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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(121) O "senso comum" que nos tem permitido sobreviver

 

Conhecer é identificar realidades, quer seja através da experiência, quer seja através da elaboração de conceitos que levem ao entendimento dessa mesma realidade.

 

Conhecer é trazer os objetos para dentro de nós”, M. Henriques.

 

O “senso comum” não é mais do que a aplicação da inteligência ao particular e ao concreto, para a resolução dos problemas práticos que se lhe apresentam e não para a sua teorização.

 

No pensamento mítico não há relação de causa-efeito, mas sim de simultaneidade; e é sincrético, não distinguindo os vários planos da realidade (o humano, o natural e o divino).

 

 

 

 

Quando vamos pela primeira vez a um aeroporto que desconhecemos, o que é que nos acontece? Ficamos com uma certa sensação de desconforto, de desorientação, por não conseguirmos encontrar as placas desinalização, os caminhos e as portas que nos são usuais, locais para comer, lojas de conveniência, e mais.

Idêntica sensação de desconforto temos quando vamos a um supermercado a que não estamos habituados: não encontramos os produtos que queremos nos locais “certos”, estranhamos a iluminação, perdemos tempo com a circulação e arrumação dos carrinhos de compras, entradas nas bichas erradas, sistema de pagamento diferentes. À segunda ou terceira vez que lá voltarmos, tudo se torna mais fácil, estamos já “habituados”, circulamos já com à vontade.

 

E isto acontece porque, à medida que formos conhecendo o que nos rodeia, tudo se torna mais compreensível, familiar e previsível. “Conhecer é trazer os objetos para dentro de nós”.

Conhecer é identificar realidades, quer seja através da experiência, quer seja através da elaboração de conceitos que levem ao entendimento dessa mesma realidade.

 

 

Os primeiros grandes sistematizadores do saber, Platão e Aristóteles, começaram por distinguir entre opinião ou senso comum (doxa) e ciência ou saber (episteme), considerando que o senso comum se aplica às coisas que se relacionam connosco e que são apreendidas empiricamente, e que a ciência ou saber se aplica à relação das coisas entre si e que são explicadas. Qualquer deles é conhecimento, sendo que um é saber fundamentado (episteme) e outro é saber não fundamentado (doxa).

 

Uma das características do ser humano é o seu desejo de compreender os outros e o mundo que o rodeia, ou seja, o desejo de conhecer.

As questões que o preocupam não são as relacionadas com as grandes sistematizações filosóficas, com as teorias, mas antes as que se relacionam com as respostas imediatas às coisas de interesse prático para o seu dia-a-dia. Para o concreto que se lhe apresenta.

 

Fá-lo através do que se chama “senso comum”, que não é mais do que a aplicação da inteligência ao particular e ao concreto, para a resolução dos problemas práticos que se lhe apresentam e não para a sua teorização.

Mas, não se creia que por isso a quantidade de pensamentos e intuições que envolve sejam menores e menos importantes que as presentes no pensamento científico ou metafísico.

 

 

Uma das características do senso comum é a de restringir-se ao mundo das coisas concretas. Pelo senso comum podemos fazer e decidir aquelas tarefas diárias, a começar pela escolha do que vamos comer, como vamos para o emprego, as compras para casa que vamos fazer, as pequenas conversas de ocasião, em resumo, todos os afazeres quotidianos.

 As pessoas de senso comum estão sempre muito atarefadas a resolverem todos estes problemas. Tudo o que não esteja relacionado com o interesse imediato, não é para elas tido em consideração: nada de teorias, nada de respostas que não lhe sejam familiares.

O senso comum vai permitir fazer-nos sentir à vontade com o nosso meio, com base numa aprendizagem feita por raciocínios por analogia, em que a observação e as semelhanças têm lugar prioritário, dando lugar ao hábito e ao costume.

 Não sai da cabeça de cada um já pronto, inserindo-se antes numa linha de tradição que nos transmite conselhos para a vida quotidiana, como por exemplo o que é expresso nos muitos provérbios que todos tomamos como certos, e que nos confortam na nossa vivência comunitária.

 

O senso comum procede de uma acumulação de observações que se repetem e de experiências de vidas, pelo que está sempre em evolução. Não é, pois, de estranhar o aparecimento de ditados para tudo e ainda para o seu contrário: “devagar se vai ao longe” ou “não deixes para amanhã o que podes fazer hoje”; “quem espera, desespera” ou “quem espera sempre alcança” ou “o que não tem remédio remediado está”.

Mesmo as regularidades observadas são facilmente descartadas se não se vierem a verificar: alguém ficará mal visto ou incomodado se por acaso não chover em abril (o tal mês de “águas mil”), ou não houver instabilidade do tempo em março (“marçagão, de manhã inverno e à tarde verão”)? Até porque pode sempre desculpar-se: afinal, “errar é humano”!

