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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(168) O que é ser mexilhão

Tempo estimado de leitura: 9 minutos.

 

 

Acreditas que um homem pode mudar o seu destino?” pergunta o samurai Katsumoto Moritsugu ao capitão Nathan Algreen (Tom Cruise), que lhe responde: “Eu acredito que um homem faz o que puder até que o seu destino se revele”, do filme O Último Samurai (2003).

 

A moda imperante é a de acreditar numa mudança perpétua, na mutabilidade e coisas como essas; e dizer que somos uma forma melhorada do macaco primigénio. Imagino, claro está, que subscreve essa doutrina. Considero-a claramente prematura; na maioria das pessoas que conheço, o processo está ainda muito longe de se ter completado.", Óscar Wilde.

 

Sou um evadido. Logo que nasci fecharam-me em mim. Ah, mas eu fugi”, Álvaro de Campos.

 

 “Quando o mar bate na rocha, quem se lixa é o mexilhão”, popular.

 

 

 

Existem duas grandes escolas de pensamento, que se têm enfrentado ao longo dos tempos, sobre o que é ser humano: a espiritualista, que afirma o primado do espírito sobre a matéria na explicação dos fenómenos psíquicos e na constituição do mundo, e a materialista, que nega a autonomia do espírito, reduzindo toda a explicação à matéria.

Na nossa sociedade, a matriz formadora tem sido a espiritualista, apesar de que, devido aos avanços espetaculares da ciência e do pensamento indutivo, a escola materialista tenha vindo a ressurgir e a afirmar-se.

 

Coube a Aristóteles caracterizar o homem como sendo um “animal racional”, o que significava que, para além de ser animal, o homem tinha uma caraterística própria, a capacidade para raciocinar.

 

Séculos mais tarde, o aparecimento do humanismo vai colocar o homem como sendo o centro do mundo, ocupando o lugar do cosmos e da divindade.

 Para tentarem entender aquilo que teria tornado o homem tão extraordinário que o levara a ser guindado (ou a guindar-se) a essa posição, e a fim de melhor caraterizarem aquilo que era o homem, os pensadores dos séculos XVII e XVIII vão debruçar-se sobre o problema das semelhanças e diferenças existentes entre os homens e os animais. Talvez assim conseguissem entender o que tornava o homem tão diferente e especial.

 

Descartes entendia que, para além do raciocínio, o homem possuía uma outra caraterística, a da afetividade. Para ele, os animais não passavam de “máquinas engenhosas” que, por isso mesmo, não tinham sentimentos (essa era a razão porque, apesar de terem todos os órgãos que lhes possibilitassem falar, não o faziam, pois não tinham quaisquer estados de alma para exprimir).

 

Rousseau, discordava dos critérios diferenciadores do raciocínio e da afetividade, porquanto “todos aqueles que têm um cão sabem perfeitamente que um cão é mais sociável e mesmo mais inteligente … do que alguns seres humanos”.

Segundo ele, o critério diferenciador era o da “perfetibilidade”, entendida como a faculdade que o homem tem de poder aperfeiçoar-se durante toda a vida, contrariamente ao animal que, orientado pelo instinto, aparece “perfeito de uma só vez” desde o nascimento, como se tivesse um programa a que obedeceria sem nunca se afastar dele.

O homem aparece, assim, com a capacidade para se libertar desse programa do instinto natural e de fazer a sua própria história, à partida indefinida.

 

O exemplo de que Rousseau se serviu para demonstrar a sua tese foi o da maldade do homem, não o simples ato de fazer mal (os animais ‘fazem mal’ aos outros animais quando os caçam), mas o fato de o homem ser capaz de organizar-se conscientemente com o objetivo de fazer mal ao seu semelhante.

 O ser humano faz mal a outro, sabe que o faz e, muitas vezes até tira prazer disso. Trata-se de uma escolha voluntária que não faz parte da ordem da natureza, até porque não serve para nada.

O homem tem, pois, a possibilidade de ultrapassar as leis naturais. É a essa possibilidade, que pode ir desde o mal absoluto até à generosidade suprema, que vulgarmente se chama liberdade.

 

 

Para os espiritualistas, não é correto basear a definição do humano assente em caraterísticas apenas materiais, como se fosse um pedaço de matéria que possuísse interioridade.

Até porque, segundo as mais recentes investigações, a estrutura íntima da matéria tem que ver com fenómenos de vibratilidade e de vibração, o que faz que ela assente muito mais em puro movimento do que num suporte material, daí que cada vez mais a física se vá transformando em matemática, sendo cada vez menos uma ciência de ‘materiais’ e mais uma ciência de puras relações.

Tal implicará que a ‘forma material’ com que as ‘coisas’ se manifestem tenha muito mais que ver com a forma como são ordenadas. Se assim for, então não é a ordem que nasce da matéria, mas a matéria que nasce da ordem.

 

De uma ordem que a transcende, dirão os espiritualistas, concluindo que não é o espírito que nasce da matéria, mas sim a matéria que nasce do espírito.

 De uma ordem que lhe é imanente, dirão os materialistas, concluindo que o espírito é uma mera potencialidade da matéria.

 

Sabiamente, sabidamente, os espiritualistas respondem: até poderá ser que assim seja, se se tiver em conta que o mesmo espírito que ordena (cria) a matéria nela se imprima como possibilidade, ou seja, que o espírito seja uma potencialidade da matéria que o mesmo espírito nela previamente pôs.

E, dizem mais: não basta que as moléculas se encontrem ordenadas. Torna-se necessário que exista um sentido possível latente nessa mesma ordenação. É que se não houver quem interprete tal ordenação física, a possibilidade latente não tem qualquer significado.

 

Tal como os hieróglifos egípcios não passavam de pura matéria de formas impressas sem significado até se ter descoberto a chave da sua decifração. Tal como uma máquina que raciocine perfeitamente, se não comunicar os seus raciocínios a um ser humano capaz de lhe atribuir um significado, ficar-se-á por um conjunto enorme de bits completamente inúteis.

Por isso, os espiritualistas insistem num ponto fundamental: o homem não é um sujeito material pré-fabricado que depois adquire sentido, mas é antes o resultado do sentido que faz o homem.

 

 É este sentido que cria o homem, é isso que é a sua mesma essência, não esquecendo, contudo, que o corpo faz parte dessa unidade de sentido que é o homem. Qualquer entidade que possua como próprio seu este sentido, é um ser humano (atenção para as implicações resultantes e aplicáveis como podemos ver no filme Spielberg de 2001, A.I. Inteligência Artificial).

 

Este sentido não depende da matéria; é a matéria que depende dele, que dele é parte. O que é, pois, essencial ao homem não depende do modo material da sua composição, sendo irrelevante que seja ‘carne’ ou qualquer outra ‘matéria’. A ‘carne’ humana não é feita de átomos especiais fora da tabela periódica da matéria.

 

O sentido implica obrigatoriamente um movimento. Daí que a vida nos apareça como uma forma de movimento. Só que tem de ser mais que movimento, caso contrário todo movimento seria vida e isso não é verdade (o movimento que aqui se refere, não tem que ver com a deslocação num espaço, mas com a realização de atos, ações realizadas com sentido de vida).

Sabemos que as bolas numa mesa de bilhar só se movimentam se forem acometidas por uma força exterior a elas. Se essa força não lhes for comunicada, nada há nas bolas que as façam movimentar-se.

 

A forma de movimento da vida tem de ser algo mais do que isto. Contrariamente a todas as outras formas que derivam o seu movimento de algo que lhes vem do exterior, a forma de movimento da vida coincide com o seu próprio princípio de movimento. A fonte de movimento na vida faz parte do próprio ser que está vivo. Daí que este movimento vital seja autónomo. Sem esta autonomia não há vida.

É este princípio de movimento próprio, dependente ou não de estímulos externos (que são irrelevantes, porquanto se não houver motor não há estímulos que produzam movimento), que nos une, apesar de tudo, mais a um vírus e não a uma pedra.

 

Mais do que um vírus, que também é vida, o ser humano tem a capacidade para apreender, por intuição, o significado (sabiamente, sabidamente, os espiritualistas vão chamar-lhe “sentido”) deste movimento. À apreensão desse sentido vão chamar-lhe inteligência, como irrupção do espírito que não depende de qualquer realidade exterior a si.

 Todo o ser que compreenda este absoluto do ato de ser, que seja capaz de intuir sentido, é um ser humano, mesmo que não possua a nossa constituição material, podendo até não se reproduzir da mesma forma que nós ou até de nenhuma forma (esta é uma tese muito interessante, com grandes consequências para as futuras Inteligências Artificiais). E isto, porque não é pela matéria que o ser humano se define, mas sim pelo espírito.

 

 

Perante esta avalanche de racionalidades espiritualistas, os materialistas respondem com um sistema em construção (a ciência) onde nada se toma como sendo definitivo, onde tudo pode ser alterado com o aparecimento de dados novos.

Para os materialistas, os seres humanos são a coroa de glória da biologia e da evolução.

Vejamos o que nos diz António Damásio:

 

Uma célula bacteriana é quase como uma metáfora de nós mesmos, ou nós como sendo a metáfora dela. Tem uma pele, que é a membrana, tem um núcleo que representa o cérebro, tem o citoplasma que representa o resto do nosso corpo, tem granitos que representam sistemas extremamente ricos; e a membrana, a pele, tem uma permeabilidade que permite a essa célula única ter uma relação com o ambiente, o exterior. A célula preocupa-se em procurar fontes de energia e transformar energia, tem metabolismo, e se tem uma ferida tem mecanismos de reparação; mantém a vida com tenacidade até que o genoma lhe diga ‘o tempo acabou’. Senescência e morte. A forma com a vida decorre num ser complexo como nós é semelhante. A fórmula como a pequena célula reage às oportunidades ou ameaças é semelhante. Se dela aproximarmos uma ponta de alfinete ela contrai-se. Tal como nós se alguém nos atacar. Este é o alicerce que vem mais tarde a dar uma reação emocional. E se a amiba, em vez de estar numa placa de Petri, estiver num lugar ideal para a sua vida, em matéria de nutrientes, temperatura, fica toda relaxada, como se estivesse na praia, ao sol, com uma bebida ao lado”.

 

São, portanto, as perturbações do corpo percecionadas pelo cérebro que originam os sentimentos de emoção ou de conhecimento.

 

 Há, contudo, um sentimento mais simples oriundo da representação do estado do corpo num determinado momento, harmónico e equilibrado, ligado ao prazer, ou desarmónico, ligado à dor.

 E este estado não necessita de ser provocado por uma interação entre o corpo e um objeto exterior. É um sentimento espontâneo daquilo que se está a passar no corpo, e que nos dá a todo o momento, a representação de que existimos.

 Este sistema começou a existir há muito tempo, muito antes de existir consciência, originando valores biológicos que estão constantemente a guiar o comportamento, mesmo que não haja sistema nervoso. Com o aparecimento do sistema nervoso, todos estes comportamentos se tornaram mais ricos e complexos. A consciência resulta deste longo processo.

 

Um princípio que chamamos de moralidade torna-se necessário à vida dentro de um grupo social. Embora para a natureza lhe seja indiferente (não é boa nem má), para que a evolução funcione (não esquecer que a evolução é um processo sem sentido, sem lei e sem pensamento) tem que haver alguns aspetos básicos de moralidade.

Por exemplo, o apego das mães aos filhos, foi criado pela evolução para que as crias e a progenitora, possam viver e continuar os genes. No nosso caso, ao acrescentarmos a esse princípio uma consciência autobiográfica e ao desenvolvermos a capacidade de reflexão sobre a nossa vida e a vida dos outros, com maior memória, maior raciocínio, imaginação e linguagem, obteremos a nossa moralidade.

 

 Através dela temos produzido uma série de ajustes culturais, que continuam a serem feitos, para que a sobrevida seja maior e com mais bem-estar. Não estamos apenas interessados em sobreviver, mas sobreviver com bem-estar, porque entre a dor e o prazer que nos dá o nosso sistema nervoso preferimos o prazer.

Os instrumentos que utilizamos para alcançar este bem-estar cultural são a arte, a religião, valores morais, sistemas de justiça, organização política e económica, ciência e tecnologia. A finalidade da cultura assim entendida é a de organizar a vida de modo melhor.

 

 

Chegados aqui, o espiritualismo que nos tem governado durante todos estes séculos, milénios, aparece-nos como sendo um sistema muito mais conseguido e racional que o materialismo.

 O materialismo aparece-nos muito mais como um conto, uma possibilidade, sem finalidade definida: aparece-nos como uma crença em que as coisas se encadeiam umas nas outras, muitas vezes sem demonstrações científicas.

 

É bom, contudo, não esquecer que a introdução da racionalidade no espiritualismo foi-se fazendo ao longo de muitos séculos de grandes lutas internas e que ainda hoje permanecem. Não foi por acaso que Santo Anselmo advertiu os conflitos latentes com aquela fórmula lapidar: "Crer para compreender”.

 

Seja como for, o que acontece mesmo é que, se por um lado teremos de ser pobres para herdar o Reino dos Céus, por outro lado teremos de ficar pobres para que com isso a evolução se possa fazer a bem dos que fazem a sociedade ‘progredir’. Problema idêntico ao do mexilhão.

 

 

 

 

 

 

 

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