Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Fábricas de papas e bolos

 

Os meios de comunicação social, os media, servem para conseguirem mobilizar o apoio da população para os interesses especiais que dominam o estado e a atividade privada. Só com esta perspetiva poderemos ser capazes de entender o seu funcionamento.

 

A fabricação do consentimento pelos meios de comunicação social faz parte do funcionamento regular de um governo”, Walter Lippmann, 1921.

 

"Nos países em que o poder se encontra nas mãos de uma burocracia do estado, é fácil verificar que o controle sobre os media se exerce de forma monopolística onde se inclui um sistema de censura oficial, com o fim de servir uma elite dominante. Já se torna muito mais difícil de verificar a utilização da propaganda quando os media estão nas mãos de privados e onde a censura formal se diz inexistente.”

 

“A liberdade da imprensa está garantida apenas para aqueles que são donos dela”, A. J. Liebling.

 

 

 

Fabricação consentimento.jpg

 

 

 

 

 

Tem vindo a ser-nos dito que os media são independentes e que têm por missão o relato e a descoberta da verdade, sendo as suas escolhas baseadas em critérios estritamente objetivos e profissionais.

Contudo, se os poderosos grupos de pressão de que dependem, entenderem limitar o que o público possa ver, ouvir, ler ou pensar, e controlarem a opinião pública através de campanhas de propaganda, então, a visão que teremos dos media e da sua missão, será totalmente diferente do que nos tem vindo a ser dito.

 

Numa sociedade em que a concentração de riqueza é cada vez maior e em que os conflitos de interesses das classes são enormes, a função que os media desempenham de divertir, entreter, informar, inculcar nas pessoas valores, crenças e códigos de comportamento, só poderá ser desempenhada se eles estiverem integrados numa estrutura institucional alargada e se utilizarem a propaganda de maneira sistemática.

 

Nos países em que o poder se encontra nas mãos de uma burocracia do estado, é fácil verificar que o controle sobre os media se exerce de forma monopolística onde se inclui um sistema de censura oficial, com o fim de servir uma elite dominante. Já se torna muito mais difícil de verificar a utilização da propaganda quando os media estão nas mãos de privados e onde a censura formal se diz inexistente.

 

Para que nos possamos orientar por entre as variadas rotas em que o dinheiro e o poder se infiltram, se interpenetram e se conjugam, a fim de que determinadas notícias sejam publicadas e outras sejam omitidas ou adulteradas, para que assim seja possível ao governo e aos interesses privados dominantes poderem fazer chegar as suas mensagens ao público, vou socorrer-me do livro Manufacturing Consent, The Political Economy of the Mass Media, de Edward S. Herman e Noam Chomsky, análise especialmente vocacionada para o tecido dos media americanos, mas que, exatamente por isso e salvaguardadas as devidas proporções,  tem aplicação universal.

 

A tese dos autores é que os media para poderem desempenhar efetivamente a sua função, necessitam de criar um modelo de propaganda, e que esse modelo de propaganda assenta no controle das notícias.

Este controle obtém-se fazendo passar por variados e sucessivos filtros toda a matéria em bruto das notícias, até ela acabar por ficar depurada e pronta para ser dada a conhecer.   

 

  1. Um primeiro filtro é o constituído pelo enorme investimento inicial necessário, pelo tipo de propriedade da empresa, pela riqueza do dono e pelo tipo de orientação prosseguido para a obtenção de lucro.

 

 Um dos primeiros obstáculos ao aparecimento de meios de comunicação tem que ver com o grande investimento inicial necessário. E isto já vem de longe: em 1851, para se lançar um jornal em Nova Iorque estimava-se como mínimo suficiente uma quantia de $69.000; em 1872, a venda pública do St. Louis Democrat, atingia o valor de $456.000, mas em 1920, a venda de empresas de jornais estava-se já a fazer a valores oscilando entre os $6 e os $18 milhões.

 

Outro dos obstáculos tem origem na concentração das empresas. Em 1986, existiam nos EUA 1.500 jornais diários, 11.000 revistas, 9.000 estações de rádio,1.500 estações de TV, 2.400 editoras de livros e sete estúdios de cinema, perfazendo um total de 25.000 entidades de media. Contudo, mais de metade destes jornais, revistas, livros e filmes eram propriedade de apenas 29 empresas.

As três redes de televisão, a ABC, a CBS e a NBC (da General Electric),  os dez principais jornais, o New York Times, Washington Post, Los Angeles Times (Times-Mirror), Wall Street Journal (Dow Jones), Knight-Ridder, Gannett, Hearst, Scripps-Howard, New-house e Tribune Company, as cinco maiores revistas, Time, Newsweek (Washington Post), Reader’s Digest e U.S. News & World Report, um maior editor de livros, McGraw-Hill, e sete dos maiores sistemas de TV por cabo, Murdoch, Turner, Cox, General Corp., Taft, Storer e Group W (Westinghouse), todas elas companhias que estão colocadas no primeiro terço das mais importantes dos EUA, são propriedade e controladas por pessoas de enorme riqueza.

 

O controle familiar de algumas destas empresas tem vindo a sofrer imensas pressões porquanto, a partir da altura em que muitas das empresas passaram a estar cotadas em bolsa, as famílias proprietárias encontram-se divididas sobre se devem aproveitar as vantagens oferecidas pelas oportunidades da cotação em bolsa ou se devem continuar a manter o controle familiar.

Acresce ainda que a desregulamentação aprovada sobre a limitação à concentração dos media e a maior abertura ao uso das ondas hertzianas, vieram permitir a realização de uma série de takeovers (ações de aquisição, amigáveis ou não) que vão acabar por obrigar as famílias proprietárias dos media a maiores endividamentos para poderem resistir a essas ações. Como resultado, têm de procurar obter, mais agressivamente, uma maior rentabilidade.

Em qualquer dos casos, o que vai acontecer é esses proprietários irem progressivamente perdendo autonomia para banqueiros, instituições de investimento e outros grandes investidores individuais a quem recorrem para obterem crédito.

Bancos e outros investidores institucionais começam a ser proprietários de muitas ações dessas companhias de media. E muito embora essas ações possa não lhes garantir o controle das empresas, permite-lhes, no entanto, que sejam ouvidos, influenciando a condução e desempenho da companhia.

 

Os grupos que controlam os media vão estabelecer assim um contacto mais direto com a comunidade das grandes corporações económicas e financeiras, através dos seus diretores e outras ligações sociais.

 Os conselhos das direções passam a ser dominados por executivos da banca e das grandes corporações exteriores às próprias corporações de media.

Das dez maiores gigantes dos media, 2/3 dos diretores vem de fora. Duma amostra sobre 95 destes diretores de fora, verificamos que eles exercem também cargos de direção em 36 bancos e em outras 255 empresas (Peter Dreier, “The Position of the Press in the U.S. Power Structure”).

 

Por outro lado, também as companhias de media se aproveitam destes contactos, diversificando-se para outros negócios para além dos media. Por exemplo, as duas maiores companhias, a GE, dona da RCA e NBC, e a Westinghouse, dona de várias grandes estações de TV, radio e rede de cabo, diversificaram para outras grandes áreas como as do armamento e do nuclear.

A indústria de armamentos é uma área altamente centralizada e secreta, particularmente influente ao nível das “decisões” políticas. Só que esta influência, também faz com que a GE e a Westinghouse fiquem dependentes do governo para que este subsidie a pesquisa e desenvolvimento do nuclear e da indústria militar, e ainda para a criação de um “clima” favorável nas relações com outros países, o que lhes facilitaria possíveis vendas.

Os gigantes dos media, as agências de publicidade e as grandes multinacionais, têm interesses comuns na criação deste clima favorável para os investimentos fora dos EUA. Daí que as suas inter-relações com o governo sejam, no que diz respeito a estas políticas, simbióticas.

 

Mas, as ligações e dependências com o governo, vêm também dos mecanismos da regulamentação com vista ao licenciamento e franquias a pagar. Daí o lobbying permanente e a troca de expedientes.

Não é de espantar que 15 dos 95 diretores das dez maiores companhias de media tenham sido previamente membros de governos. É a transferência constante, a porta giratória, entre quem em nome do governo legisla, regula, e as companhias que tinham sido reguladas por esses reguladores.

 

Assim, são todos estes interesses comuns entre companhias de media, outras grandes corporações, bancos e governo, que constituem o primeiro grande filtro que afeta a escolha de notícias.

Adenda: quando os neoconservadores falam do domínio dos media pelos “liberais”, estão certamente a referirem-se a estes e aos outros diretores que controlam estas grandes corporações e o governo!

 

  1. Um segundo filtro é o constituído pela publicidade.

 

Antes da publicidade se tornar preponderante, para que um jornal se mantivesse em circulação, os custos teriam de serem cobertos pelo preço arrecadado com a venda.

Com o crescimento da publicidade, os jornais que conseguiam atrair anúncios, começaram a produzir unidades a um preço muito mais baixo. Os que não conseguiam, acabavam ou por diminuírem o número de jornais vendidos, ou por os vender a um preço superior, ou por cortarem nos lucros ou na qualidade do papel, formatos e artigos, normalmente acabando por desaparecerem.

Já em 1856, um executivo da publicidade, defendia que não se deviam colocar anúncios em certos jornais, porque “os seus leitores não são compradores, pelo que qualquer dinheiro gasto em publicidade nesses jornais é dinheiro deitado fora.

As escolhas dos anunciantes é que influenciam a prosperidade e sobrevivência dos media. E, essas escolhas alicerçam-se em critérios económicos e políticos.

 

Exemplar o que aconteceu com a imprensa social-democrata na Grã-Bretanha do pós-Guerra, que, apesar da sua enorme circulação (por exemplo, o Daily Herald tinha 8,1% da circulação diária nacional, e tinha o dobro dos leitores do The Times, do Finantial Times e do Guardian), foi sendo progressivamente asfixiada devido à falta de anunciantes.

O desaparecimento desses jornais constituiu uma importante contribuição para o declínio do partido Trabalhista. Um movimento de massas sem qualquer media de suporte, ainda por cima sujeito a grande hostilidade por parte da imprensa dominante, fica em séria desvantagem para lutar pelos seus interesses.

Os anúncios, a publicidade, foram um poderoso mecanismo de enfraquecimento da imprensa das classes menos abastadas. A publicidade não é pois aquele sistema neutral onde é a escolha do comprador final que decide.

 

Mas, os anunciantes também utilizam esse seu poder sobre os programas e artigos a serem exibidos ou publicados. Programas que critiquem atividades das corporações dos media, expondo problemas que envolvam a degradação do ambiente, ou as ações do complexo militar-industrial, ou desaprovação de tiranias que sejam suportadas ou de que beneficiem essas corporações, verão os seus custos serem sempre só suportados pela empresa de media que os produzem.

Este seu poder manifesta-se até na própria duração dos programas, encurtando-os por forma a poderem conter maior número de anúncios.

 

  1. Um terceiro filtro é o constituído pelas fontes de notícias dos media.

 

Os media precisam de fornecimento constantes de notícias a tempo de conseguirem encher os horários programados. Como não têm possibilidades para terem jornalistas e câmaras em todos os locais onde as notícias possam acontecer, são economicamente forçados a concentrarem os recursos nos sítios onde as prováveis notícias possam acontecer, quer através de rumores ou de fugas de informação, ou nas conferências de imprensa agendadas.

O Governo, Presidência da República, Ministérios, Câmaras Municipais, Polícia, Hospitais, grandes Empresas, são fontes facilmente reconhecidas e tidas como credíveis para o fornecimento de notícias.

 

Nos grandes países, a quantidade enorme da informação pública é só por si suficiente para alimentar todos os media.

Nos EUA, o Pentágono tem um serviço de informação com milhares de empregados, com um orçamento de várias centenas de milhões de dólares. Segundo o Armed Forces Journal, o Pentágono publicava em 1971, 371 revistas com o custo anual de 57 milhões de dólares, e 1.203 jornais, o que significava que era um editor 16 vezes maior que o maior editor da nação.

 Num raro e único caso de abertura, a Força Aérea Americana (United States Air Force, “Fact Sheet: The United States Air Force Information Program”, março 1979) tornou público que o seu serviço de informações incluía:

140 jornais, 690.000 cópias por semana; Revista Airman, circulação mensal de 125.000; 34 estações de rádio e 17 de televisão; 615.000 notícias internas; 45.000 notícias para o exterior; 3.200 conferências de imprensa; 500 voos para orientação dos media; 50 encontros com direções editoriais; 11.000 palestras; 148 filmes, dos quais 24 nos circuitos comerciais.

Todos estes números nunca mais foram atualizados pelo que é de supor que não devam ter diminuído.

 

Só o sector das grandes corporações empresariais tem os recursos suficientes para produzir informações e propaganda em maior escala que o setor público.

Por exemplo, a U.S. Chamber of Commerce (Câmara de Comércio dos EUA), entidade privada coletiva, tinha em 1983 um orçamento de 65 milhões de dólares para comunicações e atividades políticas. Publicava uma revista (Nation’s Business) com uma circulação de 1,3 milhões e um semanário com 740.000 subscritores, um programa semanal distribuído por 400 estações de rádio, e painéis de discussão semanais em 128 estações comerciais de televisão.

