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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Fazer ou não fazer é sempre fazer

Preferiria não” (I would prefer not to), resposta irredutível de Bartleby.
A própria criação, para o ser, tem sempre de conter em si a possibilidade da não criação”.
O que Bartleby nos diz é que nos devemos focalizar, não sobre a realidade, mas sobre os nossos próprios sonhos.
Os sujeitos obedecem não só devido à coerção física (ou à ameaça dela) e à mistificação ideológica, mas também porque investem libidinalmente no poder”, Zizek.



Herman Melville, o consagrado autor de Moby Dick, foi também um excelente contador de pequenas histórias, como a que escreveu em 1853, Bartleby, the Scrivener: A Story of Wall Street (Bartlleby, o escriturário: uma história de Wall Street). Sem grande sucesso na altura, este conto publicado no Putnam’s Magazine, é hoje considerado como sendo o precursor da literatura do absurdo, na linha de temas mais tarde desenvolvidos por Franz Kafka. Só que não apenas Kafka não teve qualquer contacto com esta obra de Melville, como só depois da sua morte é que este conto de Melville começou a ser conhecido e apreciado. Até nisto temos um absurdo: o de um percursor só “aparecer” depois daquilo de que ele fora precursor.

 

Bartleby trabalhava como escriturário no consultório de um advogado em Manhattan. Embora inicialmente fosse considerado como um excelente empregado que produzia uma enorme quantidade de trabalho de grande qualidade, quando um dia foi chamado pelo patrão para colaborar no estudo e execução de um documento importante, disse calmamente, sem levantar a voz: “Preferiria não”. A partir daí, o seu rendimento foi diminuindo, até que acabou por não fazer nada. Apesar das várias tentativas de conciliação do advogado, a resposta era sempre a mesma: “Preferiria não”. Despedido, Bartleby não saiu do edifício, passando o dia sentado nas escadas e dormindo à noite na entrada do edifício. Condoído, o advogado tentou demovê-lo daquela posição, chegando até a oferecer-lhe a sua casa para viver. Ao que Bartleby respondia com o irredutível “Preferiria não”. Forçado a sair do edifício, Bartleby acabou por ser preso por vagabundagem. O advogado deslocou-se à prisão para ver se ele estava a ser bem tratado, levando-lhe comida. Quando dias depois lá voltou, Bartleby tinha morrido de fome, tendo preferido não comer.

 

Muitas das tentativas para a explicação deste texto têm recaído em considerações sobre problemas de depressão clínica, sobre teorias do livre arbítrio e do determinismo, ou ainda sobre as más críticas ou o fracasso de vendas que foram Moby-Dick (1851) e especialmente Pierre (1852), que poderiam ter levado o autor a optar por escrever pequenos contos, começando pelo Bartleby, em que aparentemente se revia. Tudo explicações individuais para aquilo que tem a ver com um problema bastante mais geral e abrangente.

 

Filosoficamente, a frase irredutível de Bartleby não significa que ele não quisesse copiar ou escriturar, ou que não quisesse deixar o escritório – simplesmente ele preferiria não o fazer. Esta formulação que não é nem afirmativa nem negativa, em que não aceita mas também não recusa, abre uma zona de indefinição entre o sim e o não, o preferido e o não-preferido.
É Aristóteles que vai comparar o espírito, intelecto ou pensamento puro em potência, a uma tábua (grammatéion) onde nada está ainda escrito (no século quatro a. C., na Grécia escrevia-se a tinta sobre uma folha de papiro, ou mais vulgarmente, sobre uma tabuinha coberta por uma fina camada de cera onde se gravava com um estilete). Mais tarde, a quando da tradução latina das obras de Aristóteles, grammatéion dá origem à tabula rasa, aparecendo em Locke como “folha branca” (“suponhamos que no início o espírito não passava de uma folha branca, virgem de qualquer inscrição, sem qualquer ‘ideia’”).
Estamos assim perante uma tradição filosófica que atribui à escrita a importância de desvendar o pensamento. A utilização da imagem da tábua coberta de cera permitia a Aristóteles tentar explicar o problema da pré-existência do pensamento como ‘pura potência’, e de como ele passaria a ‘ato’ assim que nela se escrevesse. Idealmente, o pensamento não teria qualquer forma (não seria evidentemente uma tábua coberta de cera), porque se o pensamento tivesse já uma forma, ou seja, se já fosse qualquer coisa, tal iria interferir, condicionar a perceção, o entendimento, de qualquer objeto inteligível.


É esta ideia sobre o que é a mais pura potência que leva Aristóteles a concluir que toda a potência de ser ou fazer qualquer coisa terá de ser também a potência de não ser ou de não fazer, porque se toda a potência acabasse por se transformar em ato, acabaria por se confundir com ele. Daí o espírito, o intelecto ou o pensamento puro existir como uma potência de pensar e de não pensar.


Mas o próprio Aristoteles tinha algumas dúvidas: “O problema do pensamento implica certas aporias. O pensamento parece ser o mais divino dos fenómenos, mas o seu modo de existência é problemático. Com efeito, se ele não pensa nada (ou seja, se ele se atém à sua potência de não pensar), que dignidade será essa? É como se estivesse adormecido. Mas, se pelo contrário, ele pensa qualquer coisa em ato, ficar-lhe-á subordinado a partir do momento em que a sua essência não é já um ato de pensamento mas uma simples potência; deixará de ser a substância mais nobre, uma vez que que a sua excelência lhe virá de ser potência em ato.


A aporia a que ele se referia tinha pois a ver com o facto de o pensamento supremo não poder nem pensar em nada nem pensar alguma coisa, nem permanecer em potência nem passar ao ato, nem escrever nem não escrever. Para ultrapassar esta aporia, Aristóteles elaborou a tese segundo a qual o pensamento se pensa a si próprio, sendo como que uma média entre o não pensar e o pensar qualquer coisa, entre a potência e o ato. O pensamento que se pensa a si próprio não pensa num objeto, nem pensa em nada: pensa uma pura potência (de pensar e de não pensar). De certa maneira, Bartleby, como o escriba que deixou de escrever é o protótipo da tábua de cera onde nada está escrito; é a figura extrema do nada de onde vem toda a criação, do nada como pura potência.


Claro que surge logo outro problema: como é que uma pura potência se pode pensar em ato? Como é que uma tábua de cera, onde nada está impresso, se pode impressionar a ela própria?


Na nossa cultura só muito raramente se assiste a este equilíbrio entre a afirmação e a negação, entre a aceitação e a recusa, o dar e o tirar. Os céticos propunham-se alcançar uma condição de suspensão, que era a condição em que nós não podíamos estar nem negar, nem aceitar nem recusar. Não se tratava de uma condição de indiferença, mas antes de uma experiência de possibilidade ou de potência. De certa forma, a procura de uma abertura luminosa.
Aristóteles já tinha também chamado a atenção para algo muito interessante. Dizia ele: “é necessário que toda a coisa seja ou não seja, que ela será ou não será; contudo, encarando separadamente as duas possibilidades, não poderemos dizer com certeza que uma ou outra sejam necessárias. Por exemplo, se eu disser que amanhã vai haver uma batalha naval ou que amanhã não vai haver uma batalha naval, tal não significa necessariamente que se verifique uma batalha naval ou que ela não se verifique.”
Ou seja, só a tautologia (proposição que é impenetrável às condições de verdade, uma vez que são sempre verdadeiras) “amanhã vai haver ou não uma batalha naval” é que é necessariamente sempre verdadeira para além da realização de uma ou da outra possibilidade, ao passo que cada uma das outras duas alternativas possíveis passam a serem contingentes, pois podem ser ou podem não ser. De igual modo, a frase de Bartleby pode ser aplicada a qualquer coisa, podendo ao mesmo tempo ser verdadeira e não verdadeira.
Fica assim completo e aberto o quadro de todas as possibilidades, a tal abertura luminosa de que falavam os céticos. É agora claro que a própria criação, para o ser, tem sempre de conter em si a possibilidade da não criação. E não só no momento da criação mas em todos os momentos que se lhe seguem. Há sempre a hipótese de uma segunda criação. A interrupção da escritura poderá ser um desses momentos em que se concentra toda a potência de não-ser, ponto de indiferença entre a potência e a impotência.
Talvez agora se consiga compreender melhor Leibniz quando ele nos fala sobre um mausoléu onde estão guardadas séculos e séculos das imagens de tudo aquilo que não foi, mas que poderia ter sido, “os possíveis contidos de toda a eternidade”. E foi desse imenso mausoléu que Deus escolheu o “melhor dos mundos possíveis” que, de vez em quando vem visitar, “para se dar o prazer de recapitular as coisas e de renovar a sua própria escolha”.
Com o seu “preferia não”, Bartleby restitui-nos integralmente o universo infinito da possibilidade, mantendo-o em equilíbrio entre o poder ser e o não poder ser, entre o que vai ser e o que não vai ser, batalha eterna entre os vários “melhores” dos mundos possíveis.

