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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Cristo "melhorado"

Nem só de pão vive o homem”, Jesus Cristo.
Deus escreve direito por linhas tortas”, Claudel.

Numa obra de 1948, O Cristo Recrucificado, o grego Nikos Kazantsakis (1883 – 1957) faz uma crítica severa à sociedade que dizendo-se cristã renegava na prática diária tudo o que de mais puro essa religião continha, ao ponto de voltar de novo a crucificar alguém cuja atuação fosse idêntica à de Cristo. Estávamos na Páscoa e alguém tinha de ser crucificado.
Muito mais abrangente e universal era a obra de Fiódor Dostoievski, terminada de escrever em 1879, Os Irmãos Karamazov. Fixemo-nos na parte em que Ivan, um dos irmãos, nos conta a reação do Grande Inquisidor, Cardeal de Sevilha no século XVI, quando viu um Jesus regressado repetir, frente à sua catedral, o milagre de ressuscitar uma criança morta, utilizando palavras de conforto e amor. De imediato, o cardeal mandou os guardas prendê-Lo, ordenando que o encerrassem na masmorra do edifício do Santo Ofício. Durante a noite, visita Jesus e diz-lhe:


“Tu és Ele? És Tu?” Mas, como não recebesse resposta, acrescentou logo: “Não respondas, cala-Te. E que poderias Tu dizer? Sei muito bem o que irias dizer. E, aliás, não tens o direito de acrescentar o que quer que seja ao que já disseste. Porquê, então, vires incomodar-nos? Pois Tu vieste incomodar-nos e bem o sabes. Sabes o que se vai passar amanhã? Ignoro quem sejas, não quero saber. Quer Tu sejas Ele, quer sejas apenas a Sua aparência, amanhã vou condenar-Te e fazer-Te subir à fogueira como o pior dos heréticos, e esse mesmo povo que hoje Te beijava os pés, precipitar-se-á amanhã, a um gesto da minha mão, para amontoar os carvões na Tua fogueira…”


Deliberadamente, friamente, intencionalmente, o Grande Inquisidor opõe-se racionalmente a Jesus, na defesa daquilo que considerava ser a sua Igreja, a única igreja possível. Ele era o representante político de uma Igreja vitoriosa que tivera de corrigir a inabilidade de Jesus para pensar politicamente e para compreender a natureza do ser humano.
Quando Jesus responde à pergunta-pedido que lhe fizeram sobre a não transformação das pedras em pão (“Porque é que, tendo fome, não mandas a esta pedra que se transforme em pão?”) com o “Nem só de pão vive o homem”, tal significa para os Grandes Inquisidores que Jesus não percebia a natureza do ser humano, porquanto só muito poucos estarão aptos para superar a fome; a grande maioria recusará sempre essa liberdade oferecida, trocando-a por pão, rotinas, conforto, segurança.
Com o desaparecimento do Império Romano do Ocidente, a Igreja viu-se forçada a tomar nas suas mãos a tarefa complicada de assumir o poder temporal. Para o Cardeal, apesar do enorme sacrifício que essa tomada do poder acarretou, ela teria de ser feita e não poderia ser de outro modo. Como ele diz:


Mas nós diremos que é a Ti que obedecemos e que é em Teu nome que reinamos sobre eles. E de novo lhes mentiremos, pois, na realidade, não deixaremos que voltes a aproximar-Te de nós. Nesta mentira consistirá o nosso sofrimento.”


Devido ao Seu grande amor pelos seres humanos, Jesus depositara neles demasiadas esperanças, o que obrigou a Igreja a ter de O corrigir tendo em consideração a realidade: é que os homens acabaram por se revelarem ingénuos, pueris, preguiçosos e débeis. Para além disso, a vida humana acaba por ter sempre necessidade de um enquadramento feito de hábitos, certezas, leis e tradições, ou seja, de instituições sociais. Assim, uma Igreja universal só poderia ser erigida e mantida pelos padres que, embora compreendessem perfeitamente o ensinamento de Cristo, se viam permanentemente forçados a pregarem conscientemente o contrário, arcando por isso com o peso moral da mentira consciente. Falam sobre a liberdade cristã ao mesmo tempo que convivem com o sistema das necessidades, pão, ordem, poder, lei, para assim conseguirem dominar o ser humano.
Não é por acaso que o Grande Inquisidor diz que Jesus veio “para incomodar”. Agora que os homens dessa época estavam mais do que nunca convictos que eram livres, agora que a Igreja católica, graças ao terror exercido pelo Inquisidor, tinha estabelecido a dominação da “verdadeira religião” e portanto da liberdade (“Não prometera Cristo que a verdade faria de nós pessoas livres?”), agora que a obra de Jesus além de consumada se encontrava melhorada, agora que a humanidade estava unida pelo cristianismo e consolidada pelo poder e pela Inquisição, agora que era possível já ver no fim da história “centenas de milhões de crianças felizes” que povoariam a terra, mesmo que obrigadas à felicidade e atraídas para o paraíso pelo muito pequeno número que as governa (muito embora para alcançar isso, haja sempre um longo caminho juncado por inúmeras fogueiras), agora é que Ele aparecia. Para quê?
No fim da visita, o Inquisidor “dirige-se para a porta, abre-a, e diz-Lhe:

‘Vai e não voltes … não voltes … Não voltes nunca mais, nunca mais’. E deixa-O partir para ‘os sítios escuros da cidade’. O prisioneiro vai-se embora.”


O Inquisidor sabia que os fins extremamente bons a alcançar no fim dos tempos (as tais centenas de milhões de crianças felizes) justificavam tudo. As fogueiras eram necessárias para imprimir uma direção histórica ao sofrimento humano. “O sofrimento é uma função inevitável do progresso, pois o sofrimento é o elemento de uma estratégia”. Evidentemente o sofrimento daquele que é obrigado a sofrer; o estratega só sofre na medida em que sabe que engana conscientemente.


Várias ilações se poderão tirar do raciocínio do político eclesiástico que é o Grande Inquisidor, nomeadamente a de que tanto a religião pode ser transformada num instrumento da política, como a política pode ser transformada num instrumento da religião, o que vem relativizar tudo aquilo que considerávamos como absoluto. A relativização da moral. O Bem e o Mal podendo constantemente transformarem-se um no outro.
Devido ao seu entendimento do que é o ser humano, a sua política vai basear-se na premissa de que há que enganar o ser humano que o quer ser. “O humano precisa de ordem, a ordem precisa de dominação, e a dominação precisa da mentira. O dominador deve pois fazer um uso consciente da religião, do ideal, da sedução e, se necessário, da violência. Tudo, mesmo os fins, serão sempre meios.” Ou dito de outra forma: um fim último que prometa um sentido à existência justifica todos os meios.


Tal como não nos custaria admitir que se Cristo regressasse então à Terra pudesse vir a ser imolado na fogueira da Santa Inquisição ou recrucificado como nos mostra Kazantzakis, alargando um pouco mais a perspetiva temporal, também hoje não nos custaria admitir que se Nietzche tivesse regressado nos anos do nazismo pudesse vir a ser morto numa câmara de gás, que Marx regressado fosse certamente enviado para a Sibéria, da mesma forma que contemporaneamente não nos causa qualquer inquietação a condenação de nações inteiras à miséria e ao desaparecimento por já não serem úteis para a religião económica darwinística. O que nos conduz para o aparecimento de uma dúvida mais geral: será que sempre que se tentar fazer da “verdade” uma “religião de estado”, ela se transformará sempre no seu contrário?


Se Diógenes hoje aparecesse, rapidamente seria preso por ofensa aos bons costumes, ou então seria integrado num daqueles concursos de televisão onde se exibem as tão humanas anormalidades apreciadas. Uma terceira hipótese, mais provável, era a de ser preso e na prisão criar um concurso de grande sucesso na televisão, com os presos, guardas, seus familiares e amigos, ou seja, com todos nós. Inteligente como era, rapidamente se aperceberia que as pessoas de hoje estão “amestradas a compreender as coisas complicadas, não as coisas simples. Adivinhou que a perversão lhes aparece como a coisa normal.
Nos filmes antigos aparecia, por vezes, aquela recomendação de que o que estávamos a ver não correspondia a uma história real, e que “quaisquer semelhanças com personagens reais eram pura ficção”. Claro que hoje essa recomendação não tem qualquer sentido, porquanto toda a realidade passou a ser ficção, não só com a finalidade de esconder o real mas também para nos dar a sensação de que todos podemos participar: afinal todos somos iguais, todos temos as mesmas oportunidades, uns roubam é mais dos que os outros, o que é o máximo a que a democracia pode tranquilamente aspirar.
Apesar da obra de Dostoievski ser do século XIX e de ele ter situado esta ação no século XVI, é caso para dizer que quaisquer semelhanças com personagens reais do nosso tempo, não são ficção, elas existem mesmo. O problema é que já não sabemos o que é existir.

 

Todos nós fazemos filmes

As coisas não vão bem, há oportunidades que se perdem, há continuamente algo que falha”, Morfeu no Matrix.
Louco não é só um mendigo acreditar que é rei, é também um rei acreditar que é rei”, Lacan.

 

Todos nós, quando vamos de férias, temos a tendência para as recriar, quer durante a sua preparação onde todos os detalhes são previstos e antecipadamente saboreados, quer durante as próprias férias com a tentativa de engrandecermos alguns, mesmo que poucos, momentos ou acontecimentos que nelas se venham a passar, quer até numa projeção antecipadamente sonhada do que delas ficará.
Todos nós, quando estamos doentes, temos a tendência para recriar a ‘nossa’ doença perante os outros, ‘tudo’ contando sobre ela aos nossos ouvintes, incluindo a nós próprios. Neste ‘tudo’ incluímos o mais e o menos, onde cabe a história da família, os possíveis mesmo que não prováveis antecedentes, bem como as consequências futuras mesmo que as não haja. Enfim, ‘um filme’. E é exatamente isto: todos nós somos realizadores de filmes.


É com o filme Matrix dos irmãos Wachowski, que pela primeira vez no cinema (1999) se aborda o problema da realidade virtual, ou seja, daquela situação em que toda a riqueza da nossa experiência sensorial é anulada, reduzindo-a a um mero sinal elétrico de transmissão de uma série de 0 e 1. Com isso pretende-se obter uma experiência “simulada” da realidade que se confunda completamente com a “autêntica” realidade.


Esta tentativa de criar outras realidades dentro da realidade ocorrera já noutras obras cinematográficas, como por exemplo no filme (1953) de George Seaton As 36 Horas. Nele se conta a história de um oficial americano (James Garner) conhecedor dos planos da invasão da Normandia, que é aprisionado pelos alemães poucos dias antes do Dia D. Aproveitando-se do fato do oficial continuar inconsciente devido à explosão que levara à sua captura, os alemães resolvem fazer uma réplica de um pequeno hospital americano, para que quando despertasse, o convencessem que estava no ano de 1950, e que a América tinha ganho a guerra, tendo ele vivido todos aqueles anos com perca de memória. O objetivo era que ele lhes acabasse por revelar os planos da invasão.
No filme (1998) TheTruman show de Peter Weir, Jim Carrey julga viver o seu dia-a-dia numa cidade que afinal não passava de uma construção dentro de um enorme estúdio de televisão. No livro (1984) Starship de Brian Aldiss, uma tribo inteira vive num mundo fechado dentro de uma enorme nave espacial, desconhecendo a existência do universo fora do túnel onde viviam.


Já no Matrix é muito mais elaborada a justificação para existência desse megaordenador (o Matrix) que cria uma rede que vai estruturar a nossa realidade, confundindo a “verdadeira realidade” que se esconde atrás de tudo. A justificação para a sua existência é dada por Morfeu: “As coisas não vão bem, há oportunidades que se perdem, há continuamente algo que falha”.
Ou seja, acredita-se que existe uma realidade “autêntica” para além da nossa realidade quotidiana que depende desse Matrix. Mas podia ser pior: imagine-se que tudo o que existisse fosse gerado pelo Matrix; neste caso não haveria uma realidade última, apenas uma série de realidades virtuais. E podia ser ainda muito pior: basta imaginar que todas as realidades geradas fossem reais; neste caso, quando elas se encontrassem, desintegrar-se-iam, dando provavelmente origem a um novo universo (receios amplamente manifestados perante a experiência da aceleração e colisão de partículas para encontrar o bosão de Higgs).
Os críticos, sempre atentos aos pormenores, têm tendência a apontarem algumas incoerências ao argumento do filme, nomeadamente quando Neo começa a ensinar às pessoas que estão prisioneiras como se podem salvar, quebrando as leis físicas, dobrando metais, voando pelo ar. E explicam que tudo isso só poderia ser possível se nos continuássemos a manter dentro da mesma realidade virtual criada pelo Matrix, pelo que continuaríamos sempre a ser escravos dele.
Vejamos: a solução utilizada pelo Matrix foi a de, ao mesmo tempo que nos reduzia à condição passiva de sermos seres humanos levando uma vida claustrofóbica em cubas cheias de líquido e mantidos vivos só para produzir a energia elétrica que o alimenta, ter dado a cada megaordenador a função de dissimular a incoerência e incompletude da realidade. Ou seja, uma das maneiras para ocultar esta nossa realidade incompleta, incoerente e sem saída, é admitirmos que por detrás dela existe uma outra realidade completa, coerente e possível. O Matrix funciona assim como “um ecrã que nos separa da realidade para que possamos suportar o vazio do real.
Assim, talvez esses momentos apontados como de falta de coerência sejam aqueles que melhor nos descrevam a verdade da nossa experiência social onde a realidade surge cada vez mais como perturbadora do princípio do prazer (a realidade como fonte de desprazer, onde não queremos estar), e onde a liberdade só seja possível dentro de um sistema em que ela própria se torna um obstáculo para a sua realização (teríamos de nos ver livres desta ‘liberdade’ que temos e gostamos, para alcançar a verdadeira liberdade).

Nas nossas vidas individuais e nas nossas sociedades, todos conhecemos casos em que se criaram, voluntária ou involuntariamente, realidades fora da realidade. Foi assim com Lenine, que nos últimos dois anos de vida só leu edições especiais do Pravda propositadamente feitas para ele, que Estaline mandava imprimir, e onde não figuravam quaisquer notícias referentes a lutas políticas internas, com a justificação que Lenine não deveria ser perturbado, de forma a assegurar o seu descanso. Foi também assim com Hitler quando no fim da Guerra comandava do seu bunker exércitos inexistentes, dirigindo batalhas que não tinham qualquer relação com o mundo real.
Foi assim com Salazar após ter caído da cadeira. Tendo ficado incapaz para governar, sendo substituído por Marcelo Caetano, continuou no entanto a despachar os assuntos da nação com alguns dos Ministros que a isso se prestaram, sendo tratado como se continuasse a ser o Presidente do Conselho.
Referindo-nos a acontecimentos importantes que pretenderam criar uma outra realidade, lembremos a encenação do ataque a navios americanos no golfo de Tonquim e que originou a guerra do Vietnam, e a encenação sobre as armas químicas de destruição de massa que deu origem à guerra do Iraque.
A nível individual, temos a tentativa de criação de outras realidades com as viagens, as férias, a ida a espaços de divertimento, o esconder de certas doenças e outras situações quotidianas.


