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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(165) Os produtos que nasceram para morrer (Uma Teologia do consumo).

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

Os produtos fabricados em série nasceram para morrer.

 

Todo o produto que seja propriedade passível de ser conservada nas mãos do comprador, é um roubo ao produtor, pois impede-o de continuar a produzir.

 

O que a televisão e a rádio produzem, é a imagem de um mundo no qual a humanidade atual acredita viver. O mundo do entretenimento.

 

Quem só escuta, mas não fala, acostuma-se a ser passivo, primeiro passo para a servidão e para a perca da liberdade.

 

“Antes, havia ‘imagens no mundo’; hoje, o que há é o ‘mundo em imagem’ ou, mais exatamente, o ‘mundo como imagem’ […] que tolda a visibilidade e encobre o mundo”, Günther Anders.

 

 

 

 

 

Todos sabemos que os produtos em série fabricados atualmente, são caducos e passageiros. Não no mesmo contexto dos produtos de gerações anteriores, que devido ao seu uso deixavam de funcionar, mas, porque agora eles são fabricados com uma característica quase teológica: estão destinados a morrer, trazendo inclusivamente uma data de caducidade, que se quer que seja o mais cedo possível (1).

Ou seja, os produtos em série nasceram para morrer.

 

Outra característica é a de serem fabricados para serem vendidos como mercadorias, e como tal, para se converterem em ‘propriedade’ de alguém. Só que, ao passarem a serem vendidos como mercadorias, convertem-se também em ‘produtos de consumo’.

 

Para que um bem possa ser ‘propriedade’, tem de possuir a característica de poder manter-se idêntico a si próprio durante um certo tempo, ter uma certa duração. Isto porque ser proprietário de um produto implica a possibilidade de o poder devolver transcorrido um certo tempo. Não se pode ser proprietário de bens que não possuam esta característica.

Só que os produtos de consumo, não oferecem essa possibilidade. Quando compramos um bolo, um iogurte, após os consumir ficamos sem nada. Se quisermos outro, teremos de voltar de novo a comprar.

 

E é este ter de voltar a comprar que garante a sobrevivência da indústria de consumo. É este não ter tempo para sermos proprietários dos produtos que lhes garante a sobrevivência.

Daí, que se algum fabricante pusesse à venda um produto que pudéssemos utilizar diariamente sem que se consumisse, a fábrica teria de fechar. A nossa propriedade seria a ruína do fabricante.

 

No limite, não seria de espantar vermos os fabricantes-unidos a manifestarem-se utilizando como palavra de ordem a velha máxima socialista, clamando que” A propriedade é um roubo”, na medida em que todo o produto que seja propriedade passível de ser conservada nas mãos do comprador, é um roubo ao produtor, pois impede-o de continuar a produzir.

 

 

Os produtos de consumo “estão aí para não estar aí”. São feitos para serem consumidos o mais rapidamente possível. São efémeros.

Os exemplos mais conseguidos de produtos de consumo são as bombas e similares, que após o seu primeiro uso têm de ser repostas. Uma bomba atómica, uma bomba napalm, após serem lançadas não podem ser utilizadas segunda vez.

 

Já o carro, o fogão, o frigorífico, o aparelho de rádio e de televisão, são produtos de consumo que previvem, têm longa duração, podendo, portanto, ser propriedade, sendo, por isso mesmo, roubos.

O mesmo se passava com o vestuário, só que através da instituição da moda, a indústria conseguiu fazer com que os seus produtos necessitassem de serem constantemente substituídos (2).

 

Bastante mais interessantes são os casos das emissões de rádio e televisão, pois vão muito para além do modelo da indústria de consumo. Aqui, o objeto a apropriar, o que tem consistência, é o momento em que é apresentado.

De certa forma, pode-se dizer que as emissões de rádio e televisão são “propriedade nossa”, uma vez que pagamos pela sua receção e entregam-nas em casa como mercadorias. 

Acontece que, como não têm corpo, não são “objeto”, ninguém as classifica assim. Nenhum de nós, enquanto vê televisão, pensa que é dono da emissão. A nossa única possibilidade é a de consumir o emitido durante a emissão.

 

Como só podemos consumir durante o momento da emissão, então a nossa liberdade de apropriação fica limitada. O que contradiz o conceito de podermos ser proprietários.

Ou seja, não possuímos as mercadorias que nos fornecem, uma vez que as consumimos antes de as podermos possuir.

 

O que nos pertence como propriedade são apenas os aparelhos de rádio e televisão que nos transmitem as mercadorias, e não as mercadorias transmitidas. Somos proprietários condenados a consumir as mercadorias que nos querem transmitir.

Daí que, ao chegarmos a casa, vindos do trabalho, comecemos logo por ligar a televisão e rádio, mesmo sem saber o que vai ser transmitido. O importante é que apareça algo, seja o que for, desde que ótico ou acústico, que nos embale e nos dê aquela sensação de tranquilidade e segurança de que está tudo na mesma. A ânsia de possuir e o orgulho de ter, são suficientes para nos satisfazer com a posse do aparelho.

 

Este modelo de comportamento é extremamente importante como tendência para se compreender o conceito atual do mundo e do objeto.

 O que a televisão e a rádio produzem, é um outro mundo: a imagem de um mundo no qual a humanidade atual acredita viver. O mundo do entretenimento em que já se não reconhece o mundo exterior como tal, a não ser que ele corresponda ao que a televisão fornece.

 Daí que nos tempos politicamente críticos, nos apressemos a chegar a casa para sabermos, através da televisão e rádio, o que está a acontecer lá “fora”. O “Matrix” possível.