Para além da Câmara de Comércio, há ainda que contar com as câmaras de comércio dos vários estados, com as câmaras locais e ainda com as associações de comércio, todas elas envolvidas em atividades de relações públicas e lobbying, com um total de mais de 150.000 profissionais.

 

Para consolidarem o seu estatuto, todos estes promotores de notícias, ligados ao governo e às corporações, esforçam-se por facilitarem o mais possível o trabalho dos jornalistas dos media, quer entregando-lhes cópias dos discursos e posições a virem a ser tomadas, quer elaborando press releases (resumos) aptos a serem usadas de imediato em linguagem jornalística, sessões de fotos, horários compatíveis, etc.

Isto é uma forma de reduzirem os custos que deveriam ser suportados pelos media, ou seja, estão assim a subsidiá-los. O que no caso dos departamentos do estado não deixa de ser curioso, porquanto tal é feito à custa dos contribuintes. Os cidadãos pagam para serem propagandeados pelos interesses dos grupos poderosos que rodeiam o estado.

 

Com este sistema tão bem montado de relações e de fontes “credíveis”, como é que os media podem vir a criticar ou a emitir outras visões que ponham em causa quem lhes fornece quase tudo a custos zero?

 

Mas esta relação entre o poder e as fontes vai para além do fornecimento “gratuito” de notícias. Para além das “fontes oficiais” que, de tão frequentemente citadas, podem perder o crédito, o pacote passa também pelo fornecimento de “especialistas”, apresentados como fontes não oficiais altamente respeitáveis que servem para credibilizar as fontes oficiais.

A criação deste corpo de especialistas é feita deliberadamente e em larga escala. Atentemos no que escreveu o Juiz Lewis Powell, num memorando para a Câmara de Comércio dos EUA em que a aconselhava a “comprar os académicos de topo das Universidades para conferir credibilidade aos estudos das corporações e poder também dar aos negócios uma voz mais forte que se faça ouvir nos campos universitários”.

Esta “compra” seria feita quer pagando-lhes como consultores, quer financiando as suas pesquisas, quer organizando conferências fechadas de especialistas (think tanks) em que eles fossem diretamente recrutados, ajudando a disseminar as suas mensagens.

Exemplo característico era o do afamado programa de televisão “McNeil-Leher News Hour”, onde 54% dos comentadores “especialistas” em terrorismo e defesa eram ou tinham sido membros do governo e 15,7% vinham de think tanks da ala mais conservadora, que tão depressa ocupavam posições no aparelho do estado como nas organizações privadas.

Também os próprios media tinham os seus “especialistas”, nomeadamente os que tivessem publicado trabalhos sobre o KGB, ou que tivessem abandonado a URSS (na altura), ou ainda radicais que tivessem finalmente “visto a luz”, tendo-se convertido.

A finalidade era a de providenciar a criação de um manancial inesgotável de “especialistas” que diriam aquilo que as entidades queriam.

 

  1. Um quarto filtro é o constituído pelos “grupos de pressão”.

 

Os “grupos de pressão”, como resposta a posições ou programas dos media, aparecem na forma de e-mails, cartas, chamadas telefónicas, petições, ações em tribunal, discursos e moções na Assembleia, e ainda por outros modos de queixa, ameaça, ou de ação punitiva. Podem ser organizados centralmente ou localmente, ou consistirem em ações individuais inteiramente independentes.

Podem manifestar-se diretamente, quando têm origem nas fontes máximas de poder, ou indiretamente, através dos acionistas, empregados, ou por organizações que se pretendiam como representantes de interesses importantes da sociedade.

 

Dois exemplos: o Center for Media and Public Affairs, de Linda e Robert Lichter, que se assumia como um instituto “não lucrativo, não partidário”, tinham como principais colaboradores Patrick Buchanan, Faith Whittlesey e Ronald Reagan (o futuro Presidente), que pugnavam por uma imprensa objetiva e correta, porquanto consideravam que os media eram controlados por liberais anti empresas.

Outro, o AIM, fundado maioritariamente por grandes empresas (pelo menos oito empresas petrolíferas eram seus contribuintes) e herdeiros multimilionários, com a finalidade de pressionarem os media a seguirem a sua agenda de política externa altamente conservadora.

 

Os media, raramente se desviam da linha programática apontada por esses grupos de pressão que impõem o seu ponto de vista, não só não os questionando como até lhes dando espaços, a eles e aos tais “especialistas”. Isto é o reflexo do poder dos patrocinadores e da direita nos mesmos meios de comunicação.

 

  1. O quinto filtro é o constituído pelo anticomunismo como mecanismo de controle.

 

O anticomunismo como ideologia serve para mobilizar a população contra o inimigo, e como o conceito é muito largo, pode ser usado contra quem quer que seja que advogue políticas que vão contra os interesses de propriedade ou que advogue atitudes de acomodação para com estados comunistas ou que advogue radicalismos.

Ajuda, assim, a fragmentar os movimentos de esquerda e os movimentos sindicais, servindo como um mecanismo de controle político.

Sendo o triunfo do comunismo o pior resultado possível, tal justificará o apoio aos fascismos como mal menor. Daí os sociais-democratas serem vistos como demasiado moles para com os comunistas, e os liberais serem acusados de serem pró-comunistas ou insuficientemente anticomunistas, sendo assim colocados continuamente na defensiva num meio em que o anticomunismo é a religião dominante.

Este mecanismo de controle anticomunista exerce profunda influência nos meios de comunicação. Daí a tendência normal de enquadrar tudo em termos de comunista ou anticomunista, dando especial relevo a tudo o que seja anticomunista, desde os desertores, informadores e outros que “abandonem” o comunismo e que rapidamente são erigidos em especialistas, até às campanhas de propaganda sem fim. A ideologia e a religião anticomunista são filtros muito potentes.

 

A dicotomia massiva e sistemática

 

Perante o acima exposto, esta dicotomia das notícias dadas pelos media aparece-nos de forma natural como resultado da existência dos vários filtros. Na prática, é como se houvesse um comissário político que desse instruções aos media:Concentrem-se nas vítimas das potências inimigas e esqueçam as vítimas dos amigos.”

 

Um dos exemplos visíveis foi o da diferença de tratamento dada pelos media aos massacres do regime de Pol Pot no Camboja (abril de 1975) que serviam os interesses da política americana no Vietname, e os massacres efetuados pela invasão Indonésia em Timor-Leste (dezembro de 1975), com total cobertura e beneplácito dos EUA (um dia antes da invasão, o Presidente Gerald Ford e o Secretário de Estado Henry Kissinger, deram aprovação  ao Presidente indonésio Suharto para prosseguir com a ação militar programada, conforme se pode ler na ata das conversações  (http://nsarchive.gwu.edu/NSAEBB/NSAEBB62/doc4.pdf).

