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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(142) Natal como conforto da visão reduzida do mundo

“Ninguém acredita tão firmemente como aquele que menos se conhece”, Montaigne.

 

As pessoas gostam de explicações simples e claras.

 

O desconhecido assusta-nos e a complexidade esgota-nos.

 

O mundo é o local onde nos sentimos pequenos e vulneráveis.

 

 

 

Talvez seja um erro pensar que crescemos e que nos tornamos adultos. Vejamos: quando crianças, o mundo aparece-nos como um lugar incompreensível e caótico, onde as coisas acontecem sem qualquer causa conhecida. Poderá ser fascinante, mas é acima de tudo complicado e muitas vezes amedronta. Tudo necessita de ser aprendido, apesar de muitas das perguntas ficarem sem resposta.

 

Quando querem ficar confortáveis, as crianças regressam ao conhecido. Daí que queiram sempre ver o mesmo filme, ouvirem sempre as mesmas histórias, agarrarem-se sempre aos mesmos bonecos. Optam assim por algo que conhecem bem e sem quaisquer aberturas, onde não se consideram pequenos nem vulneráveis. Nesses momentos, objetivamente, não querem o que nós crescidos entendemos como mundo, porque intuem, “sabem”, que esse nosso mundo é isso mesmo: local onde nos sentimos pequenos e vulneráveis.

 

O nosso cérebro está equipado para procurar relações causais, inferindo e inventando automaticamente motivos e intenções. Este mecanismo evoluiu por ser útil, mas à custa de um preço: não admite a ambiguidade, suprime a dúvida e exagera o valor da coerência.

As pessoas gostam de explicações simples e claras.

 

Para nós, uma explicação será tanto mais convincente quanto mais as peças encaixarem (coerente) sem procurarmos que existam mais peças para encaixar (quantidade de informação). Por isso, as explicações pouco informadas aparecem-nos como mais convincentes. E isto acontece-nos a todos: a ignorância torna-nos atrevidos.

 

É assim que entendemos que as matanças nos países ocidentais são apenas devidas às sementes que o imperialismo plantou, ou aos islamistas que nos odeiam, ou aos negros, ou aos ciganos, ou aos homossexuais, ou ao fato do multiculturalismo ser incompatível com os nossos valores, ou por não seguirmos os mandamentos de Deus, etc. etc.

Todos estes são argumentos simples e claros. Se lhes juntarmos mais elementos explicativos, tornam-se confusos, menos convincentes, apesar de poderem estar mais próximos da verdade.

 

Gostamos de explicações fáceis.

E, é provavelmente isso, que nos conduz ao fundamentalismo e às barbáries, que na sua visão do mundo só têm certezas. Apoiam-se na religião, na ideologia, na tradição, para construírem a sua visão reduzida do mundo, com muito poucas peças, mas com uma coerência totalitária que satisfaz o primitivo, a criança, que habita em nós.

 

O desconhecido assusta-nos e a complexidade esgota-nos. Tal como acontece com a criança. Talvez seja um erro pensar que crescemos e que nos tornamos adultos.

 

 

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