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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Cristianismo como barreira à barbárie

Roubo Bancos porque é onde o dinheiro está”, Willie Sutton, americano e assaltante de bancos.
O governo civil, na medida em que é instituído para a segurança da propriedade, é na realidade instituído para a defesa do rico contra o pobre, ou dos que têm propriedades contra os que não têm nada”, Adam Smith, A Riqueza das Nações.
Os pobres, sempre os tendes convosco?”, São João, XII, 8, Bíblia.
Na guerra eterna a humanidade torna-se grande; na paz eterna, a humanidade arruinar-se-ia”, A. Hitler.

 

António Damásio explica-nos que até uma célula bacteriana, mesmo estando à solta no citoplasma e não tendo o ADN compilado, é uma metáfora de nós mesmos, ou então, nós é que somos a metáfora dela. É assim que a sua membrana equivale à nossa pele, o seu núcleo representa o nosso cérebro, o seu citoplasma representa o resto do nosso corpo, e os seus organitos representam os outros nossos sistemas extremamente ricos.
É através da permeabilidade da membrana que essa célula se vai relacionar com o meio ambiente que lhe é exterior. Vai procurar fontes de energia para a transformar, tem metabolismo, e tem mecanismos de reparação caso venha a ter uma ferida. Mantém tenazmente a vida até que o genoma lhe diga que o seu tempo terminou. Tal como acontece connosco: senescência e morte. Também ela, tal como nós, reage às ameaças ou às oportunidades. Se aproximarmos de uma amiba a ponta de um alfinete, ela contrai-se. Se a colocarmos num lugar ideal para a sua vida (nutrientes, temperatura), ela relaxa-se.


Ao longo de quantidades de tempo que deixam de ter significado por não serem entendíveis, isto a que chamamos de “vida” conservou sempre uma caraterística única: a de tentar por infindáveis modos manter-se “viva”. Não há caminhos, processos, atalhos, que não experimente. A biodiversidade é disso exemplo e consequência. Até agora.


A conclusão que muitos tiram deste processo é que devemos olhar para a Natureza e retirar ensinamentos sobre a forma como ela “decidiu” entre o que é bom e o que é mau, fazendo dela o nosso guia. Esta glorificação da Natureza deve-se ao facto da organização social prevalecente na nossa sociedade humana tornar difícil o entendimento de que qualquer “evolução” possa ter ocorrido sem qualquer participação ou orientação, nomeadamente  a nossa, pelo que terá sempre de existir uma força diretora sem a qual “o poder caiará na rua”.
Se pudermos aplicar às organizações sociais o mesmo princípio que Darwin nos deu a conhecer para a evolução dos organismos, talvez possamos entender melhor o mundo em que vivemos onde tudo nos aparece, erradamente, como resultante de um progresso quase linear e “natural”.


Todas as nossas organizações sejam elas sociais, económicas, políticas, são fruto de vários processos de tentativa e erro ao longo do tempo, que se revelarão muitas vezes simultaneamente, sobrevivendo as que por qualquer razão conseguirem melhor conservar o poder perante os desafios a que se encontram submetidas na altura.
Por exemplo: ninguém hoje duvida que o sistema capitalista visa a obtenção e maximização de lucro. Mas ele não só não existiu sempre, como não apareceu naturalmente: foi-se desenvolvendo, foi-se acomodando, foi-se infiltrando, até ser o que é nos dias de hoje. Começa sempre pela aquisição de mercadorias ou de trabalho com a finalidade de vendê-los novamente, com lucro. O lucro vem sempre do facto do trabalhador receber um salário menor do que o valor da coisa produzida. A produção capitalista vem da associação da posse dos meios de produção, sejam eles resultantes de edifícios, máquinas, matéria-prima, ou similares, aliada à compra da força de trabalho.


Claro que para se montar este esquema que deu lugar ao capitalismo industrial, tornou-se necessária a existência de um capital inicial previamente acumulado, bem como a existência de pessoas livres (de dependências) e sem propriedades, que tinham de trabalhar para os outros para poderem viver. A história contada às crianças que são os adultos dirá que essa acumulação se ficou a dever às economias de boas almas caridosas que trabalharam muito e que economizaram. Na realidade, a grande concentração de capital necessário veio principalmente através do comércio, englobando neste termo não só a troca de mercadorias como a conquista, a pirataria, o saque, a exploração, a descoberta do ouro e prata na América, a escravatura e o colonialismo. Relembremos que os lucros obtidos na primeira viagem de Vasco da Gama à Índia atingiram 6.000%!


Não interessa agora delinear uma história do capitalismo, mas tão só apontar os seus métodos de ontem e de hoje, e o seu estado permanente de alerta para vencer as forças que se lhe opunham.
Os métodos para acumular capital tiveram por base “uma das mais extraordinárias relações de traições, subornos, massacres e mesquinharias”. Alguns exemplos soltos: o primeiro inglês a imaginar que poderia ganhar muito dinheiro apoderando-se de negros africanos e vendendo-os como matéria-prima para trabalhar nas plantações foi John Hawkins. A Rainha Isabel impressionou-se tanto com o seu “próspero êxito e muito lucro”, que quis ela própria vir a ser sócia de quaisquer lucros no futuro. É assim que, para a segunda expedição, mandou aprestar um navio para Hawkins, a que deu o nome de Jesus. Eis como Hawkins explicou a Richard Hakluyt como decorrera a sua primeira viagem efetuada em 1562 – 1563: “Os negros eram mercadoria muito boa na Holanda, e podiam ser facilmente obtidos na Costa da Guiné, razão pela qual decidiu fazer uma experiência, e comunicou a decisão aos seus amigos de Londres […] Todas as pessoas gostaram tanto da intenção que se tornaram contribuintes da ação. Para tal objetivo arranjaram três navios imediatamente abastecidos […] Dirigiu-se à Serra Leoa onde permaneceu algum tempo, entrando na posse, em parte pela força e em parte por outros meios, de pelo menos 300 negros. Com essa carga velejou para o oceano […] e vendeu o número total dos seus negros: pelo que recebeu em troca tal quantidade de mercadorias que ainda teve de fretar mais dois navios para transportar couros, gengibre, açúcar, pérolas.” Após a sua segunda missão negreira, a Rainha Isabel fez do assassino e raptor Sir. Sir John Hawkins, escolheu por brasão um negro acorrentado em cadeias.


Já os holandeses, “para conseguirem Malaca, subornaram o governador português. Ele deixou-os entrar na cidade em 1641. Assim que entraram na cidade, foram a casa do governador e assassinaram-no, evitando ter de lhe pagar 21.875 libras, o dinheiro da traição. Depois foi a devastação e o despovoamento”. “Era o saque contínuo dos recursos do povo, de forma a tomar deles toda a riqueza excedente disponível”. “Banjuwangi, província de Java, tinha mais de 80.000 habitantes em 1750, e apenas 18.000 em 1811.”


