(178) Dinheiro mau e dinheiro bom
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As propostas dos bancos e das companhias de pagamentos são apenas do interesse deles. A sua função é convencerem-nos que tais propostas são do nosso interesse.
Sempre que uma instituição poderosa quiser que as pessoas escolham uma determinada opção (que convenha à instituição), a estratégia empregue é a de dificultar a alternativa.
Face aos escândalos associados aos paraísos fiscais e às monumentais fugas ao fisco atuais permitidas pelos muito “seguros” sistemas de transferências digitais, dizerem-nos que o pagamento em dinheiro anda normalmente associado ao crime e à fuga ao fisco, é no mínimo tomarem-nos por ingénuos.
Há dois conceitos importantes de filósofos marxistas que, curiosamente, têm vindo a ser utilizados por cadeias de supermercados, bancos, instituições financeiras similares e outras megaempresas, e que têm servido de base teórica para as suas apregoadas tentativas de construção de uma sociedade em que tudo seja mais fácil para nós. Sempre a pensarem em nós.
Antonio Gramsci, (1891-1937), desenvolveu o conceito de “hegemonia” para nos explicar como os poderes instituídos conseguem condicionar o ambiente cultural e económico de tal forma que eles acabem por serem aceites pela população em geral como fazendo parte da inevitabilidade da natureza humana.
Louis Althusser, (1918-1990), desenvolveu o conceito de “interpelação” através do qual se pode fazer com que as pessoas possam interiorizar crenças, se forem interpeladas como se já tivessem essas crenças.
Quando os supermercados começaram a substituir os empregados da caixa por máquinas que prestavam serviço idêntico, fizeram-no inicialmente tentando convencer os clientes de que lhes estavam a oferecer uma alternativa conveniente. Quando alguns clientes começaram a usar essa alternativa, os supermercados começaram a invocar essa utilização como se tratasse de uma alteração de comportamento dos consumidores, o que lhes serviu como justificação para reduzirem o número de empregados das caixas. Como consequência da diminuição do número desses empregados, com o respetivo aumento dos tempos de espera para serem atendidos, os clientes começaram a preferir as caixas automáticas.
Também os bancos começaram a reduzir as delegações e o número de máquinas automáticas (ATM) para levantamento de dinheiro. A explicação que nos dão é que foram sendo obrigados a fazê-lo para responder às preferências dos clientes, porquanto uma maioria deles tinha vindo a aumentar a utilização das consultas e transações “on line”, através dos seus computadores.
É evidente que nenhum dos clientes lhes pediu para fecharem as delegações ou diminuírem o número de máquinas disponíveis. O que acontece, é que a diminuição das delegações e das máquinas disponíveis torna a vida mais difícil para os clientes que normalmente utilizavam esses meios, forçando-os a aderirem aos serviços “on line”.
Ou seja, sempre que uma instituição com poderes, quiser que as pessoas venham a escolher uma determinada opção (que convenha à instituição), a estratégia empregue é a de dificultar a alternativa.
É óbvio que a finalidade pretendida é fazer com que os pagamentos venham a serem feitos via digital, utilizando a infraestrutura digital do banco. Assim, além de cortarem nos seus custos aumentando os lucros, vão, acima de tudo, poderem controlar e monitorizar as ações desenvolvidas pelos clientes.
Para isso, começam por aumentar os inconvenientes da utilização do dinheiro físico, diminuindo o número de delegações e das ATM. Depois, promovem ativamente a alternativa. A finalidade é a de fazer primeiro com que as pessoas aprendam a lidar com o digital, e que depois passem mesmo a escolhê-lo por “vontade própria”.
Poucos são já os que se lembram que ao fim do mês, ou da semana, recebiam na pagadoria da empresa o salário em dinheiro. Ninguém na altura julgava que tal viria a ser considerado como “inconveniente”, “mau para a economia”, e que bom seria mesmo viver numa sociedade em que não se necessitasse de trazer dinheiro consigo. Mas é disso que nos estão a tentar convencer.
Uma sociedade desse tipo é apenas do interesse dos bancos e das companhias de pagamentos. A função deles é convencerem-nos que tal é do nosso interesse.
Dizerem-nos que o pagamento em dinheiro anda normalmente associado ao crime e à fuga ao fisco é no mínimo, face aos escândalos associados aos paraísos fiscais e às monumentais fugas ao fisco atuais permitidas pelos muito “seguros” sistemas de transferências digitais, tomarem-nos por ingénuos.
A monitorização e o controle permanente que esses sistemas exercem sobre “nós”, e que pelos vistos não os afeta a “eles”, porquanto raramente são apanhados e quando o são, o tempo que demora o processo é interminável, torna-se cada vez mais absoluto. Basta ver o descaramento com que nos avisam para termos muito cuidado com as objeções que levantarmos ao dinheiro virtual, para que a economia não venha a ser prejudicada por “entraves” que são contra o “natural” funcionamento do sistema.
Vejamos um exemplo possível e muito provável de acontecer num sistema totalmente digitalizado sem numerário: esse sistema poderá vir a permitir que em casos de manifestações “não desejadas”, através de uma simples ordem, se proceda ao não pagamento dos salários, transações e levantamentos, dos manifestantes intervenientes, o que será certamente muito mais efetivo do que uma carga policial.
Claro que em contrapartida já podemos pagar um café com o telemóvel.
Este é o fantástico mundo do dinheiro virtual. Este é o “nosso” mundo.
Isto e muito mais encontramos na leitura do livro de Brett Scott, The Heretic’s Guide to Global Finance: Hacking the Future of Money Paperback, que nos adverte contra os perigos de um sistema digitalizado sem numerário.