 

Politicamente, o conceito por detrás da expressão de Bartleby é muito mais do que uma simples resistência ativa ao poder. Bartleby deixa de sonhar com o poder, o que é muito mais radical.
O poder, como subordinação de muitos a um, não é algo que exista desligado das coisas e que continuaria a existir independentemente da participação dos súbditos. Ele só persiste através da nossa assistência ativa. Colaboramos com o opressor não por ele ser muito poderoso, mas, exatamente por ele nos parecer poderoso é que o tratamos como tal.
Então porque é que lhe obedecemos? Porque “Os sujeitos obedecem não só devido à coerção física (ou à ameaça dela) e à mistificação ideológica, mas também porque investem libidinalmente no poder”. Ou seja, o poder, o seu exercício, como que provoca um êxtase que envolve não só quem o detém, mas também todos aqueles que não o tendo se sentem bafejados pelos salpicos das ondas de gozo que dele emanam e onde eles se banham, enrolam, rebolam. Como uma adrenalina viciante, é assim que o “poder” os suborna e mantém sob o seu jugo.
O que Bartleby faz é deixar de sonhar com o poder, o que implica dissolver a relação entre as estruturas do poder e o êxtase babado dos que o consentem e promovem. O que Bartleby nos diz é que nos devemos focalizar, não sobre a realidade, mas sobre os nossos próprios sonhos.


O desenvolver uma atividade frenética para impedir que uma coisa real aconteça, não passa de uma falsa atividade: pensamos estar ativos, mas estamos a ser passivos relativamente à realidade.
Quando nos desdobramos em manifestações, petições, grandes oratórias, etc., mas simultaneamente entregamos o verdadeiro trabalho de assistência, educação, ajuda, acompanhamento, às inócuas Misericórdias do poder político instituído, não estamos certamente a criar condições que não sejam as da perpetuação de um poder político daltónico.
Perante uma situação em que “só as moscas mudam”, nada nos obriga a escolher. É mesmo melhor nada fazer do que contribuir para a reprodução da ordem existente.

Lembremos Kafka nos “Mensageiros”:

 

Deram-lhes a escolher ser reis ou mensageiros dos reis. À maneira das crianças, todos quiseram ser mensageiros – o resultado foi que não existem senão mensageiros. Galopam mundo fora gritando-se mensagens que, uma vez que não existem reis, se tornaram sem sentido. Alegrá-los-ia pôr fim à sua existência miserável, mas não se atrevem a fazê-lo, tendo em conta os deveres do seu serviço”.

 

 

 

Os Corn flakes e a masturbação

A masturbação, esse assassino silencioso da noite”, John Harvey Kellog.
Massagens de recolocação pélvica para induzir o paroxismo em doentes afetadas por histeria”, Mortimer Granville.

 

Os fins do século XIX e princípios do século XX foram precursores da veneração que a ciência passou a ter nas mentalidades das gentes, com a sua extensão a todos os campos do saber e não saber. A fé no progresso, o acreditar que todos os aspetos da vida poderiam ser aperfeiçoados e melhorados pela utilização de processos que se acreditavam serem racionais e científicos, levou a que as ideias e projetos dos mais loucos, se validados pela ciência, passassem a serem tidos como os únicos corretos, possíveis e úteis. As teorias raciais e eugenísticas nazis encontraram a sua justificação na ciência desta época, com os efeitos devastadores que conhecemos. Mas está também na origem do aparecimento de inúmeras personalidades excêntricas, de alguns autênticos visionários, muitos deles hoje totalmente desacreditados em nome da mesma ciência que julgavam seguir. Vejamos três casos muito interessantes no campo da saúde, com grande aceitação e expansão generalizada na época.

 

Licenciado em medicina e seguidor zeloso da Igreja Adventista do Sétimo Dia, John Harvey Kellog (1852 – 1943) acaba por se distanciar da sua comunidade religiosa devido à sua visão da ciência como saber que lhe permitiria ultrapassar os dogmas tradicionais. Nomeado diretor do afamado sanatório de Battle Creek vai aplicar métodos holísticos, dando especial ênfase à nutrição vegetariana, ao exercício e ao uso terapêutico de frequentes banhos de rádio e clisteres de iogurte (simples e inteiro). Entre os seus clientes figuravam Henry Ford, Thomas Edison, Bernard Shaw, Sara Bernhardt, Amelia Earhart, Richard Halliburton e Johnny Weismuller.
Condenava acerrimamente a masturbação, responsabilizando-a por provocar câncer cervical, doenças urológicas, impotência, epilepsia, insanidade e outras doenças mentais. Entre as medidas drásticas que recomendava para erradicar tal “vício” incluía a mutilação para ambos os sexos. Aconselhava também que se deveriam atar as mãos às crianças antes de irem para a cama, proteger os genitais, costurar o prepúcio ou aplicar choques elétricos. A circuncisão fazia também parte do seu receituário, a ser contudo feita por um cirurgião sem recurso a anestesia, pois que “o breve momento de dor durante a cirurgia terá um efeito saudável na sua mente, especialmente se for ligada à ideia de punição”. Às mulheres recomendava a aplicação de ácido carbólico puro (fenol) no clitóris, “como excelente maneira de acalmar as excitações sexuais”. Julgo que nem o EI propõe tal solução. Talvez por ignorância.


E foi devido à sua preocupação com a masturbação que inventou a manteiga de cacau e os cereais que, produzidos na sua fábrica, ainda hoje levam o seu nome: Kellog’s Corn Flakes. Eles faziam parte de uma dieta que deveria reduzir o apetite sexual e por conseguinte, a masturbação, vício que destruía a vontade e a saúde, o “assassino silencioso da noite”. Pelo sim pelo não, o melhor é não o darem aos vossos filhos e netos ao pequeno-almoço. E também não o comam.

 

Um dos livros que deveria ser obrigatório ler nas disciplinas de educação sexual e de cidadania deveria ser o Nerve-Vibration and Excitation as Agents in the Treatment of Functional Disorder and Organic Desease, onde o doutor Joseph Mortimer Granville (1833 - 1900) descrevia minuciosamente o efeito provocado por um massajador eletromecânico de sua invenção, quando aplicado em certas zona do corpo das mulheres suas (im)pacientes para o tratamento da histeria. Era então ideia dominante que a histeria fosse a doença típica e que mais afetava as mulheres, estimando-se que uma em cada quatro dela padeciam. O tratamento recomendado era uma massagem na zona pélvica que terminaria com um “paroxismo histérico”, como era na altura referido o orgasmo. Já sem mãos para tantas massagens, Granville idealizou esse aparelho e anotou as diferentes reações sentidas em função da zona do corpo em que era aplicado e da variabilidade da velocidade de rotação.
Diz-se que o seu consultório estava sempre cheio e que as pacientes, para bem da sua saúde, nunca faltavam aos tratamentos. Há um filme inglês que aborda esta questão e que, sabe-se lá porquê, está a passar num dos pacotes da nossa e vossa televisão. Realizado em 2011 por Tanya Wexler, chama-se precisamente Hysteria ou Boas vibrações. O aparelho eletromecânico de Granville acabou por ficar conhecido com o nome de “vibrador” e era na altura anunciado com a maior inocência, como se pode ver na reprodução abaixo.