 

As suas generalizações baseiam-se em conjuntos incompletos de apreensões, que normalmente perdem validade ao admitirem exceções e conclusões opostas, sem que daí venha qualquer mal ou provoque qualquer incómodo.

As suas generalizações não se preocupam em saber como as coisas acontecem, nem com o estabelecimento de regras que as expliquem, o que faz com que a realidade nos apareça como algo de estranho e poderoso que nos escapa.

Não é assim de admirar a continuada permanência e popularidade dos poderes ocultos, das crendices, feitiços e superstições, a possessão pelo demónio, a bruxaria, cartomancia, astrologia, os vampiros especialmente nas noites de lua cheia, os fantasmas, os mortos vivos e as almas penadas.

 

 E não se creia que tal seja sintoma de sociedades passadas: basta catalogar as inúmeras séries de televisão e de filmes atuais, para se perceber melhor a permanência e popularidade de tal estado de obscurecimento da realidade. Quando não são os super-heróis e os mações que comandam o mundo, são os números mágicos que atraem e provocam as fatalidades (o 11 para as Torres Gémeas, o 13 e sexta-feira onde o azar nos persegue).

 

 

Uma muito breve referência sobre o pensamento mítico.  Por mais elaborado que seja, também ele apresentará sempre um obscurecimento da realidade, tal acontecendo fundamentalmente, por duas ordens de razões:

a primeira, porque no pensamento mítico não há uma relação causa-efeito, mas antes uma relação de simultaneidade, o que lhe permite concluir que se um coiote uivou quando uma criança nasceu, então a criança nasceu porque o coiote uivou;

a segunda, porque o pensamento mítico é sincrético, não distinguindo, portanto, os diferentes planos da realidade (o humano, o natural, o divino).

 

Resumindo: ao senso comum não lhe interessa ser universalmente válido, exaustivo ou sistemático; procura apenas ser razoável e significativo. Além disso, não se preocupa com as relações das coisas entre si, mas das coisas na sua relação connosco.

Por tudo isto, ele não é um pensamento científico, mas é ele que nos tem permitido sobreviver.

 

 

 

(120) Regresso ao Paraíso

 

Então cada um abriu os olhos e viram que estavam nus (Génesis, 3, 7).

 

“Limpe, por favor, a sua mesa de trabalho. O seu empregador insiste em que não deve haver qualquer material escrito que possa ser consultado enquanto estiver a fazer o exame.”

 

“Primeiro vai ter que me mostrar a cama e tirar os lençóis para nos assegurar que não existe nenhum material escrito escondido.”

 

Desempregados e despidos de tudo, eis o regresso ao paraíso.

 

 

 

 

Vários e diferentes são os relatos e explicações sobre a vida no Paraíso, sobre o fruto que a Eva deu a comer ao Adão, e principalmente, sobre as consequências dessa degustação.

Ao que parece, viviam tranquilamente no Paraíso, sem se darem conta que estavam nus. Segundo os teólogos, embora admitam que antes da queda, Adão e Eva não tivessem qualquer vestuário, não consideram que por isso estivessem nus, porque estavam cobertos com um “traje de luz”, o vestuário da Graça que lhes fora concedida. E foi o pecado que os fez perder esse vestuário sobrenatural.

 Adiante.

Só após Adão, contrariando as ordens de Deus, ter comido o tal fruto da árvore proibida, a árvore do conhecimento do bem e do mal, é que perceberam que estavam nus.

No dizer da serpente:

 

 “No dia em que o comerem, os vossos olhos abrir-se-ão, e passarão a ser como os deuses, conhecendo o bem e o mal”, Genesis, 3, 5).

 

Comeram o fruto, e:

 

Então cada um abriu os olhos e viram que estavam nus” (Génesis, 3, 7).

 

Aparentemente, o conhecimento do bem e do mal estaria apenas relacionado com a nudez.

 

 

 

 Eis o que aconteceu a Shivan Kaul, aluno do último ano de engenharia de computaçãp na McGill University de Montreal, Canadá, quando recentemente decidiu procurar emprego na área de software na Amazon (http://shivankaul.com/blog/2016/12/07/clean-your-desk-yet-another-amazon-interview-experience.html).

 

A empresa pediu-lhe para se sujeitar a um teste afim de se aperceberem sobre as suas capacidades. O teste seria feito remotamente online, através da aplicação ProctorU. Assim que Kaul se ligou para iniciar o teste, verificou com surpresa que o proctor tomara conta do seu computador:

 

Logo de início, fez-me descarregar algum software, para me permitir poder iniciar uma conversa com o proctor, e que lhe deu acesso e controle a todo o meu computador, incluindo o rato. Depois, o proctor fechou todas as minhas aplicações, alterando todas as minhas especificações por forma a eu não poder tirar fotos, apoderando-se ainda da câmara e do microfone”.

