muito mais tempo, como as esponjas de vidro, Hexactinellida, que atingem 15.000 anos.

 

Aliás, o próprio conceito de idade não pode ser definido assim tão linearmente. Veja-se o caso de algumas alforrecas, as turritopsis dohrnii, que podem ser consideradas imortais: em vez de simplesmente morrerem, revertem para um estágio anterior do seu ciclo de vida, pelo que não se pode verificar a sua idade. A Ressurreição permanente.

 

 

 

 

 

 

(181) A verdade da mentira ou a mentira da verdade

Tempo estimado de leitura: 15 minutos.

 

Me engana que eu gosto”, expressão popular brasileira.

 

Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim”, estrofe do hino da Mocidade Portuguesa.

 

O problema não é porque haja o perigo de se destruir o habitat dos ursos polares. O problema é haver ursos polares a mais”, Senador James Inhofe (R-Okla.).

 

O que é a verdade?”, Pôncio Pilatos.

 

Pensar continua a ser muito mais rico e complexo que calcular.

 

 

 

Se tivermos em conta o que sucedeu a Jesus Cristo, a Júlio César e a outros personagens da história como, por exemplo, ao lusitano Viriato, poderemos ser levados a concluir que a traição pode possivelmente constituir uma das caraterísticas do ser humano, sempre pronta a ocorrer quando menos se espera, ou obedecendo a desígnios específicos. Se à traição adicionarmos o assassinato, como o ocorrido nos casos em questão, iremos certamente dar aso ao aparecimento de interessantes e importantes teorias explicativas, como a da “traição nobre” e da “astúcia da razão”.

É assim que se diz que Júlio César deveria morrer para permitir o surgimento do “conceito universal”. Neste caso a traição do indivíduo é feita em nome de uma Ideia mais elevada, em que César devia morrer para salvar a República. Fala-se até a propósito, da existência na história, de uma “astúcia da razão”, porquanto existe como que uma pequena vingança na medida em que o nome individual de César vai depois aparecer como título universal de “césar”.

Com Cristo acontece o mesmo: fazendo a traição parte do desígnio divino, Cristo obrigou  Judas a traí-Lo  para que o desígnio se cumprisse.

Só que no caso de César, ele era em primeiro lugar um nome, e devia morrer como tal, como indivíduo singular, para poder emergir como um conceito universal (“césar”), ao passo que Cristo já era em primeiro lugar um conceito universal (“Jesus Cristo, o Messias”) e, pela sua morte, torna-se um ser singular, “Jesus Cristo”.

 

 

Quando pensamos em Índios, as imagens que nos aparecem são a de figuras meio desnudas com colares e enfeites coloridos de plumas e pequenas contas azuis e vermelhas, montando cavalos correndo ao longo de pradarias infinitas na perseguição de bisontes, armados com flechas ou espingardas, tendas cónicas desmontáveis, e, conforme os casos, vivendo uma vida idílica perfeitamente integrada na natureza ou, matando indiscriminadamente os “brancos” que não fossem de “pele vermelha”.

Esta visão que temos foi construída em grande parte pelos filmes do far-west e pela variante da noção do “Bom Selvagem” de Rousseau.

 Curiosamente, o conceito do bom selvagem como primitivo que vive num mundo fora do tempo, alheio ao ‘nosso’ tempo, indivíduo puro e bondoso, vivendo em comunhão com a natureza, triunfa na mesma época em que se acentuava a perseguição, escravização e exploração que conduzia ao extermínio desses mesmos índios: o índio como o mau selvagem, montando cavalos e matando colonos.

E, no entanto, só a partir de 1680 é que os índios passaram a ter cavalos, pois esse foi o ano em que conseguiram roubar várias manadas aos espanhóis. Na América de então não havia cavalos: tal como os ‘brancos’ foram todos importados da Europa.

A partir daí, tribos que durante séculos se tinham dedicado ao cultivo de milho nas margens dos rios tornaram-se caçadoras de bisontes. Homens caçadores a cavalo passaram a ter privilégios sobre as mulheres agricultoras. O domínio do cavalo favorecia a guerra e a competição pela supremacia heroica. A grande abundância de carne e de peles de bisonte acumuladas vai facilitar o comércio.

 Com o comércio vão chegar os metais (as pontas das flechas passaram a serem feitas de cravos ou de aros metálicos de barris vindos de Inglaterra, os discos de metal polido que enfeitam as vestes dos chefes guerreiros são feitos de botões baratos fabricados em série na Alemanha), os ornamentos coloridos (as pequenas contas vermelhas e azúis tão caraterísticas dos colares e enfeites que sempre julgámos fazer parte da cultura autóctone vinham de Murano, Veneza), as espingardas (escusado dizer de onde vieram) e as doenças (as grandes epidemias provocadas de varíola de 1801/2 e de 1830 levam à destruição de tribos inteiras).

 

Em apenas dois séculos, todo este mundo vai desaparecer com a vitória definitiva do exército dos Estados Unidos, dos colonos, dos ganadeiros e dos empresários dos caminhos-de-ferro. Talvez mais visível aos nossos olhos seja a enormidade da extinção que, concomitantemente, se verificou nas manadas de bisontes: em menos de um século, passaram de trinta milhões para menos de meia dúzia de milhares em 1895.

Mesmo a tão celebrada ‘dança dos espíritos’ sempre presente nos filmes de índios, só aparece em 1890, quando Wokoka, um profeta da tribo dos lakota anunciou a vinda de um messias que exterminaria todos os homens brancos, e que faria também reaparecer as grandes manadas de bisontes. Para acelerar a sua vinda haveria que dançar até à exaustão a “dança dos espíritos”. The End.

 

 

Ainda hoje muitos portugueses se consideram descendentes em linha reta dos Lusitanos e de Viriato, o que pressupõe o orgulho de um povo na sua “raça pura” ligada ao deus grego Luso.

Os Lusitanos eram um bando de salteadores com enorme apego à terra, como foram todos os que naquela época faziam parte da cultura “castreja” (dos “castros”, pequenos redutos defensivos circulares em elevações de terreno, que serviam também de habitação). A sua organização social assentava na comunidade familiar, cuja economia tinha por base a pastorícia, a agricultura atribuída às mulheres, e o roubo ou a guerrilha, atribuído aos homens. A hierarquia familiar era patriarcal e monogâmica. As suas incursões eram sempre feitas por pequenas guerrilhas, que pressupunham uma primitiva organização de mando com base no prestígio de um chefe.

Aquelas terras da região a norte do Tejo tinham sido inicialmente ocupadas pelos Vetões, Túrdulos e Turdetanos, sendo posteriormente conquistadas pelos Lígures e Celtas, de cuja fusão resulta a cultura castreja. Os Portugueses não são um povo de raça pura, resultando antes de uma miscigenação de várias etnias agregadas posteriormente pela romanização e cristianização. E mais tarde pela africanização.

 

            “Sebastianismo” e “Quinto Imperio” são outras caraterísticas consideraras como eminentemente portuguesas, expressas na Monarquia Lusitana de Frei Bernardo de Brito e na História do Futuro do Padre António Vieira.

Frei Bernardo de Brito expõe a presunção da fundação de Lisboa ter sido feita por Ulisses e apresenta o milagre de Ourique como evidência que Deus, como fundador e distribuidor de impérios, pretendeu através dele dar um Reino a Afonso Henriques, assinalando assim não só a origem divina do reino, mas também que o povo português estaria destinado a defender a fé católica.

 Para o Padre António Vieira, D. João IV seria o rei indicado para cumprir a promessa do Quinto Império (o Império Romano tinha sido o Quarto) no qual todos os homens se converteriam ao catolicismo com a instauração do Reino de Cristo na Terra. Quando em 1656 D. João IV morre, Vieira não desiste e afirma que ele vai ressuscitar, indo depois transferindo sucessivamente essa crença sebastianista para D. Afonso VI, D. Pedro II e D. João V.

 

            A alegria do povo trabalhador, as festas de Alfama, as guitarradas, o manuelino, os campinos, as varinas, Aljubarrota, e mais outras particularidades que se nos impõem como caraterísticas exclusivamente portuguesas, são também igualmente aproveitadas e exibidas, como a quando do itinerante V Congresso da Crítica Dramática e Musical que o incansável António Ferro organizou em setembro de 1931. Retiro dos participantes (pagos para cá virem, evidentemente) no Congresso algumas considerações a propósito:

 

“[…] acabámos de viver em Portugal um conto de fadas, e esse conto de fadas era uma plena, sólida, deslumbrante realidade. […] O encantamento … na festa popular de Alfama […] Tinham dito àquela boa gente, que é gente muito pobre, pescadores, marinheiros, varinas (vendedoras de peixe, de braços no ar, a carga à cabeça, pés descalços): “Se receberem bem o Congresso, lá fora vão gostar de Portugal”. E eles, com essa ingenuidade popular que enternece, tinham enfeitado o melhor que podiam as suas ruelas com luzes e flores, tinham pendurado grinaldas por todo o lado e, tinham estendido os seus velhos xailes às janelas; e, sobretudo, tinham vindo eles próprios, à hora do sono, aos milhares, enchiam as praças com uma multidão alegre, e cantavam e dançavam. “Viva a França!” gritavam com entusiasmo”, Fernand Gregh.

 

O viajante que vier a Lisboa pela primeira vez ficará extremamente surpreendido ao deparar com contrastes inverosímeis: mesmo ao pé das lojas, cafés ou escritórios iguais em tudo aos nossos, há antros miseráveis onde, em arcaicas balanças, se pesa o fedorento bacalhau; arcadas decrépitas onde se amontoam cestos toscos; pregos onde estão pendurados, à laia de terços, vasinhos e outros recipientes de barro de feitura primitiva; mercearias esquálidas onde talhas de argila ressumam para o chão um azeite de cheiro áspero, vendido por uma espécie de pirata hirsuto de mãos sujas e chinelos acalcanhados. No meio da rua, às mesas dos cafés ou em inúmeros vãos de escada destinados a essa exigência, uma boa metade da população, a qualquer hora do dia, estende os seus sapatos a um exército de engraxadores que com incrível destreza os transforma, num abrir e fechar de olhos em espelhos luzidios. Do marçano mais humilde ao diretor do banco, todos parecem afetados por esta patológica coquetaria da engraxadela incessante.

Pelo contrário, a outra metade da população anda descalça, coberta de trapos inenarráveis. E, embora pareça haver um decreto que proíbe andar descalço, a tradição e o hábito são mais fortes do que a lei, e perante o número de transgressores torna-se impossível fazê-la respeitar.

[…] As mulheres do povo, vestidas com uma saia ampla e às pregas, sustida por uma faixa espessa, com um xaile atado sobre o peito e um lenço na cabeça com a ponta graciosa a esvoaçar sobre a nuca, todas levam indistintamente uma carga em equilíbrio sobre a cabaça. Enormes cântaros de barro ou grandes cestas chatas, sem bordos, a transbordarem de peixe fresco salpicado de sal cinzento […] mesmo quando não leva nada, conserva por hábito no cimo da cabeça a rodilha de trapos que lhe servia para manter os pesos em equilíbrio. O que lhe confere ao andar uma cadência harmoniosa, um ritmo cheio de elegância, uma graça muito particular que se perderia irremediavelmente se os seus pés estivessem calçados.”, Gaston-L. Huysmans.

 

Vi em Vila Franca a caça aos touros selvagens. Cenas interessantíssimas, muito fortes. Aqui vive-se numa perpétua exaltação dos ânimos. Mas é um povo verdadeiramente hospitaleiro e generoso.”, Pirandello.

 

                                      

 

O que é verdadeiramente estranho é como ao longo dos tempos se tenha visto o que lá não está e também que se não tenha visto o que lá está. Perante esta caraterística do ser humano, S. Paulo anotou que “Caminhamos guiados pela fé e não pelos nossos olhos”, como se os olhos se negassem a ver aquilo que os incomodava.

Como entender que Aristóteles afirmasse que as mulheres tinham menos dentes que os homens? Por que tal estava de acordo com a sua teoria sobre a inferioridade das mulheres?

 

            Por volta de 1840, o cirurgião suíço Ignaz Semmelweis, concluiu que se lavasse as mãos antes de proceder a um parto, as mães morriam muito menos de febres purpurais. Comunicou isso aos seus colegas, que saíam da sala de autópsias diretamente para os partos, com a mesma roupa e sem lavarem as mãos. Perante a insistência de Semmelweis, os colegas escarneceram dele e passaram a boicotá-lo. Sentiram-se ofendidos, porquanto o procedimento de lavar as mãos e mudar de roupa pressupunha duvidar da limpeza do médico, o que era o mesmo que duvidar dos seus conhecimentos e honra. Semmelweis morreu poucos anos depois, pobre e desacreditado.

 

            Vários poderão serem os fatores que contribuem para esta cegueira, como o instinto gregário, a preguiça, a soberba, a cobardia, a propaganda, a publicidade, fatores estes que tornam algumas pessoas mais predispostas para não verem a realidade. Mas há também pessoas e instituições que se dedicam profissionalmente a favorecerem essa cegueira, explorando a mentira.

 

O caso mais evidente é o das grandes tabaqueiras americanas, que sabendo previamente da toxicidade do tabaco, dos seus efeitos cancerígenos e aditivos, resolveram ocultar o que sabiam. Era vulgar nos anos cinquenta aparecerem, em anúncios na televisão, médicos com bata branca a fumarem e a defenderem os benefícios do tabaco. (https://www.youtube.com/watch?time_continue=8&v=Sbrqm0Jt7q4).

 

Quando já não lhes foi possível ocultar o que sabiam, desenvolveram então uma tática que lhes custou biliões, e que continua hoje a ser aplicada por todos aqueles que lucram com a mentira: demonstrar que os dados científicos não são conclusivos, que muitos cientistas não concordam com eles, exprimindo opiniões diferentes, podendo portanto terem mais do que uma interpretação.

Entretanto morreram milhões de pessoas devido ao tabaco e é como se nada tivesse acontecido. Tive um instrutor na Força Aérea que eu julgava que era um cretino, que me dizia “Cagando e andando e nem se olha para trás para tapar”. Enganei-me: afinal era um filósofo.

 

Esta mesma técnica de descrédito é a que está a ser aplicada ao problema do aquecimento global ligado ao consumo de combustíveis fósseis que expulsam para a atmosfera grandes quantidades de dióxido de carbono e metano.

Primeiro começam por negar a mudança climática; depois batem na tecla da dúvida dizendo que as coisas não são assim tão claras, que existem discordâncias entre cientistas, que há outras formas de ver o assunto.

Esta técnica de apresentar sempre as duas maneiras de encarar os problemas são as que passam a ser utilizadas e reproduzidas nos debates a dois que a televisão pressurosamente nos presenteia: de um lado os que defendem a evolução e do outro os que defendem o criacionismo, de um lado os que defendem a astronomia e do outro os que defendem a astrologia, etc., ou seja, tudo igualmente respeitável. E tudo em nome da liberdade. E se não bastar, como último refúgio acena-se com o critério jornalístico, subjetivamente intocável.

 

É assim que a Exxon Mobile, ao mesmo tempo que gasta centenas de milhões a pagar aos seus cientistas e comentadores charlatães que defendem que não existe nenhuma mudança climática, também assina um acordo com a Rússia para que possa vir a explorar as futuras jazidas de petróleo no Ártico que venham a resultar da fusão dos gelos polares devido ao aquecimento global.

                                              

                                             

 

Para além das considerações sobre o que é a condição humana há aqui um problema comum que tem a ver com o que é a verdade, ou seja, com a qualidade que as proposições têm de ter para estarem de acordo com a realidade.

Conta-se que Pôncio Pilatos, depois de ouvir as várias versões do que lhe diziam ser a verdade sobre Jesus Cristo, exclamou interrogando e interrogando-se: “O que é a verdade?” E, de seguida lavou as mãos. Não temos, portanto, o seu testemunho.

Ao passo que para a ciência o que interessa é saber que as conclusões a que chega sejam verdadeiras, para a filosofia o problema é o de saber o que é a verdade. O que é que queremos dizer quando estamos a dizer que uma coisa é verdadeira?

 

Se o que procuramos é saber qual é a natureza da verdade, o que queremos é refletir sobre a essência das coisas, e aí estamos no campo da ontologia.

Se o que procuramos é saber como poderemos alcançar a verdade, então o que queremos é refletir sobre a possibilidade do conhecimento.

Se o que procuramos é saber qual o sentido da verdade, então estaremos no campo da semântica (significado) e da filosofia da linguagem.

Se o que procuramos é saber quais são as condições que garantem a verdade, o que pretendemos estudar é a lógica.

 

 

Tudo começou quando a palavra passou a ser escrita, uma forma que se acreditava mais duradoura e precisa. Por definição, a linguagem que falamos (“linguagem natural”) é “um sistema de expressão verbal do pensamento, com um vocabulário e gramática definidos, relativamente fixos, constituindo uma instituição social duradoura, que se impõe”.

Esta linguagem natural que nos aparece como simples e intuitiva é antes o resultado de um enorme esforço de aprendizagem individual ao longo de vários anos, para além dos muitos séculos ao longo dos quais se foi formando.

Uma sua caraterística espantosa vem do fato de aprendermos a falar sem ser necessário aprendermos as regras gramaticais e os termos que a regem. Não foi necessário sabermos o que era um substantivo, um verbo ou um adjetivo, para falarmos.

Outra sua caraterística única é a que está relacionada com o desenvolvimento de uma estranha sensibilidade que nos permite distinguir entre várias interpretações possíveis de uma mesma frase. Assim, quando dizemos “o Mário é um velho amigo” conseguimos discernir, sem acrescentar mais nada, se se trata de um amigo antigo ou de um amigo com muita idade.

Temos, contudo, de concordar que a linguagem é sujeita a induzir ambiguidades, imprecisões e dúvidas. Várias foram as tentativas feitas para evitar que tal acontecesse, para uma melhor clarificação do raciocínio. De certa maneira, é a gramática vai permitir que se perceba porque é que determinadas frases exprimem melhor que outras certos pensamentos, possibilitando ainda uma comparação entre várias frases.

A gramática dá-nos a possibilidade de escrevermos corretamente, de acordo com as regras impostas que impusemos, mas o fato de uma frase estar correta não é só por si condição necessária e suficiente para ser verdadeira, ou corresponder à verdade.

 

Aristóteles é dos primeiros a tentar resolver este problema do que é verdadeiro e do que é falso quando escreve:

 “Dizer do que é que não é, ou do que não é, que é, é falso. Dizer que o que é é, e o que não é não é, é verdadeiro”.

Constrói depois a sua célebre doutrina do silogismo (forma de raciocínio dedutivo) e a da análise da estrutura das proposições, classificando-as já em quatro tipos, de acordo com a sua quantidade (universais ou particulares) e a sua qualidade (afirmativas e negativas).

Na base do seu raciocínio, uma sentença, uma frase, uma proposição, só é verdadeira se ela corresponder a um facto existente. Por exemplo: a frase ‘a neve é branca’ é considerada como verdadeira devido ao facto de a neve ser branca corresponder a uma certa realidade do mundo exterior, que é o da neve ser branca. Ou seja, uma coisa é verdadeira quando corresponde à ideia que temos dela. A verdade é correspondência ou adequação. Daí esta teoria ser dita teoria da correspondência.

A base desta teoria, embora sofrendo alterações ao longo dos séculos (a verdade passa a ser identificada e relacionada com a coerência, ou com a utilidade, ou com a satisfação, ou com outros), só vem a ser verdadeiramente posta em causa no século XX.

Até aí, todas essas teorias, embora com designação própria (Alfred Tarsky e a teoria semântica da verdade, Bradley e Brand Blanchard e a teoria da coerência, Dummet e Putnam e a teoria intuicionista da verdade, Charles Peirce, John Dewey e W. James e a teoria pragmática, e muitos outros) são teorias da correspondência, pois todas elas assentam no conceito da verdade segundo a qual a proposição de que a neve é branca e se a neve for branca, de que é verdade que mentir é errado só e se mentir for errado, e daí por diante.

Como este princípio é limitado e insuficiente, complementam-no com outros princípios para que os façam corresponder à realidade, à verificabilidade, ou que sirvam de base para uma ação. Ou seja, todas estas teorias tradicionais podem ser incluídas na formulação genérica de que ‘X é verdade só e se X tiver a propriedade P’.

 

A teoria silogística de Aristóteles atinge o seu apogeu nas universidades medievais dos séculos XII a XIV, onde a partir de um conjunto de princípios admitidos como verdadeiros, por um processo dedutivo, procurava-se encontrar explicação para tudo.

Lembremos o português Pedro Hispano, que viria a ser o futuro papa João XXI, por ter escrito o tratado de lógica mais difundido por toda a Europa até ao século XVI, as Summulae logicales e ainda as sistematizações de Guilherme de Ockham (que serviu de modelo ao franciscano Guilherme Baskerville em O nome da rosa).

 

Contudo, a silogística baseada no raciocínio dedutivo fez pouco pela descoberta científica. Com o raciocínio indutivo (inferência) não vamos chegar à verdade diretamente, mas através de um processo que nos leva do que julgamos já saber para o que ainda não sabíamos.

 É o caso de num jogo de cartas ‘sabermos’ que certa carta só pode estar nas mãos de uma pessoa, depois de termos ponderado e analisado todas as possibilidades, se o fizermos dentro das regras possíveis do jogo. Diremos então que o raciocínio que seguimos é válido.

A validade nada nos diz sobre a realidade das coisas, mas apenas sobre o modo como as proposições se ligam. A validade deriva do uso correto das regras de inferência que nos permitem alcançar conclusões a partir de premissas. A verdade não está na afirmação ou na coisa, mas na correspondência entre ambas. Verdade e validade são conceitos diferentes: a verdade diz apenas respeito a afirmações, a validade aplica-se apenas a raciocínios.

 

Aristóteles já se tinha apercebido deste facto de os nossos raciocínios poderem ser analisados sem ter em conta o seu conteúdo. Esta ideia levou Leibniz (século XVII) a procurar um sistema lógico universal que exprimisse o que pensamos através de cálculos algébricos.

Inventou o sistema de notação com 1 e 0, que mais tarde, cerca de trezentos anos depois, vai servir para a computação informática. O problema principal que Leibniz teve de enfrentar foi o de pretender identificar a verdade lógica com a verdade ontológica.

Mesmo depois de ter estabelecido um sistema de símbolos e regras para a formação de proposições válidas, o que encontrou foram regras de validade e não regras de verdade. Pensar continua a ser muito mais rico e complexo que calcular.

 

Só no século XX é que George Boole conseguiu tratar a lógica como um cálculo de signos algébricos, o que veio a possibilitar o aparecimento do desenho dos circuitos nos computadores. Morgan estabelece as leis sobre a validade da lógica formal e, Frege, introduz o uso de quantificadores e do cálculo dos predicados. O uso dos símbolos vai permitir a possibilidade de um automatismo na lógica, com a sua aplicação na inteligência artificial.

A lógica passa a ser entendida como o estudo das leis do pensamento ou das condições formais da verdade ou das formas válidas de raciocínio. Este estudo da validade tem por objetivo o estabelecimento das condições que garantam a correção dos raciocínios.

 Assim, a lógica não é mais o modo como as pessoas efetuam os raciocínios, mas antes uma gramática que estabelece as normas para que o raciocínio seja válido. A validade é uma propriedade dos raciocínios e não das proposições; a verdade é uma propriedade das proposições.

E mesmo assim, nem sempre os dois valores de verdade das proposições, a saber ou o 1 (verdade) ou o 0 (falso) podem corresponder a todas as situações.

É por exemplo, o caso da proposição: “O rei dos Estados Unidos é democrata”. Embora o raciocínio seja válido, a proposição não poderá ser considerada nem verdadeira nem falsa!

Brouwer e Heyting sugerem para estes casos em que a proposição é meia verdadeira e meia falsa, a utilização de um valor de ½ para além do 1 e 0. E a partir daqui é sempre possível generalizar os valores de verdade em lógicas polivalentes, atribuindo-lhes matrizes de n x n!

 

                                                    

A verdade pode, portanto, ser entendida de diferentes maneiras e expressar-se de muitas formas. A verdade pode ser entendida como adequação e correspondência, como coerência, conformidade, revelação ou utilidade, como gramática, semântica ou pragmática. Pode ser material ou formal, analítica ou sintética. Pode ser reconhecida como finita ou infinita, deste mundo ou de outro, perecível ou eterna. Pode existir no mito ou na demonstração matemática, pode ser simbólica ou factual, ideal ou real, pode estar dentro ou fora de nós, mas para quem acredite que a história da humanidade é uma busca da verdade (e da sua ocultação), não é possível pensar que não existe: ela será sempre uma meta do conhecimento humano.

 

E, contudo, ela só existe porque nós emitimos juízos sobre o mundo. Se apenas houvesse mundo e não o pensamento, não se levantaria esta questão da verdade.

Se não fosse a Eva a mostrar ao Adão a linda maçã da árvore do conhecimento, provavelmente estes problemas relacionados com a verdade não existiriam: continuaríamos a viver no Paraíso, aquele local onde não se falava, não se elaboravam raciocínios, onde o sexo não tinha qualquer conotação moral ou prazenteira, onde não necessitávamos de andar vestidos sem ser com o pouco decente vestuário da inocência (só viemos a saber que era indecente depois de termos tido acesso ao conhecimento proporcionado pela maçã). Quisemos pensar e foi isto!

 

Podemos, pois, gozar e glosar, ou seja, fazer arte, com belas frases sobre a mentira da verdade ou sobre a verdade da mentira. Necessário é que elas possam originar matrizes computacionais que nos digam, ou que sigam de acordo com o progresso, que é exatamente o que nos dizem que é. E se não é, devia de ser.

Talvez a mentira possa por vezes ser verdade e a verdade possa por vezes ser mentira, o Paraíso possa por vezes ser o Inferno, e o Inferno possa por vezes o Paraíso.

 

(180) Serena Bolton Simpson

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Você é um ladrão. Você nunca mais dirigirá um encontro meu por mais que viva. Quando é que me vai pedir desculpa? Peça-me desculpa! Serena Williams.

 

Nós não cooperaremos com o ICC. Nós não daremos qualquer assistência ao ICC. Não nos juntaremos ao ICC. Deixaremos que o ICC morra por ele próprio. Em qualquer dos casos, o ICC é já um morto ara nós, John Bolton.