Ao utilizar estes casos não pretendo nem ser exaustivo, nem parcial, nem moralista. Pretendo apenas chamar a atenção para as razões de ser que estão na origem de tais comportamentos. É que, conforme referia Morfeo, “as coisas não vão bem, há oportunidades que se perdem, há continuamente algo que falha”. É por a realidade ser incompleta, incoerente e sem sentido que se recorre ao Matrix. O problema é que ela só é assim porque somos nós que somos incompletos, incoerentes e sem sentido, e é com isso que temos de saber viver. Vá, vão lá para as férias! Entrem depressa no ecrã do Matrix antes que as retirem!

 

Os intelectuais são sempre de direita

Mon coeur est Français, mais mon cul est international”, Arletty.
O cu é um materialista mas de tendência dialética que parte do princípio de que está tudo na merda, mas que há esperança”, Peter Sloterdijk.
Acaricio a quem me dá presentes, ladro a quem não me dá nada e mordo os canalhas”, Diógenes de Sínope (413 – 327 a. C.).

Já todos nós passamos por aquela sensação estranha que por vezes ocorre durante a assistência a um muito badalado espetáculo de teatro, de dança, de cinema ou música, tido como muito erudito, avançado, muito para a frente ou muito retro, muito bem construído ou desconstruído, em que apesar de termos ido com imensa vontade de lá estar, de nos deliciarmos, ao fim de algum tempo começamos a sentir um certo incómodo que nos leva a mexermo-nos no assento, tentando mudar de posição. A impaciência começa a tomar conta de nós, e só ansiamos pelo fim do espetáculo. E se nos perguntarem porque não gostámos, não conseguiremos de todo explicar. É como se o cu sentado fosse o primeiro a alertar-nos para a qualidade do espetáculo. O que nos deixa perplexos, pois deveria ser a cabeça a fazê-lo. Depois, intentaremos racionalizar o que tão bem o cu precocemente analisara.


Sobre este assunto, um dos respeitados filósofos contemporâneos, Peter Sloterdijk, começa por nos dizer que o cu parece estar condenado a vegetar na obscuridade como se fosse o verdadeiro idiota da família. Mas seria de espantar que esta ovelha negra não tivesse a sua opinião sobre o que se passa nas regiões superiores. E se alguma vez a cabeça aceitasse dialogar com o seu antípoda, este certamente lhe diria: “acho que a nossa relação mútua está na merda”.
“O cu é o plebeu … está nas suas sete quintas nas retretes dos quatro cantos do mundo. A internacional dos cus é a única organização mundial que prescinde de estatutos, ideologias e quotas. A sua solidariedade é inabalável. Sem problemas o cu ultrapassa todas as fronteiras, ao contrário da cabeça, à qual muito importam as fronteiras e as propriedades.” Para um cu não corrompido não há diferença entre um banco, um trono, uma cadeira ou mesmo a cadeira de São Pedro. Aceita também, se necessário, o chão. O que não gosta é ficar de pé quando está cansado.
Até num sentido erótico, ele mostra-se sensível e superior. Passa facilmente por cima das fronteiras e das exclusividades. Quando censuraram a celebridade francesa da época, Arletty, por ter tido relações sexuais com os alemães, ela respondeu: “Mon coeur est Français, mais mon cul est international.” O cu pode pois viver em qualquer lado, reduzindo-se ao essencial, não se deixando nacionalizar. “Este pendor para o elementar e o fundamental predispõe o cu singularmente para a filosofia”. Milénios de mau tratamento, pontapés, beliscões, palmadas, fazem com que ele tenha uma imagem do mundo vista de baixo para cima, uma imagem plebeia, popular, realista. “Fizeram dele um materialista, mas um materialista de tendência dialética que parte do princípio de que está tudo na merda, mas que há esperança.”
Também Freud lhe consagra muita atenção, chamando inclusive estádio anal a uma etapa fundamental do desenvolvimento. Temas como o poder e o não-poder, ter-de e não-ter-o-direito, ter e reter, têm tudo a ver com as experiências e os destinos do cu. “Compreender o cu seria, pois, a melhor escola preparatória para a filosofia.”


Para tentarmos compreender o problema e não o situarmos no campo da mera boçalidade anárquica e anedótica, teremos de o inscrever no campo da filosofia política, e de recuarmos mesmo até à Antiguidade Grega. É aí onde todo o trabalho filosófico se inicia através da tentativa de perceber como seria possível manter o Caos afastado do Cosmos, para assim evitar que este desaparecesse. A conclusão a que chegaram foi a da necessidade de se encontrar um sentido, uma racionalidade que explicasse que o Cosmos não era fruto de um qualquer capricho, mas de uma ordem universal e imutável. As coisas são o que são, ordenadamente, porque são o produto de um pensamento, de uma racionalidade que faz delas o que são.
A descoberta pelo homem da existência dessa ordem cósmica objetiva, dessa racionalidade universal, desse “logos”, vai fazer com que venha a ser punida com o máximo de rigor tudo e todos que atentassem contra essa ordem do mundo, por tal conduzir ao colapso do cosmos, à sua morte e consequentemente ao suicídio da mesma humanidade. Há que preservar a todo o custo a ordem. Este é o mandamento cosmológico a que Sócrates, Platão e Aristóteles permanecerão fiéis.


Só que a prática cultural resultante desta asserção levou ao aparecimento da teoria da virtude-ciência, do saber como constituindo o bem, à atitude contemplativa, e á ideia platónica como entidade universalizadora. Em resumo, a uma filosofia idealista e à colocação das ideias por cima de tudo. O que estava bem de acordo com a postura de filosofia e de vida ateniense dos senhores, toda ela feita de diálogos e argumentos, surgindo a matéria apenas como simples reflexo da ideia, sombra, poluição, como degradação da ideia.
A filosofia ensinada nas academias pressupunha sempre o diálogo, e o diálogo só por si, pressupõe um compromisso idealista. É na fala que tudo se passa, é no diálogo cerebral que se teoriza. Do diálogo cerebral só poderão sair teorias cerebrais, sempre. A matéria só era pois admitida no diálogo universitário como sujeito de reflexão e não como existência. É pois um diálogo que está viciado à partida: penderá sempre para a ideia e não para o que se considera ser o seu reflexo, a matéria.
Com tais constrangimentos como se poderá dar voz aos que diariamente sofrem estas imposições de pensamento, costumes, ações, que não são suas, mas dos senhores? Dialogar não resulta, como vimos. Não se tratava de um não acatamento da ordem cosmológica, mas da forma como ela fora apropriada pelos bem pensantes para imporem e se imporem na sociedade. O essencial não deveria ser o saber como bem mas considerar antes a ação como virtude. Virtude vista como algo que exige esforço, um penoso trabalho de conquista de autodomínio, de renúncia aos bens mundanos, às convenções sociais, a tudo o que seja anti naturalmente supérfluo.


