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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(170) Cultivando narcisos ou "a indiferença dos 'surdos' perante o mundo"

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

 

Viver no presente, apenas no presente e não já em função do passado e do futuro, viver apenas para nós próprios, sem nos preocuparmos com as nossas tradições nem com a nossa posteridade.

 

O narcisismo tornou-se um dos temas centrais da cultura americana para o qual muito contribuiu a perca de autoridade da família, o aumento de controlo terapêutico exterior sobre a família e a ascensão do feminismo, C. Lasch, 1979.

 

Só na aparência os indivíduos se tornam mais sociáveis e cooperantes; por trás dessa fachada de hedonismo e de solicitude, cada indivíduo explora cinicamente os sentimentos dos outros e procura o seu próprio interesse sem qualquer preocupação com as gerações futuras, G. Lipovetsky, 1980.

 

 

 

 

Segundo a versão expressa por Ovídeo nas Metamorfoses, quando Narciso nasceu, os seus pais, Cefiso, o deus dos lagos, e a ninfa Liríope, interrogaram o divino Tirésias sobre o seu destino. Tirésias disse-lhes que aquela criança “chagaria a velho, se nunca visse o seu rosto”.

Já homem feito, devido à sua grande beleza, Narciso era o objeto da paixão de muitas donzelas e ninfas. A todas se mantinha insensível. O mesmo aconteceu com a ninfa Eco, que desesperada, resolveu retirar-se e isolar-se da sociedade, emagrecendo a tal ponto que para o fim só se lhe ouviam os gemidos da sua voz. Todas as outras jovens desprezadas reúnem-se e resolvem pedir aos céus por vingança.

Némesis, a deus a vingança divina, acolhe os seus pedidos, esboçando um plano: num dia de muito calor em que Narciso fosse caçar, seria levado a debruçar-se sobre a água do lago para beber, o que forçosamente obrigaria a ver o seu rosto refletido. E assim foi: Ao encarar a sua imagem, tão bela, fica de imediato apaixonado por ela. Insensível a tudo o que o rodeia, insensível ao mundo, acaba por se deixar seduzir pela sua imagem. Desejando tocá-la, agarrá-la, inclina-se de tal forma que acaba por cair ao rio, deixando-se morrer. No local da sua morte acabou por nascer uma flor a que deram o seu nome, o narciso.

 

Posteriormente, e em termos médicos, foi dado o nome de narcisismo a uma desordem da personalidade definida como sendo uma condição na qual as pessoas se sentem cheias da sua própria importância, tendo ao mesmo tempo uma preocupação extrema para com elas próprias.

Exemplos de comportamentos narcisísticos podem ser vistos em alguns filmes e séries de televisão: “Dois homens e meio” (Charlie Harper), “O mentalista” (Patrick Jane), “O escritório” (Michael Scott), “O retrato de Dorian Gray”, “Atração fatal” (Catherine Tramell), “Nip/Tuck” (Dr. Troy), “O grande Gabsty” (Jay Gabsty).

 

Coube ao historiador americano Christopher Lasch, em 1979, a transposição deste termo clínico individual para o comportamento da sociedade, descrevendo-o como uma “doença” da sociedade, um narcisismo social.

Para Lasch que “o narcisismo tornou-se um dos temas centrais da cultura americana”. Segundo ele, tal aconteceu devido à perca de autoridade da família, ao aumento de controlo terapêutico exterior exercido sobre a família, e à ascensão do feminismo.

 

 O problema da perca (demissão) da autoridade da família tem que ver com alteração que a industrialização provocou na vida familiar. A deterioração dos cuidados com os filhos (pelo facto de serem deixados em casa entregues a si próprios), conduz a uma segunda fase em que funções que deveriam ser desempenhadas pelos pais, passavam a serem feitas por várias instituições, desde as escolas, que se substituem às famílias na educação dos filhos, até a outras instituições prestadoras de cuidados de alimentação e saúde.

Os pais vão sendo assim obrigados a prescindir do papel de primeiros protetores, escapando-se-lhes as decisões sobre os filhos. A regulação sobre o bem-estar das crianças começou a passar para as escolas, organizações de proteção às crianças, tribunais juvenis, centros de educação para pais, etc., transformando os pais em meros subordinados.

 Estes serviços sociais criados em nome da preservação da família, têm como reverso a insegurança, fraqueza, ansiedade, e a falta de confiança que introduzem nos pais e que levam a uma consequente demissão das relações pais-filhos.

 

 O impacto da ascensão do feminismo tem a ver com as alterações dos papéis que a emancipação das mulheres provocou nas relações entre os casais, nomeadamente na destruição do conceito de dominação que o homem tinha.

Além disso, esta independência das mulheres, trouxe reflexos no campo sexual ao ponto de os homens temerem que nunca poderiam satisfazê-las, o que numa sociedade narcisística pode levar a um desencanto emocional, a uma dependência de técnicos especialistas, a um maior individualismo, à quebra da vida familiar.

 

 Em conclusão, Larsh diz-nos que a autoridade paternal é desmantelada e a família vai sendo sucessivamente libertada das suas funções económicas e de proteção. Devido ao liberalismo do Estado Social, o modelo anterior baseado no controlo é substituído pelo de permissividade, hedonismo, disfrute e direitos adquiridos.

 

 

Um ano depois, em 1980, Gilles Lipovetsky publica no número 5 do Le Débat, o artigo intitulado “Narciso ou a Estratégia do Vazio”.

Começa por reconhecer que a esfera pública se encontra desvitalizada face a uma vitoriosa esfera privada, o que tem vindo a conduzir a um viver sem ideal e sem fim transcendente.

A perca de confiança relativamente aos dirigentes políticos, o clima de pessimismo e da catástrofe iminente, levam a uma fixação sobre o viver no presente, apenas no presente e não já em função do passado e do futuro, viver apenas para nós próprios, sem nos preocuparmos com as nossas tradições nem com a nossa posteridade.

É desta deserção generalizada dos valores e finalidades sociais, acompanhada de um processo de personalização, que surge o narcisismo. O esforço deixa de estar na moda; tudo o que significar coerção ou disciplina, é desvalorizado em proveito do culto do desejo e da sua realização imediata.

 

Sinais e sintomas que vão sendo visíveis nessa alteração social.

É assim, que representação social do corpo começa a sofrer uma mutação profunda, passando a objeto de culto, num investimento narcisístico legível através de práticas quotidianas como: angústia da idade e das rugas, obsessões com a saúde, com a “linha”, com a higiene, rituais de controlo (check-up) e de manutenção (massagens, saunas, desportos, regimes), consumo exagerado de cuidados médicos e produtos farmacêuticos.

 A degradação das condições de existência das pessoas idosas e a necessidade permanente de valorização, de ser admirado pela beleza, pelo encanto, pela celebridade, tornam a perspetiva do envelhecimento intolerável.

 

No universo económico reina uma rivalidade pura, esvaziada de qualquer significação moral ou histórica: o culto do self-made man e do enriquecimento como signo de progresso individual e social terminou, o “êxito” tem agora só um sentido psicológico: suscitar admiração ou inveja.

 O indivíduo adula os seus superiores para avançar na carreira, deseja mais ser invejado que respeitado; reina a manipulação e a concorrência de todos contra todos.

 

A vida privada reproduz este estado de guerra: as relações humanas tornam-se relações de dominação, relações conflituais assentes na sedução fria e intimidação. Só na aparência os indivíduos se tornam mais sociáveis e cooperantes; por trás dessa fachada de hedonismo e de solicitude, cada indivíduo explora cinicamente os sentimentos dos outros e procura o seu próprio interesse sem qualquer preocupação com as gerações futuras.

 

A dessubstancialização do real é assim feita aplicando sempre o mesmo método: acumulação e aceleração.

O exemplo mais claro, é o que se passa com o urbanismo: restauração dos bairros antigos, proteção dos locais, animação das cidades, iluminação artificial, “planos paisagísticos”. O real tem de ser transformado num lugar de trânsito, onde a deslocação é imperativa: a personalização é um pôr em circulação.

Todo o nosso ambiente urbano e tecnológico (parques de estacionamento subterrâneos, galerias de lojas, autoestradas, arranha-céus, desaparecimento das praças públicas) se encontra organizado de modo a acelerar a circulação dos indivíduos, a entravar a fixação e, portanto, a pulverizar a sociabilidade.

Climatizado, assoberbado por informações, o real torna-se irrespirável e condena ciclicamente à viagem: mudar de ares, ir não importa aonde, mas sair do lugar onde se está.

 

Uma vez tornado inabitável o real, resta a retração sobre si próprio, fechar-se sobre si próprio, neutralizar o mundo, nem que seja pela força do som: os ruídos e as vozes da vida transformam-se em parasitas, o que é preciso é que o indivíduo se identifique com a música e esqueça a exterioridade do real. Daí a proliferação de auscultadores aplicados sobre os tímpanos (do jogging ao ski), os carros equipados com colunas e amplificadores de 100 W, discotecas de 4000w, concertos com24000w. É a “indiferença dos ‘surdos’ ante o mundo”.

 

Ao nível das relações interindividuais, o perfil de Narciso vai no sentido de rejeitar ligações profundas, para não se sentir vulnerável, desenvolver a sua independência afetiva, viver sozinho.

 

 O medo de ser dececionado, o medo das paixões incontroladas, traduz uma fuga diante do sentimento, processo que se manifesta tanto na separação íntima, como na separação entre sexo e sentimento: quando se prega o cool sex e as relações livres, quando se condenam o ciúme e a possessividade, trata-se de facto de climatizar o sexo, de o expurgar de toda a tensão emocional e de conseguir assim um estado de indiferença, de desprendimento, não só a fim  de o indivíduo se proteger contra as deceções amorosas, mas também contra os seus próprios impulsos, que podem sempre ameaçar o seu equilíbrio interior.

 A libertação sexual, o feminismo, e a pornografia, trabalham para um mesmo fim: erguer barreiras contra as emoções e manter afastadas as intensidades afetivas.

 

Impossibilidade de sentir, vazio emotivo, a dessubstancialização toca aqui o seu termo, revelando a verdade do processo narcísico como estratégia do vazio.

Por toda a parte encontramos a solidão, o vazio, a dificuldade de sentir, de ser transportado para fora de si; daí a fuga para a frente das “experiências”, que mais não faz do que traduzir esta busca de uma “experiência” emocional forte. Porque não posso amar e vibrar?

 Desolação de Narciso, demasiado bem programado na sua absorção em si próprio para poder ser afetado pelo Outro, para sair de si, e, no entanto, insuficientemente programado, pois que deseja um mundo relacional afetivo.

 

Vinte anos antes, em 1958, já Hannah Arendt, na sua obra Condição Humana, sem nunca falar em narcisismo, mostrava o caminho que as sociedades estavam a atravessar. Transcrevo algumas das citações de Arendt:

 

Todos os traços da psicologia da multidão descobriram no homem massa a sua solidão apesar da sua adaptabilidade; a sua excitabilidade e a falta de normas de aferimento, a sua capacidade para o consumo, acompanhada da sua falta de habilidade para ajuizar, ou mesmo para distinguir, e acima de tudo o seu egocentrismo e alienação irremediável do mundo…traços que já apareciam na sociedade que a antecedeu, onde não se punha o problema de massas”.

 

A idade moderna, com a sua crescente alienação do mundo, levou o homem a uma situação tal, que para onde quer que vá, só se encontra a ele próprio…Esta dupla perca…deixou atrás uma sociedade de homens que, sem um mundo comum com que se relacionarem e separarem, ou vivem numa desesperada separação solitária ou são empurrados para a massa. E uma sociedade de massas não é mais que uma forma de vida organizada que se estabelece automaticamente com outros seres humanos, que continuam a ser relacionáveis entre si, mas que perderam o mundo que já lhes fora comum”.

 

“…O tempo livre do animal ‘laborans’ é todo empregue no consumo, e se mais tempo tivesse, seria ocupado em tornar o seu apetite mais guloso e ambicioso. Que esses apetites se tornem mais sofisticados para que o consumo já não se restrinja às necessidades vitais, mas se concentre nas superficialidades da vida, não muda o caracter desta sociedade, mas encerra em si o perigo de nenhum objeto do mundo, possa estar a salvo deste consumo aniquilador de tudo…A exigência universal de felicidade e a existência de infelicidade generalizada, são sintomas evidentes de que nos encontramos a viver numa sociedade predominantemente de labor, onde não há labor suficiente para manter todos contentes.”

 

Quanto mais simples for a vida numa sociedade de consumidores ou de ‘laboradores’, maior será a dificuldade em manter-se desperta para as urgências das necessidades para onde estão a ser arrastadas, mesmo apesar da dor e do esforço, manifestações exteriores da necessidade, serem minimamente apercebidas. Nesta sociedade, deslumbrada pela abundância da sua própria fertilidade e convencida do seu funcionamento como de um processo sem fim, o perigo é que já não consiga aperceber-se da sua própria futilidade, a futilidade de uma vida que ‘não se fixe nem se realize com permanência em qualquer assunto que perdure, depois de passar a passado´”.

 

 

A aplicação do conceito de narcisismo, veio, no entanto, tornar muito mais fácil perceber e reconhecer esses comportamentos, já intuídos e explicados por Arendt em 1958 (já lá vão 60 anos).

 

 

 

Para ler, com tempo e paciência:

 

ARENDT, Hannah, (1958), The Human Condition, Chicago: University of Chicago Press.

-------------------------- (1977), Between Past and Future, New York: Penguin.

 

HABERMAS, J., (1999), The Structural Transformation of the Public Sphere: An Inquiry into a Category of Bourgeois Society, Massachusetts: Thomas Burger.

 

LASCH, Christopher, (1979), The Culture of Narcissism: American Life in an Age of Diminishing Expectations, New York: Norton.

 

LIPOVETSKY, Gilles, (1983), L’Ère du vide: essais sur l'individualisme contemporain, Paris, Gallimard.

-----------------------------(1988), A Era do Vazio, Lisboa: Relógio d’Água Editores.

 

 

 

 

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