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Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

Os Tempos em que Vivemos

Um olhar, uma tentativa de compreensão sobre algumas coisas que são vida.

(119) Bonitinhos, limpinhos e bonzinhos

 

Nas nossas sociedades atuais, o período de gravidez passou em uma geração, de nove meses para quarenta anos, bolsas marsupiais de onde só saímos, a contragosto, muito tarde.

 

“Somos a favor de fazer as pessoas felizes, mas somos neutrais quando se trata de fazer felizes pessoas”, J. Narveson.

 

As razões em que se apoiam as nossas ações são essencialmente de dois tipos, conforme se dirijam a uma pessoa específica (ou grupo de pessoas conhecidas), ou se dirijam a outras quaisquer pessoas (ou grupo de pessoas) que nada nos digam e que até podem ainda nem existirem no tempo.

 

Haverá alguma diferença moral entre o prevenir o Zika congénito em certos bebés pelo ‘controle dos mosquitos’, ou em protelar o nascimento de bebés por forma a não terem congenitamente Zika através do ‘controle de natalidade’?

 

 

 

 

 

A maior parte da nossa moralidade e das nossas leis, giram à volta do conceito de que as ações que praticarmos, sejam elas quais forem, não devem magoar, ou ocasionar danos, a outra pessoa. Ou seja, não devemos colocar a outra pessoa numa posição pior do que aquela em que viria a estar se a nossa ação não tivesse sido feita.

 

Parece, por isso, importante tentarmos compreender as razões que se encontram por detrás das nossas ações e nas quais nos apoiamos para avaliar da sua ‘moralidade’. Foi o que fez o filósofo inglês, Derek Parfit (1942-2017), na sua obra Reasons and Persons (1984).

 

 Segundo ele, essas razões em que se apoiam as nossas ações são essencialmente de dois tipos, conforme se dirijam a uma pessoa específica (ou grupo de pessoas conhecidas), ou se dirijam a outras quaisquer pessoas (ou grupo de pessoas) que nada nos digam e que até podem ainda nem existirem no tempo.

 As do primeiro tipo, vai Parfit nomeá-las como sendo as que “afetam diretamente outra pessoa específica” (“person-affecting”, PA), para o melhor ou para o pior; as do segundo tipo, constituirão as razões ditas “impessoais”, que não são dirigidas a uma pessoa específica.

 

 

É moralmente errada a escolha da Joana?

 

Embora os pais lhe facilitassem o acesso ao controle de natalidade e a aconselhassem, Joana, uma rapariga de 14 anos, que namorava com o consentimento dos pais um rapaz da mesma idade, decidiu engravidar. Os pais ficaram totalmente horrorizados quando ela lhes comunicou a decisão, e tentaram dissuadi-la, invocando entre outros, os factos de tal limitar o acesso à sua própria educação e à dificuldade de emprego. Se ela esperasse até ter mais idade, poderia inclusivamente dar um melhor início de vida à criança. Não estaria ela a fazer mal à criança ao engravidar já tão cedo? Mas a Joana insistiu e deu à luz uma menina, a Anabela.

Pode a escolha da Joana ser considerada moralmente errada?

Responda: Sim/Não”.

 

 

Na questão apresentada, a ação de Joana ao não querer atrasar a gravidez, não iria, na realidade, afetar qualquer pessoa específica do presente. Não existia, assim, nenhuma razão moral do tipo PA que pudesse levar Joana a atrasar a gravidez,

Mas, se considerarmos a decisão da Joana à luz das razões “impessoais”, então essa decisão poderá ser considerada errada, porque a criança que estaria para nascer iria defrontar-se com piores perspetivas de futuro que a criança que viesse a nascer mais tarde.

Para clarificar melhor estes conceitos, Parfitt vai utilizar um exemplo sobre políticas alternativas de gestão dos recursos naturais.

 

 

Políticas de “esgotamento” x políticas de “conservação”

 

Imagine que um país vai ter de escolher entre duas políticas sobre o modo como administrar os seus limitados recursos naturais para os próximos 200 anos.

A primeira política (Conservacionismo) pretende gerir a utilização dos recursos de forma a que eles durem o mais possível. No curto prazo, isso significará uma certa austeridade, na medida em que a qualidade da vida das pessoas do país não será tão boa como poderia ter sido. No longo prazo, a qualidade da vida das pessoas do país acabará por melhorar.

A segunda política (Esgotamento) pretende utilizar todas os recursos existentes, sem impor qualquer austeridade. Nos próximos 200 anos, os padrões médios de qualidade de vida das pessoas melhorarão rapidamente. Contudo, após todos os recursos terem sido esgotados, o padrão médio de qualidade de vida, cairá abruptamente por muito tempo.

 

Se nos importarmos apenas com a possibilidade de as decisões que tomamos agora possam afetar, direta e imediatamente, pessoas específicas à nossa volta, estaremos a utilizar o conceito de moralidade que é mais tradicional e familiar: é mau magoar seja quem for, e é bom beneficiá-las. Neste caso, as razões morais por detrás destas atuações têm que ver com a “afetação direta de outra pessoa específica” (“person-affecting”).

Mas, se pensamos sobre as coisas que virão a afetar as pessoas no futuro, utilizamos outro tipo de moralidade, a “impessoal”: seria bom que no futuro as pessoas tivessem vidas felizes, e seria mau se as suas vidas fossem miseráveis.

 

Contudo, na realidade, nem sempre as coisas são assim tão simples.

Por qual razão moral decidiríamos se existissem circunstâncias especiais em que pudéssemos ou beneficiar pessoas específicas ou afetar pessoas que viessem a existir no futuro?

 

 

O Zika, controle de mosquitos x controle de natalidade

 

O recente caso do vírus Zika põe exatamente este tipo de dilema. Há apenas duas opções: ou tentar controlar os mosquitos (inseticida, locais de nidificação, repelentes, redes mosquiteiras), ou encorajar o controle de natalidade.

O ‘controle dos mosquitos’ permite que durante a fertilização que levará à conceção de um Manelinho este não seja infetado pelo Zika, beneficiando pessoas específicas.

Com o ‘controle de natalidade’, perante o risco do Zika, a gravidez é adiada; quando se vier a dar a fertilização, será concebido um Zequinha que nascerá sem Zika. O benefício da contraceção é, neste caso, impessoal.

 

Haverá alguma diferença moral entre o prevenir o Zika congénito em certos bebés pelo controle dos mosquitos, e o protelar o nascimento de bebés por forma a não terem congenitamente Zika através do controle de natalidade?

 

Os filósofos dividem-se: uns creem que a moralidade tem apenas que ver com as ações que conduzam a melhorar ou piorar a vida de pessoas específicas, como preconiza Jan Narveson (Utilitarism and the New Generations) quando escreve que “somos a favor de fazer as pessoas felizes, mas neutros sobre o fazer felizes pessoas”.

Outros, onde se inscreve Parfit, dizem que moralmente, não há qualquer diferença entre os dois procedimentos, pois o importante é evitar os efeitos da doença nos recém-nascidos, devendo utilizar-se o procedimento que se revelar mais efetivo.

 

Os governos também se dividem sobre as políticas a aplicar: Colômbia, Equador, Jamaica e Brasil, aconselharam as mulheres em idade reprodutiva a atrasarem a gravidez. Salvador, recomendou às mulheres para atrasarem a gravidez por dois anos.

Os EUA contribuíram com 1,1 biliões de dólares para a pesquisa médica e controle dos mosquitos, desde que esses fundos não fossem utilizados para o controle de natalidade.

 

 

Para além das decisões que se foram tomando nestes e noutros casos semelhantes, há aqui um problema muito interessante, e que passa normalmente desapercebido. É que em qualquer dos casos, o seguimento de uma ou outra dessas políticas, devido ao impacto que terão na forma como as pessoas viverão as suas vidas, acabará sempre por vir a alterar e influenciar a altura da conceção, e consequentemente, a identidade das pessoas ao longo de várias gerações que se lhe seguirão.

 

As sociedades futuras daí resultantes, serão constituídas por pessoas completamente diferentes das que teriam se essas políticas (quaisquer que fossem) não tivessem sido seguidas.

As pessoas que seguirem as recomendações para se evitar o Zika, terão filhos diferentes daqueles que normalmente teriam. Mesmo as que optarem pelo controle dos mosquitos: o tempo que utilizarem para usar o repelente de insetos, ou a alteração do caminho de regresso a casa para evitarem áreas de concentração de fumigação dos mosquitos, podem ser suficientes para alterarem a identidade dos bebes a nascerem brevemente.Até para os mesmos casais, em vez de Manelinhos teriam Zequinhas. E, só isso fará toda a diferença.

