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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(181) A verdade da mentira ou a mentira da verdade

Tempo estimado de leitura: 15 minutos.

 

Me engana que eu gosto”, expressão popular brasileira.

 

Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim”, estrofe do hino da Mocidade Portuguesa.

 

O problema não é porque haja o perigo de se destruir o habitat dos ursos polares. O problema é haver ursos polares a mais”, Senador James Inhofe (R-Okla.).

 

O que é a verdade?”, Pôncio Pilatos.

 

Pensar continua a ser muito mais rico e complexo que calcular.

 

 

 

Se tivermos em conta o que sucedeu a Jesus Cristo, a Júlio César e a outros personagens da história como, por exemplo, ao lusitano Viriato, poderemos ser levados a concluir que a traição pode possivelmente constituir uma das caraterísticas do ser humano, sempre pronta a ocorrer quando menos se espera, ou obedecendo a desígnios específicos. Se à traição adicionarmos o assassinato, como o ocorrido nos casos em questão, iremos certamente dar aso ao aparecimento de interessantes e importantes teorias explicativas, como a da “traição nobre” e da “astúcia da razão”.

É assim que se diz que Júlio César deveria morrer para permitir o surgimento do “conceito universal”. Neste caso a traição do indivíduo é feita em nome de uma Ideia mais elevada, em que César devia morrer para salvar a República. Fala-se até a propósito, da existência na história, de uma “astúcia da razão”, porquanto existe como que uma pequena vingança na medida em que o nome individual de César vai depois aparecer como título universal de “césar”.

Com Cristo acontece o mesmo: fazendo a traição parte do desígnio divino, Cristo obrigou  Judas a traí-Lo  para que o desígnio se cumprisse.

Só que no caso de César, ele era em primeiro lugar um nome, e devia morrer como tal, como indivíduo singular, para poder emergir como um conceito universal (“césar”), ao passo que Cristo já era em primeiro lugar um conceito universal (“Jesus Cristo, o Messias”) e, pela sua morte, torna-se um ser singular, “Jesus Cristo”.

 

 

Quando pensamos em Índios, as imagens que nos aparecem são a de figuras meio desnudas com colares e enfeites coloridos de plumas e pequenas contas azuis e vermelhas, montando cavalos correndo ao longo de pradarias infinitas na perseguição de bisontes, armados com flechas ou espingardas, tendas cónicas desmontáveis, e, conforme os casos, vivendo uma vida idílica perfeitamente integrada na natureza ou, matando indiscriminadamente os “brancos” que não fossem de “pele vermelha”.

Esta visão que temos foi construída em grande parte pelos filmes do far-west e pela variante da noção do “Bom Selvagem” de Rousseau.

 Curiosamente, o conceito do bom selvagem como primitivo que vive num mundo fora do tempo, alheio ao ‘nosso’ tempo, indivíduo puro e bondoso, vivendo em comunhão com a natureza, triunfa na mesma época em que se acentuava a perseguição, escravização e exploração que conduzia ao extermínio desses mesmos índios: o índio como o mau selvagem, montando cavalos e matando colonos.

E, no entanto, só a partir de 1680 é que os índios passaram a ter cavalos, pois esse foi o ano em que conseguiram roubar várias manadas aos espanhóis. Na América de então não havia cavalos: tal como os ‘brancos’ foram todos importados da Europa.

A partir daí, tribos que durante séculos se tinham dedicado ao cultivo de milho nas margens dos rios tornaram-se caçadoras de bisontes. Homens caçadores a cavalo passaram a ter privilégios sobre as mulheres agricultoras. O domínio do cavalo favorecia a guerra e a competição pela supremacia heroica. A grande abundância de carne e de peles de bisonte acumuladas vai facilitar o comércio.

 Com o comércio vão chegar os metais (as pontas das flechas passaram a serem feitas de cravos ou de aros metálicos de barris vindos de Inglaterra, os discos de metal polido que enfeitam as vestes dos chefes guerreiros são feitos de botões baratos fabricados em série na Alemanha), os ornamentos coloridos (as pequenas contas vermelhas e azúis tão caraterísticas dos colares e enfeites que sempre julgámos fazer parte da cultura autóctone vinham de Murano, Veneza), as espingardas (escusado dizer de onde vieram) e as doenças (as grandes epidemias provocadas de varíola de 1801/2 e de 1830 levam à destruição de tribos inteiras).

