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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Autoridade: o pilar da sociedade.

 Executamos funções sem conhecermos, sem controlarmos todo o processo, razão porque necessitamos sempre da ajuda da autoridade para nos direcionar.

 

Essas políticas desumanas até poderiam ser provenientes da mente de uma só pessoa, mas só podiam ter sido executadas porque um grande número de pessoas obedecia a ordens.

 

Mesmo em regimes democráticos, uma grande percentagem de pessoas faz aquilo que lhes dizem para fazer, sem grandes preocupações sobre o ato a cometer, sem grandes limitações de consciência, desde que percebam que a ordem venha de uma autoridade legítima.

 

 

Do ponto de vista psicológico, “autoridade é a pessoa que é percebida como estando na posição de controlo social de uma determinada situação”. Curiosamente, a autoridade parece comunicar-se por ela mesma, pois normalmente ‘sabe-se’ quem é que a tem. Em certas situações são ainda usados símbolos externos para a comunicar mais visivelmente, como acontece com as fardas, os uniformes de serviço, os emblemas, os dourados ou cores. Isto porque nós respondemos melhor a uma aparência de autoridade do que a uma autoridade real. Para a ter, basta exibir subtilmente um ar de confiança, um ‘ar de autoridade’ ou possuir sinais exteriores de autoridade.

 

   Sem autoridade não há obediência. A obediência consiste no processo através do qual uma pessoa se vê a si própria como um instrumento para realizar os desejos de outra pessoa, o que faz com que se não considere como sendo responsável pelas ações resultantes e por si praticadas. Uma vez feita esta pequena (grande pelas consequências) alteração de ponto de vista, seguir-se-ão todas as outras características essenciais da obediência. “A obediência é como que o cimento que liga os homens aos sistemas de autoridade”. Não há pois obediência sem autoridade.

 

E contudo, esta obediência à autoridade tem sido louvada como virtude sem a qual não teria sido possível a existência da sociedade humana. Hobbes escrevia que mesmo quando os atos prescritos pela autoridade fossem diabólicos era preferível acompanhá-los a fim de não pôr em risco a estrutura da autoridade, pilar da sociedade. Ressalvava, no entanto, que os atos executados individualmente pelas pessoas no cumprimento de ordens não as tornavam responsáveis por eles, porquanto a responsabilidade era só de quem dava as ordens.

 

Apesar dos tempos de profunda crise e instabilidade política em que viveu, Hobbes nunca assistiu a nada semelhante ao que aconteceu entre 1939 - 45, onde milhões de pessoas inocentes foram sistematicamente assassinadas em obediência a ordens emanadas pela autoridade, sendo os números dos seus cadáveres meticulosamente anotados e diariamente enviados para um organismo central que cuidava de saber se eles estavam de acordo com o plano traçado. Estas políticas desumanas até poderiam ser provenientes da mente de uma só pessoa, mas só podiam ter sido executadas porque um grande número de pessoas obedecia a ordens.

 

Durante os julgamentos de Nuremberga as frases mais ouvidas foram: “Por mim não teria feito. Limitei-ma a cumprir ordens”, “Cumpri apenas com o meu dever”. Será errado pensarmos que se tratava de um alibi para escaparem à justiça. Eles pensavam mesmo assim, e eram uma demonstração viva do que acontece quando somos apanhados numa posição subalterna numa estrutura de autoridade. O desaparecimento de um sentido de responsabilidade é a maior consequência da submissão à autoridade.

 

A divisão de trabalho existente nos campos de morte fazia com que aqueles que colocavam o Cyclon-B nas câmaras de gás não controlassem todo o processo, não podendo por isso assumir a totalidade da responsabilidade. Recebiam ordens de cima. É assim que a sociedade moderna está organizada. Executamos funções sem conhecermos, sem controlarmos todo o processo, razão porque necessitamos sempre da ajuda da autoridade para nos direcionar. É por aí que alienamos as nossas ações. É por aí que o mal se pode instalar.

 

Por isto é que o autoritarismo não é exclusivo apenas de regimes totalitários. Ele também faz parte dos regimes democráticos, em que as pessoas são eleitas por eleições populares. Exemplos de todos conhecidos foram os da importação de milhões de escravos negros, da destruição das populações Índias da América, do internamento de americanos por serem originários do Japão mesmo que tivessem nascido nos EUA, do uso do napalm contra populações civis no Vietname, a desfoliação de vastas áreas de terra, etc..

 

Depois das suas famosas e controversas experiências sobre a indução no comportamento humano, depois de ler as transcrições do episódio de My Lai e do julgamento de Eichmann, Stanley Milgram vai retirar algumas conclusões, publicadas no seu livro Obedience to Authority:

 

#. “Aparece sempre um conjunto de pessoas que faz o seu trabalho de forma meramente administrativa, sem qualquer consideração de ordem moral.”

#. “As ações praticadas são quase sempre justificadas com finalidades construtivas, à luz de um interesse maior ideológico. Na Alemanha, até mesmo para aqueles que se identificaram com a “solução final”, a destruição de judeus era encarada como um processo “higiénico” para eliminar “ervas daninhas”.”

#. “A obediência nunca levantava qualquer problema relacionado com a moral ou filosofia. Ela era relacionada com a envolvente maior das relações sociais, das aspirações de carreira, e das técnicas da rotina a aplicar.”