 

O. J. Simpson foi absolvido, não pelo facto de ser um negro como muitos quiseram fazer crer, mas porque que era rico e com poder.

 

 

 

Serena

 

Na última final de ténis feminino do US Open disputada em Flushing Meadows, NY, o árbitro português Carlos Ramos, aplicando os regulamentos em vigor, entendeu admoestar Serena Williams por o seu treinador, Patrick Mouratoglou, estar a dar-lhe indicações a partir do seu lugar na tribuna, como se viu nas imagens e ele próprio admitiu.

Serena não aceitou de bom grado a admoestação, dizendo:

Você deve-me um pedido de desculpas. Eu nunca na minha vida aldrabei! Tenho uma filha e eu luto por aquilo que é o correto para ela. Eu não aldrabo para ganhar. Prefiro antes perder”.

Logo de seguida, após perder uma jogada, atirou violentamente a raqueta ao chão, quebrando-a. O árbitro, ainda de acordo com o regulamento, retirou-lhe um ponto, pelo que o próximo jogo começou logo com 15-0 a favor da oponente, Naomi Osaka.

Serena, após ter perdido esse jogo, dirigiu-se então ao árbitro, dedo em riste, gritando-lhe:

 

Você é um ladrão. Você nunca mais dirigirá um encontro meu por mais que viva. Quando é que me vai pedir desculpa? Peça-me desculpa.”

 

Depois do encontro terminado, e na conferência de imprensa, Serena apresentou variados argumentos:

 

Já vi vários homens chamarem outras coisas a outros árbitros … Eu estou aqui para defender os direitos das mulheres e para a igualdade das mulheres e outras coisas semelhantes.”

“Para mim dizer “ladrão”, e para ele retira-me um jogo, fez-me sentir uma humilhação sexista. Ele nunca retiraria um jogo a um homem por ele lhe chamar “ladrão”.

 

Ou seja, utilizou todos os argumentos que considerou como validamente superiores ao estrito cumprimento dos regulamentos em vigor. Na base dessa atitude parece residir aquela arreigada convicção de que os regulamentos, a existirem, deveriam sempre dependerem do critério de quem os aplicasse, caso a caso, arbitrariamente, ao gosto de cada um dos eleitos.

O que está plenamente de acordo com o que se passa nos Tribunais que arbitrariamente decidem sobre a concessão (ou não) do direito de voto dos cidadãos americanos a quem tenha sido retirado esse direito, como por exemplo  pelo simples facto de terem sido presos por não pagarem uma multa, e que mesmo depois de terem pago a multa e serem libertados, continuam a aguardar o restabelecimento dos seus direitos. (Favor ver o “Last Week Tonight” de John Oliver https://www.huffingtonpost.com/entry/john-oliver-florida-felon-voting_us_5b95edd6e4b0511db3e3be4f).

 

O único argumento que Serena (ironia de nome) não utilizou foi o racial.

 

 

Bolton

 

O Tribunal Penal Internacional (International Criminal Court, ICC) sediado em Haia, Holanda, foi instituído em 2002 pelo Tratado de Roma. Muito embora tenha sido assinado por 139 países, os Estados Unidos, a Rússia, Bahrain, Israel, Kuwait, Tailândia, Ucrânia e Iémen, apesar de o assinarem nunca o ratificaram. Note-se que a China, Índia, Indonésia, Iraque, Líbano, Malásia, Nepal, Paquistão Sudão Sul e Turquia, nem nunca o assinaram.

O ICC, após ter recebido 1,17 milhões de queixas fundamentadas respeitantes ao abuso de direitos humanos (crimes de guerra) efetuados no Afeganistão só em 3 meses, atribuídas aos Talibans, ao Estado Islâmico, às forças de segurança Afegãs e à coligação de forças lideradas pelos EUA, está a preparar-se para fazer uma investigação formal a esses alegados crimes de guerra cometidos pelas forças americanas no Afeganistão.

 Ainda a propósito dos recentes acontecimentos em Gaza, alguns países pretendem também levar Israel a responder por crimes de guerra perante o ICC.

Jonh Bolton, o nomeado Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, expressou a opinião dos EUA sobre estes assuntos ( https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/protecting-american-constitutionalism-sovereignty-international-criminal-court/):

 

Os Estados Unidos usarão todos os meios necessários para protegerem os nossos cidadãos e os dos nossos aliados das perseguições injustas desse tribunal ilegítimo.

Nós não cooperaremos com o ICC. Nós não daremos qualquer assistência ao ICC. Não nos juntaremos ao ICC. Deixaremos que o ICC morra por ele próprio. Em qualquer dos casos, o ICC é já um morto ara nós”.

Sobre Israel, “Os Estados Unidos estarão sempre ao lado do nosso amigo e aliado, Israel”.

 

E avisa que os Estados Unidos consideram proceder à utilização de sanções contra os juízes, procuradores e todos os que cooperarem com a averiguação de tais provas, podendo inclusive chegar a proibir a sua entrada nos EUA, congelar as suas contas, e julgá-los em tribunais americanos.

 

É importante notar que tais atitudes perante o ICC não são exclusivas da administração Trump. Elas têm sido o princípio norteador da política americana, a começar com Bill Clinton que, tendo-o assinado, aconselhou ao seu sucessor G. Bush a não ratificação do acordo assinado, Obama também não o ratificou, e Trump continua a linha eminentemente americana e que parece corresponder aos desejos do povo: os acordos e tratados só são de respeitar se forem do interesse (o que quer que isso seja) americano.