 

Em apenas dois séculos, todo este mundo vai desaparecer com a vitória definitiva do exército dos Estados Unidos, dos colonos, dos ganadeiros e dos empresários dos caminhos-de-ferro. Talvez mais visível aos nossos olhos seja a enormidade da extinção que, concomitantemente, se verificou nas manadas de bisontes: em menos de um século, passaram de trinta milhões para menos de meia dúzia de milhares em 1895.

Mesmo a tão celebrada ‘dança dos espíritos’ sempre presente nos filmes de índios, só aparece em 1890, quando Wokoka, um profeta da tribo dos lakota anunciou a vinda de um messias que exterminaria todos os homens brancos, e que faria também reaparecer as grandes manadas de bisontes. Para acelerar a sua vinda haveria que dançar até à exaustão a “dança dos espíritos”. The End.

 

 

Ainda hoje muitos portugueses se consideram descendentes em linha reta dos Lusitanos e de Viriato, o que pressupõe o orgulho de um povo na sua “raça pura” ligada ao deus grego Luso.

Os Lusitanos eram um bando de salteadores com enorme apego à terra, como foram todos os que naquela época faziam parte da cultura “castreja” (dos “castros”, pequenos redutos defensivos circulares em elevações de terreno, que serviam também de habitação). A sua organização social assentava na comunidade familiar, cuja economia tinha por base a pastorícia, a agricultura atribuída às mulheres, e o roubo ou a guerrilha, atribuído aos homens. A hierarquia familiar era patriarcal e monogâmica. As suas incursões eram sempre feitas por pequenas guerrilhas, que pressupunham uma primitiva organização de mando com base no prestígio de um chefe.

Aquelas terras da região a norte do Tejo tinham sido inicialmente ocupadas pelos Vetões, Túrdulos e Turdetanos, sendo posteriormente conquistadas pelos Lígures e Celtas, de cuja fusão resulta a cultura castreja. Os Portugueses não são um povo de raça pura, resultando antes de uma miscigenação de várias etnias agregadas posteriormente pela romanização e cristianização. E mais tarde pela africanização.

 

            “Sebastianismo” e “Quinto Imperio” são outras caraterísticas consideraras como eminentemente portuguesas, expressas na Monarquia Lusitana de Frei Bernardo de Brito e na História do Futuro do Padre António Vieira.

Frei Bernardo de Brito expõe a presunção da fundação de Lisboa ter sido feita por Ulisses e apresenta o milagre de Ourique como evidência que Deus, como fundador e distribuidor de impérios, pretendeu através dele dar um Reino a Afonso Henriques, assinalando assim não só a origem divina do reino, mas também que o povo português estaria destinado a defender a fé católica.

 Para o Padre António Vieira, D. João IV seria o rei indicado para cumprir a promessa do Quinto Império (o Império Romano tinha sido o Quarto) no qual todos os homens se converteriam ao catolicismo com a instauração do Reino de Cristo na Terra. Quando em 1656 D. João IV morre, Vieira não desiste e afirma que ele vai ressuscitar, indo depois transferindo sucessivamente essa crença sebastianista para D. Afonso VI, D. Pedro II e D. João V.

 

            A alegria do povo trabalhador, as festas de Alfama, as guitarradas, o manuelino, os campinos, as varinas, Aljubarrota, e mais outras particularidades que se nos impõem como caraterísticas exclusivamente portuguesas, são também igualmente aproveitadas e exibidas, como a quando do itinerante V Congresso da Crítica Dramática e Musical que o incansável António Ferro organizou em setembro de 1931. Retiro dos participantes (pagos para cá virem, evidentemente) no Congresso algumas considerações a propósito:

 

“[…] acabámos de viver em Portugal um conto de fadas, e esse conto de fadas era uma plena, sólida, deslumbrante realidade. […] O encantamento … na festa popular de Alfama […] Tinham dito àquela boa gente, que é gente muito pobre, pescadores, marinheiros, varinas (vendedoras de peixe, de braços no ar, a carga à cabeça, pés descalços): “Se receberem bem o Congresso, lá fora vão gostar de Portugal”. E eles, com essa ingenuidade popular que enternece, tinham enfeitado o melhor que podiam as suas ruelas com luzes e flores, tinham pendurado grinaldas por todo o lado e, tinham estendido os seus velhos xailes às janelas; e, sobretudo, tinham vindo eles próprios, à hora do sono, aos milhares, enchiam as praças com uma multidão alegre, e cantavam e dançavam. “Viva a França!” gritavam com entusiasmo”, Fernand Gregh.