Quão longe já se estava do início da Idade Média onde era considerado crime cobrar juros pelo uso do dinheiro. Para a Igreja, emprestar a juros era usura, e a usura era pecado. Naquela época, quem emprestava fazia-o para ajudar, tirar de uma má situação, não devendo lucrar com a desventura do outro. O justo era receber só o que se tinha emprestado. Se se emprestava um saco de farinha, devia receber-se só um saco de farinha (costume que ainda hoje se mantém quando se empresta à vizinha ovos ou leite). Quem cobrasse juros pelo uso do dinheiro estaria vendendo tempo, e o tempo não pertencia a ninguém para poder ser vendido. O tempo só a Deus pertencia. Além do mais, emprestar dinheiro e receber depois ainda um acréscimo de juro fixo, significava a possibilidade de viver sem trabalhar, o que estava errado.
É claro que uma coisa era o que a Igreja dizia, outra o que fazia, e aos poucos a doutrina foi cedendo. Lentamente, novas leis foram surgindo: “A usura é um pecado – mas, sob certas circunstâncias …”, “Embora seja pecado exercer a usura, não obstante em casos especiais …”. Coube ao advogado francês Charles Dumoulin (século XVI) a introdução dum conceito aceitável pela Igreja, o da “prática comercial diária”, segundo o qual a usura moderada usada como prática diária seria aceitável por oposição à usura excessiva e absurda que deveria ser condenada.
À medida que o sistema capitalista se foi desenvolvendo, foi também obtendo respostas para tudo aquilo que o atacasse, atuando umas vezes violentamente, outras pela inculcação de preceitos lógico-morais.
Por exemplo: Era mau para as crianças não irem à escola e trabalharem 16 horas por dia? G. A. Lee, dono de uma tecelagem de algodão onde as crianças trabalhavam das 6 da manhã às 8 da noite, dizia que “nada era mais favorável para a moral do que o hábito, desde cedo, da subordinação, da indústria e da regularidade” para estimular a moral dos pobres. Também Giddy, o presidente da Royal Society, era contra a proposta de se criarem escolas primárias para as crianças, porque “dar educação às classes trabalhadoras pobres seria na realidade prejudicial à sua moral e felicidade; aprenderiam a desprezar a sua sorte na vida ao invés de fazer deles bons servos na agricultura e outros empregos laboriosos, a que a sua posição na sociedade os destina […] Permitir-lhes-ia ler folhetos sediciosos e torná-los-ia insolentes para com os seus superiores.”
O Arquidiácono W. Paley dava consolo e ajuda aos pobres miseráveis através do otimismo: “Algumas das necessidades que a pobreza impõe não constituem durezas, mas prazeres. A frugalidade em si é um prazer. É um exercício de atenção e controle que produz contentamento. Este contentamento perde-se no meio da abundância. Não há prazer quando se vive rodeado de imensos recursos. Uma outra vantagem ainda maior que possuem as pessoas em situação inferior é a da facilidade com que sustentam os filhos (tão entranhada ficou esta ideia que ainda hoje a “sabedoria” popular diz que “tudo se cria” a propósito da vinda de mais um filho, seja em que condições for, mesmo sem elas). Tudo o que um filho de um pobre precisa está encerrado em duas palavras, ‘indústria e inocência’”.
“Os pobres não devem invejar aos ricos a sua ociosidade. Os ricos é que devem de estar invejosos. Porque a ociosidade é a cessação do trabalho, e portanto, só pode ser gozada, ou mesmo provada, pelos que conhecem a fadiga. O rico vê, e não sem inveja, o prazer e a recuperação que o repouso proporciona ao pobre”. Estas considerações de Paley datam de 1793, altura da Revolução Francesa, pelo que, com receio que a revolução atravessasse a Mancha, aconselha ainda os pobres dizendo que “Ambicionar a situação ou a fortuna dos ricos, e a tal ponto desejar tomá-las pela força, ou através do tumulto e confusão públicos, não só é mau como insensato.”


Centenas de petições foram enviadas pelos trabalhadores diretamente para o Parlamento, uma vez que as petições enviadas para os patrões nem resposta tinham. A quando da petição para a diminuição do número de horas de trabalho diário a fim de se passar das 14 ou 16 horas para as 10, o Parlamento considerou que tal seria uma interferência à liberdade dos súbditos “que nenhuma outra legislatura da Cristandade teria tolerado por um momento”. Os industriais de Gloucester caracterizaram esta proposta como digna da pior idade média, por interferir na liberdade que tinha o operário de poder trabalhar tanto quanto o patrão desejasse. Este argumento de que a limitação das horas de trabalho interferia na liberdade natural do homem foi repetidamente usado na América e na Inglaterra.
Quando em 1819 foi aprovada nova legislação para regulamentar o trabalho de menores nas Fábricas de Algodão (e apenas nelas, por aí o trabalho ser considerado muito perigoso), foi proibido o emprego de menores de 9 anos. Dos 10 aos 16, o seu trabalho ficava limitado a 12 horas por dia. Muitos dos membros da Câmara dos Lordes votaram contra por considerarem que “o trabalho tem de ser livre”: se as crianças querem trabalhar e os donos das fábricas os querem empregar, qual era o problema? O que se estava a fazer era atentar contra o sagrado direito da liberdade contratual, destruindo assim os fundamentos do mercado livre.


Apesar de algumas dessas petições tivessem vindo a serem aprovadas no Parlamento, os trabalhadores acabaram por descobrir que uma coisa eram as leis escritas, outra era a aplicação das leis. Descobriram também que a mesma lei podia ser aplicada de forma inteiramente diferente quando aplicada aos empregadores. Nos tribunais, muitas vezes o magistrado que ouvia a causa era o próprio patrão contra quem reclamavam. Mesmo que tal relação de proximidade não se verificasse, bastava que o magistrado pertencesse à classe do patronato, ou que pensasse da mesma forma: partiam do princípio que os trabalhadores deviam estar gratos pelas poucas migalhas que lhes eram atiradas.
Numa muito célebre sentença proferida em 1816 pelo juiz Sir William Garrow condenando a dois anos de prisão nove chapeleiros por se reunirem num sindicato para a proteção dos seus interesses (o que era considerado ilegal) pode ler-se: “Neste feliz país onde a lei coloca o menor súbdito em igualdade com a maior personagem do Reino, todos são igualmente protegidos, e não pode haver necessidade de se associar. A gratidão devia-nos ensinar a considerar um homem como o Sr. Jackson, que emprega de 100 a 130 pessoas, como um benfeitor da comunidade”.


Mas os economistas da época da Revolução Industrial deram-nos ainda a conhecer uma série de leis que entendiam serem tão válidas para a sociedade e economia como as leis dos cientistas para o mundo físico. São as chamadas “leis naturais” da Economia. Fixas, eternas. Não discutíveis.
Para Adam Smith, o bem-estar da sociedade estava ligado à liberdade do indivíduo (1776). Se dermos a todos a maior liberdade, se os deixarmos ganharem o mais que puderem, se apelarmos para que cada pessoa procure apenas o seu interesse individual, toda a sociedade melhorará pois a oferta de qualquer artigo acabará por se ajustar à procura pelo preço certo. Trabalhe para si mesmo e estará servindo o bem comum. Para que isso seja possível não se deve interferir na lei natural como seja através da regulamentação dos horários ou da fixação dos salários dos trabalhadores, até porque será inútil. O monopólio dos capitalistas para elevarem os preços e dos sindicatos dos trabalhadores para elevarem os salários, constituem violações da lei natural. A concorrência a todos os níveis é a ordem natural: mantém os preços baixos e assegura o êxito dos fortes e eficientes, livrando-se ao mesmo tempo dos fracos e ineficientes. O governo servirá apenas para preservar a paz, proteger a propriedade.
Em resposta a William Godwin que afirmava (1793) que embora todos os governos fossem um mal, o progresso era no entanto possível e a humanidade poderia chegar à felicidade pelo uso da razão, Thomas Malthus afirmava (1798) que o progresso no destino da humanidade era impossível, e que portanto todos deveríamos viver contentes com o que havia (e não tentassem fazer uma revolução como a da França). Para ele, as “causas profundas” que fazem a miséria da humanidade não estavam nas instituições mas no facto de a população aumentar mais depressa do que o alimento para a manter viva. A razão pela qual as classes trabalhadoras eram pobres não residia nos lucros excessivos (razão humana) mas no facto da população aumentar mais depressa do que a subsistência (lei natural). “Nada se pode fazer para melhorar a situação dos pobres. É, sem dúvida, um pensamento muito acabrunhador, o de que o grande obstáculo a qualquer melhoria extraordinária da sociedade seja uma natureza impossível de superar.”
Na segunda edição do seu livro (1803), Malthus advogava uma solução: para além da “miséria e vícios” era possível o “controle moral”. Greves, revoluções, caridade, regulamentações governamentais, nada disso poderia ajudar os pobres na sua miséria – eles é que deviam de ser responsabilizados por se reproduzirem tão rapidamente. Impeça-se que se casem tão cedo. Pratiquem o “controle moral” – não tenham famílias grandes – e assim poderão ajudarem-se a si próprios. Em conclusão, os pobres são os únicos culpados pela sua pobreza.