 

 

 

vibrador.jpg

 

Já o doutor Sérge Voronoff (1866 – 1951), interessado em saber como as secreções das glândulas sexuais influenciavam o nosso organismo, dedicou-se à castração de animais e ao seu implante posterior noutros seres, utilizando técnicas aprendidas com o prémio Nobel, Alexis Carrel. Num estudo que fez no Egito sobre os eunucos (1896 – 1910) concluiu que todos eles eram gordos, com pouco desenvolvimento muscular, voz flauteada, envelhecimento precoce, sendo normalmente cobardes, indolentes, sem energia e muito limitados intelectualmente.
Para universalização desta sua tese vai servir-se do exemplo de Abelardo, que, segundo ele, a partir da altura em que foi castrado, nunca mais escrevera nada com interesse. Não sendo isto verdade, uma vez que a produção intelectual de Abelardo se tornara muito mais importante a partir do seu infeliz acidente com a prima, tal afirmação só poderá ser compreendida pela intenção de querer fazer prevalecer a todo o custo a sua tese, segundo a qual, se a retirada das glândulas sexuais dava origem a seres limitados, moles e envelhecidos precocemente, então a adição de hormonas sexuais estimularia a energia muscular, a atividade cerebral e a “paixão amorosa”.


Para levar à prática as suas teorias, inicia um programa de transplantes de tiroides de chimpanzés para seres humanos. Passou depois a utilizar para o transplante, testículos de criminosos logo após terem sido executados. Tendo a procura aumentado, acabou por se decidir pela utilização de tecido de testículos de macaco.
O seu primeiro transplante de glândula de macaco para um ser humano foi feito em 12 de junho de 1920. Este seu tratamento entrou na moda ao longo dos anos 20. Em 1923, 700 dos cirurgiões mais afamados reunidos no Congresso Internacional de Cirurgiões em Londres, aplaudiram o sucesso obtido por Voronoff no seu trabalho em prol do “rejuvenescimento” de homens mais velhos. Nos princípios de 1930, só em França já tinham sido enxertados mais de 500 homens, a juntarem-se aos mais de mil operados em todo o mundo, nomeadamente numa clínica especial em Argel. Devido à proibição da caça de macacos decretada pelo governo francês, e dada a enorme procura registada, Voronoff acabou por instalar na Riviera italiana uma quinta para criação de macacos.


Mas não se esqueceu das mulheres, e nos seus últimos trabalhos incluiu o transplante de ovários de macacas em mulheres. Experimentou também o transplante de um ovário humano em macacas, tentando em seguida inseminá-lo com esperma humano.
Toda esta enorme reputação que teve, bem como o meio em que se movimentou, deram origem a vários romances, novelas e contos, dos quais cabe destacar o famoso Coração de Cão de Mikhail Bulgagov, escrito em plena União Soviética em 1925. Fica-nos também o método publicitário das fotografias da mesma pessoa antes e depois do tratamento, amplamente utilizado por Voronoff.

 

Só nesta pequena amostra descobrimos algumas hipocrisias ou contradições dentro da mesma sociedade. Se por um lado impunham regras tão draconianas relativamente à exibição de potência sexual (a masturbação), por outro viam com bons olhos (haja dinheiro para os óculos) o enxerto de glândulas de macaco para aumentar a potência sexual dos homens adultos. Provavelmente quando se acabassem os macacos, passariam aos africanos negros, mito rácico que ainda se mantém. Se eu estivesse na situação deles há muito que teria começado a dizer que tal era mentira, exibindo miniaturas de cores escuras. Desta vez foram salvos pelo Viagra.


Outro problema interessante é o que é posto pelo anúncio do vibrador: um século passado, vivendo numa sociedade que se acredita ser tão permissiva, seria impossível a colocação de um tal retrato como angariador de clientes. O máximo permitido são os do Paulinho com as suas boazonas penduradas em cada um dos braços, com um jogo de futebol a decorrer em fundo, garantindo-nos que depois é que vai ser bom, com o tal endurecedor fast, que em português do acordo quer dizer fast. É claro que a verdadeira pornografia é hoje constituída por toda a programação comunicacional, pelo que há que dar um ar de seriedade e moralidade que pretensamente proteja os bons costumes, algo que o governo está sempre atento até para justificar a sua existência, pelo que o tal anúncio do vibrador seria “censurado”.
Para além de todas estas curtas e singelas interpretações, o problema base vem da apropriação da ciência feita pelos grandes grupos económico-financeiros, transformando-a cada vez mais em tecnologia. O sistema económico no seu esplendor: se dá lucro, é correto, verdadeiro e moral. Até a imperfeição do homem, com a sua memória curta, joga a favor. Se de facto o homem foi assim feito é porque havia razões para que assim fosse: para não obviar ao desenvolvimento do sistema económico. Donde …

 

Documentos de um tempo ausente (2)

Demorar tempo demais a fazer justiça, é recusá-la
Papá, porque é que os brancos tratam tão mal as pessoas de cor?”, M. Luther King.
Quem se esquecerá que éramos tratados por “tu”, não por sermos considerados como amigos, mas porque o “vós” estava reservado apenas para os Brancos?”, Patrice Lumumba.


2. “Carta da Prisão de Birmingham” de Martin Luther King.

 

Embora o discurso de Martin Luther King sobre o sonho que teve (“I have a dream”) seja a sua peça mais conhecida, não é contudo, o seu e pronunciamento mais importante sob o ponto de vista da perceção social do momento oportuno. É esta “Carta da Prisão de Birmingham” que ele escreve em 1963 que vai, meses depois, desencadear a célebre Marcha sobre Washington:

