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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(120) Regresso ao Paraíso

 

Então cada um abriu os olhos e viram que estavam nus (Génesis, 3, 7).

 

“Limpe, por favor, a sua mesa de trabalho. O seu empregador insiste em que não deve haver qualquer material escrito que possa ser consultado enquanto estiver a fazer o exame.”

 

“Primeiro vai ter que me mostrar a cama e tirar os lençóis para nos assegurar que não existe nenhum material escrito escondido.”

 

Desempregados e despidos de tudo, eis o regresso ao paraíso.

 

 

 

 

Vários e diferentes são os relatos e explicações sobre a vida no Paraíso, sobre o fruto que a Eva deu a comer ao Adão, e principalmente, sobre as consequências dessa degustação.

Ao que parece, viviam tranquilamente no Paraíso, sem se darem conta que estavam nus. Segundo os teólogos, embora admitam que antes da queda, Adão e Eva não tivessem qualquer vestuário, não consideram que por isso estivessem nus, porque estavam cobertos com um “traje de luz”, o vestuário da Graça que lhes fora concedida. E foi o pecado que os fez perder esse vestuário sobrenatural.

 Adiante.

Só após Adão, contrariando as ordens de Deus, ter comido o tal fruto da árvore proibida, a árvore do conhecimento do bem e do mal, é que perceberam que estavam nus.

No dizer da serpente:

 

 “No dia em que o comerem, os vossos olhos abrir-se-ão, e passarão a ser como os deuses, conhecendo o bem e o mal”, Genesis, 3, 5).

 

Comeram o fruto, e:

 

Então cada um abriu os olhos e viram que estavam nus” (Génesis, 3, 7).

 

Aparentemente, o conhecimento do bem e do mal estaria apenas relacionado com a nudez.

 

 

 

 Eis o que aconteceu a Shivan Kaul, aluno do último ano de engenharia de computaçãp na McGill University de Montreal, Canadá, quando recentemente decidiu procurar emprego na área de software na Amazon (http://shivankaul.com/blog/2016/12/07/clean-your-desk-yet-another-amazon-interview-experience.html).

 

A empresa pediu-lhe para se sujeitar a um teste afim de se aperceberem sobre as suas capacidades. O teste seria feito remotamente online, através da aplicação ProctorU. Assim que Kaul se ligou para iniciar o teste, verificou com surpresa que o proctor tomara conta do seu computador:

 

Logo de início, fez-me descarregar algum software, para me permitir poder iniciar uma conversa com o proctor, e que lhe deu acesso e controle a todo o meu computador, incluindo o rato. Depois, o proctor fechou todas as minhas aplicações, alterando todas as minhas especificações por forma a eu não poder tirar fotos, apoderando-se ainda da câmara e do microfone”.

 

Notando que estavam papeis na mesa de trabalho, o proctor pediu a Kaul para limpar a mesa de trabalho, porque a Amazon não permitia o uso de qualquer material escrito durante o exame:

 

 “Clean your desk, please. Your institution (Amazon) has mandated that there cannot be any written material next yo you while you take the exam.” (“Limpe, por favor, a sua mesa de trabalho. A Amazon insiste em que não deve haver qualquer material escrito que possa ser consultado enquanto estiver a fazer o exame”).

 

 

 Quando Kaul disse que levaria algum tempo a retirar toda a papelada até a mesa de trabalho ficar limpa, sugerindo em alternativa que o teste fosse feito no seu quarto, sentado na cama, o proctor disse-lhe que sim, mas que primeiro teria que ver o quarto, a cama e os lençóis, por cima e por baixo, para que não houvesse escondido qualquer material escrito:

 

Yes, but first you have to show me the bed and remove the sheets to make sure no written material is hidden underneath. Also, you cannot have acess to a pen or paper. Please also keep your cellphone far behind you, where I can see it.” (“Primeiro vai ter que me mostrar a sua cama e tirar os lençóis para nos assegurar que não existe nenhum material escrito escondido. Não pode também ter acesso a qualquer caneta ou papel. Mantenha também por favor o seu telemóvel afastado de si, de forma a podermos vê-lo”).

 

 

Foi-lhe também pedido para mostrar uma vista de 360 graus do quarto e para mostrar o chão, mas afastando a cadeira em que estava sentado:

 

Please show your floor, no sir, you need to get up from your chair and push it away and then show.” (“Por favor mostre-nos o chão; para isso tem de se levantar da sua cadeira, empurrá-la para longe, e só depois mostrar o châo”).

 

Só depois foi autorizado a iniciar o teste, não sem antes lhe ter sido comunicado que só podia ir uma vez à casa de banho por cinco minutos, após acabar o primeiro teste.

 

 

O ProctorU apareceu em 2009 e é hoje utilizado por mais de um milhar de instituições, fazendo  milhões de testes por ano, com especial aplicação no campo do ensino online, nos exames finais, nos testes de pedidos de emprego para empresas, ou para a obtenção de novas certificações com vista a promoções.

Faz já hoje parte dos procedimentos tidos como normais, a ter em conta para quem quiser candidatar-se a um emprego, a uma escola, ou até à obtenção da carta de condução, o dar-se acesso total do nosso computador e da nossa casa (e, como tal, da nossa vida privada) a um qualquer estranho e a uma qualquer empresa. Standard Procedures.

 

 

E, estranhamente, já ninguém acha estranho. E, até dizem ser “inevitável” para quem quiser arranjar emprego. Neutralidade, indiferença, desinteresse, amorfismo, necessidade?

Despimo-nos de tudo (fazem-nos despir de tudo) por um emprego. E julgamos que não somos iguais às prostitutas porque estamos cobertos pelo vestuário da Graça. Só que não percebemos que, afinal, tal não se aplica apenas às prostitutas: nisso, pelo menos, esta é uma sociedade democrática e igual para todos. Para todos os que precisem de emprego. Strip sem ser tease.

 

 

Felizmente que quando aparecerem os computadores e se fizer a globalização, tudo isto deixará de acontecer: passaremos a trabalhar menos e a ter mais horas disponíveis para o lazer. Finalmente virá a felicidade de se estar desempregado. Pelo menos foi o que nos disseram.

 

 

Desempregados e despidos de tudo, eis o regresso ao paraíso.  As voltas que o mundo dá. Nunca Deus julgou possível que fosse através de um sistema económico que voltasse a ter o Paraíso cheio. Coitados dos 1% que se esforçaram tanto por nos colocar nesta situação. Quando poderão eles, os filhos e as filhas, terem também acesso ao Paraíso?

 

Mas há outra explicação possível: os 1% serem Deus. Sem os conseguirmos compreender (a nossa razão não tem a profundidade e grandeza suficientes para os entender), teremos de acreditar (uma questão de fé) que querem para nós o melhor possível, pois eles passam o seu tempo a procurarem soluções que não nos prejudiquem.

O paraíso é deles, o inferno é nosso, mas, por uma estranha manipulação levaram-nos a acreditar que este nosso inferno é o melhor paraíso possível. Sigamo-los devotamente, entoando hinos e todos nus. Vai bonita a festa, pá!

 

 

 

 

 

 

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