 

Notando que estavam papeis na mesa de trabalho, o proctor pediu a Kaul para limpar a mesa de trabalho, porque a Amazon não permitia o uso de qualquer material escrito durante o exame:

 

 “Clean your desk, please. Your institution (Amazon) has mandated that there cannot be any written material next yo you while you take the exam.” (“Limpe, por favor, a sua mesa de trabalho. A Amazon insiste em que não deve haver qualquer material escrito que possa ser consultado enquanto estiver a fazer o exame”).

 

 

 Quando Kaul disse que levaria algum tempo a retirar toda a papelada até a mesa de trabalho ficar limpa, sugerindo em alternativa que o teste fosse feito no seu quarto, sentado na cama, o proctor disse-lhe que sim, mas que primeiro teria que ver o quarto, a cama e os lençóis, por cima e por baixo, para que não houvesse escondido qualquer material escrito:

 

Yes, but first you have to show me the bed and remove the sheets to make sure no written material is hidden underneath. Also, you cannot have acess to a pen or paper. Please also keep your cellphone far behind you, where I can see it.” (“Primeiro vai ter que me mostrar a sua cama e tirar os lençóis para nos assegurar que não existe nenhum material escrito escondido. Não pode também ter acesso a qualquer caneta ou papel. Mantenha também por favor o seu telemóvel afastado de si, de forma a podermos vê-lo”).

 

 

Foi-lhe também pedido para mostrar uma vista de 360 graus do quarto e para mostrar o chão, mas afastando a cadeira em que estava sentado:

 

Please show your floor, no sir, you need to get up from your chair and push it away and then show.” (“Por favor mostre-nos o chão; para isso tem de se levantar da sua cadeira, empurrá-la para longe, e só depois mostrar o châo”).

 

Só depois foi autorizado a iniciar o teste, não sem antes lhe ter sido comunicado que só podia ir uma vez à casa de banho por cinco minutos, após acabar o primeiro teste.

 

 

O ProctorU apareceu em 2009 e é hoje utilizado por mais de um milhar de instituições, fazendo  milhões de testes por ano, com especial aplicação no campo do ensino online, nos exames finais, nos testes de pedidos de emprego para empresas, ou para a obtenção de novas certificações com vista a promoções.

Faz já hoje parte dos procedimentos tidos como normais, a ter em conta para quem quiser candidatar-se a um emprego, a uma escola, ou até à obtenção da carta de condução, o dar-se acesso total do nosso computador e da nossa casa (e, como tal, da nossa vida privada) a um qualquer estranho e a uma qualquer empresa. Standard Procedures.

 

 

E, estranhamente, já ninguém acha estranho. E, até dizem ser “inevitável” para quem quiser arranjar emprego. Neutralidade, indiferença, desinteresse, amorfismo, necessidade?

Despimo-nos de tudo (fazem-nos despir de tudo) por um emprego. E julgamos que não somos iguais às prostitutas porque estamos cobertos pelo vestuário da Graça. Só que não percebemos que, afinal, tal não se aplica apenas às prostitutas: nisso, pelo menos, esta é uma sociedade democrática e igual para todos. Para todos os que precisem de emprego. Strip sem ser tease.

 

 

Felizmente que quando aparecerem os computadores e se fizer a globalização, tudo isto deixará de acontecer: passaremos a trabalhar menos e a ter mais horas disponíveis para o lazer. Finalmente virá a felicidade de se estar desempregado. Pelo menos foi o que nos disseram.

 

 

Desempregados e despidos de tudo, eis o regresso ao paraíso.  As voltas que o mundo dá. Nunca Deus julgou possível que fosse através de um sistema económico que voltasse a ter o Paraíso cheio. Coitados dos 1% que se esforçaram tanto por nos colocar nesta situação. Quando poderão eles, os filhos e as filhas, terem também acesso ao Paraíso?

 

Mas há outra explicação possível: os 1% serem Deus. Sem os conseguirmos compreender (a nossa razão não tem a profundidade e grandeza suficientes para os entender), teremos de acreditar (uma questão de fé) que querem para nós o melhor possível, pois eles passam o seu tempo a procurarem soluções que não nos prejudiquem.

O paraíso é deles, o inferno é nosso, mas, por uma estranha manipulação levaram-nos a acreditar que este nosso inferno é o melhor paraíso possível. Sigamo-los devotamente, entoando hinos e todos nus. Vai bonita a festa, pá!

