Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(191) A Pornografia como cultura civilizacional

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

"Pornography is great if it's good." Mary Quant.

 

A pornografia não é sobre o amor ou o erotismo. É apenas sobre poder e dinheiro. É uma transação, baseada na conversão das mulheres em objetos. É-lhes atribuído um valor monetário e são sexualmente exploradas para se obter lucro.

 

A violência dos que têm poder contra os que não têm, não é malvada nem cruel quando for chamada sexo; a escravidão não é malvada nem cruel quando for escravidão sexual; a tortura não é malvada nem cruel quando os torturados forem mulheres, putas, conas, Andrea Dworkin.

 

A violência, crueldade e degradação da porno, são expressões de uma sociedade que perdeu a sua capacidade de empatia, Chris Hedges.

 

 

 

 

 

Numa entrevista de 2008, a estilista da moda e “inventora” da minissaia, Mary Quant, dizia que a pornografia até podia ser boa, quando bem feita:

"Pornography is great if it's good."

 (https://www.theguardian.com/theguardian/2008/oct/10/3).

 

O dono da companhia Pain and Orgasm (Dor e Orgasmo), produtora e distribuidora de filmes pornográficos que comportam tortura, e que tem um Web site onde os subescritores podem ver filmes de sexo e submissão por 24,95 dólares mês, entende que o Governo é demasiado intrusivo neste ramo de negócio.

Segundo ele, tal não é correto, porque “as pessoas devem poder ver aquilo que quiserem desde que tudo se passe consensualmente entre adultos, e desde que não envolva crianças ou animais. Fiquem fora dos nossos quartos”.

 

Só nos Estados Unidos, no Vale de São Fernando, Califórnia, todos os anos são feitos 13.000 filmes pornográficos. Segundo a Internet Filter Review, em todo o mundo os lucros com os filmes pornográficos, foram em 2006, 97 biliões de dólares. O que é mais do que os lucros da Microsoft, Google, Amazon, eBay, Apple, Netflix e EarthLink.

Como não há uma monotorização precisa da indústria porno e como ela é tão lucrativa, algumas das maiores corporações participam dela. É o caso da General Motors através da DIRECTV, que distribui mais de 40 milhões de canais porno por mês. É o caso da AT&T e da Comcast Cable, através da Hot Network e da Adult Pay Per View. A AT&T e a GM arrecadam entre elas cerca de 80% de todos os dólares pagos pelos consumidores.

 

Patrice Roldan, conhecida nos filmes como Nadia Styles, já entrou em quase 200 filmes, nomeadamente no Senhor dos Cus (Lord of Asses), Anal Girls Next Door, Deep Throat Anal, Trophy Whores, e Young Dumb and Covered in Cum, conta que durante as filmagens já sofreu um grande número de penetrações anais por variadíssimos homens. Chegava a ter um homem no ânus, outro na vagina, enquanto fazia uma mamada a um terceiro. Os homens ejaculavam na sua cara. Ela foi repetidamente “face-fucked”, com os homens a forçarem violentamente os pénis para dentro e para fora da sua boca. Fez também o que na gíria da indústria se chama de “ATM”, ass-to-mouth, do cu-para-a-boca, quando um homem retira o pénis do ânus e o mete diretamente na boca.

 

Shelley Lubben, também estrela porno, confirma e acrescenta:

 

Durante as filmagens, temos de fazer o que eles querem. Eles podem sempre arranjar outras raparigas. Elas querem sentirem-se como atrizes, querem notoriedade. Não se apercebem da degradação. Além do mais, esta é uma geração criada na porno. Caem diretamente nela. Consomem drogas para deixarem de sentir. Ficam com os seus cus rasgados. Com hemorragias no útero. Apanham HIV e herpes, desligam-se emocionalmente e acabam por morrer. Mentalmente ficam transtornadas. Ficam com stress pós-traumático como os veteranos da guerra. Não sabem quem são. Vivem uma vida de compras e droga. Não compram propriedades. É só festas, e no fim não têm nada para mostrar a não ser, como eu, herpes genital”.

 

E, continua:

 

“Porno é como outra qualquer dependência aditiva. Primeiro, ficas curiosa. Depois, cada vez necessitas de drogas mais fortes para sentires qualquer coisa. Necessitas muitos homens à vez, bestialidade e porno infantil. A porno torna-se cada vez mais forte”.