Aprendemos pela nossa dolorosa experiência que o opressor nunca concede voluntariamente a liberdade àqueles que oprime. Os oprimidos são obrigados a reclamá-la. Francamente, nunca estive envolvido numa campanha de ação direta que parecesse “oportuna” aos que nunca sofreram do excesso de segregação. Há anos que ouço dizer: “Esperem!”, e esta palavra soa aos ouvidos de um negro com uma familiaridade lancinante. Este famoso “esperem” foi quase sempre sinónimo de “nunca”. Tem sido como que um tranquilizante para a gestação, que nos liberta momentaneamente do stress emocional, para engendrar depois uma criança doente, enformada de frustração. Assim chegamos à conclusão, como diz um dos nossos distintos juristas, que “demorar tempo demais a fazer justiça, é recusá-la”.
Há mais de trezentos e quarenta anos que esperamos para poder usufruir dos nossos direitos constitucionais e dos simples direitos humanos que Deus nos deu. Nações da África e da Ásia caminham a velocidade estonteante para a sua independência política, enquanto nós ainda caminhamos a passo de tartaruga para a conquista do direito de beber uma chávena de café ao balcão de um snack-bar da esquina. Para os que nunca sentiram os dardos acerados da segregação, talvez seja fácil dizer: “Esperem”. Mas quando a populaça cheia de ódio enforca o vosso pai e a vossa mãe e afoga os vossos irmãos e irmãs ao sabor da sua fantasia; quando polícias medonhos, com a injúria na boca, brutalizam e por vezes até matam os vossos semelhantes com toda a impunidade; quando a imensa maioria dos vossos vinte milhões de irmãos negros vive esmagada pela miséria no meio de uma sociedade opulenta; quando as palavras vos faltam subitamente e começais a gaguejar ao procurardes explicar à vossa filha de seis anos porque não pode ir ao novo parque de atrações sobre o qual acabou de ver uma reportagem na televisão e quando os seus pequeninos olhos se marejam de lágrimas quando lhe explicais que esse parque (Funtown) é proibido às crianças de cor; quando as nuvens sombrias de um complexo de inferioridade tomam forma no seu espírito infantil e a sua pequena personalidade se altera ao desenvolver um rancor inconsciente em relação aos brancos; quando tende de encontrar uma resposta para o vosso filho de cinco anos que vos pergunta num sofrimento agonizante: “Papá, porque é que os brancos tratam tão mal as pessoas de cor?”; quando, durante uma viagem fora da cidade, tendes de dormir noite após noite nos assentos desconfortáveis do vosso carro porque nenhum motel vos aceitará; quando sois humilhados dia e noite pela visão de painéis com as inscrições: “brancos” e “pessoas de cor”; quando sois invariavelmente chamados de “negro” seja qual for o vosso nome, quando sois tratados por “meu velho” mesmo se fordes jovem e quando o vosso apelido é sempre “John” e os nomes da vossa mulher e da vossa mãe nunca são antecedidos pela elementar forma de cortesia “senhora”, e quando sois assediados e assombrados toda a noite pelo fato de serdes um negro, vivendo constantemente sobressaltado e sem saber aquilo que vos espera; quando o medo e o rancor se instalam dentro de vós e tendes de lutar continuamente contra o sentimento degradante de “não ser alguém”; nesse caso, sim, compreenderíeis porque não podemos esperar mais. Chega um tempo em que a taça da paciência transborda e o homem recusa que o mergulhem num abismo de injustiça onde vive a frialdade do desespero corrosivo. Espero, Senhores, que compreendereis o que há de legítimo e inevitável na nossa impaciência.”

 

3. “Discurso da Proclamação da Independência do Congo”, por Patrice Emery Lumumba.

 

Outro documento notável como expressão de coragem individual é o discurso proferido a 30 de Junho de 1960 pelo então Primeiro-ministro Patrice Emery Lumumba, a quando da proclamação da independência do Congo em Léopoldville (agora Kinshasa) frente ao Rei Balduíno Primeiro e demais altos representantes das nações creditadas para o acontecimento.

 

Congoleses e Congolesas. Combatentes da Independência hoje vitoriosa. Saúdo-vos em nome do governo congolês.
A todos vós, meus amigos, que lutaram connosco sem desfalecimento, peço-vos para que façam deste 30 de junho de 1960 uma data ilustre que fique indelevelmente gravada nos vossos corações, uma data cuja significação ensinarão com orgulho aos vossos filhos, para que estes por sua vez a deem a conhecer aos seus filhos e aos seus netos, a da história da nossa luta gloriosa pela conquista da liberdade.
Porque se esta Independência do Congo é hoje proclamada em acordo com a Bélgica, país amigo que tratamos de igual para igual, nenhum Congolês digno desse nome poderá jamais esquecer que foi pela luta que ela foi conquistada, numa luta de todos os dias, numa luta ardente e idealista, numa luta onde não escamoteámos as nossas forças, nem os sofrimentos, nem o nosso sangue.
Foi uma luta de lágrimas, de fogo e de sangue à qual nos mantivemos fiéis até ao mais profundo dos nossos seres, porque foi uma luta nobre e justa, uma luta indispensável para pôr fim à humilhante escravidão que nos foi imposta pela força.
Aquilo que nos aconteceu durante 80 anos de regime colonialista, as nossas feridas estão ainda tão frescas e são tão dolorosas que não as podemos afastar da nossa memória. Nós sofremos o trabalho impiedoso e exaustivo em troca de salários miseráveis que não nos permitia dar de comer à nossa fome, nem de nos vestir ou de nos alojar decentemente, nem de educar os nossos filhos como entes queridos.
Nós sofremos ironias, insultos, agressões e pancadas infligidas de manhã, à tarde e à noite, apenas porque éramos negros. Quem se esquecerá que éramos tratados por “tu”, não por sermos considerados como amigos, mas porque o “vós” estava reservado apenas para os Brancos?
Sofremos a espoliação das nossas terras em nome de textos pretensamente legais que o único que faziam era reconhecer o direito do mais forte.
Sofremos a desigualdade de tratamento perante a lei que não era nunca a mesma conforme se tratasse de um Branco ou de um Negro: flexível e acomodatícia para uns, cruel e desumana para os outros.
Sofremos atrozmente pelas nossas opiniões políticas ou religiosas; exilados dentro da nossa própria pátria, num destino mais cruel que a própria morte.
Sofremos o vexame de vermos a existência nas nossas cidades de casas magníficas para os Brancos e de palhotas decrépitas para os negros; que um Negro não podia entrar nem nos cinemas, nem nos restaurantes, nem nas grandes lojas; que um Negro viajava sempre na parte de trás, ficando reservada a cabine de luxo para os Brancos.
Quem se esquecerá dos disparos das espingardas com que muitos dos nossos irmãos foram mortos, das jaulas para onde foram brutalmente metidos todos aqueles que não se queriam submeter à justiça de um regime de opressão e exploração?
Tudo isto, meus irmãos, nós sofremos profundamente.
Mas também vos dizemos, que tudo isso que sofremos no nosso corpo e no nosso coração durante a opressão colonialista, nós que o voto dos vossos representantes elegeu para dirigir o nosso querido país, tudo isso acabou.
A República do Congo foi proclamada e o nosso querido país está agora na mão dos seus próprios filhos.
Juntos, meus irmãos, minhas irmãs, iremos começar uma nova luta, uma luta sublime que conduzirá o nosso país à paz, à prosperidade à grandeza.
Juntos, iremos estabelecer a Justiça social e assegurar que cada um receba a justa remuneração pelo seu trabalho.
Juntos iremos mostrar ao mundo aquilo que o homem negro pode fazer quando ele trabalhar pela liberdade, fazendo do Congo o centro de irradiação para toda a África inteira. Juntos iremos assegurar que as terras da nossa pátria sejam utilizadas a favor dos seus filhos. Juntos iremos rever todas as leis do passado e fazer novas leis que sejam justas e nobres.
Juntos iremos pôr fim à opressão do pensamento livre e tudo faremos para que os cidadãos possam gozar plenamente das liberdades fundamentais previstas na declaração dos Direitos do Homem.
Juntos iremos suprimir eficazmente todo o resquício de discriminação seja ela qual for e dar a cada um o seu justo lugar que lhe assegure a sua dignidade humana, o seu trabalho e a sua devoção ao país.
Juntos iremos fazer reinar, não a paz das armas e das baionetas, mas a paz dos corações e das boas vontades.
E para que tudo isto se cumpra, caros compatriotas, estejam certos que iremos poder contar, não somente com as nossas enormes forças e com as nossas imensas riquezas, mas também com a assistência de numerosos países estrangeiros que connosco querem colaborar lealmente sem nos quererem impor uma política, seja ela qual for.
Neste domínio, a Bélgica que, compreendendo enfim o sentido da história, não tentou opor-se à nossa independência, está pronta a conceder-nos a sua ajuda e a sua amizade, pelo que já assinámos um tratado entre os nossos dois países iguais e independentes. Esta cooperação, estou seguro, será vantajosa para os dois países. Pela nossa parte, embora nos mantenhamos vigilantes, saberemos respeitar os compromissos livremente assumidos.
Assim, tanto internamente como exteriormente, o Congo novo, a nossa querida República que o meu governo vai criar, será um país rico, livre e próspero. Mas para conseguirmos alcançar sem demora estes objetivos, peço-vos a todos vocês legisladores e cidadãos congoleses, que me ajudem com todas as vossas forças.
Peço-vos a todos que esqueçam as querelas tribais que só nos esgotam e que nos fazem parecer não respeitáveis aos olhos estrangeiros. Peço à minoria parlamentar que ajude o meu governo através de uma oposição construtiva, mantendo-se estritamente dentro das vias legais e democráticas.
Peço-vos a todos que não enjeitem qualquer sacrifício por forma a garantir este empreendimento grandioso.
Peço-vos por fim que respeitem incondicionalmente a vida e os bens dos vossos concidadãos e dos estrangeiros estabelecidos no nosso país. Se a conduta desses estrangeiros não se conformar com as nossas leis, a nossa justiça prontamente os expulsará do território da República; se pelo contrário a sua conduta for boa, devem ser deixados em paz, porque eles também trabalham para a prosperidade do nosso país.
A Independência do Congo marca um passo decisivo na libertação de todo o continente africano.
Eis pois, Excelências, Senhoras e Senhores, caros compatriotas, meus irmãos de raça, meus irmãos de luta, o que eu vos quis dizer em nome do meu governo neste dia magnífico da nossa Independência completa e soberana.
O nosso governo, forte, nacional, popular será o orgulho deste povo.
Honra aos combatentes da liberdade nacional!
Viva a Independência e a Unidade Africana!
Viva o Congo independente e soberano.”


