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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(180) Serena Bolton Simpson

Tempo estimado de leitura: 5 minutos.

 

Você é um ladrão. Você nunca mais dirigirá um encontro meu por mais que viva. Quando é que me vai pedir desculpa? Peça-me desculpa! Serena Williams.

 

Nós não cooperaremos com o ICC. Nós não daremos qualquer assistência ao ICC. Não nos juntaremos ao ICC. Deixaremos que o ICC morra por ele próprio. Em qualquer dos casos, o ICC é já um morto ara nós, John Bolton.

 

O. J. Simpson foi absolvido, não pelo facto de ser um negro como muitos quiseram fazer crer, mas porque que era rico e com poder.

 

 

 

Serena

 

Na última final de ténis feminino do US Open disputada em Flushing Meadows, NY, o árbitro português Carlos Ramos, aplicando os regulamentos em vigor, entendeu admoestar Serena Williams por o seu treinador, Patrick Mouratoglou, estar a dar-lhe indicações a partir do seu lugar na tribuna, como se viu nas imagens e ele próprio admitiu.

Serena não aceitou de bom grado a admoestação, dizendo:

Você deve-me um pedido de desculpas. Eu nunca na minha vida aldrabei! Tenho uma filha e eu luto por aquilo que é o correto para ela. Eu não aldrabo para ganhar. Prefiro antes perder”.

Logo de seguida, após perder uma jogada, atirou violentamente a raqueta ao chão, quebrando-a. O árbitro, ainda de acordo com o regulamento, retirou-lhe um ponto, pelo que o próximo jogo começou logo com 15-0 a favor da oponente, Naomi Osaka.

Serena, após ter perdido esse jogo, dirigiu-se então ao árbitro, dedo em riste, gritando-lhe:

 

Você é um ladrão. Você nunca mais dirigirá um encontro meu por mais que viva. Quando é que me vai pedir desculpa? Peça-me desculpa.”

 

Depois do encontro terminado, e na conferência de imprensa, Serena apresentou variados argumentos:

 

Já vi vários homens chamarem outras coisas a outros árbitros … Eu estou aqui para defender os direitos das mulheres e para a igualdade das mulheres e outras coisas semelhantes.”

“Para mim dizer “ladrão”, e para ele retira-me um jogo, fez-me sentir uma humilhação sexista. Ele nunca retiraria um jogo a um homem por ele lhe chamar “ladrão”.

 

Ou seja, utilizou todos os argumentos que considerou como validamente superiores ao estrito cumprimento dos regulamentos em vigor. Na base dessa atitude parece residir aquela arreigada convicção de que os regulamentos, a existirem, deveriam sempre dependerem do critério de quem os aplicasse, caso a caso, arbitrariamente, ao gosto de cada um dos eleitos.

O que está plenamente de acordo com o que se passa nos Tribunais que arbitrariamente decidem sobre a concessão (ou não) do direito de voto dos cidadãos americanos a quem tenha sido retirado esse direito, como por exemplo  pelo simples facto de terem sido presos por não pagarem uma multa, e que mesmo depois de terem pago a multa e serem libertados, continuam a aguardar o restabelecimento dos seus direitos. (Favor ver o “Last Week Tonight” de John Oliver https://www.huffingtonpost.com/entry/john-oliver-florida-felon-voting_us_5b95edd6e4b0511db3e3be4f).

 

O único argumento que Serena (ironia de nome) não utilizou foi o racial.

 

 

Bolton

 

O Tribunal Penal Internacional (International Criminal Court, ICC) sediado em Haia, Holanda, foi instituído em 2002 pelo Tratado de Roma. Muito embora tenha sido assinado por 139 países, os Estados Unidos, a Rússia, Bahrain, Israel, Kuwait, Tailândia, Ucrânia e Iémen, apesar de o assinarem nunca o ratificaram. Note-se que a China, Índia, Indonésia, Iraque, Líbano, Malásia, Nepal, Paquistão Sudão Sul e Turquia, nem nunca o assinaram.

O ICC, após ter recebido 1,17 milhões de queixas fundamentadas respeitantes ao abuso de direitos humanos (crimes de guerra) efetuados no Afeganistão só em 3 meses, atribuídas aos Talibans, ao Estado Islâmico, às forças de segurança Afegãs e à coligação de forças lideradas pelos EUA, está a preparar-se para fazer uma investigação formal a esses alegados crimes de guerra cometidos pelas forças americanas no Afeganistão.

