(141) Vias para a imortalidade
“Enquanto esperamos viver, a vida passa por nós”, Séneca.
Não podendo alterar a ordem do mundo, resta-nos alterar os nossos desejos.
Pela doutrina estoica de salvação o indivíduo passa a ser tranquilamente integrado no Universo, passando a fazer parte dele de uma outra forma anónima e impessoal, possivelmente para um outro recomeço
O cristianismo prometia uma imortalidade pessoal (não é só a alma, é aquela própria pessoa que no fim dos tempos vai ressuscitar, em carne e osso, tal como Lázaro) e prometia ainda, a salvação dos nossos familiares e amigos (no fim dos tempos, estaríamos todos reunidos).
O homem é o único ser que tem consciência da sua mortalidade, da sua finitude e das suas limitações no espaço e no tempo. Preocupa-o não só a sua morte, mas também a morte daqueles que ama. E para aqueles que o amam, o seu desaparecimento também é difícil de entender, não sabendo muito bem o que se passou, para onde foi, o que vai acontecer.
Para os animais, o problema da morte não se põe. O mesmo se passa com as crianças, que quando à noite adormecem, não sabem se no dia seguinte vão acordar, daí a sua dificuldade em adormecerem e a sua grande alegria ao acordarem no dia seguinte.
Mas a morte não é só biológica, nem é só instantânea. Não é só aquele momento. Não é só o passamento. É também aquela sensação de que há coisas que nunca mais voltam: a brincadeira da infância, os amores da adolescência, o grupo de amigos, as viagens, tudo isto faz parte de uma morte anunciada, de uma sensação de desconforto, de angústias que nos impedem de viver bem.
Essa sensação de irreversibilidade das coisas que já não voltam mais, tende a arrastar-nos para um passado onde imperarão a nostalgia, a culpa, o arrependimento e o remorso. Mesmo aqueles momentos de felicidade que recordamos, arrastam-nos para o passado, impedindo-nos de apreciar o presente.
A nostalgia, como apego ao passado e a esperança, como preocupação com o futuro, impedem-nos de viver sem medos. Aquele que ficar preso ao seu passado ficará sempre incapaz de usufruir e de agir. Aquele que viver sempre à espera da concretização de algo que considere imprescindível para a sua felicidade, vive à espera de uma felicidade adiada. Como dizia Séneca, “enquanto esperamos viver, a vida passa por nós”!
As religiões e a filosofia foram tentando dar respostas, salvar-nos das angústias provenientes destes problemas que a morte nos punha: a religião, através do amor e da fé, promete-nos a imortalidade; a filosofia, através da utilização da nossa razão, explica-nos a imortalidade sem a ajuda de Deus.
Na atualidade, também a ciência se tem pretendido insinuar neste campo da imortalidade, quer seja através da conservação congelada, da hibernação prolongada, da paragem do envelhecimento ou, ainda, pela transferência da ‘nossa’ personalidade individual para o computador (que nos permitiria viver indefinidamente enquanto não faltasse a eletricidade), evidentemente tudo isto sem dor, desde que se tenha muito dinheiro e pouco senso!
A doutrina da salvação estoica
Para a filosofia Grega, o “cosmos” era entendido como um ser organizado e animado, considerado como “divino” (“theion”), uma estrutura ordenada do universo.
Este “divino” confundia-se com a própria ordem do mundo; não era um ser exterior ao universo que existiria antes dele ou que o tivesse criado. Era exatamente por as coisas estarem ordenadas, pela existência dessa ordem (“logos”), que a nossa razão tinha a possibilidade de o vir a compreender, de o vir a decifrar.
Ou seja, ao afirmarem que o universo era divino, queriam com isso dizer que existia uma ordem lógica por detrás do aparente caos das coisas, que poderia assim ser revelada pela razão humana.
Por outro lado, afirmar essa ordem, implicava a consideração da existência de uma harmonia na natureza, o que vem fazer da natureza o modelo de conduta para os homens, que a vão tentar imitar em tudo, desde o plano moral, ao político e ao estético. Era a ordem natural e não a vontade dos homens, que se sobrepunha a qualquer consideração. O bom, era o que estava de acordo com a ordem cósmica. Era o exemplo a seguir, não cabendo, pois, ao ser humano decidir por ele sobre o que seria o bem e o mal, o justo e o injusto.
Como fazia notar Marco Aurélio, essa ordem harmoniosa, só poderia ser justa e boa, dando a cada um o que lhe era devido, pondo cada qual no seu lugar, o que pressupunha a existência de um “lugar” para cada um de nós. Encontrar esse lugar era o que nos permitiria alcançar a felicidade.
Para os estoicos, e é deles que temos estado a falar, como a única vida real é a do presente, e como a vida está em constante mudança, então mandava a sabedoria contentarmo-nos com o presente, vivê-lo o suficiente para nada mais desejar ou lamentar.
Não podendo alterar a ordem do mundo, resta-nos alterar os nossos desejos.
Não se trata de ser indiferente ao mundo, mas antes de ter um desapego face aos sentimentos de posse. Assim, graças às capacidades que nos foram dadas pelo viver no presente, de amar com desapego o mundo tal como ele é, quando chegar a nossa hora, estaremos preparados.
