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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(169) A saga do mexilhão virtual

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

 Daqui a 100 anos o melhor físico será uma máquina, Frank Wilczek.

 

Mais tarde ou mais cedo, por erro, distração, curiosidade, ambição, vaidade, necessidade, economia ou poder, a tendência vai no sentido da criação de um ser (chamem-lhe autómato, robô, sintético, androide, replicante) idêntico ao humano.

 

O que a máquina possui é um conjunto assignificativo de moléculas portadoras de um possível sentido, sentido esse que necessita de um operador semântico capaz de transformar essas moléculas ordenadas em sentido, Américo Pereira.

 

Mesmo um mundo sem sentido só é possível de conceber porque nós o intuímos.

 

Não há dois seres iguais: se o forem, então serão o mesmo ser.

 

 

 

 

Houve uma época em que éramos continuamente inundados com notícias referentes às múltiplas experiências que estavam a ser conduzidas em vários laboratórios, altamente credenciados, por vários cientistas também altamente credenciados, com a finalidade de fazerem aparecer “vida”, quer pela simulação das possíveis condições físicas e químicas onde ela aconteceu, quer por outras abordagens igualmente altamente sofisticadas e credenciadas.

Só que como já não se faz ciência por fazer ciência, ao serem obrigados a exibirem resultados práticos, ou seja, a darem rendimentos aos investidores através das suas possíveis aplicações, estes programas têm vindo sucessivamente a serem desativados. Ficarão em espera. Certamente.

Em compensação, temos vindo a assistir a um crescimento exponencial de programas de mini e nano robôs e de métodos de inteligência artificial (IA), que se vão estendendo pelos vários campos das ciências. Sem o detetarmos, vivemos já hoje num mundo mergulhado na IA.

 

 

Quando em 2004 Frank Wilczek, Nobel de Física, disse que dentro de 100 anos o melhor físico seria uma máquina, talvez essa sua previsão, por muitos considerada como uma graça académica, acabe por pecar por ser conservadora.

É assim que a identificação do genoma humano não teria sido possível sem o recurso a potentes ordenadores e à inteligência artificial. É assim que já hoje é corrente a utilização de robôs cirurgiões que em muito superam os humanos num número crescente de atividades.

 

 Ross King, professor no Instituto de Biotecnologia da Universidade de Manchester, especializado em automatização da ciência, utiliza dois robôs, a que eruditamente chamou Adão e Eva, com a finalidade de replicar os resultados dos investigadores humanos (“A vantagem dos sistemas robóticos é que podem trabalhar mais barato, com maior rapidez, maior acerto e por mais tempo que os humanos”), e que poderão chegar, inclusivamente, a fazerem descobertas por si sós. Ross King está já a falar de ciência feita por robôs!

 

No mesmo sentido se pronunciaram Michael Levin e Daniel Lobo num artigo, publicado na PLoS Computational Biology, sobre a regeneração das planárias. As planárias são pequenos vermes planos pertencentes à classe Turbellaria, que possuem a capacidade espantosa de se regenerarem, que as torna quase imortais: quer se lhes corte a cabeça, a cauda, ou o corpo em mais de cem partes, mesmo longitudinalmente, elas acabam sempre por se regenerarem dando origem a cem planárias ou as que forem.

Com a utilização de vários fármacos e por manipulação genética, conseguem-se obter planárias com várias cabeças ou com várias caudas. Mas apesar das inúmeras experiências feitas, os cientistas continuam sem ter um modelo claro que lhes permita saber como é que elas se regeneram. 

Levin e Lobo, conseguiram encontrar uma rede, um conjunto de normas que se for seguido permitem obter “resultados que são exatamente iguais aos verificados e publicados pela literatura científica”, ou seja, permitem explicar porque é que nestes vermes se dá a regeneração da cabeça e ou da cauda.

 

E, como humildemente assumem, não foram eles que descobriram este modelo, mas sim um sistema de inteligência artificial através de um algoritmo matemático que incluía tudo o que se sabia sobre as planárias: genética, expressão dos genes, padrões de divisão celular, e outros, criando uma base de dados com mais de uma centena de experiências sobre a regeneração.

O sistema de inteligência artificial, para além de replicar o que os humanos já haviam feito, descobriu ainda dois elementos novos sobre a regeneração dos vermes, predizendo a existência de duas proteínas que deverão formar parte da rede.

 

Por outro lado, cientistas franceses (Jean-Baptiste Mouret, Antoine Cully, D. Tarapore) conseguiram integrar nos seus robôs de seis patas, “instintos” computorizados que lhes permitem (aos robôs) rapidamente (menos de dois minutos) optar por 13.000 formas possíveis de andar para compensarem acidentes que sofram, como pernas partidas, danificadas ou perdidas, alterando por eles próprios o seu modo de locomoção sem necessidade de intervenção de qualquer manutenção humana. O interessante (assustador) é que em igualdade de circunstâncias, alguns robôs “resolvem” mais depressa o problema e “andam” melhor do que outros.

 

Um último exemplo prende-se com a criação, feita por cientistas do Royal Melboune Institute of Technology, de uma célula eletrónica de memória com uma espessura 10.000 vezes inferior a um cabelo humano que, segundo os seus inventores, irá permitir a execução de um sistema de memória que aprende e armazena informação analógica com capacidade para uma rápida utilização posterior, tal como um cérebro humano faz. Ou seja, entrámos já no limiar da criação de um cérebro biónico.

 

Acreditam os cientistas que os computadores, os robôs, embora possuam capacidades diferentes dos humanos que lhes permita, por exemplo, analisarem mais de um milhão de estudos científicos, não poderão nunca fugir ao programa com que, e para que, foram criados, e que também não poderão compreender em profundidade nenhum deles.

Não passarão de máquinas de raciocinar de pura mecânica operativa que, a partir de dados de origem humana produzem outros dados de que não têm qualquer consciência, dados esses que só quando comunicados a um ser humano podem passar a ter significado.

 

Podemos acreditar no que nos dizem os cientistas? É que, para além da possibilidade, ainda que remota, do aparecimento de um pequeno desvio oculto nos biliões de programas utilizados, defrontamo-nos com o problema maior que vem exatamente da finalidade pretendida pelo fator humano (donos de empresas, cientistas, complexo industrial-militar, políticos de topo), da tendência e do propósito social que pretende servir.

 

Quando Alexander Mitsscherlich, escrevendo em 1962 sobre a mentalidade da medicina praticada nos campos de concentração e nas universidades da Alemanha entre 1934 e 1945 (“fascismo clínico”), concluiu que por trás dos médicos criminosos (dos 900.000 médicos que na altura exerciam, 350 praticaram extensos crimes clínicos) existia já previamente um enorme aparelho clínico que, passo a passo, transformara os pacientes em material humano.

Aos médicos criminosos bastava darem um salto clínico mais, na direção em que há muito se tinham habituado a marchar”. Tal como hoje acontece, sem provocar qualquer escândalo, com a marcha das investigações sobre a tortura, sobre a genética e a protésica, as investigações farmacológicas e as militares-biológicas. Ou seja, convivemos e vivemos com os elementos e as condições de um futuro fascismo clínico. Tendência, sentido, já temos.

 

Se o nazismo tivesse triunfado, certamente seria hoje corrente o pensamento clínico de que há demasiadas pessoas cujo tratamento não merece a pena, servindo apenas como objetos de experimentação. Por isto, as garantias dadas pelos cientistas pouco valem; no melhor serão ingénuas.

Mais tarde ou mais cedo, por erro, distração, curiosidade, ambição, vaidade, necessidade, economia ou poder, a tendência vai no sentido da criação de um ser (chamem-lhe autómato, robô, sintético, androide, replicante) idêntico ao humano.

 

 

Assim, tal como aconteceu nos séculos XVI e XVII, torna-se, portanto, necessário voltar a caraterizar e a definir o que é ser humano (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/168-o-que-e-ser-mexilhao-44747).

Comecemos por ter em consideração que uma máquina por mais perfeita que seja (raciocinando mecanicamente e executando operações complicadíssimas em muito menos tempo do que o humano), não tem a capacidade de atribuir significado ao que produz: o seu resultado não passará nunca de um conjunto enorme de bits que permanecerão isso mesmo, um conjunto completamente sem significado, porque só por ela não consegue atribuir-lhe qualquer significado.

 

Como diz Américo Pereira, “o que a máquina possui é um conjunto assignificativo de moléculas portadoras de um possível sentido, sentido esse que necessita de um operador semântico capaz de transformar essas moléculas ordenadas em sentido.”

 

Este ‘sentido’ não se refere a direção ou orientação, mas sim a ter significado. Simplificadamente poderemos por exemplo dizer que antes de Plutão ter sido descoberto, embora ele tivesse existência não tinha qualquer significado. Só passa a ter significado quando a sua existência é apreendida pelo ser humano: é aí que é integrado na criação, é aí que temos mundo.

A existência dum mundo sem a mediação do homem corresponderia a um mundo sem qualquer sentido. Aliás, mesmo um mundo sem sentido só é possível de conceber porque nós o intuímos.

 

Segundo a abordagem espiritualista, para o surgimento do sentido torna-se necessária uma capacidade de apreensão direta, imediata e intuitiva (o ato de intuição) da criação desse sentido de algo: a essa capacidade damos o nome de inteligência, bem diferente da simples capacidade mecânica de encadear juízos. Esta é a caraterística fundamental do homem, pelo que qualquer criação pelo próprio homem de um homem a partir de meios mecânicos terá sempre de a ter.

E mais, não se trata apenas de conseguir imitar a inteligência humana, porquanto já vimos que a inteligência humana é autónoma e totalmente livre. É por isso que não há dois seres iguais: se o forem, então serão o mesmo ser.

Não é, pois, possível criar uma imitação. Ter-se-ia, portanto, de criar uma inteligência que por si própria fosse capaz de intuir novo sentido, fosse ele o que fosse.

 

Se de facto for esta a caraterística essencial que define o ser humano, então todas as outras caraterísticas físicas e biológicas serão acessórias.

 Aconteceria até que segundo essa humanidade não-biológica, os laços de bem-querer seriam certamente baseados numa “arquitetura do sentido” para lá da estrutura biológica, ou seja, para além da ligação física a alguém.