#. “Cada indivíduo possui, em maior ou menor grau, uma consciência que pode servir de barreira aos impulsos destrutivos dos outros. Mas, assim que uma pessoa se integra na estrutura de uma organização, perde parte dessas suas limitações de moralidade individual a favor das sanções da autoridade.”

#. “Mesmo em regimes democráticos, uma grande percentagem de pessoas faz aquilo que lhes dizem para fazer, sem grandes preocupações sobre o ato a cometer, sem grandes limitações de consciência, desde que percebam que a ordem venha de uma autoridade legítima.”

 

Eis o que George Orwell escreveu sobre os ataques aéreos às cidades inglesas perpetrados pelos alemães:

 

 “Enquanto escrevo, seres humanos altamente civilizados sobrevoam a minha casa, tentando matar-me. Eles não sentem qualquer animosidade contra mim como indivíduo, nem eu contra eles. Eles estão apenas a “fazerem o seu dever”, como se diz. A maior parte deles, não o duvido, são boas pessoas obedientes à lei, que nunca pensariam em cometer um assassinato em toda a sua vida. Por outro lado, se um deles conseguisse com uma bomba bem colocada desfazer-me aos bocados, não seria por isso que deixaria de dormir tranquilamente.”

 

Vida como obediência

“A hierarquização das sociedades constituídas tem passado sempre por um “processo de obediência” a todos os níveis, mesmo os mais insuspeitos.”

“Mas mesmo quando és promovido, para além da motivação pessoal envolvida, há sempre nesse gesto a perpetuação da continuidade da estrutura hierárquica.”

A finalidade da disciplina é a submersão do indivíduo no modo organizacional.”

“Até ao dia, em que por alteração de política governamental, a guerra (aquela) acaba: mais uma vez os soldados depõem as suas armas, mais uma vez obedecendo a ordens.”

 

 

Foi apenas através da organização social que o homem conseguiu sobreviver, face à agressividade do meio exterior que não lhe permitia a condição de ser solitário. Mas essa organização social seguida (e poderia ter sido outra?) implicou a construção de estruturas de domínio, estruturas de autoridade que foram substituindo as do mero enfrentamento físico, traduzindo-se na formação de grupos hierarquizados e reconhecidos por certos símbolos.

            Naqueles tempos em que a sobrevivência era tudo, a existência de grupos organizados e da consequente divisão de tarefas, impôs-se como caraterística da sociedade humana. É simples de perceber a vantagem de uma milícia organizada sobre um grupo desorganizado sem direção ou estrutura. É simples de perceber que uma tribo na qual havia um grupo de guerreiros, um grupo de caçadores e um grupo que tomava conta das crianças tivesse uma enorme vantagem sobre outra que não possuísse divisão de tarefas.

            Esta organização social permitiu também internamente dar estabilidade e promover o desenvolvimento de relações harmoniosas entre os seus membros. Definindo claramente o estatuto e a posição de cada membro dentro do grupo, reduzia ao mínimo as fontes de fricção. Ou seja, esta organização social permitia ao grupo lidar com as ameaças resultantes do meio exterior e com as ameaças resultantes de violência interna.

 

            Para que esta forma de organização subsista torna-se necessário a existência de um pré-requisito, um potencial para a obediência. Este potencial existe em todos nós, mas só através da interação e influência da sociedade é que ele poderá dar origem ao homem obediente.

            A formação de hierarquias não se faz sem que se produzam modificações internas nos elementos que a compõem, o que significa que os indivíduos que venham a fazer parte dessa hierarquia terão de modificar o seu modo de funcionamento. Ao entrar num sistema autoritário a pessoa tem a tendência a deixar de se ver a si própria como perseguindo os seus propósitos genuínos, mas antes como perseguindo os desejos de outra entidade. É como se a consciência, que regula as ações impulsivas e agressivas, tivesse de ser enfraquecida para poder entrar numa estrutura hierárquica.

Talvez resida nesta transformação, que aparece como pequena, a alteração que leve uma pessoa decente e cortês a ter comportamentos indecentes e severos para com outras pessoas. É que ela já não se vê como responsável pelas suas ações, mas antes como um instrumento para a consecução dos desejos de outros.

 

A hierarquização das sociedades constituídas tem passado sempre por um “processo de obediência” a todos os níveis, mesmo os mais insuspeitos.

 

Começando pela “família” vemos que nela a regulamentação parental não passa da inculcação de um sentido de respeito pela autoridade do adulto, ao mesmo tempo que é fonte de imperativos morais. Quando, nas melhores das intenções dizemos ao nosso filho: “Não batas nas crianças mais pequenas”, estamos a transmitir-lhe duas coisas: uma norma moral explícita (não bater em crianças mais pequenas por serem indefesas e inocentes) e uma outra norma moral implícita e escondida que lhe diz “E obedece-me, faz o que eu te digo”, o que faz com que a génese dos nossos ideais morais seja inseparável da inculcação de uma atitude de obediência.

 

Quando a criança sair do casulo da família, é para ir para a “escola”, local onde irá aprender não só disciplinas curriculares, mas essencialmente como funciona uma organização. Embora as suas ações sejam em grande parte determinadas pelo professor, fica a perceber que essa disciplina é regulamentada e regulada pelo diretor a escola. Que a arrogância não é bem aceite pela autoridade, devendo ser substituída pela deferência, isto se quiser ter uma vida escolar sem problemas face à autoridade.

Os primeiros 18 anos serão assim vividos como subordinado num sistema autoritário.

Terminada a escolaridade, encaminhar-se-á para o mercado de trabalho ou para o serviço militar. No “mercado de trabalho” vai aprender que, embora possa manifestar um certo grau de discordância, necessita sempre de mostrar uma certa submissão para comos superiores, se quiser conservar um ambiente harmonioso no trabalho e o emprego. Mesmo no caso de lhe ser permitida grande liberdade no trabalho, o facto é que estará sempre a fazer um trabalho que lhe foi imposto por outro.

O que daqui resulta é a internalização da ordem social, da forma como ela é conduzida: faz aquilo que o teu chefe diz que tens de fazer. Se falhares, és punido. Se fizeres, és promovido. Mas mesmo quando és promovido, para além da motivação pessoal envolvida, há sempre nesse gesto a perpetuação da continuidade da estrutura hierárquica.

 

Nas “forças armadas”, a primeira situação com que se depara (o quartel) é o afastamento e separação face às comunidades ‘civis’, e isso é feito para que possa ter uma imersão total noutro espaço, onde não haja qualquer influência de outras autoridades. Durante as várias semanas do treino básico fica claro que punições e recompensas dependem só da forma como obedecer.

As imensas horas passadas a fazer exercícios de ‘ordem unida’ (marchar) não têm que ver com o aperfeiçoamento do modo como manejamos a espingarda em andamento, ou como nos imobilizamos com ela. Quando colunas e pelotões se conseguirem movimentar como se de apenas um homem se tratasse, obedecendo ao comando de um sargento, o que se pretende com isso é eliminar quaisquer traços do ego do recruta e fazer com que internalize a aceitação da autoridade militar, sem discussão. Embora seja importante todo esse treino físico e de aprendizagem das técnicas militares, o fundamental é quebrar quaisquer resquícios de individualismo. A finalidade é a disciplina e a submersão do indivíduo no modo organizacional.

Antes de ser enviado para uma zona de guerra, são avançadas pela autoridade os grandes ideais que devem estar sempre presentes na mente dos soldados: é-lhes dito que se vão defrontar com os que são inimigos da nação, que se não forem destruídos, colocarão em perigo o país. Quaisquer ações que pareçam cruéis ou desumanas serão sempre justificáveis. Se a isto ainda juntarmos, por exemplo, o fato do inimigo ser de outra raça ou que o leve a ser considerado como sub-humano, qualquer resquício de simpatia para com o inimigo deixa de ser considerado. A desvalorização sistemática do inimigo (ou da vítima) serve de justificação psicológica para qualquer brutalidade efetuada.

Já na zona de guerra, o soldado sabe que a manutenção da disciplina é vital para a sua sobrevivência e que qualquer sintoma de desorganização colocará em perigo a sua unidade. Resta-lhe obedecer. Matar, ferir, torturar, sejam eles soldados ou civis, são atos encarados como acontecimentos não relevantes a nível pessoal. Eles estão ali para matar outros por uma justa causa, como lhes foi dito não só pelos seus chefes diretos, mas pela máxima autoridade, o Presidente.

As únicas possibilidades que lhes restam, se não quiserem cumprir as ordens, serão a desobediência ou a deserção. Desobedecer, além de ficarem sujeitos aos castigos que daí resultam, vai fazê-los aparecer como cobardes, desleais. O sistema só considera patriotas, corajosos, os que lhe obedeçam. Resta-lhes viverem o dia-a-dia e manterem-se vivos: não há tempo para pensar em moralidade. Um soldado não se pergunta se é bom ou mau bombardear uma habitação. Quando muito, ele sentirá orgulho ou vergonha consoante a forma como desempenhar a missão que lhe foi atribuída.

Quanto à deserção, para além do problema que é o para onde desertar, ela é punida com enorme severidade, o que parece até estranho para uma organização que tudo faz para anular o indivíduo em favor do grupo, e para a qual aparentemente o indivíduo não é importante. Ao nível do grupo ele será rapidamente substituído por outro que vai ocupar o seu lugar. O único problema é que se essa deserção não puder ser contida poderá levar a novas deserções. Por isso é que terá de ser isolada e severamente punida.

Exatamente para evitar os grandes níveis de incomodidade emocional que estas situações extremas de aniquilamento e tortura provocam, sempre que possível a autoridade recorre a ‘cortinas’ que tornem mais fácil a continuação da matança. Os exemplos ‘normais’ de ‘cortinas’ são os que provocam a morte à distância, bombardeamentos aéreos, napalm, bombas ‘inteligentes’ ou bombas atómicas.

 

Até ao dia, em que por alteração de política governamental, a guerra (aquela) acaba: mais uma vez os soldados depõem as suas armas, mais uma vez obedecendo a ordens.

 

 

 

 

Nazis fora das escolas

Os nazis ficarão sempre na história como o maior e mais terrível regime do assassínio em massa, mesmo que não tivessem feito o Holocausto.
À medida que as execuções prosseguiam, os membros do batalhão iam ficando cobertos com sangue, miolos e pedaços de ossos.”
Um dos polícias ‘especializou-se’ e só matava crianças porque tinha pena com o que lhes iria acontecer depois das mães terem sido mortas.
No campo de Treblinka, que contava com apenas 30 alemães, 120 guardas ucranianos e 800 trabalhadores escravos (prisioneiros e vítimas), foram mortas mais de 950.000 pessoas só num ano. Isto é uma demonstração de moderna eficiência industrial.
As bestas querem arrebatar-nos o que nos resta de dignidade, querem deixar-nos apenas só com os instintos animais”, Odette Elina.