 

A maneira como falamos, rimos, andamos, amamos, pensamos ou não pensamos, o “toma lá cinco”, etc., de tudo isso só uma pequena parte foi aprendido em casa dos pais, nas escolas e igrejas; a maior parte foi aprendido através da rádio, das revistas, dos filmes e da televisão. Ou seja, através do entretenimento.

É através desta indústria monopolista do entretenimento dominada pelos grandes grupos, que nos inculcam tudo o que desejam que assimilemos. O entretenimento tornou-se na “arte tendenciosa do poder”.

 

Devido à publicidade que é comunicada como entretenimento, não é de espantar verem-se em barracas imundas e que deveriam ser impróprias para viver, televisores de último modelo instalados.

Ouvirem-se os mais indigentes a cantarolarem canções popularuchas (e até jingles) com que a publicidade lhes inunda mil vezes os ouvidos, o que os leva a dirigirem-se às lojas para as comprarem, para assim as poderem considerar como sendo “sua” propriedade.

Nem sequer nos damos conta do facto notável que este comportamento encerra: a de estarmos a desempenhar, mesmo no nosso tempo livre, a função para que fomos industriados, a de comprarmos o produto e, ainda por cima, fazendo-o de “livre vontade” (ilusão da liberdade). E, mesmo sabendo tudo isto, continuamos a fazê-lo com gosto. Infelizmente o gosto não nos protege contra a escravidão.

 

 Este problema da posse, da propriedade como “nossa”, tem de ser visto na sua maior extensão: é que o pronome possessivo “nosso” indica, não só a nossa posse, mas também o facto de sermos possuídos.

 Exemplo clássico é o dos judeus dos campos de concentração nazis, que se lhes referiam como “o nosso campo de concentração”, não querendo com isso dizer que o campo era deles, mas o contrário, que pertenciam a esse campo.

Também acreditamos quando o vendedor nos diz que “o seu desejo é para nós uma ordem”, quando na realidade o que o vendedor está a pensar exatamente o contrário: que temos de transformar a sua ordem, ou a da empresa, num “nosso desejo”.

A minha sede de Coca-Cola ou de Heineken, não é “minha”, mas sim algo produzido em mim pelo produtor da Coca-Cola e da Heineken. Ao bebê-la, por “gosto” próprio, estou a fazer um trabalho de que fui encarregado pela empresa.

 

Expressar livremente uma opinião, implica ter uma opinião. Sabe-se hoje que a “minha opinião” não é a “minha opinião”, e que a “nossa opinião” não é a “nossa opinião”. Os produtores das nossas opiniões já o declaram sem qualquer receio: eles são os verdadeiros produtores das nossas opiniões.

E fazem-no porque sabem que o mundo artificial que produzem através dos seus aparatos, nos torna cegos e incapazes (até por preguiça) de estabelecer outra cosmovisão para além daquela que nos apresentam. A vida é mais cómoda. A ilusão da liberdade.

 

Estamos conformados por um processo cuja ação nos aparece impercetível, e em que caímos sem nos darmos conta. Tal como acontece com a gravidade, que apesar de não a sentirmos como coerção quando caminhamos, por já estar internamente calculada de antemão pela própria estrutura do corpo e que, contudo, se desaparecesse, não conseguiríamos andar em pé.

 

Aquilo que para nós se apresenta como uma realidade que sempre existiu, a “imagem” (toda a representação do mundo e de fragmentos do mundo, sejam fotos, cartazes, imagens televisivas, filmes, etc.), e que era uma exceção em épocas anteriores, é hoje uma presença constante, envolvente que nos cerca, e que se não existisse julgaríamos estar a viver num mundo vazio.

 

Esta elevação da imagem a categoria principal da nossa vida, vai fazer com que o mundo (que só se pode apreender viajando, experimentando e pensando sobre ele) nos apareça a partir de imagens soltas, como versão preparada, como aparência, pronta a ser-nos dada em casa como objeto de consumo, como espetáculo.

Curiosamente, ao ser apresentada como espetáculo, vai também alterar o próprio espetáculo: quando as personagens (artistas, políticos, etc.) vão à televisão, são previamente maquilhadas para que apareçam mais “reais” e de acordo com o gosto do público.

Ou seja, trata-se já de uma apresentação para além da apresentação, de uma “representação” da própria representação do que se pretende ser a realidade. A realidade converte-se em imagem das suas imagens. Puro ilusionismo.

 

Pelo fornecimento contínuo das imagens, somos transformados em consumidores sem pausa, à velocidade e ritmo que unilateralmente nos fornecem. Acostumamo-nos a ver as imagens, mas a não sermos vistos por elas; acostumamo-nos a ouvir as pessoas, mas a não sermos ouvidos por elas. Quem só escuta, mas não fala, acostuma-se a ser passivo, primeiro passo para a servidão e para a perca da liberdade.

 

Os produtos de grande consumo que nos fornecem vêm também já acompanhados de “opiniões” ou “juízos”. E, como estamos habituados a contentarmo-nos com mercadorias prontas para consumir, também consumimos as opiniões e juízos que as acompanham: convertemo-nos em meros “consumidores de opinião”.

As imagens provenientes de todo o mundo que hoje nos transmitem sem cessar, têm como objetivo sufocar toda a possível compreensão do mundo pela sua abundância sem sentido. Pior: não só temos de as consumir e deixar influenciar por elas, como temos de o fazer por forma a ficarmos com fome e querer mais.

 

Acreditar que problemas decisivos tenham de ter em conta os pontos de vista (opiniões) das populações, é ingenuidade (fé) por demais disseminada e aceite. E, no entanto, isso é propalado e propagandeado (com a ajuda dos mass-media que têm à sua disposição) pelos mesmos poderes e instâncias que produzem e transmitem (ditam) o que devem ser as “nossas” decisões: é que o seu princípio operativo consiste em vender à população as decisões já decididas e que apenas são do seu (deles) interesse.

Da mesma forma que qualquer empresa vende as suas mercadorias aos clientes, no pressuposto que o produto corresponderia sempre à satisfação de algo desejado, como se as ordens de compra fossem feitas a partir de uma procura.

 

Qualquer “opinião própria” só poderá ser expressa se estiver inserida dentro dos parâmetros permitidos da “opinião (oficial) transmitida”. Podem aparecer variantes, que estarão sempre previstas no plano inicial, dependendo o seu grau de afastamento do maior ou menor domínio do controle que os poderes e instâncias têm sobre o consumo, ou da política seguida.

Por exemplo: que na cultura possa existir uma grande variabilidade, não é prova da existência de liberdade de expressão de opinião, pois as ditaduras suaves sabem deixar espaços de escape para os não-conformistas, decidindo quais serão esses espaços. Daí que na poesia seja permitido dizer mais coisas que nos artigos de fundo, até porque o número de leitores de poesia não é importante.

 

 

O realizador de cinema Ridley Scott tem feito filmes (3) que se apresentam como meticulosos sobre o ponto de vista histórico, e que nos deixam uma opinião sobre como era a época em que se vivia.

Contudo, mesmo embora sabendo que a realidade era outra, insistia na sua realidade alternativa, como, por exemplo, se pode constatar no Gladiador:

 O imperador Marco Aurélio, nunca pretendeu restaurar a República romana, nem foi assassinado. Cómodo, foi estrangulado no banho, por um lutador. Lucília, não usava vestidos de desenho contemporâneo. Nunca ninguém no Império romano tinha visto um tigre. Máximo Décimo Merídio (Russell Crowe) nunca existiu, e o nome escolhido seria impossível, pois Máximo era um apelido, Décimo um numeral que deveria ser posto à frente, e Merídio era um nome e não um apelido. De notar também que a maioria dos gladiadores não eram escravos, e que grande parte dos combates não eram de morte.

 

No Braveheart de Mel Gibson, William Wallace não era um simples aldeão, mas um proprietário de terras, nunca vestiu uma saia escocesa (o kilt só apareceu três séculos depois), não foi apelidado de Braveheart (esse era o cognome de Roberto I da Escócia), e não engravidou Isabel de França, porquanto o filho dela, Eduardo III, só nasceu sete anos depois de Wallace ter morrido.

 

Exemplos como estes são infindáveis: “liberdades artísticas”.

 

“Antes,” havia ‘imagens no mundo’; hoje, o que há é o ‘mundo em imagem’ ou, mais exatamente, o ‘mundo como imagem’ […] que tolda a visibilidade e encobre o mundo”, Günther Anders.

 

 

 

 

 

  (1)Consultar o meu blog de 13 setembro de 2017, “Todos nós comemos palha”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/128-todos-nos-comemos-palha-34346).

 

(2) Consultar  o meu blog de 7 de outubro de 2015, “Vida da moda, moda da vida”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/vida-da-moda-moda-da-vida-7376).

 

(3) Consultar o meu blog de 4 de maio de 2016, “O cinema que temos”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/o-cinema-que-temos-15404).

 

 

 

(164) Os direitos da força

Tempo estimado de leitura: 6 min.

 

 “O direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, Tucídides.

 

“Na lei civil, não há qualquer diferença entre assassinar um homem estrangulando-o lentamente ou matá-lo com uma bala na cabeça”, embaixador de Israel na ONU, 1967.

 

Se considerarmos válidas as razões invocadas por Israel para justificar as suas ações de guerra contra o Egito, então os palestinianos de Gaza terão também o direito de atacar e ocupar Israel.

 

O direito da força sobrepõe-se à força do direito.

 

 

 

 

Na História da Guerra do Peloponeso, começada a escrever no ano 431 antes de Cristo, Tucídides pôs os poderosos Atenienses a explicar aos derrotados e impotentes Melitanos, a razão para o genocídio que se lhe seguiu:

 

 “o direito, de acordo com o que se passa no mundo, apenas se discute entre os que são igualmente poderosos, porquanto os mais fortes fazem o que podem e os fracos sofrem o que têm de sofrer”, (capítulo XVII, Décimo sexto Ano da Guerra, A Conferência Melitana, O Destino de Melos)

 (https://www.mtholyoke.edu/acad/intrel/melian.htm).

 

Dois mil trezentos e noventa e oito anos depois, a 19 de junho de 1967, o Ministro dos Negócios Estrangeiros do Estado de Israel, produziu perante a Assembleia Gral das Nações Unidas, uma declaração justificativa para a Guerra dos Seis Dias (5 a 10 de junho de 1967) empreendida por Israel contra o Egito e a Liga Árabe.

A principal razão invocada por Israel para iniciar a guerra (casus belli) foi o bloqueio do Estreito de Tirana (entre o Sinai e a península Arábica), imposto pelo Egito e a Liga Árabe, que se verificou a partir de 22 de maio. Era pelo Estreito de Tirana que passava cerca de noventa por cento do petróleo importado por Israel, em direção ao seu único porto no Mar Vermelho, Eilat.

