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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(179) O homem como problema para si mesmo: o início

Tempo estimado de leitura: 6 minutos.

 

 

Quem é o homem? Qual a sua origem? O que o constitui como tal? Qual o seu destino?

 

O suicídio é considerado interdito apenas por uma consideração religiosa.

 

Argumentos de Sócrates a favor da imortalidade da alma: argumento dos contrários, teoria da reminiscência e teoria da simplicidade da alma.

 

A imortalidade da alma não pode ser provada de um modo totalmente racional, mas de qualquer modo, ela “é um belo risco que vale a pena correr”.

 

 

 

 

A interrogação que o homem põe a si próprio sobre si mesmo talvez seja a característica que melhor defina o que é ser humano. Perguntas como: “Quem é o homem? Qual a sua origem? O que o constitui como tal? Qual o seu destino?”, têm estado quase sempre presentes, com tentativas de respostas sempre variadas, nem sempre consensuais, em aproximações sucessivas no que se crê serem as respostas corretas.

 

Tudo começou com as explicações míticas, no seu propósito de integrar o homem no mundo e na sua relação-dependência com os Deuses.

Só muito mais tarde se dá a aparição dos chamados “filósofos pré-socráticos”, mais preocupados com a explicação do princípio da constituição do mundo natural: água, fogo, humidade, vapor.

Mas, só com Sócrates e a sua máxima “conhece-te a ti mesmo” é que surgem as primeiras tentativas para uma explicação filosófica do próprio homem, com as suas interrogações fundamentais: Quem sou eu? Quem é o homem?

 

As últimas horas de vida de Sócrates (399 a. C.), que sendo condenado hipocritamente por “impiedade” (não aceitar os deuses da cidade) e por  corromper a juventude (coisa que todo o mundo de Atenas sabia e praticava), podendo escolher entre o exílio ou a morte por envenenamento – com cicuta – optou por esta última, são por ele vividas rodeado por alguns amigos. As conversas tidas nesse último encontro, são posteriormente (387 a. C) relatadas por Platão, na obra Fédon, e têm, naturalmente, que ver com a questão da imortalidade da alma, tema que vai obrigar a refletir sobre o que é o homem, qual a relação da alma com o corpo, como se deve viver para se conseguir alcançar a felicidade eterna.

 

Sócrates afirma a esse círculo de amigos, não temer a morte. E vai tentar explicar essa posição. Para ele, o corpo constituía um obstáculo na procura da verdade (o corpo era o cárcere da alma; é a alma que comanda e o corpo é que obedece), pelo que, tentar desligar-se, tanto quanto possível do corpo, seria a forma de se encaminhar para a verdade.

Só pela morte é que o homem se desliga totalmente do corpo. Mas tal não significa que Sócrates aceite o suicídio, pois, segundo ele, o homem é pertença dos deuses. Ou seja, o suicídio é considerado interdito apenas por uma consideração religiosa.

 

Donde conclui que o filósofo não deve temer a morte porque ela é uma libertação, que lhe permitirá aceder nesse outro mundo de onde a alma veio à verdadeira sabedoria. A ligação posterior da alma ao corpo acaba por se fazer mediante a queda da alma para o mundo terreno.

 

Um dos discípulos que o acompanhava nessa última noite, faz-lhe notar que a maior parte dos homens não acreditava que a alma existisse separada do corpo e que, portanto, não seria imortal.

 

Sócrates apresenta-lhe três argumentos a favor da imortalidade da alma:

 

1 - Argumento dos Contrários, segundo o qual a vida nasce da morte e a morte nasce da vida. A alma viva é, pois, postulada pela dialética dos contrários.

2 – Teoria da Reminiscência, segundo a qual conhecer é recordar. Ora se a alma se recorda, é porque existiu como pura alma num mundo anterior. Donde se conclui que a alma existe antes e depois da morte, sendo por isso imortal. “Aprender é recordar”.

3 – Teoria da Simplicidade (indissolubilidade) da Alma, pela qual a alma, embora não fazendo parte do mundo das Ideias, “assemelha-se” ao ter reminiscência delas; não sendo uma Ideia está muito próxima delas, é “parente” delas. Assim, a alma está orientada para o que é como ela, sendo, portanto, como as Ideias, invisível, divina, imortal e sábia. É, portanto, uma substância simples (indissolúvel), não sujeita à corrupção e à morte.

 

Outro dos discípulos diz que, no seu entender, o corpo é como uma lira sendo a alma o som que ela produz. A alma é a harmonia, corresponde ao acordo musical, que quando é tocada, invisível, incorporal, perfeita, bela e divina. Mas, partida a lira (o corpo), como será possível que a harmonia persista? Ou seja, quando se quebra a lira, a harmonia desaparece, e por isso ele não aceita, nem a teoria das ideias nem a teoria da reminiscência: o corpo e a alma têm a mesma duração.

 

Responde Sócrates lembrando-lhe que a harmonia (acordo musical) é posterior à lira, e que, segundo a teoria da reminiscência, a alma era anterior ao corpo. Pelo que há incompatibilidade entre a tese da harmonia e a da reminiscência. E acrescenta: se a alma é harmonia, como é que o vício, que constitui a ausência de harmonia, poderia existir?

 

Um outro discípulo, embora aceitando a reencarnação da alma, e apesar de entender que a alma tivesse maior duração que o corpo, julga que ela acabará por morrer um dia após ter vivido várias existências. Por isso, o homem, ao não saber se é ou não o último corpo em que a alma encarna, inquieta-se. Compara a alma a um tecelão e o corpo aos fatos que o tecelão fabrica. Chega uma altura em que o tecelão desaparece, deixando o último fato.

 

Sócrates vai socorrer-se do mito sobre o destino das almas quando o corpo morre, e do seu julgamento em função da vida terrena que levaram, o tal problema da recompensa ou expiação. A alma poderá voltar à existência (reencarnação), podendo ser considerada como uma expiação, para o caso das pessoas más, ou como uma nova oportunidade para atingir a perfeição filosófica.

Só os que levaram uma vida ascética, mantendo um contacto mínimo necessário com o corpo, poderão aceder ao convívio com os deuses, ou seja, irem para um mundo superior.

 Sócrates, que sempre se esforçou por racionalmente seguir estes desígnios, aproximando a sua alma desta perfeição desejada, não tem dúvidas sobre a sua possibilidade de vir a aceder a esse mundo da luz, da justiça e do bem. Por isso, não teme a morte.

Daí que para ele, “filósofo” seja aquele que apesar de não possuir o saber, se esforça por o adquirir, porque ama o saber.  É a partir daqui que se assiste à entrada em cena do pensamento racional.

 

Devemos notar que estas ideias sobre o corpo ser considerado como prisão da alma, sobre a necessidade de uma prática purificadora que a liberte e redima, e sobre a crença na metempsicose ou reencarnação das almas, encontravam-se já nas chamadas doutrinas mistéricas, no pitagorismo e no orfismo.

E que, independentemente dos desenvolvimentos que se vieram a verificar posteriormente, a quase totalidade dessas ideias discutidas na última ceia de Sócrates, ainda hoje continuam a perdurar e a fazer parte das convicções da generalidade das pessoas, abrigos a que recorrem quando tudo o mais falha. Leiamos Platão:

 

quando a morte sobrevém ao homem, é a sua parte mortal, ao que parece, que morre; a outra, a imortal, subtrai-se à morte e escapa-se a salvo, isenta de destruição”, Fédon, 106e.

 

Mas, o mais espantoso e enigmático de todo este diálogo escrito por Platão, é ele vir-nos dizer, ainda que pela boca de Sócrates, que a imortalidade da alma não pode ser provada de um modo totalmente racional, mas que de qualquer modo, ela “é um belo risco que vale a pena correr” (Fédon, 114d).

 

É como se de repente tivéssemos saltado muitos séculos para a “aposta” de Pascal (que, ao considerar que nenhuma das alternativas entre a possibilidade de existir ou não salvação pudesse ser racionalmente demonstrável,  se deveria decidir pela “aposta” mais segura, a de apostar pela existência de salvação, porque se ela existisse só teríamos a ganhar, ganhávamos tudo; mas, se a salvação não existisse, nada se perderia porque nada havia a perder. Pelo contrário, se apostássemos na não existência de salvação e ela existisse, então teríamos desperdiçado em vão toda a vida) e para a crítica da razão de Kant (que nega a possibilidade de uma demonstração racional da existência de Deus, remetendo-o para o âmbito da ética, da filosofia moral).

 

 

 

 

 

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