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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(160) A história que a sociedade se conta a si própria

Tempo estimado de leitura: 4 minutos.

 

Todas as épocas e todas as sociedades têm as suas formas de ignorância.

 

Oferecem-nos conhecimentos, produtos tecnológicos e culturais segundo a idade, a renda, a origem, etc.

 

Todas as opiniões, exatamente por não passarem de opiniões, valem o mesmo.

 

A segmentação e a padronização são dois processos interligados e que têm como finalidade a gestão ordenada e previsível da incomunicação entre saberes e da sua inutilidade recíproca”, Marina Garcés.

 

 

 

 

Todas as épocas e todas as sociedades têm as suas formas de ignorância. E quem diz ignorância, diz credulidade. No nosso caso, é a ignorância transformada em crença de uma multitude de conhecimentos que, não podendo serem acompanhados nem elaborados por nós próprios, veem a sua execução ser delegada noutro, normalmente numa máquina ou num especialista.

A esta forma de atividade delegada que oculta a nossa própria passividade, chamou Robert Pfaller de “interpassividade” ou “subjetividade interpassiva”.

 

Temos assim, que muitas das informações feitas pela máquina estabelecem connosco uma relação sem relação, pois dela não retiramos qualquer experiência ou compreensão.

É, por exemplo, o caso das muitas fotocópias que, tendo-as feito, nunca iremos ler, ou das músicas ou filmes que, tendo-os gravado ou descarregado, nunca iremos ouvir ou ver.

 

Temos também, o aparecimento dos especialistas que tudo sabem apenas sobre uma disciplina, ignorando quase todas as outras noções do que se passa à volta, como resultado do desenvolvimento das ciências e das técnicas que se fizeram acompanhar desse novo tipo de ignorância que a todos afeta.

 

Até meados do século XX, esta tendência era como que amortecida pelos cultores da cultura geral, que tentavam explicar e servir de caixa de ressonância às variadas experiências oferecidas pelas especialidades científicas, artísticas e humanísticas.

 Só que hoje isto já se não verifica. A verdadeira especialização, cada vez mais complexa, fica apenas nas mãos de muito poucos, e o que se oferece é antes uma segmentação de saberes e de públicos. Oferecem-nos conhecimentos, produtos tecnológicos e culturais segundo a idade, a renda, a origem, etc.

 

A segmentação é a forma de categorizar, pautar e organizar a receção dos saberes, para assim conseguir geri-los de maneira previsível e identificável. A sua finalidade é a padronização (normalização) da produção cognitiva.

Seja sobre que for, já não se trata de ligar experiências, mas sim de modos de funcionar. Seja do que for, tudo funciona da mesma forma.

 

Veja-se o que se passa com a moda: os mesmos calendários, temporadas, aceleração das mudanças, personalização das tendências, em que todos se movimentam pelas mesmas ruas das mesmas cidades, com a mesma panóplia de anúncios e com a mesma necessidade e intensidade de mudança de aspeto para que tudo fique na mesma.

 

Nas universidades, sucedem-se as ciências que não se comunicam entre si, ensinando-se com os mesmos parâmetros temporais, com os mesmos dispositivos institucionais e com os mesmos critérios de avaliação. Muitas das vezes, nem se sabe o que é que os departamentos vizinhos estão a fazer, e, contudo, em todas as universidades do mundo, funcionam todas da mesma maneira.

 

No aparato mediático da opinião (media) que hoje domina minuto a minuto o sentido comum do conjunto da população, vemos esta mesma padronização levada ao extremo, em que as opiniões se oferecem lado a lado em simultaneidade nos vários canais, com maior ou menor detalhe conforme as audiências (1), sempre com o mesmo pressuposto: dar opinião, impedindo assim que se possa ir para além dela.

 E isto porque todas as opiniões, exatamente por não passarem de opiniões, valem o mesmo. São postas lado a lado, umas das outras, perdendo assim toda a possibilidade real de comunicação.

 

A segmentação e a padronização são dois processos interligados e que têm como finalidade a gestão ordenada e previsível da incomunicação entre saberes e da sua inutilidade recíproca”.

 

 

Subjacente a tudo isto, temos ainda que lidar com a história que a sociedade se conta a si própria. Sabe-se que as elites não controlam as sociedades apenas por deterem os meios físicos de produção (dinheiro e outros recursos), mas também por influenciarem o discurso cultural, o modo como a sociedade fala de si, como se vê a si própria, como se reconhece.

E esta forma de influenciarem o discurso cultural passa, em parte, pelos assuntos que são publicamente discutidos, mas também por aquilo que não é mencionado em público, por se considerar ser falta de educação, tabu, aborrecido ou simplesmente por se considerar que é em si mais que evidente.

 

Tudo isto que não é mencionado em público e que é crucial para suportar a história que a sociedade se conta a si própria, constitui o “silêncio social”.

Este conceito de “silêncio social” foi pela primeira vez expresso pelo antropólogo francês Pierre Bourdieu, na sua obra Esquisse d'une theorie de la pratique precedé de trois etudes d ’ethnologie kabyle, 1972.

 

O “silêncio social” e a “interpassividade”, fazem parte das receitas que nos têm vindo a conduzir a uma quase total incomunicação ou a um palrar onde a fala vai perdendo significado. Gostamos do som, da cor e do movimento.

 

 

 

 

  • Sobre o aparato mediático da opinião é importante conhecer-se o maior gigante americano dos média de que ninguém ouve falar, Sinclair Broadcast Group, dono de 173 redes de televisão locais, com uma organização totalmente diferente das outras empresas de televisão, começando logo pelo facto de o nome Sinclair ou SBG não aparecer em nenhuma das suas 173 estações, e por os apresentadores lerem quase em simultâneo as mesmas informações da empresa como se tratassem de notícias fidedignas: (https://www.democracynow.org/2018/4/3/media_giant_sinclair_under_fire_for).

 

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