 E neste caso, parece claro que a nação mais poderosa do mundo não permita que qualquer cidadão americano possa vir a ser julgado a não ser por um tribunal americano. Da mesma forma, arroga-se o direito de ir buscar qualquer cidadão de outro país que seja considerado como tendo cometido crimes contra os EUA, para serem julgados por tribunais americanos, ou até colocados num limbo judicial (Guantánamo), ou mesmo mortos.

As regras são as deles: se os outros estiverem de acordo, muito bem. Se não estiverem, problema deles. A isto chama-se “O Império”.

 

Portanto, se o ICC quiser tentar investigar a possibilidade de crimes de guerra, ou chegar mesmo a considerar culpadas as forças dos EUA, para Washington é como se nada tivesse acontecido. As regras, ou são as deles, ou não são para se cumprir.

 

Simpson

 

Lembro-me perfeitamente do julgamento de O. J. Simpson, a estampa negríssima do futebol americano, riquíssimo, lindíssimo e novo. Acusado de matar à facada a sua esbeltíssima, loiríssima, branquíssima mulher, com quem já não vivia, mas que continuava a sustentar em estilo, bem como ao azarento amante de ocasião que, de passagem, se encontrava no sítio errado à hora certa.

Fiquei horas acordado pela noite dentro, deliciando-me com a argumentação racional que os vários advogados iam desfiando, tentando cada um levar a água ao seu moinho. Tratando-se de um crime violento, foi, contudo, o programa mais tranquilo, interessante e sedutor a que assisti.

O resultado, inesperado para muitos, só veio confirmar a ideia que tenho sobre a justiça dos grandes casos. Pende sempre para o lado do poder, dos que têm muitas posses. Não se tratou de um caso de racismo. A justiça funcionou para proteger os “seus”. É assim que ela está montada.

Nesta ocasião, O. J. Simpson foi absolvido, não pelo facto de ser um negro como muitos quiseram fazer crer, mas porque que era rico e com poder.

 Por isso a Justiça é representada com os olhos vendados, para não poder ver a cor da pele. Que me conste, não é representada com o nariz tapado, para assim não poder sentir o cheiro do dinheiro.

(Extrato do meu blog de 19 de setembro de 2016, “Lembram-se de O. J. Simpson?” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/lembram-se-de-o-j-simpson-21165).

 

 

 

(179) O homem como problema para si mesmo: o início

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

 

Quem é o homem? Qual a sua origem? O que o constitui como tal? Qual o seu destino?

 

O suicídio é considerado interdito apenas por uma consideração religiosa.

 

Argumentos de Sócrates a favor da imortalidade da alma: argumento dos contrários, teoria da reminiscência e teoria da simplicidade da alma.

 

A imortalidade da alma não pode ser provada de um modo totalmente racional, mas de qualquer modo, ela “é um belo risco que vale a pena correr”.

 

 

 

 

A interrogação que o homem põe a si próprio sobre si mesmo talvez seja a característica que melhor defina o que é ser humano. Perguntas como: “Quem é o homem? Qual a sua origem? O que o constitui como tal? Qual o seu destino?”, têm estado quase sempre presentes, com tentativas de respostas sempre variadas, nem sempre consensuais, em aproximações sucessivas no que se crê serem as respostas corretas.

 

Tudo começou com as explicações míticas, no seu propósito de integrar o homem no mundo e na sua relação-dependência com os Deuses.

Só muito mais tarde se dá a aparição dos chamados “filósofos pré-socráticos”, mais preocupados com a explicação do princípio da constituição do mundo natural: água, fogo, humidade, vapor.

Mas, só com Sócrates e a sua máxima “conhece-te a ti mesmo” é que surgem as primeiras tentativas para uma explicação filosófica do próprio homem, com as suas interrogações fundamentais: Quem sou eu? Quem é o homem?

 

As últimas horas de vida de Sócrates (399 a. C.), que sendo condenado hipocritamente por “impiedade” (não aceitar os deuses da cidade) e por  corromper a juventude (coisa que todo o mundo de Atenas sabia e praticava), podendo escolher entre o exílio ou a morte por envenenamento – com cicuta – optou por esta última, são por ele vividas rodeado por alguns amigos. As conversas tidas nesse último encontro, são posteriormente (387 a. C) relatadas por Platão, na obra Fédon, e têm, naturalmente, que ver com a questão da imortalidade da alma, tema que vai obrigar a refletir sobre o que é o homem, qual a relação da alma com o corpo, como se deve viver para se conseguir alcançar a felicidade eterna.

 

Sócrates afirma a esse círculo de amigos, não temer a morte. E vai tentar explicar essa posição. Para ele, o corpo constituía um obstáculo na procura da verdade (o corpo era o cárcere da alma; é a alma que comanda e o corpo é que obedece), pelo que, tentar desligar-se, tanto quanto possível do corpo, seria a forma de se encaminhar para a verdade.

Só pela morte é que o homem se desliga totalmente do corpo. Mas tal não significa que Sócrates aceite o suicídio, pois, segundo ele, o homem é pertença dos deuses. Ou seja, o suicídio é considerado interdito apenas por uma consideração religiosa.

 

Donde conclui que o filósofo não deve temer a morte porque ela é uma libertação, que lhe permitirá aceder nesse outro mundo de onde a alma veio à verdadeira sabedoria. A ligação posterior da alma ao corpo acaba por se fazer mediante a queda da alma para o mundo terreno.

 

Um dos discípulos que o acompanhava nessa última noite, faz-lhe notar que a maior parte dos homens não acreditava que a alma existisse separada do corpo e que, portanto, não seria imortal.

 

Sócrates apresenta-lhe três argumentos a favor da imortalidade da alma:

 

1 - Argumento dos Contrários, segundo o qual a vida nasce da morte e a morte nasce da vida. A alma viva é, pois, postulada pela dialética dos contrários.

2 – Teoria da Reminiscência, segundo a qual conhecer é recordar. Ora se a alma se recorda, é porque existiu como pura alma num mundo anterior. Donde se conclui que a alma existe antes e depois da morte, sendo por isso imortal. “Aprender é recordar”.

3 – Teoria da Simplicidade (indissolubilidade) da Alma, pela qual a alma, embora não fazendo parte do mundo das Ideias, “assemelha-se” ao ter reminiscência delas; não sendo uma Ideia está muito próxima delas, é “parente” delas. Assim, a alma está orientada para o que é como ela, sendo, portanto, como as Ideias, invisível, divina, imortal e sábia. É, portanto, uma substância simples (indissolúvel), não sujeita à corrupção e à morte.

 

Outro dos discípulos diz que, no seu entender, o corpo é como uma lira sendo a alma o som que ela produz. A alma é a harmonia, corresponde ao acordo musical, que quando é tocada, invisível, incorporal, perfeita, bela e divina. Mas, partida a lira (o corpo), como será possível que a harmonia persista? Ou seja, quando se quebra a lira, a harmonia desaparece, e por isso ele não aceita, nem a teoria das ideias nem a teoria da reminiscência: o corpo e a alma têm a mesma duração.

 

Responde Sócrates lembrando-lhe que a harmonia (acordo musical) é posterior à lira, e que, segundo a teoria da reminiscência, a alma era anterior ao corpo. Pelo que há incompatibilidade entre a tese da harmonia e a da reminiscência. E acrescenta: se a alma é harmonia, como é que o vício, que constitui a ausência de harmonia, poderia existir?

 

Um outro discípulo, embora aceitando a reencarnação da alma, e apesar de entender que a alma tivesse maior duração que o corpo, julga que ela acabará por morrer um dia após ter vivido várias existências. Por isso, o homem, ao não saber se é ou não o último corpo em que a alma encarna, inquieta-se. Compara a alma a um tecelão e o corpo aos fatos que o tecelão fabrica. Chega uma altura em que o tecelão desaparece, deixando o último fato.

 

Sócrates vai socorrer-se do mito sobre o destino das almas quando o corpo morre, e do seu julgamento em função da vida terrena que levaram, o tal problema da recompensa ou expiação. A alma poderá voltar à existência (reencarnação), podendo ser considerada como uma expiação, para o caso das pessoas más, ou como uma nova oportunidade para atingir a perfeição filosófica.

Só os que levaram uma vida ascética, mantendo um contacto mínimo necessário com o corpo, poderão aceder ao convívio com os deuses, ou seja, irem para um mundo superior.

 Sócrates, que sempre se esforçou por racionalmente seguir estes desígnios, aproximando a sua alma desta perfeição desejada, não tem dúvidas sobre a sua possibilidade de vir a aceder a esse mundo da luz, da justiça e do bem. Por isso, não teme a morte.

Daí que para ele, “filósofo” seja aquele que apesar de não possuir o saber, se esforça por o adquirir, porque ama o saber.  É a partir daqui que se assiste à entrada em cena do pensamento racional.

 

Devemos notar que estas ideias sobre o corpo ser considerado como prisão da alma, sobre a necessidade de uma prática purificadora que a liberte e redima, e sobre a crença na metempsicose ou reencarnação das almas, encontravam-se já nas chamadas doutrinas mistéricas, no pitagorismo e no orfismo.

E que, independentemente dos desenvolvimentos que se vieram a verificar posteriormente, a quase totalidade dessas ideias discutidas na última ceia de Sócrates, ainda hoje continuam a perdurar e a fazer parte das convicções da generalidade das pessoas, abrigos a que recorrem quando tudo o mais falha. Leiamos Platão:

 

quando a morte sobrevém ao homem, é a sua parte mortal, ao que parece, que morre; a outra, a imortal, subtrai-se à morte e escapa-se a salvo, isenta de destruição”, Fédon, 106e.

 

Mas, o mais espantoso e enigmático de todo este diálogo escrito por Platão, é ele vir-nos dizer, ainda que pela boca de Sócrates, que a imortalidade da alma não pode ser provada de um modo totalmente racional, mas que de qualquer modo, ela “é um belo risco que vale a pena correr” (Fédon, 114d).

 

É como se de repente tivéssemos saltado muitos séculos para a “aposta” de Pascal (que, ao considerar que nenhuma das alternativas entre a possibilidade de existir ou não salvação pudesse ser racionalmente demonstrável,  se deveria decidir pela “aposta” mais segura, a de apostar pela existência de salvação, porque se ela existisse só teríamos a ganhar, ganhávamos tudo; mas, se a salvação não existisse, nada se perderia porque nada havia a perder. Pelo contrário, se apostássemos na não existência de salvação e ela existisse, então teríamos desperdiçado em vão toda a vida) e para a crítica da razão de Kant (que nega a possibilidade de uma demonstração racional da existência de Deus, remetendo-o para o âmbito da ética, da filosofia moral).

 

 

 

 

 

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