Para quem não se recorde, de uma população de cerca de um milhão de timorenses, os generais de Suharto chacinaram um terço, muito mais que Pol Pot.

 

A nível interno, doméstico, esta dicotomia também se aplica. O tratamento dado às fraudes e evasões fiscais por parte dos poderosos é tratado pelos media de modo completamente diferente do dado à criminalização da pobreza.

É assim que a primeira é vista como até podendo ser aceite, sendo compreensível (trata-se de proteger os ganhos da vida o melhor possível, a má legislação nacional a isso obriga), ao passo que a segunda é tida como incompreensível, pois trata-se de receber sem nada fazer, de viver à custa dos que trabalham.

 

Esta dicotomia dos media de comunicação encontra-se por todo o lado, é massiva e sistemática. Vê-se não só ao nível das escolhas resultantes pela publicidade como pela supressão de notícias e pelas matérias escolhidas, mas ainda pelas formas como as matérias são colocadas e tratadas. Não é indiferente o horário, o tom, o contexto em que são inseridas, o tratamento ser exaustivo ou não.

 Esta diferenciação é sempre feita de acordo com os fins político-económicos a que se destinam. Exemplos não faltam, sendo suficiente saber ler, ouvir, ver e estar minimamente atento.

 

Em resumo:

Os meios de comunicação social, os media, servem para conseguirem mobilizar o apoio da população para os interesses especiais que dominam o estado e a atividade privada. Só com esta perspetiva poderemos ser capazes de entender o seu funcionamento.

 

 

O "Futurismo" presente

 

 “Museus: dormitórios públicos onde se jaze para sempre junto de outros seres desconhecidos ou odiosos. Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores que se despedaçam furiosamente entre si por cores e linhas e por lugares em paredes!”, Manifesto do Futurismo, Marineti.

 

Nós glorificamos a guerra – a única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo de quem nos traz liberdade, as ideias belas pelas quais vale a pena morrer, e o desprezo pelas mulheres.”, Marineti.

 

“América Primeiro” e “Fazer de novo a América grande”, D. Trump.

 

“Hegel observa algures que todos os grandes acontecimentos e personagens da História mundial sobrevêm, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”, Karl Marx.

 

 

 

 

Há muito quem diga que “a história se repete”, querendo talvez com isso dizer que o Sol, como sempre tem nascido ao longo da história, irá certamente nascer amanhã. Não era bem com essa intenção que Hegel dizia que a História se repetia incessantemente, mas, mesmo assim, Marx não se escusou de o corrigir n’ O 18 de Brumário de Luís Bonaparte:

 

Hegel observa algures que todos os grandes acontecimentos e personagens da História mundial sobrevêm, por assim dizer, duas vezes. Esqueceu-se de acrescentar: a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa.

 

 

Quando a 20 de fevereiro de 1909, Filippo Tommaso Marineti publicou no francês Le Figaro (http://www.unknown.nu/futurism/manifesto.html) o Manifesto do Futurismo, nada fazia prever o seu posterior alinhamento com o fascismo de Mussolini, sendo antes este seu primeiro manifesto entendido como um hino a favor de um movimento artístico e cultural, uma estética de modernidade  com base na visão tecnológica do que a sociedade do futuro deveria ser, uma mudança radical já então possível ao dispor dos corajosos, tendo como finalidade

 

“libertar este país do cheiro putrefacto da gangrena de professores, arqueologistas, cicerones e antiquários. Já por muito tempo tem a Itália sido um comércio de roupas em segunda mão. Queremos libertá-la dos seus inúmeros museus que a cobrem qual cemitérios.”

 

 Muito embora o Manifesto tenha sido escrito em francês, Marinetti era um profundo nacionalista italiano, que sentia que os valores imbuídos do Renascimento, da Roma antiga e de todo o seu passado clássico, estavam a impedir a Itália de progredir, fazendo-a olhar sempre para o passado, ignorando aquilo que o futuro lhe poderia oferecer.

 A começar pelo campo da arte e literatura, para que este seu rejuvenescimento cultural se pudesse concretizar, propunha começar por incendiar todas as bibliotecas, por inundar todos os museus e academias, única forma que via para se quebrarem quaisquer ligações a um passado que entendia pestilento. No ponto 10 do seu Manifesto, lê-se:

 

10. Nós destruiremos os museus, as bibliotecas, as academias, combateremos o moralismo, o feminismo, e qualquer cobardia utilitária ou oportunista.”

 

E, passa a explicitar mais à frente:

 

Museus: dormitórios públicos onde se jaze para sempre junto de outros seres desconhecidos ou odiosos. Museus: absurdos matadouros de pintores e escultores que se despedaçam furiosamente entre si por cores e linhas e por lugares em paredes!

 

E, o que é que há para ver numa pintura antiga exceto as laboriosas contorções de um artista que se atira ele próprio contra barreiras que lhe impedem o seu desejo de exprimir completamente o seu sonho?...Admirar uma pintura antiga é como deixar incidir a nossa sensibilidade sobre uma urna funerária em vez de a afastar para longe num violento espasmo de ação e criação.”

 

Como futurista, ele é um firme crente da componente tecnológica, daí o acreditar na velocidade como necessária à alteração do tempo, à entrada numa nova era de progresso. Anote-se que, em sentido inverso e exatamente na mesma altura, começava Proust a escrever Em busca do tempoperdido(veroartigohttp://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/em-busca-do-tempo-perdido-12502 ).

A exaltação de Marinetti perante a velocidade dos automóveis, dos barcos a vapor e das locomotivas, leva-o a não hesitar em considerar a beleza de um carro de corridas como superior à da famosa Vitória Alada de Samotrácia:

 

“4. Afirmamos que a magnificência do mundo foi enriquecida com uma nova beleza: a beleza da velocidade. Um carro de corridas com o capô adornado com grandes tubos, quais serpentes com um bafo explosivo – um carro a rugir como se estivesse a expelir metralha é mais bonito que a Vitória de Samotrácia.”

 

Recordemos que à época até as bicicletas eram consideradas como fazendo parte da alta tecnologia (nos exércitos de então, os esquadrões de reconhecimento avançado eram constituídos por soldados-ciclistas), pelo que não nos deve causar estranheza essa predileção pelos carros de corrida e outros meios de transporte velozes.

É assim que a parada de 600 ciclistas voluntários para a guerra que se realizou em julho de 1915 em Milão, e onde pedalam juntamente com Marinetti outros famosos futuristas como Umberto Boccioni, Mario Sironi, Antonio Sant’Elia e Luigi Russolo, tem de ser vista como uma manifestação de vanguarda.