 

O viajante que vier a Lisboa pela primeira vez ficará extremamente surpreendido ao deparar com contrastes inverosímeis: mesmo ao pé das lojas, cafés ou escritórios iguais em tudo aos nossos, há antros miseráveis onde, em arcaicas balanças, se pesa o fedorento bacalhau; arcadas decrépitas onde se amontoam cestos toscos; pregos onde estão pendurados, à laia de terços, vasinhos e outros recipientes de barro de feitura primitiva; mercearias esquálidas onde talhas de argila ressumam para o chão um azeite de cheiro áspero, vendido por uma espécie de pirata hirsuto de mãos sujas e chinelos acalcanhados. No meio da rua, às mesas dos cafés ou em inúmeros vãos de escada destinados a essa exigência, uma boa metade da população, a qualquer hora do dia, estende os seus sapatos a um exército de engraxadores que com incrível destreza os transforma, num abrir e fechar de olhos em espelhos luzidios. Do marçano mais humilde ao diretor do banco, todos parecem afetados por esta patológica coquetaria da engraxadela incessante.

Pelo contrário, a outra metade da população anda descalça, coberta de trapos inenarráveis. E, embora pareça haver um decreto que proíbe andar descalço, a tradição e o hábito são mais fortes do que a lei, e perante o número de transgressores torna-se impossível fazê-la respeitar.

[…] As mulheres do povo, vestidas com uma saia ampla e às pregas, sustida por uma faixa espessa, com um xaile atado sobre o peito e um lenço na cabeça com a ponta graciosa a esvoaçar sobre a nuca, todas levam indistintamente uma carga em equilíbrio sobre a cabaça. Enormes cântaros de barro ou grandes cestas chatas, sem bordos, a transbordarem de peixe fresco salpicado de sal cinzento […] mesmo quando não leva nada, conserva por hábito no cimo da cabeça a rodilha de trapos que lhe servia para manter os pesos em equilíbrio. O que lhe confere ao andar uma cadência harmoniosa, um ritmo cheio de elegância, uma graça muito particular que se perderia irremediavelmente se os seus pés estivessem calçados.”, Gaston-L. Huysmans.

 

Vi em Vila Franca a caça aos touros selvagens. Cenas interessantíssimas, muito fortes. Aqui vive-se numa perpétua exaltação dos ânimos. Mas é um povo verdadeiramente hospitaleiro e generoso.”, Pirandello.

 

                                      

 

O que é verdadeiramente estranho é como ao longo dos tempos se tenha visto o que lá não está e também que se não tenha visto o que lá está. Perante esta caraterística do ser humano, S. Paulo anotou que “Caminhamos guiados pela fé e não pelos nossos olhos”, como se os olhos se negassem a ver aquilo que os incomodava.

Como entender que Aristóteles afirmasse que as mulheres tinham menos dentes que os homens? Por que tal estava de acordo com a sua teoria sobre a inferioridade das mulheres?

 

            Por volta de 1840, o cirurgião suíço Ignaz Semmelweis, concluiu que se lavasse as mãos antes de proceder a um parto, as mães morriam muito menos de febres purpurais. Comunicou isso aos seus colegas, que saíam da sala de autópsias diretamente para os partos, com a mesma roupa e sem lavarem as mãos. Perante a insistência de Semmelweis, os colegas escarneceram dele e passaram a boicotá-lo. Sentiram-se ofendidos, porquanto o procedimento de lavar as mãos e mudar de roupa pressupunha duvidar da limpeza do médico, o que era o mesmo que duvidar dos seus conhecimentos e honra. Semmelweis morreu poucos anos depois, pobre e desacreditado.

 

            Vários poderão serem os fatores que contribuem para esta cegueira, como o instinto gregário, a preguiça, a soberba, a cobardia, a propaganda, a publicidade, fatores estes que tornam algumas pessoas mais predispostas para não verem a realidade. Mas há também pessoas e instituições que se dedicam profissionalmente a favorecerem essa cegueira, explorando a mentira.

 

O caso mais evidente é o das grandes tabaqueiras americanas, que sabendo previamente da toxicidade do tabaco, dos seus efeitos cancerígenos e aditivos, resolveram ocultar o que sabiam. Era vulgar nos anos cinquenta aparecerem, em anúncios na televisão, médicos com bata branca a fumarem e a defenderem os benefícios do tabaco. (https://www.youtube.com/watch?time_continue=8&v=Sbrqm0Jt7q4).

 

Quando já não lhes foi possível ocultar o que sabiam, desenvolveram então uma tática que lhes custou biliões, e que continua hoje a ser aplicada por todos aqueles que lucram com a mentira: demonstrar que os dados científicos não são conclusivos, que muitos cientistas não concordam com eles, exprimindo opiniões diferentes, podendo portanto terem mais do que uma interpretação.

Entretanto morreram milhões de pessoas devido ao tabaco e é como se nada tivesse acontecido. Tive um instrutor na Força Aérea que eu julgava que era um cretino, que me dizia “Cagando e andando e nem se olha para trás para tapar”. Enganei-me: afinal era um filósofo.

 

Esta mesma técnica de descrédito é a que está a ser aplicada ao problema do aquecimento global ligado ao consumo de combustíveis fósseis que expulsam para a atmosfera grandes quantidades de dióxido de carbono e metano.

Primeiro começam por negar a mudança climática; depois batem na tecla da dúvida dizendo que as coisas não são assim tão claras, que existem discordâncias entre cientistas, que há outras formas de ver o assunto.

Esta técnica de apresentar sempre as duas maneiras de encarar os problemas são as que passam a ser utilizadas e reproduzidas nos debates a dois que a televisão pressurosamente nos presenteia: de um lado os que defendem a evolução e do outro os que defendem o criacionismo, de um lado os que defendem a astronomia e do outro os que defendem a astrologia, etc., ou seja, tudo igualmente respeitável. E tudo em nome da liberdade. E se não bastar, como último refúgio acena-se com o critério jornalístico, subjetivamente intocável.

 

É assim que a Exxon Mobile, ao mesmo tempo que gasta centenas de milhões a pagar aos seus cientistas e comentadores charlatães que defendem que não existe nenhuma mudança climática, também assina um acordo com a Rússia para que possa vir a explorar as futuras jazidas de petróleo no Ártico que venham a resultar da fusão dos gelos polares devido ao aquecimento global.

                                              

                                             

 

Para além das considerações sobre o que é a condição humana há aqui um problema comum que tem a ver com o que é a verdade, ou seja, com a qualidade que as proposições têm de ter para estarem de acordo com a realidade.

Conta-se que Pôncio Pilatos, depois de ouvir as várias versões do que lhe diziam ser a verdade sobre Jesus Cristo, exclamou interrogando e interrogando-se: “O que é a verdade?” E, de seguida lavou as mãos. Não temos, portanto, o seu testemunho.

Ao passo que para a ciência o que interessa é saber que as conclusões a que chega sejam verdadeiras, para a filosofia o problema é o de saber o que é a verdade. O que é que queremos dizer quando estamos a dizer que uma coisa é verdadeira?

 

Se o que procuramos é saber qual é a natureza da verdade, o que queremos é refletir sobre a essência das coisas, e aí estamos no campo da ontologia.

Se o que procuramos é saber como poderemos alcançar a verdade, então o que queremos é refletir sobre a possibilidade do conhecimento.

Se o que procuramos é saber qual o sentido da verdade, então estaremos no campo da semântica (significado) e da filosofia da linguagem.

Se o que procuramos é saber quais são as condições que garantem a verdade, o que pretendemos estudar é a lógica.

 

 

Tudo começou quando a palavra passou a ser escrita, uma forma que se acreditava mais duradoura e precisa. Por definição, a linguagem que falamos (“linguagem natural”) é “um sistema de expressão verbal do pensamento, com um vocabulário e gramática definidos, relativamente fixos, constituindo uma instituição social duradoura, que se impõe”.

Esta linguagem natural que nos aparece como simples e intuitiva é antes o resultado de um enorme esforço de aprendizagem individual ao longo de vários anos, para além dos muitos séculos ao longo dos quais se foi formando.

Uma sua caraterística espantosa vem do fato de aprendermos a falar sem ser necessário aprendermos as regras gramaticais e os termos que a regem. Não foi necessário sabermos o que era um substantivo, um verbo ou um adjetivo, para falarmos.

Outra sua caraterística única é a que está relacionada com o desenvolvimento de uma estranha sensibilidade que nos permite distinguir entre várias interpretações possíveis de uma mesma frase. Assim, quando dizemos “o Mário é um velho amigo” conseguimos discernir, sem acrescentar mais nada, se se trata de um amigo antigo ou de um amigo com muita idade.

Temos, contudo, de concordar que a linguagem é sujeita a induzir ambiguidades, imprecisões e dúvidas. Várias foram as tentativas feitas para evitar que tal acontecesse, para uma melhor clarificação do raciocínio. De certa maneira, é a gramática vai permitir que se perceba porque é que determinadas frases exprimem melhor que outras certos pensamentos, possibilitando ainda uma comparação entre várias frases.

A gramática dá-nos a possibilidade de escrevermos corretamente, de acordo com as regras impostas que impusemos, mas o fato de uma frase estar correta não é só por si condição necessária e suficiente para ser verdadeira, ou corresponder à verdade.

 

Aristóteles é dos primeiros a tentar resolver este problema do que é verdadeiro e do que é falso quando escreve:

 “Dizer do que é que não é, ou do que não é, que é, é falso. Dizer que o que é é, e o que não é não é, é verdadeiro”.

Constrói depois a sua célebre doutrina do silogismo (forma de raciocínio dedutivo) e a da análise da estrutura das proposições, classificando-as já em quatro tipos, de acordo com a sua quantidade (universais ou particulares) e a sua qualidade (afirmativas e negativas).

Na base do seu raciocínio, uma sentença, uma frase, uma proposição, só é verdadeira se ela corresponder a um facto existente. Por exemplo: a frase ‘a neve é branca’ é considerada como verdadeira devido ao facto de a neve ser branca corresponder a uma certa realidade do mundo exterior, que é o da neve ser branca. Ou seja, uma coisa é verdadeira quando corresponde à ideia que temos dela. A verdade é correspondência ou adequação. Daí esta teoria ser dita teoria da correspondência.

A base desta teoria, embora sofrendo alterações ao longo dos séculos (a verdade passa a ser identificada e relacionada com a coerência, ou com a utilidade, ou com a satisfação, ou com outros), só vem a ser verdadeiramente posta em causa no século XX.

Até aí, todas essas teorias, embora com designação própria (Alfred Tarsky e a teoria semântica da verdade, Bradley e Brand Blanchard e a teoria da coerência, Dummet e Putnam e a teoria intuicionista da verdade, Charles Peirce, John Dewey e W. James e a teoria pragmática, e muitos outros) são teorias da correspondência, pois todas elas assentam no conceito da verdade segundo a qual a proposição de que a neve é branca e se a neve for branca, de que é verdade que mentir é errado só e se mentir for errado, e daí por diante.

Como este princípio é limitado e insuficiente, complementam-no com outros princípios para que os façam corresponder à realidade, à verificabilidade, ou que sirvam de base para uma ação. Ou seja, todas estas teorias tradicionais podem ser incluídas na formulação genérica de que ‘X é verdade só e se X tiver a propriedade P’.

 

A teoria silogística de Aristóteles atinge o seu apogeu nas universidades medievais dos séculos XII a XIV, onde a partir de um conjunto de princípios admitidos como verdadeiros, por um processo dedutivo, procurava-se encontrar explicação para tudo.

Lembremos o português Pedro Hispano, que viria a ser o futuro papa João XXI, por ter escrito o tratado de lógica mais difundido por toda a Europa até ao século XVI, as Summulae logicales e ainda as sistematizações de Guilherme de Ockham (que serviu de modelo ao franciscano Guilherme Baskerville em O nome da rosa).

 

Contudo, a silogística baseada no raciocínio dedutivo fez pouco pela descoberta científica. Com o raciocínio indutivo (inferência) não vamos chegar à verdade diretamente, mas através de um processo que nos leva do que julgamos já saber para o que ainda não sabíamos.

 É o caso de num jogo de cartas ‘sabermos’ que certa carta só pode estar nas mãos de uma pessoa, depois de termos ponderado e analisado todas as possibilidades, se o fizermos dentro das regras possíveis do jogo. Diremos então que o raciocínio que seguimos é válido.

A validade nada nos diz sobre a realidade das coisas, mas apenas sobre o modo como as proposições se ligam. A validade deriva do uso correto das regras de inferência que nos permitem alcançar conclusões a partir de premissas. A verdade não está na afirmação ou na coisa, mas na correspondência entre ambas. Verdade e validade são conceitos diferentes: a verdade diz apenas respeito a afirmações, a validade aplica-se apenas a raciocínios.

 

Aristóteles já se tinha apercebido deste facto de os nossos raciocínios poderem ser analisados sem ter em conta o seu conteúdo. Esta ideia levou Leibniz (século XVII) a procurar um sistema lógico universal que exprimisse o que pensamos através de cálculos algébricos.

Inventou o sistema de notação com 1 e 0, que mais tarde, cerca de trezentos anos depois, vai servir para a computação informática. O problema principal que Leibniz teve de enfrentar foi o de pretender identificar a verdade lógica com a verdade ontológica.

Mesmo depois de ter estabelecido um sistema de símbolos e regras para a formação de proposições válidas, o que encontrou foram regras de validade e não regras de verdade. Pensar continua a ser muito mais rico e complexo que calcular.

 

Só no século XX é que George Boole conseguiu tratar a lógica como um cálculo de signos algébricos, o que veio a possibilitar o aparecimento do desenho dos circuitos nos computadores. Morgan estabelece as leis sobre a validade da lógica formal e, Frege, introduz o uso de quantificadores e do cálculo dos predicados. O uso dos símbolos vai permitir a possibilidade de um automatismo na lógica, com a sua aplicação na inteligência artificial.

A lógica passa a ser entendida como o estudo das leis do pensamento ou das condições formais da verdade ou das formas válidas de raciocínio. Este estudo da validade tem por objetivo o estabelecimento das condições que garantam a correção dos raciocínios.

 Assim, a lógica não é mais o modo como as pessoas efetuam os raciocínios, mas antes uma gramática que estabelece as normas para que o raciocínio seja válido. A validade é uma propriedade dos raciocínios e não das proposições; a verdade é uma propriedade das proposições.

E mesmo assim, nem sempre os dois valores de verdade das proposições, a saber ou o 1 (verdade) ou o 0 (falso) podem corresponder a todas as situações.

É por exemplo, o caso da proposição: “O rei dos Estados Unidos é democrata”. Embora o raciocínio seja válido, a proposição não poderá ser considerada nem verdadeira nem falsa!

Brouwer e Heyting sugerem para estes casos em que a proposição é meia verdadeira e meia falsa, a utilização de um valor de ½ para além do 1 e 0. E a partir daqui é sempre possível generalizar os valores de verdade em lógicas polivalentes, atribuindo-lhes matrizes de n x n!

 

                                                    

A verdade pode, portanto, ser entendida de diferentes maneiras e expressar-se de muitas formas. A verdade pode ser entendida como adequação e correspondência, como coerência, conformidade, revelação ou utilidade, como gramática, semântica ou pragmática. Pode ser material ou formal, analítica ou sintética. Pode ser reconhecida como finita ou infinita, deste mundo ou de outro, perecível ou eterna. Pode existir no mito ou na demonstração matemática, pode ser simbólica ou factual, ideal ou real, pode estar dentro ou fora de nós, mas para quem acredite que a história da humanidade é uma busca da verdade (e da sua ocultação), não é possível pensar que não existe: ela será sempre uma meta do conhecimento humano.

 

E, contudo, ela só existe porque nós emitimos juízos sobre o mundo. Se apenas houvesse mundo e não o pensamento, não se levantaria esta questão da verdade.

Se não fosse a Eva a mostrar ao Adão a linda maçã da árvore do conhecimento, provavelmente estes problemas relacionados com a verdade não existiriam: continuaríamos a viver no Paraíso, aquele local onde não se falava, não se elaboravam raciocínios, onde o sexo não tinha qualquer conotação moral ou prazenteira, onde não necessitávamos de andar vestidos sem ser com o pouco decente vestuário da inocência (só viemos a saber que era indecente depois de termos tido acesso ao conhecimento proporcionado pela maçã). Quisemos pensar e foi isto!

 

Podemos, pois, gozar e glosar, ou seja, fazer arte, com belas frases sobre a mentira da verdade ou sobre a verdade da mentira. Necessário é que elas possam originar matrizes computacionais que nos digam, ou que sigam de acordo com o progresso, que é exatamente o que nos dizem que é. E se não é, devia de ser.

Talvez a mentira possa por vezes ser verdade e a verdade possa por vezes ser mentira, o Paraíso possa por vezes ser o Inferno, e o Inferno possa por vezes o Paraíso.

 

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