Uma outra “lei natural” era a que ficou conhecida como a “lei férrea dos salários” que os trabalhadores ganhavam. Sabia-se já que o salário não era sempre o mesmo, e que tal dependia não só do trabalhador em questão e do acordo que fizera com o empregador. Que o empregador escolheria os que trabalhavam mais por menos salário. Os trabalhadores eram assim obrigados a reduzirem o seu preço mediante a concorrência de outros trabalhadores. O economista David Ricardo vai demonstrar (1817) que o “preço do mercado” de trabalho tende a conformar-se com o “preço natural”, uma vez que quando o preço do mercado é alto e os trabalhadores recebem mais do que o suficiente para a manutenção das suas famílias, tal faz com que a tendência seja para o aumento do tamanho das famílias. Com isso, aumentará o número de trabalhadores, o que consequentemente levará a uma baixa de salários. Quando o preço do mercado é baixo, os trabalhadores recebem menos do que o necessário para manterem as famílias, o seu número acaba por se reduzir, o que conduzirá a um aumento dos salários.
Segundo esta “lei de salários”, Ricardo conclui que com o tempo, os trabalhadores não poderão receber mais do que o “necessário para lhes permitir […] viver e perpetuar a raça, sem aumentar nem diminuir”.
Depois, a quando da tentativa dos trabalhadores para diminuírem as horas de trabalho, e perante a tremenda oposição dos industriais que previam que se tal viesse a ser aprovado conduziria à ruína, aparece o economista Nassau Senior com a doutrina (1844) segundo a qual as horas não podiam ser mais reduzidas, porquanto o lucro obtido pelo empregador vinha da última hora de trabalho, pelo que se se a retirasse, desapareceria o lucro. “Sob a lei atual, nenhuma fábrica que emprega pessoas com menos de 18 anos pode trabalhar mais de 12 horas por dia nos cinco dias da semana e 9 horas aos sábados. Ora, a análise seguinte mostrará que numa fábrica sob tal regime o lucro líquido é obtido na última hora”.
Esta teoria da “última hora” foi empregada para combater os pedidos a favor de um menor dia de trabalho. Mas outra teoria de Nassau, a doutrina do “fundo de salário”, foi ainda utilizada para combater os pedidos de aumento de salário. Segundo ela, era “pura tolice” os sindicatos e os trabalhadores fazerem greve a favor de aumentos de salário, e isto porque o pagamento dos salários era retirado de um certo fundo posto de lado exatamente para isso. Assim, a menos que o fundo de salários aumentasse ou o número de trabalhadores diminuísse, não havia qualquer outra hipótese para as revindicações dos trabalhadores. Isto era uma lição de Aritmética elementar: “É uma questão de divisão. Reclama-se que o quociente é muito pequeno. Bem, então, quais são as formas de torná-lo maior? Duas. Aumente-se o dividendo, permanecendo o divisor o mesmo; reduza-se o divisor, permanecendo o dividendo o mesmo, e o quociente será maior.”
Mas Nassau propunha uma solução: o aumento do fundo de salários. Isso seria possível “libertando a indústria da massa de restrições, proibições e tarifas protetoras, com as quais a Legislatura por vezes, numa ignorância bem-intencionada, tem procurado esmagar ou dirigir mal os seus esforços.” Ou seja, deixem os negócios em paz e o resultado será mais dinheiro no fundo reservado aos salários. Velha aspiração sempre viva.
John Stuart Mill, que também considerava correta esta teoria do fundo salarial, veio finalmente em 1869 a reconhecer que essa doutrina era destituída de base científica e que deveria ser posta de lado. O que muito contribuiu para que os trabalhadores cada vez mais considerassem que essa tal de Economia Política não passava de uma ciência que só servia os interesses da classe patronal: era a economia dos homens de negócios.
Quase um século depois da lei de 1816 que proibiu a contratação de trabalhadores com menos de 9 anos e da celeuma sobre a liberdade de contratação, eis que em 1905, nos EUA, o Supremo Tribunal declarou inconstitucional uma lei do estado de Nova Iorque que limitava a 10 horas por dia o trabalho dos padeiros, invocando que tal lei “privava os padeiros da liberdade para poderem trabalhar mais horas se assim quisessem”.


Também há quase um século, em 1931, F. A. von Hayek teorizou que para se evitar que os lucros caiam, se deveria reduzir a assistência social bem como os salários pagos: “Certos tipos de ação estatal, causando um desvio na procura dos bens do produtor para o consumidor, podem provocar um retraimento na estrutura capitalista da produção, e, portanto, uma estagnação prolongada […] A concessão de crédito aos consumidores, recentemente defendida como cura para a depressão, teria na verdade um efeito contrário; um aumento relativo na procura de bens do consumidor apenas pioraria a situação.” Hayek advoga que a restauração do lucro seja feita através da redução da capacidade aquisitiva das massas, ou seja, através da redução dos salários. O tal de “empobrecimento”, das massas evidentemente. Hayek, o profeta.
Mas Hayek nota também que “Na moderna economia de troca, o industrial não produz com o objetivo de atender a uma certa procura – mesmo que use essa frase por vezes – mas na base dos cálculos de lucros.” O que faz com que o aclamado cronista americano Walter Lippmann defina tão bem o capitalismo quando na sua crónica semanal do Herald Tribune de 13 de Julho de 1934, escreve: “Não adianta falar de recuperações nas atuais condições, a menos que os capitalistas, grandes e pequenos, comecem a investir em empresas com o objetivo de obter lucro. Não investirão para ganhar medalhas. Não o farão por patriotismo, ou como ato de serviço público. Só o farão se tiverem oportunidade de ganhar dinheiro. O sistema capitalista é assim. É assim que funciona”.


Já na Primeira Guerra se tinha chegado ao cúmulo dos países em guerra trocarem matérias primas entre si, como aconteceu, por exemplo, quando a Alemanha precisou de alumínio para a construção dos seus zepelins e a França precisava de magnetos para os seus aviões; então, a troca foi feita através da Suíça, que comprava magnetos à Alemanha, e vendia-lhes bauxite comprada aos franceses!
Não é pois de admirar que os motores que equiparam os carros de assalto nazis tivessem sido fornecidos pela GM General Motors. Há investigações com a finalidade de se apurar (“tarde piaste”) se esses e outros fornecimentos se estenderam para além do começo da Segunda Guerra Mundial. Tal como os capitalistas alemães “aliados” do regime, eles apostam em tudo o que possa dar lucro. O sistema capitalista é como que um lençol de água a correr sobre uma superfície, que irá penetrar em todas as fissuras e aberturas que encontre no seu caminho: sempre pronto a acumular seja onde for e à custa de quem for.
Independentemente de todas as considerações que possam estar na origem do nazi-fascismo, é preciso não nos deixarmos envolver no horror que lhe está associado, que nos pode levar a acreditar que se tratou de uma exceção, que foi eliminada ou que não volta mais. É sobretudo preciso não esquecer que a economia nazi-fascista é uma economia capitalista, em que a restrição à mobilidade do capitalismo foi a troca, o prémio que os capitalistas estiveram dispostos a pagar para terem a proteção contra as exigências do trabalho. A economia nazi-fascista é a economia capitalista exatamente com a mesma necessidade de expansão, a mesma necessidade de mercados, que caracterizara o capitalismo no seu período imperialista. Foi a saída para uma economia capitalista em colapso.
E, muito embora a economia da União Soviética não possa ser teoricamente considerada como uma economia capitalista, as bases profundas em que assenta são eminentemente capitalistas: não visando o lucro, ela assenta num mesmo sistema de obediência e autoridade, sem o qual esta sociedade capitalista não poderia sobreviver.
Se não quisermos ter de vir a encarar a possibilidade de uma “nova” repetição no futuro, teremos de alterar as bases em que esta nossa sociedade humana se tem afirmado.

Enganam-se aqueles que pensam que esta organização é a única possível, que vai durar para sempre assim. Estamos ainda no princípio, e temos já agora meios para evitar os constrangimentos que presidiram à formação desta forma de sociedade. Exemplos recentes de propostas para sociedades alternativas encontram-se já em Jesus Cristo, pela consideração de que todos os homens eram irmãos (visionário no tempo, ainda hoje não entendido ou praticado), ou na Cidade de Deus de Santo Agostinho. O Cristianismo como barreira à barbárie.

 

 

 

 

Face Book: livro de rosto, livro de rasto...

Invejo os paranoicos. Eles pensam realmente que as pessoas lhes estão a prestar atenção”, Susan Sontag.


Só há uma coisa no mundo que é pior do que ser falado, e é ser não falado”, Oscar Wilde.