 

Todos temos conhecimento de massacres acontecidos em várias sociedades ao longo dos séculos, grande parte deles oriundos do calor do momento (“battlefield frenzy”) em que soldados, ao verem os seus amigos /camaradas mortos, matam indiscriminadamente prisioneiros e civis, ou ainda feitos em ações limitadas e esporádicas, de que podem servir de exemplos os acontecidos em My Lai, no Vietname e em Wiriamu em Tete, Moçambique. Ou até de massacres que podem levar à extinção de povos, mas que não resultam de ações previamente premeditadas e impostas, como foi o que aconteceu com os Índios na América.
Outra coisa totalmente diferente é o massacre continuado e feito a sangue frio, no cumprimento ‘racional’ de um desígnio político nacional, levando a que os seus nacionais cometam as maiores atrocidades sempre no convencimento que as suas ações eram não só justificadas como justas e necessárias.

 

Em 1992, é publicado um estudo de Christopher Browning, professor de história na Pacific Lutheran University em Tacoma, Washington, intitulado Ordinary Men: Reserve Police Battalion 101 and the Final Solution in Poland, sobre a atuação da Unidade de Reserva 101 da Polícia da Ordem Alemã no massacre e envio de 83.000 judeus para campos de morte nazis na Polónia em 1942.


Esta Unidade 101 era constituída por homens de meia-idade (trintas e quarentas) maioritariamente (63%) da classe trabalhadora (comerciantes, polícias, motoristas, lojistas, empregados de mesa, pedreiros) e 2% da classe média (professores e farmacêuticos), que devido à idade tinham sido considerados como inaptos para o serviço militar obrigatório. Apenas uma minoria (25%) era membro do partido nazi ou tinham pertencido às SS. Muito poucos eram independentes economicamente. A maioria era de Hamburgo, uma das cidades menos nazificadas da Alemanha.


O Batalhão 101 era formado por 11 oficiais, 5 funcionários administrativos e 486 suboficiais e soldados. Os soldados tinham carabinas e os oficiais metralhadoras. Cada uma das três companhias que o compunham dispunha de metralhadoras pesadas. O comandante era o major Wilhelm Trapp (53 anos), polícia profissional e membro do partido nazi; doze dos oficiais subalternos pertenciam também ao partido nazi, sendo alguns das SS.


Estas unidades de polícia foram criadas devido à necessidade da mobilização de todas as forças para a campanha militar que se estava já a desenvolver na União Soviética, e que não permitia que o programa de aniquilação dos judeus a concentrar na Polónia pudesse prosseguir de acordo com o planeamento previsto. A solução encontrada fora a de recorrer à utilização de outros três tipos de ‘mão de obra’: a da etnia alemã local; a dos “Trawnikis” (Ucranianos, Lituanos e Estonianos recrutados entre prisioneiros de guerra Soviéticos que desejassem trabalhar para os Alemães e que tinham sido treinados para operações de assassinato no campo de Trawnikis), e a dos batalhões de Polícia de Ordem (a que pertencia o Batalhão de Reserva 101).


Em Junho de 1942 foi-lhes atribuída a missão de aterrorizarem os judeus nos ghettos enquanto decorria a Operação Reinhard.
Depois disso, a primeira operação de assassinato em massa que lhes é ‘dada’ vai ser realizada em Jozefow, uma vila com 1.800 judeus. A ordem era para separar e enviar para os campos de concentração em Lublin todos os judeus com suficiente idade para trabalhar; mulheres, crianças, e velhos deveriam ser todos mortos. O médico do batalhão mostrou como se devia disparar para se causar a morte instantânea da vítima, indicando o ponto exato em que se devia colocar a baioneta que serviria de guia para apontar. O comandante da unidade, por entender que a situação poderia ser demasiado violenta, deu a oportunidade aos seus homens de pedirem dispensa dessas funções, se o quisessem. Desse batalhão de 500 homens, só doze optaram por não participar.


Depois de despacharem os homens para os campos de concentração, meteram 1500 mulheres, crianças e velhos em camiões em direção à floresta próxima. Em cada camião seguiam igual número de polícias e de judeus. Chegados à floresta, foi dada ordem aos judeus para se deitarem no chão, com a cabeça para baixo. Cada polícia colocava agora a sua baioneta na parte detrás do pescoço e disparava. Este processo seguia-se sem interrupção ao longo do dia, por turnos de ‘serviço’, até ao anoitecer.
À medida que as execuções prosseguiam, os membros do batalhão iam ficando cobertos com sangue, miolos e pedaços de ossos, o que levou que alguns dos polícias (20%) deixassem, a partir de certo ponto, de disparar.


De qualquer modo, depois de Jozefow, os assassinatos tornaram-se cada vez mais fáceis de executar. Passado o horror inicial, o sadismo e o divertimento fizeram a sua aparição: os judeus, preferencialmente velhos e com barbas, eram obrigados a rastejar nus para as valas, à medida que iam sendo espancados com bastões e coronhas de espingardas, antes de serem mortos. Um dos oficiais chegou a mandar vir da Alemanha a sua mulher grávida para que ela assistisse à sua mestria a matar judeus. Um dos polícias ‘especializou-se’ e só matava crianças porque tinha pena com o que lhes iria acontecer depois das mães terem sido mortas.


