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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(132) A "ciência da fé"

 

 Possivelmente tudo poderia ter sido diferente se Jesus Cristo tivesse escrito o Novo Testamento, e então, tal como para Moisés e Maomé, o seu texto viesse a ser aceite como transmissão divina, encorajando uma interpretação literal.

 

 “Não pensais que dizemos que estas coisas devem ser recebidas só pela fé, mas que também devem ser provadas pela razão. Não é seguro aceitar estas coisas baseado apenas na fé, pois certamente não existe a verdade sem a razão”, Clemente de Alexandria, século III.

 

A meditação, mesmo se feita ao longo dos séculos, nunca produzirá conhecimento empírico.

 

A ciência ocidental nasceu da crença entusiástica que a razão humana poderia desvendar os segredos da natureza.

 

 

 

 

Tudo começa porque o Deus cristão, considerado como ser consciente, racional, sobrenatural, com poderes ilimitados e que se preocupava com os seres humanos a quem impunha códigos morais e responsabilidades, levantava sérias e múltiplas questões intelectuais que urgia serem respondidas.

Punham-se assim um sem número de questões, desde as mais comuns que tinham que ver com a vivência diária, até às mais filosóficas que buscavam respostas para os problemas últimos. Nascemos já com alma? Porque nos é permitido pecar? Em que condições é permitido matar? Existe o mal? Para onde vamos depois de morrer? São estas e muitíssimas mais questões que vão ter de ser enfrentadas pelos pregadores cristãos através da utilização de argumentação apoiada e válida.

 

Já no século III, Clemente de Alexandria explicitara:

 

 “Não pensais que dizemos que estas coisas devem ser recebidas só pela fé, mas que também devem ser provadas pela razão. Não é seguro aceitar estas coisas baseado apenas na fé, pois certamente não existe a verdade sem a razão”.

 

Foi-se assim constituindo ao longo de muitos séculos, um corpo de estudiosos cristãos que vão consolidando um progresso sistemático através dos escolásticos medievais, reunidos e impulsionados pelas universidades, e que acabam por dar origem a uma escola de pensamento racional convincente, minucioso e dedutivo.

 Esses teólogos cristãos dedicaram séculos ao estudo racional e continuo da “ciência da fé”, ou seja, daquilo que Deus pretendeu comunicar através dos vários textos das Escrituras.

 

O exemplo mais elaborado foi São Tomás de Aquino (século XIII), que utiliza a razão como meio indispensável para o melhor conhecimento das intenções divinas: aí está para o confirmar a sua Suma Teológica, considerada o monumento à teologia da razão, composta por provas lógicas, seguidas e numeradas, da doutrina cristã.

Por isto, não é de estranhar que a teologia seja entendida como sendo o raciocínio formal sobre Deus, o que faz com que seja vulgarmente descrita como “a ciência da fé”.

A teologia é, pois, uma disciplina sofisticada e altamente racional, e que só se desenvolveu e atingiu a maturidade com o Cristianismo.

 

 

Rodney Stark, no seu livro The Victory of Reason, How Christianity Led to Freedom, Capitalism, and Western Success, quer ir mais longe, propondo-se demonstrar que a verdadeira ciência só apareceu uma única vez, e foi na Europa, e que o aparecimento da verdadeira ciência se ficou a dever ao cristianismo, à teologia cristã. Sigamo-lo na demonstração desta sua tese.

 

No Taoismo, o Tao é uma base mística, sobrenatural, um caminho eterno, força cósmica que produz harmonia e equilíbrio, um princípio gerador de vida, mas não é um ser. Será sempre possível meditar sobre essa essência, mas quase impossível raciocinar sobre ela.

 

Com o Budismo e Confucionismo, embora admitam deuses menores, não concebem Deus nenhum, ficando-se pela sugestão de uma essência divina: é negada a existência de um Deus consciente e omnipotente, como tal não se produz um estudo intelectual sobre ele. Daí que não haja teólogos no Oriente.

 

Já o Judaísmo e o Islamismo têm uma imagem de Deus que permitiria a existência de uma teologia, mas tal não se vem a verificar porquanto ambas estas religiões abordam as escrituras como voltadas para a “prática correta” (orto-prática), como uma lei a ser compreendida e aplicada, e não como uma base para a investigação sobre o sentido da vida.

 

No Cristianismo dá-se “maior ênfase na fé e na sua estrutura intelectual de crenças, catecismos e teologias”, sublinhando antes a “opinião correta” (ortodoxa).

 

No Judaísmo e no Islamismo a interpretação legal depende do precedente, estando, portanto, voltada para o passado, ao passo que no Cristianismo os esforços para melhor compreender a natureza divina contêm em si a possibilidade do progresso.

 

Possivelmente tudo poderia ter sido diferente se Jesus Cristo tivesse escrito o Novo Testamento, e então, tal como para Moisés e Maomé, o seu texto viesse a ser aceite como transmissão divina, encorajando uma interpretação literal.

Não sendo assim, os teólogos cristãos viram-se forçados a admitir a razão como princípio que poderia levar ao conhecimento cada vez mais correto da vontade divina.

Grande é, pois, a diferença para o Corão, que no segundo verso diz ser “a escritura sobre a qual não existe dúvida”.

 

Quando se concebe um universo como entidade misteriosa, imprevisível, inconsciente e arbitrária, então a meditação e as experiências místicas são as crenças religiosas que aparecem para o caminho da sabedoria.

 Só que a meditação, mesmo se feita ao longo dos séculos, nunca produzirá o conhecimento empírico. Contudo, “se a religião inspirar esforços para compreender a obra de Deus, é então possível chegar à sabedoria e, porque para compreender uma coisa é preciso explicá-la, a ciência desenvolve-se de mãos dadas com a teologia”.

 

A ciência ocidental nasceu da crença entusiástica que a razão humana poderia desvendar os segredos da natureza. Para Stark “o surgimento da ciência não foi uma evolução da sabedoria antiga. Foi a conclusão natural da doutrina cristã”.

 

Estas conclusões de Stark são fundamentais para percebermos a modernidade e sua ligação aos tempos atuais, independentemente de se ser ou não crente.

Não se trata de defender a Igreja, mas antes de repor parte da ‘verdade’ histórica através de uma visão alargada que deverá sempre ser utilizada na abordagem dos problemas, única forma possível para nos podermos situar em tempos de rápidas alterações sociais, políticas, morais.

Devemos tentar seguir o conselho que se dá para quem não quer enjoar ao andar de barco: evitar olhar para perto, olhar sempre para o horizonte longínquo!

 

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