Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(163) A Cultura como sujeição política

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

 

O Iluminismo nasce a partir de um grande movimento que pretende combater todas as formas de autoritarismo, político, religioso, moral, etc., num combate contra a credulidade e os seus efeitos de dominação.

 

Saber, não é já aceder às verdades eternas de Deus, mas antes melhorar a nossa própria compreensão e relação com o mundo que nos rodeia.

 

 Aos poucos, “melhorar” vai significar prosperar, e o progresso do género humano vai identificar-se com o aumento da riqueza.

 

Somos ilustrados e analfabetos ao mesmo tempo.

 

 

 

 

 

 

É hoje claro que o chamado “tempo moderno”, a “modernização”, foi um projeto histórico concreto das classes dominantes europeias, vinculado ao desenvolvimento do capitalismo industrial através da colonização.

 E que esse seu processo civilizacional conduziu à partição (dualização) da realidade ente o antigo e o novo, o passado e o futuro, a raça branca e as outras, a tecnologia e os saberes menores, a tradição e a inovação, a razão e a superstição, nós e eles, o mundo natural e o humano, a natureza e a cultura.

 

Onde ela chegou, dividiu. Pelo que não é de estranhar que tenha deixado uma espécie de consenso anti moderno, uma certa ira e ressentimento, que muitas vezes se manifesta como um anti Iluminismo.

Ouçamos Pankaj Mishra:

 

Os ambiciosos filósofos do Iluminismo deram à luz a ideia de uma sociedade perfectível, um Céu na terra mais que no mais além. Esta ideia foi adotada com entusiasmo pelos revolucionários franceses – Saint-Just, um dos mais fanáticos, comentou memoravelmente que “a ideia de felicidade é nova na Europa” - antes de se converter na nova religião política do século XIX. Introduzida até ao coração do mundo pós-colonial no século XX, converteu-se em fé na modernização imposta desde cima.

 

É a acusação contra o Iluminismo, ainda hoje muito utilizada, de ter querido substituir a religião pela ciência, fazendo dela uma nova religião.

É a confusão premeditada entre o impulso emancipador que guia o desejo de uma vida feliz e digna na terra, que foi o Iluminismo, e o projeto de domínio sobre todos os povos e recursos naturais da terra. Como se tudo fosse o mesmo.

 

O Iluminismo nasce a partir de um grande movimento que pretende combater todas as formas de autoritarismo, político, religioso, moral, etc., nomeadamente contra a credulidade e os seus efeitos de dominação.

O ataque contra a credulidade não é um ataque a qualquer crença. As ‘crenças’ são necessárias, quer para a vida como para o conhecimento. Já a ‘credulidade’, é a base de toda a dominação porque implica uma delegação da inteligência e da convicção.

Como afirmavam os enciclopedistas: “a credulidade é a forma dos ignorantes; a incredulidade decidida, a dos meio-sábios; a dúvida metódica, a dos sábios.

 

O que o Iluminismo exige é poder exercer a liberdade de submeter a exame qualquer saber e qualquer crença, venha de onde vier e de quem vier, sem pressupostos e sem argumentos de autoridade. Não se trata, portanto, de um ataque à religião.

 

Tornava-se necessário submeter a exame as verdades que produzíamos, da ciência, da lei, dos valores morais, e outras. Kant, vai ainda mais longe: a própria razão deveria ser submetida à sua crítica, suspeitar de si mesma e interrogar-se sempre a propósito dos seus próprios desejos e limites.

Os Iluministas, exatamente por saberem que a alma humana não pode aspirar a uma visão privilegiada, nem a uma inteligibilidade superior, nem a uma verdade eterna, aceitam a parcialidade e a precariedade das nossas verdades, mas também a perfetibilidade do que somos e do que fazemos de nós próprios.

 

Para eles, saber, não é já aceder às verdades eternas de Deus, mas antes melhorar a nossa própria compreensão e relação com o mundo que nos rodeia. O seu compromisso não é para com o progresso, mas sim para com a melhora do género humano contra tudo aquilo que o oprime e degrada.

 

Acontece que a partir do século XVIII, a experiência da prosperidade material, sobretudo na Inglaterra industrial e colonial, vem alterar profundamente o sentido desta exigência moral, política e científica de nos tornarmos melhores através do conhecimento.

Aos poucos, “melhorar” vai significar prosperar, e o progresso do género humano vai identificar-se com o aumento da riqueza. Começara a neutralização da radicalidade da aposta crítica do Iluminismo.

 

A dissolução do poder teocrático e da sociedade da linhagem e vassalagem, e a enorme necessidade de em pouco tempo se conseguirem “quadros” para desempenharem funções públicas e privadas que as imensas novas terras descobertas exigiam, levou à formação da escola pública, na qual o sistema da cultura aparecia como encarregue de forjar cidadãos livremente obedientes. Ou seja, com autonomia como sujeito e obediência como cidadão.

 

Vamos assistir à invenção do “contrato social e contrato laboral” por “livre adesão”, como forma de vínculo no estado moderno. Como consegui-lo? Que argumentos utilizar?

Coube à cultura moderna apresentar a resposta: com as ideias de identidade nacional e de prosperidade económica.

É a cultura que vai emancipar o trabalhador da arbitrariedade, despertando-o para o ponto de vista da universalidade, e do imediato da obrigação para a mediação: libertar o cidadão dos particularismos para assim o integrar como sujeito no Estado.

O que aconteceu foi que a autonomia se transformou em auto obediência. O que fez da cultura um sistema de sujeição política.

 

Nada que os Iluministas não previssem: longe de acreditarem que a ciência e a educação redimiriam por si sós o género humano do obscurantismo e da opressão, já então chamavam a atenção para a necessidade de se examinar quais saberes e que educação é que contribuiriam para a emancipação.

 

Rousseau, no seu Discurso das artes e das ciências, Diderot, em O sobrinho de Rameau, a própria Encyclopédie na sua entrada “Crítica”, e outros, avisavam sobre a velocidade, a arbitrariedade, a inutilidade e a impossibilidade de se compreender o que se estava produzindo.

Temiam que a saturação das bibliotecas, e a acumulação de conhecimento inútil, conduzissem à impossibilidade de um relacionamento adequado com o saber, acabando por neutralizarem o próprio saber.

 

Ou seja: não basta ter acesso ao conhecimento disponível, porque o importante é podermo-nos relacionar com ele por forma a contribuirmos para transformarmo-nos a nós próprios, e ao nosso mundo, para melhor.

Senão, o que nos acontece é exatamente o que nos está a suceder atualmente, o de em conjunto sabermos muito, mas podermos pouco. “Somos ilustrados e analfabetos ao mesmo tempo”.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2022
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2021
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2020
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2019
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2018
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2017
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2016
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2015
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub