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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(165) Os produtos que nasceram para morrer (Uma Teologia do consumo).

Tempo estimado de leitura: 8 minutos.

 

 

Os produtos fabricados em série nasceram para morrer.

 

Todo o produto que seja propriedade passível de ser conservada nas mãos do comprador, é um roubo ao produtor, pois impede-o de continuar a produzir.

 

O que a televisão e a rádio produzem, é a imagem de um mundo no qual a humanidade atual acredita viver. O mundo do entretenimento.

 

Quem só escuta, mas não fala, acostuma-se a ser passivo, primeiro passo para a servidão e para a perca da liberdade.

 

“Antes, havia ‘imagens no mundo’; hoje, o que há é o ‘mundo em imagem’ ou, mais exatamente, o ‘mundo como imagem’ […] que tolda a visibilidade e encobre o mundo”, Günther Anders.

 

 

 

 

 

Todos sabemos que os produtos em série fabricados atualmente, são caducos e passageiros. Não no mesmo contexto dos produtos de gerações anteriores, que devido ao seu uso deixavam de funcionar, mas, porque agora eles são fabricados com uma característica quase teológica: estão destinados a morrer, trazendo inclusivamente uma data de caducidade, que se quer que seja o mais cedo possível (1).

Ou seja, os produtos em série nasceram para morrer.

 

Outra característica é a de serem fabricados para serem vendidos como mercadorias, e como tal, para se converterem em ‘propriedade’ de alguém. Só que, ao passarem a serem vendidos como mercadorias, convertem-se também em ‘produtos de consumo’.

 

Para que um bem possa ser ‘propriedade’, tem de possuir a característica de poder manter-se idêntico a si próprio durante um certo tempo, ter uma certa duração. Isto porque ser proprietário de um produto implica a possibilidade de o poder devolver transcorrido um certo tempo. Não se pode ser proprietário de bens que não possuam esta característica.

Só que os produtos de consumo, não oferecem essa possibilidade. Quando compramos um bolo, um iogurte, após os consumir ficamos sem nada. Se quisermos outro, teremos de voltar de novo a comprar.

 

E é este ter de voltar a comprar que garante a sobrevivência da indústria de consumo. É este não ter tempo para sermos proprietários dos produtos que lhes garante a sobrevivência.

Daí, que se algum fabricante pusesse à venda um produto que pudéssemos utilizar diariamente sem que se consumisse, a fábrica teria de fechar. A nossa propriedade seria a ruína do fabricante.

 

No limite, não seria de espantar vermos os fabricantes-unidos a manifestarem-se utilizando como palavra de ordem a velha máxima socialista, clamando que” A propriedade é um roubo”, na medida em que todo o produto que seja propriedade passível de ser conservada nas mãos do comprador, é um roubo ao produtor, pois impede-o de continuar a produzir.

 

 

Os produtos de consumo “estão aí para não estar aí”. São feitos para serem consumidos o mais rapidamente possível. São efémeros.

Os exemplos mais conseguidos de produtos de consumo são as bombas e similares, que após o seu primeiro uso têm de ser repostas. Uma bomba atómica, uma bomba napalm, após serem lançadas não podem ser utilizadas segunda vez.

 

Já o carro, o fogão, o frigorífico, o aparelho de rádio e de televisão, são produtos de consumo que previvem, têm longa duração, podendo, portanto, ser propriedade, sendo, por isso mesmo, roubos.

O mesmo se passava com o vestuário, só que através da instituição da moda, a indústria conseguiu fazer com que os seus produtos necessitassem de serem constantemente substituídos (2).

 

Bastante mais interessantes são os casos das emissões de rádio e televisão, pois vão muito para além do modelo da indústria de consumo. Aqui, o objeto a apropriar, o que tem consistência, é o momento em que é apresentado.

De certa forma, pode-se dizer que as emissões de rádio e televisão são “propriedade nossa”, uma vez que pagamos pela sua receção e entregam-nas em casa como mercadorias. 

Acontece que, como não têm corpo, não são “objeto”, ninguém as classifica assim. Nenhum de nós, enquanto vê televisão, pensa que é dono da emissão. A nossa única possibilidade é a de consumir o emitido durante a emissão.

 

Como só podemos consumir durante o momento da emissão, então a nossa liberdade de apropriação fica limitada. O que contradiz o conceito de podermos ser proprietários.

Ou seja, não possuímos as mercadorias que nos fornecem, uma vez que as consumimos antes de as podermos possuir.

 

O que nos pertence como propriedade são apenas os aparelhos de rádio e televisão que nos transmitem as mercadorias, e não as mercadorias transmitidas. Somos proprietários condenados a consumir as mercadorias que nos querem transmitir.

Daí que, ao chegarmos a casa, vindos do trabalho, comecemos logo por ligar a televisão e rádio, mesmo sem saber o que vai ser transmitido. O importante é que apareça algo, seja o que for, desde que ótico ou acústico, que nos embale e nos dê aquela sensação de tranquilidade e segurança de que está tudo na mesma. A ânsia de possuir e o orgulho de ter, são suficientes para nos satisfazer com a posse do aparelho.

 

Este modelo de comportamento é extremamente importante como tendência para se compreender o conceito atual do mundo e do objeto.

 O que a televisão e a rádio produzem, é um outro mundo: a imagem de um mundo no qual a humanidade atual acredita viver. O mundo do entretenimento em que já se não reconhece o mundo exterior como tal, a não ser que ele corresponda ao que a televisão fornece.

 Daí que nos tempos politicamente críticos, nos apressemos a chegar a casa para sabermos, através da televisão e rádio, o que está a acontecer lá “fora”. O “Matrix” possível.

 

A maneira como falamos, rimos, andamos, amamos, pensamos ou não pensamos, o “toma lá cinco”, etc., de tudo isso só uma pequena parte foi aprendido em casa dos pais, nas escolas e igrejas; a maior parte foi aprendido através da rádio, das revistas, dos filmes e da televisão. Ou seja, através do entretenimento.

É através desta indústria monopolista do entretenimento dominada pelos grandes grupos, que nos inculcam tudo o que desejam que assimilemos. O entretenimento tornou-se na “arte tendenciosa do poder”.

 

Devido à publicidade que é comunicada como entretenimento, não é de espantar verem-se em barracas imundas e que deveriam ser impróprias para viver, televisores de último modelo instalados.

Ouvirem-se os mais indigentes a cantarolarem canções popularuchas (e até jingles) com que a publicidade lhes inunda mil vezes os ouvidos, o que os leva a dirigirem-se às lojas para as comprarem, para assim as poderem considerar como sendo “sua” propriedade.

Nem sequer nos damos conta do facto notável que este comportamento encerra: a de estarmos a desempenhar, mesmo no nosso tempo livre, a função para que fomos industriados, a de comprarmos o produto e, ainda por cima, fazendo-o de “livre vontade” (ilusão da liberdade). E, mesmo sabendo tudo isto, continuamos a fazê-lo com gosto. Infelizmente o gosto não nos protege contra a escravidão.

 

 Este problema da posse, da propriedade como “nossa”, tem de ser visto na sua maior extensão: é que o pronome possessivo “nosso” indica, não só a nossa posse, mas também o facto de sermos possuídos.

 Exemplo clássico é o dos judeus dos campos de concentração nazis, que se lhes referiam como “o nosso campo de concentração”, não querendo com isso dizer que o campo era deles, mas o contrário, que pertenciam a esse campo.

Também acreditamos quando o vendedor nos diz que “o seu desejo é para nós uma ordem”, quando na realidade o que o vendedor está a pensar exatamente o contrário: que temos de transformar a sua ordem, ou a da empresa, num “nosso desejo”.

A minha sede de Coca-Cola ou de Heineken, não é “minha”, mas sim algo produzido em mim pelo produtor da Coca-Cola e da Heineken. Ao bebê-la, por “gosto” próprio, estou a fazer um trabalho de que fui encarregado pela empresa.

 

Expressar livremente uma opinião, implica ter uma opinião. Sabe-se hoje que a “minha opinião” não é a “minha opinião”, e que a “nossa opinião” não é a “nossa opinião”. Os produtores das nossas opiniões já o declaram sem qualquer receio: eles são os verdadeiros produtores das nossas opiniões.

E fazem-no porque sabem que o mundo artificial que produzem através dos seus aparatos, nos torna cegos e incapazes (até por preguiça) de estabelecer outra cosmovisão para além daquela que nos apresentam. A vida é mais cómoda. A ilusão da liberdade.

 

Estamos conformados por um processo cuja ação nos aparece impercetível, e em que caímos sem nos darmos conta. Tal como acontece com a gravidade, que apesar de não a sentirmos como coerção quando caminhamos, por já estar internamente calculada de antemão pela própria estrutura do corpo e que, contudo, se desaparecesse, não conseguiríamos andar em pé.

 

Aquilo que para nós se apresenta como uma realidade que sempre existiu, a “imagem” (toda a representação do mundo e de fragmentos do mundo, sejam fotos, cartazes, imagens televisivas, filmes, etc.), e que era uma exceção em épocas anteriores, é hoje uma presença constante, envolvente que nos cerca, e que se não existisse julgaríamos estar a viver num mundo vazio.

 

Esta elevação da imagem a categoria principal da nossa vida, vai fazer com que o mundo (que só se pode apreender viajando, experimentando e pensando sobre ele) nos apareça a partir de imagens soltas, como versão preparada, como aparência, pronta a ser-nos dada em casa como objeto de consumo, como espetáculo.

Curiosamente, ao ser apresentada como espetáculo, vai também alterar o próprio espetáculo: quando as personagens (artistas, políticos, etc.) vão à televisão, são previamente maquilhadas para que apareçam mais “reais” e de acordo com o gosto do público.

Ou seja, trata-se já de uma apresentação para além da apresentação, de uma “representação” da própria representação do que se pretende ser a realidade. A realidade converte-se em imagem das suas imagens. Puro ilusionismo.

 

Pelo fornecimento contínuo das imagens, somos transformados em consumidores sem pausa, à velocidade e ritmo que unilateralmente nos fornecem. Acostumamo-nos a ver as imagens, mas a não sermos vistos por elas; acostumamo-nos a ouvir as pessoas, mas a não sermos ouvidos por elas. Quem só escuta, mas não fala, acostuma-se a ser passivo, primeiro passo para a servidão e para a perca da liberdade.

 

Os produtos de grande consumo que nos fornecem vêm também já acompanhados de “opiniões” ou “juízos”. E, como estamos habituados a contentarmo-nos com mercadorias prontas para consumir, também consumimos as opiniões e juízos que as acompanham: convertemo-nos em meros “consumidores de opinião”.

As imagens provenientes de todo o mundo que hoje nos transmitem sem cessar, têm como objetivo sufocar toda a possível compreensão do mundo pela sua abundância sem sentido. Pior: não só temos de as consumir e deixar influenciar por elas, como temos de o fazer por forma a ficarmos com fome e querer mais.

 

Acreditar que problemas decisivos tenham de ter em conta os pontos de vista (opiniões) das populações, é ingenuidade (fé) por demais disseminada e aceite. E, no entanto, isso é propalado e propagandeado (com a ajuda dos mass-media que têm à sua disposição) pelos mesmos poderes e instâncias que produzem e transmitem (ditam) o que devem ser as “nossas” decisões: é que o seu princípio operativo consiste em vender à população as decisões já decididas e que apenas são do seu (deles) interesse.

Da mesma forma que qualquer empresa vende as suas mercadorias aos clientes, no pressuposto que o produto corresponderia sempre à satisfação de algo desejado, como se as ordens de compra fossem feitas a partir de uma procura.

 

Qualquer “opinião própria” só poderá ser expressa se estiver inserida dentro dos parâmetros permitidos da “opinião (oficial) transmitida”. Podem aparecer variantes, que estarão sempre previstas no plano inicial, dependendo o seu grau de afastamento do maior ou menor domínio do controle que os poderes e instâncias têm sobre o consumo, ou da política seguida.

Por exemplo: que na cultura possa existir uma grande variabilidade, não é prova da existência de liberdade de expressão de opinião, pois as ditaduras suaves sabem deixar espaços de escape para os não-conformistas, decidindo quais serão esses espaços. Daí que na poesia seja permitido dizer mais coisas que nos artigos de fundo, até porque o número de leitores de poesia não é importante.

 

 

O realizador de cinema Ridley Scott tem feito filmes (3) que se apresentam como meticulosos sobre o ponto de vista histórico, e que nos deixam uma opinião sobre como era a época em que se vivia.

Contudo, mesmo embora sabendo que a realidade era outra, insistia na sua realidade alternativa, como, por exemplo, se pode constatar no Gladiador:

 O imperador Marco Aurélio, nunca pretendeu restaurar a República romana, nem foi assassinado. Cómodo, foi estrangulado no banho, por um lutador. Lucília, não usava vestidos de desenho contemporâneo. Nunca ninguém no Império romano tinha visto um tigre. Máximo Décimo Merídio (Russell Crowe) nunca existiu, e o nome escolhido seria impossível, pois Máximo era um apelido, Décimo um numeral que deveria ser posto à frente, e Merídio era um nome e não um apelido. De notar também que a maioria dos gladiadores não eram escravos, e que grande parte dos combates não eram de morte.

 

No Braveheart de Mel Gibson, William Wallace não era um simples aldeão, mas um proprietário de terras, nunca vestiu uma saia escocesa (o kilt só apareceu três séculos depois), não foi apelidado de Braveheart (esse era o cognome de Roberto I da Escócia), e não engravidou Isabel de França, porquanto o filho dela, Eduardo III, só nasceu sete anos depois de Wallace ter morrido.

 

Exemplos como estes são infindáveis: “liberdades artísticas”.

 

“Antes,” havia ‘imagens no mundo’; hoje, o que há é o ‘mundo em imagem’ ou, mais exatamente, o ‘mundo como imagem’ […] que tolda a visibilidade e encobre o mundo”, Günther Anders.

 

 

 

 

 

  (1)Consultar o meu blog de 13 setembro de 2017, “Todos nós comemos palha”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/128-todos-nos-comemos-palha-34346).

 

(2) Consultar  o meu blog de 7 de outubro de 2015, “Vida da moda, moda da vida”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/vida-da-moda-moda-da-vida-7376).

 

(3) Consultar o meu blog de 4 de maio de 2016, “O cinema que temos”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/o-cinema-que-temos-15404).

 

 

 

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