 

A sociedade atual é uma sociedade de consumo por excelência, onde tudo e todos estão sujeitos ao consumo. Mesmo o sofrimento mundial. Todos os dias os telejornais são disso exemplo quando nos dão notícias em que vemos as vítimas tornarem-se celebridades e as celebridades tornarem-se vítimas. Ou posto de outra forma, para conseguirmos mais atenção temos de ser ou uma vítima ou uma celebridade.
Esse reconhecimento será sempre feito pelos outros. São eles que dão testemunho ao mundo da nossa presença.  Na sociedade atual, numa era de consumo indiferenciado, de ação social de rotina e de anestesia moral, esta procura de reconhecimento chega ao ponto de se exibirem fragmentos (bem grandes) da nossa privacidade na espectativa de recebermos atenção.
Perante o desaparecimento da esfera pública, o sítio onde as pessoas buscam inspiração, reconhecimento e atenção é num produto perfeitamente adaptado a essa função, o Face Book (FB).
No desespero da luta contra a falta de significado, contra a insensibilidade, contra o falhanço em não se reagir, pelo reconhecimento de que pelo menos alguém nos liga, se importa connosco, encontramos no FB um espaço próprio que nos protege física e virtualmente. O FB representa, de certa maneira, a luta contra a própria não existência e contra a não presença no mundo.
O FB é também o representante de um novo conceito de amizade que significa o enfraquecimento dos laços humanos. É assim que esta nova geração mede os amigos por centenas e milhares, por ventura como contraponto à posição precária em que está na sociedade: 30% ou mais, dos menos de 25 anos, estão desempregados ou com contratos a termo certo ou em estágios que não passam de expedientes de exploração, sem qualquer possibilidade de emprego a tempo inteiro de duração prolongada.
Esta procura constante de emprego, este mudar constante de local de trabalho, este não ter ideia do que é que o amanhã lhes vai trazer ou o que lhes poderá acontecer sempre sem possibilidades de se lhe escapar, vai originar um estilo de vida onde não existirá espaço para empenhos duradores nem para sentimentos de pertença a uma comunidade. Estamos a um passo para que não existam razões para as pessoas ficarem umas com as outras. A morte da sociabilidade não é uma fantasia distante apenas presente nas distopias de Houelebecq.
É cada vez mais notório que a luta pela igualdade e pelos direitos humanos não passa de uma máscara que visa esconder a indiferença para com os outros, sendo cada vez mais um olhar para o outro lado e não para os rostos e olhos, um caminho em direção a um isolamento seguro.
Como bem viu Gilles Lipovetsky, o mundo atual está lentamente a transformar-nos em pequenos Don Juans. E não se refere apenas ao sexo sem sentimentos, à intimidade física sem amor, ao estar-se juntos sem se ter aquele sentido de que isso é muito frágil e de que esse encontro deve ser visto como um milagre que desaparecerá se nada fizermos. Refere-se também ao fato de construirmos o nosso próprio sucesso à custa de outras pessoas, utilizando-as como fragmentos e componentes individuais do nosso próprio projeto. Para estes pequenos Don Juans a única estratégia de vida é o uso e abuso efetivo de si próprio e dos outros.
Sob o ponto de vista político, a utilização do FB e Twitter é também enganosa. Convocam as pessoas para as ruas, e elas vão, não só porque as multidões seduzem como porque é sempre possível que qualquer coisa possa suceder, não se sabe bem o quê. Querem-se ver livres da sua indignação difusa, ressentimento, vexação, rancor, angústia, e até pode ser que encontrem uma sociedade alternativa. Mais uma vez não custa nada disfrutar o presente sem hipotecar o futuro, os tais direitos sem obrigações. Só que, contrariamente às espectativas inspiradas eletronicamente, demora muito tempo a fazer do impossível o possível.

Dizem-me as minhas amigas que devia entrar para o FB. E, para além de tudo o acima dito, fico a pensar que a importância do FB hoje é tal que, se lá não estiver é porque certamente serei uma não-pessoa. Ou seja, estarei num mundo onde ninguém se importa comigo, ninguém responde às minhas  mensagens, nem aos meus esforços para me tornar conhecido, a não ser que passe a ser uma sensação política ou passe a ter uma daquelas doenças horríveis e transmissíveis ou mate muita gente à dentada, mas tem de ser mesmo muita e variada. Assim sendo, é bom não estar no FB: aquilo que eu escrevo para meia dúzia de amigos e que sei que aos poucos deixará de ser lido, não me causa mágoa. É que nesta sociedade, escrever para a gaveta (para a 'nuvem') é um sinal de liberdade interior.
Sabemos hoje que, quer a moral coletiva quer a moral individual, não foram e não são suficientes para impedirem uma nova barbárie totalitária. Mas sabemos hoje mais: que a existência de pessoas racionais, críticas e livres, não pode mudar a direção desta civilização.
P.S. Tranquilas: o FB é apenas um dos sintomas e não a causa.

O Estado social dos ricos

“Viaje agora, pague depois”
“O ‘crash’ do crédito representa o grande sucesso do sistema bancário”.
O sistema económico alimenta-se dos próprios filhos.

 

Em 1975, Jürgen Habermas, no seu livro A Crise de Legitimação explica-nos que o estado ‘capitalista’ serve para que se efetue a transação comercial entre o capital e o trabalho. Para que essa transação possa ser feita, é fundamental que o capital seja capaz de comprar o trabalho e que o trabalho seja ‘vendável’ (suficientemente atrativo para que o capital o queira comprar). Conseguir que estas duas condições aconteçam é a principal tarefa do estado capitalista, donde advirá a sua ‘legitimação’.
Para tal, o estado vai por um lado tentar garantir que não falte dinheiro ao capital, subsidiando-o se ele não tiver o dinheiro suficiente para a compra do trabalho, e por outro lado vai tentar garantir que o trabalho disponível para a venda valha mesmo a pena ser comprado, ou seja, que os trabalhadores sejam suficientemente fortes e saudáveis, adequadamente alimentados, devidamente treinados e comportados para que possam desempenhar e suportar as funções requeridas pelo emprego industrial. Sem estes subsídios providenciados e administrados pelo estado, nenhum empregador capitalista teria dinheiro suficiente para comprar o trabalho.
Embora a ideia central desta visão de Habermas se mantenha válida, de 1975 para cá o capitalismo, que então se baseava numa sociedade de produtores em que o lucro era realizado pela exploração do trabalho contratado, passou a basear-se numa sociedade de consumidores em que o lucro é na sua maior parte realizado pela exploração dos desejos de consumo. A finalidade passou a ser o evitar que haja qualquer necessidade de consumo que não possa ser satisfeita, em que portanto a finalidade da oferta seja a de criar a procura. Do que se trata já não é de assegurar que a transação compra-venda de trabalho seja realizável, mas de subsidiar o capital para que ele possa vender mercadorias e que os consumidores as consigam comprar. E qual será o mecanismo mágico que vai ser usado para que isso seja possível? O crédito. Daí que a primeira função do estado atual seja a de assegurar a disponibilidade contínua do acesso ao crédito.
Segundo Max Weber, a regra de comportamento humano e social que esteve na origem do capitalismo, tinha que ver com o período de espera que considerássemos como necessário para que a satisfação pudesse ter lugar. Ou seja, se desejássemos uma coisa mas não tivéssemos o dinheiro suficiente para a comprar, teríamos de poupar, apertar o cinto, para que mais tarde pudéssemos então adquirir o que desejávamos. Felizmente hoje, graças à boa vontade dos bancos, isto já não se torna necessário. Agora dá-se uma inversão: compre já, pague depois! “Viaje agora, pague depois”, lembram-se? Com o cartão de crédito obtemos as coisas quando as queremos e não quando temos dinheiro para elas.
Só que esta aparente facilidade vai, em grande parte dos casos, converter-se numa fonte permanente de rendimento para os bancos. As facilidades concedidas para dilatação da dívida são tantas e de tantos bancos, que uns cartões vão servir para amortizar outros, sem nunca a dívida ser paga. O não pagamento total da dívida é bem-vindo e bem visto pelo sistema, onde os bancos oferecem mais crédito para se pagarem as dívidas antigas! Isto porque na realidade os bancos não querem que lhes paguem totalmente a dívida, querem é tê-lo como devedor permanente. Chega-se ao ponto que para se terem boas recomendações bancárias tem de se estar a dever dinheiro aos bancos e de não se liquidar totalmente as dívidas. Uma das empresas do sector em Londres chegou mesmo a recusar a reemissão de novos cartões a todos aqueles que tivessem pago totalmente as suas dívidas.
Como diz Baumann “o ‘crash de crédito’ atual não significa que os bancos falharam. Muito pelo contrário, ele “representa o grande sucesso do sistema bancário ao conseguir transformar a grande maioria dos homens, mulheres e jovens numa raça de devedores”, pois foi isso exatamente que procuraram. E, como sempre, o Estado deu uma mãozinha assistencial como por exemplo, quando o Presidente Clinton aprovou leis que permitiriam que quem até aí não pudesse ser considerado elegível para efeitos de concessão de empréstimos, mesmo assim os conseguissem obter desde que fosse para comprar casa própria, o que fez rapidamente aumentar em pouco tempo o número de devedores. Mais tarde diriam que tinham vivido acima das suas possibilidades!
Este enorme alargamento do campo dos devedores tem que ver com uma das principais características do sistema económico: a necessidade constante de descoberta de novos “campos de pastagem” para se manter sadio, campos que devido à sua voracidade são rapidamente desertificados. A procura de novos potenciais devedores atinge proporções inimagináveis. É assim que os estudantes universitários dos países mais desenvolvidos (as futuras elites políticas, intelectuais e espirituais das nações) têm sido encorajados, forçados, a viverem à base do crédito de que só muito mais tarde se poderão vir a libertar, se o conseguirem. Não é de admirar que façam parte do curriculum dos sistemas de educação, disciplinas que ensinem a arte de viver permanentemente em dívida.
A caça foi tão bem feita que, no famoso ano de 2008, as dívidas por pagar dos consumidores Ingleses eram superiores ao produto interno bruto, o mesmo acabando por se vir a verificar no resto da Europa. Contudo, tal como para a indústria de calçado o facto de todos andarmos de sapatos acabaria por constituir uma ameaça, também para os bancos o grande número de pessoas endividadas acabaria por constituir uma ameaça, uma vez que começariam a ficar sem terras virgens para explorar.
Rapidamente o sistema compreendeu que poderia passar sem todo esse esforço de endividamento individual conseguido pelos bancos. Se em vez das pessoas fossem países inteiros a ficar em dívida, tudo se tornaria mais garantido, eficaz, simples e mais fácil de gerir. E foi o que fez, inclusivamente sem se importar com a grande maioria dos bancos. Isto é outra característica do sistema económico: alimentar-se dos seus próprios filhos, se isso lhe for conveniente. Tal como uma serpente, começou agora a comer a sua própria cauda.
Mas será que a cauda se vai regenerar? Pelo menos essa tentativa está a ser feita, através do esforço para recapitalizar os que emprestam o dinheiro e para conceder de novo crédito a quem o merecer, para que o negócio volte a ser o que era, ‘business as usual´. O que convenhamos não abona muito a favor das instituições financeiras e governos, por insistirem em erros de diagnóstico. Como escreveu Simon Jenkins, analista económico do Guardian, “é como se um piloto tranquilizasse os passageiros dizendo-lhes que estava tudo bem com o avião, só os motores é que falharam”.
É bom não esquecer que o famigerado ´estado social´, agora tão criticado e culpabilizado, foi uma criação do capital com o fim de apaziguar o trabalho. Contudo, o seu funcionamento foi tão bom que os ricos resolveram seguir o modelo criando o seu próprio ‘estado social´ onde, sempre que o povo não esteja interessado em “voluntariamente” contribuir para as empresas privadas ou públicas, o estado intervirá através da mobilização de recursos públicos para essas empresas ou pela alienação de património. Desde há muito que isto é feito, mas estas transferências estão a atingir números exorbitantes. É assim que, por exemplo, com a desculpa de salvarem postos de trabalho, o governo americano entregou subsídios no valor de 92 biliões de dólares à Boeing, IBM e General Motor.
Lembro-me sempre de Galbraight mostrar no seu livro Um Nação de Carneiros que se o dinheiro que se tinha gasto até então na guerra do Vietname tivesse sido entregue às populações vietnamitas daria para cada um comprar uma casa totalmente equipada de eletrodomésticos, ar condicionado, um carro e mais uns trocos. Não teriam morrido americanos e, se calhar, tinham ganho a guerra que não perderam. Alguém vai ter de despolitizar o ‘estado social’ dos ricos!