Em Novembro de 1943, quando Himmler se apercebeu que os judeus usados para trabalhar nos campos se começavam a revoltar e opor resistência, resolveu que o melhor era acabar com todos. Organizou um “festival das colheitas” com a participação dos SS e outras unidades de polícia de toda a Polónia, incluindo o Batalhão 101, com a finalidade de num espaço de poucos dias acabar com todos os judeus da região. Cerca de 18.000 judeus foram reunidos no perímetro do campo de Majdanek; convidou os Polacos para assistirem como, ao som de música e altifalantes, os judeus eram conduzidos nus para valas e obrigados a deitarem-se em cima de outros judeus que já tinham sido mortos. Eram depois metralhados. A que se seguia nova camada.


No dia seguinte, o Batalhão 101 participa também no massacre de mais 14.000 judeus em Poniatowa. No final do “festival das colheitas”, os 500 homens do Batalhão tomaram parte na morte de pelo menos 38.000 judeus, e do envio para as câmaras de gás de Treblinka de mais de 45.000. No total da sua atuação, um batalhão de 500 soldados fora responsável pela morte de pelo menos 83.000 judeus, o que não deixa de ser um feito.
Mas os nazis conseguiam fazer ainda melhor e mais eficientemente optando pela solução final das câmaras de gás: no campo de Treblinka, que contava com apenas 30 alemães, 120 guardas ucranianos e 800 trabalhadores escravos (prisioneiros e vítimas), foram mortas mais de 950.000 pessoas só num ano. Isto é uma demonstração de moderna eficiência industrial.


Depois da guerra, muitos membros do batalhão regressaram às ocupações que tinham de antes da guerra. Foram condenados o comandante e um oficial (executados), e um polícia (oito anos de prisão). Mesmo assim, estas três condenações excedem a média individual das sentenças condenatórias proferidas pelos tribunais da Alemanha Ocidental, pelo que podem ser consideradas como punição exagerada.

Mas desengane-se quem pense que apenas foram judeus os perseguidos. Muitos daqueles que praticaram a eutanásia nos campos de morte começaram primeiro por a ‘exercer’ matando doentes mentais alemães na Mãe pátria. E muitos daqueles que procederam à morte de judeus, já antes tinham exercido esse seu ‘trabalho’ na matança de outros grupos para além dos judeus. As primeiras grandes matanças foram feitas no território da União Soviética, onde só até Abril de 1942 já tinham sido mortos muitos mais prisioneiros de guerra russos (mais de dois milhões) do que todos os judeus.


Tinha portanto de haver uma outra qualquer motivação para eliminar pessoas que fosse para além do simples antissemitismo. Qualquer coisa existiria nesse regime bem como na forma como ele se relacionava com o seu povo, que o levava a assassinar em massa numa escala inimaginável, mesmo que não existissem judeus.
Seja o que for, os nazis ficarão sempre na história como o maior e mais terrível regime do assassínio em massa, mesmo que não tivessem feito o Holocausto.

 

Contudo, esta simples contabilização do número de assassinatos, bem como da forma com que se revestiram e dos locais onde ocorreram, constitui apenas a face mais visível e mediatizada do regime nazi, a sua face mais ligeira, que tem sido utilizada, voluntária ou involuntariamente, para encobrir a sua verdadeira face, essa sim abominável.


Alguns prisioneiros dos campos de morte que sobreviveram, deixaram-nos testemunhos escritos, que talvez nos possam elucidar sobre essa face. Ouçamos Primo Levi (1919 – 87) em Se isto é um homem, Elie Wiesel (1928 -) em A noite, a aurora, o dia, e Odette Elina (1910 – 91) em Sem flores nem coroas:


É homem quem mata, é homem quem comete ou sofre injustiças; não é homem quem, perdido todo o recato, compartilha a cama com um cadáver. Quem fica à espera que o seu vizinho acabe de morrer para lhe retirar o pedaço d e pão, está, mesmo que sem culpa sua, mais longe de um homem pensante que o sádico mais atroz”.

 

Conselho do judeu, chefe da camarata, ao miúdo que estava a dar da sua ração ao pai doente: “Escuta-me bem, miúdo. Nunca te esqueças que estás num campo de concentração. Aqui, cada um deve lutar por si mesmo sem pensar nos demais. Nem sequer no seu pai. Aqui não há pai que valha, nem irmão, nem amigo. Cada um vive e morre para si, só. Dou-te um conselho: não dês mais a tua ração de pão e de sopa ao teu velho pai. Não podes fazer nada por ele. E matas-te a ti mesmo. Pelo contrário, devias ficar com a ração dele”.

 

Ao sair do vagão houve logo uma seleção prévia. De aproximadamente mil e quinhentas mulheres que formavam parte do nosso comboio, só noventa e nove chegaram vivas ao Campo. Despojaram-nos de tudo. Vimo-nos nuas, tatuadas, rapadas. Brutalmente. Às polacas encheram-nas de pancada. Assim, sem mais, para nos inteirarmos de imediato o que era o ambiente do campo. Logo nos mandaram para os chuveiros. Sem sabão nem toalha. E ali ficámos o resto da noite em pé, num balneário com janelas sem vidros. Esperando sem saber o quê. Ao amanhecer entregaram-nos algumas roupas de homem, desgarradas, um sapato de homem e outro de mulher, evidentemente de números diferentes.
[…] Esta manhã vieram buscar cem mulheres. Como sempre, não sabíamos se íamos ser conduzidas para o forno, para o controle de piolhos, ou para outro campo…Devíamos conduzir cem carros de bebé… para recolher os bebés que acabavam de ser queimados. As almofadas conservavam ainda a forma dos seus pequenos crânios … para fazer aquele trajeto escolheram cem mulheres. Cem mulheres que eram mães ou que o poderiam ser.
[…] Anka, a minha pequena morta de sete anos. Uma garotita que parecia velha. Cada dia se tornava mais esquálida, supurava mais, maior era a sua diarreia: também mais autoritária, mais malvada, mais miserável, mais moribunda. Morreu. Ninguém quis ajudar-me a carregar o corpo. Um morto, quando cresce até aos sete anos, pesa. Tive de a arrastar pela neve até ao montão de cadáveres.

 

Para se entender melhor este ‘naufrágio moral’ da humanidade, devemos olhar para as vítimas e não só para os verdugos. Estes são por definição maus e nada se pode esperar deles. Mas, e do comportamento das vítimas? Estas vítimas judias, são também as que acionavam as câmaras, incineravam os corpos e moíam os ossos. Não saímos melhores”.

 

Não são pois o número de mortes e de maus tratos que constituem a verdadeira face do nazismo. A verdadeira face está nesta desumanização intencionalmente praticada, que acaba por levar as próprias vítimas a considerarem-se como culpadas, ou a considerarem-se como nada. Como tão lucidamente percebeu Odette Elina quando escreveu:


As bestas querem arrebatar-nos o que nos resta de dignidade, querem deixar-nos apenas só com os instintos animais”.


Foi sempre essa a intenção. Retiravam-lhes a dignidade humana e depois acusavam-nos de, por não terem dignidade humana, não poderem ser tratados como humanos.
Pequenos truques para esconder a indigência moral e intelectual do nazismo: envolvam-no em belas fardas com paradas monumentais, discursos patrióticos, projeções e bandas sonoras apropriadas e ficamos todos prontos para ir para os Coliseus assistirmos às matanças dos cristãos e dos outros, sejam eles quem forem. Tristes ‘humanos’ de braço levantado e cabeça encolhida.

 

Nazis nas escolas

Como é que uma pessoa tão vulgar pudera fazer coisas tão horríveis?
As pessoas têm tendência para passar a responsabilidade para outros, não se culpabilizando por aquilo que aconteça”, Stanley Milgram.
O poder é disciplina, o poder é comunidade, o poder é ação, o poder é orgulho”, divisa do movimento The Third Wave.

 

Terminada a Segunda Guerra Mundial e passada que foi a euforia da vitória obtida sobre as potências nazi/fascistas da Alemanha, Itália e Japão, muitas foram as questões preocupantes que ficaram sem resposta, nomeadamente:
Como é que o civilizado e culto povo alemão pudera aceitar, participar e exultar com as práticas nazis? Como é que o Holocausto ocorrera com tanta eficácia e com tanta aquiescência e colaboração por parte das populações? Que tipos de pessoas eram essas? Afinal, o que significa ser, humano, e ser humano?


Quando em 1961, a pedido do New Yorker, Hannah Arendt foi cobrir o julgamento de Adolf Eichmann originando uma série de artigos a que deu o título de Eichmann in Jerusalem, o que mais a chocou foi o ter-se deparado com um homem perfeitamente vulgar, um burocrata, e não com o monstro sádico e fanático, consumido pelo ódio, que esperava encontrar. Como é que uma pessoa tão vulgar pudera fazer coisas tão horríveis? Foi isso que tentou explicar nos seus artigos e que a levou a intuir sobre o que ficou a ser conhecido como “a banalidade do mal”.


Também o psicólogo social americano, professor Stanley Milgram da Universidade de Yale, iniciou um conjunto de experiências que tinham como finalidade  averiguar qual seria a capacidade das pessoas  para conseguirem resistir a uma autoridade que não se servia de nenhuma ameaça ou coação para se impor.
O resultado das suas experiências é pela primeira vez conhecido em Julho de 1962, no artigo “Behavioral Study of Obedience”. Mal recebido pelo meio académico (problemas de ética relativos às experiências) faz com que só em 1974 venha a publicar uma obra mais abrangente, Obedience to Authority.


Para as experiências iniciais, Milgram selecionou 40 voluntários, não escolhidos entre os alunos universitários mas entre a população em geral, mediante anúncio publicado em jornais diários. Foi-lhes pedido por um ‘cientista’, rodeado de todos os atributos da autoridade tradicional, que para bem da ciência (o estudo tinha a ver com  experiências sobre um novo método de aprendizagem que se supunha permitir obter melhores resultados através da punição), infligissem descargas elétricas cada vez mais fortes (até  450 volts) a vários indivíduos a quem se iriam fazer os testes.
Estes indivíduos que teoricamente iam ser as cobaias dos testes, não passavam de atores contratados que, à medida que os choques elétricos fossem sendo aumentados, se iriam contorcendo, gritando, pedindo auxílio, até emudecerem completamente quando o máximo fosse atingido.
Tudo isto (a representação dos atores) seria feito sem o conhecimento dos 40 voluntários que lhes iriam aplicando os choques. Dois terços dos voluntários (26 dos 40) conseguiram chegar sempre à aplicação máxima dos 450 volts, obedecendo cegamente ao que lhes era pedido.


Segundo Milgram, as pessoas têm tendência para passar a responsabilidade para outros, não se culpabilizando por aquilo que aconteça. Vêem-se sempre como uma peça da engrenagem, limitando-se a “fazer o seu trabalho”, evitando assumir quaisquer responsabilidades pelas consequências das suas ações. Além do mais, acreditavam que era necessário obterem resultados, para o “bem da ciência”.