Eis como Diógenes de Sínope (413 – 327 a. C.), um homem contemporâneo de Sócrates, Platão e Aristóteles, tentou responder ao problema.
De Diógenes pouco recordamos para além do seu anedotário e do seu traje para todas as estações: uma manta, um bordão, sandálias, uma mochila para os seus pertences mais pequenos como pedra-pomes para os cuidados corporais e um vaso de madeira para beber. Um autêntico ateniense do futuro.
Relembremos algumas das pequenas histórias que lhe são atribuídas: Conta-se que estando deitado de costas a apanhar banhos de sol, Alexandre da Macedónia (depois Magno) abeirou-se dele, e para lhe demonstrar a sua admiração e generosidade pediu-lhe que formulasse um desejo, que ele prontamente satisfaria. E Diógenes pediu-lhe: “ Tira-te do sol, que me estás a fazer sombra.” Também por vezes durante os dias de sol, perto do meio-dia, percorria a cidade com uma lanterna acesa, e quando lhe perguntavam o que estava a fazer, respondia: “Procuro um homem.” Diz-se que um dia gritou: “Ei! Homens!” e quando muitos acorreram ao chamamento, expulsou-os a todos à bordoada, dizendo: “Chamei homens, não chamei lixo.” Tendo Platão definido o homem como sendo um ‘animal de dois pés sem penas’, Diógenes agarrou um galo, depenou-o e entrou na escola de Platão dizendo: “Este é o homem de Platão”. Quando lhe perguntaram a que horas se deveria comer, respondeu: “Se és rico, quando quiseres. Se és pobre, quando puderes.” E então que proveito é que tirava da filosofia? “Quanto mais não fosse, o de estar pronto para todas as reviravoltas do destino.”


É também sabido que vivia num tonel, fazia as suas necessidades à vista de todos, incluindo a masturbação, considerava-se apátrida “Sou cidadão do mundo” (sendo assim o primeiro a utilizar a palavra ‘cosmopolita’) invocando que “o único verdadeiro ordenamento do estado é o que rege o universo”, e que ele próprio se via como aqueles cães que “acariciam a quem me dá presentes, ladro a quem não me dá nada e mordo os canalhas”. Daí a sua ‘escola’ ser dita ‘cínica’ (kynikos, que em grego significa o que é próprio de cão, que diz respeito ao cão): é toda uma atitude mordaz – de morder – com o propósito de sensibilizar as pessoas para a sua mensagem de inconformismo social, político, científico, pedagógico, religioso.
A sua pobreza era o preço que pagava pela sua liberdade. Mas não era tolo: quando lhe perguntam então porque comia bolos, dizia que “o sábio também come bolos, ainda que possa passar sem eles.” Ou seja, a pobreza não surge como dogma pois para ele a tortura autoinfligida era uma imbecilidade. Ele persegue os gozos elementares: estar deitado ao sol, observar como anda o mundo, cuidar do próprio corpo e não ter nada por que esperar. O mundo não é nem trágico nem absurdo. De certa forma, Diógenes conseguia aliar felicidade, ausência de necessidades e inteligência.
Procurava na aventura da existência “um conhecimento para homens livres.” Para ele, viver era mais importante do que escrever: é anti teórico, antidogmático, anti escolástico. A sua resposta a Alexandre Magno significa a indiferença, o voltar costas ao princípio subjetivo do poder, ao desejo do poder. Sabia que se se conseguir implantar no ser humano desejos, projetos, ambições, a sua liberdade vai-se perdendo.
A procura de um homem com a lanterna acesa ao meio-dia, é a procura do homem real que não aparece no meio de tantos cidadãos vestidos de coisas superficiais e supérfluas, é lembrar ao homem que, “depois da festa hedonista há o vómito do supérfluo que deixa o homem vazio, pois nada mais havia nele para além do vomitável”.
A exposição que fazia do seu corpo ia contra a asfixia que a vergonha social ia impondo. Sabia que a vergonha era o principal fator dos conformismos sociais, correspondendo à interiorização de um mandamento exterior. Além de ser um ataque contra a política familiar, a masturbação pública (que ele praticava como progresso cultural e não como regresso à animalidade) era uma das formas para alcançar a independência sexual, evitando assim ficar sujeito a contrair casamento devido às necessidades sexuais.


Aparentemente, estas suas atitudes conseguiam desarmar e incomodar Sócrates e Platão. Sócrates entendia-se muito bem com os sofistas e com os materialistas teóricos, pois sabia que a partir da altura em que os fizesse entrar em diálogo, a sua mestria na contradição os levaria de vencida. “Mas com Diógenes, nem Sócrates nem Platão fazem farinha.” Não havia diálogo possível com quem respondia só pela ação. A única solução que Platão tinha era a de difamar o seu adversário, chamando-lhe “Sócrates enlouquecido.” Aliás, que mais fazer contra quem, apoiando-se sobre o poder que vem de baixo, se peida, defeca, urina e se masturba ante o olhar de todos no mercado de Atenas; contra quem despreza a glória, zomba da arquitetura, não respeita nada nem ninguém, parodia as histórias dos deuses e dos heróis, come carne e legumes crus, dorme ao sol, brinca com prostitutas e diz a Alexandre para não lhe fazer sombra?


Algum ‘intelectual’ hoje defenderia tal comportamento nas escadarias da assembleia da república? Ou mesmo a possibilidade? Os ‘intelectuais’ são todos ‘bem comportados’, mesmo quanto baste. Somos todos pelo diálogo, somos todos do “establishment”, somos todos conservadores, somos todos de direita, mesmo quando nos dizemos da esquerda teórica. Somos todos cabecinhas pensadoras com o “canudo” como símbolo.


Mas também nada disto tem hoje qualquer importância, pois os ditos ‘intelectuais’ têm já os seus sucedâneos: comentadores de televisão, artistas da canção, treinadores de futebol, jogadores de futebol ou equivalente, locutores dos mercados bolsistas que diariamente nos explicam porque sim, deputados, chefes de partidos (que nome bem posto), etc., o que não faltam são intelectuais. Bem hajam. Sigam as suas indicações. Votem e ganhem. A felicidade ao vosso alcance.

 

 

"No news, good news"

Onde é que eles estão?”, Enrico Fermi.
“Encontrar vida em Marte seria a pior notícia que poderíamos ler num jornal”, Nick Bostrom.
“Viajo exatamente à velocidade de rotação da Terra”, Marguerite Yourcenar.
“Paulo Portas’s dead. No, no, no, no, no, it’s outside looking in”, adaptação da letra de uma canção dos Moody Blues, de acordo com um acordo ortográfico.


Conta-se que durante o caminho para o refeitório onde iam almoçar, os físicos e matemáticos Enrico Fermi, Emil Konopiski, Edward Teller e Herbert York, todos a trabalharem em 1950 no Laboratório Nacional de Los Alamos (lembram-se da ‘bomba atómica’?), iam conversando sobre as então recentes controvérsias sobre os UFO (objetos voadores não identificados, vulgo ‘discos voadores’), quando Fermi quis saber a opinião de Teller sobre a probabilidade de nos próximos dez anos se virem a encontrar provas concretas sobre a existência de civilizações extraterrestres. “Um para um milhão” foi o número avançado por Teller. A meio do almoço, de repente, Fermi exclamou: “Onde é que eles estão?”, desatando a fazer uma série de cálculos que lhe iriam permitir contrariar a opinião de Teller.


Fermi era reconhecido como especialista em obter resultados muito aproximados através dos seus cálculos rápidos assentes em pouca ou quase nenhuma informação. Conseguia assim uma primeira estimativa que serviria como quadro de referência para os resultados possíveis, antes de se passar à utilização de cálculos mais sofisticados que dessem respostas mais precisas.


Entrando em consideração que só no universo observável existam 100.000 milhões de galáxias, e que só na nossa galáxia há de 100.000 milhões a 400.000 milhões de estrelas, então, em todo esse universo observável devem de existir pelo menos 400 triliões (400 milhões de biliões) de estrelas. Se considerarmos a possibilidade de existir um planeta potencialmente habitável como a Terra, orbitando à volta de pelo menos 1% do total das estrelas do universo, teremos um total de 100 milhões de biliões de planetas parecidos com a Terra. É como se por cada grão de areia das praias deste mundo existissem 100 planetas análogos à Terra!
Se, depois de milhões e milhões de anos de existência, 1% desses planetas parecidos com a Terra (cada grão de areia) pudessem ter desenvolvido vida com idêntico nível de inteligência, então teríamos 10.000 biliões de civilizações inteligentes no universo observável! Só na nossa galáxia (já vimos que 100.000 milhões é o cálculo conservador do número de estrelas da Via Láctea) tal significaria a existência de mil milhões de planetas análogos à Terra e 100.000 civilizações inteligentes!

Com base nestes cálculos, especulativos mas conservadores, a conclusão a que Fermi chegou foi que a probabilidade de nos depararmos com uma outra civilização extraterrestre era de dez por cento, contrariando assim a baixa probabilidade avançada por Teller. Por isso, Fermi sustentava a ideia que a Terra deveria já ter sido visitada há muito tempo e por várias vezes por outros seres extraterrestres. Daí a sua grande perplexidade: De facto, onde é que eles se meteram?


É o célebre paradoxo de Fermi: O tamanho e a idade do universo sugerem a possibilidade da existência de imensas civilizações extraterrestres tecnologicamente avançadas, mas contudo esta hipótese não é consistente com a evidente ausência de resultados sobre o conhecimento dessas civilizações.


Há algumas respostas que poderão justificar esta “ausência de resultados”. Pode ser que afinal haja muito menos civilizações inteligentes que as consideradas como prováveis. Pode ser que elas existam, só que nós não nos apercebemos da sua existência, devido a elas estarem muito mais longe do que suposto, devido a ser muito dispendiosa a colonização da galáxia, devido aos sinais emitidos só o terem sido feitos por períodos muito curtos, devido a ser perigoso comunicar. Pode ser ainda que o período de duração da existência das civilizações inteligentes seja muito curto, talvez devido ao facto das civilizações tecnológicas terem tendência para desaparecerem rapidamente, em virtude da sua natureza que as leva a destruírem-se a elas próprias e a outras civilizações.
Outra das hipóteses aventadas que poderia impedir o reconhecimento de outras civilizações tem a ver com o muito diferente grau de desenvolvimento em que cada uma se encontre, impossibilitando a comunicação e entendimento entre elas. Por exemplo, sendo a Terra um planeta jovem (4.540 milhões de anos) como comparar o seu grau de desenvolvimento relativamente ao verificado num grande número de planetas com muitos mais milhões de anos de civilização?


O astrónomo russo Nikolai Kardashev propôs em 1964 uma escala universal para medir os níveis de civilização com base na quantidade de energia usada pelas civilizações, a chamada escala de Kardashev. Segundo ele existiam três níveis de civilização. A civilização de Tipo I que usava e consumia todos os recursos do seu planeta (nós ainda não chegámos completamente a esta fase). A civilização Tipo II que usava e consumia toda a energia da sua estrela (no nosso caso seria o Sol). A civilização Tipo III que usava e consumia toda a energia da sua galáxia (no nosso caso, da Via Láctea).
Especulemos então: se apenas só 1% da vida inteligente sobrevivesse o tempo suficiente para ser uma civilização Tipo III colonizadora de galáxias, na nossa galáxia teríamos 1.000 dessas civilizações. Seriam certamente bastante visíveis os seus efeitos, e contudo, já estamos como Fermi: Onde é que elas se meteram?


Em 1996, o economista Robin Hanson propôs aquilo que ficou conhecido como a hipótese do Grande Filtro. Segundo ele, uma vez que apesar do grande número de estrelas existentes não se tinha ainda observado qualquer sinal de vida extraterrestre, talvez tal se ficasse a dever ao facto de existir como que um filtro que impediria ou reduziria esse desenvolvimento da vida. Esse Grande Filtro apenas facilitaria a passagem a uma ocorrência de tal maneira anómala só possível de acontecer em muito mais de um milhão de ocorrências totalmente anormais. Seria assim como que uma monumental barreira de probabilidades.
Este filtro poderá estar colocado atrás de nós (no nosso passado distante), ou à nossa frente (no nosso futuro).No caso do Grande Filtro estar no nosso passado, isso significaria que já o teríamos passado, e o facto de não termos qualquer contacto com outras civilizações significa que tal acontece por ser extremamente raro o aparecimento de vida inteligente. Ou seja, o aparecimento de vida seria uma daquelas ocorrências anómalas que passaria pelo Grande Filtro. Devemos portanto ser a única civilização na nossa galáxia ou mesmo no universo.
No caso do Grande Filtro se encontrar no nosso futuro, tal sugerirá que a vida evolui periodicamente até onde nos encontramos, mas que vai ter de avançar muito mais até atingir uma inteligência superior de Tipo II e III. O problema é que um Grande Filtro no futuro poderá ser um qualquer acontecimento natural catastrófico que ocorra periodicamente, quer seja devido à proliferação dos raios gama, quer seja pela autodestruição das civilizações ao atingirem um certo nível de tecnologia, quer por qualquer outra razão que nos é desconhecida.
Portanto, se viermos a encontrar vida complexa, fossilizada ou não, em Marte ou arredores, tal significará que afinal a vida poderia ter aparecido tanto na Terra como em Marte, o que torna o seu aparecimento relativamente comum. Assim sendo, o aparecimento da vida não poderá ser considerado como a tal rara anomalia capaz de ter dado origem à ultrapassagem do Grande Filtro. A conclusão a retirar é que neste caso o Grande Filtro só poderá estar à nossa frente, condenando-nos quase inevitavelmente a uma muito provável extinção.

Daí Bostrom dizer que tal “seria a pior notícia que poderíamos ler num jornal”. Dito de outra forma: “No news, good news”.


Lamento o espaço e tempo consumidos com este tipo de notícias, e de que aqui faço eco. Parecem-me no entanto importantes referi-las para que se possa ter a noção da monumental delapidação de recursos, mentais, materiais, humanos, individuais, envolvidos numa procura inútil e que conduzirá, no melhor dos casos, a uma militarização do espaço que nos cerca, numa reprodução mais descarada e controlada do tipo de sociedade em que vivemos.
Das dezenas de milhares de referências, estudos, documentários, séries de televisão, filmes, livros, brinquedos, todos eles assentam no fator comum de se considerar o desenvolvimento tecnológico como índice civilizacional. Se a grande maioria desses recursos tivessem sido aplicados a desenvolver as condições de habitabilidade da Terra, certamente a “nossa casa comum” estivesse hoje diferente.