 

 

Com o aproximar da Guerra (agosto de 1914), Marinetti vai ser dos seus primeiros apoiantes, incitando a Itália que se declarara neutral (só se junta aos Aliados em maio de 1915) a entrar nela, porquanto para ele a guerra funcionaria como uma purga que faria com que a Itália e a Europa perdessem o lastro do passado que as impedia de progredir. Como aliás já constava do seu Manifesto:

 

9. Nós glorificamos a guerra – a única higiene do mundo – o militarismo, o patriotismo, o gesto destrutivo de quem nos traz liberdade, as ideias belas pelas quais vale a pena morrer, e o desprezo pelas mulheres.”

 

Há um Manifesto bastante posterior (sempre que Marinetti se queria manifestar sobre qualquer coisa, publicava um novo Manifesto) relativo à guerra colonial que a Itália impôs à Etiópia, em que esta sua posição sobre a guerra fica mais clara:

 

Há vinte e sete anos que nós, futuristas, nos manifestamos contra o fato de se designar a guerra como antiestética … por conseguinte, declaramos: … a guerra é bela porque fundamenta o domínio do homem sobre a maquinaria subjugada, graças às máscaras de gás, aos megafones assustadores, aos lança-chamas e tanques. A guerra é bela porque inaugura a sonhada metalização do corpo humano. A guerra é bela porque enriquece um prado florescente com as orquídeas de fogo das metralhadoras. A guerra é bela porque reúne numa sinfonia o fogo das espingardas, dos canhões, dos cessar-fogo, os perfumes e odores de putrefação. A guerra é bela porque cria novas arquiteturas, como a dos grandes tanques, a da geometria dos aviões em formação, a das espirais de fumo de aldeias a arder, e muitas outras … poetas e artistas do futurismo … lembrai-os destes fundamentos de uma estética da guerra, para que a vossa luta possa iluminar uma nova poesia e uma nova escultura!

 

Quando a guerra acaba em 1918, os Futuristas passam a um período de intensa atividade política: formam o Partido Político Futurista, (https://it.wikisource.org/wiki/Manifesto_del_Partito_Politico_Futurista_Italiano), e forjam uma aliança com Benito Mussolini.

Logo à cabeça, o Manifesto do Partido político Futurista proclama a intenção do Partido: “Fazer de novo a Itália grande”.

 A sua religião era a do “amanhã”, com propostas que iam desde a abolição do senado e sua substituição por homens de ciência, à dissolução da instituição do casamento.

 

Nas eleições de 1919 em Milão, não chegam a obter 2% dos votos. Marineti decide retirar-se da política parlamentar. Contudo, continua a intervir nos assuntos políticos e a manter relações com o movimento fascista de Mussolini, acentuando-as até depois de 1924.

Muitos dos Futuristas distanciam-se então do movimento, exatamente por isso. Outros não, pelo que muito da arte utilizada pelo regime fascista tem um cunho do estilo futurista. Vejam-se algumas das pinturas do ditador (http://fascionable.blogspot.pt/2012/02/futurist-mussolini.html).

 

Esta associação com o fascismo acabou por manchar toda a arte futurista, obscurecendo algumas das suas realizações. Mas, a sua permanência e influencia tem-se vindo a fazer sentir até hoje, desde a sua aplicação em cartazes e no marketing publicitário, às gravuras e têxteis, encontrando-se até presente em quadrantes que não julgaríamos possíveis, como nas formas dos automóveis e em moedas, o que nos demonstra a sua forte ligação com a cultura italiana.

Chris Bangle, o projetista-chefe da BMW criador do Z4 Coupé, admite que só conseguiu perceber o que era a quarta dimensão, “a do vento”, através da inspiração que recolheu das esculturas de Boccioni. Foi isso que lhe permitiu fazer com que o Z4 pareça estar a movimentar-se, “mesmo quando está parado” (http://www.smithsonianmag.com/arts-culture/how-futurist-art-inspired-the-design-of-a-bmw-160900416/).

Também a moeda de 20 cêntimos de Euro que hoje circula, tem, numa das faces, a reprodução de uma escultura de Boccioni de 1913, Formas únicas de continuidade no espaço. Além de ter sido um dos expoentes artísticos do Futurismo, a sua escolha tem também certamente que ver com o facto de a sua morte ter ocorrido (1916) muito antes do aparecimento do fascismo, e talvez até por a sua morte não ter ocorrido no campo de batalha, e não ter tido nada de heroica: caiu do cavalo num treino de equitação.

 

No campo da política, a persistência do Futurismo nos tempos de hoje são por demais evidentes e atuais. Basta lembrarmos Trump e as suas divisas:

 

“América Primeiro” e “Fazer de novo a América grande”.

 

Nada que os seus povos não desejem. O problema é como se o faz, e à custa de quem.

 Como ao longo do século XX estes ressurgimentos já apareceram quer como tragédia, quer como farsa, é com enorme curiosidade que aguardo o seu desenvolvimento prático, tendo sempre presente aquele nosso ditado de que “quando o mar bate na rocha, quem se dá mal é o mexilhão”.

 

 

 

Nota: O Guggenheim Museum de Nova Iorque fez em 2014 uma grande exposição intitulada Futurismo Italiano (1909-1944). A reconstrução do Universo, onde expôs 360 obras de 80 artistas, algumas das quais se podem ver em https://www.google.pt/search?q=Futurismo+Italiano+(1909-1944).+La+reconstrucci%C3%B3n+del+Universo&client=firefox-b&sa=N&tbm=isch&tbo=u&source=univ&ved=0ahUKEwjEtYyGp-jSAhUHrRQKHcd_DqU4ChCwBAgX&biw=661&bih=710

 

 

Feira de misérias

 

 “Vamos exterminá-los todos até ao último!”, um acólito de Anwar Congo.

 

Como é possível a celebração pública de uma orgia de torturas e massacres, não já como um crime necessário ao bem público, mas como uma gratificante e aceitável atividade normal?

 

 “Ele está pronto a ir a tribunal explicar que, embora não fosse um devasso, também não era um impotente”, advogado de Berlusconi.

 

 

 

The Act of Killing” é um documentário que começou a ser filmado em 2007, em Medan, Indonésia, realizado por Joshua Openheimer e Christine Cyrus, tendo como produtor Signe Sorense e Werner Herzog, e que aborda o tema de assassinos vitoriosos e da sociedade que construíram.

Foi estreado a 8 de novembro de 2012 e ganhou mais de cinquenta prémios.