Martin Luther King foi assassinado a 4 de Abril de 1968 em Memphis, Tennessee.
Patrice Lumumba foi preso e assassinado por mercenários catangueses a soldo de Moisés Tshombe (e outros) a 17 de Janeiro de 1961, seis meses e meio depois de ter proferido este discurso. O seu corpo foi desmembrado, regado com ácido e os pedaços espalhados por vários locais.
O costume.


Perguntas que os miúdos fazem para os mais crescidos responderem: Porque é que tiveram estas três pessoas de serem assassinadas? Para que o mundo pudesse ficar melhor? Porque é que se pergunta “porque é “? Porque é que se pergunta? Para que serve perguntar? O que é ser assassinado? O que é o mundo ficar melhor? O que é mundo? O que é melhor?

 

Documentos dum tempo ausente (1)

Jura, perjura, mas não reveles o segredo!”, Prisciliano.

"Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica", do Credo.

 

A Razão não nos impede de sonhar, diz-nos apenas que o sonho não é parte que a razão possa conhecer. Pela razão podemos concluir que não há movimento sem tempo. Assim, da mesma forma que Heraclito concebeu o movimento imóvel, o movimento absoluto, também lhe poderemos fazer corresponder um tempo imóvel, um tempo absoluto. Mas poderemos também pensar num tempo em que não haja tempo, em que o tempo se ausente, um tempo sem tempo onde esteja inscrito todo o tempo para todo o tempo. Nesse ‘local’ onde o tempo está ausente, encontraremos certamente inscritos alguns escritos para sempre do tempo ausente. Três deles serão aqueles que aqui vos proponho reproduzir.


1. O Credo


Desde cedo, o Cristianismo fez a sua entrada na península, talvez ainda no tempo dos apóstolos. O que sabemos pelo certo é que o primeiro concílio ibérico teve lugar entre 300 e 304 em Elvira, onde se reuniram mais de trinta e seis episcopais, o que atesta bem já da expansão e estruturação do cristianismo na península, especialmente tendo em conta que ele se realizou entre 303 a 311, que foram os anos das maiores perseguições aos cristãos, ordenadas pelo Imperador Diocleciano.
Os concílios, feitos a vários níveis hierárquicos, serviam essencialmente para resolver questões relacionadas com a pureza ortodoxa da religião e da fé, “para evitar que cada um dos presentes trabalhe de forma distinta nas suas igrejas”, onde se debatiam os dogmas religiosos e as correntes heterodoxas (as heresias), onde se julgavam os bispos e o clero em geral, por ações e queixas apresentadas mesmo por paroquianos. Não existindo carreiras de transporte, hotéis, serviço de correios, telefone, etc., a única forma para se decidir algo em conjunto exigia a presença conjunta num mesmo local, o que implicava quase sempre uma deslocação demorada, difícil e perigosa. É correto afirmar que a principal missão dos concílios era preparar o combate às heresias, que para além de preconizarem desvios ao dogma instituído, podiam provocar cismas graves no interior da Igreja. Com fins idênticos, embora com outros meios, temos hoje a versão económica dos ‘concílios’ de Davos.


A propagação das heresias fazia-se normalmente pelos caminhos das peregrinações (a internet da altura). Os peregrinos que partiam em busca da Terra Santa regressavam com relíquias sagradas, obras literárias, filosóficas, teológicas, nem sempre ortodoxas, influências de contactos com personagens e culturas greco-orientais, algumas nitidamente heréticas.


Uma das heresias mais expandida era o Arianismo, doutrina de Ário de Alexandria (c. 250 – c. 336). Embora compartilhasse uma teologia trinitária, negava a identidade substancial das três Pessoas, considerando apenas que eram semelhantes. Para Ario, quer o Filho quer o Espírito Santo tinham substâncias diferentes do Pai: o Filho fora criado por Deus antes do tempo e da criação do mundo a partir do nada, por um ato de vontade divina. Assim, ao criá-lo, o Pai não lhe dava a sua natureza, visto que se o fizesse diminuir-se-ia pela perda de algo. E da mesma forma como Deus cria o Filho/ o Verbo, cria também o Espírito Santo, o mundo e os entes. Daqui conclui que se o Filho não tem a mesma natureza do Pai, então não é verdadeiro Deus, mas uma criatura entre as outras, sendo apenas um exemplo moral; e ao encarnar num corpo, sem o intermédio da alma, tem apenas uma natureza divina. Cristo encontra-se portanto, perfeitamente subordinado ao Pai, sendo Filho por adoção. Logicamente também não crê na virgindade de Maria, nem na linhagem divina de Jesus.

 

Outra das heresias, o Origenismo, foi trazida para a Península por dois irmãos de Braga, os Avitos, após as peregrinações que efetuaram a Roma e à Terra Santa. Doutrina preconizada por Orígenes (c. 185 – c. 254), um dos primeiros teólogos cristãos, nascido em Alexandria em 185 e falecido em Tiro em 254, e segundo a qual Deus criou toda a eternidade, sendo Cristo ou o Verbo eternamente gerado do Pai, mantendo com ele uma relação de subordinação. O mundo inicialmente criado por Deus era um mundo espiritual, habitado por espíritos, incluindo as almas humanas. Como esses espíritos eram livres, usando dessa liberdade, uns permaneceram bons e outros pecaram. Os primeiros são os anjos, os segundos foram castigados e encerrados em corpos invisíveis (os demónios) e em corpos visíveis (almas humanas). Como Deus é bom, pretende que todos regressem ao estado inicial, o que só será possível após um longo período de purificação. A redenção dos espíritos caídos em pecado é feita por Cristo que se une a uma alma virgem de pecado e, por ela, a um corpo humano.