Nesta coisa de viajar pelo espaço, apesar de tudo, prefiro a ingenuidade dos cristãos que punham as nossas almas a viajarem para um espaço espiritual, por isso sem localização possível no GPS, de onde regressariam (as que regressassem) de novo à Terra no dia do Juízo Final para se juntarem aos seus corpos para finalmente empreenderem uma definitiva jornada rumo a qualquer coisa desmaterializada e desespiritualizada. Não há aqui nada de tecnológico como definidor de avanço. Apenas a intenção de uma melhor vivência humanamente possível.


Também há outro tipo inteligente de viagens no espaço: Quando interrogada por um jornalista sobre o porquê de não fazer viagens, Marguerite Yourcenar, perante o espanto do jornalista respondeu-lhe que tal não era verdade. Ela viajava e muito, “exatamente à velocidade de rotação da Terra”.


Até mesmo quando Timothy Leary (o ‘pai’ da LSD) morreu, viajou para as portas do Céu à espera de vez para entrar. Os Moody Blues recordam esse momento no álbum In the search of the lost chord quando cantam nos versos da “Legend of a Mind”
Timothy Leary´s dead. No, no, no, no, no, he´s outside looking in”.


Apenas uma curta constatação final: a ser verdade que o universo está em expansão, o que é por todos os cientistas admitido, então não teremos nunca possibilidade de entrar em contacto com todos esses mundos novos que estão a serem criados, nem eles terão qualquer possibilidade de entrarem em contacto com os que ficaram para trás. Nem mesmo sendo uma civilização Tipo III. Esses já não poderão votar nas nossas eleições. Trata-se de uma irreversibilidade real. Está ali o Paulo Portas a fazer-me sinais!

 

P.S.: Este artigo foi escrito segundo um acordo ortográfico. As frases em língua estrangeira não impedem a compreensão, pois são em inglês e nem sempre tive o cuidado de evitar os ‘cês’ antes dos ´tês’, e repor os acentos para que a compreensão fosse possível. Quaisquer erros não devem ser imputados a ignorância, mas ao novo culpado público que é o computador.

 

UAU! Ao fim de nove anos, uma sonda terrestre fotografou Plutão a uma altitude de 12.000 metros! Segundo conta uma repórter da TV, os gregos reunidos na praça Sintagma festejaram entusiasticamente este feito.

 

 

"A economia está bem, o País é que está mal"

A economia está bem, o País é que está mal”, dito erudito.
Com papas e bolos se enganam os tolos”, dito popular.

 

Os filósofos parecem por vezes escrever de uma forma hermética sobre coisas que aparentemente não têm que ver com o que se está a passar, o que os torna ao nosso olhar uns chatos que falam incompreensivelmente sobre o que não nos interessa.
Quando Lacan nos vem dizer que “ Realidade é a realidade social dos indivíduos efetivos implicados em interações e nos processos produtivos”, e que o “Real é a inexorável e abstrata lógica espetral do capital determinando o que ocorre na realidade social”, o que está a fazer é a tentar através de um processo intelectual aceder à generalização de um problema, que embora sendo particular, se põe à sociedade.


Um bom exemplo para melhor compreendermos o que Lacan quer dizer é Portugal. Em Portugal temos por um lado a degradação constante das condições de vida das pessoas, o alargar da miséria, a incerteza em todas as suas vertentes sobre o indivíduo e sobre o estado social, a culpabilização e o ataque aos mais desprotegidos. Isto é a Realidade. Mas por outro lado, temos os relatórios económicos todos unânimes a dizerem que a situação económica do país é “financeiramente sólida”. Isto é o Real. Qual é a conclusão que o governo tira? Que “A economia está bem, o País é que está mal!”. Ou seja, não é a Realidade que conta, o que conta é a situação do capital, porque isso é que é o Real.


Vejamos mais exemplos:
Quando os nobres Franceses foram violentamente atingidos pela Revolução, muitos deles diziam que não tinham feito nada de mal, alguns deles até eram pessoas sinceras e benevolentes, preocupadas com a assistência à pobreza. Não percebiam a violência inerente ao sistema em que viviam, violência essa que lhes permitira o conforto das suas existências face a todos os outros.
Quando a 30 de Junho de 1960 foi proclamada a independência do Congo Belga (o Congo Belga, com uma extensão equivalente a Portugal, Espanha, França, Alemanha, Itália, Reino Unido, Polónia e Eslováquia, fora até 1908 propriedade privada de Leopoldo II, rei da Bélgica, propriedade que incluía os direitos de exploração - era dono - de todas as minas do Congo - descobertas e por descobrir), perante a assistência do rei Balduíno da Bélgica, o nomeado chefe do Governo, Patrice Lumumba, disse no seu discurso comemorativo:


“Suportámos trabalhos duros a troco de dinheiro que não nos permitia sequer alimentarmos, vestir-nos, ter alojamentos decentes, nem criar devidamente os nossos filhos. Éramos tratados com insultos, pancada, que sofríamos de manhã à noite, porque eramos negros. As terras que eram propriedade dos negros foram-lhes retiradas por meios supostamente legais, que apenas representavam a imposição do mais forte sobre o mais fraco. Estávamos fartos de saber que a lei era diferente para os negros e para os brancos. Estes tinham casas magníficas; os negros tinham palhotas miseráveis.
Quem se pode esquecer dos enforcamentos, dos fuzilamentos em que tantos irmãos nossos morreram? Ou das prisões para onde eram carregados os que escapavam às balas dos soldados negros, convertidos pelos colonialistas em instrumentos de dominação?”


Os europeus que assistiram a esta proclamação da independência estavam estupefatos, incluindo o rei Balduíno que se viu obrigado a aplaudir cortesmente. Um jornal londrino classificou esta nova República como “turbulenta e provavelmente transitória”, e acertou: Lumumba, o único político que pedia a unidade de todo o Congo, foi preso e assassinado seis meses depois, a 13 de Fevereiro de 1961.
E contudo Leopoldo II, que esteve na origem de todo este genocídio praticado no Congo, era considerado e considerava-se um grande filantropo, chegando a ser proclamado santo pelo Papa. Aplicou a maior parte dos lucros obtidos pela exploração implacável dos congoleses em benefícios para o povo belga, promovendo obras públicas, museus, e outros.


Isto acontece porque muitas das nossas atitudes e normas de vida, aparecem-nos como fazendo parte do senso comum, sendo tidas como naturais, neutras, não-ideológicas. Deixam portanto de serem percebidas como ideologicamente marcantes. Tudo aquilo que não se inscreva neste pano de fundo que se toma como sendo neutro passa a ser chamado de “ideologia”, englobando desde o zelo religioso extremo à dedicação exclusiva a uma outra orientação política. Estamos perante uma certa forma de cegueira que impede a compreensão do problema.
É por isto que é muito vulgar falar-se sobre os crimes do comunismo, invetivando facilmente até as suas origens ideológicas: a ideologia totalitária, O Manifesto Comunista, Rousseau e até mesmo Platão. Mas se, por exemplo, chamarmos a atenção para os milhões de pessoas que morreram em resultado dos massacres no México no século XVI, da escravatura, do holocausto no Congo Belga, das Grandes Guerras, do nazismo, da globalização, vão dizer-nos que tudo isto aconteceu em resultado do que foi acontecendo, que não houve nenhum planeamento, não havia nenhum Manifesto Capitalista. Não passa de uma evolução natural, neutra, que nada tem de ideológico.