 

Nessa Declaração à Assembleia Geral feita pelo Ministro de Israel (http://www.mfa.gov.il/mfa/foreignpolicy/mfadocuments/yearbook1/pages/25%20statement%20to%20the%20general%20assembly%20by%20foreign%20mi.aspx), pode ler-se:

 

 

O bloqueio é por definição um ato de guerra, imposto e forçado através de violência armada. Nunca na história se viu que um bloqueio e a paz pudessem coexistir, lado a lado. A partir de 24 de maio, saber quem iniciou a guerra ou quem disparou o primeiro tiro, é irrelevante. Na lei civil, não há qualquer diferença entre assassinar um homem estrangulando-o lentamente ou matá-lo com uma bala na cabeça. A partir da altura em que o bloqueio foi imposto, as hostilidades ativas iniciaram-se, pelo que Israel nada tem de justificar perante o Egito pelo uso das ações militares. Se uma potência estrangeira decidisse fechar pela força os portos de Odessa ou Copenhaga ou Marselha ou Nova Iorque, o que é que aconteceria? Haveria discussões sobre quem teria siso o primeiro a disparar? Alguém perguntaria sobre quando a agressão começara?

 

 

Ou seja, o que aqui fica expresso é que, antes de Israel ter atacado o Egito, a guerra contra Israel já se iniciara várias semanas antes quando o Egito bloqueara a passagem dos navios israelitas pelo Mar Vermelho. Foi isso que justificou o bombardeamento, a invasão do Egito e a ocupação das terras da Palestina em 1967.

 

 

A partir daí, Israel tem vindo a impor um bloqueio terrestre, aéreo e marítimo à faixa de Gaza, que se tornou mais exigente a partir de 2007 quando o Hamas passou a governá-la.

O governo de Israel controla as quantidades e qualidades de tudo o que entra e sai de Gaza de acordo com as necessidades mínimas que julgam serem as necessárias para o número de habitantes. Frutos, vegetais, farinha, açúcar, galinhas, produtos de higiene, vestuário, calçado, canas de pesca, papel A4, noz moscada, chá, café, medicamentos, materiais de construção, combustível, o número de camiões que entram, etc., o que torna cada vez mais difícil a vida e a reconstrução necessária após cada novo bombardeamento. Até o fornecimento de energia elétrica é feito por Israel, quatro horas por dia quando muito, a às horas que muito bem entendem.

O bloqueio naval não permite, por exemplo, que os pescadores palestinos possam pescar para além das seis milhas da costa, o que não lhes permite apanharem peixe graúdo, levando à falência da indústria de pesca.

O controle do espaço aéreo e Gaza é feito por Israel, sendo controlado por radar.

 

Se considerarmos válidas as razões invocadas por Israel para justificarem as suas ações de guerra contra o Egito, então os palestinianos de Gaza também teriam o direito de atacar e ocupar Israel.

 

Quando sujeito a bloqueio, Israel considera-se no direito de disparar mísseis, lançar bombas, e a apoderar-se de terras. Mas, quando sujeitos a um bloqueio muito mais sufocante, os palestinianos de Gaza atiram pedras, incendeiam pneus, e tentam escapar do campo de concentração em que foram colocados pelo bloqueio, tal direito não lhes é concedido, sendo considerados como não cumpridores das leis internacionalmente aceites e que delimitam a fronteira entre dois estados.

 

Tal como já nos fazia ver Tucídides, o direito da força sobrepõe-se à força do direito.

 

 

Para além do direito divino concedido a Israel sobre aquele pedaço de terra, convém relembrar alguns factos.

Uma fronteira é algo que separa dois estados, um de cada lado da fronteira. Só que neste caso, temos de um lado um estado poderosamente armado (incluindo bombas atómicas) e do outro lado, não um estado, mas um campo de concentração policiado e vigiado pelo tal estado fortemente armado.

A afirmação da faixa de Gaza como sendo um “campo de concentração” é a do conhecido sociologista israelita Baruch Kimmerling, feita em 2003. Ele descrevia Gaza como “o maior campo de concentração do mundo desde sempre”.

O respeitado diário israelita Ha’aretz, chamava-lhe “o Ghetto de Gaza”, e o insuspeito Primeiro Ministro inglês David Cameron, referia-se a Gaza como uma “prisão ao ar livre”.

Portanto, os habitantes de Gaza não estão a tentar atravessar a fronteira; estão, isso sim, a tentar dar cabo das vedações do campo de concentração, das vedações do ghetto, dos portões da prisão.

 

Vários têm sido os relatórios da Nações Unidas que afirmam que “Gaza, continuando na corrente trajetória, não terá hipóteses de subsistir depois de 2020”, e que “Gaza ultrapassou há muito os limites que possibilitem a vida”. Um espaço onde se não pode viver.

Sara Roy, especialista mundial sobre a economia de Gaza, cujos pais estiveram presos em Auschwitz, disse: “Pessoas inocentes, na sua grande maioria crianças, estão a ser diariamente envenenadas”, referindo-se ao facto de 95% da água disponível estar inquinada e imprópria para consumo.

 

A UNRWA, United Nations Relief and Works Agency, chamou a atenção para um facto sobre Gaza que considerou único: quando em qualquer parte do mundo há um desastre natural, uma seca, ou um desastre provocado pelo homem, a guerra na Síria, as pessoas têm pelo menos uma opção, a de escaparem, de saírem, de se porem a mover. Não é uma grande opção, é trágica, mas é uma opção.

As pessoas de Gaza são as únicas no mundo que não têm essa opção. Estão engaioladas. Dizer nestas condições que Israel tem o direito de usar força proporcional, moderada, para as manter confinadas num campo de morte é ilegal e imoral.

 

A lei internacional é até muito clara: A potência ocupante ou a potência que negue ao povo o direito à autodeterminação, não têm direito, seja em que circunstâncias for, a utilizar a violência.

 

Quanto ao argumento de Israel ter o direito de se proteger, é bom não esquecer que esse direito só se poderá verificar quando acabar com o bloqueio ilegal a Gaza, pois só assim terá fronteira com um outro Estado em igualdade de circunstâncias. É o problema do violador que depois ainda bate na violada por ela tentar agredi-lo.