Refere-se à época em que o governo da Indonésia do presidente Sukarno fora derrubado por um golpe militar em 1965 e do massacre que se lhe sucedeu: cerca de dois milhões e meio de alegados comunistas, sindicalistas, intelectuais e chineses mortos.

 

 Inicialmente o projeto era documentar a reconstituição dos massacres e assassinatos cometidos pelo conhecido grupo de Anwar Congo.

Só que “não era isso que Anwar e os seus amigos queriam realmente fazer sobre o genocídio, […] Acabámos por proporcionar a Anwar e ao seu grupo a oportunidade de dramatizarem os massacres servindo-se do tipo de filme que entendessem (westerns, filmes de gangsters, musicais). Ou seja, demos-lhes a oportunidade de escreverem o argumento, realizarem e representarem as cenas que tinham na cabeça enquanto matavam gente”.

 

Na altura do golpe militar, Anwar Congo e os seus amigos não passavam de pequenos ladrões, que organizavam e controlavam o mercado negro de bilhetes de cinema para filmes americanos não autorizados pelo regime.  Devido ao seu anticomunismo visceral, acabou por ser escolhido para chefe de um esquadrão de morte, que participaram com o exército na matança.

Só por si, Anwar, matou com as próprias mãos centenas de pessoas, gabando-se abertamente do facto, descrevendo-o em pormenor, explicando como estrangulava as vítimas com um fio de arame, técnica que tinha aprendido nos filmes de gângsteres, como se cortava uma garganta e como se violava uma mulher de forma a que o violador tivesse gozo.

Hoje ele é o fundador e chefe de uma organização paramilitar oriunda dos esquadrões de morte, que engloba ministros e outros altos cargos do Estado, não se coibindo de se gabar abertamente de atos de corrupção, genocídio e adulteração de eleições.

 

Em outubro de 2007, a televisão estatal indonésia produziu um talk-show dedicado a Anwar Congo e aos seus amigos. Durante o programa, depois de Anwar ter afirmado que as suas execuções tinham tomado como modelo os filmes de gângsteres, a apresentadora, entusiasmada, virou-se para as câmaras e exclamou:

 “Fantástico! Uma salva de palmas para Anwar Congo!

Em seguida pergunta-lhe se ele não receava a vingança dos amigos e parentes das vítimas, ao que ele responde:

 

 “Não podem. Mal levantassem a cabeça, ficavam sem ela!

 

 E quando um dos seus ‘ajudantes’ acrescenta bem alto:

 

 “Vamos exterminá-los todos até ao último!”,

 

os espetadores presentes no estúdio explodem em novas aclamações.

 

Apesar de ainda bastante longe dos ‘homens livres da Indonésia’, estas exibições públicas de obscenidades privadas, estas confissões indecentes feitas diante das câmaras de televisão, esta mistura sem vergonha da política e dos interesses dos negócios privados, tem sido o caminho trilhado pelos Berlusconis deste mundo.

A 4 de setembro de 2009, Niccolo Ghedini, advogado de Berlusconi, declarava que o seu cliente “está pronto a ir a tribunal explicar que, embora não fosse um devasso, também não era impotente”.

Estaria mesmo Berlusconi disposto a ‘mostrar’ ao tribunal a sua “potência?”

Alguém estranharia uma tal exibição pública? Era só lá estarem câmaras de televisão e público para aplaudir.

 

Estamos perante casos em que, apesar de já terem acontecido, podem, de certa forma, ser tomados como precursores de horrores por vir, indiciadores de um ‘apocalipse moral’, de um vazio moral da sociedade.

Onde cai a linha que separa o que é e não é publicamente admissível, quando até o nível mais baixo de vergonha no domínio público – que deveria levar os agentes a considerarem os seus atos como um ‘segredo sujo’ – é objeto de suspensão, tornando possível a celebração pública de uma orgia de torturas e massacres, não já como um crime necessário ao bem público, mas como uma gratificante e aceitável atividade normal?

 

Não culpemos Hollywood (Pau Santo, em tradução literal verdadeiramente adequada) ou o ‘primitivismo ético’ da Indonésia, por aquilo que são, em grande parte, os efeitos desagregadores que esta última globalização (e a primeira foi a dos descobrimentos) tem intencionalmente provocado, quando ela tenta minar a eficácia das estruturas éticas tradicionais, aplaudindo a criação de um vazio moral debaixo de um mistificador apelo a um progresso que creem único e inevitável, tendo apenas como único objetivo a maximização do lucro.

 

 

Corações cheios de música

 

“Se não fosse eu, a Kerstin (filha-neta mais velha com 19 anos) hoje já não estaria viva. Não sou um monstro. Podia tê-los matado a todos. E assim não teriam ficado pistas. Ninguém me teria descoberto”, J. Fritzl.

 

O importante desta declaração é a premissa de que o pai tinha o poder de usufruir sexualmente dos filhos e até de os matar, e que só não o fizera por ser bondoso. Tal qual um “pai primitivo”.

 

A Áustria da Música no Coração não é a Áustria dos austríacos, mas a imagem mítica que Hollywood faz da Áustria.

 

Penis normalis, duas vezes por dia”.

 

 

 

Em abril de 2008, a Áustria foi sacudida pelo que ficou conhecido como o “caso Fritzl” (https://www.youtube.com/watch?v=SdSgQY7fF9w), quando Elisabeth Fritzl, uma mulher de 42 anos, contou à polícia de Amstetten, que há 24 anos se encontrava cativa na cave da residência do seu pai, Josef Fritzl, onde era abusada física e sexualmente por ele.

Desse relacionamento tinha tido oito filhos e um aborto. Que quatro dos seus filhos viviam também prisioneiros na cave, e que os outros três foram criados na parte de cima da casa pelos pais dela, Josef e Rosemarie Fritzl,

 O pai começara a abusar dela aos 11 anos, até que aos 18 anos a aprisionou na cave. Um dos filhos morrera três dias após o parto sem qualquer tipo de assistência médica; o seu corpo foi incinerado por Josef na sua propriedade. Outro tinha já problemas ao andar, pois crescera mais do que a altura do teto da cave.

 

Na sua defesa, Fritzl disse que o que queria era proteger a filha dos perigos do mundo exterior, pois ela começara a chegar tarde a casa, andava à procura de emprego, possivelmente namoraria com um drogado e já não obedecia às regras da casa.

Resolveu então, construir um local onde a pudesse instalar com todas as comodidades, com frigorífico, televisão. Nunca a violara, fora sempre sexo consentido. Tratara-a sempre bem, a ela e aos filhos, levava-lhes flores, livros, algumas vezes por semana comia com eles.