Outra heresia importante, e esta oriunda da Galiza ou da Lusitânia, foi o Priscilianismo. A doutrina de Prisciliano (345 – 385) negava a Trindade divina, negava a criação do mundo, negava o nascimento de Cristo, negava a sua carnalidade, negava a ressurreição, condenava o matrimónio, abstinham-se de comer carnes das aves e outros animais, e acreditavam na astrologia e matemáticas como algo que se encontrava para além da Divina Trindade. Afirmava ainda que fora o Pai e não o Filho que sofrera na cruz e que a alma humana era uma parcela da divindade que fora possuída pelos espíritos do mal e metida à força no corpo.
O Priscilianismo na sua explicação do mundo reconhecia a existência de dois princípios únicos e iguais em luta constante, o princípio do Mal ou das Trevas, e o princípio do Bem ou da Luz. Embora considerasse Deus como força perfeita, princípio dos princípios, vai colocar ao seu lado a força do Mal. Considerava que o mundo e a matéria tivessem sido  criados pelo princípio do Mal, como criação de Satã, sendo habitados pelo Mal, e que o mundo espiritual, o mundo do Bem, fora criado por Deus. Assim sendo, toda a matériaseria oriunda de uma criação maléfica, não podendo ser reconduzida ao princípio do Bem: a matéria e o Bem são substâncias que se rejeitavam mutuamente.


Segundo estes princípios, o Mal tem, tal como o Bem, capacidade de criar a partir do nada, havendo portanto uma equiparação do Mal ao Bem. O princípio do Mal é também o de um ser espiritual com poder criador, mas que não fora criado por Deus, tendo sua origem sido o caos e as trevas. Assim, é autossuficiente, basta-se a si mesmo. Sendo ele que cria a matéria, esta será essencialmente má. O corpo sendo matéria, será também mau: é o cárcere da alma. E explicam: as almas habitavam um lugar celestial, mas porque pecaram, foram conquistadas pelo império do Mal, metidas por castigo nos corpos materiais. Cabe a Cristo resgatar as almas, por isso desce à terra. Mas Cristo não pode ter natureza humana, o seu corpo não passa de ilusão, de aparência ou fantasma, pois não poderia ter nada a ver com a matéria criação do Mal.
Esta negação da materialidade de Cristo vem contrariar a doutrina católica da Encarnação, da Ressurreição de Cristo, e da ressurreição final da carne.
O ascetismo dos Priscilianos é o processo que utilizam para se libertarem da matéria e da ascensão para Deus. Pelas mesmas razões (a carne é má), condenam o matrimónio, aconselham a total abstinência sexual, são contra a geração de crianças (as crianças no ventre materno são obra demoníaca), e contra a ingestão de carne por ser alimento impuro.


Mas, porque era considerado o Priscilianismo assim tão perigoso para a Igreja? Fundamentalmente porque se pretendia constituir como um conhecimento que tinha como finalidade fornecer uma explicação total do mundo, do homem e de Deus, por processos racionais ou extrarracionais. Ou seja, o Priscilianismo era um gnosticismo ao considerar que o homem era capaz de atingir, por si só, pela racionalidade, a divindade.
Curiosamente, na obra escrita por Prisciliano, nada se encontra de heterodoxia, sendo até profundamente ortodoxa. Há quem diga que tal não passava de uma máscara para as atividades que desenvolvia. É dele o lema “Jura, perjura, mas não reveles o segredo!”. Outros dizem que como ele se dirigia a um público rude, gente sem instrução, era preciso recorrer à alegoria e à parábola, num certo desvio das palavras das Escrituras, para que a pudessem entender.
Seja como for, as suas pregações chamaram a atenção da Igreja, tendo Prisciliano e dois bispos seus seguidores sido condenados no concílio de Saragoça em 380. O que de nada serviu pois estes bispos, logo de seguida, elegeram Prisciliano, que era leigo, para bispo de Ávila!
Apresentada queixa ao Imperador, este decreta a expulsão de Prisciliano da cátedra episcopal. Prisciliano resolve ir a Roma para se defender da acusação. Durante o longo trajeto, vai convertendo grande número de crentes. A fama de práticas dionisíacas e bacanais durante os seus ensinamentos precederam a sua chegada a Roma. O Papa recusa recebê-lo, mas Prisciliano suborna um chanceler imperial que lhe dá a confirmação do bispado de Ávila. O Papado reage e consegue que o Imperador Máximo o leve a tribunal, onde é acusado, não de heresia, mas de práticas mágicas e atentados ao pudor: é condenado à morte por decapitação juntamente com alguns dos seus companheiros. Contrariamente à expectativa da Igreja, essa morte vai convertê-lo num mártir para a Península, impulsionando o desenvolvimento e enraizamento do Priscilianismo.

 

Em 325 é realizado o primeiro grande Concílio da Igreja, o Concílio de Niceia, que é presidido pelo Imperador Constantino, recém-convertido ao cristianismo e que via no monoteísmo cristão uma indicação divina justificativa do seu cargo imperial, pelo que havia que acabar com a dissidência ariana dentro da Igreja para que a Igreja pudesse ser forte e una. Era nessa altura Papa Silvestre I, tendo sido Hossius, bispo de Córdova, o principal organizador do concílio.
Para os conciliares, assoberbados pelas heresias que cada vez surgiam em maior número, tratava-se de conseguir produzir um documento normativo que acabasse de vez com quaisquer dúvidas sobre o presente e futuro do que era ser cristão, assentes no conceito teológico fundamental de se considerar a identidade das três Pessoas (Pai, Filho e Espírito Santo) como sendo a “mesma substância”. Assim, o Filho não estaria subordinado ao Pai, sendo da mesma substância. O Verbo não seria criado, mas gerado e consubstancial ao Pai. Cristo teria natureza humana, não sendo um mero exemplo moral, pois tal comprometeria o plano divino da salvação.
Do Concílio de Niceia vão sair o que se considera serem a partir daí, as verdades dogmáticas da Igreja, expressando-as através de um credo, ainda hoje recitado pelos católicos, e que resume toda a doutrina:

 

Creio em um só Deus, Pai todo-poderoso, Criador do Céu e da Terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis.
Creio em um só Senhor, Jesus Cristo, Filho Unigénito de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos; Deus de Deus, Luz da Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro; gerado, não criado, consubstancial ao Pai. Por ele todas as coisas foram feitas.
E por nós, homens, e para nossa salvação, desceu dos céus e se encarnou pelo Espírito Santo, no seio da Virgem Maria, e se fez homem.
Também por nós foi crucificado sob Pôncio Pilatos; padeceu e foi sepultado. Ressuscitou ao terceiro dia, conforme as Escrituras, e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai.
E de novo há-de vir, em sua glória, para julgar os vivos e os mortos; e o seu reino não terá fim.
Creio no Espírito Santo, Senhor que dá a vida, e procede do Pai e do Filho e com o Pai é adorado e glorificado: Ele que falou pelos profetas.
Creio na Igreja, una, santa, católica e apostólica.
Professo um só batismo para a remissão dos pecados. E espero a ressurreição dos mortos e a vida do mundo que há-de vir. Ámen.”

 

Independentemente do seu valor de crença e expressão religiosa que cada um lhe queira atribuir, trata-se de um documento excecional de síntese, onde se reúne de uma forma sucinta e clara toda uma doutrina. É neste sentido um manifesto único e sem igual, que figurará para sempre no tempo ausente.

 

 

 

 

 

 

Porque não foi Caim punido?

Avozinha diz-me cá, depois da guerra os ‘Dez Mandamentos’ voltam a entrar em vigor?”, Olaf Gulbransson, 1918.
Só se for para fins terapêuticos”, Código de Nuremberga.

 

É no Génesis que aparece contada a história de Caim e Abel. Para os que já não se lembrem e para os que andam distraídos, Adão e Eva tiveram, entre outros, dois filhos a quem chamaram Caim, o primogénito, e Abel ao que se lhe seguiu. Caim cultivava a terra e Abel pastoreava o gado. Um dia, resolveram ambos fazerem um sacrifício ao Senhor. Caim ofereceu produtos da terra e Abel ofereceu recém-nascidos do seu rebanho. Para espanto e indignação de Caim, o Senhor aceitou apenas as ofertas de Abel, desdenhando as de Caim. “E irou-se Caim fortemente, e descaiu-lhe o semblante […] E falou Caim com o seu irmão Abel; e sucedeu que, estando eles no campo, se levantou Caim contra o seu irmão Abel, e o matou. E disse o Senhor a Caim: ‘Onde está o teu irmão Abel?’” Caim responde com um: “Não sei. Acaso sou guardião do meu irmão Abel?”