E, há ainda a desproporção de meios: durante os últimos 15 anos, Israel já lançou oito grandes operações contra Gaza (Operação Dias de Penitência em 2004, Operação Arco-íris em 2004, Operação Nuvens de Outono em 2006, Operação Inverno Quente em 2008, Operação de Chumbo em 2008-9, Operação Pilar de Defesa em 2012, Operação Limite Protetivo em 2014, a que acrescentamos o massacre destes últimos dias.

Na Operação Limite Protetivo foram mortas 550 crianças em Gaza e apenas uma em Israel, foram destruídas 18.000 casas em Gaza e apenas uma em Israel. Nos últimos 45 dias foram mortos 142 habitantes de Gaza e 19.000 ficaram feridos. Nesta passada segunda-feira foram mortos 53 palestinos, mais de 2.000 feridos, grande parte deles com ferimentos para toda a vida, amputações. Nem um só arranhão para os israelitas.

 

Numa conferência dada no Colégio da Defesa Nacional das Forças de Defesa de Israel, o professor israelita Arnon Soffer, dizia em 2004:

 

 

Quando 2,5 milhões de pessoas vivem num espaço fechado como Gaza, vai haver uma catástrofe humana. Essas pessoas vão tornarem-se completos animais, ainda maiores do que já são. Com a ajuda dos loucos fundamentalistas do Islão, a pressão sobre a fronteira vai ser tremenda. Vai ser uma guerra terrível, por isso, se querermos continuar vivos temos de matar e matar e matar, todos os dias, todo o dia”.

 

 

Recordo um discurso de Heinrich Himmler feito a 4 de outubro de 1943, numa reunião com os oficiais de topo das SS, em Posen:

 

É fácil dizer que os Judeus devem ser exterminados, mas isso não é uma tarefa fácil de conseguir. Muitos de vocês sabem o que são 100 corpos que jazem juntos, 500 ou mesmo 1.000. Terem executado este pesado trabalho e terem-se mantido decentes, é uma gloriosa página que perdurará nos anais da história. Nós temos o direito moral, nós temos o dever para com o nosso povo, de matar essas pessoas que acabariam por nos matar a nós. Nós conseguimos cumprir essa imensa tarefa extremamente difícil pelo amor que temos ao nosso povo, sem com isso sofrer qualquer dano na nossa alma, no nosso caráter”. (https://en.wikipedia.org/wiki/Posen_speeches).

 

 

O obsceno é que, se substituirmos neste discurso “Judeus” por “habitantes de Gaza”, podemos imaginá-lo como sendo proferido hoje por altos (in)dignatários de Israel. É a isto que conduz o direito da força.

 

 

 

 

 

 

 

(163) A Cultura como sujeição política

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

 

O Iluminismo nasce a partir de um grande movimento que pretende combater todas as formas de autoritarismo, político, religioso, moral, etc., num combate contra a credulidade e os seus efeitos de dominação.

 

Saber, não é já aceder às verdades eternas de Deus, mas antes melhorar a nossa própria compreensão e relação com o mundo que nos rodeia.

 

 Aos poucos, “melhorar” vai significar prosperar, e o progresso do género humano vai identificar-se com o aumento da riqueza.

 

Somos ilustrados e analfabetos ao mesmo tempo.

 

 

 

 

 

 

É hoje claro que o chamado “tempo moderno”, a “modernização”, foi um projeto histórico concreto das classes dominantes europeias, vinculado ao desenvolvimento do capitalismo industrial através da colonização.

 E que esse seu processo civilizacional conduziu à partição (dualização) da realidade ente o antigo e o novo, o passado e o futuro, a raça branca e as outras, a tecnologia e os saberes menores, a tradição e a inovação, a razão e a superstição, nós e eles, o mundo natural e o humano, a natureza e a cultura.

 

Onde ela chegou, dividiu. Pelo que não é de estranhar que tenha deixado uma espécie de consenso anti moderno, uma certa ira e ressentimento, que muitas vezes se manifesta como um anti Iluminismo.

Ouçamos Pankaj Mishra:

 

Os ambiciosos filósofos do Iluminismo deram à luz a ideia de uma sociedade perfectível, um Céu na terra mais que no mais além. Esta ideia foi adotada com entusiasmo pelos revolucionários franceses – Saint-Just, um dos mais fanáticos, comentou memoravelmente que “a ideia de felicidade é nova na Europa” - antes de se converter na nova religião política do século XIX. Introduzida até ao coração do mundo pós-colonial no século XX, converteu-se em fé na modernização imposta desde cima.

 

É a acusação contra o Iluminismo, ainda hoje muito utilizada, de ter querido substituir a religião pela ciência, fazendo dela uma nova religião.

É a confusão premeditada entre o impulso emancipador que guia o desejo de uma vida feliz e digna na terra, que foi o Iluminismo, e o projeto de domínio sobre todos os povos e recursos naturais da terra. Como se tudo fosse o mesmo.

 

O Iluminismo nasce a partir de um grande movimento que pretende combater todas as formas de autoritarismo, político, religioso, moral, etc., nomeadamente contra a credulidade e os seus efeitos de dominação.

O ataque contra a credulidade não é um ataque a qualquer crença. As ‘crenças’ são necessárias, quer para a vida como para o conhecimento. Já a ‘credulidade’, é a base de toda a dominação porque implica uma delegação da inteligência e da convicção.

Como afirmavam os enciclopedistas: “a credulidade é a forma dos ignorantes; a incredulidade decidida, a dos meio-sábios; a dúvida metódica, a dos sábios.

 

O que o Iluminismo exige é poder exercer a liberdade de submeter a exame qualquer saber e qualquer crença, venha de onde vier e de quem vier, sem pressupostos e sem argumentos de autoridade. Não se trata, portanto, de um ataque à religião.

 

Tornava-se necessário submeter a exame as verdades que produzíamos, da ciência, da lei, dos valores morais, e outras. Kant, vai ainda mais longe: a própria razão deveria ser submetida à sua crítica, suspeitar de si mesma e interrogar-se sempre a propósito dos seus próprios desejos e limites.

Os Iluministas, exatamente por saberem que a alma humana não pode aspirar a uma visão privilegiada, nem a uma inteligibilidade superior, nem a uma verdade eterna, aceitam a parcialidade e a precariedade das nossas verdades, mas também a perfetibilidade do que somos e do que fazemos de nós próprios.

 

Para eles, saber, não é já aceder às verdades eternas de Deus, mas antes melhorar a nossa própria compreensão e relação com o mundo que nos rodeia. O seu compromisso não é para com o progresso, mas sim para com a melhora do género humano contra tudo aquilo que o oprime e degrada.

 

Acontece que a partir do século XVIII, a experiência da prosperidade material, sobretudo na Inglaterra industrial e colonial, vem alterar profundamente o sentido desta exigência moral, política e científica de nos tornarmos melhores através do conhecimento.

Aos poucos, “melhorar” vai significar prosperar, e o progresso do género humano vai identificar-se com o aumento da riqueza. Começara a neutralização da radicalidade da aposta crítica do Iluminismo.

 

A dissolução do poder teocrático e da sociedade da linhagem e vassalagem, e a enorme necessidade de em pouco tempo se conseguirem “quadros” para desempenharem funções públicas e privadas que as imensas novas terras descobertas exigiam, levou à formação da escola pública, na qual o sistema da cultura aparecia como encarregue de forjar cidadãos livremente obedientes. Ou seja, com autonomia como sujeito e obediência como cidadão.

 

Vamos assistir à invenção do “contrato social e contrato laboral” por “livre adesão”, como forma de vínculo no estado moderno. Como consegui-lo? Que argumentos utilizar?

Coube à cultura moderna apresentar a resposta: com as ideias de identidade nacional e de prosperidade económica.

É a cultura que vai emancipar o trabalhador da arbitrariedade, despertando-o para o ponto de vista da universalidade, e do imediato da obrigação para a mediação: libertar o cidadão dos particularismos para assim o integrar como sujeito no Estado.

O que aconteceu foi que a autonomia se transformou em auto obediência. O que fez da cultura um sistema de sujeição política.

 

Nada que os Iluministas não previssem: longe de acreditarem que a ciência e a educação redimiriam por si sós o género humano do obscurantismo e da opressão, já então chamavam a atenção para a necessidade de se examinar quais saberes e que educação é que contribuiriam para a emancipação.

 

Rousseau, no seu Discurso das artes e das ciências, Diderot, em O sobrinho de Rameau, a própria Encyclopédie na sua entrada “Crítica”, e outros, avisavam sobre a velocidade, a arbitrariedade, a inutilidade e a impossibilidade de se compreender o que se estava produzindo.

Temiam que a saturação das bibliotecas, e a acumulação de conhecimento inútil, conduzissem à impossibilidade de um relacionamento adequado com o saber, acabando por neutralizarem o próprio saber.

 

Ou seja: não basta ter acesso ao conhecimento disponível, porque o importante é podermo-nos relacionar com ele por forma a contribuirmos para transformarmo-nos a nós próprios, e ao nosso mundo, para melhor.

Senão, o que nos acontece é exatamente o que nos está a suceder atualmente, o de em conjunto sabermos muito, mas podermos pouco. “Somos ilustrados e analfabetos ao mesmo tempo”.

 

(162) Billie Holiday e os Rosenberg

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

“As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto, / Sangue nas folhas e sangue na raiz, / Um corpo negro balançando na brisa sulista/ Um estranho fruto pendurado nos álamos”, Abel Meeropol.

 

Mas ele não conseguia matá-los. Era algo que ele não conseguia fazer”, RobertMeeropol.

 

Era o temor de uma subversão comunista generalizada, agitada na opinião pública.

 

Todos nós conhecemos Billie Holiday.

 

 

 

 

A 19 de junho de 1953 foram executados (cadeira elétrica) na prisão de Sing Sing, Ossining, Nova York, o casal Rosenberg, Julius Rosenberg (1918-1953) e Ethel Greenglass Rosenberg (1915-1953), acusados de espionagem por transmitirem informações sobre a bomba atómica, motores de reação, radar, sonar e outros armamentos, à União Soviética.

Acontecimento raro próprio de tempos sociais radicalizados, como vemos pelo facto de terem sido os primeiros civis americanos a serem punidos com a pena de morte por espionagem, os primeiros americanos a serem executados em tempo de paz devido a essa mesma acusação, e o primeiro casal, marido e mulher, a serem condenados a morrerem na cadeira elétrica. Acrescente-se que Ethel, foi a segunda mulher a ser executada pelo governo americano, desde que em1865 Mary Surratt fora enforcada pela alegada participação no assassinato de Abraham Lincoln.

 

Viviam-se os tempos extremados do Macartismo (do senador McCarthy, que afirmava ter uma lista dos “membros do Partido Comunista e dos membros de uma rede de espionagem” que faziam parte do governo federal americano) e do seu Terror Vermelho (Red Scare), período que se estendeu de 1950 a 1956, no qual todos os que fossem meramente suspeitos de simpatias que ele considerava como comunistas, eram objeto de investigações agressivas e de invasão de privacidade, sendo acusados de espionagem a soldo da URSS. Era o temor de uma subversão comunista generalizada, agitada na opinião pública.