“A vida de uma atriz porno é gastar o dinheiro o mais depressa possível em erva, álcool, cocaína, ecstasi e Vicodin. Tomava isso para não sentir nada. Mas no ano seguinte, em vez de tomar só Vicodin, comecei a beber Vodka, a garrafa toda. Todas as raparigas que conheci bebiam álcool. Bebíamos para não sentir a dor física e emocional”.

 

O corpo e as emoções é que pagam a crueldade que vai sendo exercida sobre as atrizes porno. A maior parte sofre de severos rasgões na vagina e no ânus, requerendo cirurgias. Grande parte das profissionais não comem na noite anterior às filmagens. Com laxativos ou clisteres limpam os intestinos. Diz Roldan:

“Prefiro ter fome a ter que chupar a minha própria merda. O pior é quando ela vem de outra rapariga que não teve o mesmo cuidado que eu”.

 

Quando perguntaram à atriz ex-porno, Jan Meza, que já fizera uma cena de sexo com 25 homen, o que pensava sobre os produtores e realizadores da indústria porno, ela resumiu: “Xulos.”

Elas não se limitam às cenas para os filmes: são transportadas para hotéis de outras cidades, onde ficam uma semana num quarto, onde são organizados encontros com homens que querem sexo com as estrelas dos filmes. Elas são alugadas por 1.500 a 3.000 dólares à hora. As atrizes porno mais famosas podem fazer 30.000 dólares por semana como prostitutas de hotel.

 

Ariana Jollee, foi a principal atração do filme 65 Guy Cream Pie, cuja filmagem levou seis horas, durante as quais Jollee fez sexo oral, sexo vaginal, penetração dupla, e dupla penetração anal, com sessenta e cinco homens. Eles ejacularam nos sítios e por todo o corpo dela. Quando as filmagens acabaram, ela estava com o corpo todo coberto de sémen, cabelo inclusive. Daí o título.

 

Os atores pornos masculinos ganham cerca de um terço das mulheres. Eles têm o particular talento de manterem uma ereção durante longos períodos frente a uma audiência de atores, realizadores, produtores e assistentes. Todos eles tomam Viagra ou injetam Caverject numa veia do pénis. Os que se injetam, têm uma ferida aberta na base do pénis. Normalmente sangram para cima das mulheres. Rapidamente acabam por não poderem passar sem as injeções. Cada vez que querem ter sexo, têm de se injetar.

 

Eles são encorajados a serem brutos e hostis. “Alguns odeiam as mulheres”, continua a relatar Patrice Roldan. “Eles cospem-me na cara. Fiz filmagens com homens que detestava, cujo suor e cheiro me enojavam. E quando as luzes se apagavam e as câmaras paravam, saía do palco com dores, com a cara coberta de sémen. Alguns estendiam-me uma toalha de papel para que limpasse a cara; mas outros diziam para não lhes tocar, por estar toda porca. Recordo-me da primeira vez que se vieram na minha cara. Fiquei furiosa, mas aguentei-me. Fingi que gostava de tudo o que me fizessem. Senti orgulho em ser uma boa atriz porno. A minha fama veio disso”.

 

Se se definir sexo como um ato partilhado entre dois parceiros, então a pornografia não promove o sexo. Por isso a nenhuma das mulheres lhes é permitido manifestar qualquer traço de personalidade. A única emoção que podem manifestar é a do propalado ansiado desejo em satisfazer os homens, especialmente se isso conduzir à degradação física e emocional.

 

A pornografia, que se publicita como sendo sexo, não passa de uma mentira encenada, sem qualquer correspondência à realidade. As cenas apresentadas vão muito para além das possibilidades humanas. Os cenários são absurdos. Os corpos e as posições ensaiadas para que as câmaras as possam captar no que seria a intimidade do ato, as enormes mamas artificialmente insufladas, os pelos púbicos rapados para que as mulheres se pareçam mais com adolescentes ou bonecas de borracha. Não há um momento de ternura, não há nenhuma honestidade nas emoções.

A pornografia não é sobre o amor ou o erotismo. É apenas sobre poder e dinheiro. É uma transação, baseada na conversão das mulheres em objetos. É-lhes atribuído um valor monetário e são sexualmente exploradas para se obter lucro.

 

Todo o foco é posto cada vez mais no controle masculino e na crueldade. Segundo os especialistas (Robert Jensen, Getting Off: Pornography and the End of Masculinity), para conquistar mais mercado e agradar à audiência masculina, é a partir de 1980 que começaram a aparecer nos filmes as cenas de sexo anal e seus derivados (penetrações múltiplas, duplo anal, e outras modos de degradação física e psicológica), como forma de dominação dos homens sobre as mulheres.