Pintar a ternura

“Em geral, as coisas visíveis não desaparecem na obscuridade e no silêncio; desvanecem-se antes no mais visível”, Baudrillard.


“Vivo daquilo que os outros não sabem de mim”, Peter Handke.

 

Quando entrei, reparei que atrás da porta, encostado à parede estava um quadro, possivelmente para vir a ser colocado em lugar de destaque. Quando me sentei fi-lo propositadamente de forma a ter o quadro à minha frente, porquanto algo nele me chamou a atenção.
Ao longo da semana fui meditando e elaborando sobre o porquê dessa atenção. Um crítico de arte pronunciar-se-ia sobre a técnica, o estilo, influências. Como crítico da arte interessa-me muito mais o mundo e sentido contido na obra que vá para além da capacidade técnica de construção. Interessa-me muito mais tornar compreensível a mensagem escondida, tendo sempre presente que na leitura de uma obra, é o mundo da obra que se lê que terá de ser interpretado e não o autor que se encontra por trás dela, nem a intenção que o levou à feitura da obra.
Vejamos:
Quando a obra opta por um velamento que toda a percorre com a utilização de cores não luminosas, está implicitamente a retirá-la do contexto atual do valor de exposição. A expressão fugaz de um rosto humano transmite esse valor de resistência à uniformização imposta pelas regras atuais, introduzindo-o como um valor de culto: a melancolia do ser humano presente. E detém-se exatamente no ponto em que a sua interioridade poderia vir a ser comprometida pelo olhar do outro. Estamos perante uma ternura para consigo através do olhar do outro, o que é muito interessante. Há como que uma vergonha e distanciamento próprios, mais um indício de resistência aos valores de exposição.
Estamos perante uma obra que quase parece ter sido concebida como um manifesto anti exposição, obra eminentemente intimista e como tal deverá ser tratada. A sua colocação num espaço de recolhimento em que não aparecesse como estando exposta seria aconselhável.


Teorizemos:
Na sociedade atual as coisas não têm valor só por existirem. Elas só têm valor quando são vistas. Para serem vistas têm de ser expostas, logo convertidas em mercadorias. E contudo, é muito mais importante as coisas existirem do que serem vistas. Só assim se explica que muitas das imagens religiosas permaneçam veladas quase todo o ano, saindo raras vezes para exposição ao público. Ou seja, o valor de culto depende da sua existência e não da sua exposição.
Na sociedade atual o valor de culto desaparece em favor do valor de exposição. Na exposição tudo está voltado para fora, descoberto, despojado, exposto. Trata-se de uma mercadoria que se entrega, sem segredo, pronta a ser consumida de imediato. A exposição entrega tudo à visibilidade, renunciando a toda a peculiaridade das coisas. E as coisas, como notou Baudrillard, não desaparecem pela obscuridade, mas pelo excesso de iluminação.
Mas a exposição vai ainda obrigar a uma valorização do exterior e do visível. Daí ela depender do aspeto do belo, em que a beleza não aparecerá como junção entre o encobrimento e o encoberto (os modelos atuais não transmitem valor interior, mas apenas medidas exteriores!), aparecendo antes com o fim de maximizar o valor de exposição. E como o invisível não tem qualquer valor de exposição, explora-se o visível, através da superfície brilhante. Se o quadro for brilhante, nada mais se pergunta, pois não tem nenhuma estrutura de compreensão profunda.
O juízo de gosto não contém atualmente qualquer reflexão estética, sendo esta substituída pelo simples “gosto/não gosto” de uma contemplação apressada, em virtude também das imagens inundadas de valor de exposição não mostrarem qualquer complexidade. É que a complexidade torna mais lenta a comunicação (se se tiver de fazer a comunicação do sentido, tudo seria muito mais lento), daí que tenha de ser reduzida, para que a chamada hipercomunicação tenha lugar. Mesmo que essa hipercomunicação seja vazia de sentido.
Para que tudo seja mais fácil e rápido de comunicar, de acelerar, é necessário que tudo seja igual, não criando assim resistências que possam perturbar e atrasar a comunicação. Tudo deve ser imediato de forma a tornar-se maquinal (um mundo onde só circulem informações que nada o perturbem e que de preferência não excedam os 140 caratéres), operacional, não dando lugar a qualquer ambivalência. As imagens devem aparecer libertas de toda a profundidade hermenêutica, de todo o sentido, para que se estabeleça um contato imediato entre a imagem e o olho (há quem chame a este imediatismo de pornografia).
Só que um mundo assim, todo ele convertido num espaço de exposição, será impossível de habitar. Se habitar significar estar satisfeito, estar em paz, a permanente coação introduzida pela exposição, pela visibilidade permanente, não o permite. Vai impedir-lhe o acesso ao oculto, ao inacessível, ao misterioso. A alma humana necessita de ter locais em que possa estar em si mesma sem o olhar do outro.
Por isso mesmo se torna também impossível (e até indesejável) o conhecimento do outro em absoluto. Não para o afastar, mas para permitir o aparecimento de algo que o mundo da exposição não consegue transmitir, nem eliminar por completo: a ternura. A ternura é o respeito pelo outro que limita o direito a perguntar em virtude do direito do segredo. É aquele pressentimento que se tem do outro em que, para além do último revelado exista ainda um último não revelado, mas que se não toca, que se venera, como local de recolhimento do outro.



Passado, presente, futuro: o fator J. C.

“Caminhamos guiados pela fé e não pelos nossos olhos”, S. Paulo.


“É preciso inscrever a catástrofe no futuro de uma maneira muito mais radical. É preciso torná-la inevitável”, Jean-Pierre Dupuy.


“Para se tornar um verdadeiro adepto do materialismo dialético, devemos passar pela existência do cristianismo”, S. Zizek.

 

Futuro, presente e passado são boias a que nos agarramos para conseguirmos de vez em quando vir ao de cima neste oceano quase vazio de coisa nenhuma por onde andamos. Daí que por vezes eles se misturem, especialmente nesta nossa mania de cientificamente marcar o tempo e o espaço esquecendo-nos que tudo dependerá do lado para onde estivermos virados. Mesmo os instrumentos que utilizamos para nos darem informações sobre como estamos relativamente ao estado de elevação do sol do ‘nosso’ sistema, a que convencionamos chamar de marcadores de tempo antes de passarem a serem relógios quando cobiçados como produtos das classes altas (o que só de si constitui mais um exemplo da pouca inteligência humana e da muita ganância, pois as classes altas dele não precisavam para nada pois dispunham de todo o tempo livre para fazerem o que costumavam fazer, e as classes baixas enfeitiçaram-se e enfeitaram-se com mais um produto que as obrigava a serem duplamente escravas, do tempo e dos seus donos) mais não nos dão do que informações sobre qualquer coisa que deixou de ser no momento em que os olhamos. Vivemos permanentemente no já foi, pelo que há quem diga que não existe presente. E os seus companheiros, passado e futuro, existirão?


Paulo Orósio (c. 390 – c. 423) escreveu de 416 a 418, a primeira história universal feita por um autor cristão, Historiarum Adversus Paganos libri VII (História contra os Pagãos em sete livros), mais conhecida na Idade Média por Moesta mundi (Tristezas do Mundo), por tratar das guerras e dos sofrimentos resultantes da ascensão e queda dos impérios. Por bula papal de 494 foi oficialmente aceite para o ensino, permanecendo durante sete séculos como manual de ensino de História Universal.
Para Orósio era na história que Deus se revelava e manifestava. Vai assim influenciar toda a linha da filosofia da história que se lhe segue, ao atribuir-lhe um teor providencialista e messianista. Providencialista na medida em que crê que todos os fatos temporais se encaminham para um ponto comum, e messiânico por considerar que a finalidade da história é a instauração do reino de Deus. A sua originalidade constituiu em encontrar um princípio unitário absoluto para onde todos os acontecimentos históricos são conduzidos, para a partir daí os explicar.
O relativismo resultante de considerar o ponto de vista humano dos acontecimentos históricos como sendo apenas uma perspetiva sobre o todo, e não o todo, é ultrapassado quando Orósio inscreve os acontecimentos temporais no absoluto, através da interpretação providencialista dos mesmos. A finalidade da história faz-se em função de um sentido final: a vitória do Cristianismo e a redenção da humanidade por Cristo. Para Orósio, a visão do futuro é sempre otimista, porque é aí que se situa a redenção da humanidade por Cristo. Como diz: “O futuro é sempre melhor”. O futuro tem pois um papel fundamental.
Em 1597 e em 1609 aparecem os dois primeiros volumes da Monarquia Lusitana de Frei Bernardo de Brito. Perdendo a lucidez que mais de mil anos antes Orósio tinha tido, Frei Bernardo vai ‘demonstrar’ que a fundação do reino de Portugal era de origem divina e que o povo português estaria predestinado a defender a fé católica. Ou seja, a meta da história era a fundação de Portugal e a sua predestinação, substituindo e reduzindo assim a referência essencial de Orósio à história universal pela referência à história particular. É que para Orósio, a meta da história era a instauração de um reino de Deus mas com referência à história universal.
Para valorizar a lenda, o mito e a profecia, Frei Bernardo de Brito vai deslocar a história, dando particular ênfase à finalidade a alcançar. E é esta finalidade que vai por si constituir a razão para a inteligibilidade do passado. Só poderemos conhecer o passado e o presente, se possuirmos o conhecimento das causas finais dos acontecimentos. Se tivéssemos o conhecimento de todas as causas finais, teríamos o conhecimento total do passado, presente e futuro.
Poderemos inclusivamente absolutizar a causa final ao ponto de retirarmos da história tudo o que não faça parte dessa causa final. Ou seja, poderíamos escrever a história baseada só na causa final, o que seria uma história do futuro, e isto porque sendo a causa final sempre relacionada com o ponto de vista divino, então será sempre muito mais verdadeira e universal que a história que se faça do passado ou do presente. A história dos fatos futuros é tão ou mais real que a dos fatos passados, sendo justificada pelo Divino. Daí que a profecia (rutura com o presente) fosse uma mera antecipação do futuro, um texto aberto à história, interpretando os fatos proféticos como fatos que se darão necessariamente. É o que faz o Padre António Vieira (1608 – 1697) quando escreve a sua História do Futuro.


Ao longo de todos os tempos apareceram sempre caminhos e possibilidades que se vieram a verificar mais tarde, algumas das quais não passaram da concretização de promessas passadas. O que significa que no mesmo tempo coincidem, por afloramento, vários tempos para os quais devemos estar atentos, porquanto nos podem levar a percorrer estranhos caminhos, alguns de destruição.
Se tivermos uma visão linear da evolução histórica poderemos dizer que em qualquer momento do tempo existem múltiplas possibilidades que aguardam por serem realizadas, e logo que uma delas se atualiza, as outras são canceladas. Era assim que Leibniz entendia o mundo existente como sendo o melhor dos mundos possíveis: antes da Criação, Deus tinha no seu espírito a totalidade dos mundos possíveis e, dentro deles escolheu o que seria a melhor das opções. Ou seja, a possibilidade precede a escolha. A escolha é uma escolha entre diferentes possibilidades.
Segundo este entendimento, o futuro é produzido pelos atos que realizámos no passado, pelo que a nossa maneira de agir é determinada pelo modo como antecipamos o futuro e pelas nossas reações a essa antecipação. Daqui derivam todos os paradoxos associados à ideia de profecia que se autorrealiza: se agirmos em função dessa previsão e esperarmos que esse acontecimento aconteça, ele acontecerá. Mais: se esperarmos por uma catástrofe prevista e agirmos para a impedir, o resultado será o mesmo, quer ela aconteça ou não. Porque se ela acontecer, as medidas preventivas por nós tomadas, serão consideradas como irrelevantes; se ela não acontecer, então é porque a catástrofe era considerada como impossível, daí que as nossas ações preventivas sejam também consideradas como irrelevantes. Ou seja, prevemos o quadro de uma catástrofe, depois agimos de forma a impedi-la, esperando que o próprio sucesso das nossas ações preventivas torne irrelevante a perspetiva que nos levou a agir!
O que torna interessante esta racionalidade é ela ter por base o fato de apesar de ‘eu saber’ que a minha sorte futura e a da sociedade a que pertenço depender das ações desenvolvidas por milhões de indivíduos como eu, mesmo assim ‘acredito’ no destino, que é regido por algo anónimo e independente da vontade e dos atos dos indivíduos. Ou seja, apreendo o processo histórico como um processo ‘objetivo’ que segue o seu próprio curso independentemente dos meus planos, abstraindo-me do meu papel ativo.
Mas se nos colocarmos no ponto de vista da catástrofe poderemos retrospetivamente discernir alternativas no passado que, a serem tomadas, poderiam fazer com que os acontecimentos seguissem um curso diferente. Por isso e para isso, teremos “de inscrever a catástrofe no futuro de uma maneira muito mais radical. É preciso torna-la inevitável”. Temos de a postular como real e inseri-la retrospetivamente no passado (do futuro) das coisas que teriam sido possíveis, fundando depois a nossa ação sobre essas coisas.

