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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(122) "Cambada de comunistas!"

 

Atribuir os recentes acontecimentos ao caráter intempestivo do presidente Trump, é escamotear a realidade do sistema.

 

Esse é o sistema. Não foi Trump que o inventou. Nem é o único a aplicá-lo. Ele é o seu representante eleito.

 

Que legitimidade têm os ditos G20 para decidirem sobre todo o mundo?

 

“Dizem que somos comunistas, mas quem come nisto são eles”, Almeida Santos.

 

 

 

 

Esta é a história que se conta do exame sobre Expansão Portuguesa de um estudante de Coimbra, filho de boas famílias apoiantes do regime, no tempo em que o nosso inquestionável timoneiro Salazar acreditava controlar a economia desta nação valente e imortal. Reunidos os examinadores, sabendo que o aluno era particularmente conhecido por ser o maior cábula da academia, e tendo noção da importância familiar que o rodeava, entenderam facilitar-lhe a prova.

Assim, comunicaram ao aluno, perante o anfiteatro cheio, que lhe iriam fazer apenas três perguntas que julgavam muito simples, e que lhe possibilitariam a passagem à disciplina. E veio a primeira pergunta:

“Quem foi o descobridor da Madeira?”

Resposta pronta e sem hesitações do aluno:

“Foi Salazar.”

Perplexidade nos professores, que lhe recomendam calma. Segunda pergunta:

“Quem foi o descobridor do Brasil?”

De novo resposta sem hesitações:

“Foi Salazar.”

Novo espanto e incomodidade entre os professores, informando o aluno que só tinha mais uma tentativa. Terceira pergunta:

“Quem descobriu o caminho marítimo para a Índia?”

“Foi Salazar.”

Perante isto, o júri informou o aluno que, infelizmente, tinha de o chumbar pois tinha errado todas as respostas.

O aluno levantou-se, subiu as escadas do anfiteatro, dirigiu-se à porta de saída, abriu-a, voltou-se para o anfiteatro, e disse em voz alta:

“Cambada de comunistas!”

 

 

Vem isto a propósito das notícias que os nossos meios de comunicação social têm trazido ao nosso conhecimento sobre o presidente Trump, os seus tweets, as suas gafes, os seus filhos, o G20, as substituições constantes de pessoal. Como se Trump não fosse o presidente eleito dos EUA, como se não fizesse parte da mais abastada sociedade nova-iorquina, como se não saber comer com faca e garfo fosse uma mancha e não tivesse direito a utilizar as mensagens de telemóvel como sempre o fez.

 

Trazer para notícia o facto de a filha ter ocupado o seu lugar junto dos representantes do G20 e toda a história com fotografias (para mostrar que era mesmo verdade, ela estava mesmo sentada), e querer parecer com a notícia que se está perante um comportamento menos digno e correto, que os meios de comunicação social, sempre atentos como garantes da boa educação e liberdades nos devem alertar, é escamotear o facto que qualquer daquelas personagens ali presentes fazem parte (ou representam) dos 1% que mandam nas nossas vidas, e que, portanto, tanto faz serem uns como outros, dirão sempre o mesmo. São intercambiáveis.

O que ali dizem (se é que dizem) não passa de pequenos ajustes já previamente concertados para melhor nos enganarem, sendo acima de tudo uma forma de se pavonearem e se mostrarem como elite dominante, para aparecerem na nossa (deles) comunicação “sucial”.

 

Porque não se interessam antes em discutirem a legitimidade que têm os ditos G20 para decidirem sobre todo o mundo?

 Imaginem que o Porto, o Benfica e o Sporting, resolviam fazer uma reunião para decidir sobre o futebol em Portugal. Qual é a legitimidade que têm para decidir em nome dos milhares de clubes de futebol, desde os de esquina, até aos outros? Foram escolhidos? Foram eleitos? É sempre o velho “quero, posso e mando”, ou “manda quem pode” ou “quem pode manda. Chama-se a isso democracia participada com a participação dos mesmos de sempre (bem sei que mudam as caras).

 

Também muito comentado tem sido o facto de Trump ter despedido o diretor de comunicação, substituindo-o por outro que após dez dias foi também corrido e substituído por outro. Acontecimento lateral: a quando da substituição do primeiro, ambos (ele e Trump) se encontravam a bordo do avião presidencial: ou seja, Trump decide enviar um tweet a despedir alguém que vai no seu avião. Embarcou diretor, e a meio do voo foi despedido.

 

Fazer notícia destes factos como sendo insólitos, atribuir tal ao caráter intempestivo do presidente, é escamotear a realidade do sistema. Quem não se lembra da frase chave usada por Trump no seu célebre programa de televisão, onde semanalmente, para gaudio e aplauso dos espetadores, despedia pelo menos um dos participantes: “You are fired!

 Cereja sobre o topo do bolo para aquela sociedade anti sindicalista, que vê os órgãos de defesa dos trabalhadores como um entrave ao livre despedimento na hora e sem qualquer motivo que não seja o da vontade do empregador, onde se perseguem violentamente os trabalhadores sindicalizados, quer física quer psicologicamente, invocando deslocalizações que afetariam toda aquela sociedade, perca de regalias, substituição por outros “melhores” trabalhadores (mais baratos, mais humildes, menos reivindicativos). Mas o mesmo acontece também com os quadros superiores: são despedidos na hora, sem qualquer explicação.

O mundo das empresas é um mundo em que todos se guerreiam uns aos outros, sempre a ver quem fica com a maior parte. Daí a constante volatilidade das empresas sempre a serem liquidadas, ou absorvidas. Esse é o sistema. Não foi Trump que o inventou. Nem é o único a aplicá-lo. Ele é o seu representante eleito.

 

Quando nos deliciamos a ver as belas imagens que a televisão nos fornece durante a Volta à França em bicicleta, apreciando aquele número sem fim de castelos e palácios, nem sequer nos ocorre a exploração miserável que foi feita sobre a grande maioria do povo para que eles pudessem ter sido construídos.  E nem nos ocorre que talvez aí resida uma das razões porque tenha havido uma revolução, e que ela tivesse sido em França. Essa é a principal função da televisão: escamotear a realidade.

Essa é a razão porque diariamente têm programas sobre os mercados e índices bolsistas, que sobem, que baixam, numa algraviada com misturas de “credibilizadores” termos técnicos estrangeiros que cada vez mais ninguém entende, com projeções e explicações que tanto se podem verificar como não, e já desatualizadas para quem “joga” na bolsa.

 Sabem perfeitamente que tal não interessa a ninguém. Serve apenas para esconder a realidade dos grandes negócios que já foram feitos (não esperam pelas notícias da bolsa), mas, acima de tudo, para nos convencerem de que os mercados e a bolsa existem, são uma realidade, e mandam em nós: estão sempre vigilantes, e se não nos portarmos bem, eles vão-se embora. 

 

E, já agora, falemos da Altice, e do perigo que ela representa. Não o facto de deslocalizar com intenção de despedir trabalhadores, mas do perigo encapotado das empresas que a coberto da copra de empresas de comunicação, o que pretendem é o controle dos conteúdos, que é o objetivo final deste tipo de empresas. Se já agora quando abrimos a televisão, os canais generalistas estão quase sempre a dar as mesmas notícias às mesmas horas, imaginem o que será quando aparecer uma empresa que controle e distribua as “notícias” para todos os órgãos de comunicação, incluindo jornais e rádios.

E, o que é que isto tem que ver com o Trump?

Remeto-vos para o excelente site abaixo, onde John Oliver fala exatamente sobre isso nos EUA:

 

(https://www.yahoo.com/news/john-oliver-exposes-wing-media-090555327.html)

 

Talvez fiquem agora mais claras as razões porque Trump foi eleito.

 

Fica, contudo, a pergunta: porque é que, sendo os meios de comunicação sociais portugueses (e não só) maioritariamente de direita, apresentam sempre Trump como sendo inapto, instável, incorreto, incompetente? “Gatos escondidos com rabo de fora”, lobos cobertos com pele de cordeiro.

 

 

 Recordo sempre uma frase de Almeida Santos numa reunião de apoio à oposição:

 

“Dizem que nós somos comunistas, mas quem come nisto são eles”.

 

 

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