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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(167) As figuras negras de Atenas

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

No estilo ático de “figuras negras”, as figuras aparecem-nos pintadas em silhueta negra sobre o fundo vermelho do barro.

 

As diferentes culturas apercebem e categorizam as cores de diferentes maneiras.

 

Nunca os gregos se pensaram como sendo “brancos” ou de outra cor.

 

Esta fixação e separação do mundo por linhas raciais é produto de várias forças históricas, particularmente do negócio transatlântico de escravos e das teorias raciais desenvolvidas no século XIX.

 

Só quem não é branco é que tem cor.

 

 

 

 

 

 

Todas as estátuas gregas que hoje vemos (incluindo as da Acrópole) são imaculadamente brancas, cor do mármore de que foram feitas. Só que, sabe-se agora, todas elas eram originalmente pintadas com cores que iam do roxo ao alaranjado, cores que reconhecemos como sendo nitidamente das regiões da Pérsia e do Médio Oriente, cores que ao longo do tempo foram desaparecendo.

Tal tem vindo a constituir um choque para os que tinham os gregos como os epítomes do homem branco, loiro e culto, modelos do belo que deveria prevalecer no Ocidente.

 

E que dizer então dos vasos gregos de cerâmica em que os principais heróis e personagens importantes da sociedade de então, apareciam pintados a negro?

 

Comecemos por explicar que os vasos gregos de cerâmica que hoje se encontram aos milhares nos principais museus existentes, e que são aí exibidos por se tratarem de coisas belas, foram, contudo, feitos com uma finalidade meramente utilitária.

Todos eles se destinavam a servir, eram a baixela da época”, como nos disse M.  Helena Rocha Pereira.

 

Recordemos as suas principais formas: a “amphora”, para ir buscar água; a “hydria”, para a servir; o “krater”, para fazer a mistura da água com o vinho, que era o que se servia nos banquetes

por se considerar o vinho muito forte para se consumir puro; a “oinochoe”, em que o vinho era servido; o “kylix”, a taça onde se o deitava; o “lekytos”, onde se guardava o azeite para ungir o corpo.

 

As pinturas desses vasos são extremamente importantes, pois é através delas que conseguimos hoje conhecer os mais variados aspetos da vida e da cultura grega. Da literatura (com a ilustração de poemas) ao teatro (coma figuração de peças perdidas, os seus cenários, máscaras, traje e calçado), passando pela religião (com a representação de mitos, cenas dionisíacas) e pela linguística (com inscrições onde se fica a conhecer a fala popular), até aos objetos de uso corrente, os móveis, tudo é possível de encontrar nesses vasos.

 

A partir do ano 600 a. C., vai desenvolver-se em Atenas o que ficou conhecido como o estilo ático de “figuras negras”: as figuras são pintadas em silhueta negra sobre o fundo vermelho do barro.

Dos pintores mais conhecidos que nos chegaram até nós, citemos Clítias (autor do Krater François, no Museu Arqueológico de Florença), Exéquias (a taça de “Dionísio no Barco”, em Munique, a ânfora com “Aquiles e Ajax a jogarem aos dados”, no Vaticano, a ânfora com “Aquiles a assassinar Pentesileia”, a rainha das Amazonas, no British Museum) e Sacónides, o pintor de Amásis. De referir ainda uma ânfora no Museu do Louvre, com o “nascimento de Atena”.

 

Esta figuras pintadas a negro, permitem-nos pôr algumas questões:

Será que os gregos eram muito escuros? Ou será que para eles a representação dos seus heróis com a cor negra não passava de um problema meramente estético a que não atribuíam qualquer conotação rácica? Será que as figuras a negro tinham apenas que ver com a técnica utilizada, que impossibilitava a utilização de outra cor? A ser assim, porque aparecem nesses vasos outras figuras pintadas a branco, invalidando a hipótese anterior? Teria a sociedade grega alguma posição relativamente à cor da pele?

 

Para tentar encontrar respostas para estas questões, começamos por recorrer ao auxílio de especialistas em literatura da Grécia Antiga, uma vez que é importante tentar saber-se como é que os seus escritores refletiam a sociedade da época.

Como é que Homero descrevia Aquiles e outros heróis na Ilíada (poema sobre Ílion, ou Troia) e na Odisseia (poema sobre Odisseu)?

 Segundo Homero, Aquiles era descrito como tendo o cabelo xantos, que vulgarmente tem sido traduzido por ‘loiro’.

Mas, Maria Michel Sassi, professora de filosofia antiga na Universidade de Pisa, vem dizer-nos que o vocabulário grego das cores não tem correspondência automática com as cores da sociedade atual. Por exemplo, ‘xantos’, podia significar desde o ‘loiro’ dos cabelos dos deuses, até ao ‘âmbar’, passando por ‘castanho’, ‘bronzeado’, ‘queimado’ e ‘cor de fogo’. Além do mais, o ‘amarelo’ não fazia parte do léxico grego da época.

 

 Aos olhos modernos, o vocabulário grego para as cores, é estranho. É assim que ‘Khloros’, (relacionado com Khloe, relva), podia sugerir a cor ‘verde’ da vegetação, mas também podia significar o ‘amarelo vivo’ da areia na praia, “cor de mel”, e até mesmo a sensação de ‘fresco’.

Na Odisseia, a deusa Atena vai magicamente melhorar a aparência de Odisseu, restituindo-lhe de novo a “pele negra, e cabelos azuis”. A maior parte dos tradutores substituíram cabelos azuis por cabelos de “cor escura”. O que quereria Homero dizer ao utilizar tal paleta de cores? Não se sabe.

 

Por outro lado, o ‘negro’ (melas) e o ‘branco’ (leukos) eram aplicados como definição de géneros: as mulheres eram representadas a branco, o que nunca acontecia aos homens. As mulheres, por convenção (passavam mais tempo dentro de casa?), tinham sempre uma pele mais clara que os homens (mais bronzeados, por passarem mais tempo fora de casa). Dizer que um homem era ‘branco’, era o mesmo que chamar-lhe ‘efeminado’.

 

Daí que, concluir-se que Aquiles ou Odisseu eram negros ou brancos, é interpretar incorretamente Homero. As cores por ele atribuídas não tinham que ver com a categorização das pessoas em termos raciais, mas sim com a categorização deles como indivíduos, através de associações poéticas que os pretendia revelar nas suas personalidades e comportamentos.

 

 

 As diferentes culturas apercebem e categorizam as cores de diferentes maneiras. Apesar de todos termos fisicamente os mesmos olhos, pelo que deveria haver uma correspondência científica proveniente da frequência das cores, o facto é que há uma cultura cromática específica dos gregos, como há uma egípcia, uma indiana, e uma europeia, cada uma delas refletindo-se num vocabulário que tem as suas peculiaridades.

 Um exemplo comezinho cá da pós-Lusitânia, foi o que se passou com o Benfica, inicialmente identificado com a cor vermelha e que progressivamente durante o consulado de Salazar foi passando a encarnada. Hoje, até já são rosas, e o verde do Sporting já é visto como podendo ser amarelo.

 

Pelo acima exposto, não se pode saber até que ponto os gregos da antiguidade eram mais ou menos escuros.

 

Exploremos a via da pesquisa genética. Num estudo publicado na revista Nature, “Genetic origins of the Minoans and Mycenaeans”, (https://www.nature.com/articles/nature23310), procedeu-se à análise do DNA de indivíduos da Grécia continental e de Creta que tinham vivido no período entre c2900 e c1200 a.C.

As conclusões começam por apontar para a continuidade genética entre os gregos do período minoico e os gregos atuais, quer em genótipo quer em fenótipo.

 Quanto à origem, “três-quartos da ascendência dos gregos do período minoico era proveniente dos primeiros agricultores Neolíticos da Anatólia ocidental e do Egeu, sendo a restante proveniente de antigas populações do Cáucaso e do Irão”. 

O estudo chama ainda a atenção para o facto de os gregos não poderem ser vistos como uma população isolada, dadas as fronteiras porosas da Grécia Antiga. Recordar as muitas colónias que os gregos fundaram no Mediterrâneo, incluindo no norte de África e no delta do Nilo. Possivelmente por isso, os gregos da Idade do Bronze, teriam pele, olhos e cabelo mais escuros que os atuais. Eram também mais baixos (os esqueletos dos gregos da antiguidade mediam em média 163 cm, para os homens, e 153 cm, para as mulheres).

 

Produtos de intensa miscigenação, os gregos não são, pois, aquele modelo tão propalado por falsas culturas europeias e norte-americanas dominantes, como descendentes dessa raça pura loira e de imaculada brancura.

 

Aliás, os modernos geneticistas não veem qualquer interesse na distinção pela cor da pele. Para eles, a “raça” é uma categoria biologicamente sem significado.

Há muito pouca diferença em termos genéticos entre as populações humanas dos diferentes continentes, não sendo a cor da pele critério de diferenciação genético. A distinção entre os africanos “pretos” e os europeus “brancos” não é só não-grega, mas também não-biológica.

 

Muito embora os gregos se apercebecem das diferentes tonalidades de pigmentação, quer relativamente aos povos mais escuros de África e da Índia, também se apercebiam da sua própria diferença relativamente aos povos mais pálidos do norte, (como bem relata Hipócrates http://classics.mit.edu/Hippocrates/airwatpl.mb.txt), nunca os gregos se pensaram como sendo “brancos” ou de outra cor.

 

Esta fixação e separação do mundo por linhas raciais é produto de várias forças históricas, particularmente do negócio transatlântico de escravos e das teorias raciais desenvolvidas no século XIX.

O racismo é emocional, não é racional. A “raça” é algo que não existe como facto biológico; é uma consequência de um processo de “racialização”.

Na “racialização” nós vemos coisas que não existem, e deixamos de reconhecer coisas que existem. Pelo facto de existirem e terem o poder, os brancos imaginam que eles é que são a norma, e que só os outros é que têm raça. Daí que nos censos iniciais nos EUA as pessoas fossem instruídas para não preencherem o espaço referente à raça se fossem brancas, devendo só fazê-lo no caso de serem outra coisa (‘B’ para Black, ‘M’ para Mulato, etc.).

 

Dir-me-ão que isso são coisas dum passado que já nada tem que ver com a atualidade. Vejamos o que numa entrevista ao Diário de Notícias de 05 de junho de 2018, diz Mae Jemison, americana, engenheira química e médica, sobre a sua ida para o espaço a bordo do vaivém Endeavour:

 

“Porque eu fui a primeira mulher de cor em todo o mundo a ir ao espaço.”

(https://www.dn.pt/mundo/interior/o-que-digo-sempre-aos-jovens-e-que-tem-talento-como-vao-utiliza-lo-9409183.html).

 

Ou seja, só quem não é branco é que tem cor. Como instruía o Censo.

 

 

 

 

 

 

Com tempo, ler:

 

Paul Schor, Counting Americans.

Gregory Smithsimon, Cause …And How it Doesn’t Always Equal Effect.

Donna Zuckerberg, Not All Dead White Men, Classics and Misogyny in the Digital Age.

 

 

 

 

 

 

 

 

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