Na nossa sociedade contemporânea temos assistido a uma globalização sem regras, na medida em que não existem instituições globais que controlem as suas consequências políticas e sociais. Este processo, para além de estar a permitir a acumulação da riqueza numa percentagem cada vez menor de indivíduos, tem vindo em contrapartida a aumentar o número de pessoas que foram obrigadas a abandonar as suas casas e o seu país devido quer a guerras tribais, massacres, proliferação de bandos de guerrilhas ou de traficantes de drogas, etc., pessoas essas que vivem permanentemente em campos de refugiados “temporários” e que não podem voltar para o país de origem porque esse país não os quer ou porque as suas casas foram destruídas ou roubadas, e porque também nenhum governo quer receber esses milhões de pessoas. Fora desses campos, os refugiados serão sempre vistos como uma fonte de problemas sem possibilidade de integração, e dentro desses campos acabarão por serem esquecidos. Como estes campos e o número de refugiados têm vindo constantemente a aumentar, tal poderá significar que a sociedade globalizada atual não sabe como resolver o problema ou que então é mesmo assim que resolve o problema, depositando o seu “lixo” não reciclável nesses territórios.
Desse “lixo” acabarão, mais tarde ou mais cedo, por fazer parte todos aqueles que não se enquadrem na “ordem” que se quer reinante, como os “indesejáveis”, os sem papéis, os imigrantes ilegais, etc., e ainda todos aqueles que não têm lugar na “economia”, ou seja, os que não consomem, os que não podem ser acomodados pelas poucas oportunidades que a economia oferece e que não têm papel a desempenhar na sociedade. Empregados, desempregados, pobres, reformados, mulheres, jovens, são tudo grupos que têm sido colocados em círculos de exclusão, o que faz que esta sociedade globalizada seja tendencialmente concentracionária. A servidão, a guerra, a exploração e os campos de concentração são os atributos desta nossa civilização.
A transformação da ciência em tecnologia controlada pelos grandes interesses económicos vem, cada vez mais, tornar irrealizável o sonho de felicidade que prometera: uma nova época de prosperidade para todos. Pior: os avanços que faz vão sempre no sentido da criação de maior desemprego, menores salários, aumento de pobreza e aumento da desqualificação dos seres humanos. O seu ideal é a da completa e total substituição do homem pela máquina. O homem é o ponto fraco da engrenagem. No dia em que conseguirem realizar grande parte das tarefas económicas e financeiras, tornando dispensáveis a maioria das pessoas, não hesitarão em prescindir delas em nome da rentabilidade, da competitividade, do lucro, do sistema, do que for.

Como sair desta situação para onde estamos a ser empurrados? Como é que uma enorme maioria de pessoas sem poder conseguirá inverter este processo, passando a influenciar a sociedade?
Historicamente o modelo que obteve sucesso foi o seguido por Jesus Cristo e pelo Cristianismo. Para além dos aspetos formais e organizativos que devem ter tido, e continuam a ter a sua importância, nomeadamente o da constituição de células secretas com símbolos identificativos próprios, reuniões em locais escusos e catacumbas, os ritos de iniciação e de entreajuda, a liturgia, os mártires, a organização da Igreja, as festividades, etc., aspetos formais que não pretendo aqui desenvolver, também não pretendo lidar com as questões postas pela veracidade histórica de Jesus, dos Apóstolos e dos Evangelhos, por elas me parecerem de menos importância para a tentativa de compreensão dos efeitos revelados no e do comportamento humano, para a tentativa de explicar a razão por que o cristianismo conseguiu estabilizar-se e manter-se no meio das mudanças e do caos geral, porque sobreviveu através de tantas sociedades diferentes e de tantas modalidades de produção, feudalismo, capitalismo e socialismo.
Neste sentido, pouco adianta reconhecer que os quatro Evangelhos do Novo Testamento dificilmente poderão ser considerados como um relato histórico, não só por terem sido escritos por múltiplos autores, que só os escreveram várias décadas após a Crucificação, como por não conseguirem estar de acordo em matérias importantes, como sejam as da virgindade de Maria e da genealogia de Jesus.
É o caso da Fuga para o Egito, em que S. Mateus diz que José foi “avisado num sonho” que devia fugir imediatamente, e S. Lucas diz que a família ficou em Belém por mais quarenta dias até que Maria terminasse “a purificação de acordo com as leis de Moisés”, só depois tendo partido para Nazaré, via Jerusalém.
Sobre a data do nascimento, S. Lucas diz que ele se verificou no ano em que o Imperador César Augusto ordenou um censo, e que tal sucedera quando a Judeia era governada por Herodes, sendo Quirino o governador da Síria. Só que Herodes morreu quatro anos antes, e durante a sua administração o governador da Síria não era Quirino. Também nenhum historiador Romano menciona qualquer censo mandado fazer por Augusto nessas datas. Só um cronista Judeu, José, menciona que tenha havido um censo e apenas para cobrança de impostos, mas tal ocorrera seis anos após supostamente Jesus ter nascido, e mesmo assim sem a obrigação das pessoas regressarem aos seus locais de nascimento. Mateus e Lucas também não conseguem apresentar uma descrição comum sobre a Crucificação e a Ressurreição.
Quanto à virgindade de Maria, ao passo que por muitas vezes Jesus se refere o seu Pai celestial, não se encontra qualquer referência de Jesus à virgindade da mãe. E é S. Mateus que nos vem informar (13:55-57) que Jesus teve quatro irmãos e algumas irmãs. Como conciliar este dilema sexual com uma imaculada conceção e com um pecado anterior ou que se lhe seguiu? Este dilema só vai ser resolvido através da doutrina da Imaculada Conceção anunciada em Roma em 1852, e pelo dogma da Assunção anunciado em 1951.
Mas para além de todas as “evidências” históricas incorporadas no cristianismo, ele permite, apesar disso, uma interpretação lógica daquilo que é o seu núcleo escondido. São questões em aberto. Por exemplo: Se é proibido provar os frutos da árvore do conhecimento do Paraíso, porque razão é que Deus lá colocou essa árvore? Será que isso fazia parte de uma estratégia para seduzir Adão e Eva e assim impeli-los para a queda, para os vir mais tarde a salvar? Subjacente, encontramos aqui um problema filosófico: será que a interdição pela lei (não podes comer os frutos da árvore) está na origem do pecado?
Será que Cristo necessitava da traição de Judas para cumprir a missão da sua morte na cruz (redimir a humanidade)? Na Última Ceia, Jesus incentiva Judas para cometer essa traição. “E, respondendo Judas, aquele que o traía, disse: Porventura sou eu, Rabi? Ele disse: Tu o disseste” (Mateus, 26:25). Em todas as outras religiões, Deus pede aos Seus seguidores que Lhe permaneçam fiéis; só Cristo lhes pede para o traírem, para cumprir a sua missão. O problema ético não está em Judas, mas no próprio Cristo que, para realizar a sua missão, é obrigado a recorrer a estas manobras. É como se Deus tenha começado por lançar a humanidade no pecado com o fim de criar uma oportunidade para a salvar pelo sacrifício de Cristo.
Mais: Cristo morre para que nos fosse dada uma oportunidade de viver eternamente. Para além do fato de não vivermos eternamente (só o Espírito Santo, a comunidade dos crentes, vive eternamente), saberia Cristo enquanto morria na cruz, que iria ressuscitar? Se sim, então tudo não passou de um jogo, um teatro divino, pois sabia que o seu sofrimento era um espetáculo que ia acabar em bem, pelo que o seu “Pai, porque me abandonaste?” foi fingimento. Se não sabia, então em que consistia a divindade de Cristo? Será que o Pai lhe tenha limitado a sua consciência à da condição humana, para que ele pensasse que morria realmente abandonado pelo pai? Mas pode muito bem também ser a queixa de um Deus Filho que deixa adivinhar a impotência de um Deus Pai. Como Job já tinha desconfiado quando Lhe diz “hoje é a minha vez, mas amanhã será a vez do teu próprio filho e não haverá ninguém para intervir por ele. Aquilo que vês hoje em mim é a prefiguração da tua própria paixão” (Livro de Job), Deus não é justo nem injusto. É simplesmente impotente.

Há contudo no cristianismo um elemento que o torna verdadeiramente revolucionário.
A Crucificação revela-nos sofrimento e amor. Quando Cristo na cruz profere a frase “Pai, porque me abandonaste?”, está a conceder que o Deus supremo conheceu não só o sofrimento extremo como a própria dúvida. Está a cometer o pecado supremo para um cristão, o de sentir-se abalado na sua fé. Mas está também a mostrar que o verdadeiro amor é o abandono da Eternidade. Contrariamente ao que dizia Platão, segundo o qual se subia do amor por um indivíduo particular para a beleza do corpo humano em geral, do amor da forma bela para o amor pelo Bem para lá de todas as formas, aqui estamos em presença de um movimento inverso que faz do verdadeiro amor o abandono da Eternidade.
Só um ser vulnerável que sofre por saber que lhe falta alguma coisa (sendo portanto imperfeito) é capaz de caridade (de amor). O cristianismo vai assim elevar um ser imperfeito (que ama) ao lugar de Deus, que é a perfeição suprema. Este é o traço que torna o cristianismo revolucionário, que faz com que todos os que se insurjam se sintam eternamente orgulhosos pela Companhia. É Deus que se revolta contra si mesmo.

Chegados aqui, espero que com uma leitura interessada, não resisto a perguntar em que tempo é que o fizeram: passado, presente ou futuro?

 

Arte comtemporânea

“Celebridades são pessoas que são famosas por serem famosas”


“Um bom livro é um livro que se vende bem por ser muito vendável”

 

As definições acima expressas pertencem a Daniel J. Boorstin na sua tentativa de compreensão sobre o que é a arte hoje e de como funcionariam os circuitos de atribuição do valor/preço da obra de arte. Curiosamente, embora irónicas, estas definições retratam na perfeição o mundo contemporâneo da arte, e não só.
Talvez com a rara exceção dos que pintando as suas mãos as espalmaram e imprimiram nas paredes das grutas (partindo do princípio que tal possa ser considerado arte e não um apenas simples gosto ou necessidade de expressão muito perto do impulso que as crianças têm em rabiscar paredes), o certo é que sempre existiram mediadores no campo da arte, quer através dos “patronos”, quer através das instituições políticas responsáveis pela cultura.
No caso dos “patronos”, cujos exemplos mais claros aparecem em Florença durante o Renascimento, tratava-se de uma mediação feita ao nível individual, porquanto eram os “patronos” que escolhiam, sustentavam e pagavam os artistas para os representarem a si, aos seus e aos seus bens e desejos, através de contratos onde eram incluídas cláusulas em que para além dos pagamentos, figuravam as datas de entrega dos esboços, das maquetas e do trabalho final, a colocação e posição do doador, a nomeação dos intermediários a quem cabia a fiscalização, os materiais empregues, as multas por incumprimento, e o muito mais que acabaria por constituir um minucioso caderno de encargos.
No caso das instituições políticas responsáveis pela cultura, cujo exemplo mais claro aparece em França após a abolição da monarquia, trata-se de uma mediação que começa a ser feita pelo estado, em nome de uma noção messiânica de reconstruir a sociedade desde as suas bases, para a criação de um “homem novo”, a fim de salvar o “povo” do abismo em que se encontrava após séculos de ignorância e superstição.
Daqui, o conceito francês de “cultura” estar ligado aos esforços que o governo fizesse para promover o conhecimento, melhorar as maneiras, refinar o gosto artístico e despertar as necessidades espirituais do povo. De certa maneira, “cultura” era algo que uma elite educada e no poder fazia, ou pretendia fazer, em favor de outros, neste caso do povo sem poder e sem educação.
A finalidade era dupla:  ciar cidadãos leais à República e um património de França. E foi tão importante que, mesmo durante os anos entre 1815 e 1875, em que o regime mudou cinco vezes de autoridade, se manteve esse programa de desenvolvimento e disseminação cultural. Dá-se também o aparecimento do conceito de “património”, em que através de um programa cultural integrado se unificaram as tradições locais, costumes, dialetos e calendários herdados de séculos de fragmentação feudal, com vista à  constituição de uma herança nacional.
Hannah Arendt, preocupada com a diferenciação fundamental entre trabalho (work) e labor (labour), considerava que o trabalho (contrariamente ao labor que era a forma “natural” que permitia ao homem prover às meras necessidades da sua sobrevivência ao extrair da Natureza produtos prontos a consumir) era a atividade resultante da forma “artificial” com que o homem se relacionava com a Natureza através da fabricação. O trabalho surgia assim como a atividade que iria permitir construir um Mundo durável (o Mundo como lugar artificial, construído pelas mãos humanas, por oposição à Terra como ambiente natural colocado à nossa disposição). Esta transformação que o trabalho aplica sobre o meio natural tem em vista o uso (ex.: cadeiras, mesas) e não o consumo (ex.: alimentos), o que faz que do trabalho resultem objetos e não produtos para consumo.
Nota-se em Arendt uma preocupação com a durabilidade que, contrariamente ao consumo, só o uso permite. Considera no entanto que há exceções, ou seja, que há alguns objetos do mundo que são fruto do trabalho, mas que não são destinados ao uso: as obras de arte, que são para serem contempladas. Há aqui uma relação de não uso, de conservação. Talvez por isso sejam as obras de arte os objetos mais duráveis do mundo, os mais mundanos (feitos para o mundo). Não são portanto para serem usados e consumidos de imediato. Daí considerar que um objeto é cultural dependendo da duração da sua permanência, e isto evidentemente para além do seu aparecimento se dever sempre a um ato de criação artística.
Estes conceitos como os de Hanna Arendt foram relativamente pacíficos, até à altura em que entraram na mediação os novos agentes do mercado.
Dizia A. Warhol que “o artista é alguém que faz coisas que não são necessárias”, acrescentando que “ser bom a negociar é a arte mais fascinante”. Estas duas afirmações deixaram de ser contraditórias no atual mercado de arte, porquanto trabalhar é arte, fazer dinheiro é arte, fazer um bom negócio é a melhor arte. Os novos patrões fazem e asseguram que as pessoas sintam a necessidade de possuir (e pagar) precisamente o que os artistas “querem” criar, pelo que a arte se transforma num bom negócio. Descodificando: passam a ser os novos patrões os mediadores a ditarem quais serão as criações artísticas que terão mais procura, e qual o tipo de criação artística que será melhor para o negócio.
O que estes novos agentes do mercado pretendem é que os seus produtos sejam consumidos o mais rapidamente possível para assim obterem um lucro imediato. O destino dos produtos culturais são hoje, conscientemente ou não, decididos pelas contas bancárias e possibilidades de crédito do número de clientes potenciais. A linha divisória entre a “arte com sucesso”, ou seja, a arte que desperte a atenção do público, e a “arte sem sucesso”, pobre ou ineficaz, que não consegue ser exposta nas galerias conhecidas e com clientela certa, é traçada tendo em conta as estatísticas das vendas, a frequência das exposições e os lucros obtidos.
Atualmente, os preços pagos pelas obras dependem da popularidade do artista (e relembremos o que diz Boorsin: “célebres são pessoas que são famosas por serem famosas”, “um bom livro é um livro que se vende bem, porque é muito vendável”), dos órgãos de informação (tv, jornais e agências responsáveis por promover o artista, levá-lo aos olhos do público), e dos nomes das galerias que as passam. Mas não são só estas instituições que adicionam mais valor às obras. A instituição mais vocacionada para acrescentar valor é a da “vernissage”, que promove “events” de curta duração mas fortemente badalados, uma superprodução nos multimédia.
Estes “events” envolvem muito menos riscos do que aqueles que as galerias correm, pois ao serem de curta duração não necessitam da lealdade dos clientes, ao que se acresce o facto dos produtos expostos serem logo para serem vendidos na ocasião, o que lhes diminui as despesas.
Segundo Boorstin, os “events” “atraem as atenções das massas porque as massas lhes prestam atenção, da mesma forma que vendem um enorme número de bilhetes porque há longas filas para esses bilhetes”.Cabe contudo a G. Steiner a melhor definição dos “events” ao dizer que eles são feitos para “terem o máximo impacto e obsolescência instantânea”.
Este “consumo imediato” está em contradição com a natureza da criação artística e com a finalidade da arte. Um mercado de consumo para satisfazer as necessidades de longo prazo é uma contradição!
Citando Kundera: “A missão da arte é ser uma segurança que temos para evitar que nos esqueçamos de ser”.
O problema é que há muitos que se “esquecem” de ser….

 

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