 

Em 1967, Ron Jones, professor de História Contemporânea no liceu de Cubberley, Palo Alto, Califórnia, deparou-se com a dificuldade de não conseguir explicar aos seus alunos porque é que o povo alemão tinha aceitado as ações do regime nazi durante a Segunda Guerra Mundial. Pensou então em tentar reproduzir entre os alunos as condições que favoreceram o aparecimento de um regime totalitário.


Reuniu-se com os 30 alunos e convenceu-os que a democracia, ao basear-se na igualdade do voto popular, não distinguindo entre o sábio e o ignorante, enfraquecia a nação. Assim iria criar um movimento chamado “The Third Wave” (A Terceira Onda) cuja finalidade era acabar com a democracia. A divisa do movimento seria: “O poder é disciplina, o poder é comunidade, o poder é ação, o poder é orgulho”.


Porquê “Terceira Onda”? Porque, segundo a tradição da marinha a terceira onda era a maior e mais forte. Estabeleceu normas de disciplina na aula (regras simples como o modo de estarem sentados, o porem-se de pé quando interrogados, responderem com frases curtas, precedendo-as sempre com “Mr. Jones”) e fora dela, como rituais, símbolos e saudações próprias entre eles sempre que se encontrassem, originando assim uma cumplicidade fervorosa.
Deu a cada um deles cartões de membros. Foram iniciados na técnica de recrutarem novos membros e aplicaram-se tão bem que na terceira sessão o número de alunos tinha aumentado para 200. É nessa terceira sessão que alunos começam a informá-lo sobre as falhas de outros alunos no cumprimento das normas estabelecidas e a apontar nomes pedindo medidas corretivas a serem tomadas.
Não sendo já capaz de controlar os acontecimentos, Jones decide acabar com a experiência. Diz-lhes na quarta sessão que o movimento fazia parte de um movimento a nível nacional e que na sessão seguinte, a quinta, seria anunciado na televisão o nome do candidato a Presidente pela “Third Wave”.
Nessa última sessão, em vez do anúncio esperado na televisão, os estudantes vêem-se perante um canal de televisão vazio. É então que Jones lhes comunica que tudo não passara de uma experiência sobre fascismo que servira para lhes demonstrar como teria sido possível criar na Alemanha nazi, o convencimento de que os alemães eram superiores aos outros.


Finalmente, a Experiência da Prisão realizada em 1971 pelo professor da Universidade de Stanford, Philip Zimbardo. O seu objetivo era tentar perceber como pessoas normalmente boas, quando colocadas em maus ambientes, se tornam más.


Para isso construiu na parte de baixo dos seus laboratórios na Universidade, um cenário totalmente realista de uma prisão de alta segurança, com celas exíguas, solitário, sem entrada de luz natural. Através de anúncios publicados em jornais, selecionou 24 estudantes que seriam pagos a 15 dólares por dia, para participarem durante duas semanas num estudo sobre efeitos psicológicos da vida prisional. Metade deles seriam ‘guardas’ da prisão e a outra metade seriam os ‘presos’.
Sem lhes dizer que tinham sido aceites para a experiência, num domingo de Agosto, os estudantes escolhidos foram presos pela polícia nas suas residências em Palo Alto, Califórnia, algemados e conduzidos à prisão sob a acusação de assalto à mão armada e furto. Despidos, revistados corporalmente, rapado o cabelo, lavados à mangueira, e impedidos de contactarem com o exterior, rapidamente entraram em choque com os ‘guardas’, que para os controlarem utilizaram vários estratagemas, desde as restrições físicas aos abusos psicológicos.
Ao fim de apenas seis dias a experiência teve de ser terminada, pois os ‘guardas’ transformaram a prisão num campo de tortura psicológica, dominando, abusando e destruindo totalmente os ‘presos’.


Curiosamente, quando ao fim de quatro dias, alguns dos pais dos ‘presos’ foram autorizados a visitá-los, não sem antes terem tido uma conversa preparatória com o 'diretor da prisão’, muitos deles, apesar de encontrarem os filhos em má forma, concordaram com o programa que iria ser seguido para a sua reabilitação, e que os filhos eram suficientemente fortes para o aguentarem.

 

Com todas as limitações inerentes, eis três exemplos que, embora limitados, nos permitem compreender melhor quem somos ou quem poderemos ser. Talvez.

 

Era uma vez na América?

Uma vez


A diminuição do espaço entre cadeiras dos aviões é uma das maiores preocupações dos passageiros, preocupações justificadas até porque esse espaço tem vindo a diminuir, passando das 35 polegadas em 1970 para as 31 polegadas atuais.


Esta é a transcrição de parte do debate que ocorreu no Congresso americano sobre uma emenda proposta com vista ao aumento do espaço entre as cadeiras dos aviões comercias e que foi chumbada.
Durante o debate, membros do Congresso contrários à proposta, divertiram-se até pelo fato de ela ter sido apresentada, rindo-se da ideia.


O Rep. Rodney Davis: “Até aqui nós temos diferentes tamanhos de assentos. Por exemplo, o Sr. Presidente tem um assento maior e será que querem que a Comissão da Administração deva agora estudar os tamanhos dos assentos?
Ao que o proponente, Rep. Cohen respondeu: “Nós não estamos em aviões acidentados e com 180 pessoas a tentarem sair ao mesmo tempo para salvarem as suas vidas. Isto não é sobre os assentos desta Câmara, Sr. Davis … Isto não é um assunto divertido”.
E prosseguiu dizendo que o mercado não iria resolver o problema por falta de competição. “As companhias aéreas foram desregulamentadas. Existem hoje apenas quatro maiores companhias e elas fazem o que querem, porque podem … Condições de mercado? Já não existem condições de mercado, isto é uma indústria controlada.”


