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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(189) O ato cultural de limpar o rabo

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

E tudo isto devemos àquele herói anónimo, o primeiro bípede que teve a necessidade de limpar o rabo, afirmando uma clara distinção para com os outros animais. Finalmente nascera o homem.

 

Um provérbio grego antigo acabou por lançar luz sobre o assunto:Três pedras são suficientes para limpar o cu”.

 

Uma advertência importante: não defecar olhando para uma vaca.

 

Só nos Estados Unidos, o consumo de papel higiénico atinge os trinta e seis mil milhões de rolos por ano, o que implica deitar abaixo quinze milhões de árvores e usar mil e oitocentos milhões de métricos cúbicos de água.

 

 

 

 

O modo como os animais se desfazem dos resíduos que já não lhes interessam, embora variando de espécie para espécie, são dentro da mesma espécie, o mesmo: expelindo-os quase que indiferentemente, sem perderem tempo a tentarem inventar processos alternativos. Como dizia por outras razões aquele major aviador que afinal deveria era ter sido filósofo, antropólogo e sociólogo:

 “Cagando e andando, e nem se olha para trás para tapar”.

 

 Exatamente pelo facto de o fazerem sempre da mesma maneira, mesmo que em alguns casos até pareça tratar-se de uma aplicação da física e de um manual de cortesia, como acontece com a pequena cauda do hipopótamo movendo-se à velocidade de uma ventoinha a espalhar para os lados as dezenas de quilos de resíduos, para assim, educadamente não atingir os companheiros mais próximos, é que não podemos tratar tal função como ato cultural.

Já com os seres humanos tal uniformidade não se verifica, possivelmente dependendo da dieta, do clima, da religião, e até do sentimento artístico.  E tudo isto devemos àquele herói anónimo, o primeiro bípede que teve a necessidade de limpar o rabo, afirmando uma clara distinção para com os outros animais. Finalmente nascera o homem.

 

Inicialmente, lançando mão do que estivesse mais perto e mais a jeito: folhas, ervas, cascas, feno, maçarocas de milho, areia, paus, pedras. Depois, foram-se especializando, dependendo das regiões e culturas: os polinésios usavam cascas de coco, os viquingues usavam lã de ovelha, os esquimós usavam o musgo, na península ibérica os marinheiros usavam as extremidades desfiadas das cordas.

 

Já os japoneses usavam uma espátula de bambu de uns vinte centímetros de comprimento por dez a vinte milímetros de largura, com variados nomes, mas que resumidamente todos queriam literalmente dizer “pau de merda”.

 

Os romanos utilizavam já bancos corridos de pedra com buracos suficientemente largos para se pudessem sentar sem cair, por baixo dos quais corria água: era o tersorium. Para a limpeza, usavam, na extremidade de um pau, uma esponja humedecida em água ou vinagre, que era deixada imersa para o próximo utilizador.

Para emergências, os civilizados gregos e romanos tinham ainda pequenos discos de argila, que durante anos os arqueólogos julgaram tratar-se de pedras que fariam parte de um jogo similar ao xadrez. Finalmente, um provérbio grego antigo lançou luz sobre o assunto: “Três pedras são suficientes para limpar o cu”.

 

Parece que entretanto na China já se usava papel (invenção por eles feita no século II) para essa finalidade, mas tal só aparece relatado no ano 589, quando Yan Zhitui escreveu envergonhadamente: “Não me atrevo a utilizar para asseio, o papel onde  existem escritos ou comentários de Os cinco clássicos ou os nomes dos sábios”.

 

É no século IX que os árabes tomam conhecimento que os chineses “não se lavam com água após fazerem as suas necessidades, mas que se limpam com papel”.

 

Na Europa, a primeira menção à utilização do papel higiénico aparece apenas no século XVI, nas novelas de François Rabelais, Gargântua e Pantagruel, onde ele vai descrever e apreciar os vários métodos para limpar o rabo, depreciando a utilização do papel, pois tinha o inconveniente de deixar troços. Para ele, a maneira mais correta, seria limpar-se a um pescoço de ganso.

 

Também as sociedades islâmicas e hindus, são favoráveis a lavar-se com água, em obediência  ao texto sânscrito milenar, as Leis de Manu, onde se explica ao pormenor quando, como e onde se deve defecar e urinar, e como se deve de lavar depois, incluindo o lavar das mãos. Uma advertência que consideram importante: não defecar olhando para uma vaca.

 

Mas a limpeza com papel foi-se espalhando pela Europa, talvez acompanhando o ritmo da expansão das edições baratas de livros. Lord Chesterfield, século XVIII, nas Cartas ao seu filho, recomendava-lhe que levasse leitura para a retrete, exemplificando com o que um seu amigo fazia:

 

“Ele comprou uma edição vulgar de Horácio, de que vai metodicamente arrancando as páginas, leva-as para a retrete, lê-as primeiro e logo as manda abaixo como sacrifício a Cloacina. Isto é tempo ganho e recomendo-te que lhe sigas o exemplo”.

 

De certa maneira, a utilização do bacio no quarto, acabou por ser o precursor do bidé, cuja forma estranha foi mais concebida para as mulheres. Vejamos a curiosa história do outro nome pelo qual é conhecido: bourdaloue. Louis Bourdaloue (1632 – 1704), era um sacerdote católico que dava sermões compridíssimos, de tal modo que as damas da aristocracia que os escutavam, pediam às suas criadas que lhes pusessem por baixo dos vestidos esses penicos adaptados para que pudessem verter as águas sem saírem dos locais de culto.

O bidé com o formato atual parece ter sido uma invenção francesa dos fins do século XVII. A referência mais antiga que se conhece data de 1726, e foi feita na Itália.

Devido aos melhoramentos introduzidos pelas canalizações de chumbo, nos finais do século XIX, inícios do século XX, os bidés são retirados dos quartos, passando a integrar a casa de banho.

 

Em 1928, nos Estados Unidos, John Harvey Kellog, registou a patente de um “douche anal”, um chuveiro para permitir a limpeza anal com água.

Em 1857, também nos Estados Unidos, Joseph C. Gayetty, pôs à venda o primeiro papel higiénico, o “Papel Medicinal para o W. C.” (https://www.loc.gov/resource/rbpe.13400600/?st=text), com aloé como lubrificante, produto medicinal anti-hemorroidas. Nos seus anúncios, publicitava-o como “A maior necessidade da época”, e advertia contra os perigos de se usarem outros papéis de cor ou tóxicos para se limparem as partes sensíveis do corpo.

 

Água ou papel, são os métodos preferidos, cada um deles esgrimindo os seus argumentos: a água pode causar fístulas anais se se usar a pressão e pode alterar a flora vaginal; o papel higiénico é atacado cada vez mais pelo impacto ambiental (recordemos que são mais de sete mil milhões de rabos a serem limpos).

As toalhitas húmidas seriam, em teoria, a melhor solução. O problema é que não são biodegradáveis e entopem as canalizações e sistemas de esgoto e água. 

 

Voltando ao papel higiénico, só nos Estados Unidos, o seu consumo atinge os trinta e seis mil milhões de rolos por ano, o que implica deitar abaixo quinze milhões de árvores e usar mil e oitocentos milhões de métricos cúbicos de água, a que se deverá acrescentar o cloro e a eletricidade envolvida no processo. Ver o artigo “Wipe or wash? Do Bidets Save Forest and Water Resources? (https://www.scientificamerican.com/article/earth-talks-bidets/).

 

Foi na Exposição Mundial de Londres de 1851 que pela primeira vez foram instaladas sanitas públicas com descarga integral de água, obra do engenheiro sanitário George Jennings. Inicialmente só para homens, e posteriormente para mulheres, foram utilizadas por 827.280 visitantes.

 

 

Mas como dizem que tudo pode ser arte, também este singelo ato cultural tem os seus artistas. Do portuguesíssimo abade de Jazente, de seu nome Paulino António Cabral de Vasconcelos, nascido em 1720 em Reguengo, Amarante:

 

 

Cagando estava a dama mais formosa,

E nunca se viu cu de tanta alvura;

Mas ver cagar, contudo a formosura

Mete nojo à vontade mais gulosa!

 

Ela a massa expulsou fedentinosa

Com algum custo, porque estava dura;

Uma carta de amores de alimpadura

Serviu àquela parte mal cheirosa:

 

Ora mandem à moça mais bonita

Um escrito de amor que, lisonjeiro,

Afectos move, corações incita:

Para o ir ver servir de reposteiro

À porta onde o fedor e a trampa habita,

 Do sombrio palácio do alcatreiro!”

 

 

 

 

Nota: para quem queira especializar-se neste tema, sugiro como primeira leitura, o estudo do British Medical Journal, “Toilet hygiene in the classical era”, (https://www.bmj.com/content/345/bmj.e8287).

 

 

 

 

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