Hegel notou que sempre que sobre o pano de fundo “não ideológico” se tentar introduzir a atualização de uma ideia ou ideologia, a tendência será o aparecimento de outra ideologia contrária, que tenda a repor a neutralidade do pano de fundo. Chamou-lhe a dialética da “coincidência dos contrários”.
Se utilizarmos aquela expressão popular muito arreigada sobre “as duas faces da mesma moeda” poderemos considerar que as preocupações não belicistas opostas à violência dos liberais progressistas e a cega explosão de cólera dos fundamentalistas são as duas faces da mesma moeda. Mas, atenção: isto permite explicar a realidade mas não o real; não devemos esquecer que além das duas faces da moeda existe a moeda, que é o importante pano de fundo “neutral”!


É também por isto que temos dificuldade em ver que os filantropos que dão milhões de dólares para combater a SIDA ou promoverem a educação, sejam os mesmos que arruinaram a vida de milhares de pessoas através da especulação financeira e criaram as condições para o aparecimento da mesma intolerância que dizem querer combater.
Estes novos progressistas liberais são também os que apregoam o ‘pragmatismo’ na abordagem dos problemas. Para eles não existe uma classe trabalhadora una e explorada. Há apenas problemas concretos a resolver: a fome em África, a violência do fundamentalismo religioso, a sujeição das mulheres muçulmanas. Há que empenhar as pessoas, os governos, o mundo dos negócios, para fazer com que as coisas avancem, em vez de se confiar no auxílio de um Estado que só serve para atrasar e atrapalhar as coisas. E a via mais eficaz é a iniciativa privada. Batam palmas perante tanta clarividência.


Todos eles são boas pessoas que se preocupam, que não podem ser comprados pelos interesses das grandes companhias porque são seus coproprietários, que exprimem honestamente as suas opiniões porque são tão poderosos que o podem fazer, que são intrépidos e prudentes promovendo inexoravelmente as suas iniciativas sem terem em conta os seus interesses pessoais porque todas as suas necessidades se encontram satisfeitas. Sabem que é a pobreza e a impotência que alimentam o terrorismo. Por isso, o seu objetivo não é ganhar dinheiro mas mudar o mundo. O que não deixa de ser curioso pois ao negarem-se a si próprios como personificação do sistema (a procura do lucro) estão a admitir que só por si o sistema já não chega para que a sua vida adquira sentido. Adiante. São os maiores benfeitores da história da humanidade, à frente na luta a favor da educação, contra a fome e a doença. Será mesmo assim? Não nos devemos contudo esquecer que para se dar, primeiro tem de se ganhar!
Porque é que na sua busca implacável do lucro necessitam de utilizar a beneficência como contrapeso? Por um lado, a beneficência aparece como a máscara que dissimula o rosto da exploração económica: os países desenvolvidos ‘socorrem’ os subdesenvolvidos concedendo-lhes auxílios, créditos, e com isso escamoteiam a questão fundamental que é a da sua cumplicidade no que se refere à situação miserável em que esses países se encontram. Por outro lado, a nível ‘pessoal’ (sabendo ou não, sendo sinceros ou hipócritas), quando estes capitalistas progressistas liberais oferecem ao bem público a sua riqueza acumulada, o que estão a fazer é a protelar no tempo a crise do sistema, restabelecendo o equilíbrio através de uma espécie de distribuição de riqueza à sua maneira, procurando evitar o aparecimento quer de uma lógica destrutiva do ressentimento, quer de uma redistribuição da riqueza imposta pelo Estado.


E isto é o sintoma de que “o sistema atual já não pode reproduzir-se só pelos seus próprios meios. A beneficência extraeconómica é-lhe necessária a fim de manter o seu ciclo de reprodução social”. Como bem por cá há muito se diz:
Com papas e bolos, se enganam os tolos” que somos nós.

 

 

 

A Distopia do Presente

As nossas noites já não vibram de terror nem de êxtase; mas vamos vivendo, atravessamos a vida, sem alegrias nem mistérios, o tempo parece-nos breve”, Michell Houellebecq.
A ilha…. Poderíamos viver aí, possivelmente felizes, se a vida fosse uma coisa possível, só que ninguém lá vive”, Samuel Beckett.

 

Ao longo da história, a vida das pessoas, mesmo aquelas que são mais bafejadas pela sorte, tem estado mergulhada em insegurança, imprevisibilidade e violência. Daqui uma incerteza generalizada que vai traduzir-se em medo. É pois normal qua se anseie por uma vida sem acidentes, num mundo regular e previsível, num mundo confiável. Em resumo, num mundo seguro, sem improvisos e sem experimentações. Mesmo se, como dizia Leibniz, um mundo perfeito só poderia ser perfeito se nele existisse uma certa porção de mal. O que se ambiciona é que essa pequena porção de mal pudesse ser conhecida, vigiada e posta de quarentena, de maneira que soubéssemos quando é que esse mal se fosse manifestar e o que esperar dele, estando assim prontos a enfrentá-lo.
Coube a Thomas More, que viveu numa das épocas mais turbulentas da humanidade, o século XVII em Inglaterra, escrever sobre esse sonho de um mundo sem insegurança e sem medo, a que chamou “utopia” numa junção feliz de duas palavras Gregas: eutopia, ou seja um “lugar bom”, e outopia que significava “nenhum lugar”. Utopia é basicamente a imagem de um outro universo bom diferente do universo que conhecemos, imagem essa criada inteiramente pela sabedoria e devoção humana.


Já anteriormente tinham aparecido Apocalipses ou Juízos Finais, Cidades de Deus, com base nas sensações e pensamentos de que o mundo não estava a funcionar bem. As suas diferenças para a Utopia de More é que eram orientadas pela providência divina, ao passo que a Utopia de More pressupunha ser o próprio ser humano capaz de substituir o mundo existente por um outro mundo feito por si. A criação de um mundo que lhe desse mais satisfação, só através dos seus raciocínios, implicava uma enorme confiança no ser humano como agente transformador, pelo que as utopias só aparecem com os tempos modernos e não antes.


Com o desenvolvimento da Ciência e das aplicações que se lhe seguiram, não é de admirar que o otimismo invadisse o mundo: afinal vivia-se num mundo onde o Progresso era visível. O progresso aparecia para realizar as utopias, daí que se não concebesse ser possível viver numa sociedade sem utopias. Mais tarde verificou-se que o progresso não era a realização das utopias, e sim uma tentativa para se alcançarem as utopias. Da mesma forma sabe-se hoje que todos os modelos teóricos que construímos para a representação da realidade são também utopias. E isto porque, acompanhando filosoficamente o teorema matemático de Godel, sempre que tentarmos fazer da realidade modelos teóricos consistentes, harmoniosos, elegantemente lógicos e puros, estaremos a impor à realidade mais racionalidade do que ela possui ou pode vir a possuir.
Com o desencanto resultante dos acontecimentos do início do século XX, as Guerras Mundiais, a não realização das promessas de uma boa vida e de menos horas de trabalho, as utopias começaram a ser postas de parte, não sendo consideradas necessárias para a sociedade. Sobreviveram apenas as utopias individuais.


Chegamos assim à sociedade atual, onde as formas sociais (estruturas que limitam as escolhas individuais, instituições que salvaguardam as repetições de rotinas, padrões de comportamento aceitáveis) já não conseguem manter a sua forma, onde existe separação entre poder e política (que em conjunto garantiam o estado nação) por onde os novos poderes se erigem em fonte permanente de incerteza incontrolável, onde a retirada do estado providência expõe cada vez mais os indivíduos aos mercados dos bens de trabalho inspirando e promovendo a divisão e a falta de solidariedade, onde o colapso do pensamento e planeamento a longo prazo são substituídos por projetos de curta duração que não se compadecem com conceitos de “carreira”, “progresso”, “desenvolvimento” e onde as estratégias não assentam em “prévia aprendizagem” mas na “flexibilidade” entendida como disponibilidade para mudar táticas e estilo com curto aviso prévio, como o abandono de lealdades e projetos sem remorso, e finalmente, onde a responsabilidade para resolver estas condições voláteis e em constante mudança, são atiradas para os ombros dos indivíduos.
À vista estão os vários locais de concentração (sejam eles Países, simples campos ou difusos locais não geográficos) onde são colocados os desempregados, os reformados, os jovens, os velhos, os refugiados, os enfermos, todos aqueles que não possam (ou já não possam) comprar, o “lixo” desta sociedade. Os massacres e os genocídios. A via única. O estado de exceção. Só não vê quem não quer ver.


Não é de admirar que neste mundo os escritores que descrevem sociedades futuras o façam através de Distopias, que etimologicamente significa “lugar mau”, e não através de Utopias (“lugar bom”). Partindo do princípio que a marcha triunfal da racionalização e do progresso, desembocará numa paz que se sucede a uma verdadeira Última e Final Guerra, com o triunfo da ordem sobre o caos, da regularidade sobre o aleatório, do controle sobre a espontaneidade e do previsível sobre o acaso, os escritores das distopias pretendem dar a conhecer a realidade sobre o que significará viver nesse mundo. As distopias são pois, avisos sobre o caminho a que estamos a ser conduzidos e que trilhamos alegremente, mostrando-nos que quando lá chegarmos, a Terra que formos encontrar não tem nada a ver com a Terra por nós sonhada. De fato nela não haverá sofrimento; haverá sim, ausência de tudo a que chamamos vida.


Para melhor ilustrar o que é a distopia leia-se o livro A Possibilidade de Uma Ilha do francês Michel Houellebecq. A ação desenrola-se no Quarto Milénio, numa nova Terra sem mar que desaparecera após uma série de catástrofes naturais e humanas (guerras étnicas e religiosas, maremotos, seca, epidemias) onde os humanos se reduziram a esparsos gangs de selvagens canibais e onde a memória do que era ser humano ficou entregue, e ao cuidado, a uma rede de clones humanos (os neo-humanos) que viviam sem quaisquer laços familiares ou de amizade, que não sentiam a dor nem o prazer, que sobreviviam nessas condições adversas graças ao consumo de comprimidos (o que levará ao desaparecimento dos aparelhos digestivo e excretor), e em que a auto reprodução se fazia por clonagem (o Daniel 1 teria sido nosso contemporâneo, último clone nascido de uma mãe e primeiro de uma linha de clones identificados por números de ordem geracional de fabricação).
Estes neo-humanos vinham equipados com um sistema de autorreprodução e um sistema de comunicação entre si, utilizando endereços numéricos muito semelhantes aos da Internet. A sua solidão e isolamento conduzem-os a uma grande indiferença até perante a sua própria morte anunciada. Qualquer “dor de ser” é resolvida pela inexistência de ser e de sentir. Como diz a Irmã Suprema “o ciúme e a vontade de procriar têm a mesma origem, que é a dor de ser. É a dor de ser que nos leva a procurar o outro, como um paliativo; temos de ultrapassar esta fase a fim de atingir o estado em que o simples fato de ser constitui em si mesmo um permanente motivo de alegria; em que a intermediação passa a ser apenas um jogo, livremente aceite, não constitutivo de ser. Numa palavra, devemos alcançar a liberdade de indiferença, condição da possibilidade da serenidade perfeita.”
Assim, quando a energia vital de Daniel 24 estava a chegar ao fim, ele apenas diz: “Não sinto mais do que uma ligeira tristeza”. “A minha encarnação atual degrada-se; não creio que possa prolongar-se por muito tempo. Sei que na minha próxima encarnação voltarei a encontrar o meu companheiro, o cachorro Fox”. Quando Daniel 24 acaba, é substituído por Daniel 25, que dele partilha o ADN e aspeto físico. Apesar de todas estas semelhanças, o cão Fox pressente que não se trata do mesmo indivíduo, só que também morre pouco tempo depois, sendo igualmente substituído por um novo clone.
Nesta nova humanidade, o cão parece ser o único a reconhecer que não se pode substituir um ser (mesmo que neo) humano por um duplo, mesmo que em tudo idêntico.


Nesta nova Terra propositadamente não existe mar, impedindo assim a possibilidade de existirem ilhas, lugares por excelência da utopia. Mas segundo a narrativa do diário de Daniel 1, o mar ainda existiria junto a Lanzarote, só que nenhum neo humano posterior o poderia comprovar, a não ser que abandonasse a sua casa e a rede de apoio que lhe garantia a sobrevivência, tonando-se desertor. Foi o que estranhamente decidiu fazer Daniel 25.
A nostalgia pelo desejo leva-o a tentar um último recomeço, cansado da sua existência marcada pela rotina sem fim de ressurreições, reincarnações, novos nascimentos como réplicas clonadas de seres antecedentes. “Eu era, como todos os neo humanos, imune ao aborrecimento … eu estava … a muita distância da alegria, e até da paz verdadeira: o simples fato de existir já constituía um infortúnio. Afastando-me, por vontade própria, do ciclo de renascimento e morte, sei que vou caminhar em direção a um simples nada, para uma pura ausência de conteúdo.”
Decidido, parte rumo a Lanzarote com o seu cão Fox. No caminho depara-se com selvagens, descendentes dos humanos, que lhe matam o cão. Sozinho, Daniel 25 “faz-se enfim ao mar, à procura de si mesmo” (citação de Saramago em O Conto da Ilha Desconhecida).
Tinham sido precisas 25 gerações de Daniel para ele notar que “A alegria dos humanos continua a ser por nós (neo humanos) desconhecida; por outro lado, não somos afetados pelos seus desgostos. As nossas noites já não são abaladas pelo terror ou pelo êxtase. E contudo, nós vivemos; vamos contudo pela vida, sem alegrias e sem mistérios.”
No fim, Daniel 25 conclui que “a felicidade não é um horizonte possível. O mundo tinha-o atraiçoado”.


Michel Houellebecq escreveu situando este conto no Quarto Milénio.
Em contrapartida, a intemporalidade de Saramago permite-lhe situar O Conto da Ilha Desconhecida no lugar certo, dentro de nós:


“E tu para que queres um barco, pode-se saber, foi o que o rei de facto perguntou… Para ir à procura da ilha desconhecida, respondeu o homem, Que ilha desconhecida, perguntou o rei disfarçando o riso, como se tivesse na sua frente um louco varrido, dos que têm a mania das navegações, a quem não seria bom contrariar logo de entrada, A ilha desconhecida, repetiu o homem, Disparate, já não há ilhas desconhecidas, quem foi que te disse, rei que já não há ilhas desconhecidas, Estão todas nos mapas, Nos mapas só estão as ilhas conhecidas…”

 

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