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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(190) A formatação dos Archie Bunker

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

A vida é um estado de amnésia permanente, um mundo em busca de novas formas de escapismo e de rápida gratificação sensual, Chris Hedges.

 

Quando tivermos sessenta e cinco anos, teremos passado nove anos da nossa vida sentados em frente do televisor.

 

Os pseudoacontecimentos são os que têm a capacidade de aparecerem como reais, mesmo apesar de nós sabermos que são ensaiados.

 

A desinformação é muito mais perigosa quando é subtil.

 

A verdade é irrelevante.

 

 

 

 

São muito sintomáticas as estatísticas do U.S. Census Bureau, do National Institute for Literacy, e do National Center for Adult Literacy, relativas à literacia funcional dos Estados Unidos. Segundo elas, 7 milhões de americanos são iletrados, 27 milhões não conseguem ler o suficiente para completarem o processo de pedido de emprego, e 30 milhões não conseguem mesmo ler uma simples frase. Há 50 milhões que leem ao nível do quarto ou quinto ano de escolaridade, número este que tem vindo a aumentar ao ritmo de 2 milhões por ano. Um terço dos finalistas do liceu nunca mais leu qualquer livro após a sua graduação, o mesmo se passando com 42 por cento dos licenciados. Por ano (2007), 80 por cento das famílias não compram ou nem leem um livro.

 

Mas, por outro lado, sabemos que a televisão passou a ocupar o primeiro lugar entre os meios de comunicação de massa. A televisão encontra-se ligada em média, seis horas e quarenta e sete minutos por dia. O americano médio vê diariamente mais de quatro horas de televisão. O que dá vinte e oito horas por semana, ou seja, dois meses interruptos de televisão por ano. Ou seja, aos sessenta e cinco anos, teremos passado nove anos da nossa vida sentados em frente do televisor. Não é de admirar que sejamos todos Archie Bunker, do “Tudo em família”.

 

 

A televisão é o modelo que temos para nós daquilo que é uma forma coloquial e amigável de falar, que ao mesmo tempo que nos conforta com frases do senso comum e com imagens excitantes. Fornece-nos os assuntos para as conversas que iremos ter na interação com as outras pessoas. Cria-nos a falsa sensação de intimidade com a nossa elite, atores célebres, apresentadores, comentadores, políticos, grandes empresários e desportistas.

Tudo e todas as pessoas que passem na televisão, só pelo simples facto de serem por ela transmitidas, são validadas e valorizadas. A televisão confere autoridade e poder. Ela é o árbitro sobre aquilo que na vida é importante e que importa ver.

 

Somos diariamente, semanalmente, anualmente, bombardeados com uma manipulação de imagens e slogans que seduzem até os literatos funcionais que não leem, criando uma nova realidade. A propaganda torna-se o substituto das ideias e da ideologia.

Esta cultura da ilusão impõe-se, despojando-nos das ferramentas intelectuais e linguísticas que nos permitem separar a ilusão da verdade. Reduz-nos ao nível e dependência das crianças, reféns dos jingles e da manipulação de marcas familiares incessantemente repetidas pela cultura de consumo.

 

 

O culminar de tudo isto é o que se passa com os pseudoacontecimentos. Os pseudoacontecimentos são, por exemplo, as produções dramáticas orquestradas por publicistas, por máquinas políticas, pela televisão, por Hollywood ou por anunciantes, que têm a capacidade de aparecerem como reais, mesmo apesar de nós sabermos que são ensaiados.

Essa capacidade deve-se ao facto de poderem conseguir evocar uma poderosa resposta emocional de um realismo avassalador, que permite que essa narrativa ficcional possa substituir a realidade, passando a ser aceite como a verdade.

O exemplo clássico é o da fotografia ensaiada dos fuzileiros americanos a colocarem a bandeira no topo de Iwo Jima. Mesmo quando desmascarada, só lhe aumentou a fascinação e poder. Esta é a base em que se apoia a maior parte do que passa na televisão, com as imagens, com os candidatos a, com os comentários.

 

É assim que para os produtores de informação, já não interessa saber se a mensagem que transmitem é verdadeira, mas antes se aquele pseudoacontecimento que transmitem, funcionou ou não. O que lhes interessa é saber se a manipulação foi efetiva, ou seja, se foi credível. É isso que lhe confere, ou não, o reconhecimento por parte da empresa e dos seus pares.

 Não é, pois, de admirar que a maior parte daqueles que têm sucesso na política, e na maior parte da cultura, sejam aqueles que criam as fantasias mais convincentes. A verdade é irrelevante.

 

Variadas são as técnicas utilizadas. A mais vulgar é, por exemplo, iniciar a peça a transmitir com um título, pequeno comentário em que se afirma o  que se diz ter passado ou acontecido, inserindo-se depois uma pequena entrevista cortada e montada em que o entrevistado diz muitas vezes o contrário, a que se segue o fecho da peça onde se volta a enunciar o que se disse em título, que é a ideia com que acabamos por ficar. Sucesso. Mais um triunfo de um pseudoacontecimento.

Outra técnica é a do recurso aos títulos enviesados, como, por exemplo,  a que foi utilizada pelo diário Guardian UK, teoricamente independente e que se diz conotado com a esquerda, quando sobre os recentes acontecimentos na Palestina, titula a sua reportagem:

 Gaza / Oficial de Israel abatido durante a operação em que morreram sete palestinos (Israeli officer killed during raid in which seven Palestinians died).

Ou seja, durante a mesma operação referida, o que ressalta é que um oficial israelita foi abatido e outros sete palestinos morreram. Ou seja, um oficial israelita foi abatido pelos palestinos, e os palestinos morreram por causa desconhecida. Isto é a forma encapotada para menorizar a morte dos palestinos, meras pessoas desconhecidas, com funções menores (o que não era verdade), face ao relevo dado à morte em combate, não de um israelita qualquer, mas de um oficial.

Embora a reportagem do acontecimento fosse correta, o título da mesma induzia os leitores noutra direção. Sabem hoje os jornais que os títulos dos artigos são o que mais formam a opinião, porquanto cerca de metade dos leitores só leem os títulos. E não é só por preguiça.

 

É o que nos explica Maria Konnikova, licenciada em psicologia e escrita criativa pela Harvard University, doutorada em psicologia pela Columbia University, no seu artigo da revista The New Yorker, “Como os títulos alteram o modo como pensamos” (How Headlines Change The Way We Think), (https://www.newyorker.com/science/maria-konnikova/headlines-change-way-think):

 

Há muito que os psicólogos sabem que as primeiras impressões contam muito, seja no que se vê, ouve, sinta, experiencie. O mesmo se passa com os artigos. E, da mesma maneira com que vestimos para a impressão que queremos causar num primeiro encontro, também o arranjo do título dum artigo pode subtilmente mudar a perceção do texto que se lhe segue. Ao chamar a atenção para certos detalhes ou factos, o título pode afetar o conhecimento previamente existente dentro da nossa cabeça. Pela escolha do fraseado, um título pode influenciar o seu estado de espírito enquanto o lê, de forma a que posteriormente se recorde de detalhes que coincidam com o que é por si já esperado”.

 

Mas, o caso relatado do Guardian, assume ainda uma dimensão bastante mais perigosa.

Numa outra série de estudos, Ullrich Ecker, psicólogo e neuro cientista, da University of Western Australia, vem demonstrar que a desinformação nos títulos das notícias é muito mais perigosa quando é subtil (http://psycnet.apa.org/record/2014-44652-001).

Ou seja, quando um órgão de comunicação é visto como sendo abertamente e despudoradamente defensor de certos interesses, ele é menos perigoso que um outro que se diz ser “editorialmente independente” e sem dependências comerciais. Evidentemente, os editores dos órgãos de comunicação social, sabem perfeitamente o que estão a fazer.  

 

 

Quando não se conseguir distinguir entre opinião e facto, quando não se conseguir determinar o que é verdade ou opinião nos relatos dos acontecimentos diários, na ciência ou nas leis, o mundo passa a ser um lugar onde as pessoas acreditam naquilo que quiserem acreditar.

A um público que não consiga distinguir entre verdade e ficção, só lhe resta interpretar a realidade através da ilusão. Para além do mais, quanto pior for a realidade, quanto maior for o número de falências e de desemprego, mais as pessoas procuram refúgio e conforto nas ilusões.

 

 

Este é o perigo dos pseudoacontecimentos. Eles não explicam a realidade, eles substituem a realidade. Pior: eles redefinem a realidade segundo os parâmetros que os seus mandantes, direta ou indiretamente, lhes fornecem.

As palavras, as imagens, as histórias, e as frases usadas para descrever o mundo através de pseudoacontecimentos, não têm qualquer relação com o que está a acontecer à nossa volta.

Transportamos connosco sentimentos, perceções sobre celebridades, políticos, o nosso país, a nossa cultura, que não passam de miragens geradas por pseudoacontecimentos, que não são só de agora. Como resultado, vivemos hoje em mundos imaginários e virtuais criados por grandes corporações que lucram com a nossa credulidade.

 

 

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