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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(162) Billie Holiday e os Rosenberg

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

“As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto, / Sangue nas folhas e sangue na raiz, / Um corpo negro balançando na brisa sulista/ Um estranho fruto pendurado nos álamos”, Abel Meeropol.

 

Mas ele não conseguia matá-los. Era algo que ele não conseguia fazer”, RobertMeeropol.

 

Era o temor de uma subversão comunista generalizada, agitada na opinião pública.

 

Todos nós conhecemos Billie Holiday.

 

 

 

 

A 19 de junho de 1953 foram executados (cadeira elétrica) na prisão de Sing Sing, Ossining, Nova York, o casal Rosenberg, Julius Rosenberg (1918-1953) e Ethel Greenglass Rosenberg (1915-1953), acusados de espionagem por transmitirem informações sobre a bomba atómica, motores de reação, radar, sonar e outros armamentos, à União Soviética.

Acontecimento raro próprio de tempos sociais radicalizados, como vemos pelo facto de terem sido os primeiros civis americanos a serem punidos com a pena de morte por espionagem, os primeiros americanos a serem executados em tempo de paz devido a essa mesma acusação, e o primeiro casal, marido e mulher, a serem condenados a morrerem na cadeira elétrica. Acrescente-se que Ethel, foi a segunda mulher a ser executada pelo governo americano, desde que em1865 Mary Surratt fora enforcada pela alegada participação no assassinato de Abraham Lincoln.

 

Viviam-se os tempos extremados do Macartismo (do senador McCarthy, que afirmava ter uma lista dos “membros do Partido Comunista e dos membros de uma rede de espionagem” que faziam parte do governo federal americano) e do seu Terror Vermelho (Red Scare), período que se estendeu de 1950 a 1956, no qual todos os que fossem meramente suspeitos de simpatias que ele considerava como comunistas, eram objeto de investigações agressivas e de invasão de privacidade, sendo acusados de espionagem a soldo da URSS. Era o temor de uma subversão comunista generalizada, agitada na opinião pública.

 

Tão extremados eram os tempos que, e independentemente dos Rosenbergs serem ou não culpados, de serem ou não bodes expiatórios, de o julgamento ter sido ou não conivente com o clima de perseguição aos comunistas tão ao agrado de McCarthy, o juiz decidiu-se por uma condenação à morte de um casal com dois filhos menores (Robert, 4 anos, e Michael, 8 anos), e como tal, decidindo também da orfandade dos mesmos.

 Ethel, a mãe, bem pediu clemência em nome dos filhos (muitas foram as personalidades que a acompanharam, inclusivamente o Papa Pio XII), mas o Presidente D. Eisenhower mostrou-se renitente, recusando em 1953 todos os pedidos (já anteriormente, em 1952, o Presidente Truman também os recusara, o que não era de admirar em quem ordenara o lançamento de bombas atómicas sobre duas cidades). A resolução de Eisenhower, o primeiro a avisar contra o crescimento desmesurado do complexo político-militar, diz bem do clima de quase histeria coletiva que então se vivia.

 

Após a execução, as crianças tiveram problemas de toda a espécie: desde os tios que não quiseram ficar com eles, à escola pública local que os expulsou por os pais dos alunos não quererem que os seus filhos se relacionassem com filhos de traidores executados, até aos pedidos de políticos republicanos para que o tribunal os entregasse a um orfanato (onde acabaram por estar apenas poucos dias) numa altura em que já estava a correr um processo de adoção por um casal.

 

Finalmente em 1954, foram viver com os pais adotivos, Abel e Ann Meeropol, daí que os seus nomes passassem a ser desde então, Robert e Michael Meeropol.

 Quem era este casal que os resolveu adotar, naquele clima de paranoia e perseguição em que até familiares e amigos se sentiam aterrorizados só de imaginarem que poderiam  ficar a tomarem conta dos filhos dos Rosenberg?

 

Abel Meeropol (1903-1986), filho de emigrantes judeus russos, era um professor do liceu Dewitt Clinton, no Bronx, NY, escritor, poeta, compositor, e ativista social, que vivia do seu vencimento e das canções que publicava.

Em 1936, após ter visto uma fotografia do linchamento e enforcamento de dois africanos, pendentes de uma árvore, que tivera lugar em Indiana a 7 de agosto de 1930, escreveu um poema que publicou no New York Teacher. Intitulou-o de “Strange Fruit” (Estranho Fruto):

 

 

As árvores do Sul estão carregadas com um estranho fruto,

Sangue nas folhas e sangue na raiz,

Um corpo negro balançando na brisa sulista

Um estranho fruto pendurado nos álamos.

 

Uma cena pastoral no galante Sul,

Os olhos esbugalhados e a boca torcida,

Perfume de magnólia doce e fresca,

Então o repentino cheiro de carne queimada!

 

Aqui está o fruto para os corvos arrancarem,

Para a chuva recolher, para o vento sugar,

Para o sol apodrecer, para as árvores fazerem cair,

Aqui está uma estranha e amarga colheita.”

 

 

Algum tempo depois resolveu musicá-la, apresentando-a num clube noturno de Nova Iorque, cujo dono acabou por a indicar a Billie Holiday. Apesar do medo de retaliações, Billie Holiday resolveu cantá-la pela primeira vez em 1939. Quando a quis gravar em disco, a sua gravadora, Columbia Records, recusou-se a fazê-lo, temendo as repercussões. Finalmente acabou por permitir a gravação, desde que a canção figurasse fora do contrato.

A canção acabou por ser o maior sucesso de vendas de Billie Holiday, que a passou a cantar no final de todos os seus concertos. Em 1978 entrou para a lista do Hall da Fama dos Grammy, e em 2002 passou a estar incluída na lista das canções do século da Recording Industry of America e da National Endowment for the Arts.

 

 

Graças ao casal Meeropol, Robert e Michael, agora Meeropol, acabaram por ter uma vida normal, agradável, interessante, vindo ambos a serem professores de liceu, envolvidos em assuntos sociais.

Abel Meeropol, o pai, continuou a lecionar e a escrever músicas, algumas igualmente famosas, como a “House I live in”, grande êxito de Frank Sinatra.

No entretanto, passou por alguns tempos difíceis, questionado várias vezes sobre as suas atividades, chegando a ter um período em que ninguém o contratava nem lhe comprava as suas canções.

 

 Robert conta uma história sobre um cedro japonês que tinham no quintal da casa onde viviam. Todos os anos o cedro dava uma série de rebentos, e quando os pretendeu cortar, o pai disse-lhe, “Não faças isso, não podes matar os rebentos!”. “Mas há dúzias deles. O que vais fazer com eles?”

Então o pai apanhou-os e colocou-os em latas de café, alinhando-as ao longo da casa. Havia já centenas delas. “Mas ele não conseguia matá-los. Era algo que ele não conseguia fazer”.

 

Abel Meeropol morreu desapercebidamente em 1986.

 

Todos nós conhecemos Billie Holiday.

 

 

 

 

Informação complementar:

 

#Sobre o macartismo, uma sucinta explicação e um filme,

“O que é o macartismo e como ele aconteceu”, Ellen Schrecker, (https://www.youtube.com/watch?v=N35IugBYH04).

 

Excertos de um programa radiofónico de Edward Murrow, no filme Good Night and, Good Luck, realizado por George Clooney em 2005 (https://www.youtube.com/watch?v=1cfwsfGqgPM).

 

#Sobre os filhos dos Rosenberg, uma entrevista (http://www.angelfire.com/zine2/robertmeeropol/).

 

 

# Sobre a canção “Strange Fruit”

A história por detrás da canção “Strange Fruit” (https://www.youtube.com/watch?v=EcnTzwA0s2c).

 

Evolução da canção “Strange Fruit”, de B. Holiday a Nina Simone: (https://www.npr.org/2009/06/22/105699329/evolution-of-a-song-strange-fruit).

 

# Sobre cançonetistas, ver o meu blog, de 5 de julho de 2017, “As Josefinas cantoras”, (https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/118-as-josefinas-cantoras-31842).

 

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