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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(178) Dinheiro mau e dinheiro bom

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

 

As propostas dos bancos e das companhias de pagamentos são apenas do interesse deles. A sua função é convencerem-nos que tais propostas são do nosso interesse.

 

Sempre que uma instituição poderosa quiser que as pessoas escolham uma determinada opção (que convenha à instituição), a estratégia empregue é a de dificultar a alternativa.

 

Face aos escândalos associados aos paraísos fiscais e às monumentais fugas ao fisco atuais permitidas pelos muito “seguros” sistemas de transferências digitais, dizerem-nos que o pagamento em dinheiro anda normalmente associado ao crime e à fuga ao fisco, é no mínimo tomarem-nos por ingénuos.

 

 

 

 

 

 

Há dois conceitos importantes de filósofos marxistas que, curiosamente, têm vindo a ser utilizados por cadeias de supermercados, bancos, instituições financeiras similares e outras megaempresas, e que têm servido de base teórica para as suas apregoadas tentativas de construção de uma sociedade em que tudo seja mais fácil para nós. Sempre a pensarem em nós.

 

Antonio Gramsci, (1891-1937), desenvolveu o conceito de “hegemonia” para nos explicar como os poderes instituídos conseguem condicionar o ambiente cultural e económico de tal forma que eles acabem por serem aceites pela população em geral como fazendo parte da inevitabilidade da natureza humana.

Louis Althusser, (1918-1990), desenvolveu o conceito de “interpelação” através do qual se pode fazer com que as pessoas possam interiorizar crenças, se forem interpeladas como se já tivessem essas crenças.

 

Quando os supermercados começaram a substituir os empregados da caixa por máquinas que prestavam serviço idêntico, fizeram-no inicialmente tentando convencer os clientes de que lhes estavam a oferecer uma alternativa conveniente. Quando alguns clientes começaram a usar essa alternativa, os supermercados começaram a invocar essa utilização como se tratasse de uma alteração de comportamento dos consumidores, o que lhes serviu como justificação para reduzirem o número de empregados das caixas. Como consequência da diminuição do número desses empregados, com o respetivo aumento dos tempos de espera para serem atendidos, os clientes começaram a preferir as caixas automáticas.

 

Também os bancos começaram a reduzir as delegações e o número de máquinas automáticas (ATM) para levantamento de dinheiro. A explicação que nos dão é que foram sendo obrigados a fazê-lo para responder às preferências dos clientes, porquanto uma maioria deles tinha vindo a aumentar a utilização das consultas e transações “on line”, através dos seus computadores.

É evidente que nenhum dos clientes lhes pediu para fecharem as delegações ou diminuírem o número de máquinas disponíveis. O que acontece, é que a diminuição das delegações e das máquinas disponíveis torna a vida mais difícil para os clientes que normalmente utilizavam esses meios, forçando-os a aderirem aos serviços “on line”.

Ou seja, sempre que uma instituição com poderes, quiser que as pessoas venham a escolher uma determinada opção (que convenha à instituição), a estratégia empregue é a de dificultar a alternativa.

 

É óbvio que a finalidade pretendida é fazer com que os pagamentos venham a serem feitos via digital, utilizando a infraestrutura digital do banco. Assim, além de cortarem nos seus custos aumentando os lucros, vão, acima de tudo, poderem controlar e monitorizar as ações desenvolvidas pelos clientes.

Para isso, começam por aumentar os inconvenientes da utilização do dinheiro físico, diminuindo o número de delegações e das ATM. Depois, promovem ativamente a alternativa. A finalidade é a de fazer primeiro com que as pessoas aprendam a lidar com o digital, e que depois passem mesmo a escolhê-lo por “vontade própria”.

 

Poucos são já os que se lembram que ao fim do mês, ou da semana, recebiam na pagadoria da empresa o salário em dinheiro. Ninguém na altura julgava que tal viria a ser considerado como “inconveniente”, “mau para a economia”, e que bom seria mesmo viver numa sociedade em que não se necessitasse de trazer dinheiro consigo. Mas é disso que nos estão a tentar convencer.

Uma sociedade desse tipo é apenas do interesse dos bancos e das companhias de pagamentos. A função deles é convencerem-nos que tal é do nosso interesse.

 

Dizerem-nos que o pagamento em dinheiro anda normalmente associado ao crime e à fuga ao fisco é no mínimo, face aos escândalos associados aos paraísos fiscais e às monumentais fugas ao fisco atuais permitidas pelos muito “seguros” sistemas de transferências digitais, tomarem-nos por ingénuos.

 

A monitorização e o controle permanente que esses sistemas exercem sobre “nós”, e que pelos vistos não os afeta a “eles”, porquanto raramente são apanhados e quando o são, o tempo que demora o processo é interminável, torna-se cada vez mais absoluto. Basta ver o descaramento com que nos avisam para termos muito cuidado com as objeções que levantarmos ao dinheiro virtual, para que a economia não venha a ser prejudicada por “entraves” que são contra o “natural” funcionamento do sistema.

 

Vejamos um exemplo possível e muito provável de acontecer num sistema totalmente digitalizado sem numerário: esse sistema  poderá vir a permitir que em casos de manifestações “não desejadas”, através de uma simples ordem, se proceda ao não pagamento dos salários, transações e levantamentos, dos manifestantes intervenientes, o que será certamente muito mais efetivo do que uma carga policial.

Claro que em contrapartida já podemos pagar um café com o telemóvel.

Este é o fantástico mundo do dinheiro virtual. Este é o “nosso” mundo.

 

 

Isto e muito mais encontramos na leitura do livro de Brett Scott, The Heretic’s Guide to Global Finance: Hacking the Future of Money Paperback, que nos adverte contra os perigos de um sistema digitalizado sem numerário.

 

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