 

Por exemplo, o amor dos pais pelos filhos deixaria de se basear no apego materialista da continuidade biológica. O amor não vem porque os filhos são nossos segundo a carne, “mas porque lhes queremos bem e queremos-lhes bem porque é isso o melhor para eles, não porque nos estejam ligados materialmente”.

 

Assim, ser humano não é possuir caraterísticas físicas consideradas como típicas (o que para além do mais deixaria de fora todos aqueles que não obedecessem ao cânone físico), mas possuir uma capacidade de inteligência, de criação de sentido, de possibilidade e atualidade de significação.

Só assim se poderá alargar o conceito de humanidade a todos os seres que contenham essa capacidade. Só assim estaremos aptos a assistir ao nascimento de uma nova forma de humanidade.

 

Acontece que, se isto vier um dia a concretizar-se, teremos de ter a “sorte” de contar com os bons cientistas, os bons engenheiros, os bons militares, os bons políticos, os bons empresários, etc., porque se algo falhar (propositadamente ou não), a nova forma (o novo mexilhão) será mais do mesmo, com maiores capacidades de exploração, maior insensibilidade, mais certezas, mais arrogância, menos compaixão. Ou seja, ficaremos pior, digo eu.

 

Mas também pode não ser este o caminho seguido. Com a acumulação de conhecimentos sobre o cérebro e o aumento da capacidade de computação, talvez se torne possível produzir uma máquina que tenha os graus de liberdade do ser humano com o mesmo número de conexões neuronais.

 

Quando dizemos que estamos perante 85.000 milhões de neurónios, a serem multiplicados por uma média de 1.000 conexões por neurónio, o que estamos a dizer é que apesar das possibilidades de o ser humano serem quase infinitas, mesmo assim estão fixadas e são finitas.

Daqui decorre por exemplo, o considerar-se que o conceito de liberdade seja uma ilusão pois estamos biologicamente condicionados.

 

Além do mais, as probabilidades de um ser humano realizar um dado ato são tão altas, que se torna impossível predizer o que alguém vai fazer. Para além disto, devemos ainda tomar em consideração que a consciência representa menos de 10% da nossa atividade cerebral num determinado momento.

Sabe-se agora que as decisões são tomadas muito antes que sejam por nós conhecidas conscientemente. As decisões que o nosso cérebro adota são explicadas a posteriori, tendo por base a memória, as emoções e toda uma série de dados que são processados de maneira inconsciente. Certamente para a grande maioria dos casos, mesmo que a máquina não viesse a ter aquele número de neurónios, talvez não se notasse qualquer diferença para o humano.

 

Esta fixação no cérebro pode ainda vir a apontar para outro caminho. Sabemos que no momento em que o cérebro deixa de funcionar deixamos de existir como cérebro individualizado. Sabe-se que há circuitos no cérebro que se destinam a fazer-nos sobreviver em quaisquer circunstâncias, que nos tentam proteger da morte e da perca da nossa própria identidade.

 

Mas, se conseguirmos pôr todo o nosso cérebro num chip, ele continuará a funcionar, o que fará de nós (deles) seres imortais (haja eletricidade). Esperemos que o progresso não vá nesse sentido, pois certamente acabaríamos a comer mexilhões virtuais. Mas pode ser que o nosso palato já então esteja habituado a comer essas novas papas e bolos que de há muito nos andam a servir. 

 

 

 

 

 

(168) O que é ser mexilhão

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

 

Acreditas que um homem pode mudar o seu destino?” pergunta o samurai Katsumoto Moritsugu ao capitão Nathan Algreen (Tom Cruise), que lhe responde: “Eu acredito que um homem faz o que puder até que o seu destino se revele”, do filme O Último Samurai (2003).

 

A moda imperante é a de acreditar numa mudança perpétua, na mutabilidade e coisas como essas; e dizer que somos uma forma melhorada do macaco primigénio. Imagino, claro está, que subscreve essa doutrina. Considero-a claramente prematura; na maioria das pessoas que conheço, o processo está ainda muito longe de se ter completado.", Óscar Wilde.

 

Sou um evadido. Logo que nasci fecharam-me em mim. Ah, mas eu fugi”, Álvaro de Campos.

 

 “Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”, popular.

 

 

 

Existem duas grandes escolas de pensamento, que se têm enfrentado ao longo dos tempos, sobre o que é ser humano: a espiritualista, que afirma o primado do espírito sobre a matéria na explicação dos fenómenos psíquicos e na constituição do mundo, e a materialista, que nega a autonomia do espírito, reduzindo toda a explicação à matéria.

Na nossa sociedade, a matriz formadora tem sido a espiritualista, apesar de que, devido aos avanços espetaculares da ciência e do pensamento indutivo, a escola materialista tenha vindo a ressurgir e a afirmar-se.

 

Coube a Aristóteles caracterizar o homem como sendo um “animal racional”, o que significava que, para além de ser animal, o homem tinha uma caraterística própria, a capacidade para raciocinar.

 

Séculos mais tarde, o aparecimento do humanismo vai colocar o homem como sendo o centro do mundo, ocupando o lugar do cosmos e da divindade.

