Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

12 de junho: o dia dos Loving.

 

Deus Todo Poderoso criou as raças branca, preta, amarela e vermelha, e colocou-as em continentes separados. Exatamente por isso é que não pode haver casamentos inter-raciais. O facto de Ele ter separado as raças mostra que Ele não tinha qualquer intenção para que as raças se misturassem”, Tribunal de Caroline, Virgínia, 1964.

 

As leis de segregação racial eram racistas e apenas existiam para perpetuarem a supremacia branca, segundo Supremo Tribunal dos EUA, 1967.

 

As transformações sociais duram o que duram, muitas perdem-se, outras alteram-se.

 

 

 

É convicção generalizada que, por vezes, há pequenas ações, individuais ou não, que dão origem a grandes transformações. Se estivéssemos no campo da genética, diria que nos estávamos a referir a mutações. Neste caso específico, por se passar no campo do social, acontece que até sabemos a data exata em que se produziu: 12 de junho de 1958.

 

Apesar de ser fevereiro de 1958, o dia não estava tão frio como seria de esperar, especialmente em Central Point, condado de Carolina, Virgínia.  No alpendre da casa dos pais, Mildred Delores Jeter, apenas tapada com uma manta, diz ao seu namorado, Richard Perry Loving, que está grávida. Ele põe-lhe o braço à volta das costas, e aconchega-a: “Está tudo bem. Ótimo.”

Nascidos na mesma terra, sempre se tinham conhecido, infância e adolescência. Não era condição para se enamorarem, mas aconteceu. E assim ia transcorrendo a vida de cada um.

Ele, trabalhava como pedreiro, muito embora o que gostasse era de ser mecânico de automóveis de arranque (dragsters), que conduzia em algumas provas. Ela, trabalhava como mulher a dias. Tinha acabado o liceu, tinha carta de condução, mas o que verdadeiramente gostava era de tratar da casa, cozinhar e costurar.

Eram pobres, mas quem não era pobre em Central Point? O importante era que se amavam, e iam formar uma família. Formavam um bonito casal multicolorido: ele branco, ela preta.

 

Como o casamento inter-racial estava proibido na Virgínia, o que aliás acontecia em 16 Estados do Sul, decidiram fazer a viagem de cento e sessenta quilómetros até Washington, Estado de Columbia, onde em junho de 1958 casaram, numa singela cerimónia.

De regresso a Central Point, encaixilharam a certidão de casamento e penduraram-na à entrada do quarto, na casa dos pais de Mildred onde viviam.

 

Devido a uma denúncia anónima, a polícia invadiu a casa durante a noite, esperando encontrá-los a fazerem sexo, o que era proibido por lei. Só que eles estavam na cama, a dormir. Acordada, Mildred ainda apontou para a certidão de casamento, ao que a polícia lhe disse que não era válida naquele Estado.  

Foram levados para a esquadra, onde permaneceram na prisão até serem presentes a julgamento no tribunal de Caroline. Com base no Racial Integrity Act de 1924, segundo o qual o casamento entre raças diferentes era considerado crime, foram condenados a um ano de prisão efetiva, pena que poderiam não cumprir se se divorciassem ou se abandonassem o Estado da Virgínia durante vinte e cinco anos.

Os Loving declaram-se então culpados por “coabitarem como marido e mulher, contra a paz e dignidade do Estado”, e foram viver para o Estado de Columbia para evitar ficarem presos.

 

Durante seis anos tentaram aí levar uma vida normal. Arranjaram emprego, tiveram filhos: o amor sempre os manteve unidos. Mas não gostavam de Washington: as saudades do seu Sul, dos campos abertos, estavam sempre presentes.  Mildred, afligia-se sempre que via os filhos a brincarem na rua, entre os carros que passavam. Além disso, sempre que tinham de vir ao sul para estarem com a família, tinham de a fazer separados quer a viajem, quer a visita.

 

Frustrada com isso, com o isolamento social em que viviam, e com a não resposta a um recurso sobre a situação injusta em que se encontravam e que, entretanto, interpusera em tribunal, Mildred resolve em 1964 escrever uma carta de protesto ao Procurador Geral dos EUA, Robert Kennedy, que a envia para a ACLU (American Civil Liberties Union).