Segundo Jensen, vivendo-se hoje num mundo saturado de sexo, é de surpreender a dificuldade existente em se falar sobre sexo. Tal acontece porque, devido à pornografia, somos forçados a discutir sobre coisas que nos deixam muito pouco confortáveis connosco:

 

 “Aceitamos uma cultura inundada de imagens de mulheres que são meros objetos. Cada vez mais na pornografia as mulheres não são pessoas com sexo, mas corpos sobre os quais se praticam atividades sexuais de uma crueldade indiscritível. E muitos homens, a maioria, gostam disso”.

 

Aquilo que começou por ser a erotização ilimitada do poder do homem, passou hoje a ser a expressão do poder do homem através do abuso físico e tortura das mulheres. A porno reflete a crueldade inerente da nossa sociedade. Nota Chris Hedges: “A violência, crueldade e degradação da porno, são expressões de uma sociedade que perdeu a sua capacidade de empatia”.

 

 

Quando lucidamente há quase cinquenta anos, Herbert Marcuse escrevia no An Essay on Liberation (1969), que “o símbolo da obscenidade não era uma mulher nua a exibir a sua púbis, mas antes o general que exibia a medalha que ganhara no Vietname; não era o ritual hippie, mas a declaração de um alto dignatário da Igreja segundo o qual a guerra era necessária para a paz”, estava a prever o “progresso” obtido pela morte de centenas de milhar de inocentes no Iraque, Afeganistão, Síria, e de outros igualmente justificados “danos colaterais”, numa convergência cada vez mais clara entre guerra, tortura e pornografia.

 

As imagens de Abu Ghraib, são disso a prova evidente. Elas poderiam ser fotografias paradas de filmes porno. O homem nu ajoelhado frente a outro homem, como se estivesse a fazer sexo oral. O homem nu com uma coleira a ser conduzido, qual cão, por uma mulher soldado. Homens nus em cima uns dos outros como se se tratasse de uma pilha humana. As fotos de masturbação forçada. Bem como as de relações sexuais entre os guardas. Ninguém hoje se admiraria que fizessem parte de um espetáculo porno, de um combate de luta livre, de um reality show de televisão, de vídeos musicais.

Está lá tudo: a linguagem de um absoluto controle, dominação total, ódio racial, imagens fetichistas da escravidão, submissão humilhante. É a redução de outros seres humanos a puros objetos. Como na pornografia.

 

Na porno, os atributos de humanidade são retirados da mulher, pondo-a à mercê de quaisquer abusos. Sem identidade, o nome próprio desaparece substituído pelo nome artístico, ela não passa de uma boneca, brinquedo de dar prazer, que apenas existe para satisfazer os caprichos dos homens. Tal como uma escrava, ela é filmada a ser abusada fisicamente e psicologicamente degradada. O filme é depois vendido a consumidores que, por sua vez, se excitam com a ilusão daquilo que podem fazer para dominarem e abusarem as mulheres. Também eles podem ser torturadores.

O simples facto de três dos torturadores de Abu Ghraib serem mulheres, leva a concluir que tais comportamentos de humilhação sexual, abuso, violação, violência excessiva, são perfeitamente aceites socialmente.

 

Os filmes que mais sucesso têm na Internet, são aqueles que descobrem novas maneiras para humilhar as mulheres. Como os do site Slut Bus (O Autocarro das Putas), em que oferecem dinheiro para que mulheres entrem para um autocarro para serem filmadas a terem sexo, e depois são empurradas para fora do mesmo, deixadas à beira da estrada, sendo por vezes o dinheiro atirado pela janela fora enquanto o autocarro se desloca. Mensagem clara: as mulheres servem apenas para sexo. E não vale a pena pagar pelos seus serviços.

 

A pornografia glorifica a crueldade e a dominação da exploração sexual de mesma forma que a cultura popular glorifica a dominação e a crueldade da guerra. Como diz Jensen, ambas partem da mesma crença:

 

Se tens a capacidade para usar a força para controlares os outros da forma que a ti te interessa, então tens o direito de usar essa força para os controlares”.

 

É a extinção do sagrado e do que se crê ser o humano, em favor do poder, controle, força e capacidade, intenção, indiferença, de provocar dor. É também o que vemos nas corporações económico-financeiras e no poder imperial. É a substituição da empatia, eros, compaixão, pela ilusão de que somos inevitavelmente deuses.

 

 

Nota: Grande parte das entrevistas citadas foram recolhidas do livro de Chris Hedges, Empire of illusion, The end of Literacy and the Triumph of Spectacle.

 

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub