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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(182) Elogio dos preguiçosos

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

 

A sobrevivência dos mais preparados, não significa a sobrevivência dos melhores, mas a dos mais adaptados. E neste caso, a sobrevivência dos mais preguiçosos, dos mais lentos.

 

“Um esforço maior no trabalho está associado a uma redução do bem-estar e a uma menor compensação da carreira”.

 

Governos e gestores têm agora um estudo científico, com base matemática, gráficos e tabelas, que lhes permite aumentar o bem-estar dos seus trabalhadores.

 

Há que trabalhar mais, melhor e, se possível, ganhar menos para que os empregos não sejam tomados por outros povos que também são seres humanos. Sempre preocupados com o nosso bem-estar. A Globalização como filantropia.

 

 

 

 

Em 2006, um grupo de investigadores da Universidade de Bangor (País de Gales, UK), recolheu ao largo da Islândia, 200 grandes ameijoas Mercenaria mercenária, vulgarmente conhecidas como quahogs ou chowder clams. Após congelá-las para posterior estudo, ao abrirem uma delas verificaram que tinham acabado de matar o ser vivo (apesar de já morto) mais idoso ainda existente que se conhecia, um animal com 507 anos.

 

Como se veio a confirmar posteriormente, esse bivalve tinha nascido em 1499, pelo que numa última homenagem entenderam dar-lhe um nome próprio, Ming, de acordo com a dinastia chinesa que detinha o poder na altura do seu nascimento.

 

 

 

Num recente estudo sobre o metabolismo, clima e macroevolução de moluscos, “Metabolic rates, climate and macroevolution: a case study using Neogene molluscs”, os investigadores Luke C. Strotz, Erin E. Saupe, Julien Kimmig, Bruce S. Lieberman, do Instituto da Biodiversidade da Universidade do Kansas e da Universidade de Oxford, (http://rspb.royalsocietypublishing.org/content/285/1885/20181292), examinaram as conchas conservadas de 299 espécies desses moluscos  que viveram no Plistoceno há mais de cinco milhões de anos.

 

Comparando os ratios metabólicos para cada espécie, os investigadores verificaram que a utilização de energia (dispêndio) para 178 das espécies que já se encontravam extintas era completamente diferente das espécies que ainda hoje se encontravam vivas (note-se que as grandes ameijoas têm hoje uma vida média de cem anos).

Ou seja, os moluscos que queimavam mais energia nas suas vidas diárias eram mais propensos a terem vidas mais curtas que os seus primos menos energéticos que viviam nos habitats oceânicos.

Muito embora as causas para a extinção sejam variadas e complexas, o estudo aponta para a existência de uma relação entre a energia usada pelos animais para crescerem e manterem os tecidos dos seus corpos e o período de permanência dessas espécies na Terra.

 

“Quanto menor for a razão metabólica, maior a probabilidade de sobrevivência”.   O que vem dar novo alcance ao postulado Darwiniano de que na realidade a sobrevivência dos mais preparados, não significa a sobrevivência dos melhores, mas dos mais adaptados, e neste caso, a sobrevivência dos mais preguiçosos, dos mais lentos.

Ser preguiçoso pode ser uma estratégia evolucionária que adia a extinção das espécies.

 

Segundo o professor Liberman, “a explicação provável é que os animais que sejam mais preguiçosos ou mais lentos necessitem de menos energia e alimentos, o que lhes permite sobreviver quando os tempos são adversos”.

A investigação feita vai ajudar os conservacionistas a preverem melhor quais serão as espécies que desaparecerão primeiro quando, devido a uma alteração climática, a produção de alimentos for escasseando.  As próximas investigações debruçar-se-ão sobre a influência do metabolismo na probabilidade de extinção de outros animais, incluindo os que vivam em terra.

 

 

Também recentemente saiu um outro estudo da City University of London, efetuado por Avgoustaki, A. & Frankfort, J., sobre as implicações do esforço despendido no trabalho e sua relação com o bem-estar e influência na carreira profissional dos trabalhadores  (http://openaccess.city.ac.uk/20071/1/avgoustaki_frankort_ILRR.pdf).

 

Segundo os autores, o seu interesse teria sido despertado pelos números revelados pelo relatório do Trades Union Congress 2017, segundo os quais no Reino Unido, mais de cinco milhões de trabalhadores relataram ficarem a trabalhar para além das horas normais de serviço sem serem pagas, e pelo relatório do CBS - Statisics Netherlands 2017, sobre o que acontecia na Holanda, onde cerca de 36 por cento dos trabalhadores se queixavam do ritmo elevado de trabalho que eram obrigados a manter.

Quiseram então saber como é que estas duas condições de trabalho se repercutiriam no bem-estar dos trabalhadores, e como afetariam a possível progressão na carreira.

Assim, recolheram aleatoriamente dados numa amostra de 51.895 trabalhadores empregados em todas as indústrias e empregos de 36 países europeus, com informação detalhada respeitante a tipos de esforço no trabalho (quer em tempo que o empregado trabalha para além das horas normais, quer na intensidade com que o faz) e qual a sua interação e relação com os principais indicadores de bem-estar (fadiga, stress, satisfação no trabalho) e de perspetiva de progressão (perspetiva de carreira, segurança no trabalho, reconhecimento).

São conclusões do estudo:

 

Um esforço maior no trabalho está associado a uma redução do bem-estar e a uma menor compensação da carreira”.

“Esta conclusão também se aplica para os empregos de nível superior”.

“Entre os vários tipos de esforço no trabalho, a intensidade do trabalho é o que conduz à situação mais gravosa […] A grandeza dos efeitos da intensidade do trabalho converge com as sugestões já conhecidas e expostas em vários artigos que tratam do assunto, segundo os quais a intensidade do trabalho pode constituir uma maior ameaça ao bem-estar do trabalhador do que o trabalho para além das horas normais”.

 

Bem intencionadamente, os autores supõem que este seu estudo irá permitir aos gestores e ao governo, o desenvolvimento de estratégias que melhor estimulem o esforço produtivo e sustentável para a força de trabalho. Ou seja, governos e gestores têm agora um estudo científico, com base matemática, gráficos e tabelas, que lhes permita aumentar o bem-estar dos seus trabalhadores.

 

Evidentemente, haverá outras considerações certamente mais importantes que têm levado os governos e gestores a terem passado da “semana inglesa” (sem trabalho aos fins de semana), para o trabalho aos sábados, e depois aos domingos e feriados, para os turnos de laboração contínua, e que não são contempladas neste e outros estudos que o antecederam: trata-se do grande problema (dever) que os governos, empresários e gestores têm para melhorarem as condições de vida de todo o planeta, criar condições para que a economia possa sustentar toda a humanidade.

É exatamente por essa visão mais alargada que têm sobre a economia no mundo, que estes e outros estudos por mais científicos e bem intencionados que sejam, serão sempre considerados parcelares, e que não irão nunca alterar a “filosofia” subjacente dos governos, empresários e gestores, segundo a qual há éque trabalhar mais, melhor e, se possível, ganhar menos para que os empregos não sejam tomados por outros povos que também são seres humanos. Sempre preocupados com o nosso bem-estar. A Globalização como filantropia.

 

Além do mais, não estão ainda esgotadas todas as possibilidades que permitem aumentar o ritmo de trabalho e concentração dos trabalhadores. Para além dos “remédios” aprovados para aumentarem o grau de concentração (ex. Ritalina, Adderall), têm continuado a aparecer no mercado cada vez maior número de produtos não regulamentados, as chamadas “smart drugs”, cuja utilização tem vindo a expandir-se a um ritmo quase exponencial, como nos mostram Larissa J. Maier, Jason A. Ferris e Adam R. Winstock, no seu estudo “Pharmacological cognitive enhancement among non-ADHD individuals—A cross-sectional study in 15 countries” (https://www.ijdp.org/article/S0955-3959(18)30156-7/fulltext).

 

 

 

Já agora, um pequeno esclarecimento para aliviar o sentimento de “culpa” que os investigadores que congelaram a Ming possam ter sentido, pois poderia ter sido muito pior: há espécies que vivem muito mais tempo, como as esponjas de vidro, Hexactinellida, que atingem 15.000 anos.

 

Aliás, o próprio conceito de idade não pode ser definido assim tão linearmente. Veja-se o caso de algumas alforrecas, as turritopsis dohrnii, que podem ser consideradas imortais: em vez de simplesmente morrerem, revertem para um estágio anterior do seu ciclo de vida, pelo que não se pode verificar a sua idade. A Ressurreição permanente.

 

 

 

 

 

 

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