 

 

 

 

 

 

(119) Bonitinhos, limpinhos e bonzinhos

 

Nas nossas sociedades atuais, o período de gravidez passou em uma geração, de nove meses para quarenta anos, bolsas marsupiais de onde só saímos, a contragosto, muito tarde.

 

“Somos a favor de fazer as pessoas felizes, mas somos neutrais quando se trata de fazer felizes pessoas”, J. Narveson.

 

As razões em que se apoiam as nossas ações são essencialmente de dois tipos, conforme se dirijam a uma pessoa específica (ou grupo de pessoas conhecidas), ou se dirijam a outras quaisquer pessoas (ou grupo de pessoas) que nada nos digam e que até podem ainda nem existirem no tempo.

 

Haverá alguma diferença moral entre o prevenir o Zika congénito em certos bebés pelo ‘controle dos mosquitos’, ou em protelar o nascimento de bebés por forma a não terem congenitamente Zika através do ‘controle de natalidade’?

 

 

 

 

 

A maior parte da nossa moralidade e das nossas leis, giram à volta do conceito de que as ações que praticarmos, sejam elas quais forem, não devem magoar, ou ocasionar danos, a outra pessoa. Ou seja, não devemos colocar a outra pessoa numa posição pior do que aquela em que viria a estar se a nossa ação não tivesse sido feita.

 

Parece, por isso, importante tentarmos compreender as razões que se encontram por detrás das nossas ações e nas quais nos apoiamos para avaliar da sua ‘moralidade’. Foi o que fez o filósofo inglês, Derek Parfit (1942-2017), na sua obra Reasons and Persons (1984).

 

 Segundo ele, essas razões em que se apoiam as nossas ações são essencialmente de dois tipos, conforme se dirijam a uma pessoa específica (ou grupo de pessoas conhecidas), ou se dirijam a outras quaisquer pessoas (ou grupo de pessoas) que nada nos digam e que até podem ainda nem existirem no tempo.

 As do primeiro tipo, vai Parfit nomeá-las como sendo as que “afetam diretamente outra pessoa específica” (“person-affecting”, PA), para o melhor ou para o pior; as do segundo tipo, constituirão as razões ditas “impessoais”, que não são dirigidas a uma pessoa específica.

 

 

É moralmente errada a escolha da Joana?

 

Embora os pais lhe facilitassem o acesso ao controle de natalidade e a aconselhassem, Joana, uma rapariga de 14 anos, que namorava com o consentimento dos pais um rapaz da mesma idade, decidiu engravidar. Os pais ficaram totalmente horrorizados quando ela lhes comunicou a decisão, e tentaram dissuadi-la, invocando entre outros, os factos de tal limitar o acesso à sua própria educação e à dificuldade de emprego. Se ela esperasse até ter mais idade, poderia inclusivamente dar um melhor início de vida à criança. Não estaria ela a fazer mal à criança ao engravidar já tão cedo? Mas a Joana insistiu e deu à luz uma menina, a Anabela.

Pode a escolha da Joana ser considerada moralmente errada?

Responda: Sim/Não”.

 

 

Na questão apresentada, a ação de Joana ao não querer atrasar a gravidez, não iria, na realidade, afetar qualquer pessoa específica do presente. Não existia, assim, nenhuma razão moral do tipo PA que pudesse levar Joana a atrasar a gravidez,

Mas, se considerarmos a decisão da Joana à luz das razões “impessoais”, então essa decisão poderá ser considerada errada, porque a criança que estaria para nascer iria defrontar-se com piores perspetivas de futuro que a criança que viesse a nascer mais tarde.

Para clarificar melhor estes conceitos, Parfitt vai utilizar um exemplo sobre políticas alternativas de gestão dos recursos naturais.

 

 

Políticas de “esgotamento” x políticas de “conservação”

 

Imagine que um país vai ter de escolher entre duas políticas sobre o modo como administrar os seus limitados recursos naturais para os próximos 200 anos.

A primeira política (Conservacionismo) pretende gerir a utilização dos recursos de forma a que eles durem o mais possível. No curto prazo, isso significará uma certa austeridade, na medida em que a qualidade da vida das pessoas do país não será tão boa como poderia ter sido. No longo prazo, a qualidade da vida das pessoas do país acabará por melhorar.

A segunda política (Esgotamento) pretende utilizar todas os recursos existentes, sem impor qualquer austeridade. Nos próximos 200 anos, os padrões médios de qualidade de vida das pessoas melhorarão rapidamente. Contudo, após todos os recursos terem sido esgotados, o padrão médio de qualidade de vida, cairá abruptamente por muito tempo.