Réplica de Davis: “Já vimos qual é a raiz do problema. O seu problema é com a indústria de transportes aéreos como um todo e não com este estudo específico. Não me parece pois que se deva recomendar à FAA que gaste o dinheiro dos contribuintes naquilo que considero ser um estudo redundante.


O próprio presidente da comissão, Rep. Bill Shuster, aconselhou os membros da comissão a votarem contra a emenda proposta, o que foi seguido por todos os membros do seu partido, com exceção do representante do Alasca.


As maiores companhias aéreas, a American, Alaskan, Continental, Delta, Hawaiian, JetBlue e a Southwest, estão entre as que mais contribuíram com donativos para a campanha (PAC – Political Action Comittee) da eleição de Bill Shuster, neste caso com 92.000 dólares. As mesmas companhias foram também as que contribuíram para a campanha de Rodney Davis com 40.000 dólares.


Uma vez


A “Future 45” é uma super PAC (comissão de angariação de donativos para a ação política) que tem como seus principais doadores gestores de fundos de cobertura altamente especulativos (hedge funds), nomeadamente Paul Singer, dono da Elliott Management, e Ken Griffin, dono da Citadel, onde cada um deles contribuiu com 250.000 dólares para a campanha de Marc Rubio, candidato pelo partido Republicano à nomeação para a Presidência.


A Future 45 é dirigida por Brian O. Walsh, um operacional do partido Republicano que já foi diretor político da Comissão do Congresso Nacional Republicano, e iniciou recentemente (já anteriormente o alvo fora o episódio líbio de Hillary Clinton) uma campanha de anúncios televisivos contra o salário mínimo nacional proposto por Bernie Sanders dizendo que isso iria fazer perigar as pequenas empresas e aumentar o desemprego, levando posteriormente a um aumento de impostos.


Tudo isto, porque Sanders tinha proposto que uma forma de acabar com as propinas nas universidades públicas seria a criação de um imposto de 0.5 por cento (meio por cento) sobre os fundos de cobertura especulativos, o que iria atingir diretamente os negócios de Singer e Griffin, entre outros.


Aliás, Sanders já tinha chamado a atenção para o fato de “os 25 maiores gestores de fundos de cobertura ganharem mais de 24 biliões de dólares, o que seria o suficiente para pagar o salário a 425.000 professores das escolas públicas”, acrescentando que “Este nível de desigualdade não é moral nem sustentável.”


Uma vez


Lloyd Blankfein, CEO do Goldman Sachs, quando perguntado no programa “60 Minutos” sobre o que pensava sobre as propostas de Bernie Sanders, atual candidato à nomeação pelo partido Democrata à Casa Branca, referentes à Segurança Social e aos Serviços de Saúde (Medicare), disse:
Vai ter de se fazer qualquer coisa para se baixarem as expetativas criadas no povo, porque Segurança Social para todos e benefícios Médicos não são possíveis de suportar”. Advogou mesmo um aumento de idade a partir da qual se poderia aceder aos programas existentes, acompanhados de outros cortes. “Os direitos têm de ser atrasados e contidos”. Para ele, o que Sanders prometia, podia criar “um momento potencialmente perigoso”.


Falando no Senado, Sanders disse:
Por vezes não há limites para a arrogância. […] Lloyd Blankfein é o CEO da Goldman Sachs […] Durante a crise financeira o Goldman Sachs recebeu um empréstimo da Reserva Federal no total de 814 biliões de dólares virtualmente com juros zero e ainda 10 biliões de ajuda do Departamento do Tesouro para evitar a falência […] E agora do cimo da sua imensa riqueza vem a Washington para dar lições ao povo americano sobre como se deve de cortar na Segurança Social, Medicare e Medicaid para dezenas de milhões de americanos que esbracejam para conseguirem manter a cabeça à tona d’água.”


A ameaça implícita está lá quando Blankfein alude ao potencial momento perigoso, que se entende perigoso não só para a Wall Street e para as pessoas que viriam a ser atingidas, mas acima de tudo para quem sugerir outra alternativa.
Explicitamente o recado é: Ninguém na Wall Street quer que algum candidato a presidente pergunte porque é que os Estados Unidos não conseguem suportar a Segurança Social mas podem suportar salvar da falência os maiores bancos.


O conceito simplista a reter que não provocará nenhum momento perigoso é certamente o veiculado por Marco Rubio, o candidato Republicano à nomeação para a Presidência, quando declara que para se tornarem ricos os pobres seria necessário tornar pobres os ricos, o que evidentemente não fazia qualquer sentido. A multidão aplaudiu.

 

Era uma vez a Europa


Como boa aluna que é, ou quer ser, a Europa rapidamente se tem apressado a seguir o modelo. Afinal, na maior parte dos casos, basta só mudar de polegadas para centímetros, e fica tudo com aquela patine cultural que é dela apanágio. Comer com garfo e faca ao mesmo tempo, é indubitavelmente mais requintado, mais civilizado. Só que tudo depende evidentemente das lentilhas que se põem no prato. A multidão aplaude.

 

 

 

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