Verdadeiramente, a morte de um ser humano não existia: tratava-se de uma mera passagem de um estado a outro. Isto porque fazendo nós parte do universo, e sendo o universo eterno, então nós próprios nunca deixaríamos de existir.
A doutrina cristã da salvação.
A filosofia estoica é o exemplo de uma doutrina da salvação tendo por base o exercício da razão. Sendo o estoicismo a filosofia mais instalada e seguida pelas classes dirigentes, por que razão a sabedoria estoica não conseguiu impedir a progressão do cristianismo?
Apesar de muito do estoicismo ser aceite e absorvido pela doutrina cristã, a base para se alcançar a salvação, a imortalidade, era totalmente distinta: na doutrina cristã, a imortalidade, era conseguida através do amor e da fé.
Quando Cristo ressuscita o seu amigo Lázaro pretende provar que a morte, para aqueles que amam e têm confiança (“fides” em latim, fé) na Sua palavra, não passa de uma mera aparência, de uma passagem. Para se ter esta fé, era preciso acreditar que o divino – o “logos” – deixava de ser representado por uma estrutura do mundo, passando a ser encarnado numa pessoa excecional – Cristo.
É assim que nos Evangelhos a tradução do termo “logos” utilizado pelos estoicos, passa a ser “Verbo”; eis o que diz João no quarto Evangelho:
“No princípio já existia o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Tudo começou a existir por meio d’Ele, e sem Ele nada foi criado”, e mais à frente: “E o Verbo fez-Se homem, e habitou entre nós, e nós vimos a Sua glória, glória que Lhe vem do Pai, como filho único cheio de graça e de verdade”.
O divino deixa de ser uma estrutura impessoal, passando a uma pessoa singular. O divino aparece encarnado em Jesus. Mais, os discípulos de Cristo são apresentados como testemunhas desta transformação do logos (Verbo e Deus) em homem (Cristo), sendo Cristo, filho do primeiro.
Tal alteração não podia ser compreendida pela razão, só pela fé. Não tinha qualquer sentido para os estoicos atribuir o carácter de divino de uma ordem cósmica universal e racional, a uma pessoa em particular.
Por isto, até Marco Aurélio se viu forçado a condenar à morte o seu amigo Justino (estoico que se tornou no primeiro padre da Igreja, no primeiro filósofo cristão e depois Santo) por ele não querer admitir a irracionalidade e loucura daquela religião.
Para os cristãos o acesso à verdade já não é feito em primeiro lugar pela razão, mas antes pela confiança (fé) na palavra de um homem, Cristo, o filho de Deus, o logos encarnado.
Por outro lado, São Paulo vem mostrar na “Epístola aos Coríntios”, uma imagem de Deus totalmente diferente da proposta no Antigo Testamento: em vez de um Deus colérico, aterrador, todo-poderoso, grandioso (O Deus dos Judeus), apresenta-nos um Deus humilde, fraco (que se deixa martirizar e crucificar), misericordioso, porta-voz dos fracos, dos pequenos e dos pobres. A humildade e a fé irão suplantar a razão, o que conduzirá a filosofia a vir ser considerada como “serva da religião”.
Porque é que a filosofia não aceitava, com humildade, a submissão às leis de uma doutrina de salvação com Deus?
A filosofia chega mesmo a ser considerada como obra do diabo por levar o homem a separar-se das crenças para fazer uso da razão. Entendamos que “diabo” etimologicamente significa em grego “aquele que separa”, neste caso, aquele que nos separa de Deus, e não aquele que nos afasta do bom caminho: se a serpente quer que Adão e Eva comam a maçã, não é para que desobedeçam a Deus, mas para os separar Dele!
Pela doutrina estoica de salvação o indivíduo vem a ser tranquilamente integrado no Universo, passando a fazer parte dele de uma outra forma anónima e impessoal, possivelmente para um outro recomeço (não devemos esquecer que para toda a filosofia grega e romana o tempo era considerado cíclico).
Assim era a eternidade prometida pela doutrina estoica. Para se ser salvo, vencer o medo da morte, era preciso compreender a ordem cósmica, fazer tudo para a imitar e reconciliar-se com ela para aí encontrar o seu lugar, alcançando assim uma forma de eternidade.
Pela doutrina cristã, para se ser salvo, para se vencer o medo da morte, era preciso entrar em contacto com o Verbo encarnado, na humildade da fé, observar os seus mandamentos e praticar o amor em Deus, para que ele e os seus entes queridos pudessem entrar no reino da vida eterna.
O cristianismo prometia uma imortalidade pessoal (não é só a alma, é aquela própria pessoa que no fim dos tempos vai ressuscitar, em carne e osso, tal como Lázaro) e mais ainda, prometia a salvação dos nossos familiares e amigos (no fim dos tempos, estaríamos todos reunidos).
Nestes termos, a soteriologia (o estudo da salvação humana) cristã é a única que permite ultrapassar não só o medo da morte, mas também a própria morte. Nem que fosse só por esta razão, estava assegurada a prevalência da doutrina cristã.
Em qualquer dos casos, estas preocupações com o tempo pós-morte têm muito mais que ver com a tentativa de atribuir significado ao tempo de vida.