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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(145) Vestidas ou despidas para "matar"?

“As mulheres devem evitar vestirem-se como vagabundas se não quiserem ser vitimizadas”, Donna Karen.

 

As pessoas necessitam de acreditar que há uma correlação entre o que elas fazem e o que lhes acontece.

 

Perante o sofrimento ou a “pouca sorte” de outra pessoa, é-se levado a acreditar que, de certa forma, essa pouca sorte ou sofrimento se deve a falta de merecimento da vítima.

 

Porquê a mim?

 

O que se pretende é transferir a responsabilidade do controle e poder do violador para a vítima.

 

 

 

No seguimento das experiências de Stanley Milgram sobre como uma ordem social conseguia levar pessoas vulgares a cometerem atos cruéis (já aqui referidas no blog de 09 de março de 2016, “Nazis nas escolas”, e no blog de 30 de março de 2016, “Autoridade, pilar da sociedade”), Melvin Lerner e Carolyn Simmons, da Universidade de Kentucky, publicaram em 1966, um estudo intitulado “A reação de um observador para com uma ‘vítima inocente’: compaixão ou rejeição?” (Observer’s reaction to the “innocent victim”: compassion or rejection?) (http://web.mit.edu/curhan/www/docs/Articles/biases/4_J_Personality_Social_Psychology_203_(Lerner).pdf).

 

Para tentarem saber como é que sociedades que viviam à custa de crueldade e sofrimento que impõem conseguiam manter um mínimo de apoio popular, Lerner e Simmons começaram por avaliar como é que qualquer cidadão normal, mero observador que não tinha feito qualquer mal a uma “vítima inocente”, se conseguia conformar com o sofrimento dela e com o que via à sua volta.

Já num estudo anterior, Lerner concluira que as pessoas tinham necessidade de acreditar na existência de uma correlação entre o que elas fazem e o que lhes acontece. Não acreditar nisso, acabava por lhes provocar problemas de sanidade mental, conduzindo-as virtualmente à incapacitação.

 A maior parte das pessoas não consegue acreditar que vive num mundo onde essa correlação é meramente aleatória, umas vezes acontecendo e outras não.

 

Para manter essa crença de que há uma relação entre esforço despendido e a perspetiva de recompensa daí resultante, a pessoa constrói uma crença relativamente “objetiva” que vai aplicar a todos os casos, a todas as pessoas.

 Assim, perante o sofrimento ou a “pouca sorte” de outra pessoa, é levada a acreditar que, de certa forma, essa pouca sorte ou sofrimento é resultante da falta de merecimento da vítima.

A vítima tende a ser desvalorizada. Pelo que quando uma pessoa abusa, trata mal, faz mal a outra pessoa, a justificação que tem para si desse seu comportamento, é que a vítima merecia o que lhe tinha acontecido.

Existiriam assim, dois modos de merecimento: ou porque se tinham comportado bem, de forma recomendável, ou porque eram em si boas. É como se as pessoas tivessem aquilo que mereciam, ou que merecessem aquilo que tinham. Ou seja, pelo desempenho ou pela valia pessoal.

 

A criação deste tipo de experiências em laboratório contou com um grupo voluntário de mulheres estudantes universitárias que se propunham “observar” (pois não eram elas que conduziam as entrevistas) e valorizar as prestações de um pequeno grupo de pessoas que poderiam virem a ser contratadas para desempenharem funções delicadas em ambientes de stress, nas forças armadas e em grandes empresas. Nas “entrevistas de avaliação”, as respostas corretas seriam recompensadas com dinheiro, e as erradas seriam punidas com choques elétricos.

Depois de verem as “vítimas” (atores pagos para teatralizarem as entrevistas) sofrerem durante 10 minutos, seguia-se um intervalo em que as “observadoras” iriam então contactar com as “vítimas” para as classificarem. Poderiam mostrar simpatia ou compaixão para com elas, ou considerar que a “vítima” merecia o que lhe estava a acontecer, não havendo razão para que não continuasse com nova sessão de entrevista, ou seja, com nova sessão de sofrimento.

 

As “observadoras” que entendiam que a experiência devia continuar, na classificação que faziam da “vítima” escolhiam desvalorizá-la e rejeitá-la. Até as poucas “observadoras” que desejavam parar o “sofrimento” da “vítima”, só o faziam por um ato de rebelião contra a experiência, muito embora considerassem a intenção correta. Ou seja, as pessoas têm uma grande necessidade de acreditarem que vivem num mundo bom e justo.

 

Interessante notar a razão porque para as experiências foram escolhidas para “observadoras” só mulheres (75). Tal teve que ver com dados previamente coligidos por Schopler e Bateson (“The power of dependence”, 1965) segundo os quais as mulheres mostram mais sinais visíveis de compaixão que os homens, o que facilitava o teste. Consequentemente, para fazerem de “vítimas” escolheram-se também mulheres, para não causarem nenhum constrangimento às “observadoras”.

 

 

Numa entrevista, Donna Karen (http://www.dailymail.co.uk/news/article-4964380/Donna-Karan-defends-Harvey-Weinstein-blames-victims.html) dizia que:

 “As mulheres devem evitar vestirem-se como vagabundas se não quiserem ser vitimizadas. Olhe-se para o que está a acontecer no mundo e veja-se como as mulheres se vestem e o que estão a pedir quando se apresentam assim. O que estão a pedir? Sarilhos.”

 

Na mesma linha, um político indiano justificava a grande incidência de violações sexuais no seu país atribuindo a culpa às mulheres e às modas ocidentais (http://www.independent.co.uk/news/world/asia/mass-molestation-bangalore-india-sexual-assault-western-fashion-mindset-karnataka-state-minister-a7507256.html). E temos também aquele polícia canadiano que explicava a um grupo de estudantes de Direito que “As mulheres devem evitar vestirem-se como oferecidas para não serem vitimizadas” (https://www.theguardian.com/world/2011/may/06/slutwalking-policeman-talk-clothing).

 

Segundo a Igreja (Lucas 15:22; Provérbios 7:10), o vestuário pode refletir respeito e honra ou desgraça. Cada pessoa deve ser responsável por se vestir modestamente, seguindo os ensinamentos de Deus (Timóteo 2:9-10). Aquilo que vestirmos (ou não vestirmos) importa a Deus. Deve-nos importar (Pedro 3:3-5).

 

É toda uma cultura que tem vindo, provavelmente desde sempre, a ser praticada em quase todas as sociedades, e até incentivada. 

Na realidade, vemos, por exemplo, como desde muito cedo as meninas são industriadas a vestirem-se de forma a não chamarem a atenção dos rapazes e dos homens, condicionando ou condicionando-se, em grande parte, os códigos de vestuário impostos pelas escolas.

Até mesmo o seu contrário, o despido, que surge sob a capa de libertação sexual e afirmação feminina, não rompe com o modelo de dominação estabelecido. Que libertação badalada nos propõe a raper da moda Cardi B? (vale a pena ver os vídeos das suas canções que ocupam o primeiro lugar nos EUA, Bodak Yellow e Washpoppin:

https://www.youtube.com/watch?v=PEGccV-NOm8

https://www.youtube.com/watch?v=-39SFNDiOCY).

 

Os que sustentam que o vestuário é o principal fator que contribui para as mulheres serem violadas, acabam por perder credibilidade perante os casos reais, em que há mulheres a serem violadas com todos os trajes, desde os mais reveladores até às burcas e aos fatos de neve.

Na realidade, o vestuário nada tem que ver com o crime praticado. Afirmar o contrário, não passa de uma tentativa de transferir a responsabilidade do controle e poder do violador para a vítima.

 

Quando há meio século Lerner fazia notar sobre a necessidade, e dificuldade, que as pessoas têm para encontrarem uma explicação para a aleatoriedade da vida, estava também a dar resposta àquela pergunta que quase todas as vítimas de violação sexual continuam a fazer:

 

Porquê a mim?”.

 

 

 

Consultar:

 (https://anabagail.wordpress.com/2014/03/14/research-on-the-relationship-between-rape-and-dressing/).

 

Ver obrigatoriamente:

O documentário “The Hunting Ground”, 1h 43 min, sobre violações sexuais nas Universidades (https://www.netflix.com/pt/title/80036655).

O documentário “The Invisible War”, 1h 46 min, sobre violações sexuais nas Forças Armadas (http://www.pbs.org/independentlens/films/invisible-war/).

 

 

 

 

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