 

Se nos importarmos apenas com a possibilidade de as decisões que tomamos agora possam afetar, direta e imediatamente, pessoas específicas à nossa volta, estaremos a utilizar o conceito de moralidade que é mais tradicional e familiar: é mau magoar seja quem for, e é bom beneficiá-las. Neste caso, as razões morais por detrás destas atuações têm que ver com a “afetação direta de outra pessoa específica” (“person-affecting”).

Mas, se pensamos sobre as coisas que virão a afetar as pessoas no futuro, utilizamos outro tipo de moralidade, a “impessoal”: seria bom que no futuro as pessoas tivessem vidas felizes, e seria mau se as suas vidas fossem miseráveis.

 

Contudo, na realidade, nem sempre as coisas são assim tão simples.

Por qual razão moral decidiríamos se existissem circunstâncias especiais em que pudéssemos ou beneficiar pessoas específicas ou afetar pessoas que viessem a existir no futuro?

 

 

O Zika, controle de mosquitos x controle de natalidade

 

O recente caso do vírus Zika põe exatamente este tipo de dilema. Há apenas duas opções: ou tentar controlar os mosquitos (inseticida, locais de nidificação, repelentes, redes mosquiteiras), ou encorajar o controle de natalidade.

O ‘controle dos mosquitos’ permite que durante a fertilização que levará à conceção de um Manelinho este não seja infetado pelo Zika, beneficiando pessoas específicas.

Com o ‘controle de natalidade’, perante o risco do Zika, a gravidez é adiada; quando se vier a dar a fertilização, será concebido um Zequinha que nascerá sem Zika. O benefício da contraceção é, neste caso, impessoal.

 

Haverá alguma diferença moral entre o prevenir o Zika congénito em certos bebés pelo controle dos mosquitos, e o protelar o nascimento de bebés por forma a não terem congenitamente Zika através do controle de natalidade?

 

Os filósofos dividem-se: uns creem que a moralidade tem apenas que ver com as ações que conduzam a melhorar ou piorar a vida de pessoas específicas, como preconiza Jan Narveson (Utilitarism and the New Generations) quando escreve que “somos a favor de fazer as pessoas felizes, mas neutros sobre o fazer felizes pessoas”.

Outros, onde se inscreve Parfit, dizem que moralmente, não há qualquer diferença entre os dois procedimentos, pois o importante é evitar os efeitos da doença nos recém-nascidos, devendo utilizar-se o procedimento que se revelar mais efetivo.

 

Os governos também se dividem sobre as políticas a aplicar: Colômbia, Equador, Jamaica e Brasil, aconselharam as mulheres em idade reprodutiva a atrasarem a gravidez. Salvador, recomendou às mulheres para atrasarem a gravidez por dois anos.

Os EUA contribuíram com 1,1 biliões de dólares para a pesquisa médica e controle dos mosquitos, desde que esses fundos não fossem utilizados para o controle de natalidade.

 

 

Para além das decisões que se foram tomando nestes e noutros casos semelhantes, há aqui um problema muito interessante, e que passa normalmente desapercebido. É que em qualquer dos casos, o seguimento de uma ou outra dessas políticas, devido ao impacto que terão na forma como as pessoas viverão as suas vidas, acabará sempre por vir a alterar e influenciar a altura da conceção, e consequentemente, a identidade das pessoas ao longo de várias gerações que se lhe seguirão.

 

As sociedades futuras daí resultantes, serão constituídas por pessoas completamente diferentes das que teriam se essas políticas (quaisquer que fossem) não tivessem sido seguidas.

As pessoas que seguirem as recomendações para se evitar o Zika, terão filhos diferentes daqueles que normalmente teriam. Mesmo as que optarem pelo controle dos mosquitos: o tempo que utilizarem para usar o repelente de insetos, ou a alteração do caminho de regresso a casa para evitarem áreas de concentração de fumigação dos mosquitos, podem ser suficientes para alterarem a identidade dos bebes a nascerem brevemente.Até para os mesmos casais, em vez de Manelinhos teriam Zequinhas. E, só isso fará toda a diferença.

 E o mesmo para as pessoas que viverem numa sociedade de ‘esgotamento’, que acabarão por serem completamente diferentes das pessoas que viverem numa sociedade de ‘conservação’.

 

 

Será errado escolher-se uma política de esgotamento?

 

“Imagine que um país vai ter de escolher entre duas políticas sobre o modo como administrar os seus limitados recursos naturais para os próximos 200 anos.

A primeira política (Conservacionismo) pretende gerir a utilização dos recursos de forma a que eles durem o mais possível. No curto prazo, isso significará uma certa austeridade, na medida em que a qualidade da vida das pessoas do país não será tão boa como poderia ter sido. No longo prazo, a qualidade da vida das pessoas do país acabará por melhorar.

A segunda política (Esgotamento) pretende utilizar todas os recursos existentes, sem impor qualquer austeridade. Nos próximos 200 anos, os padrões médios de qualidade de vida das pessoas melhorarão rapidamente. Contudo, após todos os recursos terem sido esgotados, o padrão médio de qualidade de vida, cairá abruptamente por muito tempo.

Mas, a decisão que tomarmos, terá outros efeitos.  Cada uma das políticas mudará o decorrer da vida dos próprios indivíduos, que acabarão por encontrarem outras pessoas. Isso afetará aqueles com quem se encontrarem, bem como os filhos que tiverem. Até dentro dos mesmos casamentos, os filhos que tiverem nascerão em alturas diferentes, pelo que serão também pessoas diferentes.

Os efeitos das decisões políticas que tomarmos serão tão grandes que após 200 anos, as populações do país serão também diferentes.

Pensa que será errado escolher uma política de Esgotamento?

 

Responda: Sim/Não/ Isso dependerá em quanto o Esgotamento iria beneficiar as pessoas nos próximos 200 anos e em quanto tornaria má a vida das pessoas depois disso.”

 

 

 

As preocupações dos pais e das sociedades, sempre com as perspetivas bem-intencionadas de dar o melhor dos mundos aos seus filhos, sempre à espera de melhores condições em que eles possam viver, vão, não só alterar a vida dos pais, como a das pessoas com quem se relacionam, e especialmente a vida dos filhos.

Os filhos que nascerem, crescerão num ambiente muito mais seguro, serão muito mais apoiados, mais livres de doenças e contágios, sempre muito mais amparados pelos pais na sua tentativa de lhes dar o máximo de proteção. São superprotegidos. Menos irmãos, menos lutas, menos preocupações, menor interação com a sociedade.

Daí que vivam em bolsas marsupiais de onde só saem, muito a contragosto, cada vez mais tarde. Daí que se verifique que nas nossas sociedades atuais, o período de gravidez tenha passado em uma geração, de nove meses para quarenta anos.

 

Devido às “escolhas” que foram sendo feitas (ou “impostas”), os “Brutti, sporchi e catttivi (Feios, porcos e maus)”, vão sendo substituídos por Bonitinhos, limpinhos e bonzinhos, e em que rapidamente  passarão a aceitar e pactuar com o sistema, exatamente por serem bonzinhos. Nada de lutas. Talvez seja esta a única maneira que têm para conseguirem sobreviver na sociedade que os formou e enformou. Mas isso vai fazer toda a diferença.

 

 

Conta-se que Parfitt, já nos seus últimos dias de vida, quando acordava da sedação tentava prosseguir febrilmente com o seu trabalho de escrita e ensino. Inclusivamente, ia discutindo com um aluno que o visitava, a tese que este preparava para o exame. Uma enfermeira, notando a grande quantidade de visitas que ele recebia, exclamou:

 “Jesus Cristo teve apenas 12 discípulos – mas olhe para você! Deve ser uma pessoa muito importante. O que é que você faz?

 

Eu trabalho”, disse Parfit com um sorriso, “em coisas que interessam.”

 

 

 

 

ANEXO: Artigo na Medical Examiner sobre os filhos dos “pais-helicóptero” (aqueles que costumamos chamar, numa sociedade ainda com bastantes raízes ligadas à terra, de “pais-galinha”, mas que para a sociedade militarizada americana são melhor reconhecidos por “pais-helicóptero” porque pairam permanentemente sobre os filhos)

http://www.slate.com/articles/health_and_science/medical_examiner/2013/12/millennial_narcissism_helicopter_parents_are_college_students_bigger_problem.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

(118) As Josefinas cantoras

 

Qualquer objeto poderá ser considerado arte, mesmo que desprovido de sentido, desde que seja ‘feito’ por alguém considerado artista.

 

“A nossa vida é muito desconfortável, cada dia traz surpresas, apreensões, esperanças e terrores, e seria por isso impossível a um indivíduo isolado suportá-la, sem contar dia e noite com o apoio dos seus companheiros; mas, mesmo assim, as coisas tornam-se com frequência muito penosas e mil ombros vacilam então sob o fardo que ameaçava apenas um de nós”, Kafka.

 

Josefina pensava que o povo a admirava por ela ser uma artista, mas esqueceu-se que ela só era uma artista por ser tratada como tal.

 

 

 

 

 

            Normalmente, as últimas obras dos escritores cuja morte é amplamente anunciada pela idade que deixarão de ter, aparecem-nos como testamento daquilo que já foram. Mas um testamento literário não tem que ser forçosamente só sobre o passado que esses escritores foram. Pode muito bem ser antes um testamento sobre o futuro e a melhor obra que escreveram. Bem sei que nem todos podem ser génios e nem todos podem ter a ‘fortuna’ de morrerem antes do tempo de serem considerados antiquados.

 

            Josefina, a Cantora, ou o Povo dos Ratos (“Josephine the Singer, or the Mouse Folk” em The Basic Kafka, Nova Iorque, Pocket Books, 1984, acessível online em www.kafka.org/pdfdocuments/JosephineMY.pdf) é a última obra de Franz Kafka (1883 – 1924) escrita no ano da sua morte, em que Kafka estava já sem voz devido à tuberculose laríngea (acabou por morrer de fome devido ao fecho da laringe).

Embora sabendo que chegara o seu fim, nada transparece neste conto que nos leve a suspeitar da sua dor ou de uma possível angústia existencial. Trata-se da ‘simples’ história de Josefina, uma rata cantora, e da sua relação com o povo dos ratos.

 

            Apesar de Josefina ser muito apreciada, o narrador começa por colocar dúvidas sobre a qualidade do seu canto:

 

Será sequer canto? Ou não será talvez somente uma espécie de assobio? E assobiar, todos sabemos o que é – é o dom artístico próprio do nosso povo, ou não um simples dom, mas antes a expressão caraterística da nossa existência. Todos nós assobiamos, mas nenhum de nós sonha, sem dúvida, fazer do assobiar uma arte: assobiamos sem pensar nisso ou, na realidade, sem dar por isso, e são muitos entre nós que nunca se deram conta de que assobiar é uma das nossas caraterísticas. Portanto, se fosse verdade que Josefina não canta, mas apenas assobia e talvez, como a mim pelo menos me parece, não muito melhor do que nós costumamos fazer – pois é possível que o seu assobio não tenha sequer a mesma força do nosso habitual assobiar, como o de um camponês que é capaz de manter o seu assobio o dia inteiro enquanto trabalha – se tudo isto fosse verdade, então o suposto talento musical de Josefina seria inexistente, o que, no entanto, tornaria ainda mais inexplicável o verdadeiro enigma que é a força do efeito que ela produz.”

 

            O que nos coloca perante um problema e um enigma:

 

            O problema é que ao considerar o seu assobio desprovido de sentido, então a sua ‘arte’ (o canto) provinha não das propriedades materiais intrínsecas – por si própria Josefina é como todos os do seu povo - mas do fato de ela ser considerada artista.

Quando Duchamp apresentou em 1917 o seu Urinol debaixo do nome de um outro pretenso artista desconhecido, R. Mutt (brincadeira com o nome do fabricante, JL Mott Iron Works Company), e chamando-o convencionalmente de Fonte, viu a “sua” obra ser recusada e impedida de figurar na exposição, que certamente não teria acontecido se tivesse concorrido com o seu nome.

 

 

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Conforme escreveu na carta em que pediu a demissão da organização da exposição:

 

A fonte do sr. Mutt não é imoral, o que seria absurdo, não mais do que seria imoral uma banheira. É um objeto que se vê todos os dias nas montras dos canalizadores.

Não tem qualquer importância saber se o sr. Mutt fez a fonte com as suas próprias mãos. Ele ESCOLHEU-a. Ele agarrou num artigo vulgar da vida e deu-lhe um novo nome para que o seu significado de utilização desaparecesse, criando assim um novo conceito para esse objeto”.

 

O que Duchamp pretendeu foi demonstrar a tese segundo a qual qualquer objeto poderia ser considerado arte, mesmo que desprovido de sentido, desde que fosse ‘feito’ por alguém considerado artista.

 

 

 

O enigma é a ‘voz’ de Josefina, que “sendo um assobio que não é um assobio” e não tendo nada de especial, mesmo assim conseguir causar admiração. Se Magritte tivesse lido o conto de Kafka não nos custa imaginar que teríamos hoje uma pintura de Josefina a assobiar intitulada: “Isto não é assobiar”.

 

 

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 A pergunta será então: se a voz da Josefina era igual à de todos os outros, porque se lhe dava importância? Porque se reunia o povo para a escutar?

           

            “Uma vez que assobiar é um dos nossos hábitos irrefletidos, podemos pensar que os membros da audiência de Josefina também assobiam; a sua arte faz que nos sintamos felizes e, quando nos sentimos felizes, assobiamos – mas a sua audiência nunca assobia, instala-se num silêncio de ratos; ficamos silenciosos, com se tivéssemos alcançado a paz que ansiamos há muito e da qual o nosso assobio bastaria para nos afastar. Será o seu canto que nos encanta, ou antes o silêncio solene que envolve a sua pequena e frágil voz?”