 Para tentarem entender aquilo que teria tornado o homem tão extraordinário que o levara a ser guindado (ou a guindar-se) a essa posição, e a fim de melhor caraterizarem aquilo que era o homem, os pensadores dos séculos XVII e XVIII vão debruçar-se sobre o problema das semelhanças e diferenças existentes entre os homens e os animais. Talvez assim conseguissem entender o que tornava o homem tão diferente e especial.

 

Descartes entendia que, para além do raciocínio, o homem possuía uma outra caraterística, a da afetividade. Para ele, os animais não passavam de “máquinas engenhosas” que, por isso mesmo, não tinham sentimentos (essa era a razão porque, apesar de terem todos os órgãos que lhes possibilitassem falar, não o faziam, pois não tinham quaisquer estados de alma para exprimir).

 

Rousseau, discordava dos critérios diferenciadores do raciocínio e da afetividade, porquanto “todos aqueles que têm um cão sabem perfeitamente que um cão é mais sociável e mesmo mais inteligente … do que alguns seres humanos”.

Segundo ele, o critério diferenciador era o da “perfetibilidade”, entendida como a faculdade que o homem tem de poder aperfeiçoar-se durante toda a vida, contrariamente ao animal que, orientado pelo instinto, aparece “perfeito de uma só vez” desde o nascimento, como se tivesse um programa a que obedeceria sem nunca se afastar dele.

O homem aparece, assim, com a capacidade para se libertar desse programa do instinto natural e de fazer a sua própria história, à partida indefinida.

 

O exemplo de que Rousseau se serviu para demonstrar a sua tese foi o da maldade do homem, não o simples ato de fazer mal (os animais ‘fazem mal’ aos outros animais quando os caçam), mas o fato de o homem ser capaz de organizar-se conscientemente com o objetivo de fazer mal ao seu semelhante.

 O ser humano faz mal a outro, sabe que o faz e, muitas vezes até tira prazer disso. Trata-se de uma escolha voluntária que não faz parte da ordem da natureza, até porque não serve para nada.

O homem tem, pois, a possibilidade de ultrapassar as leis naturais. É a essa possibilidade, que pode ir desde o mal absoluto até à generosidade suprema, que vulgarmente se chama liberdade.

 

 

Para os espiritualistas, não é correto basear a definição do humano assente em caraterísticas apenas materiais, como se fosse um pedaço de matéria que possuísse interioridade.

Até porque, segundo as mais recentes investigações, a estrutura íntima da matéria tem que ver com fenómenos de vibratilidade e de vibração, o que faz que ela assente muito mais em puro movimento do que num suporte material, daí que cada vez mais a física se vá transformando em matemática, sendo cada vez menos uma ciência de ‘materiais’ e mais uma ciência de puras relações.

Tal implicará que a ‘forma material’ com que as ‘coisas’ se manifestem tenha muito mais que ver com a forma como são ordenadas. Se assim for, então não é a ordem que nasce da matéria, mas a matéria que nasce da ordem.

 

De uma ordem que a transcende, dirão os espiritualistas, concluindo que não é o espírito que nasce da matéria, mas sim a matéria que nasce do espírito.

 De uma ordem que lhe é imanente, dirão os materialistas, concluindo que o espírito é uma mera potencialidade da matéria.

 

Sabiamente, sabidamente, os espiritualistas respondem: até poderá ser que assim seja, se se tiver em conta que o mesmo espírito que ordena (cria) a matéria nela se imprima como possibilidade, ou seja, que o espírito seja uma potencialidade da matéria que o mesmo espírito nela previamente pôs.

E, dizem mais: não basta que as moléculas se encontrem ordenadas. Torna-se necessário que exista um sentido possível latente nessa mesma ordenação. É que se não houver quem interprete tal ordenação física, a possibilidade latente não tem qualquer significado.

 

Tal como os hieróglifos egípcios não passavam de pura matéria de formas impressas sem significado até se ter descoberto a chave da sua decifração. Tal como uma máquina que raciocine perfeitamente, se não comunicar os seus raciocínios a um ser humano capaz de lhe atribuir um significado, ficar-se-á por um conjunto enorme de bits completamente inúteis.

Por isso, os espiritualistas insistem num ponto fundamental: o homem não é um sujeito material pré-fabricado que depois adquire sentido, mas é antes o resultado do sentido que faz o homem.

 

 É este sentido que cria o homem, é isso que é a sua mesma essência, não esquecendo, contudo, que o corpo faz parte dessa unidade de sentido que é o homem. Qualquer entidade que possua como próprio seu este sentido, é um ser humano (atenção para as implicações resultantes e aplicáveis como podemos ver no filme Spielberg de 2001, A.I. Inteligência Artificial).

 

Este sentido não depende da matéria; é a matéria que depende dele, que dele é parte. O que é, pois, essencial ao homem não depende do modo material da sua composição, sendo irrelevante que seja ‘carne’ ou qualquer outra ‘matéria’. A ‘carne’ humana não é feita de átomos especiais fora da tabela periódica da matéria.

 

O sentido implica obrigatoriamente um movimento. Daí que a vida nos apareça como uma forma de movimento. Só que tem de ser mais que movimento, caso contrário todo movimento seria vida e isso não é verdade (o movimento que aqui se refere, não tem que ver com a deslocação num espaço, mas com a realização de atos, ações realizadas com sentido de vida).