Neste episódio há várias coisas interessantes: a dissimulação de Caim (‘descaiu-lhe o semblante’) significando que não pretendia confessar o crime; a hipocrisia do Senhor que, sabendo perfeitamente o que tinha acontecido, não só não interviera como até tinha dado motivo a que o ato fosse praticado. Mais inquietante é a resposta de Deus, que não só não pune o homicida, como o põe sobre sua proteção pessoal, ao dizer: “A vingança pertence-me”.
É assim lícito concluirmos que há crimes que são cometidos no mundo, que o Senhor não previra e cujo castigo não fora ainda equacionado. Por isso, a resolução do crime de Caim foi adiada para o Juízo Final.

 

Pelas cinco da tarde do dia 22 de Abril de 1915 em Ypres (Bélgica) o exército alemão libertou 160 toneladas de cloro pressurizado ao longo de seis quilómetros da frente de batalha que foram levados pelo vento em direção às trincheiras francesas e canadianas. Nesse dia começara a moderna guerra química. O seu inventor foi o químico Fritz Haber, que três anos depois recebeu o Nobel de Química.
O comandante em chefe da força expedicionária aliada, Sir John French, instou Londres para que lhe fossem fornecidos armamento idêntico, o que só foi possível de ser feito em Setembro. Foi desastrosa a sua utilização, porque devido a uma alteração do vento, foram envenenados centenas de soldados aliados.


Foram criados vários centros de pesquisas em quase todos os países com vista à obtenção de substâncias cada vez mais letais, fossem elas químicas, bacteriológicas ou farmacológicas, por forma a contribuírem para a vitória desejada. O historiador Ulf Schmidt, diretor do Centro de História da medicina da Universidade de Kent, conta-nos a parte relativa às experiências feitas nas instalações ultra secretas de Porton Down, no seu livro Secret Science: A Century of Poison Warfare and Human Experiments, da Oxford University Press, onde sobressaem alguns aspetos dignos de nota, como o da colaboração estreita que se verificava entre cientistas e militares, a sua ética e os seus métodos experimentais.
Porton Down com uma área de 2.500 hectares continha vários laboratórios onde trabalhavam uma elite de fisiologistas, patologistas, meteorologistas, e muitos outros vindos das melhores universidades britânicas como Oxford, Cambridge e o University College of London. Autodenominavam-se como sendo os “cognoscente”, a casta privilegiada que conhecia os segredos da guerra química. Inicialmente ensaiavam as substâncias em ratos, gatos, cães, cavalos e macacos. Faziam de tudo, desde gaseá-los a deitarem pós mortais ou concentrados de pimenta de caiena diretamente nos focinhos, na busca de novos agentes químicos.
Em 1917, perante um ataque alemão em que foi utilizado gás mostarda, foi criado um novo laboratório destinado às experiências com seres humanos, por forma a mais rapidamente se obterem resultados fiáveis. Foi seu diretor o fisiólogo Joseph Barcroft. As cobaias humanas escolhidas foram inicialmente soldados (nenhum oficial), que eram voluntários e a quem se pagavam mais uns xelins, nenhum sabendo realmente ao que se ia expor. Até 1989, em Porton foram feitas experiências em mais de 20.000 pessoas com gás mostarda, fosgénio, sarin e outros agentes nervosos, antraz, Yersinia pestis (bactéria da peste), mescalina, ácido lisérgico e outras drogas.
Ao entrar na II Guerra Mundial, quaisquer das três potências, Alemanha, Estados Unidos e Reino Unido faziam experiências com seres humanos. Os alemães recorriam normalmente a prisioneiros judeus, russos e polacos. Também em Porton, devido à escassez de soldados disponíveis, se utilizaram os cidadãos das potências do Eixo que tinham ficado prisioneiros.
Os avanços alemães foram notáveis neste campo, tendo criado o primeiro pesticida sintético, o tabún, que para além de ser letal era inodoro e incolor, e ainda o célebre zyklon b que usaram para assassinar milhões de pessoas. As armas químicas que tinham em armazém chegavam às 44.000 toneladas. Quantidades idênticas ou superiores deviam também ter os EUA: é significativo indicar que o Edgewood Arsenal do Chemical Corps do exército que dispunha em 1942de um orçamento da ordem dos dois milhões de dólares empregando 1.000 trabalhadores, viu este orçamento durante o período entre as guerras ser aumentado para 1.000 milhões de dólares e 46.000 trabalhadores. Só o projeto para a construção da bomba atómica é que recebera mais recursos e pessoal.


Porque não foram utilizados na II Guerra? Por receio de retaliação, por serem difíceis de utilizar, por serem imprevisíveis e por poderem atrasar o avanço das tropas caso a terra ficasse contaminada. Mas, as experiências em seres humanos continuaram, apesar do Código de Nuremberga proibir tais ensaios, “a não ser se tivessem fins terapêuticos”. Simples e convincente. Durante as décadas seguintes de 50 e 60 a grande maioria dos voluntários estava convencida que iam participar em ensaios para se encontrar uma vacina contra a gripe. As mortes no local das experiências (o vírus da gripe era por vezes gás sarin entre outros) eram prontamente camufladas pelo Ministério da Guerra invocando diferentes e plausíveis causas das mortes.


Entre 1946 e 1976, foram conduzidas 750 experiências em campo aberto, a maior parte delas realizadas nas colónias, Nigéria, Bahamas ou Malásia. Cinco desses ensaios fizeram-se no mar, com antraz ou com a bactéria da peste bubónica. Numa delas, os militares que libertaram a Yersinia pestis no Mar do Norte, perto da ilha Lewis, não deram pela presença no local de um barco pesqueiro, o Carella, com 18 pescadores. Em vez de os recolherem e trata-los com estreptomicina, deixaram-nos seguir. Resolveram aproveitar o acidente para verificar em os resultados.
Não é de espantar que a 26 de Julho de 1963, os cientistas de Porton Down tenham decidido libertar no metro de Londres, 30 gramas de esporas do Bacillus globigii. Esta bactéria que podia provocar septicémia espalhou-se por várias estações do metro num raio até 15 quilómetros.


Aos poucos a verdade foi sendo conhecida, e já neste milénio um tribunal do Reino Unido, face a uma ação interposta por um dos ‘voluntários’, acabou por reconhecer que a sua morte tinha sido um homicídio provocado pela ”aplicação de um agente nervoso numa experiência não terapêutica”. Em 2008, as autoridades britânicas desculparam-se publicamente, reconhecendo os danos causados, acabando por compensar economicamente 359 dos quase 22.000 soldados que foram usados em Porton Down. Assunto resolvido.


Por estes e muitos outros casos é que aguardo curioso e tranquilizado pelo dia do Juízo Final. Veremos o que vai acontecer nesse dia. Aguardemos enquanto os processos vão sendo estudados. Assunto resolvido.

 

 

 

 

Os nossos muros, muralhas e murinhos

O medo fundamental é o medo de nós próprios
‘Mixofobia’: o medo de se misturar com outras pessoas; sensibilidade alérgica e febril a estranhos e a tudo o que lhe é estranho”.

 

O conceito subjacente a ‘muralha’ ou ‘muro’ é o de ser algo sólido que nos protege, mantendo os inimigos à distância. A muralha, como barreira que visa impedir a entrada de inimigos é uma prática muito arreigada na humanidade passada, que continua a ter grande expressão e entusiastas nas nossas sociedades atuais. Quando o muro de Berlim foi desmantelado existiam na altura 16 muros (border fences) instalados. Desde então, com a ‘globalização, que preconizava a abolição de barreiras, esse número cresceu para 65.