 E o mesmo para as pessoas que viverem numa sociedade de ‘esgotamento’, que acabarão por serem completamente diferentes das pessoas que viverem numa sociedade de ‘conservação’.

 

 

Será errado escolher-se uma política de esgotamento?

 

“Imagine que um país vai ter de escolher entre duas políticas sobre o modo como administrar os seus limitados recursos naturais para os próximos 200 anos.

A primeira política (Conservacionismo) pretende gerir a utilização dos recursos de forma a que eles durem o mais possível. No curto prazo, isso significará uma certa austeridade, na medida em que a qualidade da vida das pessoas do país não será tão boa como poderia ter sido. No longo prazo, a qualidade da vida das pessoas do país acabará por melhorar.

A segunda política (Esgotamento) pretende utilizar todas os recursos existentes, sem impor qualquer austeridade. Nos próximos 200 anos, os padrões médios de qualidade de vida das pessoas melhorarão rapidamente. Contudo, após todos os recursos terem sido esgotados, o padrão médio de qualidade de vida, cairá abruptamente por muito tempo.

Mas, a decisão que tomarmos, terá outros efeitos.  Cada uma das políticas mudará o decorrer da vida dos próprios indivíduos, que acabarão por encontrarem outras pessoas. Isso afetará aqueles com quem se encontrarem, bem como os filhos que tiverem. Até dentro dos mesmos casamentos, os filhos que tiverem nascerão em alturas diferentes, pelo que serão também pessoas diferentes.

Os efeitos das decisões políticas que tomarmos serão tão grandes que após 200 anos, as populações do país serão também diferentes.

Pensa que será errado escolher uma política de Esgotamento?

 

Responda: Sim/Não/ Isso dependerá em quanto o Esgotamento iria beneficiar as pessoas nos próximos 200 anos e em quanto tornaria má a vida das pessoas depois disso.”

 

 

 

As preocupações dos pais e das sociedades, sempre com as perspetivas bem-intencionadas de dar o melhor dos mundos aos seus filhos, sempre à espera de melhores condições em que eles possam viver, vão, não só alterar a vida dos pais, como a das pessoas com quem se relacionam, e especialmente a vida dos filhos.

Os filhos que nascerem, crescerão num ambiente muito mais seguro, serão muito mais apoiados, mais livres de doenças e contágios, sempre muito mais amparados pelos pais na sua tentativa de lhes dar o máximo de proteção. São superprotegidos. Menos irmãos, menos lutas, menos preocupações, menor interação com a sociedade.

Daí que vivam em bolsas marsupiais de onde só saem, muito a contragosto, cada vez mais tarde. Daí que se verifique que nas nossas sociedades atuais, o período de gravidez tenha passado em uma geração, de nove meses para quarenta anos.

 

Devido às “escolhas” que foram sendo feitas (ou “impostas”), os “Brutti, sporchi e catttivi (Feios, porcos e maus)”, vão sendo substituídos por Bonitinhos, limpinhos e bonzinhos, e em que rapidamente  passarão a aceitar e pactuar com o sistema, exatamente por serem bonzinhos. Nada de lutas. Talvez seja esta a única maneira que têm para conseguirem sobreviver na sociedade que os formou e enformou. Mas isso vai fazer toda a diferença.

 

 

Conta-se que Parfitt, já nos seus últimos dias de vida, quando acordava da sedação tentava prosseguir febrilmente com o seu trabalho de escrita e ensino. Inclusivamente, ia discutindo com um aluno que o visitava, a tese que este preparava para o exame. Uma enfermeira, notando a grande quantidade de visitas que ele recebia, exclamou:

 “Jesus Cristo teve apenas 12 discípulos – mas olhe para você! Deve ser uma pessoa muito importante. O que é que você faz?

 

Eu trabalho”, disse Parfit com um sorriso, “em coisas que interessam.”

 

 

 

 

ANEXO: Artigo na Medical Examiner sobre os filhos dos “pais-helicóptero” (aqueles que costumamos chamar, numa sociedade ainda com bastantes raízes ligadas à terra, de “pais-galinha”, mas que para a sociedade militarizada americana são melhor reconhecidos por “pais-helicóptero” porque pairam permanentemente sobre os filhos)

http://www.slate.com/articles/health_and_science/medical_examiner/2013/12/millennial_narcissism_helicopter_parents_are_college_students_bigger_problem.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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