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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(169) A saga do mexilhão virtual

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

 Daqui a 100 anos o melhor físico será uma máquina, Frank Wilczek.

 

Mais tarde ou mais cedo, por erro, distração, curiosidade, ambição, vaidade, necessidade, economia ou poder, a tendência vai no sentido da criação de um ser (chamem-lhe autómato, robô, sintético, androide, replicante) idêntico ao humano.

 

O que a máquina possui é um conjunto assignificativo de moléculas portadoras de um possível sentido, sentido esse que necessita de um operador semântico capaz de transformar essas moléculas ordenadas em sentido, Américo Pereira.

 

Mesmo um mundo sem sentido só é possível de conceber porque nós o intuímos.

 

Não há dois seres iguais: se o forem, então serão o mesmo ser.

 

 

 

 

Houve uma época em que éramos continuamente inundados com notícias referentes às múltiplas experiências que estavam a ser conduzidas em vários laboratórios, altamente credenciados, por vários cientistas também altamente credenciados, com a finalidade de fazerem aparecer “vida”, quer pela simulação das possíveis condições físicas e químicas onde ela aconteceu, quer por outras abordagens igualmente altamente sofisticadas e credenciadas.

Só que como já não se faz ciência por fazer ciência, ao serem obrigados a exibirem resultados práticos, ou seja, a darem rendimentos aos investidores através das suas possíveis aplicações, estes programas têm vindo sucessivamente a serem desativados. Ficarão em espera. Certamente.

Em compensação, temos vindo a assistir a um crescimento exponencial de programas de mini e nano robôs e de métodos de inteligência artificial (IA), que se vão estendendo pelos vários campos das ciências. Sem o detetarmos, vivemos já hoje num mundo mergulhado na IA.

 

 

Quando em 2004 Frank Wilczek, Nobel de Física, disse que dentro de 100 anos o melhor físico seria uma máquina, talvez essa sua previsão, por muitos considerada como uma graça académica, acabe por pecar por ser conservadora.

É assim que a identificação do genoma humano não teria sido possível sem o recurso a potentes ordenadores e à inteligência artificial. É assim que já hoje é corrente a utilização de robôs cirurgiões que em muito superam os humanos num número crescente de atividades.

 

 Ross King, professor no Instituto de Biotecnologia da Universidade de Manchester, especializado em automatização da ciência, utiliza dois robôs, a que eruditamente chamou Adão e Eva, com a finalidade de replicar os resultados dos investigadores humanos (“A vantagem dos sistemas robóticos é que podem trabalhar mais barato, com maior rapidez, maior acerto e por mais tempo que os humanos”), e que poderão chegar, inclusivamente, a fazerem descobertas por si sós. Ross King está já a falar de ciência feita por robôs!

 

No mesmo sentido se pronunciaram Michael Levin e Daniel Lobo num artigo, publicado na PLoS Computational Biology, sobre a regeneração das planárias. As planárias são pequenos vermes planos pertencentes à classe Turbellaria, que possuem a capacidade espantosa de se regenerarem, que as torna quase imortais: quer se lhes corte a cabeça, a cauda, ou o corpo em mais de cem partes, mesmo longitudinalmente, elas acabam sempre por se regenerarem dando origem a cem planárias ou as que forem.

Com a utilização de vários fármacos e por manipulação genética, conseguem-se obter planárias com várias cabeças ou com várias caudas. Mas apesar das inúmeras experiências feitas, os cientistas continuam sem ter um modelo claro que lhes permita saber como é que elas se regeneram. 

Levin e Lobo, conseguiram encontrar uma rede, um conjunto de normas que se for seguido permitem obter “resultados que são exatamente iguais aos verificados e publicados pela literatura científica”, ou seja, permitem explicar porque é que nestes vermes se dá a regeneração da cabeça e ou da cauda.

 

E, como humildemente assumem, não foram eles que descobriram este modelo, mas sim um sistema de inteligência artificial através de um algoritmo matemático que incluía tudo o que se sabia sobre as planárias: genética, expressão dos genes, padrões de divisão celular, e outros, criando uma base de dados com mais de uma centena de experiências sobre a regeneração.

O sistema de inteligência artificial, para além de replicar o que os humanos já haviam feito, descobriu ainda dois elementos novos sobre a regeneração dos vermes, predizendo a existência de duas proteínas que deverão formar parte da rede.

 

Por outro lado, cientistas franceses (Jean-Baptiste Mouret, Antoine Cully, D. Tarapore) conseguiram integrar nos seus robôs de seis patas, “instintos” computorizados que lhes permitem (aos robôs) rapidamente (menos de dois minutos) optar por 13.000 formas possíveis de andar para compensarem acidentes que sofram, como pernas partidas, danificadas ou perdidas, alterando por eles próprios o seu modo de locomoção sem necessidade de intervenção de qualquer manutenção humana. O interessante (assustador) é que em igualdade de circunstâncias, alguns robôs “resolvem” mais depressa o problema e “andam” melhor do que outros.

 

Um último exemplo prende-se com a criação, feita por cientistas do Royal Melboune Institute of Technology, de uma célula eletrónica de memória com uma espessura 10.000 vezes inferior a um cabelo humano que, segundo os seus inventores, irá permitir a execução de um sistema de memória que aprende e armazena informação analógica com capacidade para uma rápida utilização posterior, tal como um cérebro humano faz. Ou seja, entrámos já no limiar da criação de um cérebro biónico.

 

Acreditam os cientistas que os computadores, os robôs, embora possuam capacidades diferentes dos humanos que lhes permita, por exemplo, analisarem mais de um milhão de estudos científicos, não poderão nunca fugir ao programa com que, e para que, foram criados, e que também não poderão compreender em profundidade nenhum deles.

Não passarão de máquinas de raciocinar de pura mecânica operativa que, a partir de dados de origem humana produzem outros dados de que não têm qualquer consciência, dados esses que só quando comunicados a um ser humano podem passar a ter significado.

 

Podemos acreditar no que nos dizem os cientistas? É que, para além da possibilidade, ainda que remota, do aparecimento de um pequeno desvio oculto nos biliões de programas utilizados, defrontamo-nos com o problema maior que vem exatamente da finalidade pretendida pelo fator humano (donos de empresas, cientistas, complexo industrial-militar, políticos de topo), da tendência e do propósito social que pretende servir.

 

Quando Alexander Mitsscherlich, escrevendo em 1962 sobre a mentalidade da medicina praticada nos campos de concentração e nas universidades da Alemanha entre 1934 e 1945 (“fascismo clínico”), concluiu que por trás dos médicos criminosos (dos 900.000 médicos que na altura exerciam, 350 praticaram extensos crimes clínicos) existia já previamente um enorme aparelho clínico que, passo a passo, transformara os pacientes em material humano.

Aos médicos criminosos bastava darem um salto clínico mais, na direção em que há muito se tinham habituado a marchar”. Tal como hoje acontece, sem provocar qualquer escândalo, com a marcha das investigações sobre a tortura, sobre a genética e a protésica, as investigações farmacológicas e as militares-biológicas. Ou seja, convivemos e vivemos com os elementos e as condições de um futuro fascismo clínico. Tendência, sentido, já temos.

 

Se o nazismo tivesse triunfado, certamente seria hoje corrente o pensamento clínico de que há demasiadas pessoas cujo tratamento não merece a pena, servindo apenas como objetos de experimentação. Por isto, as garantias dadas pelos cientistas pouco valem; no melhor serão ingénuas.

Mais tarde ou mais cedo, por erro, distração, curiosidade, ambição, vaidade, necessidade, economia ou poder, a tendência vai no sentido da criação de um ser (chamem-lhe autómato, robô, sintético, androide, replicante) idêntico ao humano.

 

 

Assim, tal como aconteceu nos séculos XVI e XVII, torna-se, portanto, necessário voltar a caraterizar e a definir o que é ser humano (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/168-o-que-e-ser-mexilhao-44747).

Comecemos por ter em consideração que uma máquina por mais perfeita que seja (raciocinando mecanicamente e executando operações complicadíssimas em muito menos tempo do que o humano), não tem a capacidade de atribuir significado ao que produz: o seu resultado não passará nunca de um conjunto enorme de bits que permanecerão isso mesmo, um conjunto completamente sem significado, porque só por ela não consegue atribuir-lhe qualquer significado.

 

Como diz Américo Pereira, “o que a máquina possui é um conjunto assignificativo de moléculas portadoras de um possível sentido, sentido esse que necessita de um operador semântico capaz de transformar essas moléculas ordenadas em sentido.”

 

Este ‘sentido’ não se refere a direção ou orientação, mas sim a ter significado. Simplificadamente poderemos por exemplo dizer que antes de Plutão ter sido descoberto, embora ele tivesse existência não tinha qualquer significado. Só passa a ter significado quando a sua existência é apreendida pelo ser humano: é aí que é integrado na criação, é aí que temos mundo.

A existência dum mundo sem a mediação do homem corresponderia a um mundo sem qualquer sentido. Aliás, mesmo um mundo sem sentido só é possível de conceber porque nós o intuímos.

 

Segundo a abordagem espiritualista, para o surgimento do sentido torna-se necessária uma capacidade de apreensão direta, imediata e intuitiva (o ato de intuição) da criação desse sentido de algo: a essa capacidade damos o nome de inteligência, bem diferente da simples capacidade mecânica de encadear juízos. Esta é a caraterística fundamental do homem, pelo que qualquer criação pelo próprio homem de um homem a partir de meios mecânicos terá sempre de a ter.

E mais, não se trata apenas de conseguir imitar a inteligência humana, porquanto já vimos que a inteligência humana é autónoma e totalmente livre. É por isso que não há dois seres iguais: se o forem, então serão o mesmo ser.

Não é, pois, possível criar uma imitação. Ter-se-ia, portanto, de criar uma inteligência que por si própria fosse capaz de intuir novo sentido, fosse ele o que fosse.

 

Se de facto for esta a caraterística essencial que define o ser humano, então todas as outras caraterísticas físicas e biológicas serão acessórias.

 Aconteceria até que segundo essa humanidade não-biológica, os laços de bem-querer seriam certamente baseados numa “arquitetura do sentido” para lá da estrutura biológica, ou seja, para além da ligação física a alguém.

 

Por exemplo, o amor dos pais pelos filhos deixaria de se basear no apego materialista da continuidade biológica. O amor não vem porque os filhos são nossos segundo a carne, “mas porque lhes queremos bem e queremos-lhes bem porque é isso o melhor para eles, não porque nos estejam ligados materialmente”.

 

Assim, ser humano não é possuir caraterísticas físicas consideradas como típicas (o que para além do mais deixaria de fora todos aqueles que não obedecessem ao cânone físico), mas possuir uma capacidade de inteligência, de criação de sentido, de possibilidade e atualidade de significação.

Só assim se poderá alargar o conceito de humanidade a todos os seres que contenham essa capacidade. Só assim estaremos aptos a assistir ao nascimento de uma nova forma de humanidade.

 

Acontece que, se isto vier um dia a concretizar-se, teremos de ter a “sorte” de contar com os bons cientistas, os bons engenheiros, os bons militares, os bons políticos, os bons empresários, etc., porque se algo falhar (propositadamente ou não), a nova forma (o novo mexilhão) será mais do mesmo, com maiores capacidades de exploração, maior insensibilidade, mais certezas, mais arrogância, menos compaixão. Ou seja, ficaremos pior, digo eu.

 

Mas também pode não ser este o caminho seguido. Com a acumulação de conhecimentos sobre o cérebro e o aumento da capacidade de computação, talvez se torne possível produzir uma máquina que tenha os graus de liberdade do ser humano com o mesmo número de conexões neuronais.

 

Quando dizemos que estamos perante 85.000 milhões de neurónios, a serem multiplicados por uma média de 1.000 conexões por neurónio, o que estamos a dizer é que apesar das possibilidades de o ser humano serem quase infinitas, mesmo assim estão fixadas e são finitas.

Daqui decorre por exemplo, o considerar-se que o conceito de liberdade seja uma ilusão pois estamos biologicamente condicionados.

 

Além do mais, as probabilidades de um ser humano realizar um dado ato são tão altas, que se torna impossível predizer o que alguém vai fazer. Para além disto, devemos ainda tomar em consideração que a consciência representa menos de 10% da nossa atividade cerebral num determinado momento.

Sabe-se agora que as decisões são tomadas muito antes que sejam por nós conhecidas conscientemente. As decisões que o nosso cérebro adota são explicadas a posteriori, tendo por base a memória, as emoções e toda uma série de dados que são processados de maneira inconsciente. Certamente para a grande maioria dos casos, mesmo que a máquina não viesse a ter aquele número de neurónios, talvez não se notasse qualquer diferença para o humano.

 

Esta fixação no cérebro pode ainda vir a apontar para outro caminho. Sabemos que no momento em que o cérebro deixa de funcionar deixamos de existir como cérebro individualizado. Sabe-se que há circuitos no cérebro que se destinam a fazer-nos sobreviver em quaisquer circunstâncias, que nos tentam proteger da morte e da perca da nossa própria identidade.

 

Mas, se conseguirmos pôr todo o nosso cérebro num chip, ele continuará a funcionar, o que fará de nós (deles) seres imortais (haja eletricidade). Esperemos que o progresso não vá nesse sentido, pois certamente acabaríamos a comer mexilhões virtuais. Mas pode ser que o nosso palato já então esteja habituado a comer essas novas papas e bolos que de há muito nos andam a servir. 

 

 

 

 

 

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