E acrescentou:

 

 “Se não fosse eu, a Kerstin (filha-neta mais velha com 19 anos) hoje já não estaria viva. Não sou um monstro. Podia tê-los matado a todos. E assim não teriam ficado pistas. Ninguém me teria descoberto”.

 

O importante desta declaração é a premissa de que o pai tinha o poder de usufruir sexualmente dos filhos e até de os matar, e que só não o fizera por ser bondoso. Tal qual um “pai primitivo”.

 

 Traços de atitudes semelhantes continuam a serem encontrados mesmo nos pais mais ‘normais’: subitamente, um pai amável explode convicto que os seus filhos lhe devem tudo, começando pela sua própria existência, pelo que são seus devedores absolutos, sendo por isso o seu poder sobre eles ilimitado, o que lhe dá o direito de fazer o que quiser a fim de cuidar deles.

 

Não podemos cometer o erro de acusar de igual forma a autoridade patriarcal pelas monstruosidades dos Fritzles deste mundo, como também não podemos querer a erradicação da Lei do Pai.

 A atitude de Fritzl não é nem a componente de uma atitude paternal ‘normal’, na qual a medida do sucesso é a capacidade de deixar o seu filho tornar-se livre, permitir-lhe movimentar-se no mundo exterior, nem sinal do seu fracasso no sentido em que o vazio da autoridade paternal ‘normal’ venha a ser suprimida e preenchida pela figura do “pai primitivo” omnipotente.

 

Em sua defesa, Fritzl sugeriu também que a disciplina da educação nazi a que fora sujeito o tivesse influenciado sobre o que era decência e bom comportamento.

 Evidentemente, surgiram logo interpretações visando incriminar a particularidade do espírito de disciplina e ordem austríacos, numa tentativa de conservar e inocentar a paternidade enquanto tal, recusando-se a ver a potencialidade de atos semelhantes na própria ideia de autoridade paternal.

A violência excessiva do “pai primitivo” assume em cada cultura certos traços específicos, mas daí a culpar a história da Áustria ou o seu gosto vincado de ordem pela monstruosidade do seu comportamento é algo difícil de aceitar como explicação.

 

 

Pode-se, contudo, elaborar um pouco sobre este caráter ‘austríaco’, recorrendo a uma sua respeitável família, a Von Trapp, imortalizada na Música no Coração.

Família que igualmente vivia num castelo fechado, sob a benevolente autoridade militar do pai que protegia da maldade do mundo exterior aqueles que tem à sua guarda, e onde conviviam três gerações (o pai, Maria, como Elisabeth, e os filhos).

 

Mas, atenção: o imaginário que vamos encontrar não é o austríaco, mas o de Hollywood, como representante da cultura ocidental. A Áustria da Música no Coração não é a Áustria dos austríacos, mas a imagem mítica que Hollywood faz da Áustria.

 Curiosamente, ao longo dos tempos que se lhe seguiram, os próprios austríacos começaram a ‘fazer de austríacos’, como se se identificassem com a imagem que Hollywood deles sugeria.

 

Na versão Fritzl, as crianças aterradas reúnem-se à volta da mãe, receando a chegada do pai, enquanto a mãe as acalma com uma canção sobre “algumas das suas coisas preferidas”.

 Na versão Trapp, as crianças da cave são convidadas a título excecional para uma receção na parte de cima da casa, onde, quando chega a hora de se irem deitar, cantam, à laia de despedida, a canção Aufwiedersehen Goodbye, saindo uma a uma da sala.

A casa dos Fritzl era uma cave que não dava para as colinas, e o som era o da música do coração.

 

Há ainda a considerar o importante elemento sagrado sempre presente na Música no Coração, que se verifica logo no tema de abertura do filme com o coro das freiras na procura de uma solução:

 

 “Que fazer com um problema como Maria?

 

 A solução proposta pela Madre Superiora, perante a inquietação sexual experimentada por Maria é dada pela canção “Escala a Montanha”, ou seja:

 Arrisca! Não te deixes tolher por receios mesquinhos!

Do personagem do qual esperaríamos um sermão em defesa da abstinência e da renúncia, vem antes um apelo à fidelidade do sujeito ao seu desejo.

O mesmo argumento poderia ter sido usado pelo pároco de Fritzl após este lhe ter confessado o seu desejo apaixonado em aprisionar e violar a filha:

 “Escala a montanha”.

 

Finalmente, aquele episódio em que o Barão fica furioso por ver os seus filhos pendurados em árvores e todos sujos. Autoritariamente repreende-os.

Quando mais tarde chega a casa e ouve os filhos e Maria a cantarem em coro “As Colinas Estão Vivas” (“The Hills are Alive”) fica todo comovido, acabando também por se juntar ao coro, mostrando afinal que aquelas ordens disciplinares militares não passavam de uma máscara que encobria um homem terno e delicado.

 

Tal como Fritzl, que embora usasse o seu poder para impor o seu sonho, desejava construir a sua “música no coração” sentado no sofá a ler histórias dos livros que levava para os seus filhos netos. Como disse quando foi preso: “Arruinaram-me a vida”. Nem todos podendo ter a sua cave, habitam castelos.

 

 

 

O "pai primitivo"

 

A humanidade nunca vive inteiramente no presente.

 

Na sua forma mais primitiva, a humanidade vivia sob a forma de clã sujeita à autoridade de um chefe, que era o mais forte, o mais velho, o mais protetor, com poder de morte sobre todos e com acesso à posse exclusiva a todas as fêmeas (o “pai primitivo”).

 

Este ritual coletivo serve para canalizar a agressividade natural que não desaparece com a morte do pai e para reforçar os laços entre os membros da comunidade.

 

 

 

A ideia de que o desenvolvimento das sociedades reproduzia o desenvolvimento do indivíduo, há muito tempo que era apelativa. Basta lembrarmo-nos, na sua versão mais simples, da “evidência” tida que as civilizações, tal como os indivíduos, nascem, crescem, desenvolvem-se, atingem um apogeu, declinam e acabam por desaparecer.

A antropologia cultural da época de Freud considerava que a mesma insatisfação e frustração que acontecia na relação familiar de filhos com pais, também teria acontecido nas sociedades primitivas, levando ao assassinato do pai pelos filhos, para assim poderem aceder às fêmeas da horda.