Sabemos que as bolas numa mesa de bilhar só se movimentam se forem acometidas por uma força exterior a elas. Se essa força não lhes for comunicada, nada há nas bolas que as façam movimentar-se.

 

A forma de movimento da vida tem de ser algo mais do que isto. Contrariamente a todas as outras formas que derivam o seu movimento de algo que lhes vem do exterior, a forma de movimento da vida coincide com o seu próprio princípio de movimento. A fonte de movimento na vida faz parte do próprio ser que está vivo. Daí que este movimento vital seja autónomo. Sem esta autonomia não há vida.

É este princípio de movimento próprio, dependente ou não de estímulos externos (que são irrelevantes, porquanto se não houver motor não há estímulos que produzam movimento), que nos une, apesar de tudo, mais a um vírus e não a uma pedra.

 

Mais do que um vírus, que também é vida, o ser humano tem a capacidade para apreender, por intuição, o significado (sabiamente, sabidamente, os espiritualistas vão chamar-lhe “sentido”) deste movimento. À apreensão desse sentido vão chamar-lhe inteligência, como irrupção do espírito que não depende de qualquer realidade exterior a si.

 Todo o ser que compreenda este absoluto do ato de ser, que seja capaz de intuir sentido, é um ser humano, mesmo que não possua a nossa constituição material, podendo até não se reproduzir da mesma forma que nós ou até de nenhuma forma (esta é uma tese muito interessante, com grandes consequências para as futuras Inteligências Artificiais). E isto, porque não é pela matéria que o ser humano se define, mas sim pelo espírito.

 

 

Perante esta avalanche de racionalidades espiritualistas, os materialistas respondem com um sistema em construção (a ciência) onde nada se toma como sendo definitivo, onde tudo pode ser alterado com o aparecimento de dados novos.

Para os materialistas, os seres humanos são a coroa de glória da biologia e da evolução.

Vejamos o que nos diz António Damásio:

 

Uma célula bacteriana é quase como uma metáfora de nós mesmos, ou nós como sendo a metáfora dela. Tem uma pele, que é a membrana, tem um núcleo que representa o cérebro, tem o citoplasma que representa o resto do nosso corpo, tem granitos que representam sistemas extremamente ricos; e a membrana, a pele, tem uma permeabilidade que permite a essa célula única ter uma relação com o ambiente, o exterior. A célula preocupa-se em procurar fontes de energia e transformar energia, tem metabolismo, e se tem uma ferida tem mecanismos de reparação; mantém a vida com tenacidade até que o genoma lhe diga ‘o tempo acabou’. Senescência e morte. A forma com a vida decorre num ser complexo como nós é semelhante. A fórmula como a pequena célula reage às oportunidades ou ameaças é semelhante. Se dela aproximarmos uma ponta de alfinete ela contrai-se. Tal como nós se alguém nos atacar. Este é o alicerce que vem mais tarde a dar uma reação emocional. E se a amiba, em vez de estar numa placa de Petri, estiver num lugar ideal para a sua vida, em matéria de nutrientes, temperatura, fica toda relaxada, como se estivesse na praia, ao sol, com uma bebida ao lado”.

 

São, portanto, as perturbações do corpo percecionadas pelo cérebro que originam os sentimentos de emoção ou de conhecimento.

 

 Há, contudo, um sentimento mais simples oriundo da representação do estado do corpo num determinado momento, harmónico e equilibrado, ligado ao prazer, ou desarmónico, ligado à dor.

 E este estado não necessita de ser provocado por uma interação entre o corpo e um objeto exterior. É um sentimento espontâneo daquilo que se está a passar no corpo, e que nos dá a todo o momento, a representação de que existimos.

 Este sistema começou a existir há muito tempo, muito antes de existir consciência, originando valores biológicos que estão constantemente a guiar o comportamento, mesmo que não haja sistema nervoso. Com o aparecimento do sistema nervoso, todos estes comportamentos se tornaram mais ricos e complexos. A consciência resulta deste longo processo.

 

Um princípio que chamamos de moralidade torna-se necessário à vida dentro de um grupo social. Embora para a natureza lhe seja indiferente (não é boa nem má), para que a evolução funcione (não esquecer que a evolução é um processo sem sentido, sem lei e sem pensamento) tem que haver alguns aspetos básicos de moralidade.

Por exemplo, o apego das mães aos filhos, foi criado pela evolução para que as crias e a progenitora, possam viver e continuar os genes. No nosso caso, ao acrescentarmos a esse princípio uma consciência autobiográfica e ao desenvolvermos a capacidade de reflexão sobre a nossa vida e a vida dos outros, com maior memória, maior raciocínio, imaginação e linguagem, obteremos a nossa moralidade.

 

 Através dela temos produzido uma série de ajustes culturais, que continuam a serem feitos, para que a sobrevida seja maior e com mais bem-estar. Não estamos apenas interessados em sobreviver, mas sobreviver com bem-estar, porque entre a dor e o prazer que nos dá o nosso sistema nervoso preferimos o prazer.

Os instrumentos que utilizamos para alcançar este bem-estar cultural são a arte, a religião, valores morais, sistemas de justiça, organização política e económica, ciência e tecnologia. A finalidade da cultura assim entendida é a de organizar a vida de modo melhor.

 

 

Chegados aqui, o espiritualismo que nos tem governado durante todos estes séculos, milénios, aparece-nos como sendo um sistema muito mais conseguido e racional que o materialismo.

 O materialismo aparece-nos muito mais como um conto, uma possibilidade, sem finalidade definida: aparece-nos como uma crença em que as coisas se encadeiam umas nas outras, muitas vezes sem demonstrações científicas.

 

É bom, contudo, não esquecer que a introdução da racionalidade no espiritualismo foi-se fazendo ao longo de muitos séculos de grandes lutas internas e que ainda hoje permanecem. Não foi por acaso que Santo Anselmo advertiu os conflitos latentes com aquela fórmula lapidar: "Crer para compreender”.

 

Seja como for, o que acontece mesmo é que, se por um lado teremos de ser pobres para herdar o Reino dos Céus, por outro lado teremos de ficar pobres para que com isso a evolução se possa fazer a bem dos que fazem a sociedade ‘progredir’. Problema idêntico ao do mexilhão.

 

 

 

 

 

 

 

(167) As figuras negras de Atenas

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

No estilo ático de “figuras negras”, as figuras aparecem-nos pintadas em silhueta negra sobre o fundo vermelho do barro.

 

As diferentes culturas apercebem e categorizam as cores de diferentes maneiras.

 

Nunca os gregos se pensaram como sendo “brancos” ou de outra cor.

 

Esta fixação e separação do mundo por linhas raciais é produto de várias forças históricas, particularmente do negócio transatlântico de escravos e das teorias raciais desenvolvidas no século XIX.

 

Só quem não é branco é que tem cor.

 

 

 

 

 

 

Todas as estátuas gregas que hoje vemos (incluindo as da Acrópole) são imaculadamente brancas, cor do mármore de que foram feitas. Só que, sabe-se agora, todas elas eram originalmente pintadas com cores que iam do roxo ao alaranjado, cores que reconhecemos como sendo nitidamente das regiões da Pérsia e do Médio Oriente, cores que ao longo do tempo foram desaparecendo.

Tal tem vindo a constituir um choque para os que tinham os gregos como os epítomes do homem branco, loiro e culto, modelos do belo que deveria prevalecer no Ocidente.

 

E que dizer então dos vasos gregos de cerâmica em que os principais heróis e personagens importantes da sociedade de então, apareciam pintados a negro?

 

Comecemos por explicar que os vasos gregos de cerâmica que hoje se encontram aos milhares nos principais museus existentes, e que são aí exibidos por se tratarem de coisas belas, foram, contudo, feitos com uma finalidade meramente utilitária.

Todos eles se destinavam a servir, eram a baixela da época”, como nos disse M.  Helena Rocha Pereira.

 

Recordemos as suas principais formas: a “amphora”, para ir buscar água; a “hydria”, para a servir; o “krater”, para fazer a mistura da água com o vinho, que era o que se servia nos banquetes

por se considerar o vinho muito forte para se consumir puro; a “oinochoe”, em que o vinho era servido; o “kylix”, a taça onde se o deitava; o “lekytos”, onde se guardava o azeite para ungir o corpo.

 

As pinturas desses vasos são extremamente importantes, pois é através delas que conseguimos hoje conhecer os mais variados aspetos da vida e da cultura grega. Da literatura (com a ilustração de poemas) ao teatro (coma figuração de peças perdidas, os seus cenários, máscaras, traje e calçado), passando pela religião (com a representação de mitos, cenas dionisíacas) e pela linguística (com inscrições onde se fica a conhecer a fala popular), até aos objetos de uso corrente, os móveis, tudo é possível de encontrar nesses vasos.

 

A partir do ano 600 a. C., vai desenvolver-se em Atenas o que ficou conhecido como o estilo ático de “figuras negras”: as figuras são pintadas em silhueta negra sobre o fundo vermelho do barro.

Dos pintores mais conhecidos que nos chegaram até nós, citemos Clítias (autor do Krater François, no Museu Arqueológico de Florença), Exéquias (a taça de “Dionísio no Barco”, em Munique, a ânfora com “Aquiles e Ajax a jogarem aos dados”, no Vaticano, a ânfora com “Aquiles a assassinar Pentesileia”, a rainha das Amazonas, no British Museum) e Sacónides, o pintor de Amásis. De referir ainda uma ânfora no Museu do Louvre, com o “nascimento de Atena”.

 

Esta figuras pintadas a negro, permitem-nos pôr algumas questões:

Será que os gregos eram muito escuros? Ou será que para eles a representação dos seus heróis com a cor negra não passava de um problema meramente estético a que não atribuíam qualquer conotação rácica? Será que as figuras a negro tinham apenas que ver com a técnica utilizada, que impossibilitava a utilização de outra cor? A ser assim, porque aparecem nesses vasos outras figuras pintadas a branco, invalidando a hipótese anterior? Teria a sociedade grega alguma posição relativamente à cor da pele?

 

Para tentar encontrar respostas para estas questões, começamos por recorrer ao auxílio de especialistas em literatura da Grécia Antiga, uma vez que é importante tentar saber-se como é que os seus escritores refletiam a sociedade da época.

Como é que Homero descrevia Aquiles e outros heróis na Ilíada (poema sobre Ílion, ou Troia) e na Odisseia (poema sobre Odisseu)?

 Segundo Homero, Aquiles era descrito como tendo o cabelo xantos, que vulgarmente tem sido traduzido por ‘loiro’.

Mas, Maria Michel Sassi, professora de filosofia antiga na Universidade de Pisa, vem dizer-nos que o vocabulário grego das cores não tem correspondência automática com as cores da sociedade atual. Por exemplo, ‘xantos’, podia significar desde o ‘loiro’ dos cabelos dos deuses, até ao ‘âmbar’, passando por ‘castanho’, ‘bronzeado’, ‘queimado’ e ‘cor de fogo’. Além do mais, o ‘amarelo’ não fazia parte do léxico grego da época.

 

 Aos olhos modernos, o vocabulário grego para as cores, é estranho. É assim que ‘Khloros’, (relacionado com Khloe, relva), podia sugerir a cor ‘verde’ da vegetação, mas também podia significar o ‘amarelo vivo’ da areia na praia, “cor de mel”, e até mesmo a sensação de ‘fresco’.

Na Odisseia, a deusa Atena vai magicamente melhorar a aparência de Odisseu, restituindo-lhe de novo a “pele negra, e cabelos azuis”. A maior parte dos tradutores substituíram cabelos azuis por cabelos de “cor escura”. O que quereria Homero dizer ao utilizar tal paleta de cores? Não se sabe.

 

Por outro lado, o ‘negro’ (melas) e o ‘branco’ (leukos) eram aplicados como definição de géneros: as mulheres eram representadas a branco, o que nunca acontecia aos homens. As mulheres, por convenção (passavam mais tempo dentro de casa?), tinham sempre uma pele mais clara que os homens (mais bronzeados, por passarem mais tempo fora de casa). Dizer que um homem era ‘branco’, era o mesmo que chamar-lhe ‘efeminado’.

 

Daí que, concluir-se que Aquiles ou Odisseu eram negros ou brancos, é interpretar incorretamente Homero. As cores por ele atribuídas não tinham que ver com a categorização das pessoas em termos raciais, mas sim com a categorização deles como indivíduos, através de associações poéticas que os pretendia revelar nas suas personalidades e comportamentos.

 

 

 As diferentes culturas apercebem e categorizam as cores de diferentes maneiras. Apesar de todos termos fisicamente os mesmos olhos, pelo que deveria haver uma correspondência científica proveniente da frequência das cores, o facto é que há uma cultura cromática específica dos gregos, como há uma egípcia, uma indiana, e uma europeia, cada uma delas refletindo-se num vocabulário que tem as suas peculiaridades.

 Um exemplo comezinho cá da pós-Lusitânia, foi o que se passou com o Benfica, inicialmente identificado com a cor vermelha e que progressivamente durante o consulado de Salazar foi passando a encarnada. Hoje, até já são rosas, e o verde do Sporting já é visto como podendo ser amarelo.

 

Pelo acima exposto, não se pode saber até que ponto os gregos da antiguidade eram mais ou menos escuros.

 

Exploremos a via da pesquisa genética. Num estudo publicado na revista Nature, “Genetic origins of the Minoans and Mycenaeans”, (https://www.nature.com/articles/nature23310), procedeu-se à análise do DNA de indivíduos da Grécia continental e de Creta que tinham vivido no período entre c2900 e c1200 a.C.

As conclusões começam por apontar para a continuidade genética entre os gregos do período minoico e os gregos atuais, quer em genótipo quer em fenótipo.

 Quanto à origem, “três-quartos da ascendência dos gregos do período minoico era proveniente dos primeiros agricultores Neolíticos da Anatólia ocidental e do Egeu, sendo a restante proveniente de antigas populações do Cáucaso e do Irão”. 

O estudo chama ainda a atenção para o facto de os gregos não poderem ser vistos como uma população isolada, dadas as fronteiras porosas da Grécia Antiga. Recordar as muitas colónias que os gregos fundaram no Mediterrâneo, incluindo no norte de África e no delta do Nilo. Possivelmente por isso, os gregos da Idade do Bronze, teriam pele, olhos e cabelo mais escuros que os atuais. Eram também mais baixos (os esqueletos dos gregos da antiguidade mediam em média 163 cm, para os homens, e 153 cm, para as mulheres).

 

Produtos de intensa miscigenação, os gregos não são, pois, aquele modelo tão propalado por falsas culturas europeias e norte-americanas dominantes, como descendentes dessa raça pura loira e de imaculada brancura.

 

Aliás, os modernos geneticistas não veem qualquer interesse na distinção pela cor da pele. Para eles, a “raça” é uma categoria biologicamente sem significado.

Há muito pouca diferença em termos genéticos entre as populações humanas dos diferentes continentes, não sendo a cor da pele critério de diferenciação genético. A distinção entre os africanos “pretos” e os europeus “brancos” não é só não-grega, mas também não-biológica.

 

Muito embora os gregos se apercebecem das diferentes tonalidades de pigmentação, quer relativamente aos povos mais escuros de África e da Índia, também se apercebiam da sua própria diferença relativamente aos povos mais pálidos do norte, (como bem relata Hipócrates http://classics.mit.edu/Hippocrates/airwatpl.mb.txt), nunca os gregos se pensaram como sendo “brancos” ou de outra cor.

 

Esta fixação e separação do mundo por linhas raciais é produto de várias forças históricas, particularmente do negócio transatlântico de escravos e das teorias raciais desenvolvidas no século XIX.

O racismo é emocional, não é racional. A “raça” é algo que não existe como facto biológico; é uma consequência de um processo de “racialização”.

Na “racialização” nós vemos coisas que não existem, e deixamos de reconhecer coisas que existem. Pelo facto de existirem e terem o poder, os brancos imaginam que eles é que são a norma, e que só os outros é que têm raça. Daí que nos censos iniciais nos EUA as pessoas fossem instruídas para não preencherem o espaço referente à raça se fossem brancas, devendo só fazê-lo no caso de serem outra coisa (‘B’ para Black, ‘M’ para Mulato, etc.).

 

Dir-me-ão que isso são coisas dum passado que já nada tem que ver com a atualidade. Vejamos o que numa entrevista ao Diário de Notícias de 05 de junho de 2018, diz Mae Jemison, americana, engenheira química e médica, sobre a sua ida para o espaço a bordo do vaivém Endeavour:

 

“Porque eu fui a primeira mulher de cor em todo o mundo a ir ao espaço.”

(https://www.dn.pt/mundo/interior/o-que-digo-sempre-aos-jovens-e-que-tem-talento-como-vao-utiliza-lo-9409183.html).

 

Ou seja, só quem não é branco é que tem cor. Como instruía o Censo.

 

 

 

 

 

 

Com tempo, ler:

 

Paul Schor, Counting Americans.

Gregory Smithsimon, Cause …And How it Doesn’t Always Equal Effect.

Donna Zuckerberg, Not All Dead White Men, Classics and Misogyny in the Digital Age.

 

 

 

 

 

 

 

 

(166) A sociedade do "Até quando?"

Tempo estimado de leitura: 2 minutos.

 

 

Até quando é que terei emprego? Até quando poderei pagar a renda da casa? Até quando teremos reformas mínimas garantidas? Até quando …?

 

Os ricos deste mundo fazem já fila para ‘comprarem’ os bilhetes de saída deste mundo finito.

 

E este é o limite da vida, de uma vida que valha a pena ser vivida.

 

O que nos oferecem é uma sobrevivência aos soluços, militarizada, limitada e caduca, fora deste planeta.

 

Vivemos num tempo que vem depois do depois.

 

 

 

 

Curiosos tempos estes que vivemos em que a globalização nos prometia um presente eterno, finalmente um capitalismo democrático livre das ameaças do comunismo soviético, uma nova era onde, a pouco e pouco, todos os países em vias de desenvolvimento iriam chegando, e onde todos os cidadãos do mundo iriam, progressivamente, ligando-se.

Só que os ‘descobridores’ destes novos tempos, quais novos Gamas, Cabrais, Magalhães, não tentam conquistar novas terras, mas antes o planeta Marte. Os ricos deste mundo adiantam-se e fazem já fila para ‘comprarem’ os bilhetes de saída deste mundo finito.

 

Julgando terem posto em marcha a verdadeira história, o único que alteraram foi a relação com o presente: em vez de ser aquilo que tinha que durar para sempre, converteu-se naquilo que já se não pode aguentar. No que é insustentável.

Vivemos no tempo da iminência, em que tudo pode mudar radicalmente ou em que tudo pode acabar definitivamente.

O que temos pela frente já não é um presente eterno nem um lugar de chegada, mas uma ameaça. Um tempo onde dominam perguntas básicas, como:

 

 

Até quando é que terei emprego? Até quando poderei pagar a renda da casa? Até quando é que poderei viver com a minha companheira? Até quando poderei fazer planos para o futuro? Até quando teremos acesso a serviços de saúde? Até quando teremos reformas mínimas garantidas? Até quando teremos água potável? Até quando a Europa será rica e laica? Até quando acreditaremos na democracia? Até quando …?

 

 

Face a esta realidade, não é de admirar o aparecimento dos impulsos dos que tudo tentam resolver à base do “agora ou nunca”, “senão for agora, então quando?”, em que se filiam os atuais movimentos de protesto, de auto-organização da vida, da intervenção nas guerras, da cultura livre, dos novos feminismos …

 

No fundo, a mesma sensação de que isto assim não vai durar, de que a continuar assim virá o colapso. É uma mesma experiência de limite. E este limite, é o limite da vida, de uma vida que valha a pena ser vivida.

 Porque pode ser que haja outra vida para além desta com que nos querem seduzir, só que essa não será para nós, para a vida humana. Uma sobrevivência aos soluços, militarizada, limitada e caduca, fora deste planeta.

 

Como observou Marina Garcés, o nosso tempo já não é o da pós-modernidade que alegremente deixara o futuro para trás, mas o tempo pós-póstumo, tempo emprestado e vivido com aceitação plena da possibilidade real do nosso próprio final. Tempo que vem depois do depois.

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