(140) Os caídos do Céu
“Mostrem-me um francês, belga, ou alemão, que faça o tráfico de escravos entre a Nigéria e a Líbia. Não existem. A realidade é que são africanos que fazem escravos outros africanos”, Emmanuel Macron, novembro, 2017.
“Se não destruirmos os carros de combate de Gaddafi, a Europa virá a ter que lidar com uma onda de refugiados e com uma nova geração de jidaístas…”, David Aaronovitch, The Times, 18 março, 2011.
Não se trata de uma falha de planeamento; essa falha de planeamento faz parte do planeamento. Ela é mesmo a parte mais importante do planeamento.
Um dos problemas com que os israelitas, chefiados por Moisés, se depararam a quando da sua fuga do Egito, foi o da alimentação, especialmente durante a longa travessia do deserto. Problema que Deus resolveu, enviando o maná caído do céu, flocos brancos que eram recolhidos, cozidos e assados, transformados em pães doces.
Este maná era enviado diariamente, não podendo ser armazenado para o dia seguinte. Parece que também não era fornecido aos sábados, pelo que Deus reforçava o suprimento às sextas-feiras, único dia em que o maná podia ser guardado para o dia seguinte (Êxodo, capítulo 16).
Atualmente, o mesmo se passa com as pessoas que, no norte de África, são vendidas como escravos, e com os refugiados do Médio Oriente, que os canais de televisão tão bem acompanham nas suas rotas, e que, qual maná, nunca tendo existido anteriormente, também se desconhece porque apareceram, levando a supor que caíram do céu.
Felizmente que existem alguns políticos atentos para nos esclarecer, como foi o caso do presidente da França, Emmanuel Macron, prontamente ilibando a França e culpabilizando os africanos:
“Quem são os traficantes? Perguntem-se a si próprios, vós que sois a juventude africana. Quem são os traficantes? Eles são africanos, meus amigos. Eles são africanos.”
“Mostrem-me um francês, belga, ou alemão, que faça o tráfico de escravos entre a Nigéria e a Líbia. Não existem. A realidade é que são africanos que fazem escravos outros africanos” (https://www.rt.com/news/411220-macron-africa-people-trafficking/).
Como se a França nada tivesse a ver com a ação militar, o bombardeamento e a destruição do estado da Líbia em 2011. As razões publicamente invocadas para essa intervenção armada foi a de que Gaddafi exercia ditatorialmente o poder há 41 anos, estava a reprimir e matar oponentes em Bengasi instabilizando o país, e que, portanto, a continuar assim o preço por nada se fazer viria a ser demasiadamente alto:
“Se não destruirmos os carros de combate de Gaddafi, a Europa virá a ter que lidar com uma onda de refugiados e com uma nova geração de jidaístas…” (https://www.thetimes.co.uk/article/the-price-of-inaction-in-libya-is-far-too-high-mqh9vjfsvq2).
A Líbia, embora governada ditatorialmente e torcionariamente, era o país de África com o maior Índice de Desenvolvimento Humano, com uma Literacia de quase 90%, e onde os cuidados de saúde e a educação eram gratuitos, segundo o Relatório do Concelho dos Direitos Humanos das Nações Unidas de 2011 (http://www2.ohchr.org/english/bodies/hrcouncil/docs/16session/A-HRC-16-15.pdf).
O panorama geral do país é muito bem descrito numa importante ata do Parlamento inglês na qual se examinam as opões políticas possíveis face a uma intervenção militar na Líbia, onde inclusivamente se encontram referências à falta de provas sobre a intervenção de Gaddafi nos massacres de Bengasi (https://publications.parliament.uk/pa/cm201617/cmselect/cmfaff/119/11905.htm).
Mas nada disso impediu que a França liderasse o grupo de nações que bombardearam massivamente as infraestruturas líbias, o que conduziu à subsequente destruição do aparelho do estado, fazendo regredir em décadas o progresso social.
Contudo, estas consequências negativas que nos são apresentadas, e justificadas, como sendo um “falhanço de planeamento” na condução das operações, não podem ser atribuídas à incompetência, negligência ou azar, porquanto tal já se havia previamente verificado no Iraque.
Também aí, só após se terem desmantelado todas as estruturas do aparelho de estado, arrasado as infraestruturas, e se ter instalado o caos, é que se verificou que “apareceu” o Estado Islâmico (EI), algo que não existia durante o governo de Saddam Hussein.
Seis anos e meio depois, voltam a fazer o mesmo na Líbia, exatamente com os mesmos resultados, pelo que será lícito concluir que talvez não se trate de uma “falha de planeamento”, mas que essa falha de planeamento faz parte do planeamento. Ela é mesmo a parte mais importante do planeamento (Dan Glazebrook, Divide and Ruin: The West’s Imperial Strategy in na Age of Crisis).
Agora, após a “descoberta” da CNN sobre escravatura na Líbia, a “linha oficial” justificativa é de que a escravatura sempre existiu, e que por isso se trata de um problema intemporal de direitos humanos, não sendo, portanto, um problema político com causas diretas na história recente. Os mais afoitos, atrevem-se a mencionar a instabilidade em que se vive como causa, mas sem referir a causa da instabilidade.
A tática utilizada pelos Macrons é muito característica desta época que nos dizem ser pós-humana: fazer tábua rasa de tudo o que aconteceu antes, por não ser importante (não se podia digitalizar) para a resolução dos problemas. O que lá vai, lá vai. Curiosamente, é também muito francesa, embora ao contrário. Enquanto Luís XV pressagiava, “Depois de mim, o dilúvio”, agora vem Macron dizer-nos, “Antes de mim, o dilúvio”.
Para os que diziam em 2011 que “se não destruirmos os carros de combate de Gaddafi, a Europa virá a ter que lidar com uma onda de refugiados e com uma nova geração de jidaístas…”, há que lhes lembrar que já bombardeámos os carros de combate de Gaddafi, e que afinal temos uma onda de refugiados e novas gerações de jidaístas, pelo que certamente teremos de concluir que “foi azar”, ou que “são coisas que acontecem”, ou então que escravos e refugiados caem do céu. Plano divino?
Antes e durante essas intervenções militares, os meios de comunicação saturavam-se (e saturavam-nos) com a utilização de conceitos como “intervenção”, “libertação”, “salvar o povo”, “responsabilidade de proteger os civis”, “humanitarismo”, “novo Hitler”. Acabada a intervenção, silêncio total: países atirados para o caixote do lixo, nem se olha para trás para tapar. Há que passar a “novo” não-assunto.
Pelo que esta crónica talvez já não tenha qualquer sentido. Como bem diz Macron, “é um problema dos africanos”. Longe já vai o “Je suis Charlie”!