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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(187) Frases feitas feitas frases

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

 

“Os pobres são intoleravelmente preguiçosos”, W. Byrd.

 

“Têm de os olhar nos olhos e dizerem-lhes que eles são irresponsáveis e preguiçosos […] Porque, senhoras e senhores, é isso que a pobreza é”, Bill O’Reilly.

 

A maioria acredita que os pobres só são pobres porque não querem trabalhar.

 

Os milhões de empregos que se encontram por preencher é porque não pagam o suficiente para se poder viver com eles.

 

Trabalhar mais e durante mais tempo, não vai retirar nenhum destes trabalhadores da pobreza.

 

 

 

 

Por razões várias, nas profundezas da genética americana (e não só) está arreigado o conceito de que “Na América, quem trabalhar arduamente, acabará por ter sucesso”, donde deriva o corolário de que “todos os que não têm sucesso, é porque não querem trabalhar arduamente”.

No século XVIII, o rico proprietário de terras da Virgínia, William Byrd, dizia que os “pobres eram intoleravelmente preguiçosos”, Thomas Jefferson predicava o encerramento de todos os vagabundos em asilos (poorhouses e workhouses) porque “gastavam o seu tempo sem nada fazerem e em locais de dissolução”, Barry Goldwater, já no século XX, dizia que os americanos com pouca escolaridade eram uma demonstração de “pouca inteligência ou pouca ambição”, e Bill O’Reilly, explicava em 2004, como se devia falar com os pobres:

 “Têm de os olharem nos olhos e dizerem-lhes que eles são irresponsáveis e preguiçosos […] Porque, senhoras e senhores, é isso que a pobreza é”.

 

Estas frases e semelhantes, repetidas até à exaustão pelos bem-pensantes e instalados, têm produzido os seus efeitos: de acordo com uma prospeção efetuada e publicada a 18 de agosto de 2016 pelo American Enterprise Institute (AEI),  (http://www.aei.org/publication/2016-poverty-survey/), cerca de dois terços dos inquiridos não acredita que os pobres tenham qualquer tipo de   emprego, e cerca de um terço acredita que a maioria dos que recebem ajudas do Estado preferem continuar a receber essa ajuda em vez de procurarem tentar ganhar o seu sustento. Ou seja, a maioria dos americanos acredita que os pobres são pobres porque não querem trabalhar.

 

Mais: conforme nos diz Ofer Sharone, da Universidade de Massachusetts, num estudo de 2013, a maioria dos trabalhadores desempregados culpam-se a si próprios por se encontrarem nessa situação (https://www.researchgate.net/publication/265737681_Why_Do_Unemployed_Americans_Blame_Themselves_While_Israelis_Blame_the_System).

 

Até quase aos finais do século XVIII, a pobreza era considerada como um fato natural, que sempre existira, e que era desejável que assim se mantivesse para permitir o crescimento económico. Segundo o Mercantilismo, a pobreza e a fome não só incentivavam a procura de trabalho como mantinham os salários baixos. E todos os que recebessem qualquer ajuda social e não trabalhassem para conseguir o seu sustento, deveriam ser encerrados em Asilos, (Workhouses), sendo obrigados a trabalharem se quisessem comer.

Nos dois séculos que se lhe seguiram, assistiu-se a um enorme crescimento económico, especialmente nos últimos 40 anos em que a economia se expandiu e os lucros de grandes empresas subiu espetacularmente. Desde 1973, a produtividade aumentou em 77%. Contudo, o pagamento horário cresceu apenas 12%.

 

Ou seja, apesar da expansão económica, os salários reais dos trabalhadores mantiveram-se quase no mesmo patamar. Os trabalhadores americanos têm sido sistematicamente excluídos dos lucros que eles próprios têm propiciado.

É esta discrepância da economia que explica a razão porque o rácio de pobreza se tem mantido constante, apesar dos gastos das ajudas sociais por habitante terem aumentado.

 

Nos EUA, 41,7 milhões de trabalhadores, sensivelmente um terço da força de trabalho americana, recebe menos de $12 por hora, sem direito a seguro de saúde, e sem qualquer garantia de futuro.

E dentro destes, dos que têm emprego, há 7,6 milhões que se encontram a viver abaixo da linha da pobreza.

O Departamento de Estatísticas do Trabalho (U.S. Bureau of Labor Statistics) define “trabalhador pobre” (working poor) como sendo aquele que vivendo abaixo do limiar de pobreza, passe metade do ano a trabalhar ou à procura de emprego.

 Em 2016, desses 7,6 milhões trabalhadores, a maior parte tinha mais de 35 anos, e cerca de 5% tinham idades compreendidas entre os 16 e 19 anos.

 

E, contudo, todos os anos nos dizem que a economia está forte, que o desemprego está baixo, o Dow Jones da média industrial está acima dos 25.000, e que há milhões de empregos que não são preenchidos porque as pessoas não querem trabalhar.

 Mas que empregos são estes que se encontram vagos para serem preenchidos? Exatamente os empregos que não pagam o suficiente para se poder viver com eles.

 

 

É por isto que hoje, trabalhar-se mais e durante mais tempo, não vai retirar nenhum destes trabalhadores da pobreza. Por si só, o trabalho em si ou a vontade de trabalhar, não constituem a solução.

É por isto que os pobres são pobres.

 

 Ou seja: acreditar que as pessoas são pobres porque não trabalham e querer obrigá-las a trabalhar em qualquer lugar pelo maior número de horas que possam, em vez de lhes aumentar o salário, é não querer resolver o problema. Tal como no século XVIII.

 

 

 

Nota 1: Definição de “classe média”

 

 

O Pew Research Center, define “classe média” como aquela em que o rendimento familiar esteja entre o dobro e os 2/3 da média nacional, que era de $57.617 em 2016. Assim, o rendimento para uma família de três pessoas, poderia variar entre $45.000 e $135.000, e para um solteiro, entre $26.000 e $78.000 (http://www.pewresearch.org/fact-tank/2018/09/06/the-american-middle-class-is-stable-in-size-but-losing-ground-financially-to-upper-income-families/).

 

Segundo este estudo, 68% dos americanos consideram-se como pertencendo à classe média. Na realidade, em 2016 apenas 50% da população podia ser considerada como classe média. Ou seja, 18% dos americanos não se apercebem que já não fazem parte da classe média.

 

Por outro lado, como a classe média em 1971 representava 61% da população, significa que 2016 apresenta uma diminuição de 11% relativamente a 1971. Como nos têm vindo a dizer que a economia se tem vindo a desenvolver, talvez se possa interpretar esta diminuição da classe média como um bem: trata-se até de um avanço, se considerarmos que isso significa que houve um deslocamento e passaram a pertencer à classe alta. Parabéns.

 

 

Nota 2: O que acontece na América, não fica só na América.

 

 

Segundo um estudo da Rede Europeia da Luta contra a Pobreza e a Exclusão Social no Estado Espanhol (https://www.eapn.es/estadodepobreza/), em Espanha há mais de um milhão de licenciados em risco de pobreza, tendo aumentado a sua percentagem de 30% em 2008 para 35,8% em 2017.

Se a estes juntarmos os que têm bacharelato ou formação profissional, o número sobe para os 2,7 milhões.

Segundo o sociólogo que orientou o estudo, Juan Carlos Llano, estes dados vêm alterar aquela perceção que se tinha de que “bastava ter um emprego para não se cair na pobreza. Verificamos que já não é assim. De facto, mais de 30% das pessoas pobres têm trabalho. Depois acreditámos que bastava ir para a universidade para se poder ter uma vida decente, e já não é assim”.

A educação continua a ser um colchão para evitar cair-se na pobreza, mas “a precariedade causou estragos. Não só atingiu os trabalhos menos qualificados, como foi subindo de nível, alcançando grupos que acreditavam estarem protegidos e livres disso” (https://elpais.com/sociedad/2018/10/15/actualidad/1539596543_695042.html).

 

A mesma Rede Europeia Anti Pobreza, informou que também em Portugal existem mais de 1,1 milhões de portugueses que têm empregos, mas são pobres, o que significa que não basta ter um emprego para se sair da pobreza (https://www.dn.pt/vida-e-futuro/interior/rede-anti-pobreza-alerta-para-11m-de-portugueses-que-trabalham-mas-sao-pobres--10014350.html).

 

E para voltar ao princípio do blog sobre as ideias feitas que temos sobre os pobres, veja-se o vídeo   utilizado pelo colégio Salesianos de Estrecho, do distrito de Tetuán, Madrid, para explicarem aos seus alunos do secundário as diferenças que existem entre as pessoas ricas e pobres, e como enfrentarem os obstáculos da vida. “Os ricos são pessoas com êxito” e “os pobres, pessoas medíocres”, por isso, para se triunfar nos negócios e na vida, basta ter “costumes de ricos”.

(https://www.youtube.com/watch?time_continue=5&v=aeAIqjaNBIw)

 

 

Nota 3: A importância do trabalho

 

 

Em 1981 o Papa João Paulo II, publicou a encíclica Laborem exercens, na qual ataca a ideia fundamental do capitalismo segundo a qual o trabalho é considerado apenas como um mero meio de troca por dinheiro. Tal conceito conduz à coisificação dos seres humanos. Os trabalhadores não são instrumentos impessoais. Não são objetos inanimados. O trabalho é mais do que salário e lucro. Ele é essencial para a dignidade humana e para a autoestima. É através dele que os trabalhadores criam laços com a sociedade e contribuem para a harmonia social e coesão.

 

O Papa insurge-se contra o desemprego, o subemprego, salários inadequados, automatização, e a falta de segurança no emprego, considerando-os como violações da dignidade humana. Considera estas condições como forças que destroem a autoconfiança, a satisfação pessoal, a responsabilidade e a criatividade.

Insiste na necessidade do pleno emprego e num salário mínimo que permita suportar a família. Chama a atenção para as mulheres que ficam em casa para cuidar dos filhos e para os incapacitados, para que todos eles recebam um salário que lhes permita viver. Advoga os cuidados de saúde para todos, pensões, seguros de acidentes, e horários de trabalho que permitam tempo livre e férias como necessários para a construção de famílias fortes. Escreve ainda que todas profissões devem ser representadas por sindicatos com o direito a fazerem greve.

 O trabalho, “constitui o fundamento para a formação da vida familiar, que é um direito natural e para o qual todos os homens são chamados a contribuir”.

 

 

 

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