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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(152) A destruição do mundo finito

Tempo estimado de leitura: 6 min.

 

A Terra era a morada do homem, sendo Deus, fim último e primeiro motor, quem insuflava a vida e fazia movimentar o Cosmo.

 

 Ia-se espalhando na sociedade o sentimento de que alguma coisa não estava certa com a representação tradicional do mundo.

 

O mundo já não era finito, ordenado e harmonioso, sendo antes infinito e caótico.

 

“Da destruição do mundo concebido como um todo finito e bem ordenado … e da sua substituição por um Universo indefinido, e mesmo infinito”.

 

 

 

 

Os séculos XVI e XVII têm sido considerados como épocas de grandes alterações do pensamento filosófico, científico e espiritual, que vieram modificar os fundamentos e os quadros do nosso pensamento.

Há duas obras clássicas sobre este período, cujos títulos são só por si suficientemente elucidativos para o caracterizar: Paul Hazard, publica em 1930 um estudo a que dá o título de “A Crise da Consciência Europeia”, e em 1957, Alexandre Koyré, apresenta um trabalho a que chamou “Do Mundo Fechado ao Universo Infinito”.

 

Um mundo hierarquizado, belo, finito.

 

Uma das razões porque o Cristianismo se impôs à filosofia estoica prevalecente no Império Romano, foi por personalizar a salvação após a morte. Apesar do Estoicismo nos garantir a eternidade, em que a morte constituía uma simples passagem de um estado a outro, não havendo, portanto, um desaparecimento definitivo, essa eternidade não era, contudo, garantida a cada um de nós enquanto indivíduos, mas apenas aos nossos fragmentos inconscientes, que continuariam assim a fazer parte do logos universal.

Em contrapartida, o Cristianismo prometia a imortalidade pessoal, e a ressurreição das almas e dos corpos, ou seja, a minha imortalidade e a dos meus familiares. O amor em Deus era mais forte que a própria morte.

 

 Apesar destas diferenças, é o modelo de organização do mundo (o Cosmo) helénico-romano que vai ser absorvido pelo Cristianismo, mantendo-se inclusivamente ao longo da Idade Média.

 Era o modelo de um mundo ordenado, finito, disposto em círculos concêntricos dependentes do valor ou da perfeição, começando com o de mais baixo valor, progredindo para o de maior perfeição, onde se encontrava estabelecida uma hierarquia em que os próprios lugares dos seres correspondiam aos graus da sua perfeição, numa escala que ia da matéria para Deus.

Neste Cosmo, todas as coisas tinham o seu lugar determinado pelo grau do seu valor, daí a tendência para procurarem o seu lugar para nele repousarem (à ciência caberia revelar essas tendências). Nesse Cosmo, a Terra ocuparia o centro.

Para os cristãos, tratava-se de um mundo perfeito e feito para o homem: era para ele que os planetas e os céus giravam à sua volta, era para ele que o Sol se levantava. A Terra era a sua morada, sendo Deus, fim último e primeiro motor, quem insuflava a vida e fazia movimentar o Cosmo. Era, pois, um mundo penetrado de razão e beleza: como não o admirar, como não o adorar?

Este era o mundo que Koiré considerava como “o mundo fechado”.

 

Esta cosmologia antiga vai ser totalmente estilhaçada, e, como a Igreja se apegara a ela para defender posições que nada tinham que ver com a religião (a idade da Terra, a sua situação relativamente ao Sol, a data de nascimento do homem, etc.), vai também ser fortemente questionada.

É comum aceitar-se que esta grande revolução da modernidade se inicia com a publicação da obra de Copérnico em 1543, De Revolutionibus Orbium Coelestium (As Revoluções dos Orbes Celestes), seguida das teses de Galileu em 1632, o Dialogo sopra i due massimi systemi del mondo (Diálogo sobre os Dois Maiores Sistemas do Mundo), dos Principia Philosophiae (Princípios de Filosofia) de Descartes em 1644, e dos Principia Mathematica de Newton em 1687.

Se só considerarmos estas balizas de tempo, então a rutura ocorreu em 150 anos, como aliás é vulgarmente aceite. Terá sido assim?

 

A abertura.

 

As causas que levaram à passagem de um mundo fechado a um universo infinito, não podem ser atribuídas apenas ao aparecimento de uma nova astronomia e cosmologia, de uma nova ciência física e matemática, ou simplesmente aos progressos técnicos onde se inclui a invenção do telescópio. De certa forma, poderemos até dizer com mais propriedade, que tudo isso foram mais consequências do desenvolvimento que se foi verificando na sociedade.

 

Desde o século XIII que se vinham acumulando alterações sensíveis que apontavam nesse sentido. Sem procurar fazer uma análise exaustiva, podemos referir:

 o aparecimento e a demonstração de sentimentos humanos profundos na iconografia religiosa, já visíveis nos frescos de Giotto (“São Joaquim e Santa Ana na Porta Dourada”, “Lamentações sobre o corpo de Cristo”, “O massacre dos Inocentes”);

o aparecimento da perspetiva na pintura e escultura;

 o reaparecimento do retrato figurado, com uma descrição realista do rosto, exprimindo uma progressiva libertação do indivíduo do quadro social e religioso;

o aparecimento da tipografia, acelerando e revolucionando a transmissão do conhecimento;

o aparecimento da autobiografia, liberta de qualquer constrangimento, inventando uma narrativa do próprio, independente da história, sem, contudo, ser uma confissão;

o aparecimento dos diários, dos comentários, das memórias;

 o aparecimento dos anacoretas e dos cavaleiros errantes (não esqueçamos que na sociedade medieval, ninguém arriscava deslocar-se, viajar, a não ser que fosse em grupo de pelo menos dois: quem procurasse isolar-se do grupo, poderia ser atacado, uma vez que os que se expunham eram considerados como desviados, possessos ou loucos; e, a quem se expunha assim, oferecendo-se como presa, tinha-se o direito de tudo lhes roubar);

 o tratamento dado ao corpo, incluindo a evolução da nudez;

o crescimento económico em que a moeda começa a ter um papel primordial (espalha-se o uso da palavra “ganhar”, poupar moeda para se tornar menos dependente dos familiares, conquista de espaço para os empreendimentos individuais);

as melhorias da cartografia marítima devido aos descobrimentos e às inovações na astronomia.

 

Quando Copérnico, na sua astronomia, retira a Terra do centro do mundo, para a colocar no céu entre os outros planetas, vai minar os alicerces da ordem cósmica tradicional. Contudo, estas ideias tinham-se vindo a desenvolver na sociedade.

 Cento e três anos antes, Nicolau de Cusa (1401 – 1464) na sua obra De docta ignorantia (Douta Ignorância) de 1440), conclui, sem ser através de experimentação ou cálculo, mas por puro raciocínio, que

 

se bem que o mundo não seja infinito, ele não pode apesar de isso ser concebido como finito …Por conseguinte, a terra, que não pode ser o centro, não pode estar privada de todo o movimento… resulta de tudo isso, que a terra se move.”

 

 Não pretendo com isto dizer que Nicolau de Cusa tenha sido um precursor da reforma da astronomia ou de Copérnico, mas apenas chamar a atenção para o sentimento que se ia espalhando na sociedade de que alguma coisa não estava certa com a representação tradicional do mundo.

É bom notar que todos esses pensadores e homens de ciência acima citados, eram homens de fé, crentes, fazendo mesmo alguns deles parte das estruturas da Igreja (Nicolau de Cusa era Cardeal).

 

Em 1609, Johannes Kepler, baseando-se nas detalhadas observações dos movimentos planetários pacientemente coligidas no século XVI por Tycho Brahe, formula as primeiras leis sobre o movimento planetário.

 A primeira lei confirma o modelo heliocêntrico de Copérnico, mas calculando de forma matemática as suas órbitas, passa-as de circulares a elípticas. A segunda lei vai dizer-nos que os planetas não se movem sempre com a mesma velocidade durante as suas órbitas: aceleram quando se aproximam do Sol e desaceleram quando se afastam.

 Em 1618, avança com mais uma lei: o tempo que um planeta leva a dar a volta ao Sol – um ano para a Terra – depende da distância a que se encontra do Sol, sendo que o quadrado do período da revolução varia com o cubo da distância do planeta ao Sol.

Brilhante Kepler, que considerava que o telescópio em nada modificava a sua apreciação: permitir-nos-ia apenas ver mais estrelas do que víamos antes da sua invenção, ultrapassar os limites efetivos da nossa perceção visual, mas não era por isso que a estrutura da astronomia e do universo seria alterada.

 Pelo que concluía que, com ou sem telescópio, as coisas situadas a uma distância infinita não poderiam à mesma serem percebidas pela visão, pois o mundo ótico era um mundo finito.

 

Só que uma coisa é calcular e apresentar a teoria, outra muito diferente é verem-se os resultados desses cálculos. Assim, quando Galileu consegue com o seu telescópio (ao ter conhecimento da invenção do telescópio, o perspicillum, feita por um jesuíta holandês, resolveu construir um para si) ver que a Lua tinha montanhas (o que o levou a concluir que a Lua seria feita de idêntico material ao da Terra), que Júpiter tinha satélites, que Vénus tinha fases, e que o Sol produzia manchas solares (o que significava que a sua matéria era alterável), vai desacreditar toda a astrologia Aristotélica, provocando uma enorme perturbação nos espíritos por pôr em causa a imutabilidade celeste, um dos dogmas que presidia ao mundo de então: a perfeição absoluta do cosmos vinha do facto de ele ser eterno e imutável, em que nada poderia ser alterado.

 

Astrónomos, físicos e matemáticos, revelavam com factos que o mundo já não era finito, ordenado e harmonioso, sendo antes infinito e caótico. O universo já nada tinha que ver com o cosmos, não podendo, portanto, ser tomado como modelo a ser imitado.

 

Para Alexandre Koyré, esta revolução científica está na origem

“da destruição da ideia de cosmos […], da destruição do mundo

concebido como um todo finito e bem ordenado, no qual a estrutura espacial encarnava uma hierarquia de valores e de perfeição … e da sua substituição por um Universo indefinido, e mesmo infinito, que não possui já nenhuma hierarquia natural, unida apenas pela identidade das leis que regem em todas as suas partes bem como pelas suas últimas componentes situadas, todas elas, ao mesmo nível ontológico …Hoje, já ninguém pensa nisso, mas os espíritos da época foram literalmente abalados pelo surgimento desta nova visão do mundo como o exprimem estes versos célebres que John Donne escreveu em 1611 (Anatomy of the World), depois de ter tomado conhecimento dos princípios da ‘revolução coperniciana’:

 

“A Nova Filosofia tudo põe em dúvida,

O Elemento de fogo extinguiu-se completamente:

O Sol perdeu-se e a terra; e o entendimento de homem algum

O pode dirigir com acerto até onde a buscar.

E francamente os homens confessam que este mundo está exausto

Enquanto nos Planetas e no Firmamento

Tanto procuram de novo; vêem depois que este       

Está de novo espalhado pelas suas Atomias.                          

Tudo está em pedaços toda a coerência se afastou;

Tudo é mero suprimento e tudo Relação.”

 

 

Mas, terá mesmo sido assim? Terão mesmo os povos ficado abalados pelo surgimento desta nova visão?

 

 

 

Att: continua na próxima semana com o título “Mas fazemos amor de relógio de pulso”.

 

(151) A cabecinha pensadora das formigas

Tempo estimado de leitura: 6 min.

 

Uma das coisas fascinantes da sociedade das formigas é a existência de um comportamento muito complexo e sofisticado sem a necessidade de qualquer elemento de cognição ou conhecimento daquilo que se está a fazer, Erik Frank.

 

 O processo de conhecer é um processo biológico, Humberto Maturana.

  

Na China, acredita-se que só será possível tornar governável o caos oriundo da complexidade da vida contemporânea nas cada vez maiores cidades, através de um maior controle social, e propõem-se fazê-lo através daquilo que chamam de “crédito social”.

 

Eis-nos finalmente postos na posição das formigas, a quatro e de rabinho para o ar.

 

 

 

Recentemente, a revista de ciências biológicas Proceedings of The Royal Society B, publicou um estudo de Erik T. Frank, Marten Wehrahn e K. Eduard Linsnmair, investigadores da Universidade de Wurzburg, Alemanha, sobre “Tratamento de feridas e ajuda seletiva das formigas caçadoras de térmitas” (http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/285/1872/20172457).

 

Eis o que eles nos comunicam na sinopse do seu trabalho:

 

As feridas abertas representam um grande risco para a saúde dos animais, daí que as espécies com maior risco de tal acontecer desenvolverem vários processos para reduzirem esses riscos. Neste estudo, analisámos a resposta comportamental às feridas expostas no grupo de formigas caçadoras de térmitas, Megaponera analis, quer a nível social quer a nível individual.

 Durante as incursões às térmitas, algumas formigas são feridas pelas térmitas soldados (mordedura das extremidades), e após a luta as formigas feridas são transportadas às costas para o seu ninho pelas outras suas colegas formigas.

 Observámos depois o intenso tratamento a que são submetidas já dentro do formigueiro feito pelas colegas. A falta de tratamento aumentava a mortalidade de 10% para 80% nas próximas 24 horas, provavelmente devido a infeções. A coagulação das feridas ocorria extraordinariamente depressa (10 minutos) nos indivíduos não tratados.

As formigas muito feridas (perca de cinco extremidades) não eram salvas nem tratadas; a triagem era simples de fazer, não pela salvadora, mas pela formiga ferida que não se mexia. Curiosamente, as formigas levemente feridas comportavam-se como se estivessem mais feridas quando no formigueiro.

Mostrámos o tratamento socialmente organizado de feridas nos insetos, através de um sistema multifacetado de ajuda com o foco nos indivíduos feridos. O sistema não é apenas limitado ao salvamento seletivo dos indivíduos ligeiramente feridos pelo transporte às costas, mas também pelo tratamento diferenciado que lhes é proporcionado dentro do formigueiro.”

 

Explicam-nos ainda no seu estudo que, quando as formigas batedoras avistam um local com térmitas, regressam ao formigueiro para comunicarem o achado, o que leva à preparação de uma incursão de até 600 elementos que se dirigem rapidamente à colónia das térmitas. Na luta que se lhe segue, cerca de um terço das formigas perde uma ou mais pernas. As formigas feridas enviam pedidos de socorro em forma de feromonas.

Quando a ajuda chega, as formigas feridas põem-se de pé, em pontas, por forma a que mais facilmente possam ser carregadas às costas pela formiga que se lhe põe por baixo e que a vai transportar. Se não se conseguirem colocar na posição certa, são abandonadas pelas colegas salvadoras.

 

Chegadas ao formigueiro, as formigas feridas são rodeadas por outras formigas. Erik Frank diz que “não sabemos se os cuidados dispensados se limitam apenas a retirar o sujo das feridas ou a aplicar uma substância antimicrobiana que combata a infeção. Mas sabemos que se não receberem tratamento, 80% morrem em 24 horas”.

Sabe-se que a cutícula que forma o exoesqueleto das formigas inibe o crescimento de bactérias, pelo que os cuidados que têm para com os feridos possam significar uma transmissão de antibióticos. E, a ser assim, não há quaisquer resistências ao antibiótico. O que não é de admirar: são seres vivos que vivem apinhados nos subsolos húmidos, com grande afinidade genética e, portanto, expostos à propagação de doenças. E, contudo, andam por cá há uma centena de milhão de anos, pelo que têm de ter um excelente sistema de imunidade coletiva.

 

Depois das lutas, estas formigas esperam umas pelas outras, de forma a poderem regressar ao ninho como um grupo. Não se veja neste comportamento de resgate das companheiras um sentimento de altruísmo: tal deve ser feito por ser o melhor para a colónia. As formigas resgatadas (95%) irão participar nas expedições de caça que se seguirão.

Ou seja: apesar de tudo, um indivíduo desempenha um papel importante, na medida em que para uma comunidade esteja equilibrada, o número de formigas que nasce tem que coincidir com a taxa de mortalidade. Como a taxa de natalidade desta espécie é relativamente baixa (nascem 13 formigas ao dia), é importante resgatar os feridos. Impera o pragmatismo.

 

E, tudo isto feito sem recurso a computadores, telemóveis ou Inteligência Artificial.

Segundo Erik Frank:

 “Uma das coisas fascinantes da sociedade das formigas é a da existência de um comportamento muito complexo e sofisticado sem a necessidade de qualquer elemento de cognição ou de conhecimento daquilo que se está a fazer”.

 

Nos blogs de 27 de dezembro de 2017 (“Do todo e das partes”) e de 15 de junho de 2015 (“O caso da deriva das gaivotas lésbicas”), é abordado este assunto da cognição e comunicação, quando referi a “teoria do conhecimento de Santiago”, de Humberto Maturana e Francisco Varela (http://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/143-do-todo-e-das-partes-38347), (http://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/o-caso-da-deriva-das-gaivotas-lesbicas-16920).

 

Face à enorme variedade de comportamentos dos seres vivos, que também se verificam no campo da comunicação, Maturana é levado a definir comunicação “como uma classe particular de condutas que ocorrem, com ou sem a presença do sistema nervoso, no operar dos organismos em sistemas sociais”.

A base da sua teoria assenta na identificação da cognição, do processo de conhecer, com o processo de vida, o que o leva a afirmar que “os sistemas de vida são sistemas cognitivos, daí que o viver como processo é um sistema de cognição”.

Ou seja, o processo de conhecer é um processo biológico.

 

O conteúdo do conceito de cognição vai assim ser enormemente ampliado. Segundo este modo de ver, “a cognição passa a engloba todo o processo de vida – incluindo perceção, emoção e comportamento – não necessitando necessariamente de um cérebro ou de um sistema nervoso”.

 

 

Na China, acredita-se que só será possível tornar governável o caos oriundo da complexidade da vida contemporânea nas cada vez maiores cidades, através de um maior controle social, e propõem-se fazê-lo através daquilo que chamam de “crédito social”.

Este sistema pretende cobrir todos os campos da vida de cada um, quer ela se verifique ‘on line’, quer ‘off line’. Pretende-se monitorizar o comportamento individual do consumo, da conduta nas redes sociais, bem como de todas as infrações cometidas no mundo real, sejam multas de trânsito ou simples discussões tidas com vizinhos. Tudo isso é depois integrado num algoritmo que fornecerá uma pontuação indicativa da “sinceridade”.

Todos os chineses receberão um número correspondente ao seu índice de honestidade e boa conduta, que servirá para desbloquear (ou bloquear) o acesso às coisas, como por exemplo, as oportunidades que lhes são oferecidas, as liberdades de que poderão disfrutar, e os privilégios que lhe poderão ser concedidos.

 

Tudo isto se encontra publicado num documento de junho de 2014, proveniente do Conselho de Estado da República Popular da China, “Guia de Planeamento para a Construção e um Sistema de Crédito Social” (https://chinacopyrightandmedia.wordpress.com/2014/06/14/planning-outline-for-the-construction-of-a-social-credit-system-2014-2020/).

As boas intenções contantes da proposta dão como exemplos a possibilidade de acabar com a corrupção dos funcionários, penalizar a contrafação de produtos de consumo, evitar a etiquetagem enganosa ou o aparecimento de produtos farmacêuticos e comida adulterados.

 

Este sistema individual de créditos é, originalmente, baseado no modelo ocidental do índice calculado para obtenção de empréstimos/crédito, que impõe condições para o aluguer de carros, para o acesso a empregos e oportunidades educacionais. O que os chineses fizeram a mais foi utilizá-lo como ferramenta para impor a disciplina social, englobando toda a sociedade, e contando com a colaboração de parecerias público-privadas.

 

 Em menor escala, nada que os ocidentais já não fizessem, através dos programas de lealdade das maiores empresas: os ‘melhores’ cidadãos, os com maior pontuação de crédito, têm mais descontos em serviços ou serviços especiais, como em quartos de hotéis, no aluguer de apartamentos sem necessidade de depósito, ou de pôr os filhos em escolas exclusivas. Nada também que já não façam quando se trata de por obstáculos a programas de acesso a benefícios para as populações mais desprotegidas, através das novas tecnologias de gestão da pobreza (algoritmos preditivos, modelos de risco e sistemas automáticos de elegibilidade).

 

Se, à extensão da rede nacional de câmaras de reconhecimento facial, juntarmos a colaboração das megaempresas como a Alibaba Alipay, Tencent, Baidu, o serviço de mobilidade Didi Chuxing, o site de encontros Baihe, o bilião de telemóveis inteligentes, e demais computadores interligados, e acrescentarmos a intenção declarada do governo de prosseguir o sistema de “crédito pessoal”, talvez isto nos leve a entender até onde este sistema de vigilância poderá ir.

 

Estamos perante um sistema em que o governo (ou outros) possa decidir em tempo real sobre o que aos cidadãos possa ser (ou não) permitido fazer, comprar, ou aceder, sem qualquer hipótese de recurso.

 

Mais ou menos sem vergonha, às claras ou secretamente, lá vão também os governos ocidentais e as suas megaempresas Googles, Amazonas, Microsoftes, Facebooks, etc., e as suas forças policiais/militares, prosseguindo nas suas novas parcerias público-privadas, no caminho do adormecimento, insensibilização, “educação” e controle dos cidadãos.

 

Querem-nos obedientes e industriados como as formigas. Ao fim de todo este tempo, a “nossa” grande inteligência, racionalidade, está a servir para nos conduzir à posição das formigas: eis-nos finalmente postos na posição das formigas, a quatro e de rabinho para o ar.

Bem sei que há diferenças: batemos palmas de contentamento e tiramos selfies para mandar aos selfies dos nossos conhecidos.

 

 

 

 

 

(150) Os bosões de Saramago

Tempo estimado de leitura: 6 min.

 

 

Se não acrescentarmos energia a um sistema aberto ele vai acabar por ‘desaparecer’.

 

“Não seria mais fácil dissolver o povo e fazer com que o governo elegesse outro?”, Brecht.

 

“É melhor não fazermos nada do que contribuirmos para a invenção de formas de tornar visível aquilo que o Império já reconhece como existente”, Alain Badiou.

 

 

 

 

 

Diz-nos a termodinâmica física que se não acrescentarmos energia a um sistema aberto ele vai acabar por ‘desaparecer’, pois a sua energia irá diminuindo até se chegar a um estado de vazio em que a energia é zero.

Na física quântica (das muito pequenas partículas), quando se submete um sistema à temperatura de zero absoluto diz-se que se atingiu o “ponto zero”. Teoricamente, esse ponto zero corresponderia a um sistema sem energia, contudo, o que se verificou foi que, mesmo após se retirar toda a energia do sistema, o sistema fica sempre com uma energia remanescente que se mantém.

Por exemplo, se baixarmos a temperatura do hélio líquido para zero absoluto, o hélio deveria solidificar. Só que isso não acontece devido à impossibilidade de remover os movimentos atómicos das suas partículas no seu ponto de energia zero.

Teoricamente, deveria ser suficiente arrefecer o espaço até ao zero absoluto (atingir-se o ponto zero) para que tudo deixasse de vibrar. Só que não é isso que acontece.

 

Teorizou-se e concluiu-se então que todo o espaço se deveria encontrar cheio destas flutuações/vibrações de ponto zero, criando assim como que um oceano universal de pontos zero de energia: o chamado campo de Higgs.  

Da mesma forma que a água está cheia de moléculas de OH2 que não vemos, também o campo de Higgs deveria estar formado por umas partículas de força chamadas “bosões de Higgs”.

Quando um sistema no ponto zero entra em contato com o campo de Higgs, a sua energia reduz-se para valores abaixo de zero. Para que esse sistema se mantenha, vai ser necessário ‘fornecer-lhe’ mais energia. Ou seja, o sistema desapareceria se não lhe fosse fornecida energia.

 

 Se fosse possível adaptar o que se passa neste campo da física ao social, poderíamos teorizar que para transformar ou fazer desaparecer um sistema social bastaria não lhe fornecer energia, não fazer nada?

 

 

            No Ensaio sobre a Lucidez, José Saramago situa a ação inicial do seu romance num chuvoso dia de eleições na capital de um país democrático. A preocupação do governo perante a muito fraca participação às urnas é alterada durante a parte da tarde quando constata que a população acorre em massa a votar.

Só que quando se procede à contagem dos votos se verifica que mais de 70 por cento são votos em branco. Incomodado por aquilo que considera ser falta de civismo dos cidadãos, o governo entende mandar repetir a votação uma semana depois. Os resultados são ainda piores, 83 por cento de votos em branco.

 Os maiores partidos políticos entram em pânico, considerando que se está perante uma conspiração organizada para derrubar, não só o governo, mas o próprio sistema democrático. Assim, o governo considera os votos em branco como fazendo parte de um movimento de “terrorismo puro e duro” declarando o estado de sítio, suspendendo todas as garantias constitucionais.

            Aleatoriamente são presos e interrogados quinhentos cidadãos, que serão mantidos em “grau máximo de segredo, vermelho/vermelho, que havia sido atribuído à delicada operação”.

 A fim de “garantir a segurança” dos presos, o seu paradeiro não é comunicado às famílias, avisando-as para que nada dissessem.

 Como a população continuava a manter-se calma, o governo optou por uma série de medidas como a declaração de estado de sítio, a proibição de entradas e saídas da cidade, a retirada da polícia, tentativas de provocar motins, fazer explodir a estação ferroviária em nome de pretensos terroristas vindos do exterior, a criação de um falso dirigente revolucionário que estaria a comandar uma insurreição não existente. Inteligentemente unida a população resiste tranquilamente a tudo.

 

 

Na sua excelente crítica com o título «The Election with No Results», (www.slate.com/id/2139519), o professor americano Michael Wood estabelece o paralelo com um poema de Brecht de 1953 onde ele cita um contemporâneo que lhe diz que o povo perdeu a confiança no governo.

 Como resposta Brecht pergunta maliciosamente se não seria mais fácil dissolver o povo e que o governo elegesse outro. No caso do romance de Saramago estamos perante “uma parábola do que acontece quando nem o governo nem o povo podem ser dissolvidos”.

 

Não será bem assim. O governo só existe porque, e desde que, aqueles que lhe estão sujeitos o reconheçam, mesmo que este reconhecimento se faça sob a forma de rejeição, de voto de desconfiança. Por isso, ao abster-se de votar o que o povo faz não é só derrubar o governo, é muito mais radical: é dissolvê-lo. Daí o pânico do governo perante a abstenção dos votantes.

 

 

Já muito antes (novembro 1853) Hermann Melville (autor de Moby Dick) nos presenteara com Bartleby, empregado de um escritório de Wall Street que a tudo o que o patrão lhe pedia respondia com um “preferia não ter de o fazer” ( “Fazer ou não fazer, é sempre fazer” http://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/fazer-ou-nao-fazer-e-sempre-fazer-7097).

 

É que muitas das ações em que nos empenhamos localmente, além de serem limitadas, ainda contribuem mais para que o sistema se mantenha oleado, pelo que o melhor é não fazermos nada.

Esta ‘mania’ de ‘participarmos’, de ‘estarmos ativos’, serve apenas para mascaramos que algo (nada) se move. Esta ‘mania’ de ‘intervirmos em tudo’, de ‘fazer alguma coisa’, de ‘participarmos em debates’ sem sentido, serve apenas para dar aos que governam a sensação de que há uma participação, mesmo que ela seja crítica e contrária.

Dá-lhes a sensação que há ‘diálogo’: o que eles menos querem é que haja silêncio.

Por tudo isto, a abstenção é um verdadeiro ato político que nos confronta com o vazio das democracias atuais. “Por vezes, não fazer nada é a coisa mais violenta que temos a fazer”.

 

 

 

É do conhecimento geral que os átomos são constituídos por protões, neutrões e eletrões. Ao longo do século XX foi-se, contudo, descobrindo que os protões e os neutrões eram por sua vez constituídos por partículas ainda mais pequenas a que foram chamando quarks, muões, bosões, neutrinos, etc.

Estas partículas classificam-se em dois grandes tipos, partículas de matéria e partículas de força. As partículas de matéria (fermiões) constituem a chamada parte ‘sólida’ dos átomos, como os quarks, neutrinos, eletrões, muões e o tau. As partículas de força (bosões) são as que transmitem as forças entre as partículas ‘sólidas’: o fotão que está associado à força eletromagnética, o gluão associado à força nuclear forte que mantém unidos os protões e neutrões no centro do átomo, os bosões W e Z associados à força nuclear débil também dentro do núcleo atómico.

 

Surgiu então um problema: como explicar que algumas partículas como o fotão não possuíssem massa, outras como o eletrão tivessem muito pouca massa, e outras como os quarks tivessem muita massa? Porque é que um quark pesa muito mais que um eletrão? O que é que ‘dá’ massa às partículas? O que é a massa?

 

Peter Higgs, François Englert e Robert Brout aventaram em 1964 a seguinte hipótese: tal como para um mergulhador dentro de água ao deslocar a mão na vertical vai sentir uma maior resistência do que se movimentar a mão na horizontal, será que também se poderia admitir que no nível subatómico existisse um meio que oferecesse mais resistência a umas partículas que a outras? Um meio em que quanto mais fossem travadas as partículas maior massa teriam?

 Isto explicaria que a massa dum fotão fosse zero por não interagir com o meio. Que a massa de um eletrão fosse mínima por interagir muito pouco. Já um quark encontraria grande resistência, daí a sua massa ser muito grande.

 Concluindo: a massa não é uma propriedade intrínseca da partícula, sendo antes o resultado da sua interação com esse meio a que se deu o nome de “campo de Higgs”. A massa não depende do ‘tamanho’ ou ‘densidade’ das partículas, mas do modo como estas são travadas no campo de Higgs.

 

Para que esta resistência se verificasse seria necessário que o campo de Higgs fosse formado por umas partículas de força que não se conheciam. A essas “partículas” deu-se-lhes o nome de “bosões de Higgs”. Mas será que existiriam esses tais bosões? A sua existência acabou por ser comprovada na prática no ciclotrão do CERN em julho de 2012.

Parece simples, mas mesmo depois de se conhecer, é tudo muito mais complicado: o bosão não é propriamente uma partícula, mas uma vibração que aparece e desaparece quase instantaneamente no campo de Higgs, e, para além disto, o campo de Higgs não é o único campo que existe (há ainda a considerar o campo gravítico, o campo eletromagnético e outros).

 

 Se fosse possível adaptar o que se passa neste campo da física ao social, poderíamos teorizar o quê? Veremos.

 

 

(149) Expulsos e Bastardos

Tempo estimado de leitura: 15 min.

 

“O homem é o ser vivo que não pode deixar de não pecar”, Santo Agostinho.

 

“Uma geração (presente) não tem direito a submeter as gerações futuras às suas leis”, artigo 28 da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, junho de 1793.

 

O futuro aparece como espaço de tempo para efetuar o reembolso, para o pagamento de dívidas.

 

“Depois de nós, o dilúvio”, madame Pompadour.

 

 “Viva a liberdade, sobretudo a minha”, Jean Gabin.

 

 

 

 

 

 

A História, ou o que contam dela, não passa de mais uma tentativa para tentarmos compreender, explicar, o que poderá ter acontecido no passado, por forma a podermos atribuir uma certa coerência ao presente em que vivemos, tranquilizando-nos assim quanto à existência de futuro.

 Tal tentativa poderá assentar em factos ou estruturas que isolamos segundo nossa intenção, e/ou por acontecimentos ou conceitos (ou conjunto de conceitos) que julgamos aportarem uma melhor explicação.

 

Foi assim com a introdução do tempo de longa duração como conceito operativo que permitiu apercebermo-nos de grandes unidades coerentes onde antes só existiam variáveis conjunturais, foi assim com a utilização dos conceitos de vingança, remorso, estruturas de parentesco, ressentimento, religião, acaso, ambição, riqueza e outros, que foram permitindo explicar o desenrolar da história sobre outras perspetivas. Nenhuma delas, evidentemente, consegue a explicação total. São apenas, na melhor das hipóteses, caminhos possíveis.

 Peter Sloterijk aventurou-se na tentativa de fazer uma leitura dos acontecimentos tendo em conta o caminho das estruturas de parentesco, a filiação e a bastardia. Sigamo-lo.

 

 

Segundo a Bíblia, todos nós, humanos, somos, quase desde o início, seres que fomos expulsados. Se estamos neste mundo, é porque não fomos dignos de permanecer naquele lugar melhor. A situação do ser humano é, pois, uma consequência do “pecado original”.

 

Com Santo Agostinho, esse pecado passou a ser um “pecado hereditário”, segundo o qual todos continuamos ainda a pagar pela falta cometida pelos nossos antecessores: se Adão, o homem originário, corrompeu pelo primeiro pecado a sua substância intacta da criação, essa corrupção transmite-se a todos os seus descendentes, já que todos estão conluiados “em ele”. Todo o descendente de Adão é por isso co-corrupto “em Adão”.

Por isso, e ainda segundo Agostinho, a última verdade da condição humana é que não pode deixar de pecar (“non posso non peccare”): o homem é o ser vivo que não pode deixar de não pecar.

 

 O que faz do pecado uma doença sexualmente transmissível. O modo de transmissão, o ato sexual, inclui a repetição do primeiro pecado, porquanto nele é inerente a soberba, na medida em que mesmo sabendo que é pecado, não se coíbe, arrogante e desafiadamente, de o praticar, o que implica colocar-se em primeiro lugar face ao seu criador.

 

 

A modernidade via já essa herança do pecado original transmitida de pais para filhos, simultaneamente como uma carga e também como uma oportunidade. Mas, cada vez mais, os modernos se rebelavam contra esta herança que lhes aparecia como uma escravização, quer se tratasse de determinações biológicas ou de imposições da classe, escola, cultura e família.

Herança de uma situação de classe da qual não se podia libertar facilmente, a não ser por uma revolta política ou por uma subversão cultural. E, é isto que, mais tarde, vai levar a um certo entendimento entre liberalismo e socialismo. Embora aparentemente antagónicos, comportam-se como os melhores amigos quando se trata de arredar as premissas familiares e genealógicas.

Onde se notar este interesse contra essa herança e a favor de um novo começo, significa que estamos nos terrenos da modernidade.

 

Ao longo dos tempos, a forma de transmissão de reservas de valores de capital, de competência e de estatutos, a descendentes procriados ou adotados, tem sido feita geralmente de pais para os filhos (e menos vezes para as filhas). Esta “filiação” tem, contudo, constituído em todas as culturas um fator de risco fundamental.

 É que as culturas, tal como os genes, têm nas mutações um risco normal. Uma má cópia pode dar lugar ao velho “conservadorismo”, à preservação dos costumes de há dois mil e quinhentos anos. A reprodução de herdeiros, no sentido em que são portadores formalmente seguros de padrões culturais incorporados, é cada vez mais um compromisso entre genética, pedagogia e jogo de azar.

 

Assentando a cultura dos povos antigos na replicação, é facilmente entendível o seu afincado conservadorismo.  Como explicava Whitehead:

 “O começo da sabedoria é compreender que a rotina é o fundamento da vida social”.

 Sem esta vontade de repetição das gerações que se seguiam e sem a preocupação vigilante pela eliminação de qualquer variação maligna, não teria sido possível as suas permanências ao longo de muitos milhares de anos.

 

Sabe-se hoje que os caçadores de veados paleolíticos repetiram constantemente ao longo de dez mil anos os seus rituais de sacrifício da vítima (a extração do coração do veado e sua substituição por uma pedra redonda), o que significa que permaneceram assim durante quatrocentas gerações.

Ou seja, a sua civilização manteve-se três vezes mais tempo que as civilizações antigas de mais alta cultura do próximo e do extremo Oriente (cerca de cento e vinte e cinco gerações). Lembremos que o ritual da civilização americana-europeia-ocidental da missa/eucaristia tem até agora oitenta gerações, incluindo já o meio milénio ou quinze gerações de grandes discussões teológicas sobre essa celebração.

 

Todas estas culturas que conseguiram realizar durante estes três mil anos um número suficiente de processos de cópia entre velhas e novas gerações, exibem uma grande capacidade de adaptação que o surgimento de grandes individualidades poderia ter alterado.

As forças de coesão da ética do coletivo mantiveram-se através do efeito conservador de tábuas de leis e de escritos sagrados. O seu caráter escrito permitiu a instauração de um cânon, mesmo que a reinterpretação dos seus parágrafos acabasse por ser incompreensível.

Em todo este processo predomina o princípio implícito de queTens de ser o descendente dos teus predecessores, pelo que talvez seja correto inferir que toda a moral é em princípio uma moral de escravos.

 

Como a modernidade ocidental procura sistematicamente a inovação, o falho de cópia entre gerações, voluntário ou não, vai começar a surgir cada vez com maior frequência, a ponto de o coletivo não vir a ser mais que um agregado de desertores da tradição recebida.

Esta transformação pode ser possível de acompanhar através da evolução do patriarcado como transmissão cultural. O patriarcado é proveniente do compromisso entre estruturas de parentesco e imperativos de uma autoridade presente em coletivos pré-estatais ou estatais. Não se compreende a função dos pais e da paternidade nas grandes culturas, sem ver neles a vontade e necessidade de dar um rosto humano anónimo à autoridade transmissora de costumes anteriores.

Tal ainda hoje permanece quando nas eleições das modernas democracias os rostos se substituem aos programas.

 

Em qualquer das grandes civilizações antigas, ninguém se converte em pai apenas para dar origem a descendentes, mas para se erigir em portador da mais-valia ética inerente a esse papel. Nos patriarcados clássicos o pai é a máscara personalizada da moralidade. O que todos querem é mandar, terem autoridade, socorrem-se da personificação em pais e avós.

Daí que os atributos mais importantes do patriarca sejam a severidade, como personificação da ameaça de castigo para os casos de comportamento divergente, e a aversão para com a irregularidade e a exceção. Desde esse momento, autoridade e verdade passaram a valores intrínsecos e inseparáveis.

 

Estes rituais de transmissão nas culturas antigas de pais para filhos conseguem formalizar o intervalo entre as gerações e impedir ruturas nocivas.

 

Sempre que se corrompia este tecido da continuidade genealógica, abria-se a possibilidade da queda na animalidade, bem expressa na tragédia grega do rei Édipo.

Os romanos dão um passo em frente ao descobrirem que os interesses das grandes famílias se podiam, muitas vezes, expressarem-se melhor através de um sistema de filhos eleitos do que através de uma caprichosa descendência carnal.

Fizeram-no por duas vias: pela adoptatio, em que se acolhia um jovem na casa de família em lugar do filho, desde que aceitasse a subordinação à patria potestas do pai adotivo, ou pela adrogatio, em que o filho adotivo adulto tinha de ter o consentimento da cúria senatorial e do colégio de sacerdotes para se poder manter ao lado do pai não carnal com o estatuto de pessoa livre e direito a assumir o nome, os bens e clientela do adotante.

Casos de adotados célebres foram os imperadores Nerva, Trajano, Marco Aurélio, Lúcio Vero, Adriano e Antonino Pio.

 

Contudo, o maior ataque a esta ordem patriarcal das coisas veio de uma pequena seita seguidora de um excêntrico jovem judeu educador dos pobres, curandeiro miraculoso e anunciante do reino de Deus, Jeshua ben Josef, que acabou justiçado pelos romanos segundo se crê no ano 30. Predicador excecional, após a sua morte outorgou-se lhe o título judeu de Messias, depois helenizado como Christós, o ungido.

 

É grande a cisão e o radicalismo que a sua ação e prédica pretendem introduzir naquela sociedade e naquele tempo.

Começando pela anunciação do anjo, que indicia um método alternativo de conceção, até às frases simbólicas que o dão como “nascido do pai antes de todo o tempo”.

Depois, aquela desconsoladora frase com que se dirige à sua mãe na boda de Caná, “Mulher, deixa-me” (João 2,4); a estranha referência, quando com doze anos passeando com seus pais, aponta o templo de Jerusalém como sendo a sua “casa paterna”; a ausência do pai José em toda a sua vida pública; a cena do batismo (Marcos 1, 11) em que se ouviu uma voz sobre o batizado, garantindo que: “Tu és o meu filho querido, no qual tenho posto toda a minha complacência”, modelo de adoção que aparece como o mais apropriado para justificar neste caso a relação híbrida pai-filho.

Culminando com dizeres bem explícitos atribuídos a Jesus:

 

E não deveis de chamar pai a ninguém na terra; pois só um é vosso pai, aquele que está no céu, (Mateus 13).

Pensais que vim trazer paz à Terra? Eu digo: não, apena discórdia […] O pai estará contra o filho, e o filho contra o pai; a mãe contra a filha, e a filha contra a mãe, (Lucas 12, 51).

Se alguém vem a mim e não odeia o seu pai, mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs, e a sua vida, não pode ser meu discípulo, (Lucas 14, 26).

Quem quer mais ao seu pai ou à sua mãe do que a mim não é digno de mim; e quem quer mais ao seu filho ou à sua filha do que a mim não é digno de mim, (Mateus 10, 37).

Quem faz a vontade a meu pai no céu, esse é o meu irmão, a minha irmã e mãe, (Mateus 12, 50).

 

Não admira que os seguidores do profeta se sentissem mais como pertencentes à nova comunidade de irmãos do que às suas famílias carnais. Eles são os primeiros a aderirem a este novo modelo de filiação em rutura com o existente, e nesse sentido foram os primeiros modernos.

 

A filiação pai-filho vai converter-se numa sucessão de filhos-mensageiros. Não é admissível que Pedro, com aproximadamente a mesma idade de Jesus, pudesse ser reconhecido como filho legítimo e seu herdeiro. Abre-se o caminho para uma cadeia sucessória não-genealógica que presidiria a toda a “história”, que passava a ser a história dos apóstolos, uma exposição das dificuldades vividas pelos mensageiros na expansão do evangelho sobre a Terra.

 

E, contudo, as forças da tradição continuavam muito presentes. É o que vai obrigar, por exemplo, à descrição tardia do batismo de Jesus como fruto da necessidade de legitimação e de explicação de uma descendência genealógica (não se assumindo como filho do pai José, teria de ter outro pai, que se fez ouvir para todos como voz vinda do céu).

E com a reapropriação do conceito de pai para os muito títulos de pais híbridos da Igreja (padres): são os padres do deserto, os padres da Igreja, os padres confessores, e demais figuras para-paternais como o sacerdote, o abade, o papa, e outros.    

É esta filiação espiritual de pais metafóricos que dá origem à eclesia, à Igreja cristã e católica.

 

Esta reapropriação do conceito do papel de pai, proibida por Jesus, acontece, entre outras razões, porque a realização do reino do céu na Terra e o fim do mundo não aconteceram tão depressa como os apóstolos esperavam (daí terem tardado em escreverem os Evangelhos: só considerando os canónicos, eles teriam sido escritos entre os anos 70 e 100) e também porque, com o enorme crescimento da organização, começava a ser necessário estabelecer a diferença entre os leigos cristãos e os religiosos de profissão (o que foi feito através do seu escalonamento entre cordeiros, pastores e pastores-mores, e que levou à reintrodução do conceito  de hierarquia paternal por ser a melhor aceite pela sociedade).

 

Mas esta reapropriação do sistema da paternidade, estende-se também à família nuclear, onde o filho era levado a entender a sua existência como a de um bastardo criado por Deus, cujo destino estava para além do interesse da família. E leva também à criação de um novo laço assexual entre marido e mulher que impõe uma abstinência até então desconhecida.

Ou seja: já não se acredita num futuro que resida nos filhos próprios, preparamo-nos para um mundo totalmente diferente, que virá depois deste. Já não procriamos mais, antes batizamos e ensinamos. Não nos reproduzimos, ensinamos e convertemos. Isto é uma lógica totalmente diferente de sucessão.

Este esquema da Sagrada Família põe em lados antagónicos as legitimidades das sucessões hereditárias e das sucessões apostólicas, especialmente nas casas senhoriais cristãs.

 

E, contudo, esta cisão na maneira em que temos de estar afirmada pelo cristianismo, em que todo o ser humano desde o nascimento tem o direito inalienável de não seguir a maioria, em poder não estar de acordo com os costumes, com opiniões e mentiras do seu povo apenas porque os seus antecessores assim o entenderam, esta “sacralidade da pessoa”, vai acabar por servir de base ao conceito de liberdade incluído nos direitos humanos modernos.

 

As culturas mais desenvolvidas da Antiguidade, nomeadamente a helénica e a judaica, sabiam já bem que o aparecimento de figuras corrosivas poderia pôr em risco as simetrias normalizadas em que essas sociedades assentavam, pelo que tendiam sempre para a eliminação de tudo quanto fossem variações não desejadas.

A ética mais antiga das tribos “primitivas” regulava a maior parte das coisas com a ajuda de costumes ultra estáveis que ficavam fora de discussão:

 

 “Era assim que as formas de vida como ritos, mitos, danças, festas, fórmulas mágicas, serviços funerários e outros usos que foram integrados mediante o recurso a instituições de reciprocidade, intercambio de prendas, exogamia e proibição de incesto, e a atribuição unilateral do parentesco por linha paterna ou materna, exerciam efeitos estabilizadores”, por forma a garantir a constância dos processos seguros de cópia.

 

Mas, apesar da imposição e da resistência, a rigorosa linha cristã não se conseguiu impor à tendência liberal. Quer da parte da aristocracia, quer da parte do próprio clero, especialmente quanto às transmissões da “herança” familiar e cultural à geração seguinte.

É assim que assistimos por parte das aristocracias europeias até à véspera da Revolução Francesa, à proliferação de instituições como o amancebamento, o concubinato, os matrimónios de mão esquerda ou morganáticos, quase sempre a coberto da crítica clerical, e isto apesar do casamento ter passado a ser considerado como sacramento a partir de1100, com confirmação no Sínodo de Verona de 1184.

 

A superabundância de bastardos na nobreza era informalmente integrada na vida quotidiana dos nobres, até através de prebendas eclesiásticas ou de colocações em posições militares. Os “filhos naturais” tinham sempre visibilidade própria, embora sobre o ponto de vista hereditário fossem sempre preteridos relativamente aos legítimos.

A existência dos bastardos do clero, de príncipes-bispos, cardeais, papas curas e monges, pôs ainda problemas muito maiores que o dos filhos ilegais da nobreza, devido à falsa ou dupla moralidade que lhe era inerente. Basta pensar na quantidade enorme de prostitutas que acompanhavam a celebração de sínodos e concílios, nas relações com concubinas estabelecidas, com mulheres solteiras ou casadas, com amigas espirituais, com pecadoras ad hoc.

 

Como regra geral as comunidades monacais recusavam a admissão de curas e monges bastardos, a não ser que conseguissem obter uma “dispensa papal”, ou seja, havia a regra e a exceção, sendo esta obtida por pagamentos de multas para tudo que enchiam os cofres da Santa Sé.

A argumentação baseava-se no defectus natalium, segundo o qual o desbragamento dos pais recaía sobre os filhos. Tal como o pecado de Adão era hereditário, o bastardo filho da depravação moral do monge que vive em concubinato, conservará essa mancha hereditária.

 

A estes filhos do “pecado” devemos ainda juntar todos aqueles que começaram voluntariamente a renegarem a ascendência paterna, com foi o caso de Francisco de Assis e seus seguidores, e todos aqueles que tentavam imitar cristo (De imitatione Christi, de Tomás de Kempis, publicado em 1418, com mais de 3000 edições, é a obra mais difundida da civilização cristã a seguir à Bíblia), que punham a questão perturbante de “para quê continuar com a reprodução física se na realidade sendo filhos de Deus o que deveríamos fazer era regressar a Ele o mais depressa possível” num desejado retorno à origem transcendente.

 

Para estes místicos era claro que a identidade cristã do filho com o pai não criava um continuo genealógico, antes o quebrava. A paixão para com Deus não era compatível com o cuidado pela transmissão da herança familiar ou de um carisma dinástico.

Este pensamento místico vai promover a cisão entre os que se consideram autónomos, livres de descendência corporal, para os quais não conta a interação física da procriação, e que devem a sua existência espiritual a um reacender do conceito de Deus no seu intelecto, e os outros engendrados mundanamente. A cisão entre o homem interior e o homem exterior.

 

Curiosamente, desde o princípio da sua constituição, a Inquisição olhava com desconfiança para estes homens espirituais perfeitos, temendo que o cristianismo organizado eclesiasticamente pudesse vir a ser considerado como supérfluo.

 

Segundo esta nova ideia de legitimidade, o sujeito místico aparece como portador de direitos inalienáveis como filho de Deus, superiores aos direitos humanos. Quem não quisesse ou não pudesse ser considerado como descendente, herdeiro ou sucessor de pais e avós reais, encontrava neste conceito de “homem interior” uma forma para acabar ou reduzir a árvore genealógica a um mínimo.

A comunidade místico-cristã tinha apenas um, e o mesmo Pai. Quanto aos pais reais, suportava-os ou prescindia deles. De certa maneira, uma sociedade precursora da sociedade do século XX: uma “sociedade sem pai”, de indivíduos autónomos.

É como se Deus originasse exclusivamente “filhos naturais” engendrados ou nascidos por emanação direta: Deus Pai seria o progenitor dos bastardos mais nobres.

 

Não é, pois, de estranhar que durante o Renascimento se começasse a notar um papel dinamizador de alguns dos bastardos que, ao apoderarem-se da “política cultural”, irão provocar uma alteração nas relações de legitimação. Fazendo ressaltar o “génio”, a “ideia”, o “furor heroico” em vez das palavras dos padres da Igreja, da sagrada Escritura e dos seus ascendentes, faziam antes o apelo à “nobreza do espírito” como a única digna de sucessão. É o renascer da ideia que relaciona destino excecional com ascendência irregular.

Exemplo por excelência é Leonardo da Vinci (1452-1519), filho ilegítimo de um notário toscano e de uma escrava rural de ascendência árabe. É o aparecimento do ser humano criador cujo estatuto já não se determina apenas pela sua ascendência, mas pelo seu rendimento efetivo.

 

É o aparecimento de uma nova categoria de nobreza: a “nobreza de espírito”, “de mérito” ou “de coração”, conforme veio a ser chamada. Ascende-se a ela exclusivamente pelo “engenho”, por “obras” ou “feitos”. É o culto da Idade Moderna ao génio do “homem novo”.

Aqui se unem mística e qualidade de génio na elevação transcendente do indivíduo. Não interessa já se provêm ou não de pais profanos, porquanto certamente foram ambos agraciados pelas fontes de luz e de prestígio que incidem verticalmente sobre eles.

 

Essa charneira do século XVI na Europa ficou conhecida como o “século dos bastardos”: basta olharmos para a Inglaterra, o reinado de Henrique VIII, as suas amantes, as suas filhas Maria e Isabel, ora legítimas ora ilegítimas, bastardas alternadamente por decreto real ou papal (o próprio papa Clemente VII, 1478-1534, também ele bastardo da casa dos Médici) sempre na procura de um macho vivo possível de lhe suceder; para a França  de Antoine de Bourgogne (1421-1504), por ele mesmo autocognominado le Grand Bâtard de Bourgogne, um dos nove filhos naturais de Filipe III, o Bom, e da sua amante Jeanne de Lizy; para João da Áustria (mandado assassinar por Isabel I de Inglaterra), filho natural do Imperador Carlos V e da atrativa Barbara Blomberg, irmão do que veio depois a ser Filipe II de Espanha, primeiro de Portugal.

 

A este século dos bastardos seguiu-se a erupção dos órfãos, dos abandonados e dos expostos que tiveram de reconstruir o seu lugar no mundo dando provas da sua valia. A estes acrescentam-se mais tarde os usurpadores políticos, os empresários e os homens que se fizeram a si próprios (os self-made men) que em qualquer dos lugares deixaram a sua marca, a partir dos finais do século XVIII, sobretudo no novo mundo.

 

Curiosamente dessas personagens que foram tidas como importantes (grandes industriais, inventores, banqueiros) nem uma só mulher figura.

 Teríamos de aguardar mais cento e cinquenta anos para aparecer como rainha-mor do espetáculo a bastarda Oprah Winfrey, filha ilegítima de pais de menor idade e confessa ex-dependente de drogas. Mesmo assim ela não pode ser considerada como uma mulher que se fez a si própria porquanto a fabricação da sua carreira só é imaginável como efeito de teamworks estratégicos.

 

Com o Renascimento assistimos à mistura de antigos privilégios herdados com os novos senhores que se enobreceram a si próprios com títulos e talentos, com base nos mecenatos, repartição administrativa do trabalho e primeiras associações familiares.

Esta tendência corrosiva de atribuição de honrarias, privilégios e títulos legítimos prossegue imparavelmente até que com o Iluminismo e a Revolução Francesa se dá uma alteração brusca na transmissão de legitimidade e soberania das famílias aristocráticas para a burguesia, autodenominada de “povo”.

O que aliás já se fazia prever, porquanto na prática a aristocracia estava cronicamente endividada para com os seus financiadores da alta burguesia. “A aristocracia e o seu “Estado” tinham perdurado como um império milenar do défice”.

 

Para ajudar a proporcionar a conexão entre direito e a maioria, a única saída para a criação de uma nova legitimidade passava pela introdução do sufrágio universal.

É curial o exemplo da Revolução Americana, na medida em que remete para um papel subalterno as origens dos cidadãos pertencentes a culturas mais antigas, sejam elas oriundas da Europa (ingleses, irlandeses, alemães, polacos) ou da Ásia.

Aquilo que vão chamar de “pais fundadores” não passam de “bastardos fundadores”. São apelidados de “pais” apenas porque romperam com as ligações com o passado. São figuras fundadores só na medida em que repudiam direitos anteriores e abrem o debate sobre as novas regras.

 

O “igualitarismo” tão de moda, não passa da luta da ofensiva dos bastardos e outros sujeitos arcando com desvantagens hereditárias contra o sistema existente de discriminações solidificadas. Sem a componente jurídica, e apenas só sob o ponto de vista cultural, a igualdade só tem sentido como categoria aristocrática ou meritocrática: todos têm de ter direito a pertencer aos melhores, e a nenhum se pode jamais negar esse privilégio.

 

Cabe a Ralph Waldo Emerson (1803-1882) afirmar o significado da independência intelectual da América, quando diz:

 

Recuso a pai e mãe, a mulher e a irmão, quando o meu génio me chama […] Nada é em definitivo mais sagrado que a integridade do teu próprio espírito […] Nenhuma lei me pode ser sagrada, a não ser a da minha própria natureza […] Porque haveria de olhar sempre para o passado que esteja para além das minhas costas? Porque levar contigo o cadáver da tua memória? […] São os pais mais do que o filho no qual depositaram o seu ser maduro? Porque então essa veneração para com o passado? […] mantém-te sempre em ti mesmo; nunca imites … todo o grande ser humano é uma unicidade […]

 

A nação americana assume-se, assim, coletivamente como bastarda que conscientemente deserdada acabará por descobrir o princípio da fortuna autodeterminada. Se tiveres sorte, não conheces pais. Se te encontrarem, coloca-os na sombra. A luz cai apenas no teu presente.

 

Toda a “geração” possui o direito à produção da descontinuidade histórica, na medida em que a procura permanente de um novo começo torne necessário a interrupção ou posta entre parêntesis a neutralização da ascendência. É Thomas Jefferson (1743-1826) quem o diz:

 

A terra pertence aos vivos, não aos mortos […]. Devemos considerar cada geração como uma nação diferente […] mas sem o direito de vincular a geração seguinte, da mesma forma que o não poderia fazer com os habitantes de outro país.

 

 A constituição da nação é feita a partir de bastardos, que lutam constantemente para que as regras se ajustem ao espaço atual de reunião: isto é, o american way of life.

 

Também na Europa em meados do século XIX se forma a figura de proletariado, invocada como um nobre coletivo de bastardos que, não tendo emigrado nem cruzado a Atlântico, iriam fazer a revolução no seu próprio lugar. A ideia era que devido à privação de direitos e ao facto de serem constante e diariamente deserdados de tudo, fossem levados a concluir que seria imprescindível a eliminação revolucionária do “existente”.

 

O coletivo bastardo dos “trabalhadores” deveria voltar as costas aos donos das fábricas, constituindo-se como os verdadeiros senhores e possuidores do mundo.

Curiosamente, o novo coletivo bastardo trabalhador do século XIX leva alusão à sua falta de ascendência no próprio nome: proletariado é quem não possui mais nada que a sua proles, descendência, e a sua própria força de trabalho que tem de colocar no mercado para poder manter-se com vida, a ele e aos seus.

 

O aparecimento destes novos bastardos, quer tenham ou não cruzado a Atlântico, conduziu, não a uma sociedade de trabalhadores, mas a uma sociedade de empregados ou desempregados à procura de serem empregados.

Conduziu a um difuso híper-proletariado pós-industrial, cheio de desejos, de bens e marcas, parado e ativo, rebelde e conformista, vivendo no centro ou na periferia, prostituído ou autónomo, ao lado do qual a “classe dos trabalhadores” do marxismo parecerá uma dinastia venerável.

Em qualquer dos casos já não provêm de famílias que se empenhem em prosseguir o “objetivo incalculavelmente valioso da transmissão”.

 

Expulsados Deus e o Estado, aparece o individualista egoísta confesso que nada toma com seriedade e que se crê superior a tudo e que a tudo tem direito. São várias as formas com que nos aparecem: “anarquista, fascista, génio, paranoico, boémio, satânico, existencialista, individualista, terrorista, membro da classe média, crítico do totalitarismo, solipsista, profeta, niilista, metafísico …”.

Como dizia Jean Gabin: “Viva a liberdade sobretudo a minha”.

 

Temos assim, em resumo, que o processo de legitimação cultural por filiação ou sucessão hereditária que se tem baseado na expansão de um efeito anti genealógico, para o qual contribuíram os impulsos anti genealógicos do Novo Testamento, as várias correntes místicas cristãs, e o impulso de cada vez maiores estratos da sociedade europeia ao acesso livre a posições de poder e influência, a que se seguiu  uma revolução permanente das ambições em nome da igualdade de direitos devido à confrontação direta entre prejudicados e privilegiados num espaço de conciliação reduzido, acabou por conduzir nestes começos do século XXI a um agregado de indivíduos, mais que a uma sociedade, para os quais o futuro perde cada vez mais o encanto como espaço de acolhida de projetos de civilização. O futuro aparece quando muito, como espaço de tempo para efetuar o reembolso, para o pagamento de dívidas.

 

É assim, que frases do passado recente, voltam hoje a serem profundamente atuais. Lembro a exclamação da madame de Pompadour em 1757:

 

Après nous le déluge” (Depois de nós o dilúvio).

 

E de Leticia Ramolino, mãe de Napoleão, falando dobre a carreira do filho:

 

Pourvu que cela dure” (Desde que ela dure).

 

 

 

 

 

Para quem estiver interessado em aprofundar o tema:

Peter Sloterijk, Los Hijos Terribles de la Edad Moderna, Madrid, 2015.

Pierre Legendre, L’inestimable object de la transmission. Étude sur le principe généalogique en Occident, Paris, 1993.

 

Sobre o egoísmo contemporâneo:

Gilles Lipovetsky, A Era do Vazio, Ensaio sobre o individualismo contemporâneo, Lisboa, s. d., Relógio d’Água.

Max Stirner, The Ego and Its Own, Cambridge, Cambridge University Press, 2009.

 

 

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