 

Daqui várias coisas podemos concluir. Primeira: O canto-assobio é um pretexto. Segunda: O povo reúne-se tendo por fim reunir-se. Terceira: O que importa não é a voz, mas o “silêncio solene” que permite o vivenciar de um momento de paz face à dureza do trabalho.

 

A nossa vida é muito desconfortável, cada dia traz surpresas, apreensões, esperanças e terrores, e seria por isso impossível a um indivíduo isolado suportá-la, sem contar dia e noite com o apoio dos seus companheiros; mas, mesmo assim, as coisas tornam-se com frequência muito penosas e mil ombros vacilam então sob o fardo que ameaçava apenas um de nós…Esse assobio, que se ergue enquanto todos os demais observam o silêncio, chega quase como uma mensagem de todo o povo a cada um de nós: o ténue assobio de Josefina no meio das graves preocupações é quase como a existência precária do nosso povo no meio do tumulto de um mundo hostil. Josefina afirma-se, com o nada da sua voz, o nada do seu desempenho, afirma-se e abre caminho até nós – faz-nos bem pensar que assim é.

 

            Perante uma vida difícil e dura de suportar, sujeita a uma existência precária e ameaçada, a voz de Josefina não transmite qualquer conteúdo espiritual, funcionando antes como uma representação da existência precária do povo dos ratos. Sem ela, o povo não se reuniria em silêncio. É ela que reflete e o remete para a identidade coletiva de todos, levando-o a perceber-se a si próprio.

 

            E, no entanto, Josefina não é venerada como um Génio, pois o seu público tem plena consciência que ela é um deles cuja função é apenas de os reunir, daí tratarem-na com uma indiferença igualitária como se vai verificar quando ela for pedir “privilégios especiais” para compensação pelo seu trabalho.

 

            “Desde há muito tempo, talvez desde os começos da sua carreira artística, que Josefina luta por ser dispensada de todo o trabalho quotidiano em razão do seu canto – devia ser aliviada de quaisquer preocupações com o pão de cada dia e dos cuidados da luta pela existência, pensando, ao que parece, que caberia a todo o povo garantir-lho. Um entusiasta fácil, e casos desses existem, poderia concluir da mera estranheza desta exigência, da atitude espiritual donde ela decorre, a justificação interior da reclamação. Mas o nosso povo entende de outro modo e recusa-a tranquilamente. Também não cuida demasiado de responder aos argumentos de Josefina. Esta sustenta, por exemplo, que o esforço é mau para a sua voz, que o esforço do trabalho nada é, sem dúvida, por comparação com o esforço de cantar, mas que a impede do repouso necessário depois de cantar e da recuperação necessária antes de voltar a cantar, que esgota todo o seu vigor e que essa circunstância não lhe permite dar a plena medida dos seus dons. Os outros ouvem os seus argumentos e não lhes prestam atenção. O nosso povo que se comove com tanta facilidade, mostra-se por vezes inacessível à comoção. Outra vezes a sua recusa é tão decidida que Josefina, colhida de surpresa, parece submeter-se, faz a sua parte do trabalho comum, canta o melhor que pode – mas por um momento só, antes de, com energia renovada, como se o vigor do seu propósito fosse inexaurível, recomeçar a sua luta.

 

 

            Quando Josefina resolve desaparecer, esperando, tal como uma criança que foge de casa dos pais por não se sentir suficientemente amada, que os pais sentindo a sua falta a vão procurar, vai verificar que avaliou mal a situação.

 

Ela é um pequeno episódio na história eterna do nosso povo, e este superará a sua perda. Não que isso no seja fácil – como faremos as nossas reuniões no meio de um silêncio completo? E contudo, não é verdade que todos se mantinham silenciosos também quando Josefina estava presente? Seria o seu assobio real sensivelmente mais forte e mais vivo do que será a nossa memória? Se, na sua sabedoria, o nosso povo exaltou tanto o canto de josefina, não terá sido precisamente para nada perder quando o perdesse? Talvez, portanto, a nossa privação não seja muito grande, mas Josefina, livre do tormento desse exílio que, no entanto, em seu entender é apanágio dos eleitos, perder-se-á alegremente na inumerável multidão dos heróis do nosso povo, e em breve, uma vez que não somos gente historiadora, acederá aos cumes da redenção e será esquecida como o foram todos os seus irmãos.”

 

 

            Nesta sua sociedade radicalmente democrática e pretensamente igualitária, Josefina esqueceu-se que apesar de ser tratada como uma celebridade, os seus admiradores tinham perfeita consciência de que nela não havia nada de especial e que ela era apenas um deles. "Josefina pensava que o povo a admirava por ela ser uma artista, mas esqueceu-se que ela só era uma artista por ser tratada como tal."

 

 

 

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