Dois advogados iniciam então um processo que os vai conduzir até ao Supremo Tribunal. Após quase um ano de espera, no primeiro tribunal de Virgínia onde colocaram o pedido, obtêm uma sentença negativa, onde se pode ler:

 

Deus Todo Poderoso criou as raças branca, preta, amarela e vermelha, e colocou-as em continentes separados. Exatamente por isso é que não pode haver casamentos inter-raciais. O facto de Ele ter separado as raças mostra que Ele não tinha qualquer intenção para que as raças se misturassem.”

 

Da sentença, recorreram para o Supremo do Estado de Virgínia, onde também não obtiveram acolhimento.

 

Entretanto, os Loving decidem voltar a viver na Virgínia, e instalam-se numa pequena casa alugada em Coraline. É ali, que em 1966, albergam Grey Villet, que lhes pretendia tirar fotografias para mostrar aos americanos como é que eles vivam, a sua quotidianidade, a sua simplicidade. A publicação dessas fotos na revista Life (março, 1966) correu toda a América.

 

Restava apenas o recurso para o Supremo Tribunal dos EUA.

E finalmente a 12 de junho 1967, o juiz Earl Warren dá a conhecer a sentença, que determinou, por unanimidade, que a proibição de contrair matrimónio entre pessoas brancas e de cor (outra cor, evidentemente) era inconstitucional:

 

O casamento é um dos direitos civis básicos humanos, fundamentais para a nossa existência e sobrevivência […] Negar esta liberdade fundamental numa base tão insuportável como o da classificação racial, classificações que só por si subvertem o princípio da igualdade presente no âmago da Décima Quarta Emenda, é seguramente privar de liberdade sem julgamento todos os cidadãos dos Estados. A Décima Quarta Emenda exige que a liberdade de escolha para contrair matrimónio não possa ser restringida por qualquer critério de descriminação racial. Pela nossa Constituição, a liberdade para casar, ou para não casar, com uma pessoa de outra raça depende apenas do indivíduo e tal não lhe pode ser retirado pelo Estado.

 

E, conclui que as leis de segregação racial eram racistas e apenas existiam para perpetuar a supremacia branca, como se pode ler no extrato da sentença exarada no processo do Supremo Tribunal, Loving X Virgínia (http://www.encyclopediavirginia.org/Loving_v_Virginia_June_12_1967).

 

Os Loving, não querendo ser o centro das atenções, até porque o que pretendiam era verem resolvida a sua situação, não compareceram no tribunal. Richard Loving disse a um dos advogados que os foi representar que apenas informasse o Tribunal que “ele amava a sua mulher, e que não era justo que não pudesse viver com ela na Virgínia”.

 

Desde então, o dia 12 de junho é comemorado todos os anos e, apesar de não ser feriado é talvez uma das maiores celebrações inter-raciais americanas. Chamam-lhe, Loving Day.

 

Mildred Delores Loving (nascida Jeter; 22 julho 1939-2 maio 2008), afro-americana, e Richard Perry Loving (29 outubro 193329 junho 1975), branco.

Richard Loving morreu com 41 anos em 1975, quando um condutor bêbado chocou contra o seu carro, em Caroline, Virgínia. Mildred Loving, que ficou cega de um olho nesse acidente, morreu com 68 anos de pneumonia, a 2 de maio de 2008, em Milford, Virgínia. Tiveram três filhos.

 

Apesar da decisão do Tribunal, as leis contra os casamentos inter-raciais mantiveram-se nas legislações de vários estados, embora não pudessem ser aplicadas. O Alabama foi o último estado a abolir essas leis, só as eliminando quando, no ano 2000, um referendo pediu maioritariamente (60%) a sua retirada da constituição do Estado.

 

Tudo isto vem a propósito de um filme que faz parte da lista dos escolhidos este ano para os Óscares e que tem passado despercebido. Uma escolha que aparece como que deslocada, obrigatoriamente envergonhada e que conta esta história americana.

O filme chama-se Loving, e foi realizado em 2016 por Jeff Nichols, tendo como atores Joel Edgerton e Ruth Negga.

 

Aditamento, a ter em atenção: na genética, as mutações nem sempre são irreversíveis, e nem sempre são para sempre. Tal como com as transformações sociais, que duram o que duram, muitas perdem-se, outras alteram-se.

 

 

 

Mais sobre mim

foto do autor

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Arquivo

  1. 2024
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2023
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2022
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2021
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2020
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2019
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2018
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2017
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2016
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2015
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub