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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

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(148) O paradigma do paradigma

Tempo estimado de leitura: 9 min.

 

O conhecimento científico não cresce de modo cumulativo e contínuo, e nem sempre progride em linha reta, sendo que a sua progressão se faz antes pela alternância entre fases “normais” e fases “revolucionárias”, Thomas Kuhn (1962).

 

Sempre que é assegurado o domínio de uma escola, em que a comunidade científica se estrutura e direciona na adoção de uma mesma matriz disciplinar, esse acontecimento é chamado de “paradigma”.

 

A ciência é obra de comunidades científicas, e é essa comunidade que define não só o meio de solucionar os problemas, como também os problemas que convém resolver.

 

A “ciência normal” pode não ser guiada por um sistema coerente de regras.

 

 

 

“Paradigma” é hoje um conceito, uma palavra que fica bem em qualquer discurso e situação, e dá estatuto. Ele é o “paradigma em si”, “o paradigma do futebol”, “o paradigma da política portuguesa”, “o paradigma dos incêndios”, etc.

Tal entendimento deriva de uma definição de paradigma que é de certo modo ambígua, pelo que não é de estranhar que tenha extravasado para o campo social, acabando por se poder aplicar a quase tudo.

Mas, a correta definição de “Paradigma”, como “modelo ou teorias das teorias que sustentam uma configuração científica”, diz apenas respeito aos estudos sobre o progresso das ciências.

 

 Até há bem pouco tempo era convencimento generalizado que o progresso da ciência se devia, ou ao aparecimento de novos conceitos que se acumulavam aos conceitos existentes (a ciência progrediria descobrindo cada vez mais coisas sobre como o mundo funciona, em que nada desses conhecimentos se perdia, acumulando-se uns sobre os outros), ou a uma maior aproximação das teorias à verdade, ou ainda, à correção de erros passados.

 

Em 1962, Thomas S. Kuhn (1922-1996), professor emérito de linguística e filosofia no M.I.T., publica The Structure of Scientific Revolutions (A Estrutura das Revoluções Científicas), onde nos vem dizer que, contrariamente ao que era aceite, o conhecimento científico não crescia de modo cumulativo e contínuo, e que nem sempre progredia em linha reta, sendo que a sua progressão se fazia antes pela alternância entre fases “normais” e fases “revolucionárias (na medida em que se dava o abandono de toda uma estrutura teórica, que era substituída por outra).

 

Tudo começou quando em 1947, Kuhn foi convidado para lecionar, num curso de letras na universidade de Harvard, uma disciplina sobre o que era a Ciência. Ao estudar a Física de Aristóteles verificou com espanto, quão errada ela estava, e contudo, embora os conceitos básicos fossem totalmente diferentes dos de Newton, acabou por concluir que a física aristotélica até tinha sentido. Isso leva-o a publicar em 1957, The Copernican Revolution, onde vai tentar transformar o sistema geocêntrico de Aristóteles no sistema heliocêntrico moderno.

 

Foi com base na aprendizagem das mudanças de estruturas contidas nesse livro, que vai depois escrever The Structure of Scientific Revolutions, que se veio a tornar uma obra fundamental para a compreensão da história da ciência, e não só.

 

Para Kuhn, o progresso científico tem essencialmente um carácter revolucionário, partindo do princípio que uma revolução implica o abandono de uma estrutura teórica e a sua substituição por outra que lhe é incompatível.

O progresso da ciência obedeceria ao seguinte esquema:

 

Pré-ciência --- ciência normal --- crise --- revolução --- nova ciência normal --- nova crise

 

A “pré-ciência” é toda aquela fase caracterizada pelo desacordo constante e pela discussão dos fundamentos das várias teorias existentes, uma atividade dispersa e desorganizada.

Eventualmente, esta fase pode vir a estruturar-se, e levar uma comunidade científica a aderir, adotar, uma única visão. Sempre que uma comunidade científica adotar, compartilhar, um conjunto de suposições teóricas gerais, determinada conceção metodológica, leis e técnicas para a aplicação dessas leis, tal visão do mundo, ainda que geral, constituirá um paradigma.

É, pois, a este acontecimento, em que é assegurado o domínio de uma escola, em que a comunidade científica se estrutura e direciona na adoção de uma mesma matriz disciplinar, que Kuhn vai chamar “paradigma”.

 

Todos os que se encontrarem a trabalhar dentro de um paradigma, estão a fazer “ciência normal”. Na ciência normal, os cientistas irão articular e desenvolver o paradigma, na tentativa de acomodarem todos os aspetos relevantes dos resultados das suas experiências com o mundo real.

Inevitavelmente encontrarão dificuldades, quer elas sejam provenientes de falsificações ou de anomalias, acontecimentos que não se enquadram no paradigma. A partir da altura em que essas dificuldades aumentam e escapam cada vez mais ao paradigma, entra-se num estado de “crise”.

 

 Esta fase de “crise” só será resolvida quando aparecer um novo paradigma que vá permitir explicar todas as dificuldades insuperáveis do anterior paradigma e que atraia a concordância de cada vez maior número de cientistas, até que finalmente o paradigma original venha a ser abandonado. Estamos então perante a fase de “revolução”, que acabará por levar ao aparecimento de uma “nova ciência normal”.

Este novo paradigma formado irá servir de guia para a atividade científica normal até que ela venha esbarrar com dificuldades sérias, que virão originar uma nova crise seguida de nova revolução.

 

 

 

Na definição do paradigma, para além das leis fundamentais, das suposições teóricas, das metodologias para aplicar essas leis, bem como das técnicas e instrumentos necessários, são necessários princípios metafísicos muito gerais, que conduzam como que a uma conversão intelectual que nos faça ver o mundo de outra forma.

 

A mudança de fidelização que leva um cientista a mudar de um paradigma para outro (que na altura apareceria como alternativa incompatível), acontece quase como se tratasse de uma “conversão religiosa”, e isto por, segundo Kuhn, não existir nenhum argumento lógico que demonstre a superioridade de um paradigma sobre outro. O que vai deixar a opção de escolha do paradigma entregue à autoridade da comunidade científica. Daí, a importância do papel que a comunidade científica desempenha.

 

 Daqui se percebe que o foco central do pensamento de Kuhn incida especialmente sobre a fase do desenvolvimento da ciência “normal”, onde as investigações científicas são orientadas e estruturadas por um “paradigma”, isto é, por “uma visão do mundo, que, sendo geral, inclui também, não só a teoria científica dominante, como também princípios filosóficos, uma determinada conceção metodológica, leis e procedimentos técnicos padronizados para resolver problemas”.

 

Kuhn reconhece que esta sua definição comporta em si dois tipos de conceitos, de paradigmas, um de maior e outro de menor alcance. Vai chamá-los, respetivamente, de “paradigmas exemplares” e “matrizes disciplinares”.

 

 “Paradigmas exemplares” são, por exemplo, o tratado de Copérnico sobre a teoria heliocêntrica do sistema solar, a estrutura heurística de Galileu, a teoria mecânica e da gravitação de Newton, a teoria da eletricidade de Franklin, ou seja, descobertas concretas que definem pelo exemplo o curso de toda a subsequente investigação de uma disciplina científica.

 

Matrizes disciplinares” são as matrizes que constituem o quadro teórico, metodológico e avaliativo com as quais os cientistas conduzem as suas pesquisas, ou seja, são aquele conjunto de problemas, métodos, princípios teóricos, conceções metafísicas, conceitos e métodos de avaliação presentes nos paradigmas “exemplares”.

  

Toda esta construção de Kuhn, gira à volta de um elemento essencial para a constituição da “ciência normal”: a existência de uma “comunidade científica”.

Para ele, a ciência é obra de comunidades científicas, sendo essa comunidade que define não só o meio de solucionar os problemas, como também os problemas que convém resolver.

 

Mas, ao considerar que uma disciplina científica é definida como uma comunidade particular, unida pela educação (mesmos textos, mesmos métodos de creditação), interação profissional e comunicação (mesmos jornais, mesmas convenções), interesses semelhantes por idênticos problemas, e aceitação, de acordo com uma certa amplitude, das soluções possíveis para os mesmos, Kuhn está a definir em termos sociológicos a “comunidade científica”.

Ao defini-la assim através de características sociológicas e psicológicas, Kuhn está a introduzir um elemento de forte subjetividade num estudo que pretende ser científico.

 

Além do mais, Kuhn considerava as ciências sociais como “pré-científicas”, na medida em que nenhuma das ciências sociais tinha estabelecido o corpus de conceitos, categorias, relações e métodos, genericamente aceites para formarem um paradigma. No entanto, foi pela observação da história das ciências sociais, que se apercebeu da existência de revoluções efetivas no pensamento humano.

É esta sua perceção que o leva a elaborar a sua tese sobre o progresso das ciências da natureza. E que depois, uma vez estabelecida, vai até ser extrapolada para as ciências sociais. A questão que se põe é a de saber se se pode aplicar esta teoria sobre as revoluções científicas à sociedade.

 

Kuhn defende a existência de tal paralelismo, fazendo notar que, quando as instituições de uma comunidade política deixam de resolver adequada e atempadamente os problemas que essa sociedade lhes coloca, torna-se natural o aparecimento de revoluções políticas; da mesma forma, quando uma comunidade científica nota que o paradigma existente deixa de funcionar adequadamente na resolução dos problemas, acabará por se produzir uma revolução científica. Em qualquer destes casos, é o sentimento de que algo já não funciona, que conduz à crise, pré-requisito da revolução.

 

Outra dificuldade que necessita de clarificação: saber como é que o novo paradigma se impõe e é aceite. O próprio Kuhn admite que essa aceitação não é uma questão de lógica, sendo antes como que um “salto de fé”. É então baseado em quê?

Fica-se com a sensação de que o conhecimento científico aparece independente do contexto histórico materialista, quando se sabe que o pensamento científico está fundamentalmente relacionado com as atividades materiais da manipulação da natureza para servir os interesses do homem.

 

Mas talvez, o grande calcanhar de Aquiles, venha da ambiguidade resultante do conceito de “paradigma” ser usado com dois significados diferentes (“paradigmas exemplares” e “matrizes disciplinares”).

É o que acontece com os “paradigmas exemplares”, em que o paradigma é apenas um exemplo, uma singularidade, que pode ser repetida, e que, no entanto, adquire a capacidade de poder tacitamente modelar o comportamento e a prática dos cientistas, decidindo se um dado problema pode ser considerado científico ou não.

Ou seja, as regras podem derivar de paradigmas, mas os paradigmas podem guiar a investigação mesmo na ausência de regras. O que significa que a “ciência normal” pode não ser guiada por um sistema coerente de regras.

 

 

 

Este calcanhar de Aquiles, esta ambiguidade não resolvida do paradigma, fora já percecionado na filosofia da Grécia Antiga.

Sabia-se que o conhecimento podia ser acedido através da “dedução”, que ia do universal para o particular, e através da “indução”, que ia do particular para o universal. Mas, para Aristóteles, existia ainda um outro conceito que permitia o acesso ao conhecimento: o “Paradigma”, cuja tradução literal seria “exemplo”, e que ia do particular para o particular.

Ou seja, o paradigma seria, não a parte que tinha que ver com o todo, nem o todo que tinha que ver com a parte, mas antes a parte que tinha que ver com a outra parte.

O paradigma não era, assim, nem universal nem particular, nem geral nem individual, era uma singularidade que, ao mostrar-se como tal, originava um novo conceito ontológico que permitia ver “para além” (que era o significado etimológico de “para digma”).

O que levava Aristóteles, a considerar o “exemplo”, o “para além”, o paradigma, como “mais esclarecedor”. E, infelizmente para nós, por aqui se ficou.

Ainda hoje o “exemplo”, o paradigma, tem garantido o seu lugar como função de tornar mais compreensível um conjunto bastante alargado de problemas.

 

Também Kant se teve de defrontar com esta ambiguidade quando vai tentar definir a doutrina do “exemplo” na Crítica do Julgamento (1790). A exemplaridade do julgamento estético necessitava do acordo de todos os homens, o que podia ser visto como o exemplo de uma regra universal que não podia ser afirmada.

O “exemplo”, é o exemplo de uma regra que não pode ser afirmada. O exemplo, tem que ver com uma lei em falta ou que não pode ser dita, mas que, apesar de tudo, continua a fazer parte do império da lei.

 

Quando Kuhn pretende que o paradigma possa guiar a investigação mesmo na ausência da existência de regras ou leis, está a aproximar-se do legalismo de Kant, quando este subordina a lógica do exemplo à universalidade da lei.

Kuhn não está interessado na investigação das regras que constituem a ciência normal, mas apenas nos paradigmas que guiam o comportamento dos cientistas. Ou seja, ele não está interessado em saber o que é o paradigma; apenas lhe interessa o seu funcionamento normativo dentro de uma comunidade científica.

 

O que significa que, desde que Aristóteles considerou o paradigma como “mais esclarecedor”, infelizmente para nós, por aí ficámos.

 

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