 

Freud também partilha dessa ideia que pretende estabelecer um paralelismo entre as perspetivas ontogenética (relativa ao desenvolvimento do indivíduo) e filogenética (relativa ao desenvolvimento da espécie), como se pode ler no seu Totem e Tabu:

 

O primeiro resultado do que estabelecemos é muito digno de nota. Se o animal totémico é o pai, então, as duas principais proibições do totemismo, as duas prescrições-tabu que constituem o seu cerne – a saber: não matar e não utilizar nenhuma mulher que pertence ao totem para fins sexuais – coincidem com os dois crimes de Édipo, que matou o seu pai e tomou por mulher a sua mãe; e com os dois desejos originários da criança, cujo recalcamento insuficiente ou cujo renascer constitui, talvez, o núcleo de todas as psiconeuroses. Se esta analogia for mais do que uma brincadeira desorientadora do acaso, ela deverá permitir-nos lançar luz sobre a origem do totemismo em tempos imemoriais. Por outras palavras, deverá permitir-nos tornar plausível o fato de o sistema totémico ter resultado das condições do complexo de Édipo …”

 

Para Freud, o aparelho mental dos indivíduos distribui-se por três regiões não topograficamente localizáveis:

 

 o “Id”, que é inato e que corresponde a um inconsciente, onde os processos não são lógicos, onde tudo é possível, onde não há nem bem nem mal, nem noções de tempo (não há antes nem depois, pelo que a qualquer momento se pode manifestar na consciência), nem de espaço, nem de moral, não tendo assim qualquer julgamento de valor;

o “Ego”, consciente originado pela nossa vida psíquica, que corresponde ao nosso estado de vigília (daquilo que percecionamos, desejamos), que nos acompanha em permanência na procura da razão e do bom senso, procurando as melhores circunstâncias para que as intenções do Id se possam concretizar;

 e o “Super-ego”, que se constrói ao longo da infância por um processo de identificação, interiorizando as ‘regras’ de vida, as restrições morais, atuando como juiz relativamente ao Ego, sendo o responsável pelo sentimento de culpa.

 

            O “Id” está ‘dentro de nós’ desde a nascença. O mesmo não se passa com a ‘consciência’, que só depois vai aparecendo. A amoralidade das crianças, que não sofrem de qualquer inibição quanto aos seus impulsos na procura de prazer, é disso exemplo.

            Também o “Super-ego” não é inato e só se vem a constituir após contacto com um poder exterior, a autoridade paterna. É o Super-ego que ‘vai dizer’ ao Ego “faz assim” (como o teu pai), “não faças assim” (há coisas que são só para o teu pai). É o controlo imposto pelo Pai, razão para que o passado e as tradições vivam nas ideologias do Super-ego. Daí considerar-se que a humanidade nunca viva inteiramente no presente.

 

            No seu desenvolvimento, de alguma forma a criança percebe vagamente a estrutura familiar, sem, contudo, ter disso plena consciência. A criança interioriza coisas que percebe de forma confusa, muito mais que racionalmente. A consciência vai-se formando a partir da pressão que a realidade exerce sobre a vida instintiva impedindo a sua satisfação.

 

Normalmente, a criança estabelece uma relação especial com o pai, com a mãe ou quem os substitui. Por volta dos cinco anos, desenvolve uma relação forte com o progenitor do sexo oposto, relação essa que deseja manter em regime de exclusividade.

Esse desejo vai entrar em conflito com a vida familiar e com a vida do casal, o que não lhe é permitido e origina uma forte censura (a figura paterna). Tão forte é esta censura que acaba por ser interiorizada. A criança renuncia assim aos seus desejos interditos, interiorizando essa interdição.

 A instância psíquica que vai representar essa interiorização é o Super-ego, que herda não só as censuras que lhe foram acontecendo até aos cinco anos, como ainda a cultura que os pais receberam. Depois desta aquisição, o seu desenvolvimento vai-se enriquecendo pelas exigências sociais e culturais que vai absorvendo em resultado da educação que recebe.

 

            Podemos agora perceber minimamente porque é que a base da teoria da psicanálise assenta na perceção da resistência que o doente oferece quando se lhe quer tornar consciente o inconsciente.

Esta resistência é atribuída ao trabalho de repressão exercido pelo Super-ego, e é feita quer por si própria quer pelo Ego em obediência a ordens vindas do Super-ego.

O Ego tem assim um trabalho insano ao ter de satisfazer três patrões: o mundo exterior, o Super-ego e o Id, o que faz com que a vida não seja fácil!

 A terapia proposta por Freud consiste em reforçar o Ego, tornando-o mais independente do Super-ego e apropriando-se de mais zonas do Id.

 

Entende-se assim porque é que Freud considera que a cultura assenta num conjunto de restrições da atividade libidinal que constituem experiências do Ego.

Essas experiências são, por um lado revividas pelo Eu de cada um de nós a título individual, e por outro, se forem suficientemente numerosas e fizerem parte de indivíduos que pertençam a gerações sucessivas, transformadas em experiências do Id, passando assim a estarem sujeitas à transmissão hereditária. Esta é a ponte que estabelece a ligação ao passado.

 

Tal como a criança que tem uma relação ambivalente com o pai (pai como objeto de amor e pai como rival que impede a relação exclusiva com a mãe) também a tribo tem idêntica relação para com o Totem.

Na sua forma mais primitiva, a humanidade vivia sob a forma de clã sujeita à autoridade de um chefe, que era o mais forte, o mais velho, o mais protetor, com poder de morte sobre todos e com acesso à posse exclusiva a todas as fêmeas (o “pai primitivo”).

 A frustração e a rivalidade deste sistema de poder geram uma agressividade que leva ao assassinato do pai pelos irmãos. Não se trata de um comportamento animal, porque se o fosse não deixaria um rasto de remorsos. É por isso que vão reparar a ação cometida.

 

Já vimos que, para reparar o ódio (morte) que tem ao pai, o filho vai criar uma entidade que o substitui, o Super-ego, única forma que tem para conseguir viver em paz com o pai.

O clã, para reparar a morte efetiva do pai, vai organizar uma cerimónia sacrificial que inclui a morte do animal totémico e sua ingestão.

 

 A morte do animal totémico não é permitida ao indivíduo. O animal totémico só pode ser morto na altura do sacrifício e apenas é permitida ao grupo, que assume a responsabilidade por essa morte.

 Segue-se a refeição totémica, onde todos comem a mesma comida (tal qual hoje se processa a refeição da família).

Este ritual coletivo serve para canalizar a agressividade natural que não desaparece com a morte do pai e para reforçar os laços entre os membros da comunidade.

 

 

 

Em tempo 1: notar a extrema elegância e honestidade intelectual de Freud, que sabendo não conseguir demonstrar a sua teoria segundo os padrões cientificamente aceites, não se coíbe de o dizer assim:

“Se esta analogia for mais do que uma brincadeira desorientadora do acaso …”

 

Em tempo 2: o próximo blog terá por título “A desculpa do ‘pai primitivo’”, onde serão abordados alguns casos contemporâneos conhecidos que usaram, como desculpa para os seus comportamentos, a figura do “pai primitivo”.

 

 

           

.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub