(143) Do todo e das partes
“Se desmontarmos todas as partes de uma bicicleta (guiador, selim, quadro, rodas, etc.) e as pusermos na bancada, o que ali temos não é uma bicicleta, mas partes de uma bicicleta.”
“Nenhuma espécie de ser vivo tem mais direito de viver que qualquer das outras espécies”, Arne Naess.
“A cognição engloba todo o processo de vida, não necessitando necessariamente de um cérebro ou de um sistema nervoso”, Maturana e Varela.
O mundo natural não passa de uma subtil balança de inter-relações complexas onde a existência dos organismos está dependente da existência dos outros, dentro de ecossistemas.
É muito conhecida a afirmação segundo a qual “o todo é maior que a soma das suas partes”. Mas como é que o todo é maior que a soma das partes?
Para os estudiosos de biologia, desde sempre este problema intrigante lhes apareceu como sendo da preponderância da forma sobre as partes ou o da preponderância das partes sobre a forma. É um organismo só a sua forma? É um organismo mais do que a configuração estática das suas partes?
Durante alguns séculos a resposta a estas perguntas foi sendo dada por duas escolas de pensamento, a dos mecanicistas e a dos vitalistas.
Os mecanicistas diziam: "O todo não é mais que a soma das partes. Todos os fenómenos biológicos podem ser explicados por leis da física e da química”.
Os vitalistas discordavam e diziam que para se poder explicar um fenómeno biológico seria necessário entrar em consideração com uma força vital, um campo não-físico, para além da soma das partes.
No início do século XX aparece no campo da biologia, uma escola de pensamento que se vai opor tanto aos mecanicistas como aos vitalistas. Embora concordasse que algo teria de ser adicionado às leis da física e da química para se compreender a vida, esse algo não teria de ser forçosamente uma entidade, alma ou espírito. Esse adicional teria origem na organização do sistema vivo, ou seja, proviria das interações e das relações entre as partes, das suas “relações organizativas”.
Sempre que dissecamos um sistema, fisicamente ou teoricamente, separando-o em elementos isolados, destruímos as propriedades que caraterizam o todo. Embora possamos diferenciar as partes individuais de um sistema, essas partes não se encontram isoladas, daí a natureza do todo ser sempre diferente da mera soma das partes.
As propriedades essenciais de um sistema vivo são as propriedades evidenciadas pelo todo e que nenhuma das partes tem.
Nos anos 20 do século XX, a recém-aparecida ciência da ecologia começa a trabalhar com os novos conceitos de ‘cadeias alimentares’ e de ‘ciclos de alimentos’, vendo as comunidades ecológicas como organismos interligados em rede devido a relações de alimentação. Aparece assim, o novo conceito de ‘rede’.
À medida que este conceito de rede se foi impondo na ecologia, os cientistas de sistemas começaram a tentar aplicar modelos de rede a todos os outros níveis, tratando os organismos como redes de órgãos e células. Em breve concluíram que a rede era também um padrão comum a toda a vida. Sempre que virmos vida, vemos redes.
1ª Conclusão: O todo é mais que a soma das suas partes, sendo que o ‘mais’ são as relações que se estabelecem.
A partir de então, pensar em sistemas é pensar em termos de relações. Em vez de nos concentrarmos em objetos temos de nos concentrar em relações.
E esta não é uma mudança fácil, porque vai contra tudo o que estava estabelecido pela cultura científica ocidental. Segundo a ciência, tudo tinha de ser medido e pesado. Só que as relações não podem ser medidas ou pesadas. Mas, talvez pudessem ser mapeadas.
Quando se mapeiam as relações, vamos obter certas configurações que acabam por ocorrer repetidamente. Origina-se assim um ‘padrão’. Padrões, são configurações de relações que aparecem repetidamente.
O estudo das relações conduz ao estudo de padrões.
O processo de estudo a utilizar quer para as relações de mapeamento quer para o estudo de padrões, não pode, portanto, ser feito por métodos quantitativos, mas sim por métodos qualitativos. O pensamento de sistemas implica uma mudança de foco da quantidade para qualidade.
A parte da matemática que se dedica a este estudo é chamada de ‘análise qualitativa’.
Mas o estudo das relações tem que ver, não só com as relações que se dão dentro dos componentes do sistema, mas ainda com aquelas que se dão entre o sistema e a totalidade dos sistemas que o circundam.
Às relações que se verificam entre o sistema e o ambiente que o rodeia dá-se o nome de ‘contexto’. ‘Pensamento contextual’ é o que caracteriza o pensamento dos sistemas.
Estes conceitos chave para o pensamento de sistemas começaram a ser desenvolvidos a partir dos anos 20 e 30 de 1900. Na década de 40 assistimos à formulação das teorias de sistemas, ou seja, à integração dos conceitos em quadros teóricos coerentes onde se descreviam os princípios da organização dos sistemas vivos. Chamadas de ‘teorias clássicas de sistemas’, incluem a teoria geral de sistemas e a cibernética.
A teoria geral de sistemas foi formulada em 1940 pelo biólogo austríaco Ludwig von Bertalanffy. A sua maior contribuição foi o conceito de ‘sistema aberto’ que permitiu estabelecer a distinção entre fenómenos biológicos e fenómenos físicos. Para ele, os sistemas vivos eram sistemas abertos, que necessitavam de se alimentarem constantemente por um fluxo de matéria e energia para permanecerem vivos.
Estes sistemas abertos mantêm-se estabilizados por essa corrente contínua de fluxo e sujeitos a mudanças que se verificam, encontrando-se assim muito longe de estarem equilibrados. Estariam como que num estado dinâmico estabilizado (“flowing balance”).
Como a termodinâmica clássica da altura apenas tinha à sua disposição a teoria dos sistemas complexos, Bertalanffy postulou que para se descreverem os sistemas vivos seria necessária uma nova termodinâmica para sistemas abertos. Só trinta anos mais tarde é que Ilya Prigogine conseguiu realizar este avanço.
A cibernética, a outra teoria clássica de sistemas, foi formulada por um grupo interdisciplinar de cientistas, onde se incluíam matemáticos como Norbert Wiener e John von Neumann, o neurocientista Warren McCulloch, e os cientistas sociais Gregory Bateson e Margaret Mead.
O foco central da cibernética concentrava-se nos padrões de organização, e em particular nos padrões de comunicação, especialmente em circuitos fechados e redes.
Estas investigações conduziram aos conceitos de ‘autoalimentação’ (feedback), ‘autorregulação’ e ‘auto-organização’.
Numa rede, temos ciclos e circuitos circulares fechados (closed loops). Todos estes circuitos circulares fechados podem vir a ser circuitos de autoalimentação (feedback loops). Um circuito de autoalimentação é uma disposição circular de elementos causalmente ligados, e no qual uma causa inicial se propaga através das ligações do circuito de tal maneira que cada elemento exerça um efeito sobre o seguinte, até que o último elemento do circulo alimente de novo (daí o termo “feeds back”) o primeiro elemento do ciclo.
Este fenómeno de feedback revelou-se extremamente importante para a compreensão dos sistemas de vida. É através dele que as redes de vida conseguem regular-se e organizarem-se por elas próprias.
Por exemplo, uma comunidade pode aprender com os seus erros porque os erros viajam e regressam através desses circuitos circulares fechados de autoalimentação. Daí que a comunidade se consiga organizar e aprender por si.
Devido ao feedback, uma comunidade consegue ter a sua própria inteligência, a sua própria capacidade para aprender. Os conceitos de rede, feedback e auto-organização encontram-se assim bastante ligados.
2ª Conclusão: os sistemas de vida são redes capazes de auto-organização.
O desenvolvimento da matemática mostrou-se também crucial para que os cientistas conseguissem manusear a enorme complexidade envolvida nos sistemas de vida. Em particular o desenvolvimento da matemática não-linear.
Por exemplo, a corrente da água num rio que se escoa suavemente e onde não há obstáculos, pode ser resolvida por uma equação linear. Mas se houver uma rocha no rio, a água começa a rodopiar, tornando-se turbulenta. Aparecem vórtices, turbilhões, tornando o movimento da água de tal modo complexo, quase caótico, que só poderá vir a ser estudado com o recurso a equações não-lineares.
O aparecimento nos anos 70 de computadores de alta velocidade, veio permitir a resolução dessas complexas equações não-lineares, vindo a revelar a existência de padrões por baixo dos comportamentos caóticos.
A teoria do caos é uma teoria da ordem, uma ordem que não é vista pelos nossos olhos, mas que é revelada por estas novas matemáticas.
Quando se resolve uma equação não-linear, o resultado não é dado por uma fórmula, mas por uma forma visual, um padrão traçado pelo computador. Estas novas matemáticas são matemáticas de padrões, de relações. Apresentam a dinâmica de um sistema particular como formas visuais.
Resumindo: os cientistas de sistemas têm vindo a afinar o conceito de padrão de organização. Começaram por definir padrão como uma configuração de relações. Depois os ecologistas reconheceram a rede como o padrão geral da vida. Os cibernéticos identificaram no feedback o padrão circular dos enlaces causais. Finalmente os matemáticos apresentam a nova matemática como sendo de padrões visuais.
O padrão de organização de qualquer sistema, vivo e não vivo, é a configuração das relações entre os componentes que determinam as caraterísticas essenciais do sistema.
Ou seja, para que algo possa ser reconhecido como uma cadeira, uma bicicleta, há certas relações, não todas, que têm de estar presentes. A configuração de relações que for essencial para permitir reconhecer as caraterísticas do sistema é o padrão de organização.
Se desmontarmos todas as partes de uma bicicleta (guiador, selim, quadro, rodas, etc.) e as pusermos na bancada, o que ali temos não é uma bicicleta, mas partes de uma bicicleta. Para ser uma bicicleta temos de as colocar não só juntas, mas com uma certa ordem (não devemos por o guiador no selim, as rodas no guiador). Esta ordem, esta configuração das relações entre as partes, é o padrão de organização.
Contudo, o estudo destes padrões de organização, não são só por si, suficientes para se compreender a vida. Eles dão-nos as relações, a ordem, a qualidade, mas faltam os estudos sobre a estrutura.
Ou seja, para descrevermos a organização da bicicleta basta indicarmos de um modo abstrato as relações. Não é preciso dizer que o quadro é feito de alumínio ou carbono, ou de que borracha serão os pneus. Os materiais físicos não fazem parte da descrição do padrão de organização. Fazem parte da descrição da estrutura, do material que dá corpo ao sistema do padrão de organização.
Necessitamos, pois, de proceder à integração do padrão de organização com a estrutura do sistema.
Para uma bicicleta, tal é relativamente fácil. Para um sistema vivo, para além de envolver milhares de processos químicos interligados, há ainda o problema adicional do fluxo sem fim de matéria que o percorre, originando crescimento, desenvolvimento e evolução.
Estas propriedades espantosas que os sistemas vivos têm, sugerem a necessidade de um terceiro critério para que se compreenda a natureza da vida. O processo da vida é a atividade que permite que seja dado continuamente corpo ao sistema do padrão de organização. Só através de um critério do processo que faça a ligação entre o padrão e a estrutura será possível entendê-la.
Todos estes três critérios do fenómeno da vida, o padrão de organização, a estrutura e o processo, são totalmente independentes, muito embora inseparáveis.
Já vimos que Ilya Prigogine reconhecera os sistemas vivos como sistemas abertos estáveis capazes de manterem o seu processo de vida em condições de não-equilíbrio.
Um organismo vivo é caraterizado por um metabolismo de fluxo contínuo e de mudança, no meio de milhares de reações químicas. O equilíbrio químico e térmico existe quando tais processos deixarem de ocorrer. Ou seja, um organismo em equilíbrio é um organismo morto. Os organismos vivos mantêm-se sempre num estado que não é de equilíbrio, é um estado de vida.
Apesar de muito diferente do estado de equilíbrio, este estado de vida é, contudo, estável. Ele mantém a mesma estrutura geral apesar das mudanças contínuas de fluxo e dos seus componentes. A estes sistemas abertos que conseguiam manter a sua estrutura no meio das mudanças (dissipação) chamou Prigogine de estruturas dissipativas.
Para ele, estas estruturas não só se mantinham estáveis muito longe do equilíbrio, como ainda podiam evoluir transformando-se em novas estruturas de complexidade aumentada. Este fenómeno – o aparecimento espontâneo de ordem – é também conhecido por auto-organização. Ele é a base do desenvolvimento, da aprendizagem e da evolução.
Temos assim que o padrão de organização de um sistema vivo é uma rede de relações na qual a função de cada um dos componentes é a de transformar e substituir outros componentes da rede. A rede “faz-se a si própria” continuamente. Este fazer-se a si próprio foi chamado por Humberto Maturana e Francisco Varela, de autopoiesis.
Para se entender o processo da vida através desta teoria dos sistemas vivos, torna-se necessário uma nova conceção de cognição ou espírito. Esta nova conceção foi inicialmente elaborada por Gregory Bateson e depois expandida por Maturana e Varela, sendo conhecida como a teoria de conhecimento de Santiago (por ter sido apresentada na Universidade em Santiago do Chile).
Nesta teoria procede-se à identificação da cognição, do processo de conhecer, com o processo de vida.
Segundo Maturana, a cognição é a atividade implícita na auto geração e na auto perpetuação das redes de vida. Por outras palavras, a cognição é o processo de vida em si. “Os sistemas de vida são sistemas cognitivos. O viver como processo é um processo de cognição”.
O processo de conhecer é, portanto, um processo biológico.
O conteúdo do conceito de cognição amplia-se assim enormemente. Segundo este modo de ver, “a cognição engloba todo o processo de vida – incluindo perceção, emoção e comportamento – não necessitando necessariamente de um cérebro ou de um sistema nervoso”.
Assim sendo, aquele problema cartesiano da separação do corpo e da alma deixa de ter significado por não serem já categorias separadas. Passam a representar dois aspetos complementares do fenómeno da vida, processo e estrutura.
Seja a que nível de vida for, desde a mais simples célula, ‘espírito’ e ‘matéria’, processo e estrutura, estão inseparavelmente ligados. O ‘espírito’ é imanente à ‘matéria’ como processo de auto-organização. Pela primeira vez aparece uma teoria que unifica ‘alma’, ‘matéria’ e vida.
Quase tudo o que aqui deixei escrito, constitui um resumo do livro A Teia da Vida (The Web of Life, A new scientific understanding of living systems) do físico teórico austríaco Fritjof Capra (1939 -), diretor do Centro de Eco Literacia em Berkeley, Califórnia.
Foi a física que acabou por o conduzir à ecologia profunda de Arne Naess, ao campo da visão metafísica e ecológica onde tudo se interrelaciona, segundo o qual “nenhuma espécie de ser vivo tem mais direito de viver que qualquer das outras espécies”.
O mundo natural não passa de uma subtil balança de inter-relações complexas onde a existência dos organismos está dependente da existência dos outros, dentro de ecossistemas.