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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(131) Torradas com margarina

Dada a sua origem, a margarina deveria ser considerada um símbolo de democracia, de inovação e de progresso.

 

Durante a guerra, “havia sempre um substituto para qualquer coisa”, pelo que apareceu “uma geração para a qual novecentos e cinquenta em cada mil têm uma total falha de qualquer senso qualitativo”, consequência de ter sido “criada à base de margarina e açúcar de mel”. Devido a essa dieta, não é de admirar que “prefira instintivamente produtos de segunda, quer na arte quer na vida”, Evelyn Waught, 1929.

 

“A margarina é um veículo de ‘racismo’ de classe”, Alysa Levene.

 

 

 

 

Uma das caraterísticas do nosso pensamento, quer seja filosófico ou científico, é aquela que nos permite retirar conclusões gerais que possam ser válidas para o universo, a partir de ilações de pequenas coisas particulares. Trata-se de passar do particular para o geral. Para que isso seja possível, é preciso estar-se atento, que é como quem diz, estar-se vivo. Viver é estar atento.

Vem isto a propósito de um artigo recente da professora de literatura da Universidade de Lund, Ellen Turner, “Margarine vs butter: how wat we spread on our toast became a weapon of class war” (Margarina x manteiga: como aquilo que pomos na nossa torrada pode ser uma arma na luta de classes).

 

Começa por nos dizer que a Unilever (a terceira maior produtora de alimentos untáveis do mundo, logo a seguir à Procter & Gamble e à Nestlé, com mais de 400 marcas incluindo a Dove, Omo, Becel/Flora, Hellmann’s, Knorr, Lipton, LUX, Magnum, Rexona) decidiu deixar de produzir as marcas de margarina Flora e Stork, por ter concluído que os consumidores preferem o artigo autêntico. Aliás, até a McDonalds diz estar a substituir a margarina por manteiga.

 

A margarina foi inventada em 1869 como resposta a um pedido do imperador Napoleão III para que se conseguisse arranjar um substituto da manteiga capaz de fazer face às carências que se estavam a verificar, impedindo que se pudesse alimentar a população crescente.

Juntamente com outros artigos processados em massa, a margarina faz parte daqueles produtos que enchem estômagos esfomeados com um certo valor nutritivo. Dada a sua origem, a margarina deveria, pois, ser considerada um símbolo de democracia, de inovação e de progresso.

 

Contudo, a margarina tem tido um percurso quase sempre visto com preconceito e soberba. Apesar do racionamento que ocorreu nas Guerras Mundiais que fez da margarina um produto de uso diário, usado por todas as classes, nunca conseguiu deixar de ser associada a “sentimentos de inferioridade e de pobreza”.

 

Já em 1890, Maria Corelli, a rainha dos ‘best sellers’ populares (vendia mais ela sozinha do que todos os seus contemporâneos juntos, Conan Doyle, H. G. Wells, e Rudyard Kipling), escrevia que “respeito” era o que se devia de ter para com aqueles que “sabiam a diferença entre a verdadeira manteiga e a manteigarina”.

 

Em 1923, D. H. Lawrence utilizava o termo margarina para indicar algo de segunda classe, assim se referindo à cidade de Sydney:

 

Esta Londres do hemisfério sul aparece como sendo feita em cinco minutos, como uma substituta para a coisa real, da mesma forma que a margarina é um substituto para a manteiga”.

 

George Orwell, em “Down and Out in Paris and London”, 1933, aponta o efeito que o consumo de margarina produzia no homem, quando diz que um homem que só coma pão e margarina “não é mais um homem, mas uma barriga com mais alguns órgãos acessórios”.

 

James Joyce, partilhava o mesmo sentir, quando escreve em Ulysses, 1922:

 

Batatas e margarina, margarina e batatas. Depois de a terem provado. Prova do pudim. Dá cabo da constituição”.

 

Em 1929, Evelyn Waught, escreve no The Spectator que a margarina representa a falta de bom gosto instalado após a guerra. É que durante a guerra, “havia sempre um substituto para qualquer coisa”, pelo que apareceu “uma geração para a qual novecentos e cinquenta em cada mil têm uma falta total de qualquer senso qualitativo”, consequência de ter sido “criada à base de margarina e açúcar de mel. Devido a essa dieta, não é de admirar que “prefira instintivamente produtos de segunda classe, quer na arte quer na vida”.

 

Na novela “Muder Must Advertise” de 1933, Dorothy L. Sayers, põe Lord Peter Wimsey, disfarçado de escritor numa agência de anúncios, a escrever para uma marca de margarina. Isto, porque a margarina necessitava de anúncios, uma vez que era vista como um produto de segunda classe, que o público necessitava de ser convencido a comprar. Já a manteiga, por outro lado vendia-se por ela própria:

 

Não se necessita de um argumento para comprar manteiga. É um instinto natural, humano”.

 

Mas Sayers, ao mesmo tempo que ironiza com os produtos de consumo da modernidade, também ridiculariza aqueles que se julgam superiores só por comerem manteiga em vez de margarina.

 

De certa maneira, a margarina representa tudo aquilo que seja novidade e inovação, tecnologia e progresso. Mas, ao mesmo tempo, traz consigo todas aquelas ansiedades sobre a preponderância da cultura de massas e o medo da dissolução das fronteiras entre os valores da classe alta e da baixa, do que é real e do que é falso.

É por isso que a margarina pode ser um símbolo ameaçador que representa o potencial de contaminação da sociedade, que as elites dos princípios do século XX viram como uma mediocridade infeciosa.

 

Como resume Alysa Levene, (The Meanings of Margarine in England: Class, Consumption and Material Culture from 1918 to 1953: Contemporary British History: Vol 28, Nº 2), “a margarina é um veículo de ‘racismo’ de classe”.

 

 

 

 

Para quem preferir uma visualização mais ligeira desta ambivalência da margarina, sugiro o filme de 2001, “Kate e Leopold”, de James Mangold, com Meg Ryan (Kate McKay) e Hugh Jackman (Leopold Mountbatten, o Sr. Margarina).

 

 

 

 

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