A muralha de Adriano e a muralha da China são os exemplos mais notáveis do passado. Mais perto de nós temos as fortificações ‘impenetráveis’ que constituíam a linha Maginot em França, o muro de Berlim, o muro de Israel na Cisjordânia, a Zona Verde de Bagdad, o muro entre o México e os EUA, o da Índia à volta do Bangladesh (4.000 km), as enormes bermas de areia que separam Marrocos do Sará Ocidental, o Atlântico para os EUA (até às Torres Gémeas serem atingidas), o Mediterrâneo para os europeus, as vedações-muros da Hungria com a Sérvia, do Quénia com a Somália, da Turquia com a Síria, da Arábia Saudita com o Iraque, e ainda os condomínios fechados, as cidades, os muros da indiferença e muitos outros.


Não sendo todos iguais têm contudo um fundo comum, que se manifesta onde menos esperamos encontrá-los. É o caso de um certo urbanismo.


Há poucos anos eram-nos apresentados como exemplos de vida boa e próspera, aqueles infindáveis bairros de infindáveis pequenas casas com relvados à frente e quintal atrás, sem qualquer vedação a separá-las ou a delimitá-las, em que as portas das casas e dos carros não eram fechadas, e onde os vizinhos se encontravam nas suas lides diárias. Chamavam-se apropriadamente ‘comunidades de vizinhança’.


Hoje, tudo isso desapareceu, sendo substituídos pelo novo ideal que são ‘os condomínios’. São anunciados e vendidos como ‘uma nova forma de viver’, alternativa à deterioração verificada nas cidades e nos seus espaços públicos, e onde são garantidas a separação relativamente às classes consideradas socialmente inferiores, em que a segurança é feita através de vedações e muros altos que circundam todo o condomínio, com controlo de entradas efetivo vinte e quatro horas por dia efetuado por guardas, e demais sistemas de segurança. Na realidade eles não passam de comunidades fechadas que servem para separar mundos, com a finalidade de manterem ‘os outros fora’. Assistimos assim à criação de ‘ghettos voluntários’ dos bem instalados e poderosos e de ‘ghettos involuntários’ para os outros. É que as vedações dividem sempre um espaço uniforme em dois lados, um lado de dentro e um lado de fora.


Após as fugas para os subúrbios e para os condomínios, o marketing imobiliário das cidades tinha de encontrar solução para os ‘seus’ espaços que ficaram desqualificados (aqueles que, apesar de serem vistos como locais perigosos e pouco seguros em que os desmandos neles acontecidos eram notícia constante na comunicação social, precisavam de serem vendidos): para além do aumento de vigilância eletrónica a que sujeitaram os espaços públicos, introduziram subtilmente, através do desenvolvimento de uma inovação arquitetónica/urbanística utilizada em tempos de guerra para impedir o acesso aos inimigos, os chamados ‘espaços de interdição’.
Em vez de se construírem pontes, passagens fáceis, locais de encontro, criaram-se esses ‘espaços de interdição’ com a missão de ‘intercetarem, repelirem ou filtrarem os possíveis utilizadores’, o que em linguagem comum significa dividir, segregar e excluir, por forma a dificultar a comunicação entre os residentes das cidades. A sua verdadeira finalidade é retalhar enclaves no espaço contínuo da cidade, onde possam vir a serem edificadas torres, para que os seus proprietários/utilizadores se sintam independentes, protegidos e isolados da comunidade. Ou seja, é um urbanismo que, em vez de defender a cidade e os seus habitantes contra inimigos exteriores, o que faz é afastar os residentes da cidade mantendo-os separados uns dos outros, como se de adversários se tratassem. É a desintegração da vivência comunitária.

Não é pois de admirar o aparecimento de áreas étnicas e de subclasses cada vez mais homogéneas nas cidades. Sabe-se que quanto mais tempo as pessoas viverem em áreas sociais uniformes, ou seja, em companhia de outros que se parecem a eles e com quem se podem socializar sem correrem o risco de serem vexadas ou mal interpretadas nos seus costumes e falares, maior é o risco de não quererem aprender, praticar, ‘negociar’ a convivência com outros de fora. Não é pois de admirar que, uma vez perdidas ou negligenciadas as qualidades necessárias para viverem com a diferença, elas não estejam na disposição de se confrontarem cara a cara com outros ‘estrangeiros’, sem que estes lhes apareçam ameaçadores e incompreensíveis (‘mixofobia’: o medo de se misturar com outras pessoas; sensibilidade alérgica e febril a estranhos e a tudo o que lhe é estranho).


Estes sentimentos de ‘mixofobia’ aparecem ligados a uma enorme sensação de insegurança, de que sofrem todos aqueles que não sabem o que andam aqui a fazer, desconhecem o que vai ser da sua vida e não reconhecem qualquer saída para ela. Andam para ali e fazem o que os outros do grupo fazem. São exemplos das condições existenciais contemporâneas, pessoas que nasceram e vivem numa sociedade desregulamentada, individualizada, num mundo de mudanças constantes, difusas e aceleradas. São simultaneamente as pessoas cuja ansiedade é facilmente manipulada para atingir outras vítimas, e que acabarão, mais tarde ou mais cedo, por serem elas próprias vítimas.

Por detrás de todos estes muros, sejam eles quais forem, físicos ou psicológicos, vamos sempre descobrir o medo. É agitando o papão do medo que as pessoas ‘decidem’ não se importarem de serem menos livres desde que isso lhes garanta mais segurança. Curiosamente, o medo faz-nos tomar ações defensivas, e sempre que tomamos ações defensivas estas conduzem a um novo sentimento de medo. Há como que uma ‘auto reprodução’ do medo que conduz ao seu movimento contínuo perpétuo.
As extraordinárias e custosas medidas de segurança postas em prática na última década, que deveriam servir para aumentar o nosso sentido de segurança, em vez disso aumentaram antes o sentimento de que agora corremos maiores riscos, maiores perigos. A obsessão com a segurança retira a nossa confiança, aumentando a suspeição. Como resultado reforçam-se fronteiras, evita-se a comunicação com estranhos e com estrangeiros que passam a ser tratados como um problema de segurança, criam-se estereótipos de pessoas a procurar, e mais.

 

O enfraquecimento e progressivo desmantelamento do Estado-social deixa à rédea solta a lógica dos mercados, aumentando a vulnerabilidade e incerteza das pessoas. Ao admitir que as atividades orientadas para o lucro contribuem para o bem-estar dos povos, o Estado, para se legitimar, vai ter de encontrar outras vulnerabilidades e incertezas a que se ater. Nada melhor que mostrar-se ‘muito preocupado’ com a defesa da ‘segurança pessoal’, atento às ameaças genuínas ou possíveis à integridade física, ao património e locais de habitação dos cidadãos, sejam elas oriundas de pandemias, da má alimentação, de atividades criminosas, de condutas antissociais da classe baixa e do terrorismo. ‘Impõe’ um verdadeiro estado de alerta: quando não são terroristas são imigrantes, ou escolas islâmicas, ou bairros perigosos, ou pedófilos, ou mendigos, ou gangs, ou tudo o resto que vem nos inúmeros correios das manhãs.

É esta barreira de medo que nos impede de contatar com o outro, que nos faz passar pelas pessoas na rua como se elas não existissem, e que nos acaba por fazer passar pela vida como se ela não existisse: o reconhecimento do outro e no outro é uma fase fundamental sem a qual não nos conheceremos a nós próprios. Este é o medo fundamental, o medo de nós próprios. Não explicado, ampliado, instrumentalizado conduz ao estado atual da sociedade.

 

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