 

Tão extremados eram os tempos que, e independentemente dos Rosenbergs serem ou não culpados, de serem ou não bodes expiatórios, de o julgamento ter sido ou não conivente com o clima de perseguição aos comunistas tão ao agrado de McCarthy, o juiz decidiu-se por uma condenação à morte de um casal com dois filhos menores (Robert, 4 anos, e Michael, 8 anos), e como tal, decidindo também da orfandade dos mesmos.

 Ethel, a mãe, bem pediu clemência em nome dos filhos (muitas foram as personalidades que a acompanharam, inclusivamente o Papa Pio XII), mas o Presidente D. Eisenhower mostrou-se renitente, recusando em 1953 todos os pedidos (já anteriormente, em 1952, o Presidente Truman também os recusara, o que não era de admirar em quem ordenara o lançamento de bombas atómicas sobre duas cidades). A resolução de Eisenhower, o primeiro a avisar contra o crescimento desmesurado do complexo político-militar, diz bem do clima de quase histeria coletiva que então se vivia.

 

Após a execução, as crianças tiveram problemas de toda a espécie: desde os tios que não quiseram ficar com eles, à escola pública local que os expulsou por os pais dos alunos não quererem que os seus filhos se relacionassem com filhos de traidores executados, até aos pedidos de políticos republicanos para que o tribunal os entregasse a um orfanato (onde acabaram por estar apenas poucos dias) numa altura em que já estava a correr um processo de adoção por um casal.

 

Finalmente em 1954, foram viver com os pais adotivos, Abel e Ann Meeropol, daí que os seus nomes passassem a ser desde então, Robert e Michael Meeropol.

 Quem era este casal que os resolveu adotar, naquele clima de paranoia e perseguição em que até familiares e amigos se sentiam aterrorizados só de imaginarem que poderiam  ficar a tomarem conta dos filhos dos Rosenberg?

 

Abel Meeropol (1903-1986), filho de emigrantes judeus russos, era um professor do liceu Dewitt Clinton, no Bronx, NY, escritor, poeta, compositor, e ativista social, que vivia do seu vencimento e das canções que publicava.

Em 1936, após ter visto uma fotografia do linchamento e enforcamento de dois africanos, pendentes de uma árvore, que tivera lugar em Indiana a 7 de agosto de 1930, escreveu um poema que publicou no New York Teacher. Intitulou-o de “Strange Fruit” (Estranho Fruto):

 

 

As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto,

Sangue nas folhas e sangue na raiz,

Um corpo negro balançando na brisa sulista

Um estranho fruto pendurado nos álamos.

 

Uma cena pastoral no galante Sul,

Os olhos esbugalhados e a boca torcida,

Perfume de magnólia doce e fresca,

Então o repentino cheiro de carne queimada!

 

Aqui está o fruto para os corvos arrancarem,

Para a chuva recolher, para o vento sugar,

Para o sol apodrecer, para as árvores fazerem cair,

Aqui está uma estranha e amarga colheita.”

 

 

Algum tempo depois resolveu musicá-la, apresentando-a num clube noturno de Nova Iorque, cujo dono acabou por a indicar a Billie Holiday. Apesar do medo de retaliações, Billie Holiday resolveu cantá-la pela primeira vez em 1939. Quando a quis gravar em disco, a sua gravadora, Columbia Records, recusou-se a fazê-lo, temendo as repercussões. Finalmente acabou por permitir a gravação, desde que a canção figurasse fora do contrato.

A canção acabou por ser o maior sucesso de vendas de Billie Holiday, que a passou a cantar no final de todos os seus concertos. Em 1978 entrou para a lista do Hall da Fama dos Grammy, e em 2002 passou a estar incluída na lista das canções do século da Recording Industry of America e da National Endowment for the Arts.

 

 

Graças ao casal Meeropol, Robert e Michael, agora Meeropol, acabaram por ter uma vida normal, agradável, interessante, vindo ambos a serem professores de liceu, envolvidos em assuntos sociais.

Abel Meeropol, o pai, continuou a lecionar e a escrever músicas, algumas igualmente famosas, como a “House I live in”, grande êxito de Frank Sinatra.

No entretanto, passou por alguns tempos difíceis, questionado várias vezes sobre as suas atividades, chegando a ter um período em que ninguém o contratava nem lhe comprava as suas canções.

 

 Robert conta uma história sobre um cedro japonês que tinham no quintal da casa onde viviam. Todos os anos o cedro dava uma série de rebentos, e quando os pretendeu cortar, o pai disse-lhe, “Não faças isso, não podes matar os rebentos!”. “Mas há dúzias deles. O que vais fazer com eles?”

Então o pai apanhou-os e colocou-os em latas de café, alinhando-as ao longo da casa. Havia já centenas delas. “Mas ele não conseguia matá-los. Era algo que ele não conseguia fazer”.

 

Abel Meeropol morreu desapercebidamente em 1986.

 

Todos nós conhecemos Billie Holiday.

 

 

 

 

Informação complementar:

 

#Sobre o macartismo, uma sucinta explicação e um filme,

“O que é o macartismo e como ele aconteceu”, Ellen Schrecker, (https://www.youtube.com/watch?v=N35IugBYH04).

 

Excertos de um programa radiofónico de Edward Murrow, no filme Good Night and, Good Luck, realizado por George Clooney em 2005 (https://www.youtube.com/watch?v=1cfwsfGqgPM).

 

#Sobre os filhos dos Rosenberg, uma entrevista (http://www.angelfire.com/zine2/robertmeeropol/).

 

 

# Sobre a canção “Strange Fruit”

A história por detrás da canção “Strange Fruit” (https://www.youtube.com/watch?v=EcnTzwA0s2c).

 

Evolução da canção “Strange Fruit”, de B. Holiday a Nina Simone: (https://www.npr.org/2009/06/22/105699329/evolution-of-a-song-strange-fruit).

 

# Sobre cançonetistas, ver o meu blog, de 5 de julho de 2017, “As Josefinas cantoras”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/118-as-josefinas-cantoras-31842).

 

(161) O "Maio de 68" em França e Deleuze

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Há que rejeitar a ideia da classe operária como sendo o baluarte da mudança.

 

A psicanálise é vista como a força policial do capitalismo, rasteando os desviantes psicológicos e transformando-os em bons filhos e bons trabalhadores.

 

Porque é que as pessoas ‘desejavam’ o Fascismo?

 

O pensamento não conclui com base na identidade, mas antes com base na diferença.

 

 

 

 

A sublevação de “maio de 68” em França, apanhou de surpresa todas as instituições “pensantes”, na medida em que nenhuma delas, políticos, filósofos, partidos, sindicatos, comunicação social, conseguiu prever ou explicar os acontecimentos.

Uma das tentativas mais interessantes para a compreensão dos acontecimentos, inscrevendo-o numa visão mais alargada da relação entre desejo (o que se deseja) e realidade, pertence a Gilles Deleuze e a Félix Guattari, na sua obra conjunta Capitalismo e Esquizofrenia 1. O Anti Édipo (1972).

 

Havia tempo que Deleuze intentava responder a perguntas como:

 Porque é que as revoluções falham? Porque é que as pessoas lutam pela sua própria servidão vendo-a como se fosse a sua libertação? Porque é que os movimentos de massas acabam por corromper os interesses das massas? Sabendo que Hitler e Mussolini chegaram ao poder através de movimentos populistas, porque é que as pessoas ‘desejavam’ o Fascismo?

 

Segundo Deleuze, embora o desejo (o que se deseja) se exprima através das pessoas, encaminhando-as num certo sentido, nem sempre esse desejo se encontra alinhado com o simples interesse próprio. Tem cabido à sociedade conseguir, através dos tempos, constranger e orientar o desejo de acordo com certos padrões restritivos.

Tudo começa na família nuclear, onde as crianças são ensinadas a dirigirem o seu desejo para um objeto amado, a mãe, que é mantida fora do seu alcance por uma lei poderosa, representada pelo pai. Como resultado, obtém-se um sujeito individual passivo, pronto a ir trabalhar, a obedecer ao chefe, que compete com vizinhos e que consome um sem fim de produtos.

Daí que no seu Anti Édipo, (Capitalisme et Schizophrénie 1. L'Anti-Œdipe (1972); Capitalisme et Schizophrénie 2. Mille Plateaux (1980), a psicanálise seja vista como a força policial do capitalismo, rasteando os desviantes psicológicos e transformando-os em bons filhos e bons trabalhadores.

 

Em vez da psicanálise, Deleuze propõe antes a “esquizoanálise” como forma para encontrar os processos originais do desejo que se desviem do capitalismo, segui-los até ao extremo para escapar às restrições impostas pelo capital, para por fim, conseguir alinhar esses diferentes processos para criar o que chama de “revolução molecular”. Ou seja, propõe a descodificação do processo inconsciente do desejo e a identificação do seu potencial revolucionário.

 

Isso leva-o a rejeitar a ideia da classe operária como o baluarte da mudança, preferindo uma abrangência maior proveniente da união de grupos marginalizados. A centralidade do trabalhador industrial, branco e masculino, segundo a conceção marxista da exploração e da sua superação, deixa na sombra muitas outras experiências da opressão: mulheres, negros, homossexuais, minorias étnicas e culturais, etc., que encontram na reinvidicação do reconhecimento da sua identidade um espaço para a luta debaixo de um horizonte ampliado da justiça social.

 

Para ele, todos os oprimidos pela sociedade patriarcal (as mulheres), pelo racismo (as pessoas de cor que não a branca) e pela heterossexualidade (a comunidade de lésbias, homossexuais, transsexuais e bissexuais), sofrem pelo despotismo da máquina capitalista.

A que agora se juntam as várias formas novas trazidas da exploração pelo trabalho e que já não compõem uma classe homogénea nem capaz de autoconsciência: a precarização das relações laborais e a expulsão de múltiplas formas de vida da esfera do trabalho (desempregados de longa duração, imigrantes irregulares, reformados, jovens que nem sequer vão começar a trabalhar, etc.).

 

Só pela ação conjunta de todos estes “minoritários” é que será possível acontecer uma revolução anticapitalista. Isto porque devido à imagem filosófica individual se basear na aparentemente autónoma figura do homem (macho) branco, esse espetro da individualidade só poderá vir a ser banido pelo processo de se “tornarem-mulheres”, e de se “tornarem-minoritários”. Foi o que concluiu Deleuze já lá vão 46 anos.

 

 

Deleuze faz parte daquele grupo de pensadores que pretende trazer o oculto à superfície, fazendo emergir as forças, as singularidades e os acontecimentos que o pensamento metafísico afogara com as categorias da representação.

Segundo a teoria platónica, o conhecimento é obrigado a buscar um modelo imutável (arquétipo) para poder certificar a verdade de cada realidade sensível. Ou seja, o que Platão faz é restringir o terreno do pensável ao que está contido no modelo.

O que Deleuze fez, foi atrever-se a pensar a diferença como diferença de si mesma, algo que nunca ninguém intentara.

Pensar a diferença, não é pensar as diferenças entre os distintos tipos de entes e das suas tipologias (o que fazia a metafísica), ou entre os entes e o ser (como propunha Heidegger), mas antes pensar o que é, como uma multiplicidade de diferenças.

 

 

 

 

 

 

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