 Ainda a propósito dos recentes acontecimentos em Gaza, alguns países pretendem também levar Israel a responder por crimes de guerra perante o ICC.

Jonh Bolton, o nomeado Conselheiro de Segurança Nacional de Donald Trump, expressou a opinião dos EUA sobre estes assuntos ( https://www.whitehouse.gov/briefings-statements/protecting-american-constitutionalism-sovereignty-international-criminal-court/):

 

Os Estados Unidos usarão todos os meios necessários para protegerem os nossos cidadãos e os dos nossos aliados das perseguições injustas desse tribunal ilegítimo.

Nós não cooperaremos com o ICC. Nós não daremos qualquer assistência ao ICC. Não nos juntaremos ao ICC. Deixaremos que o ICC morra por ele próprio. Em qualquer dos casos, o ICC é já um morto ara nós”.

Sobre Israel, “Os Estados Unidos estarão sempre ao lado do nosso amigo e aliado, Israel”.

 

E avisa que os Estados Unidos consideram proceder à utilização de sanções contra os juízes, procuradores e todos os que cooperarem com a averiguação de tais provas, podendo inclusive chegar a proibir a sua entrada nos EUA, congelar as suas contas, e julgá-los em tribunais americanos.

 

É importante notar que tais atitudes perante o ICC não são exclusivas da administração Trump. Elas têm sido o princípio norteador da política americana, a começar com Bill Clinton que, tendo-o assinado, aconselhou ao seu sucessor G. Bush a não ratificação do acordo assinado, Obama também não o ratificou, e Trump continua a linha eminentemente americana e que parece corresponder aos desejos do povo: os acordos e tratados só são de respeitar se forem do interesse (o que quer que isso seja) americano.

 E neste caso, parece claro que a nação mais poderosa do mundo não permita que qualquer cidadão americano possa vir a ser julgado a não ser por um tribunal americano. Da mesma forma, arroga-se o direito de ir buscar qualquer cidadão de outro país que seja considerado como tendo cometido crimes contra os EUA, para serem julgados por tribunais americanos, ou até colocados num limbo judicial (Guantánamo), ou mesmo mortos.

As regras são as deles: se os outros estiverem de acordo, muito bem. Se não estiverem, problema deles. A isto chama-se “O Império”.

 

Portanto, se o ICC quiser tentar investigar a possibilidade de crimes de guerra, ou chegar mesmo a considerar culpadas as forças dos EUA, para Washington é como se nada tivesse acontecido. As regras, ou são as deles, ou não são para se cumprir.

 

Simpson

 

Lembro-me perfeitamente do julgamento de O. J. Simpson, a estampa negríssima do futebol americano, riquíssimo, lindíssimo e novo. Acusado de matar à facada a sua esbeltíssima, loiríssima, branquíssima mulher, com quem já não vivia, mas que continuava a sustentar em estilo, bem como ao azarento amante de ocasião que, de passagem, se encontrava no sítio errado à hora certa.

Fiquei horas acordado pela noite dentro, deliciando-me com a argumentação racional que os vários advogados iam desfiando, tentando cada um levar a água ao seu moinho. Tratando-se de um crime violento, foi, contudo, o programa mais tranquilo, interessante e sedutor a que assisti.

O resultado, inesperado para muitos, só veio confirmar a ideia que tenho sobre a justiça dos grandes casos. Pende sempre para o lado do poder, dos que têm muitas posses. Não se tratou de um caso de racismo. A justiça funcionou para proteger os “seus”. É assim que ela está montada.

Nesta ocasião, O. J. Simpson foi absolvido, não pelo facto de ser um negro como muitos quiseram fazer crer, mas porque que era rico e com poder.

 Por isso a Justiça é representada com os olhos vendados, para não poder ver a cor da pele. Que me conste, não é representada com o nariz tapado, para assim não poder sentir o cheiro do dinheiro.

(Extrato do meu blog de 19 de setembro de 2016, “Lembram-se de O. J. Simpson?” https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/lembram-se-de-o-j-simpson-21165).

 

 

 

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